Efeito de tratamentos fitossanitários na produção de cultivares de batateira
(Solanum tuberosum L.) no planalto do Huambo (Angola)
INTRODUÇÃO
Apesar da área cultivada de batata (Solanum tuberosum L.) em Angola, conhecida
vulgarmente por batata rena, ser actual-mente tripla da do final do período
colonial (Dilolwa, 1978; FAO, 2006), há indícios da produção ser ainda
deficiente para o mercado interno. De facto a população também triplicou,
estimando-se ter passado da ordem de 5 milhões de habitantes para mais de 13
milhões, e a população urbana, possivelmente com maior apetência para o consumo
de batata do que a população rural, que se situava naquele período em cerca de
15% da população total, atinge actualmente 36% do total (Neto et al. 2006).
Todavia a produtividade da cultura continua pouco superior a 4 t/ha, devido,
entre outras razões à plantação de cultivares inadequadas, falta de batata-
semente certificada e à não utilização de produtos fitofarmacêuticos para
combate de pragas e doenças.
No passado, Serafim & Serafim (1968) divulgaram as doenças provocadas por
fungos, bactérias e nemátodos e doenças fisiológicas, então, identificadas em
Angola. Diversos trabalhos, como o de ERA (1975), salientaram o míldio
Phytophthora infestans (Mont.) de Bary e a bacteriose mal murcho (Pseudomonas
solanacearum (Smith) Smith 1914), actualmente designada por Ralstonia
solanacearum (Smith 1896) Yabuuchi et al. 1996, como mais agressivas. Ferrão
& Cardoso (1965) referiram pragas conhecidas das quais foram consideradas,
por Gaspar (1968), como mais importantes a traça (Gnorimoschema operculella
Zell, actualmente classificada com Phthorimaea operculella (Zeller)) e a rosca
(Agrostis segetum Schiff.).
Observações de campo recentes, no Planalto Central, confirmaram a presença
temível do míldio da batateira na época quente das chuvas e, na época seca, de
afídios como o piolho verde (Myzus persicae (Sulzer)), bem como de duas doenças
bacterianas, provocadas por Erwinia sp. e por Ralstonia sp., sendo estas
doenças só passíveis de combate pela aplicação de cuidados preventivos, como o
controlo da semente e a escolha do terreno.
A dificuldade que actualmente o pequeno produtor de batata enfrenta na
aquisição do tubérculo para plantação de qualidade garantida e adaptada à sua
região e época de cultivo é um problema antigo. De facto, como referiu
Serralheiro (1971), já no período anterior à independência, não estavam bem
definidas as cultivares para cada região e época de cultura, em qualquer das
principais regiões produtoras (Huíla, Vale do Cavaco, Namibe e Planalto
Antigo), e a maioria dos tubérculos usados como semente pertenciam a uma
mistura de cultivares, como hoje também se verifica no Huambo. Embora ocorram,
agora, três cultivares consideradas locais, estas não são plantadas de forma
distinta encontrando-se em cada lote de semente, habitualmente, mais do que uma
das referidas cultivares. Este cenário é agravado pela grande proliferação de
viroses e bacterioses, como as acima referidas, que têm vindo a degenerar os
tubérculos usados como semente, ano após ano.
Recentemente efectuou-se na Chianga (Huambo) um ensaio para comparação de 7
clones híbridos, provenientes do Centro Internacional da Batata (CIP) e da
cultivar Romano importada da Holanda (NIVAA 2005) com um biótopo considerado
regional ' MBoa (Silva 2006; Silva et al. 2006). Note-se que esta designação
corresponde a uma adaptação, no dialecto local, da cultivar Boa nova
regional', nome que também se usa no presente artigo, sendo também conhecida
somente por Boa nova'. A plantação ocorreu no início de Fevereiro de 2005,
tendo sido efectuada uma fertilização de fundo de 600 kg de adubo composto NPK
(12-24-12) e uma adubação de cobertura com 150 kg de sulfato de amónio a 20%.
