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EuPTCVAg0871-018X2010000100028

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolLife Sciences
Great areaAgricultural Sciences
ISSN0871-018X
Year2010
Issue0001
Article number00028

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Compostagem da fracção sólida do chorume com palha de azevém (Lolium multiflorum Lam.) ou tojo (Ulex europaeus L.)

INTRODUÇÃO A separação entre a fracção sólida do chorume (FSC) e a fracção líquida tornou-se numa tecnologia com crescente utilização na gestão deste efluente da pecuária leiteira intensiva (Ford & Fleming, 2002) devido à melhoria que introduz nas suas propriedades de manuseamento, enquanto a FSC pode ser compostada para produzir um fertilizante rico em matéria orgânica e nutrientes.

A FSC é constituída por um material fibroso, com porosidade que, dentro de certos limites, permite a entrada de ar na pilha em compostagem, a qual aumenta pela acção do fluxo ascendente de ar provocado pela produção de calor durante o processo de compostagem (Oenema et al., 2001).

A utilização de resíduos vegetais grosseiros pode aumentar o arejamento e o fornecimento do oxigénio no interior da mistura em compostagem. O revolvimento das pilhas de compostagem também fornece oxigénio para o processo de decomposição. No entanto, se realizado com demasiada frequência, pode aumentar as emissões de NH3 e reduzir o valor agronómico do produto final, porque diminui a concentração de N. Eghball et al.(1997) e Tiquia & Tam (2000) encontraram na literatura referências a perdas de N entre 21% e 77%. Perdas semelhantes (16% -74%) foram referidas por Raviv et al. (2004), sendo a maioria dessas perdas causada pela volatilização de NH3.

Existem diversos estudos que foram conduzidos com FSC de suínos (Tiquia et al., 1997; Møller et al., 2000; Fukumoto et al., 2003; Huang et al., 2006; Ross et al., 2006). No entanto, as transformações da matéria orgânica e do azoto durante a compostagem da FCS de bovinos leiteiros não são bem conhecidas. Neste estudo, compara-se a evolução de características físicas e químicas no processo de compostagem da FSC, misturada com doses crescentes de palha de azevém ou de tojo, com o objectivo de obter um produto final higienizado, estabilizado, de elevada qualidade, rico em azoto e em matéria orgânica.

MATERIAIS E MÉTODOS Construíram-se 7 pilhas de compostagem de 1,5 m de altura, com FSC recolhida de uma exploração leiteira de Vila do Conde. A máquina separadora utilizada na extracção da FSC baseava-se na pressão provocada por um sem-fim que impulsiona os sólidos para a extremidade frontal da máquina, enquanto a fracção líquida atravessa um crivo que rodeia o sem-fim. Uma pilha foi construída exclusivamente com FSC, três com FSC misturada com doses crescentes de palha de azevém (Lolium multiflorumLam.) e três com doses crescentes de tojo (Ulex europaeusL.). As doses crescentes (25%, 33% e 50% v/v) corresponderam em peso seco (p/p) a 14%, 20% e 34% para o azevém e a 10%, 14% e 24% para o tojo, respectivamente.

O revolvimento realizou-se manualmente com pás e ancinhos, aos 28, 56 e 112 dias de compostagem. As pilhas foram colocadas sobre uma tela de cobertura do solo de polietileno, para impedir a entrada de terra durante o revolvimento, e no interior de uma estufa de polietileno para impedir a entrada da água da chuva, mas possibilitando as trocas gasosas com o exterior. As temperaturas no centro das pilhas e do ambiente na estufa foram medidas em cada minuto com termístores (tipo ST1, Delta-T Devices).

Realizaram-se colheitas de quatro amostras por cada pilha nos seguintes dias de compostagem: 0, 14, 28, 56, 84, 112, 140 e 168, e recorreram-se às normas europeias (CEN, 1999) para a determinação das seguintes características: humidade, com base em 50 g de material original (EN 13040); pH utilizando extractos de 60 cm3de amostra por 300 ml de água (EN 13037); condutividade eléctrica dos extractos aquosos (1:5, v/v), após filtragem (EN 13038); matéria orgânica (MO) por calcinação numa mufla a 550°C durante 4 horas (EN 13039); e azoto (N) Kjeldahl modificado (EN 13654; com um digestor Gerhardt-KT12S e uma unidade de destilação Vadopest-3). As características seleccionadas da FSC, da palha de azevém e do tojo, encontram-se no Quadro 1.

