Gestão de efluentes nas explorações leiteiras do Entre Douro e Minho
Gestão de efluentes nas explorações leiteiras do Entre Douro e Minho
INTRODUÇÃO
As condições naturais do território, a concentração de serviços de apoio
técnico e o forte sector cooperativo de representação e organização da
actividade leiteira, contribuíram para a actual dimensão económica das
explorações de pecuária leiteira (EPL) na região NW de Portugal. Nesta região,
os fenómenos de peri-urbanização favoreceram a visibilidade dos impactos
ambientais e paisagísticos da actividade leiteira e a conflituosidade social a
nível local. As águas subterrâneas, particularmente em zonas arenosas do
litoral Norte de Portugal, enfrentam hoje riscos de contaminação crescente de
nitratos com origem no chorume e nos fertilizantes minerais. O excesso de N
nesta bacia leiteira reflecte-se, também, na qualidade do ar. Entre os
compostos voláteis causadores de odores desagradáveis destacam-se o amoníaco e
outros gases azotados que contribuem para o aumento do efeito de estufa (Amon
et al., 2001; Hao e Chang, 2001). Por estas razões, as pressões externas: i)
das políticas e mercados agrícolas; ii) das directivas de protecção ambiental e
bem-estar animal; iii) da qualidade e segurança alimentar; iv) e, em
particular, da conservação e valorização dos recursos e funções ambientais do
solo, da água e do ar, limitam a sustentabilidade destas explorações.
A dimensão e o nível de especialização da exploração leiteira influenciam as
práticas de gestão dos efluentes. Na Dinamarca, por exemplo, as explorações de
menor dimensão recorrem aos estrumes sólidos, enquanto as de grande dimensão
utilizam chorume (Happe et al., 2011). Na região de Entre Douro-e-Minho (EDM),
tal como em Espanha (Merino et al., 2011), muitas explorações com menos de 20
CN encerraram a produção na última década, passando a gestão de efluentes a
realizar-se quase exclusivamente através do chorume. Nesta região, as
explorações possuem um efectivo leiteiro médio de 50 cabeças normais (CN), o
qual é inferior à média de países como o Reino Unido, Dinamarca, Irlanda ou
Norte da Alemanha (Kristensen et al., 2005). No entanto, o encabeçamento por
unidade de superfície agrícola é muito superior no EDM.
De acordo com o projecto europeu do programa Interreg III, GREEN DAIRY -
"Sistemas Leiteiros Sustentáveis e Amigos do Ambiente no Espaço Atlântico", que
envolveu as regiões do NW Portugal, Galiza, País Basco, Aquitânia, País do
Loire, Bretanha, SW de Inglaterra, Irlanda, Irlanda do Norte e Escócia, as
explorações da bacia leiteira do EDM são das mais intensivas no conjunto das
dez bacias leiteiras do Arco Atlântico envolvidas no projecto. No entanto,
ainda que os excessos nos balanços e riscos de perdas de nutrientes sejam os
mais elevados, se considerados por unidade de superfície das explorações (ha),
as perdas por litro de leite produzido são das mais baixas das regiões
leiteiras atlânticas (Fangueiro et al., 2008). Mesmo assim, é necessário
alterar o grau de intensificação pecuária nesta região, designadamente
estabelecendo limites para o encabeçamento, tal como acontece em muitos países
europeus (Milne, 2005). Contudo, a regulamentação e as decisões dos produtores,
têm que se basear numa caracterização detalhada do sector.
Este estudo teve como objectivo principal a caracterização da gestão dos
efluentes nas explorações agro-pecuárias da Bacia Leiteira Primária de EDM
(Barcelos, Esposende, Maia, Matosinhos, Póvoa de Varzim, Santo Tirso, Trofa,
Viana do Castelo, Vila do Conde e Vila Nova de Famalicão), com base em
inquéritos realizados a 1860 produtores, para servir como instrumento sectorial
de apoio à decisão no âmbito da gestão da actividade pecuária leiteira neste
território. Como a gestão de efluentes é fundamental para o desenvolvimento de
soluções efectivas que minimizem os problemas ambientais decorrentes da
actividade leiteira intensiva e, apesar de não terem sido objecto de
quantificação neste estudo, sugerem-se, com base em estudos referidos na
literatura, medidas mitigadoras da poluição ambiental provocada por esta
actividade que podem ser aplicadas na produção leiteira do EDM.
