ADAPTABILIDADE DE TRIGO MOLE ÀS CONDIÇÕES
MEDITERRÂNICAS EM FUNÇÃO DO SEU CICLO VEGETATIVO
INTRODUÇÃO
Nos ambientes mais estáveis podem
utilizar-se fenótipos de trigo menos flexíveis,
ou seja, apresentam pequena variação quando
crescem em meios pouco variáveis. Em
ambientes com condições irregulares, sobretudo climáticas, requerem-se fenótipos flexíveis, porque têm um comportamento que lhes
garante melhor adaptabilidade (MartínezGhersa et al., 2000). Parte desta, depende das
diferentes exigências ao nível da vernalização
e do fotoperíodo, e da sua interacção (Ferrara
et al., 1997).
Relembra-se que nos ambientes mediterrânicos se deve considerar a irregularidade do
começo das chuvas no Outono, afectando a
data óptima de sementeira; a errática distri-
buição da precipitação durante o Inverno e a
Primavera, que afecta as fases vegetativa,
reprodutiva e de formação do grão; o perigo
de geadas tardias que causam prejuízos, principalmente quando há espigamentos precoces
e, a ocorrência de temperaturas elevadas na
Primavera que provocam stress térmico, além
do hídrico, durante o enchimento do grão
(Carvalho, 1994; Calado, 2005).
Assim, a adaptabilidade é de extrema
importância para conseguir um melhor ajustamento às limitações mencionadas. Carvalho
(1994) refere que alguns genótipos com ciclo
alternativo podem ser mais flexíveis, aumentando as suas potencialidades, sobretudo ao
nível da adaptação a estas condicionantes
ambientais.
O rápido crescimento inicial, com uma
acumulação de biomassa nas primeiras fases
de desenvolvimento, aproveitando a época
mais favorável, parece ser uma característica
relevante que contribuirá para o potencial de
produção (Maçãs et al., 1998). Deste modo,
poder-se-á garantir um número adequado de
grãos por área, que segundo Calado (2005) é
determinante para maximizar a produção sob
condições mediterrânicas e deve ser obtido
através de uma boa formação ao nível do
número de grãos por espiga.
A data de floração é de extrema importância na adaptabilidade e na resposta
produtiva dos genótipos (Richards et al., 2001;
Slafer & Whitechurch, 2001). Em condições
de secura, quando não existem riscos de
geadas, o rendimento da cultura de trigo varia
com a data da ântese, decrescendo com o seu
avanço, embora seja dependente da interacção
entre a duração do crescimento e a água
utilizável do solo. Nas maturações tardias,
podem ocorrer perdas, porque a água do solo
é um recurso escasso e utilizado para a
produção de biomassa em estados anteriores.
Nas regiões mediterrânicas, a curta duração do período de enchimento do grão parece
favorecer a adaptação das variedades, até
porque o peso do grão parece ser uma
importante característica varietal (Calderini et
al., 1999).
A verificação da adaptabilidade de germoplasma de trigo mole em função do seu ciclo
vegetativo, é, devido às condicionantes já
referidas, importante para a cerealicultura das
regiões mediterrânicas como o Sul de Portugal.
A flexibilidade na duração do ciclo vegetativo
dos genótipos permitirá maior regularidade
produtiva e, segundo Carvalho (1994) e
Calado (2005), garantirá ao agricultor mais
opções ao nível do período de sementeira. Por
isso, neste trabalho estudou-se o comportamento de diferentes genótipos de trigo mole
semeados em datas diferentes na região Alentejo
durante cinco anos (1994/95 a 1999/00).
MATERIAL E MÉTODOS
No início desta experimentação, que
decorreu no ano de 1994/95, instalou-se o
ensaio em dois locais diferentes: um foi na
Herdade do Louseiro, que pertence ao concelho de Évora, distrito de Évora, a uma
latitude de 38º 31’ 44’’ N e uma longitude de
7º 48’ 22’’ W do meridiano de Greenwich, e
outro na Herdade de Almocreva, no concelho
de Beja, distrito de Beja, a uma latitude de 37º
59’ 9’’ N e uma longitude de 7º 55’ 40’’ W do
meridiano de Greenwich. Posteriormente, nos
anos de 1996/97 a 1999/00, este estudo
realizou-se na Herdade da Revelheira da
Direcção Regional de Agricultura do Alentejo,
concelho de Reguengos de Monsaraz, distrito
de Évora, localizada a uma latitude de 38º 27’
54’’ N e uma longitude de 7º 28’ W do meridiano de Greenwich.
