Arqueologia moderna da modernidade
1. Introdução
Quando se passa em revista o balbuciar das ideias ético-morais e jurídicas da
modernidade percebe-se que em nenhuma circunstância se encontra um pensamento
totalmente moderno despojado de elementos arcaicos, relevem eles do
teleologismo clássico e medieval ou, em contrapartida, de orientações de
pensamento inovadoras mas ainda presas a fundamentações metafísico-religiosas
constitutivamente heterónomas. Eu teria tido uma grande desilusão se esperasse
encontrar um pensamento à nossa medida, espectadores que somos agora de uma
realidade que tornou os balbucios setecentistas, ultrapassados, o que tornaria
as suas hesitações incompreensíveis e as suas ousadias muito frustres. Se não
se for para esses textos com expectativas exageradas e insensatas, poder-se-á
perceber melhor o alcance de tão profunda mutação intelectual, quer no domínio
do direito, quer nos domínios ético e moral, assim como apreciar o peso
relativo das nuances estratégicas.
Intencionalmente, ou não, as arremetidas contra o edifício tradicional foram
deitando abaixo as ameias, num trabalho de erosão que levou tempo e para o qual
desempenharam papel insubstituível todas as arremetidas. Eu terei tendência a
valorizar o que nessas investidas comporta uma revalorização dos elementos
secularizantes, do incenso da razão, teorética ou prática, da promoção da
autonomia, independentemente do corpus ideológico que as utiliza como armas e,
finalmente, em que circunstâncias e ao abrigo de que estratégias elas são, quer
dizer foram, utilizadas. Não há um corpus eficiente, não há uma estratégia
decisiva, o efeito global de erosão (arruinamento, desconstrução, desabamento,
corrupção, desgaste, desmoronamento, etc.), deu-se a partir de avanços e
recuos, corporizou-se nalguns pontos de obras que, em contrapartida, noutros
pontos, mostravam uma estreita colaboração com o modelo que sobrevivia e, por
vezes, um conformismo decepcionante. Não faz muito sentido voltar Hobbes contra
Grócio, ou Pufendorf contra Wolf, ou Samuel Clarke e Thomas Reid contra
Hutcheson, ou Cudworth e Shaftesbury contra Locke, ou até Cumberland contra
Culverwell e Burlamaqui contra Barbeyrac ou ainda Holbach e Helvécio contra
Rousseau ou Voltaire, etc. Porque em todos estes autores e nas suas respectivas
obras brilhou uma acendalha atirada contra a tradição.
Se o que nos atrai em Cumberland é, na sua oposição sistemática a Hobbes, o
internalismo empírico -- naturalista em que se enquadra, isso não nos pode
impedir de reconhecer que, globalmente, o pensamento de Cumberland está ainda
minado por um organicismo de fundo e que, face a ele, o Leviathan de Hobbes é
infinitamente mais moderno, mesmo se o externalismo voluntarista, em que se
fundamenta a obrigação moral, seja um elemento de heteronomia que, em minha
opinião, o empobrece.
Se seduz em Clarke, por exemplo, o papel relevante que a razão desempenha na
construção do seu edifício moral e se, portanto, a sua clara filiação no
intuicionismo moral, com base na razão, elucida sobre uma apetência
secularizante, já o pouco interesse dado à razão prática e à autonomia do
agente no plano dos motivos, colocando-o nesse plano no domínio do externalismo
relativamente às motivações, poderia desiludir. E só não desilude porque esse
externalismo é congénito com o próprio intuicionsmo racional devedor, nesse
plano, à tradição intelectualista antiga e medieval, tradição essa, da qual
decorre, com naturalidade, um inevitável determinismo metafísico, onde uma boa
parte da autonomia prática fica diminuída. Mas, não se deve confundir este
externalismo relacionado com a inexistência de um practical reasoningao nível
da motivação, com o externalismo que, em Locke, imputa a moralidade à
positividade das leis com os concomitantes prémios e castigos de clara matriz
puritana e, portanto, em última instância, na linha da tradição lutero-
calvinista. É que Locke é justamente um dos autores em que o internalismo
autonomista ao nível da acção se encontra melhor definido. Parece paradoxal,
mas não é. Ou se preferirmos, tudo isto decorre das contradições próprias de um
movimento que enfrenta uma sólida tradição, com armas ideológicas distintas.