MATERIAL E MÉTODOS
No âmbito do projecto: "Plano de ordenamento da bacia leiteira primária do
Entre-Douro-e-Minho", da Acção 5.3.2 do PO AGRIS, recolheram-se indicadores
sobre as EPL durante os anos de 2005 e 2006, designadamente, sobre a produção,
a gestão e o sistema de tratamento de efluentes pecuários. Realizaram-se
inquéritos a 1860 produtores leiteiros, os quais, foram efectuados
presencialmente por técnicos da Direcção Regional de Agricultura de EDM. Neste
artigo, analisam-se alguns destes resultados, numa lógica de diferenciação
espacial e de comparação com referenciais técnicos e legais. De acordo com o
Decreto-Lei n.º 202/2005 de 24 de Novembro, que estabelece o regime jurídico do
licenciamento das explorações de bovinos, considerou-se uma CN equivalente a um
bovino com mais de 24 meses de idade, que produz um volume de efluente diário
de 45 litros de fezes e urina acrescido de 5 litros de águas brancas, um bovino
entre os 6 e 24 meses de idade equivale a 0,6 CN e um bovino até 6 meses de
idade a 0,2 CN. Os resultados referentes à capacidade de armazenamento de
efluentes foram comparados com a capacidade mínima para as explorações de
bovinos abrangidos por aquele regime jurídico, designadamente: i) ≥ 7 m3 por
CN, para explorações dotadas apenas de armazenagem e, ii) ≥ 6 m3 por CN, para
explorações com sistema de separação da fracção sólida do chorume.
A quantidade de N nos efluentes (chorume e águas brancas) das EPL foi calculada
com base na composição média de 2,8 kg N/m3 de efluente, de acordo com o
Decreto-Lei acima referido. Destaque-se que os valores referidos neste Decreto-
Lei, para a composição de N do efluente e para a produção diária de efluente,
são inferiores aos reportados por Trindade (2007) para bovinos de elevada
produtividade. A relação entre a quantidade de N no efluente e a superfície
agrícola útil (SAU) da exploração, onde o efluente é geralmente aplicado, foi
comparada com a dose máxima de 170 kg N/ha estabelecida no Código das Boas
Práticas Agrícolas (CBPA) para a protecção da água contra a poluição com
nitratos de origem agrícola (MADRP, 1997) e com a dose máxima de efluente
permitida para o licenciamento das explorações de bovinos de 336 kg N/ha,
quando existam duas culturas anuais de regadio.
O transporte dos dados para um ambiente de informação geográfica (ArcGIS)
indexados aos pontos correspondentes à base física das explorações, permitiu
gerar indicadores submetidos a processos de interpolação espacial e análise de
superfícies. As cartas de distribuição do efectivo pecuário, de capacidade de
armazenamento de efluente e de aplicação de N ao solo através do efluente,
foram elaboradas por interpolação espacial dos dados originais, pelo método de
Kriging definindo os parâmetros do modelo de ajustamento do semivariograma e os
intervalos da reclassificação, de acordo com a forma em causa. A análise de
regressão e a análise factorial de componentes principais realizou-se com o
programa SPSS 15 (SPSS, Inc.).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
As EPL da região de EDM localizam-se principalmente em 10 concelhos (Figura 1)
onde exercem uma forte pressão pela densidade populacional e dimensão,
principalmente sobre as bacias hidrográficas dos rios Cávado, Este e Ave. Estes
concelhos situam-se numa zona litoral com forte influência atlântica, com
temperatura média anual compreendida entre 14ºC e 16º C, elevada humidade
relativa (80%) e elevada precipitação anual (1000 a 1200 mm). Esta área
geográfica apresenta aluviossolos associados às principais linhas de água,
fluvissolos nas zonas de transição, arenossolos na zona de costa, seguida de
uma faixa adjacente de cambissolos, enquanto os antrossolos predominam em áreas
de meia-encosta associadas a maiores declives e possibilidade de captação de
água.
Figura 1 ' Distribuição das 1860 explorações de pecuária leiteira (EPL) nos 10
concelhos da bacia leiteira de Entre Douro e Minho.