Durante o ciclo cultural foram efectuadas regas (2 em Abril e 4 em Maio) e dois
tratamentos com fungicida e um com insecticida. Os melhores resultados no
ensaio que se refere foram da ordem das 40 t/ha e os da cultivar Romano',
única das melhoradas comum às relativas ao presente trabalho, foi da ordem das
30 t/ha com rendimento comercial (Ø tubérculos > 35 mm) de 82 %.
O trabalho que agora se apresenta referese à comparação da produção de
cultivares importadas, três da Holanda, com outras três cultivares consideradas
regionais, em ensaios com e sem tratamentos fitossanitários e realizados em
diferentes locais da Província do Huambo e em três épocas, duas em cultura de
sequeiro, no período das chuvas, e uma outra no período seco, em regadio.
MATERIAL E MÉTODOS
Área de estudo
Os ensaios foram realizados em três locais ' Bailundo (aldeia de Cena) (12º 12´
95 S, 15º 49´ 21 E, 1749 m), Chianga (12º 44´ 37 S e 15 49´ 62 E, 1698 m) e
Calenga (aldeia de Kapunge) (12º 56´ 86 S, 15º 26´83 E, 1732 m) '
distanciados entre si de cerca de 50 km, da Província do Huambo, no Planalto
Central de Angola.
O clima da região é marcado por duas estações anuais, uma chuvosa e quente e
outra seca e fresca, tendo uma temperatura anual média de menos de 20 ºC. A
pluviosidade, na Estação Experimental da Chianga, nos anos do ensaio (2004/5),
é mostrada na Figura 1; durante o ciclo de crescimento, a pluviosidade anual
foi de 1396 mm.
Figura 1 ' Pluviosidade mensal, em 2004/5, registada na Estação Experimental da
Chianga
De acordo com a Carta Geral dos Solos de Angola, Distrito do Huambo (Missão de
Pedologia de Angola, 1961), os solos são Ferralíticos, do Bailundo do
Agrupamento Hb 32, classificados como Ferrálicos Típicos Vermelhos, rochas
lávicas, da Chianga Hb 14, Fracamente Ferrálicos Amarelos ou Alaranjados,
rochas eruptivas ou cristalofílicas, quartzíferas e da Calenga Hb 16,
Fracamente Ferrálicos Amarelos ou Alaranjados, rochas argilosas, Sistema do
Oendolongo.
Em Azanzi et al. (2006) são indicadas características granulométricas e
químicas dos solos destes locais, a que correspondem, respectivamente ao
Bailundo, Chianga e Calenga, as texturas areno-limosa (70% areia, 14% limo, 16%
argila), argilosa (6% areia, 35% limo, 59% argila), e argilo-limosa (35% areia,
25% limo, 40% argila). As percentagens de matéria orgânica dos solos eram,
respectivamente de 0,7, 2,2 e 1,4 e o pH variou, nos 3 locais, entre 5,2 e 5,5.
Delineamento experimental
Em cada local foram conduzidos ensaios em três épocas. A primeira no período
entre Outubro a Janeiro, a segunda de Fevereiro a Maio e a terceira, época de
regadio, entre Junho e Setembro.
Cada ensaio, com uma área total de 921,6 m2(38,4 m x 24,0 m) foi dividido em 48
parcelas de 16 m2(3,2 m x 5,0 m). As colheitas foram realizadas na área central
de cada parcela, correspondendo a uma área útil de 8 m2. O compasso de
plantação foi de 20 cm na linha e 80 cm na entrelinha.
Em cada local o delineamento experimental consistiu num sistema factorial
hierarquizado do tipo split-split-plot) com 4 repetições (blocos) onde se
casualizou o tratamento principal (época), o subtratamento (a aplicação de
pesticida) com dois níveis (TP1 = com aplicação de produto; TP2 = sem aplicação
de produto) e o sub-subtratamento (as cultivares de batateira acima referidas).