Pensar que a Cultura moderna apareceria, formada, inteira e coerente, como
Minerva saída da cabeça de Juno, releva mais da ingenuidade do que propriamente
de má fé.
Mesmo assim, e correria o risco de um puro eclectismo argumentativo, eu penso
que há uma linha de orientação que, embora desdobrada segundo um esquema multi-
centrado e multi-vectorialmente orientado, se coaduna melhor com a tendência
daquilo a que se chama por conveniência e genericamente de Aufklårung.
E que consiste, no essencial, na revalorização: A. Da razão, tanto teorética
quanto prática «comme la suprême puissance de l'homme»1 , B. do internalismo a
todos os níveis: da motivação, da acção, e da fundamentação última da
obrigação, C. da secularização, D. da autonomia, ou seja, da autonomia da
razão, do sujeito e da vida moral, social e política, E. da emergência do
indivíduo mas sobretudo do sujeito. Sujeito, quer dizer, subjectum, fundamento
da norma mas também sujeição à norma. (O sujeito é o indivíduo que se submete
voluntariamente à norma que ele próprio construiu). E tudo isso pressupõe a
ideia de Contrato ou Pacto Social. F. Da recolocação da ideia de um progresso
global e não de um progresso «comme une simple extension du savoir, comme un
progressus in indefinitum», ou seja, de um progresso global contra um progresso
quantitativo, simples somatório de progressos empíricos, dispersos, etc. Em
síntese, de um progresso unitário «en dehors de toute fin particulière», G. da
recolocação do problema do recurso à autoridade ou à sua crítica, à verdade
revelada ou à verdade construída, etc. H. Enfim de um reforço da trajectória de
afirmação do humanismo.
2. Os domínios do Eu.
É para mim um ponto assente que toda a investigação sobre o advento da
modernidade deve começar por um amplo excurso sobre a reflexão moral. Eu diria
que foi isso que os próprios autores dos finais do século XVII e século XVIII
fizeram. E se colocaram como prolegómeno uma prévia investigação sobre a
natureza do homem isso aparece de algum modo como tautológico uma vez que nos
séculos XVII e XVIII a natureza do homem e a sua natureza moral são, pode-se
considerar, a mesma coisa. Isso mesmo se depreende da questão, «What is the
role of life?» pergunta nuclear que Joseph Butler fazia logo no prefácio aos
seus Fifteen sermons proferidos na Rolls Chapel em 1726.
Perguntar pelo papel da vida é perguntar pelo seu sentido, e pela finalidade do
homem dentro desse desempenho, jogando com o duplo sentido de papel.Mas querer
saber o papel, o objectivo, o sentido enfim da vida humana, é avançar para a
discussão dos pressupostos de uma antropologia fundamental, que o mesmo Joseph
Butler disse consistir no lançamento de um olhar prescrutador «to the inward
frame of man».
Acontece que procurar as fontes do eu, ou do indivíduo, Sources of the self,
como lhe chamou Charles Taylor, não significa procurar uma fonte, porque na
modernidade, pela primeira vez, ao contrário do que aconteceu no pensamento
clássico ou no pensamento medieval, não há uma fonte, seja ela cosmológica,
religiosa, ou mesma humanista no sentido clássico e renascentista do termo.
O Eu da modernidade aparece no seio de um processo e é o resultado de um
complexo de aporias existenciais e filosóficas, e ainda o é nos nossos dias. O
Eu da modernidade é, ao mesmo tempo, uma interrogação e as múltiplas tentativas
não para responder a essa interrogação mas para a alimentarem. Trata-se
portanto de um processo aberto que não visa nunca a unidade. É irónico que
podendo acusar-se a modernidade de se reduzir a um processo teleológico e
escatológico ou, se quisermos, à secularização das teleologias e escatologias
arcaicas, o que melhor a caracteriza é o modo como posterga e arruína todas as
teleologias e todas as escatologias, ao mesmo tempo que parece sucumbir ao
fascínio que elas representam. Pelo caminho o homem da modernidade foi obrigado
a inventar ou a reinventar alguns conceitos, como autonomia, liberdade,
indivíduo, pessoa, sujeito, etc.