No ano de 1994/95, o ensaio foi instalado
na região de Beja no solo Barro CastanhoAvermelhado Calcário Muito Descarbonatado
de dioritos ou gabros ou rochas cristalofílicas
básicas (Bvc) e na de Évora no solo Mediterrâneo Pardo Para-Hidromórfico de
quartzodioritos ou dioritos (Pmh). Para os
restantes quatro anos, as condições edáficas sobre as quais decorreu o estudo, foram
o solo Mediterrâneo Pardo de dioritos ou
quartzodioritos ou rochas microfaneríticas
ou cristalofílicas afins (Pm) nos anos de 1996/
97 e 1998/99, e o solo Mediterrâneo Vermelho
ou Amarelo de dioritos ou quartzodioritos
ou rochas microfaneríticas ou cristalofílicas
afins (Vm) em 1997/98 e 1999/00. Qualquer
destes solos é caracterizado por Cardoso
(1965).
Quanto às condições climáticas do primeiro ano (1994/95), registaram-se os valores
mensais da precipitação e da média das
temperaturas máximas, mínimas e médias do
ar, nas estações meteorológicas de Beja e
Évora (Figura 1). Os do ano (1994/95) foram
cedidos pelo Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica e os referentes à média da
precipitação de trinta anos (1951/80) obtidos
por consulta da publicação do Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica (1991).
Relativamente às condições climáticas
verificadas nos outros quatro anos em que
decorreu a experimentação, apresentam-se nas
Figuras 2 e 3 os valores mensais da precipitação e da média das temperaturas máximas,
mínimas e médias do ar. Estes foram registados
na estação meteorológica de Reguengos de
Monsaraz do Instituto de Ciências Agrárias
Mediterrânicas (ICAM), instalada na Herdade
da Revelheira, onde decorreram os trabalhos
de campo. Por sua vez, a precipitação mensal
referente à média da precipitação ocorrida em
trinta anos, foi obtida do Instituto Nacional de
Meteorologia e Geofísica (1991), a partir de
valores registados na estação udométrica de
Reguengos de Monsaraz.
Os tratamentos realizados neste ensaio
foram os seguintes:
- Datas de sementeira (talhão principal).
-Quinze genótios de trigo mole (talhão
dividido).
O delineamento experimental foi em
blocos casualizados com divisão dos talhões
(“split-plot”) e quatro repetições. Cada talhão
era constituído por seis linhas distanciadas 20
cm e com um comprimento de 10,5 m, sendo
a área à colheita de aproximadamente 11 m2.
Devido às condições termopluviométricas
verificadas durante o período de Outono-Inverno dos anos em que decorreu o ensaio
(Figuras 1, 2 e 3), semearam-se quatro datas
no primeiro (1994/95), duas no segundo (1996/
97), uma no terceiro (1997/98), três no quarto
(1998/99) e três no quinto ano (1999/00) desta
experimentação.
Quanto aos genótipos utilizados e aos
hábitos de crescimento que os caracterizam de
acordo com a informação dada pela Estação
Nacional de Melhoramento de Plantas, estão
indicados a seguir:
TE 9202 (Sever) - alternativo; Anza Primavera; TE 93043 - alternativo; TX/AMI
(Jordão) - alternativo; Centauro - alternativo;
TE 9009 (Eufrates) - alternativo; TE 9111
(Nabão) - Primavera; TE 9104 - Primavera;
TE 9301 - Primavera; TE 9113 - Primavera;
TE 9114 - Primavera; TE 9112 - Primavera;
TE 9403 - Primavera; TE 9405 - Primavera;
HAHN”S”*2/PRL”S” - Primavera.
Como este ensaio decorreu nas folhas
destinadas à cultura do trigo nas Herdades de
Almocreva e do Louseiro (ano 1994/95), e na
Herdade da Revelheira (1996/97 a 1999/00),
foi efectuada uma mobilização primária com
a charrua de aivecas ou com o escarificador
pesado (“chisel”) na Primavera ou no Verão
do ano agrícola anterior ao das sementeiras
das diferentes datas deste ensaio. Para preparar
a cama da semente efectuaram-se mobilizações superficiais do solo com grade de discos
ou escarificador mais vibrocultor nos cinco
anos de ensaios e nas diferentes datas de
sementeira. A densidade de sementeira foi de
300 grãos·m-2 e utilizou-se o semeador de
ensaios “Wintersteiger”, que permite realizá-la
em pequenos talhões. Por sua vez, a adubação
de fundo foi efectuada a lanço, com 40 kg N·ha-1
e 100 kg P2O5·ha-1. As restantes técnicas culturais utilizadas durante o ensaio, encontram-se
sintetisadas no Quadro 1, excepto a colheita
realizada pela ceifeira debulhadora automotriz
de pequenas parcelas, que se efectuou no mês
de Junho de cada um dos anos agrícolas
indicados.
