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EuPTCVAg0871-018X2015000100009

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolLife Sciences
Great areaAgricultural Sciences
ISSN0871-018X
Year2015
Issue0001
Article number00009

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Estaquia e concentração de reguladores vegetais no enraizamento de Campomanesia adamantium

Introdução Os frutos nativos do Cerrado apresentam sabores especiais, com elevados teores de açúcares, proteínas, vitaminas, minerais e fibras, possuindo grande aceitação popular (Campos et al., 2012). Perspectivas promissoras para exploração de frutos tropicais não tradicionais devem-se aos níveis consideráveis de vitamina C, antocianinas, carotenoides e compostos fenólicos, além da capacidade antioxidante destes frutos (Rufino et al., 2010).

As espécies de Campomanesia (Myrtaceae), popularmente chamadas de guavira ou gabiroba, são espécies nativas brasileiras mais comuns na região Centro-Oeste, sendo encontradas as espécies: Campomanesia sessiliflora(O. Berg) Mattos, Campomanesia xanthocarpaO. Berg e Campomanesia adamantium (Cambess) O. Berg.

São plantas pouco exigentes quanto ao tipo de solo e algumas delas crescem naturalmente em solos pobres em nutrientes. A Campomanesia adamantium (Myrtaceae) é encontrada nos estados de Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul e, em alguns casos, ultrapassa os limites do Brasil para alcançar as terras do Uruguai, Argentina e Paraguai (Lorenzi et al., 2006).

As folhas e os frutos deste género possuem algumas propriedades medicinais comprovadas (Rodrigues e Carvalho, 2001). Os frutos possuem sabor sui generise são ótimos alimentos por apresentarem baixo teor energético, devido à reduzida concentração de macronutrientes, especialmente lipídios, e contém bons conteúdos de cálcio, zinco, ferro e fibras (Silva et al., 2008). Podem ser consumidos in natura, sendo considerados muito saborosos, suculentos, ácidos e levemente adocicados. Na indústria de alimentos podem ser utilizados como flavorizantes na indústria de bebidas, na fabricação de licores, sumos, doces e sorvetes (Piva, 2002; Freitas et al., 2008).

No entanto, as espécies nativas geralmente apresentam heterogeneidade no processo de maturação dos frutos e as sementes possuem algum tipo de dormência e muitas são recalcitrantes, o que compromete a formação de mudas em escala comercial (Melchior et al., 2006; Dousseau et al., 2011). A desflorestação e o extrativismo predatório causam perdas de materiais genéticos de características desejáveis, que podem colocar em risco real a sobrevivência de algumas espécies (Luis, 2008).

A propagação das espécies via sementes resulta em mudas desuniformes e sujeitas à baixa qualidade em virtude da variabilidade genética, o que pode ser prejudicial à produtividade dos plantios (Dias et al., 2012). Por outro lado, as técnicas de propagação vegetativa, e, dentre elas a estaquia, constituem uma alternativa de superação das dificuldades na propagação de espécies nativas, podendo ser utilizadas para fins comerciais, assim como auxiliar no resgate e conservação de recursos genéticos florestais (Bandeira et al., 2007; Xavier et al., 2009). O uso da estaquia na formação de mudas poderá garantir a antecipação do período reprodutivo, que é uma vantagem da propagação vegetativa, e contribuir para a exploração económica da gabirobeira. Além disso, a propagação proporciona a manutenção das características da planta- matriz nos descendentes, assegurando a formação de pomares comerciais homogéneos, facilitando a gestão da plantação (Sasso et al., 2010).

Dentre os principais fatores envolvidos no enraizamento de estacas, destacam-se a ocorrência de injúrias; o balanço hormonal; a constituição genética da planta matriz; o nível endógeno de inibidores; as condições nutricionais e hídricas da planta doadora de propágulos (Alfenas et al., 2009; Xavier et al., 2009); a maturação/juvenilidade dos propágulos; a época do ano de colheita; fatores abióticos (temperatura, luz, humidade); o uso de reguladores de crescimento e a qualidade do substrato (Xavier et al., 2009).

As auxinas são normalmente consideradas as principais substâncias promotoras do enraizamento adventício, principalmente para espécies que apresentam dificuldade em enraizar. Dentre as auxinas, a mais utilizada para essa finalidade e que tem apresentado melhores resultados para a maioria das espécies é o ácido indol-3-butírico (AIB) (Cunha et al., 2008; Valmorbida et al., 2008).

Diante do exposto, o trabalho teve como objetivos avaliar diferentes épocas de enraizamento de estacas, tipos de estacas, reguladores vegetais e concentrações na indução do enraizamento de estacas de gabiroba.

Material e Métodos A condução do estudo ocorreu em estufa localizada na Regional Jataí/ Universidade Federal de Goiás (UFG), no município de Jataí, GO, a 17º 52' 53? de latitude Sul e 51º 42' 52? de longitude Oeste e 696 metros de altitude, com temperatura média anual entre 23 e 26 ºC e uma precipitação média anual variando de 1650 a 1800 mm.