A polarização tipicamente moderna, bem desenvolvida por Baudelaire a propósito
do fenómeno artístico, e bem conceptualizada por Koselleck, em torno do par
eterno/ efémero, aniquila ao mesmo tempo a neurose do efémero e a tranquilidade
do eterno, de tal modo que a modernidade é teleológica sem ter um fim e é
escatológica, mas na perspectiva de que a dimensão escatológica esteja sempre
adiada. De facto, as metanarrativas apocalípticas ou as utopias orientadas para
fins felizes já não são modernas, uma vez que desistiram da angústia que a
modernidade transporta consigo e, desse modo, são portanto formas desgarradas
de desistência, destroços que a modernidade deixou e deixa pelo caminho e que o
anjo2 vê, apenas, porque viaja de costas em direcção ao futuro.
Talvez porque o anjo se divida entre a antevisão dolorosa do futuro e a visão
não menos dolorosa dos destroços, coabitam sempre em cada época moderna, e por
maioria de razão no advento da modernidade, duas atitudes intelectuais
paradigmáticas, uma que corresponde à resignação e outra que corresponde à
insatisfação que é a própria essência da modernidade. Isso também corresponde à
modernidade posterior. À nossa. A pós-modernidade errou o alvo, ao escolher
como alvo, dentro da modernidade, aquilo a que Lyotard chamou de
metanarrativas; uma vez que se dirigiu para o que a modernidade oferece como
evidência mas não para o lado oculto da cultura moderna, o lado mais íntimo,
que é o mais verdadeiro. A modernidade nunca é uma resposta. A modernidade é
sempre uma pergunta com resposta adiada.
Ao romper com a circularidade do mito do tempo, mas também com a sua
linearidade previsível, ao resolver o enigma dos labirintos através não da
experiência vivida mas da razão, instrumento artificial e dessublimado, a
modernidade conduziu a humanidade a um processo sem fim, onde, dizem, a própria
ideia de sujeito e a sua centralidade se arruinaram e onde a própria
hermenêutica do fim confere ao ser nostalgia ou desespero. A modernidade é
niilista porque esgota o sentido, através de uma inesgotável procura do
sentido. É isso que se sente quando se percorre o acervo de textos inaugurais
dessa modernidade. Razão tinha Foucault quando afirmava que o Eu da modernidade
se dessubstancializa e se torna progressivamente o lugar geométrico das
múltiplas formas discursivas. Simplesmente não é essa a sua fragilidade mas a
sua força e grandeza. E tenho para mim que esta aventura de desenraizamento
radical, ontológico e metafísico, começa onde se enceta a minha investigação. E
penso ainda que a ideia de felicidade, pela sua profundidade ontológica, está,
como não podia deixar de estar, no centro da grande mutação. A aventura ético-
moral, jurídica, social e política do homem moderno é indiscernível dos
desafios existenciais, laicos ou religiosos que se lhe colocaram, e a ideia de
felicidade tornou-se naturalmente uma ideia-chave.
3. O Neoplatonismo de Cambridge (Cambridge Platonists): Benjamin Whichcote,
Henry More, John Smith e Ralph Cudworth.
Alguns autores consideram ainda Nathanael Culverwell e Richard Cumberland como
pertencendo, senão ao círculo dos Cambridge Platonists pelo menos ao ideário
neoplatónico3, ou ao contrário, não é relevante. Mas, embora haja afinidades,
maiores no caso de Culverwel, a análise de ambas as obras levou-me a considerar
estes autores à margem do movimento neoplatónico inglês. E assim, quando estou
a referir-me ao Neoplatonismo de Cambridge estou de facto a referir-me
sobretudo a Ralph Cudworth, mas também a Benjamin Whichcote, John Smith e Hery
More.
O Neoplatonismo de Cambridge justifica e exige por si uma reflexão aprofundada
neste esboço do pensamento ético-moral da protomodernidade porque, penso eu,
uma determinada linha de orientação, muito frutuosa relativamente à autonomia,
tal como eu a entendo, tem nesta escola de pensamento, um momento inaugural,
sobretudo no seio da cultura ético-moral e jurídica inglesa. Tenho para mim que
autores como Shaftesbury, William Wollaston, John Balguy, Samuel Clarke,
Richard Cumberland e até Joseph Butler manifestam, nas suas obras, uma dívida
expressa relativamente aos Cambridge Platonists e sobretudo à sua figura
tutelar, ou seja, Ralph Cudworth.