As observações e verificações foram a
produção de grão (peso seco em estufa 65 ºC
± 48 horas), e as datas de espigamento
(visualização ao nível do talhão de pelo menos
51 % das espigas, código 59 na escala de
Zadoks et al., 1974) e de maturação (visualização ao nível do grão, da sua dureza e
penetração pela unha, código 92 na escala de
Zadoks et al., 1974) dos quinze genótipos de
trigo mole em estudo. Segundo Slafer &
Whitechurch (2001), a data de espigamento é
a variável mais comum, para determinar o
efeito de factores genéticos e ambientais no
desenvolvimento do trigo, sendo também
influenciada pelos agronómicos.
Para verificar a flexibilidade do germoplasma em estudo, relacionaram-se as datas
de espigamento e de maturação com a produção de grão, recorrendo a equações de
regressão, que foram calculadas com o auxílio
do programa SPSS 11.0 e do Excel versão
2000. Com o auxílio do coeficiente de determinação, procurou-se melhorar a qualidade de
ajustamento dos diversos modelos aos dados
(Maroco, 2003).
Dos quinze genótipos em estudo, seleccionaram-se seis, que apresentaram capacidade
de adaptação à variação ambiental expressa
por rendimentos aceitáveis nas condições
mediterrânicas, para relacionar as diferentes
datas de sementeira com o número de dias até
ao espigamento e até à maturação. No conjunto
dos seis genótipos, há três que já são varie-
dades, Sever (TE 9202), Eufrates (TE 9009) e
Nabão (TE 9111), enquanto os outros três, TE
9113, TE 9114 e HAHN”S”*2/PRL”S”, apesar
de não serem variedades, também apresentaram uma boa adaptação à variabilidade das
condições nas diferentes datas de sementeira,
com uma resposta produtiva aceitável.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Para existir melhor adaptabilidade dos
genótipos a determinado ambiente, deve a
duração do seu ciclo vegetativo, definido pelo
espaço temporal necessário até um determinado estado vegetativo, permitir-lhes um
desenvolvimento adequado em função das
suas características e do habitat (Kirby et al.,
1999).
Na Figura 4, verifica-se que as produções
de grão de trigo superiores a 2300 kg·ha-1
obtidas no ensaio realizado na herdade da
Revelheira desde 1996/97 a 1999/00, corres-
pondem a um intervalo de 125 a 145 dias
desde a sementeira até ao espigamento da
cultura (a) e de 170 a 195 dias até à maturação
(b). Qualquer das relações está condicionada
ao ambiente da região.
Por isso, na Figura 5 apresentam-se as
relações do somatório da temperatura média
do ar (ºC) desde a sementeira até ao espigamento (a) e até à maturação (b) com a produção de grão de trigo. As produtividades mais
elevadas tendem a ser atingidas com a temperatura média acumulada até ao espigamento
entre 1350 e 1550 ºC (Figura 5 (a)) e até à
maturação do grão entre 2100 e 2400 ºC
(Figura 5 (b)).
Recorrendo também às observações
efectuadas em 1994/95 (Évora e Beja), cujas
condições climáticas limitaram a produtividade do trigo, sobretudo em Beja, sendo no
entanto, os rendimentos superiores a 2000
kg·ha-1 obtidos com valores de 176 a 205 dias
até à maturação do grão (Figura 6).
De acordo com os intervalos de tempo
atrás referidos, conclui-se que a variação de
aproximadamente vinte a vinte e cinco dias
desde a sementeira ao aparecimento da
inflorescência do trigo mole, e à maturação
do seu grão, permitiu uma boa resposta
produtiva da cultura, indicando a existência
de flexibilidade na duração do seu ciclo
vegetativo.
Com base nesta resposta, é possível
identificar genótipos flexíveis, nomeadamente
em relação à data de sementeira, capazes de
adaptarem o seu crescimento, de forma a variar
o espaço temporal até ao espigamento e até à
maturação dentro desses limiares e em função
das condicionantes do meio (Kirby et al.,
1999). Isto permite-lhes ficarem com tempo
suficiente para o desenvolvimento adequado
do seu ciclo vegetativo, de maneira a atingirem
um rendimento igual ou superior ao que
caracteriza à média da região, quando a
sementeira decorre desde o fim de Outubro
até ao fim de Novembro.