O ensaio foi montado a partir de plantas matrizes georreferenciadas presentes no 41ª Batalhão de Infantaria Motorizado (41°BIMtz) no município de Jataí, GO.

Estacas herbáceas (apicais) e lenhosas (medianas) foram retiradas com 20 cm de comprimento, cortadas em bisel na base e reto no ápice, mantendo-se um par de folhas com a área reduzida pela metade. Em seguida, as estacas receberam os seguintes tratamentos com AIB (Ácido Indol Butírico) ou AIA (Ácido Indol Acético): as bases das estacas foram imersas antes da plantação por 10 segundos em solução aquosa contendo AIB ou AIA em duas concentrações (1000 e 2000 mg L- 1). Para o tratamento testemunha, as bases das estacas ficaram imersas em água por 10 segundos. A plantação foi efetuada em tubetes de prolipropileno com capacidade de 53 cm3 contendo substrato comercial Plantmax Florestal®.

As estacas ficaram em nebulização intermitente, e o tempo de nebulização foi de 10 seg a cada intervalo de 5 minutos, sendo determinado de modo a manter uma fina camada de água sobre a superfície das folhas no momento de maior evapotranspiração, sem causar escorrimento. Após 30 dias, as estacas receberam adubação consistindo em 10g de sulfato de amónio em 20 L de água.

O delineamento experimental utilizado foi o inteiramente casualizado, em esquema fatorial 2x2x3 (2 tipos de estacas, 2 tipos de reguladores e 3 concentrações), com quatro repetições e dez estacas por unidade experimental.

Os ensaios foram montados em três épocas distintas (dezembro de 2012, fevereiro e maio de 2013). As estacas foram avaliadas a cada 7 dias a partir da emergência do primeiro gomo, e aos 50 dias, foram analisadas as seguintes variáveis: percentagem de enraizamento, percentagem de abrolhamento, percentagem de estacas mortas e número de gomos. Para testar a homogeneidade das médias utilizou-se o teste de Bartlett e para a comparação de médias, os dados foram submetidos ao Teste de Duncan a 5% de probabilidade. Para a análise dos dados foi utilizado o programa estatístico SISVAR® (Ferreira, 2011).

Resultados e discussão A partir dos dados do estaqueamento feito no mês de dezembro com estacas herbáceas, observou-se que o tratamento 2000 mg L-1 AIA foi o que obteve maior percentagem de enraizamento e a menor percentagem de estacas mortas, sendo superior aos demais tratamentos estudados. Para o tratamento com 2000 mg L- 1 AIB não houve enraizamento de estacas. Para as características percentagem de abrolhamento e número de gomos/estaca não foram constatadas diferenças significativas entre os tratamentos estudados (Quadro_1).

Ocorreu baixa percentagem de abrolhamento e também de número de gomos. A percentagem de enraizamento variou de 2,5 a 20%, sendo superior aos resultados apresentados por Sasso (2009), propagando a jabuticabeira açú por estacas herbáceas, que obteve percentagem de enraizamento em torno de 7,1%. Segundo o autor este fato pode estar relacionado com a menor concentração de reservas da planta matriz, uma vez que as colheitas coincidiram com o término da frutificação.

Com estacas lenhosas colhidas e estaqueadas em dezembro (Quadro_2), verificou- se que a testemunha apresentou maior percentagem de enraizamento, maior percentagem de abrolhamento e menor percentual de estacas mortas, sendo superior aos demais tratamentos. Quanto ao número de gomos/estaca não houve diferença entre os tratamentos.

Em todos os tratamentos foram observados abrolhamentos, no entanto, também foi verificado que o sucesso na propagação está relacionado com a capacidade de emissão de raízes pelas estacas, fato este observado somente nos tratamentos Testemunha e 2000 mg L-1de AIB. Tofanelli et al. (2003), em pessegueiro, verificaram uma máxima percentagem de enraizamento em imersão lenta de 3,0% e imersão rápida de 9,0%.

Com estacas herbáceas colhidas e estaqueadas em fevereiro (Quadro_3), observou- se que o tratamento 1000 mg L-1 de AIA foi o que apresentou maior percentagem média de enraizamento. Não houve diferença entre os tratamentos para a percentagem de abrolhamento e o número de gomos/estaca.

para as estacas lenhosas colhidas e estaqueadas em fevereiro (Quadro_4) houve aumento substancial na percentagem de enraizamento, abrolhamento e número de gomos/estaca, e observou-se uma pequena redução na percentagem de estacas mortas. Os tratamentos com AIA foram superiores aos demais quanto à percentagem de enraizamento. Esta percentagem variou de 15 a 30%, sendo superior aos resultados apresentados por Cassol et al. (2009), para jabuticabeira, onde a percentagem média de estacas enraizadas não foi superior a 3% dentre todos os tratamentos estudados. Não houve diferença entre os tratamentos testemunha, 1000 mg L-1 AIA, e 2000 mg L-1 AIB para a percentagem de abrolhamento. O número de gomos foi inferior para o tratamento 2000 mg L-1 AIA, e para os demais não houve diferenças entre os tratamentos. Especificamente, para estacas lenhosas colhidas em fevereiro, pode ter havido uma mudança do balanço hormonal endógeno de citocianinas e auxinas. Segundo Antunes et al. (1996), o abrolhamento antes do enraizamento é prejudicial à formação de raízes nas estacas, devido ao consumo de reservas. Consequentemente o menor enraizamento levou a uma maior percentagem de estacas mortas.