Não quis, contudo, evidenciar este autor em prejuízo dos outros membros do
círculo neoplatónico, já que se encontram em todos eles não só elementos que
culminaram em Cudworth, como alguns elementos estritamente pessoais, mas de
grande importância para os autores posteriores, elementos teológico-religiosos
desde logo, mas com implicações éticas, morais e jurídicas. E o pensamento dos
neoplatónicos de Cambridge não se compreende desligado do seu carácter
apologético, e ao mesmo tempo polémico, contra a tradição dominante da cultura
inglesa na mesma época. Estou a referir-me a uma tradição com duas componentes
essenciais, o puritanismo e o empirismo4.
Durante muito tempo estas duas orientações intelectuais andaram desligadas, mas
investigações, ia dizer recentes, e em boa verdade não tão recentes assim,
mostraram que elas são duas faces da mesma moeda. O empirismo com a sua
dimensão naturalista e sensista e o puritanismo com a sua dimensão
teologicamente voluntarista (positivista) e integrista adaptam-se muito bem e
adaptaram-se historicamente muito bem. Esta adaptação pareceria estranha a um
leitor desprevenido, mas as análises de Ernest Cassirer5 e as intuições de
Windelband6 e Eliade7, assim como os últimos desenvolvimentos do pensamento de
Charles Taylor8 e sobretudo dos neokantianos franceses9, entre seguramente
muitos outros autores, dissiparam as dúvidas, para mim: O empirismo inglês
uniu-se estruturalmente ao que de mais heterónomo e menos humanista se formou
na cultura da protomodernidade europeia.
É neste contexto que o pensamento neoplatónico do século XVII ganha uma
acuidade insuspeita e merecida. O seu significado, intelectual e socio-
político, sofre uma metamorfose radical pela contextualização. E não é a
primeira vez, e não será seguramente a última, em que o valor intelectual e até
o significado, na história do pensamento, de um determinado movimento ou autor
é obrigatoriamente reavaliado e adquire um significado que, a priori, parecia
não possuir. No limite, pode mesmo sofrer uma torsão de significado. Se não
fosse a contextualização, o movimento do Neoplatonismo de Cambridge seria
julgado como uma espécie de anacronismo, como aliás faz Cassirer que, a meu
ver, não foi ao fundo das implicações que o movimento continha em si do ponto
de vista histórico. Ele diz explicitamente que, numa época em que dominavam o
Discurso do Método de Descartes e o Novum Organonum de Bacon, a obra de
Cudworth parece um anacronismo. O verbo parecer salva o autor de um erro maior,
mas o desenvolvimento da sua tese mostra que Cassirer, para lá do génio de ter
percebido a legitimidade deste tipo de pensamento, assim como a lógica obscura
do pensamento adverso, ou seja do empiro-puritanismo, não logrou atribuir-lhe o
valor de que ele era portador.
Eu penso que só hoje estamos em condições de o fazer, hoje, quer dizer, depois
da denúncia corporizada na metafísica do sujeito de Heidegger, da crise da
razão e da autonomia, denunciadas ambas pela Escola de Frankfurt e, mais
recentemente, pela crise global da modernidade e pela emergência de um novo
paradigma, mais antropológico e menos sociológico, que a pós-modernidade
sublinha, ao mesmo tempo que, paralelamente, uma nova reorientação das
filosofias do sujeito procura salvar a razão e o próprio sujeito da morte
anunciada que os estruturalismos, de toda a ordem, lhe urdiram e anunciaram.
Por isso, hoje estamos em condições de considerar que o neoplatonismo foi tanto
um anacronismo como a Escolástica Peninsular havia sido um anacronismo, ou
seja, anacronismo nenhum, mas antes, pelo contrário, que este tipo de juízo
correspondia ao preconceito de um olhar inquisidor que se colocava à margem da
natureza profunda de ambos os movimentos.
Hoje estamos em condições de poder compreender que o Neoplatonismo de Cambridge
representou um poderoso esforço para salvar o homem das tenazes da heteronomia
mais radical e assim promover uma escapatória humanista e autonomista que, nos
seus desenvolvimentos mais consequentes, vai conduzir ao humanismo das luzes e
até ao próprio coração da autonomia, ou seja a Kant.