Condução da cultura
Os tubérculos das cultivares melhoradas ' Diamant', Romano', Picasso' '
utilizadas no ensaio foram adquiridos à empresa holandesa produtora de semente
certificada Agrico (Emmeloord, Holanda) e os tubérculos das cultivares locais '
Tchigembo', Kanjangala', Boa nova regional' ' no mercado da Província do
Huambo. Estas últimas cultivares, possivelmente introduzidas no período
colonial, devido ao seu comportamento ou paladar, ganharam estas designações,
as primeiras no dialecto local, o Umbundo, e encontram-se já bastante
degeneradas.
Com base em elementos apontados por Asanzi et al. (2006) e atendendo à
exclusiva disponibilidade para os agricultores do adubo composto 12-24-12, a
adubação escolhida foi de N120-P150-K75.
Na primeira e na segunda época, no período chuvoso e quente, as plantações
foram sujeitas a aplicações de fungicidas com base em mancozebe + metalaxil-M
(Ridomil, da empresa Syngenta). Na terceira época, de regadio, aplicou-se o
insecticida lambdacihalotrina (Karate+, da Syngenta). A aplicação dos produtos
fitofarmacêuticos foi feita com um pulverizador manual de dorso com bicos
cónicos, à pressão de 40 a 60 lb/pol2. O insecticida foi aplicado na dose de
150 litros de calda por hectare, com a concentração de 0,5% (v/v) de produto na
calda, e o fungicida na dose de 500 litros de calda por hectare, com a
concentração de produto de 0,5% (p/v).
Durante a primeira época, foram feitas 3 aplicações de fungicida, em todos os
locais, nos dias 19 de Novembro, 3 e 20 de Dezembro. Na segunda época, o número
de tratamentos reduziu-se a dois, realizados em 10 de Março e 3 de Abril, na
Calenga e Chianga, e nos dias 27 de Fevereiro e 30 de Março, no Bailundo. Os
insecticidas, na terceira época, foram aplicados como se segue: Calenga ' 4
aplicações (6 e 20 de Julho, 1 e 15 de Agosto); Chianga ' 3 aplicações (19 de
Julho, 4 e 16 de Agosto); Bailundo ' 3 aplicações (20 de Julho, 6 e 17 de
Agosto).
Observações
Em todos os talhões foi observada a percentagem de plantas atacadas pelo míldio
da batateira na época das chuvas, e por afídios na época seca, bem como a
severidade dos ataques.
Quanto à produção determinaram-se o número de plantas colhidas, número total de
tubérculos, número de tubérculos de valor comercial, número de tubérculos
podres ou bichados, peso dos tubérculos, total, comercial e podres.
Consideraram-se tubérculos com valor comercial os que possuíam diâmetro
transversal superior a 25 mm; incluíramse nos tubérculos sem valor comercial,
além dos que não atingiram os 25 mm de diâmetro, os que apresentavam sintomas
de Fusarium sp., Erwinia sp. e Ralcetonia sp..
Análise estatística
A análise preliminar da variância dos dados combinados relativos às produções
indicou interacções significativas entre factores para todas as variáveis.
Assim, os dados da produção são apresentados separadamente para cada local de
ensaio, época e aplicação ou não de produto fitofarmacêutico.
Os dados foram sujeitos a análise de variância através do programa Statistix 8
(Analytical Software, Tallahassee, FL). A comparação entre médias foi feita
pelo teste da mínima diferença significativa para um nível de probabilidade de
0,05.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Incidência do míldio e afídios
Para a incidência do míldio, nas duas plantações realizadas na época das
chuvas, não se encontraram diferenças significativas da interacção entre os
locais, mas somente entre épocas, pelo que se apresentam no Quadro 1 as
incidências médias de todos os locais, para cada uma daquelas épocas.
Quadro_1
' Incidência e severidade*, médias dos 3 locais, das infecções de míldio
durante a primeira e a segunda época de cultivo.
As cultivares regionais, em especial a Tchigembo' seguida pela Boa nova
regional', parecem menos atreitas ao míldio do que as importadas, sendo entre
estas a Romano' que mostrou maior sensibilidade.
Para terceira época, a incidência dos afídios e a sua severidade foram as
indicadas no quadro 2, discriminando-se os locais por se terem encontrado
diferenças significativas.
