Ensinar e aprender à distância: Utilização de ferramentas de comunicação on-
line no ensino universitário
INTRODUÇÃO
A possibilidade de utilizar tecnologias informáticas e da internet no ensino
universitário veio trazer novas possibilidades na forma como se ensina e
aprende. Às ferramentas de ensino tradicionais, como o quadro preto e o
projetor, somam-se as ferramentas digitais, em particular as que utilizam a
internet.
A Universidade do Porto e as novas tecnologias
A Universidade do Porto tem apostado no uso de novas tecnologias no ensino e
mantem, desde 2001, um gabinete de incentivo e apoio pedagógico e técnico aos
docentes que queiram utilizar as tecnologias de informação e comunicação
(GATIUP). Tem sido com o apoio do GATIUP, que, desde o ano letivo 2001/2002,
foram colocados on-line[2] os conteúdos das várias unidades curriculares (UCs).
Inicialmente, a plataforma de e-learning[3] era usada apenas para colocação de
documentos e afixação de avisos, em ambiente Web1.0, na mesma lógica que antes
se entregava um exemplar na reprografia do departamento para ser fotocopiado. O
uso da plataforma, em ambiente Web1.0, permitiu uma melhor gestão do acesso dos
estudantes aos documentos, a disponibilização de diferentes materiais como
fotografias e animações e a colocação de notícias e avisos sobre funcionamento
da UC (Aguiar, 2003). Foram usadas as plataformas WebCT e WebCTVista e foram
produzidos diversos materiais de que se destacam as animações em flash que
explicam o ciclo de vida da traça da uva. Essas animações têm sido usadas em
diversos contextos como aulas no ensino superior, incluindo a Universidade
Católica Portuguesa, a Universidade Nacional de Timor Lorosae em Dili (Aguiar,
2004) e a Universidade do Pacífico Sul em Apia, Samoa em 2011, assim como,
palestras, cursos e sites de divulgação técnica, como é o caso do INFOVINI.
O ambiente Web1.0 permitiu não só alargar os espaços de ensino mas também a
apresentação da informação em novos formatos (ex: animações, multimédia, jogos
de aprendizagem e filmes).
Além de ser uma fonte aparentemente inesgotável de conteúdos, a internet é,
cada vez mais, uma forma de interagir e comunicar, num ambiente Web2.0.
Ambientes na internet, Web1.0 e Web2.0
No ambiente Web2.0, a própria rede é a plataforma que abarca todos os
dispositivos conectados e inclui o fornecimento de software como serviço
continuamente atualizado, o consumo e remistura de dados de várias fontes e a
criação de uma arquitetura de participação (Lim et al., 2010). Este ambiente
abriu novas possibilidades na comunicação e é atualmente muito utilizado em
contatos informais entre jovens para conversas do dia-a-dia. As novas
ferramentas de comunicação (nomeadamente o chat[4] e o forum[5]) e as redes
sociais na internet criaram uma nova literacia e uma nova forma de interagir.
Em Web2.0 há uma relação entre pares que se traduz na formação de redes sociais
através de ferramentas como blogues, chateforum. Tudo funciona com palavras-
chave. A informação está num qualquer lugar do mundo e é acedida em rede
através de jogos (wikis) ou espaços virtuais (facebook) (Quadro_1).
Aulas teóricas presenciais no ensino universitário
As aulas teóricas no ensino universitário são essencialmente expositivas, o
professor fala em monólogo e os estudantes assumem uma atitude passiva; toda a
responsabilidade da aula é acometida ao professor. Isto está de acordo com
Limniou e Smith (2010) quando referem que o professor apresenta o material
previamente preparado, não havendo motivação para a participação ativa dos
estudantes, e com McShane (2010) quando afirma que o professor é ator que
controla cada minuto da aula. Merchant (2007) refere a existência de uma
descontinuidade entre professores, estudantes, seus ambientes de trabalho e o
que a tecnologia proporciona. Os estudantes não estão treinados a debater
ideias ou emitir opinião e consideram que a aula é apenas da responsabilidade
do professor.
Novas literacias
Os recursos disponibilizados através da internet são cada vez mais e de mais
fácil acesso, sendo essa pesquisa prática frequente para situações do dia-a-dia
e para realização de trabalhos académicos.
Sendo ainda pouco usadas no ensino, nomeadamente no ensino formal, Merchant
(2007) propôs que o mundo virtual fosse integrado nas rotinas de ensino formal,
situação que já está a acontecer. Há um capital digital cada vez mais
importante na educação avançada e no mundo profissional, que pode constituir um
conjunto de competências diferenciadoras para a entrada no mercado de trabalho.