As questões jamais se colocaram com este tipo de clareza esquemática pois, de
facto, os inimigos jamais se afrontam no plano da realidade das suas naturezas
mas sempre no plano das suas ideologias transcritas, embora, em boa verdade,
seja sempre a realidade não confessada que é o móbil secreto do antagonismo e
da inimizade. Para o puritanismo tanto quanto para o empirismo os inimigos são
a especulação e o espírito contemplativo e os valores dinâmicos a salvaguardar
contra os inimigos são a acção e, atrevo-me a dizer, o poder. Acção e poder
ligados umbilicalmente à prática, ao real concreto e ao progresso daí
emergente. Por isso, para uns a felicidade está ligada à acção enquanto, para
os outros, ela está ligada à compreensão. Sabemos o quanto um conceito como o
de compreensão era desagradável aos olhos do puritanismo.
Se nos ativermos apenas à espuma das ideias, à sua aparência imediata, seríamos
levados a pensar que a filosofia da natureza dos Cambridge Platonists
representaria uma regressão. É óbvio que a espiritualização da natureza pode
ter consequências funestas para o progresso científico, sobretudo se for levada
ao extremo de uma recaída numa espécie de panteísmo organicista, onde mergulhou
tanto, uma parte significativa da renascença como, mais tarde, o romantismo.
Mas, em contrapartida, a completa separação, como fizeram os empiristas, entre
a ideias de progresso técnico ligado à instrumentalização da natureza e a
compreensão racional e autónoma de um sujeito que se constitui em norma e
fundamento para si mesmo, pode conduzir o progresso científico a um processo de
reificação, processo esse, que aliena simultaneamente a autonomia do sujeito, a
sua auto-compreensão, e a compreensão global do processo científico,
pulverizado pela atomização das micro compreensões ligadas à simples amálgama
de empiricidades dispersas.
Cassirer afirma que Bacon procede à separação dos domínios do conhecimento e da
fé, não para salvar a religião mas, para melhor salvaguardar os domínios dos
poderes cognitivos naturais. Ora eu penso justamente o contrário, isto é, que a
coligação entre o puritanismo e a experiência, com claro desdém pela razão
teórica, significou a defesa intransigente dos valores tradicionais da igreja e
de uma fé mantida em cânones repressivos, irracionais e arbitrários, e onde os
conhecimentos práticos elaborados na prática científica de tipo empírico não
constituíam, por falta de um elemento agregador e sistematizador, pensado e
reflectido, uma alternativa global ao poder da Igreja. A condenação da razão é
a condenação do único elemento que poderia questionar a arbitrariedade, a
irracionalidade e a violência repressiva do integrismo religioso. A
desvalorização da razão deixa os dois domínios de tal forma separados e
incomunicáveis que não é possível a possibilidade de uma Mathesis Universalis,
essa sim, perigosa (preocupante).
Pela razão, pode chegar-se à construção de um sistema intelectual compreensivo
que integre a ciência e a fé ou que, pela sua natureza, exclua uma das partes.
A possibilidade de o homem pensar à margem dos imperativos estabelecidos, de
conferir ao mundo uma lógica e uma finalidade imanentes, de construir (criar)
um modelo de mundo e de vida satisfatórios, coerentes, e harmoniosos, no quadro
do qual possa resolver as suas finalidades terrenas de realização, de
felicidade e de perfeição secularizada, isso sim é que era afrontoso e
intolerável, por isso Lutero lhe chamou, a ela a razão, essa grande rameira.
E nem é tanto o perigo que a razão desempenha, enquanto factor de realizações
concretas, mas o que ela já significa enquanto prática teórica, enquanto
hábito, enquanto crença recorrente e tudo o que nela se coloca, as esperanças,
os motivos, enfim o facto de que ela representa a constituição de um novo
modelo de vida, de perspectiva, etc. Ela encerra juntamente com o humanismo que
lhe está intimamente associado um universo alternativo, um universo do
conhecimento e dos saberes, que subentendem um Saber, mas também um universo
ético-moral alternativo, onde o homem começa aos poucos a desgastar a
perspectiva escatológica e a começar a construir, mesmo que não
deliberadamente, uma espécie de paraíso na terra, pela via da secularização que
o simples uso da razão logra por si.
Não é uma questão de intencionalidade, nem de perspectiva, nem de teleologia, o
uso da razão gera mundos, o uso da razão desencanta, torna redundantes as
escatologias, numa palavra, o uso da razão seculariza, quer dizer racionaliza e
humaniza simultaneamente. Não interessa quais eram os objectivos do
Neoplatonismo de Cambridge, os objectivos teológicos e apologéticos, o que
interessa é que a revalorização da razão, que se operou nas suas obras, contra
a arbitrariedade irracional, promovia um sentido que era globalmente
racionalizador.