Com estacas herbáceas colhidas e estaqueadas em maio (Quadro_5), observou-se que para a percentagem de abrolhamento e número de gomos/estaca não houve diferença entre os tratamentos estudados. Nessa época, o tratamento com 1000 mg L-1 de AIB apresentou maior percentagem de enraizamento (15%), seguido pela testemunha com 10% e pelos demais tratamentos sem diferença entre eles. O tratamento com 1000 mg L-1 de AIB apresentou também menor percentual de estacas mortas (72,5%), que diferenciou-se dos demais. Franzon et al. (2004), em goiabeira-serrana, obtiveram 14,99% de estacas sobreviventes e 8,33% de estacas abrolhadas.

Para as estacas lenhosas colhidas e estaqueadas em maio (Quadro_6), observou-se os melhores resultados das três épocas. Para a percentagem de abrolhamento e número de gomos/estaca não houve diferença entre os tratamentos. A maior percentagem de enraizamento (57,5%) e a menor percentagem de estacas mortas (32,5%) foram observadas na testemunha que foi superior aos demais tratamentos, provavelmente pela disponibilidade de hormona endógena suficiente para o enraizamento (Wareig, 1982). A menor percentagem de enraizamento e a maior percentagem de estacas mortas com 27,5 e 55%, respectivamente, foram encontradas no tratamento 2000 mg L-1 de AIB. Em todos os tratamentos foram observados maior quantidade de gomos/estaca e de percentagem de enraizamento.

a percentagem de estacas mortas foi reduzida nesta colheita em todos os tratamentos. A formação de raízes em estacas lenhosas pode ser atribuída à maior disponibilidade de substâncias nutritivas, pois a auxina pode influenciar na acumulação basal de açúcares junto aos locais de desenvolvimento radicular como descrito por Wareig (1982).

O aumento da dose de auxina exógena aplicada em estacas provoca efeito estimulante de raízes até um valor máximo, a partir do qual qualquer acréscimo de auxinas tem efeito inibitório (Fachinello et al., 2005). Norberto et al.

(2001) trabalharam com épocas de estaquia e aplicação de AIB (100 mg L-1) no enraizamento de estacas de figueira (basal e mediana) e notaram que, para todas épocas de estaquia testadas (abril, maio, junho, julho e agosto), houve aumento da percentagem de estacas enraizadas com o uso de AIB. Nota-se também o diferencial das concentrações deste trabalho em função das espécies utilizadas.

A época de colheita influenciou no enraizamento e na capacidade de abrolhamento de estacas de gabiroba. Os dados da primeira colheita (dezembro) foram inferiores, e isto pode ser explicado em parte pelo fato da colheita ter sido realizada após o período de frutificação, época de menor concentração de reservas na planta matriz.

Segundo Dutra e Kersten (1996), a influência da época de estaquia no enraizamento de estacas ocorre por causa das variações no conteúdo dos co- fatores na formação e na acumulação de inibidores do enraizamento. De acordo com Zuffellato-Ribas e Rodrigues (2001), em estacas herbáceas retiradas no verão, os ramos estão em pleno crescimento e apresentam maiores doses de auxinas em relação àquelas que são retiradas no outono e inverno (semilenhosas e lenhosas). O potencial de enraizamento pode ter sido também influenciado pelas condições climáticas, sendo a temperatura um dos elementos mais importantes do clima. O enraizamento de estacas envolve divisões mitóticas com gasto de energia que tem origem em inúmeras reações químicas cuja velocidade e eficiência dependem da temperatura.

Na comparação de estacas lenhosas com herbáceas em gabiroba, observou-se que estacas lenhosas possuem maior percentagem de enraizamento e de abrolhamento, maior número de gomos/estaca e menor percentagem de estacas mortas. Isto provavelmente se deve à maior disponibilidade de nutrientes em estacas mais linhificadas, fazendo com que as estacas se mantenham vivas.

Conclusões Nas condições em que foi realizado o ensaio, pode-se concluir que: (i) estacas lenhosas de gabiroba são mais aptas a serem usadas na propagação vegetativa da espécie quando comparadas com estacas herbáceas; (ii) a época de colheita influencia o enraizamento e o abrolhamento das estacas de gabiroba, destacando- se assim o mês de maio como a melhor época; e (iii) a indução hormonal varia em eficiência de acordo com a época de colheita, sendo mais eficaz o tratamento de 1000 mg L-1 de AIA.


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