Quadro 2 ' Incidência e severidade das infecções do piolho verde (Myzus
persicae) durante a terceira época nos três locais em estudo.
A incidência de afídios foi claramente inferior na Chianga. Em linhas gerais,
em todos os locais, as cultivares importadas Romano' e Diamont' foram mais
atacadas do que a Picasso'. Entre as locais mostrou-se menos atreita a
Kanjangala'. Quanto à severidade praticamente não se notaram diferenças entre
cultivares.
Número de tubérculos
No quadro 3 apresentam-se os números totais de tubérculos e a percentagem dos
que tinham valor comercial de cada cultivar nos três locais.
Quadro 3 ' Número médio de tubérculos, por parcela, nos 3 locais e percentagem
dos tubérculos com valor comercial (Ø > 25 mm).
Nas plantações da época das chuvas, o número elevado de tubérculos formados nas
cultivares locais, em particular no Bailundo, é saliente, contrastando com as
baixas percentagens dos números de tubérculos com valor comercial, o que
naturalmente acompanha os resultados, adiante mostrados, do peso das produções
com valor comercial. Na época de regadio, o rendimento comercial das cultivares
locais, embora inferior ao das importadas, já atingiu valores mais aceitáveis,
mas novamente inferiores no Bailundo.
Produções totais
Nas figuras 2 a 4 representam-se as produções totais, sem e com tratamento
fitossanitário.
Figura 2 ' Rendimento total de seis cultivares de batateira, sem (A) e com (B)
tratamentos fitossanitários, durante três épocas da campanha agrícola de 2004/
05, no Bailundo.
Figura 3 ' Rendimento total de seis cultivares de batateira, sem (A) e com (B)
tratamentos fitossanitários, durante três épocas da campanha agrícola de 2004/
05, na Chianga.
Figura 4 ' Rendimento total de seis cultivares de batateira, sem (A) e com (B)
tratamentos fitossanitários, durante três épocas da campanha agrícola de 2004/
05, na Calenga.
Os resultados mostram, para todos os locais, que o efeito da aplicação de
produto fitofarmacêutico no rendimento da batata rena foi bem
marcado.Adiferença no rendimento em função da aplicação ou não de produto
fitofarmacêutico é superior durante as primeira e segunda épocas, o que se deve
ao facto de se tratarem de épocas chuvosas onde a proliferação de micoses e
bacterioses é bastante elevada.
De uma forma geral, todas as cultivares melhoradas mostraram um rendimento
superior, que atingiu a ordem dos 40-75%, em relação às cultivares consideradas
locais, independentemente da aplicação ou não de produto fitofarmacêutico. Um
dos aspectos que influenciou esta diferença foi a sofrível qualidade da semente
das cultivares locais, já que os tubérculos usados como semente são obtidos
através de produções anuais para consumo, sem que sejam estabelecidas re-gras
de selecção.
A terceira época mostrou-se a mais produtiva enquanto a segunda a menos
produtiva nos três locais, mas com diferenças para a primeira menos marcadas,
senão mesmo, nalguns casos, sem significado estatístico.
No Bailundo, as cultivares com semente certificada de maior produção foram, por
ordem decrescente, Picasso', Diamant' e Romano', mas com significado
estatístico mais nítido na 3ª época. Quanto às cultivares ditas regionais a
sequência decrescente foi Tchivengo, Kanjangala e Boa nova regional'. Faz-se
notar que a cultivar Romano é muito procurada pelos consumidores e é a mais
utilizada pelo camponês.
Entre as três localidades, destacam-se os maiores sucessos no Bailundo, de solo
arenolimoso, com produções da ordem das 20 t/ ha com a aplicação de fungicidas
e que atingiram na 3ª época, com insecticida, as 26 e 30 t/ha nas cultivares
Diamant' e Picasso'. No Bailundo a melhor cultivar regional, com aplicação de
pesticidas, ultrapassou as 10 t/ ha nas duas primeiras épocas e aproximouse das
17 t/ha na terceira. No Bailundo, as cultivares com semente certificada de
maior produção foram, por ordem decrescente, Picasso', Diamant' e Romano',
mas com significado estatístico mais nítido na 3ª época. Quanto às cultivares
ditas regionais a sequência decrescente foi Tchivengo', Kanjangala' e Boa
nova regional'.