Conforme se constata no modelo
apresentado na Figura 7, a variedade Nabão
(TE 9111) apresentou um comportamento
caracterizado pela estabilidade ao nível do
número de dias até ao espigamento em diferentes datas de sementeira. Por esta razão,
não há grande oscilação no número de dias
necessários para o aparecimento da inflorescência, particularmente nas sementeiras
realizadas entre o fim de Outubro e o fim de
Novembro.
Também a variedade Sever (TE 9202),
referenciada inicialmente como tendo hábitos
de crescimento alternativo, apresentou um
ciclo não muito longo até ao espigamento, o
que está dentro do padrão de Primavera.
Caracteriza-se, igualmente, pela estabilidade
quanto à duração do seu ciclo vegetativo até
ao aparecimento da inflorescência, desde que
a sementeira decorra no mês de Novembro
(Figura 7).
Por outro lado, a variedade Eufrates (TE
9009), de ciclo claramente alternativo, já se
caracterizou por maior variabilidade na
duração do período até ao espigamento em
função das diferentes datas de sementeira
desde o fim de Outubro até ao fim de Novembro (Figura 7), podendo assim, o seu
potencial produtivo ser mais prejudicado em
sementeiras tardias, devido às condições
ambientais condicionarem as fases do seu ciclo
vegetativo.
Do conjunto dos seis genótipos, o TE 9114
com hábitos de crescimento de Primavera
demonstrou ter um ciclo mais curto, o que lhe
facilita a adaptação às épocas de sementeiras
tardias (Figura 7).
Quanto ao número de dias desde a sementeira até à maturação do grão, confirma-se a
maior duração do ciclo vegetativo do TE 9009,
variedade Eufrates (Figura 8). Os outros cinco
genótipos estão muito próximos e qualquer data
de sementeira entre os finais de Outubro e de
Novembro garante um número de dias incluído
no intervalo de 170 a 200 (Figura 8), similar ao
que foi mencionado para obter os rendimentos
mais elevados. Até a variedade Eufrates de ciclo
mais comprido, demonstrou estar dentro do
período, que se relaciona com a obtenção de
produções mais altas (Figura 8).
A pequena diferença verificada entre o
número de dias até à maturação em quase todos
estes genótipos, reflecte os condicionalismos
térmicos e hídricos que, geralmente, ocorrem
na fase de formação e maturação dos grãos
dos cereais de Outono-Inverno em Portugal.
CONCLUSÕES
A partir da resposta produtiva de quinze
genótipos de trigo mole em função do seu ciclo
vegetativo, conclui-se que o intervalo de tempo
de 125 a 145 dias entre a sementeira e o
espigamento está relacionado com produtividades mais elevadas nas condições mediterrânicas.
Relativamente ao somatório da temperatura média do ar desde a sementeira até ao
espigamento, as produções de grão de trigo
mais altas correspondem a valores compreendidos entre 1350 e 1450 ºC.
Alguns genótipos de trigo mole, como foi
o exemplo da variedade Nabão, caracterizaram-se por uma menor variabilidade no
número de dias desde a sementeira até ao
espigamento, quando a época de sementeira
decorreu no intervalo de aproximadamente um
mês (fim de Outubro a fim de Novembro). Esta
capacidade permite à variedade Nabão ter
flexibilidade e, assim, um desenvolvimento
adequado para obter rendimentos mais altos.
Em consequência, melhora-se a viabilidade e
a sustentabilidade dos sistemas agrícolas nas
regiões mediterrânicas.
Quanto ao tempo necessário até à maturação, conclui-se que os valores entre 170 a
195 dias e o somatório das temperaturas
médias do ar entre 2100 e 2400 ºC desde a
sementeira até ao fim do ciclo vegetativo do
trigo se relacionam com produtividades mais
altas.
Em síntese, as variedades de trigo com
capacidade de adaptação às condições mediterrânicas em função do seu ciclo vegetativo
(variedade Nabão), caracterizam-se por
apresentar flexibilidade e podem ser utilizadas,
por exemplo, segundo Carvalho (1994),
Calado et al. (2002) e Calado (2005), para a
estratégia de controlo da infestação potencial
em pré-sementeira, particularmente, nos
sistemas de sementeira directa de cereais de
Outono-Inverno.