Tanto o empirismo como o sensismo, estigmatizados ambos por crenças religiosas
integristas, temiam, tanto quanto a Igreja, o poder dissolutor da razão. O
poder unificador dos saberes empíricos representava um perigo a que não eram
alheios os próprios promotores desse tipo de saberes. Se não fosse assim, a
ligação entre o empirismo e o puritanismo, e ela não é apenas um fenómeno
inglês, teria sido acidental. Ora, eu penso que não foi. De todas as vezes que
a Igreja entre os séculos XVII e XVIII se sentiu ameaçada, promoveu esse tipo
de coligação, digamos assim. Não se trata de uma teoria da conspiração até
porque entendo o fenómeno inconscientemente realizado na época e que só a
História das Ideias reconstitui.
Por exemplo, quando Cassirer diz que a desvalorização da razão, relativamente
ao seu papel no seio do pensamento religioso, significava para os Cambridge
Platonists, não um menosprezo de facto pela razão mas uma desvalorização da
religião, e esse é que era o perigo, para mim isso não é nada relevante.
Concluir que a preocupação dominante é a religião e não a razão é um falso
problema e significa tirar uma ilação discutível. No essencial é mesmo falsa.
Se para os Cambridge Platonists é considerado grave, para a religião, que se
afirme que ela não depende nem precisa da razão, só pode significar a imensa
conta em que os Cambridge Platonists tinham essa faculdade humana. Seja qual
for o sentido em que a interpretemos, a valorização da razão, é sempre uma
valorização. Em que conta não tinham os Cambridge Platonists a razão se
consideravam que a sua ausência representava um empobrecimento da religião, se
consideravam, no fim de contas, que a presença da razão nobilitava o fenómeno
religioso?
Uma prova, de que o esquema de Cassirer neste ponto é discutível e que, de
algum modo, mostra que a valorização da razão ocorria por ela mesma e não
decorria de um outro pressuposto está, por exemplo, no facto de que o primeiro
tutor de Benjamin Whichcote o censurava muito por seguir Platão e Plotino mais
do que os evangelhos, e a razão acima do espírito.
É evidentíssimo que está subjacente à valorização da razão pelos Cambridge
Platonists, ao ponto de a considerarem insubstituível, uma valorização por tudo
o que ela significa, por tudo o que ela põe em marcha, por tudo o que ela
promove e desencadeia. Os neoplatónicos de Cambridge são, embora não isolados,
pioneiros do processo de emancipação e de autonomia desencadeado pela
modernidade.
O próprio mecanismo do poder que está implícito no puritanismo e que se traduz
numa absoluta submissão à omnipotência divina, está, se bem que invertido, no
pensamento do pai próximo do empirismo moderno, Francis Bacon: The motif
scientia propter potentiam («Knowledge for the sake of power»).
Mas o saber que liberta não é poder, é quase imponderável e de uma
insustentável leveza. O saber, em vez de ser um poder, é a expressão de todo o
não poder que liberta do poder. Este tipo de saber é a simples expressão da
liberdade, da assunção de um espírito emancipador, da proliferação de uma
artificialidade que desconstrói todos os centros do poder, e que por isso de
uma forma radical emancipa, autonomiza, liberta.
A expressão do poder em Bacon é a contrafacção do poder emancipador, porque não
emancipa, e como de resto a história do ocidente veio a confirmar, esse poder
acorrentou, escravizou e tal não aconteceu como resultado de uma perversão.
Esta homologia entre o regnum hominis e o regnum deos, baseia-se afinal nos
mesmos pressupostos. Omnipotência e redução à neutralidade. Glória de Deus e
glória do homem. Na expressão da glória de Deus o homem é reduzido à dimensão
de escravo de um domínio cego, autoritário, arbitrário e irracional, o mesmo
acontece ao domínio do homem sobre as coisas. Em ambos os casos "it is an
absolute will based on power to which faith is subordinated and must blindly
submit"10.
É nessa cegueira que consiste uma prática empirista divorciada da razão e da
lógica, no quadro das quais deveria ser compreendida. Só enquadrada pela razão
e pela consequente compreensão a prática empirista faz sentido. Talvez que
tenha sido nisto que se tornou o processo emancipador das luzes e da
modernidade, mas o projecto inicial das luzes não subsumia razão e vontade
nesse poder cego, implícito no empirismo inglês e no puritanismo. O projecto
emancipador das luzes contemplava, simultaneamente, liberdade e autonomia, e
pressupunha no seu ideário complexo, bondade, benevolência, optimismo, justiça
e justamente não um progresso cego mas, pelo contrário, um caminho iluminado
pelas luzes da razão.