Na Chianga confirma-se o efeito positivo do tratamento fitossanitário nas 1ª e
2ª épocas e a ausência deste efeito na 3ª época. Aliás, neste local, com a
aplicação do insecticida, na plantação em regadio, as produções das cultivares
regionais foram mais baixas do que nas duas culturas sem rega, embora sem
marcado significado estatístico. Como ocorreu nos outros dois locais, entre a
1ª e 2 épocas as diferenças não são estatisticamente significativas embora
pareça haver uma tendência para uma menor produção na segunda época. A posição
relativa entre as espécies com semente certificada difere do local anterior,
pois a cultivar Romano', nas épocas chuvosas, demarca-se positivamente das
outras duas que não parecem diferir significativamente. Quanto às cultivares
regionais as diferenças entre elas não são muito acentuadas, em caso de
tratamento fitossanitário, mas parece haver uma tendência para melhores
resultados da Tchivembo'.
Também na Calenga, os tratamentos fungicidas, em todas as cultivares,
sensivelmente duplicaram as produções nas duas épocas de plantação, com
ligeiras diferenças entre elas. Na 3ª época o tratamento insecticida incutiu
alguma melhoria na cultivar Kanjangala' e parece notar-se efeito positivo nas
cultivares melhoradas mas sem significado estatístico. Novamente a cultivar
Romano', tanto com ou sem aplicação de fungicida, se demarcou positivamente em
relação às outras duas cultivares melhoradas que tiveram comportamento muito
semelhante.
A menor produção global na Calenga, relativamente à dos outros dois locais, é
nítida.
Produções comerciais
Quanto à produção comercial, observem-se as figuras 5 a 7. A posição relativa
das cultivares quanto às produções com valor comercial acompanham sensivelmente
a da produção total, como é de esperar. Por exemplo, o comportamento cimeiro da
Diamont' no Bailundo e da Romano' na Chianga e na Calenga.
Figura 5 ' Rendimento total de seis cultivares de batateira, sem (A) e com (B)
tratamentos fitossanitários, durante três épocas da campanha agrícola de 2004/
05, no Bailundo.
Figura 6 ' Rendimento comercial (Ø > 25 mm) de seis cultivares de batateira sem
(A) e com (B) tratamentos fitossanitários, durante três épocas da campanha
agrícola de 2004/5, na Chianga.
Figura 7 ' Rendimento comercial (Ø > 25 mm) de seis cultivares de batateira sem
(A) e com (B) tratamentos fitossanitários, durante três épocas da campanha
agrícola de 2004/5, na Calenga.
De um modo geral as cultivares diferem significativamente, quando comparadas
entre si, pela aplicação ou não de tratamento fitossanitário, mas estas
diferenças são me-nos marcadas na terceira época, provavelmente por menor
severidade dos ataques dos afídios. Sem a aplicação dos fungicidas na época das
chuvas, as cultivares locais de-ram produções com valor comercial que se podem
dizer insignificantes, embora também reduzidas, relativamente às importadas,
com a aplicação dos produtos fitossanitários.
Período vegetativo
No quadro 4 indica-se o período vegetativo das cultivares ensaiadas em cada uma
das épocas.
Quadro 4 ' Duração do período vegetativo para cada cultivar, em cada uma das
três épocas em estudo (número de dias).
Em geral, as cultivares importadas mostraram-se, em todas as épocas, mais
precoces do que as regionais.
Em qualquer uma das três épocas, a cultivar Tchigembo' apresentou o período
vegetativo mais longo, levando na 1ª época uma média de 105 dias até a
colheita, 11 dias mais do que as outras duas regionais. Das importadas a
Romano' foi mais lenta, 5 dias, do que as outras duas e com um período
praticamente igual ao das locais. Kanjangala' e Boa nova regional'. Na
segunda e na terceira época o período vegetativo das cultivares importadas, foi
bastante semelhante em cada época, evidenciando-se um atraso na terceira. Entre
as cultivares regionais não se notaram diferenças notáveis de precocidade na 2ª
época, mas na 3ª com a Tchingembo' notouse um atraso de uma semana
relativamente às outras duas cultivares locais.