Os jovens de hoje usam a internet para aceder a conteúdos e para entrar nas
redes sociais. Esses conteúdos são fornecidos em diferentes tipologias desde os
ambientes restritos na plataforma de ensino, por subscrição individual ou
institucional ou de livre acesso. As redes sociais são canais da internet para
conversas informais, que os jovens usam sem restrições de conteúdo ou
linguagem, pelo que se trata de um espaço onde interagem e debatem ideias
(Ronda, 2009), situação muito diferente da que vivenciam nas aulas.
Objetivos
Com este estudo pretende-se adquirir experiência no uso de ferramentas de
comunicação on-lineem contexto de ensino formal universitário e atingir os
seguintes objetivos:
i) Testar o chat como ferramenta didática que permita criar debates;
ii) Testar o forum de discussão como espaço para desenvolver, nos estudantes, o
espírito crítico e dar-lhes oportunidade de o praticar, criticando os trabalhos
dos colegas e recebendo críticas dos colegas;
iii) Criar, através do espaço virtual, um ambiente de sala de aula em que os
estudantes se sintam parte responsável pelo que acontece na UC.
MATERIAL E MÉTODOS
Aulas em chat
As experiências de aulas em chat síncrono aconteceram no ano letivo 2010/2011
nas UCs Bases de Proteção das Culturas, Agricultura Biológica,
Fruticultura e Proteção das Culturas, da Faculdade de Ciências da
Universidade do Porto (UP) e na UC Proteção Avançada das Culturas (Advanced
Pest Management), da Faculdade de Agronomia da Universidade do Pacífico Sul
(USP)[6].
Nas UCs da UP, na primeira aula de cada UC (aula presencial), foi proposto aos
estudantes substituir algumas das aulas presenciais por aulas de debate à
distância. Tendo tido a aceitação dos estudantes, o calendário foi definido,
intercalando aulas presenciais (teóricas e/ou práticas) e aulas à distância (em
chat). Na Universidade do Pacífico Sul, as aulas em chat ocorreram na terceira
semana da UC, após duas semanas de aulas presenciais.
As aulas em chat aconteceram no espaço de chat da página da UC no moodle[7], à
qual tinham acesso apenas os estudantes e professores dessa UC. Cada aula
começou à hora prevista (conforme horário definido), sendo que cada estudante
podia estar onde quisesse desde que tivesse uma boa ligação à internet. À hora
certa, professoras e estudantes iam entrando no chat, dizendo bom dia, como
fariam na aula presencial.
Em cada aula em chat, após uma pequena introdução de enquadramento da aula, a
professora lançou o primeiro tema a que se seguiu um debate. Os vários temas
foram-se sucedendo, conforme preparado, e a aula decorreu no horário previsto.
No final de cada aula, foi pedido aos estudantes que respondessem a um pequeno
questionário de avaliação sobre o interesse das aulas em chat.
Forum de discussão
As experiências de utilização de forum de discussão assíncrono aconteceram, no
ano 2010/2011, nas UCs Bases de Proteção das Culturas e Agricultura Biológica.
Em cada UC, foi proposto que o estudante realizasse um trabalho académico de
revisão bibliográfica segundo temas dados. Cada trabalho foi disponibilizado
on-line, na página da UC, sendo o título do trabalho o título do tópico para o
forum. Assim, foi criado um forum de discussão com tantos tópicos quantos os
trabalhos.
A cada estudante foi pedido que lesse e comentasse os trabalhos dos colegas e
respondesse, em tempo útil, aos comentários/questões dos colegas.
A professora comentou os diferentes trabalhos e acompanhou o debate sem o
dominar. O forum esteve aberto, de forma assíncrona e continuada durante 3
semanas, permitindo que perguntas e respostas fossem fundamentadas,
estruturadas e bem redigidas.
Considera-se a experiência de Granberg (2010), quando usa o blog on-line para
criar um espaço em que os estudantes se envolvam num diálogo reflexivo durante
algum tempo, ficando as suas contribuições registadas.
Considera-se, ainda, a experiência de Oliveira (2009) que, ao criar, para a UC
de Farmacologia da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto,uma base de
dados de perguntas mais frequentes (FAQs) on-line, apercebeu-se da atitude de
colaboração dos estudantes muito diferente da que geralmente têm nas aulas.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Aulas em chat
Participação na aula
As aulas em chat decorreram, com início e fim às horas marcadas, e ao ritmo que
a professora imprimiu e os estudantes acompanharam. Os estudantes mantiveram-se
ativos e participaram intensa e interessadamente. Esta situação (pontualidade e
participação ativa) verificou-se em todas as aulas em chat e revela o
empenhamento dos estudantes (Figura_1).