Quadro 1-Características da FSC, da palha e do tojo. (média ± desvio padrão)

A concentração de carbono total, destinado ao cálculo da relação C/N, foi determinada pela fracção entre a concentração da matéria orgânica e a constante 1,8 (Gonçalves & Baptista, 2001). As perdas de MO (g kg-1) foram estimadas pela fórmula: 1000 ' 1000 [X1 (1000 ' X2)] / [X2 (1000 ' X1)] em que X1 e X2 representam a percentagem de cinzas (g kg-1), respectivamente, no início e no fim de cada período de compostagem (Paredes et al., 2000).

Parte das amostras foram congeladas imediatamente após a colheita, para a determinação do azoto mineral, após extracção com KCl 2M (1:5), por espectrofotometria de absorção molecular (Houba et al., 1995), em autoanalisador de fluxo segmentado, sendo a concentração de N amoniacal determinada pela reacção de Berthelot e a de N nítrico através do reagente de Griess-Ilosvay, após redução em coluna de cádmio. Utilizou-se o método de Levenberg-Marquardt na análise de regressão não­linear da mineralização da MO e o método da menor diferença significativa para comparar as médias dos parâmetros químicos analisados, recorrendo-se ao programa SPSS versão 15.0.

(SPSS Inc.).

RESULTADOS E DISCUSSÃO A fase termófila (> 50ºC) da compostagem iniciou-se pouco tempo depois da construção das pilhas com FSC, alcançando temperaturas superiores a 60 °C mais rapidamente nas pilhas que incluíram palha ou tojo (Figura 1).

Figura 1-Evolução da temperatura média diária (ºC) do ambiente exterior e do interior das pilhas de compostagem da fracção sólida do chorume (FSC), e com doses crescentes (25%, 33%, 50%, v/v) de palha (P) e tojo (T). As pilhas foram reviradas aos 28, 56 e 112 dias de compostagem

A temperatura aumentou no tratamento com FSC até à temperatura máxima diária de 65 ºC após o primeiro revolvimento. No entanto, as temperaturas máximas foram registadas mais cedo e foram mais elevadas nas pilhas com mistura de palha ou de tojo, alcançando-se, respectivamente, 68 ºC numa pilha com palha (25% v/v) ao dia e 74 ºC numa pilha com tojo (33% v/v) ao dia de compostagem. Após 70 dias de compostagem as temperaturas diminuíram rapidamente até um valor próximo da temperatura ambiente, que foi alcançado em menos de três meses de compostagem. A temperatura da FSC durante a compostagem evoluiu como previsível (Inbar et al., 1993 e Ross et al., 2006), aumentando inicialmente, em consequência da degradação da MO facilmente disponível e diminuindo, posteriormente, à medida que a MO ficou menos disponível, indicando que o calor produzido pelas reacções exotérmicas associadas ao metabolismo microbiano diminuiu.

A compostagem da FSC poderá ter garantido a higienização do compostado e a eliminação das sementes viáveis de infestantes. Tchobanoglous et al. (1993) indicaram que a Salmonellasp. e a Escherichia colipodem ser destruídas em 15 a 20 minutos quando expostas a temperaturas de 60ºC, ou durante uma hora a 55ºC.

Com temperaturas superiores a 60ºC, o processo de compostagem pode eliminar todos os organismos patogénicos e as sementes viáveis de infestantes, o que é uma preocupação fundamental na aplicação directa do chorume ao solo. O aumento da temperatura nas pilhas da FSC misturada com as doses mais elevadas de tojo poderá ser explicado pelo maior arejamento que esteve associado ao aumento da porosidade da pilha e que terá facilitado a entrada de oxigénio para o seu interior.

A compostagem da FSC processou-se inicialmente com um teor de humidade de 74,6% apesar de ser recomendado, frequentemente, um valor máximo de 60% (Tchobanoglous et al., 1993). O teor de humidade diminuiu com a adição das doses crescentes de tojo ou palha de azevém durante o processo de compostagem, mas foi sempre superior a 52% na pilha com FSC sem mistura (durante os 168 dias de compostagem) e a 42% nas restantes pilhas na fase mais activa da compostagem (até 84 dias de compostagem), donde se conclui que a compostagem da FSC pode processar-se sem recurso à rega.

O pH foi sempre alcalino, variando para o conjunto das 7 modalidades de tratamento, entre o máximo de 9 e o mínimo de 7,6. A condutividade eléctrica (CE) dos extractos aquosos variou entre 0,47 e 1,22 dS m-1para o conjunto das pilhas, sem diferenças consistentes entre pilhas ou datas de compostagem, e variou entre 0,72-1,16 dS m-1nos compostos finais. De acordo com Tchobanoglous et al. (1993), o valor de pH não deveria ser superior a 8,5, de modo a minimizar as perdas de NH3, valor que foi excedido em diversas ocasiões. No final da compostagem, o valor de pH variou entre 7,6 e 8,1 limitando o uso do compostado como substrato de propagação (Cáceres et al., 2006). Em contraste com o pH, a reduzida CE dos compostos da FSC, bem como a sua porosidade, tornam o composto atractivo para ser utilizado como substituto parcial da turfa na composição de substratos para viveiros.