CONCLUSÕES
Nas três localidades, as produções totais obtidas com a cultivar Romano',
única comum com as ensaiadas por Silva (2006) anteriormente indicado, foram
menores do que as anotadas, no seu ensaio na Chianga (30 t/ha), efectuado no
ano seguinte na época chuvosa, o que se pode dever, além das condições do ano e
tipo de ensaio, a regas complementares e a diferenças de adubação. De qualquer
modo o nível das produções desta cultivar bem como das outras importadas são
franca-mente animadoras e anota-se, também, que as produções atingidas nestes
ensaios ultrapassaram substancialmente as estimadas por Asanzi et al. (2006), o
que se revela bastante promissor, evidenciando as potencialidades da cultura na
região desde que devidamente fertilizada e com a aplicação de boas práticas
fitossanitárias.
Os resultados globalmente obtidos neste estudo, bem como noutros em que se
equacionaram diversas fertilizações (Henriques et al., em preparação) marcam
bem a possibilidade de se sair das magras produções unitárias alcançadas pelo
camponês angolano, inclusivamente com cultivares regionais, desde que o
agricultor disponha de batata-semente apropriada e aplique equilibradas
fertilizações e adequadas medidas de combate a doenças, pragas e infestantes.
Contudo, os resultados agora relatados e os expressos no quadro_1, com outras
cultivares, aconselham a continuação de estudos para a verificação das mais
adequadas às diferentes zonas do Planalto Central e às épocas de plantação, bem
como certamente a outras regiões bem adaptadas à produção de batata.
Todavia, devido aos preços elevados da batata certificada importada e às
dificuldades que o pequeno agricultor enfrenta na sua aquisição, seria
aconselhável o recurso ao melhoramento da semente das cultivares usadas
localmente, a realizar pelos camponeses, por métodos de selecção contínua
preconizada por especialistas do CIP, como é o caso da selecção contínua ou
negativa até à obtenção de tubérculos livres de viroses e bacterioses que
possam ser usados como semente. Para este efeito os resultados destes ensaios,
que convinha confirmar, apontam como vantajosa a escolha, entre as cultivares
locais, da Tchigembo', devido ao seu melhor comportamento produtivo e ao seu
excelente paladar. Contudo tenha-se em atenção a morosidade destes métodos e a
evidente vantagem do acompanhamento por técnicos especialistas. Aliás a
primeira autora iniciou já esta selecção, na Cooperativa de Multiplicadores de
Semente de Batata da Ekunha, actualmente ainda restrita a esta referida
cultivar.
Tal como com o rendimento total, em termos de rendimento comercial, para
qualquer uma das épocas, as cultivares importadas mostraram-se muito mais
rendosas do que as regionais, atingindo o triplo da produção, ou mais.
Por outro lado, é patente a imprescindibilidade do combate ao míldio da
batateira durante o período das chuvas, com a utilização adequada de
fungicidas, para se alcançarem produções mais aceitáveis. Embora não tenha sido
tão clara a vantagem do uso de insecticida, na época de regadio, possivelmente
por fraca incidência dos afídios, faz-se notar que a utilização de insecticidas
específicos para o seu combate é crucial para evitar a transmissão de viroses
que degeneram a semente.
Como era de esperar, a incidência das doenças, além da diminuição da produção
afectou a sua qualidade comercial.
Quanto ao rendimento das cultivares com valor comercial, destaca-se que as
cultivares importadas, tanto com ou sem tratamento fitossanitário, tiveram uma
produção com valor comercial muito superior, o triplo ou mais, do que as
cultivares locais.
Finalmente anota-se uma aparente tendência da cultivar Romano' em exibir um
ciclo vegetativo mais longo do que as outras cultivares regionais. Em geral, as
cultivares regionais mostraram menor precocidade do que as importadas.