Usou-se o chat como um meio pedagógico e não como um fim em si, tal como
fizeram Mercer et al. (2010) ao usar o quadro interativo. Pretendeu-se usar uma
forma de comunicar que fosse fácil para os estudantes e escolheu-se o chat do
moodle. De acordo com Madge et al. (2009), os jovens de hoje usam o espaço do
facebook para conversas informais, marcação de encontros, partilha de
acontecimentos e eventos, e criação de uma rede social, mas não o usam em
situações de estudo, debates académicos ou trabalho. Nenhum dos estudantes
deste estudo tinha experiência de utilização de chat em contexto de ensino
formal.
Ao usar a sala de chat da página da UC no moodle, mostrou-se que seria uma
sessão diferente das que têm no facebook. Os estudantes interiorizaram a
mensagem e acompanharam a aula com seriedade e empenhamento, não deixando
contudo de mostrar o desembaraço que o treino desta tecnologia lhes
proporciona. A rapidez de resposta, associada ao uso de abreviaturas e siglas
reconhecidas pela comunidade utente de chat, revela uma prática do uso desta
ferramenta; a maior parte dos estudantes são muito rápidos a escrever, sem
dúvida mais rápidos que a professora; esta prática permitiu que as aulas fossem
dinâmicas e muito participadas. A experiência com um grupo de estudantes com
uma experiência de vida e vivência cultural muito diferente, como são os
estudantes da Universidade do Pacifico Sul, permitiu ir mais longe nesta
análise. Os estudantes de Agronomia da USP são provenientes dos vários países
da região asiática que integram a Universidade. Durante o tempo letivo ficam
instalados no Campus Universitário em Apia, capital de Samoa, onde têm livre
acesso à internet. Contudo, dado não haver internet nas suas aldeias e vilas,
estes jovens raramente usavam o chat como meio de comunicar. A falta de treino
no uso de chat foi notória na dificuldade em acompanhar conversas rápidas e no
cuidado em escrever bem.
Na UP, o número médio de posts[9] por aluno e por aula variou entre 26 e 89
(Quadro_2). O estudante que menos participou colocou apenas 7 postsnuma aula de
Fruticultura e o que mais participou colocou 116. O modelo de aulas em
chatexige que os estudantes participem (senão a aula não acontece), situação
diferente da aula presencial. A experiência evidenciou que o número de
estudantes para o chat deve ser cerca de 10.
Relações sociais
As redes sociais da internet proporcionam relações sociais com características
próprias e a sua utilização no ensino, em ambiente Web2.0, tem sido comentada
por diversos autores.
Segundo Chapman et al. (2008), uma forte comunidade on-line ajuda os estudantes
a sentirem-se ligados e dá, a cada um, a sensação de pertença. São relações que
não devem ser ignoradas (Enriquez, 2010). Ainda segundo Chapman et al. (2008),
os ambientes on-line com comportamentos imediatos (resposta rápida, discussão
síncrona) podem aumentar o grau de pertença, essencial para o sucesso das
discussões e quantidade de posts. O sentimento de pertença social é um elemento
chave numa comunidade on-line e no processo de colaboração, ambiente
característico de Web2.0. É uma situação muito diferente das primeiras
plataformas de ensino através da internet (ambiente Web1.0), em que o trabalho
individual e isolado criava distância e dificultava o relacionamento pessoal.
As relações sociais que se estabelecem mediadas por computador não ficam
confinadas a esse espaço virtual e facilmente desencadeiam outras relações
(Enriquez, 2010). São hoje frequentes os eventos sociais presenciais que
tiveram origem em redes sociais na internet. Os jovens de hoje sabem fazer esta
articulação entre o espaço social virtual e o presencial. No espaço virtual,
onde a socialização não tem peso geracional, os participantes aceitam integrar
comunidades com elementos muito diferentes, situação distinta do relacionamento
presencial.
Neste estudo, as aulas on-line foram intercaladas com aulas presenciais,
permitindo assim continuar conversas e discussões iniciadas à distância: foram
experiências em sistema b-learning[10]. Nas UCs da UP, a cada aula em
chatsucedeu-se sempre a aula presencial. Os temas debatidos no chat foram
naturalmente, e intencionalmente, retomados, permitindo que estudantes com mais
facilidade de comunicação presencial contribuíssem mais plenamente.
Na USP, professoras e estudantes estavam no mesmo Campus. O intervalo,
necessário para relaxar, foi um tempo de encontro e conversa. No primeiro
embate, ao chegar cá fora, os risos e sorrisos foram reveladores da conivência
que se estabelece ao usar meios de comunicar diferentes. O debate continuou ali
fora; para alguns era mais fácil debater presencialmente, para outros mais
difícil, para a professora o intervalo serviu para perceber que era preciso dar
mais tempo; havia ideias que não estavam a ser totalmente exploradas, havia
estudantes que não acompanhavam o chat rápido. A distância cultural e vivencial
entre professora e estudantes não tinha permitido perceber, no chat, sinais de
desfasamento e cansaço de alguns estudantes. O intervalo serviu para aferir, da
mesma forma que as aulas presenciais intercaladas nas UCs da UP serviram para
aferir e complementar o chat.