O teor MO no início da experiência foi, respectivamente: 909, 895 e 962 (g kg- 1MS) para a FSC, a palha e o tojo, diminuindo em todas as pilhas até um valor mínimo de 784 g kg-1MS, alcançado 168 dias após o início da compostagem na pilha exclusivamente de FSC e máximo de 832 g kg-1MS na pilha com 50% (v/v) de tojo.

A mineralização da MO foi estimada pelas perdas de MO e obedeceu a uma cinética decrescente de ordem, que pode ser expressa pela seguinte equação: MOm = MO0 (1 -e-kt) em que MOm representa o teor de matéria orgânica (g kg-1) mineralizada no tempo t (dias), MO0 representa o teor de MO potencialmente mineralizável (g kg-1) e k representa a taxa de mineralização.

As perdas de MO (Figura 2) foram inicialmente elevadas, devido à rápida mineralização dos constituintes mais facilmente mineralizáveis, que ocorreu nos primeiros dois meses de compostagem. Posteriormente, o teor de MO estabilizou em todas as pilhas, indicando uma forte redução nos materiais orgânicos facilmente biodegradáveis.

Figura_2' Perdas de matéria orgânica (g kg-1MS) das pilhas de compostagem da fracção sólida do chorume (FSC), com doses crescentes (25%, 33%, 50%, v/v) de palha (P) e tojo (T). MOm representa o teor de MO (g kg-1) mineralizada no tempo t (dias). ***P <0,001

A figura 2 indica que mais de metade da MO das pilhas com revolvimento foi perdida em consequência da mineralização num período de 2 meses de compostagem, mais rapidamente nas pilhas com tojo, nas quais cerca de 400 g kg- 1MS foram perdidas em menos de 1 mês. No final da compostagem, a mineralização ultrapassou 600 g kg-1MS na pilha com FSC sem mistura, mas este valor foi inferior nas pilhas com palha. As taxas de mineralização, estimadas com base nas perdas de MO, foram sempre superiores com adição de tojo, em comparação com a palha de azevém.

O facto de a MO ter sido mineralizada a uma taxa superior nas pilhas com tojo pode ser explicado pelo aumento do arejamento, causado pela estrutura do tojo, o que terá permitido o aumento da pressão parcial de oxigénio no interior das pilhas, aumentando assim a actividade metabólica dos microrganismos e a velocidade do processo de compostagem. As perdas de MO durante a compostagem da FSC foram semelhantes às perdas de 46% a 62%, referidas por Eghball et al.

(1997) durante a compostagem de estrume bovino. Durante a compostagem, o teor de N orgânico na matéria seca aumentou com a diminuição da MO, de forma curvilínea (Figura 3), entre o mínimo de 13 g kg-1MS na pilha com FSC sem mistura, até ao valor máximo de 35 g kg-1MS no final da compostagem, registado no mesmo tratamento, e mínimo de 28 g kg-1MS nas pilhas com os teores mais elevados (50 % v/v) de palha e de tojo.

Figura 3' Relação entre o teor de azoto orgânico e o teor de matéria orgânica na matéria seca (MS) das pilhas de compostagem da fracção sólida do chorume (FSC) incluindo com palha (P) ou tojo (T). ***P <0,001

A razão C/N diminuiu entre 38 na pilha com FSC sem mistura ou 32-36 nas pilhas com palha e 37-38 nas pilhas com tojo, no início da compostagem, até um valor mínimo de 13 no final da compostagem na pilha com FSC sem mistura, e valores variáveis entre 15 e 16 nas pilhas com palha e entre 14 e 17 nas pilhas com tojo (Quadro 2). A acentuada decomposição da MO na fase inicial da compostagem foi responsável pela rápida concentração de N nesta fase e pela diminuição da razão C/N, a qual decaiu para valores geralmente inferiores a 20 em menos de um mês.