Os resultados dos inquéritos demonstram grande diversidade na dimensão,
estrutura e características produtivas das EPL, que resultam das
características e da evolução dos factores económicos, sociais e culturais que
as envolvem, e das respectivas dinâmicas internas. Contudo, na generalidade,
estas EPL revelam um elevado nível de intensificação, concentração e
especialização. Mais de metade (55%) das 1860 EPL inquiridas localizam-se nos
concelhos de Barcelos e Vila do Conde (Quadro 1), os quais, em conjunto com os
concelhos de Póvoa do Varzim e V. N. Famalicão, possuem 80% do efectivo
pecuário. A SAU por EPL aproxima-se dos 10 ha (Quadro 1), sendo 97% de regadio.
No conjunto domina o sistema de produção forrageiro com a sucessão milho/
azevém, com períodos curtos e bem definidos de sementeira e colheita, e com
operações culturais que recorrem a uma elevada mecanização, fertilização e
protecção fitossanitária.
Quadro_1
' Explorações de pecuária leiteira (EPL), cabeças normais (CN), superfície
agrícola útil (SAU) por EPL (ha), produção de efluente (m3/ano) por unidade de
SAU (ha), e capacidade de armazenamento dos efluentes em fossas.
O encabeçamento ultrapassa as 5 CN/ha e a sua variabilidade é independente da
SAU da EPL (CN/ha = -0,0381*SAU + 5,7 com R2 = 0,0079 n.s.). Os maiores
encabeçamentos, e em consequência a maior produção de efluente por unidade de
SAU, verificam-se na Póvoa do Varzim e Vila do Conde, e a maior SAU/EPL na Maia
seguida por Vila do Conde (Figura 2, Quadro 1). Estes encabeçamentos são muito
superiores aos existentes no sul da Alemanha (Haas et al., 2001) para
explorações intensivas (2,2) ou extensivas (1,9) e aos encabeçamentos
permitidos noutros países europeus, como na Dinamarca, onde para encabeçamentos
superiores a 2 CN/ha o produtor tem de pagar 175 €/CN para exportar o chorume
excedente (Happe et al., 2011).
Figura 2 ' Distribuição do número total de vacas em produção por EPL e relação
entre o número de cabeças normais (CN) e a superfície agrícola útil (SAU).
A produção anual de chorume e de águas brancas das salas de ordenha, nos
concelhos em estudo, aproxima-se de 1,7 milhões de m3. Estes efluentes são
aplicados ao solo como correctivos orgânicos (95 m3/ha SAU) às culturas de
milho na Primavera e de azevém no Outono, ultrapassando 100 m3/ha na Póvoa do
Varzim e em Vila do Conde(Quadro_1). Estes valores são muito superiores aos
utilizados na generalidade dos países europeus, com excepção da Itália (100-120
m3/ha SAU; Menzi, 2002). As fossas possuem um volume médio de 220 m3/EPL e uma
capacidade de armazenamento de 40 m3/ha SAU ou 7,6 m3/CN, permitindo o
armazenamento por um período de 5 meses para o conjunto dos 10 concelhos
(Quadro 2). A Póvoa do Varzim é o concelho com a maior capacidade relativa de
armazenamento (6,1 meses) e Viana do Castelo com a menor (3,1 meses). Esta
capacidade é semelhante à que se verificava em países como a Espanha, a Áustria
ou o Luxemburgo, superior à média da Hungria ou da Polónia, mas inferior à da
dos países da Escandinávia (Menzi, 2002).
Quadro 2 ' Capacidade de armazenamento de efluente (m3) por fossa, por unidade
de SAU e de CN, por tempo e em função do tipo de fossa.
As fossas encontram-se geralmente cobertas (58%) com materiais de baixo custo
e, menos frequentemente, fechadas com placa de cimento (25%) ou abertas (17%).
Contudo, existem grandes variações entre os concelhos (Quadro 2). Existe uma
proporção muito elevada de fossas abertas em Stº Tirso (44%) e V.N. Famalicão
(43%) e de fossas fechadas em Viana do Castelo (66%) e Trofa (59%). As fossas
encontram-se principalmente dentro do estábulo (72%), sendo a Póvoa do Varzim o
concelho onde este facto mais se evidencia (78%). Pelo contrário, em Viana do
Castelo há menos fossas dentro do estábulo (33%) do que fora (Quadro 3).