Maior facilidade de debate
No questionário de avaliação do interesse do uso do chat em substituição das
aulas presenciais, os estudantes referiram a maior facilidade de debate em
ambiente chat: no chat colocamos mais dúvidas que na aula presencial, os
alunos falam mais, no chat expressei a minha opinião muito mais do que
conseguiria fazer na aula, ( ) sem medo dos comentários dos colegas[11],
tenho mais oportunidade de expressar a minha opinião e confrontá-la e posso
expressar as minhas ideias sem medo de estar errado.
Na aula presencial, os estudantes estão socializados para ouvir e tomar
apontamentos, enquanto em chat, a experiência que esses mesmos jovens têm é de
um espaço em que se pode estar à vontade para expressar a opinião. A diferente
socialização nos dois espaços (aula presencial e chat) explica a maior
facilidade em debater e emitir a opinião em chat. Um estudante diz é mais
interessante quando há discussão e menos quando são aulas explicativas.
Capital digital
Através da internet tem-se acesso a um número quase ilimitado de conteúdos. Os
estudantes estão habituados a usar esses recursos, mas nem sempre têm o
necessário espirito crítico. Ensinar os estudantes a ter poder crítico para
selecionar os documentos que interessam e ter critérios de análise da sua
fiabilidade são desafios que se colocam hoje aos professores.
Também as universidades, na sua vocação produtora de conteúdos de qualidade,
contribuem para este aumento da informação e são cada vez mais os materiais
acessíveis através da internet. No questionário, um dos estudantes diz que a
aula em chat é uma oportunidade de visualizar vídeos que estão na internet.
Alguns estudantes queixam-se da velocidade com que as aulas decorreram a
rapidez do formato nem sempre permite discussões aprofundadas, não há tempo
para preparar uma resposta, são todos a falar ao mesmo tempo. Esta situação
deverá ser corrigida, sabendo contudo que a aula mais lenta é, para alguns, um
convite à distração, aproveitando os tempos mortos para outras atividades.
A atitude de participação dos estudantes é explicada pela afirmação estou mais
à vontade para falar via chat; contudo alguns estudantes afirmam preferir as
aulas presenciais; uma estudante da USP disse ( ) na aula presencial cria-se
um ambiente mais agradável[12]
Forum de discussão
No forum de discussão foram debatidos todos os trabalhos dos estudantes, tendo
sido colocadas questões interessantes desencadeadoras de respostas
interessantes.
Verificou-se que a participação foi intensa (entre 44 e 256 acessos) e que o
número de intervenções foi quase sempre igual ao número de acessos do
estudante, o que mostra a intenção de participar (Quadro_3). O facto de ser
assíncrono, e durante bastante tempo, permitiu a necessária serenidade na
elaboração das respostas (Figura_2).
Os debates foram sérios e duros: os trabalhos foram lidos pelos colegas que
fizeram perguntas objetivas que exigiram que o autor do trabalho elaborasse
resposta clara, elucidativa e fundamentada.
CONCLUSÕES
As experiências didáticas de utilização de ferramentas de ensino à distância no
ensino universitário, realizadas no ano letivo 2010/2011, e relatadas nesta
comunicação, mostraram que a utilização das tecnologias de ensino à distância
no ensino formal universitário é possível e permite atingir objetivos
pedagógicos e didáticos não conseguidos em situação presencial. Deste trabalho,
conclui-se que:
i) O chat, forma de comunicação síncrona através da internet, usado na
plataforma de ensino, é uma ferramenta didática passível de ser usada, com
vantagens pedagógicas, no ensino formal universitário em sistema de b-learning,
em que as aulas à distância são intercaladas com aulas presenciais.
ii) O forum de discussão assíncrono, através da internet, usado em ambiente
restrito na plataforma de ensino com estudantes universitários, permite criar
oportunidades de debate de ideias e crítica interpares com grande participação
dos estudantes e bons resultados pedagógicos.
iii) No espaço de sala de aula virtual que é o chat, os estudantes sentem-se
corresponsáveis pelo desenrolar da aula, atitude muito diferente da que
geralmente têm na aula presencial.
Além destes aspetos, este trabalho permitiu, aos docentes e discentes
envolvidos, ganhar experiência no uso de ferramentas de comunicação on-line.