Quadro 2' Razão C/N das pilhas de compostagem da fracção sólida do chorume (FSC) com doses crescentes (25%, 33%, 50%, v/v) de palha (P) e tojo (T)

A razão C/N tem sido utilizada como indicador do grau de decomposição dos materiais orgânicos (Larney & Hao, 2007), excepto para materiais de baixa razão C/N. Diversos autores apontaram valores da razão C/N inferiores a 20 como indicadores de uma maturação aceitável (Cardenas & Wang, 1980; Larney & Hao, 2007). Nestes ensaios, a razão C/N pouco variou entre as sete modalidades de compostagem consideradas e diminuiu até valores de 13 a 17, parecendo indicar um elevado grau de estabilização do composto final (Zucconi & Bertoldi, 1987; Bernal et al., 1998). No final da compostagem, o teor de N total no composto foi, em todas as pilhas, muito superior à concentração de N da maioria dos compostos comerciais produzidos em climas quentes (15g kg-1MS) referido por Hadas & Portnoy (1997).

No início da compostagem da FSC, o teor de N-NO3 foi muito baixo, 22 mg kg-1MF nas pilhas sem mistura e nas pilhas com tojo, e foi um pouco mais elevado (45- 85 mg kg-1MF) nas pilhas com palha de azevém. Pelo contrário, o teor de N­NH4+foi muito elevado no inicio da compostagem na FSC (1104 mg kg-1MF), e mais elevado nas pilhas com palha (1145­1224 mg kg-1MF) do que nas pilhas com tojo (1057-976 mg kg-1), como se verifica pela Figura 4. Duas semanas após o início da compostagem, o teor de N-NH4+ diminuiu acentuadamente em todas as pilhas, sendo muito baixo no final da fase mais activa da compostagem (Figura 4).

Figura 4' Evolução do N mineral, na matéria fresca, durante a compostagem da fracção sólida do chorume (FSC) com doses crescentes (25%, 33%, 50%, v/v) de palha (P) e tojo (T)

Entre dois e três meses após o início da compostagem, o teor de N-NO3- ultrapassou o teor de N-NH4+em todas as pilhas. No final da compostagem, o teor de N-NO3­ variou entre 500 e 1000 mg kg-1MF, com a excepção da pilha com a dose mais elevada de tojo. Os riscos de lixiviação foram muito reduzidos, quer durante a fase termófila da compostagem, porque o teor de nitratos era muito baixo, quer durante a maturação, porque apesar da concentração de NO3-ter aumentado, não se verificou um teor de humidade que provocasse a sua lixiviação por água de escorrência.

O elevado valor pH e a temperatura elevada durante o processo de compostagem da FSC podem ter condicionado o balanço NH4+:NH3 e a emissão de NH3. No entanto, a volatilização de NH3 pode ter sido limitada pela imobilização de N mineral nos microrganismos decompositores e pelo reduzido número de revolvimentos das pilhas. Outro factor que aponta para perdas de N reduzidas, deve-se ao facto do teor de N orgânico durante a compostagem da FSC ter aumentado entre um factor de 2 e 2,7 e a quantidade de MO ter sido reduzida, respectivamente, para 0,48 a 0,37 da inicial.

Assim, a principal vantagem do revolvimento será o seu contributo para a homogeneização da pilha, transportando os materiais que estavam no exterior, para o seu interior, o que pode ser realizado quando o teor de N amoniacal é mais baixo. A baixa concentração de N-NH4+e o aumento de concentração de N- NO3-no final do período de compostagem, em combinação com a baixa razão C/N e a descida de temperatura, sugerem que o compostado estava bem estabilizado aos 168 dias de processo.

CONCLUSÕES A temperatura que se verificou na generalidade das pilhas de compostagem terá garantido a higienização dos compostados finais e sugere que um número reduzido de revolvimentos poderá ser suficiente no processo de compostagem da FSC.

Considerando que o teor de N aumentou na mesma proporção que a redução da MO, conclui-se que a FSC pode ser compostada com perdas mínimas de N. A redução do número de revolvimentos na fase termófila da compostagem diminui, ainda, o custo da compostagem e o risco de dissecação excessiva das pilhas. A utilização de palha e tojo aumentou a temperatura, facto que poderá ter contribuído para uma mais efectiva higienização dos compostos da FSC.

A concentração de nitratos foi baixa na fase inicial da compostagem. Por isso, os riscos de perdas de N por lixiviação foram praticamente inexistentes nos primeiros meses de compostagem, mas também posteriormente porque o teor de humidade não foi suficientemente elevado para ocorrer a lixiviação de nitratos.

As características físicas e químicas da FSC durante a compostagem evidenciaram que é possível estabilizar a MO e garantir a higienização do compostado final, o qual pode ter utilização como correctivo orgânico do solo como sugerem o seu pH ligeiramente alcalino, baixa condutividade eléctrica e elevados teores em N orgânico e MO.


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