Quadro 3 ' Localização das fossas em relação ao estábulo e às linhas de água e
respectiva capacidade de armazenamento.
A distância das fossas às linhas de água é muito variável entre os concelhos
(Quadro 3). Em média, 35% localizam-se a mais de 100 m, mas 45% encontram-se a
menos de 50 m de uma linha de água e 16% a menos de 25 m. Esta última
proximidade (< 25 m), verifica-se em 57% das fossas no concelho da Trofa. Pelo
contrário, verifica-se em apenas 1% das fossas de V.N. Famalicão e 5% das de
Viana do Castelo. Nestes últimos dois concelhos, 82% e 62% das fossas,
respectivamente, localizam-se a mais de 100 m das linhas de água.
A produção média de chorume e águas brancas por unidade de SAU (ha) inclui uma
quantidade de azoto de 266 kg/ha, sendo mais elevada nos concelhos de V.N.
Famalicão (276 kg/ha), Vila do Conde (288 kg/ha) e Póvoa do Varzim (315 kg/ha),
em comparação com os restantes concelhos (Quadro 4).
Quadro_4
' Superfície agrícola útil (SAU), N do efluente (kg/ha), e distribuição (%) da
SAU em função da dose de aplicação de N do efluente (kg/ha) e da capacidade de
armazenamento de efluente da respectiva exploração leiteira (m3/CN).
Estes valores, apurados com base na legislação nacional, serão
consideravelmente superiores para a realidade desta região, se forem
considerados os valores reportados por Trindade (2007) para a produção e
composição de chorume de vacas leiteiras de elevada produção. O valor de 266
kg/ha é muito superior ao valor médio referido por Flotats et al. (2009) para
Espanha (21 kg/ha), mesmo para regiões onde este valor é mais elevado como na
Catalunha (74 kg/ha) e aos valores reportados por Haas et al. (2001) para o sul
da Alemanha, que são de 144 kg/ha, 128 kg/ha e 117 kg/ha, respectivamente para
explorações intensivas, extensivas e de agricultura biológica. O valor de 266
kg/ha é ainda superior ao limite de 170 kg/ha de N estabelecido para as zonas
vulneráveis, no CBPA para a protecção da água contra a poluição com nitratos de
origem agrícola (MADRP, 1997), mas é muito variável entre concelhos. Enquanto
em Viana do Castelo, 83% da SAU das EPL recebe menos de 170 kg/ha de N com
origem no efluente da pecuária leiteira, na Póvoa do Varzim este facto apenas
se verifica em 16,3% da SAU. Neste último concelho, mais de 28% da SAU das EPL
estão acima do valor máximo permitido para o licenciamento das explorações de
bovinos quando existam duas culturas anuais de regadio (336 kg /ha) (VML) e
aproximadamente 40% da SAU é fertilizada com mais de 300 kg/ha N com origem no
efluente da pecuária leiteira (Quadro 4).
A produção de N do chorume e águas brancas por unidade de SAU dos 10 concelhos
é, em média, inferior ao VML. No entanto, existiam 462 explorações (25% das EPL
inquiridas) que ultrapassavam este valor (Figura 3).
Figura 3 ' Azoto (N) do efluente (chorume e águas brancas) por unidade de SAU
(ha) em função do número de cabeças normais por EPL. As linhas assinaladas como
CBPA e VML equivalem respectivamente aos valores máximos do Código das Boas
Práticas Agrícolas e do licenciamento das explorações de bovinos. *** P <0,001.
O valor máximo de 336 kg N/ha permitido para o licenciamento das explorações de
bovinos deve ser reduzido para, respectivamente, 75% (252 kg N/ha) quando
exista apenas uma cultura anual de regadio ou 33% (112 kg N/ha) se essa cultura
for de sequeiro. Na situação de duas culturas (milho seguido de azevém), a
aplicação ao solo do chorume deve efectuar-se em ≥ 50% ao milho, ≤ 25% à
sementeira da cultura de Inverno e ≤ 25% à fertilização de cobertura da mesma
cultura de Inverno. Para se exercer esta prática, a capacidade de armazenamento
do efluente tem que ser superior a seis meses, o que não acontece na
generalidade das EPL destes 10 concelhos. A Figura 3 revela ainda que o N total
do efluente por unidade de SAU aumenta significativamente com o encabeçamento
por EPL (P <0,001).
A capacidade média de armazenamento de efluentes das explorações inquiridas
neste trabalho (7,6 m3/CN) é superior à capacidade mínima necessária para o
licenciamento das explorações leiteiras, designadamente: ≥ 7 m3 por CN, para
explorações dotadas apenas de armazenagem, e, ii) ≥ 6 m3 por CN, para
explorações com sistema de separação da fracção sólida do chorume. Apesar da
variabilidade entre EPL ser elevada, a capacidade de armazenamento (m3/CN) é
independente do número de cabeças normais por EPL (Figura 4). No entanto,
existe uma grande variação entre explorações (Figura 4). Por esta razão, deverá
colocar-se a possibilidade de parceria entre produtores leiteiros para que
aqueles que ainda não têm capacidade de armazenamento suficiente, possam
recorrer aos que a possuem em excesso. A falta de capacidade de armazenamento
de alguns produtores verifica-se também noutros países europeus. Na Escócia,
por exemplo, apesar de cerca de um terço dos produtores inquiridos afirmarem
que não possuíam suficiente capacidade de armazenamento, de acordo com as
exigências da regulamentação para as ZVs, também não se tem conseguido aumentar
a transferência do chorume para fora da exploração, devido à dificuldade dos
produtores entenderem os benefícios ambientais dessa prática (Barnes et al.,
2009).
Figura 4 ' Capacidade de armazenamento de efluente (m3/CN) em função do número
de cabeças normais (CN) por EPL.
A maior concentração de N aplicado ao solo (kg/ha) através do chorume verifica-
se entre o rio Cavado e o rio Este, e também entre este último e o rio Ave, na
área fronteiriça entre os concelhos de Vila do Conde e V.N. Famalicão (Figura 5
A). Na quase totalidade da Zona Vulnerável do Aquífero Livre entre Esposende e
Vila do Conde (ZV1), verifica-se que a área arável das EPL está sujeita à
aplicação de N no chorume e águas brancas acima do máximo (170 kg/ha)
estabelecido pelo CBPA e pelo Plano de Acção Local para a ZV1 (Portaria n.º
556/2003 de 12 de Julho).
A capacidade de armazenamento de efluente é inferior a 7 m3/CN em mais de
metade da SAU da bacia leiteira (Quadro_4), com a excepção da Póvoa do Varzim,
Trofa e Stº Tirso. No entanto, a Figura 5 (B) revela que a capacidade de
armazenamento de efluentes não apresenta uma tendência espacial explícita. A
situação e as soluções de armazenamento variaram com a unidade produtiva,
verificando-se uma forte variabilidade espacial na capacidade de armazenamento.
Figura 5 ' Distribuição de N (kg/ha) do efluente pela SAU (A), e capacidade de
armazenamento do efluente por cabeça normal (m3/CN) (B), nos concelhos da bacia
leiteira de EDM.
A análise factorial de componentes principais realizada a doze variáveis do
inquérito às EPL (Figura 6), revelou a associação entre as variáveis: CN,
produção de efluente e de N por unidade de SAU e, simultaneamente, capacidade
de armazenamento do efluente (meses/ano), no grupo relacionado positivamente
com o primeiro factor principal. Neste grupo associaram-se negativamente, as
seguintes variáveis: incorporação de menos de 170 kg N/ha ao solo através do
efluente, proporção das fossas fora do estábulo, proporção das fossas cobertas,
e proporção das fossas a mais de 100 m das linhas de água. Ao segundo factor,
associam-se positivamente as variáveis correspondentes ao número total de
explorações, cabeças normais (CN) e fossas para chorume e águas brancas, por
concelho.
Figura 6 ' Análise factorial de componentes principais de doze variáveis das
explorações de pecuária leiteira de 10 concelhos do EDM.
Esta análise de variáveis permitiu identificar três grupos de concelhos. No
primeiro grupo incluem-se as EPL que por unidade de SAU possuem elevado
encabeçamento e consequentemente, elevada produção de chorume e de N. Neste
grupo, a capacidade relativa de armazenamento de efluente é muito variável e
destacam-se os concelhos de Barcelos e Vila do Conde, pelo maior número
absoluto de explorações, CN e fossas para armazenamento do efluente. No segundo
grupo inserem-se as EPL que possuem menor dimensão de EPL, CN e fossas. No
terceiro grupo encontra-se isolado o concelho de Viana do Castelo, com maior
proporção de fossas fora do estábulo, fossas cobertas e fossas com maior
distância às linhas de água. Neste concelho, a aplicação de N ao solo, o
encabeçamento, a produção de efluente e a capacidade relativa de armazenamento,
são inferiores aos restantes concelhos.
Apesar da separação entre a fracção sólida do chorume (FSC) e a fracção líquida
ser uma tecnologia com crescente utilização em muito países europeus e norte-
americanos, (Ford e Fleming, 2002; Martinez et al., 2009) esta tecnologia é
pouco frequente nas EPL do EDM. Nestes 10 concelhos, apenas 3,5% das
explorações possuem equipamento para separação da FSC, existindo 66 máquinas
que são utilizadas em 95 fossas. De acordo com resultados preliminares dos
projectos 177 e 794 da acção 8.1 do PO AGRO, a FSC extraída por esta separadora
permite reduzir o efluente em 12,4% em massa (Trindade et al., 2002), e retirar
entre 16 a 20% do N do efluente (resultados não publicados), o que corresponde,
à escala das 1860 EPL inquiridas, a uma quantidade de 876 t de N, das 4 864 t
produzidas anualmente, ou a uma redução da quantidade de N por unidade de SAU
de 266 kg/ha para 218 kg/ha.
Para minimizar o impacto ambiental, e aumentar a eficiência de utilização do
chorume na bacia leiteira do EDM devem, assim, ser cumpridas boas práticas
agrícolas. Entre as quais se sugerem (Trindade, 2007; Brito et al., 2008;
Fangueiro et al., 2008; Martinez, et al., 2009; Castanheira et al., 2010): (i)
realizar duas culturas por ano para maximizar a absorção e consequentemente a
exportação de nutrientes da exploração; (ii) reduzir a aplicação de N e P por
unidade de SAU, através dos adubos minerais; (iii) semear o azevém mais cedo
para absorver mais nutrientes antes da ocorrência da precipitação de Inverno;
(iv) melhorar as técnicas de incorporação do chorume no solo, por exemplo, por
injecção directa, para diminuir a volatilização principalmente de amoníaco; (v)
exportar parte do chorume para outras explorações agrícolas; (vi) utilizar
rações menos concentradas em proteína, para diminuir a concentração de azoto no
chorume; (vii) diminuir o encabeçamento; (viii) reduzir e/ou deslocalizar a
recria, através da criação de explorações especializadas na recria na região ou
fora dela; (ix) aumentar a capacidade de armazenamento de chorume nas
explorações deficitárias; e (x) separar a fracção sólida da líquida do chorume
e compostar a fracção sólida.
CONCLUSÕES
Na bacia leiteira do EDM existe uma pressão ambiental muito forte, provocada
pelo elevado efectivo pecuário em concelhos densamente povoados, que contribui
para a poluição das águas dos rios Este, Cávado, Ave e Leça. Inserida nesta
região, a área arável das EPL da Zona Vulnerável N.º1 está praticamente na sua
totalidade sujeita a uma carga de N aplicado ao solo através do chorume, que
ultrapassa o estabelecido pelo respectivo Plano de Acção Local. A dimensão e a
importância social da produção leiteira nestes concelhos apresenta-se
comprometida, quer devido às imposições externas de origem económica e às
mudanças de mercado, quer devido à necessidade de preservação do ambiente que
se reflecte na evolução do quadro normativo europeu associado à conservação de
recursos e funções naturais. Este enquadramento provocou, nestes últimos anos,
impactos sobre a estrutura produtiva das próprias explorações mas também, sobre
os sectores técnicos de apoio à produção e à comercialização do leite.
Diversas melhorias poderão ser introduzidas na estrutura produtiva das
explorações leiteiras, incluindo a produção de um composto baseado na FSC que
poderá viabilizar a transferência de matéria orgânica e nutrientes em excesso
de uma região com riscos de poluição, para outras que careçam de matéria
orgânica. As medidas apontadas neste trabalho, nomeadamente, a diminuição da
densidade pecuária em simultâneo com a melhoria da alimentação e do maneio,
poderão contribuir no seu conjunto para diminuir o impacto ambiental da
actividade leiteira.