Por outro lado, adiantarei também que o fatalismo é um contravalor das luzes,
uma vez que ele se opõe a um dos pontos essenciais do seu ideário, e que
consiste no sentido do aperfeiçoamento, da perfectibilidade que é congénita ao
homem e à humanidade, do progresso a todos os níveis e não apenas no plano
material e prático. A redução do progresso aos prestadios é filisteísmo, a
concepção global de um progresso para a humanidade é humanismo. As luzes são
humanistas, mau grado a sentença de Foucault, a todos os títulos muito pouco
convincente.
Só para aqueles que viram no poder distorcido da modernidade um poder de
salvação consideraram perversa a transfiguração que lhe aconteceu, porque, em
boa verdade, o futuro era previsível. O que aconteceu estava latente na própria
assunção do saber como poder. Não deixa de ser curioso verificar que estas duas
formas do poder continuem juntas nos nossos dias.
A posição dos Cambridge Platonists é completamente adversa desta concepção de
poder e de domínio. Para os Cambridge Platonists, tanto o puritanismo como o
empirismo brotam de uma ideia de espírito prático estrito dirigido no sentido
do domínio sobre o homem e sobre as coisas. Com alguns séculos de avanço eles
conduziam uma luta que finalmente se tornou clara. Uma certa interpretação e
uma certa tendência imersa na modernidade do humanismo das luzes, conduziu a
esta instrumentalização e domínio sobre o homem e sobre as coisas. Há no
pensamento dos Cambridge Platonists e na sua luta como que um augúrio da
história da modernidade.
3.1. Whichcote, More, Smith e Cudworth.
"What is contrary to the order of reason, is contrary to the state of nature".
Benjamin Whichcote
Não seguirei os passos da apologética própria dos Cambridge Platonists, embora
até nessa atitude teológica se desenhe muito bem o sentido do pensamento que
interessa mostrar, mas apenas porque isso seria moroso. E portanto estarei mais
atento aos aspectos ético-morais em sentido estrito.
No Enchiridion Ethicum, More sustenta que a virtude não é um hábito mas um
poder e, à boa maneira estóico-cristã, um poder de governo sobre as paixões,
situado na parte intelectual da alma, agora à boa maneira platónica. No
entanto, depois, cai numa aparente contradição quando afirma que as paixões são
anteriores a qualquer deliberação e, desse modo, elas são portanto anteriores
ao trabalho racional da proaíresis (προαιρεσις), e sendo anteriores à razão
elas são ainda parte da natureza. Elas são natureza. Se a natureza é obra de
Deus, elas vêm de Deus e são portanto inevitavelmente boas, porque toda a
criação é boa. Então elas estão de acordo com as leis da natureza. E se as leis
da natureza são o murmúrio da voz de Deus dentro de nós e portanto o murmúrio
da própria lei divina, não haveria lugar para a necessidade de um governo sobre
as paixões. Mas o autor considera que o murmúrio de Deus é mais audível na
razão, no nosso estado intelectual, e assim é como se a razão ouvisse primeiro
a voz de Deus. Daqui decorre já toda a precedência da razão assim como a sua
capacidade de liderança.
Do ponto de vista de uma ética cognitiva More coloca-se imediatamente no plano
cognitivista e de um cognitivismo puramente intuicionista.
Os Ethical Noemata são verdadeiros axiomas morais, tão válidos quanto os
axiomas geométricos, porque permitem o acesso imediato a verdades morais ou
essências morais auto-evidentes e imutáveis. Eles são portanto verdadeiras
primeiras verdades. O pensamento de Descartes desempenhou, como se infere, um
papel determinante em More e em quase todo o Neoplatonismo de Cambridge. O
intuicionismo moral de More reforça-se através da concepção da boniform faculty
e alguns autores viram nela uma prefiguração do Moral Sense. Mas a meu ver é
tanto uma prefiguração do senso moral quanto da razão moral, uma vez que ela
representa uma espécie de divina sagacidade, embora o que mais interesse seja o
carácter de intuicionismo moral que inequivocamente inaugura. Acrescento ainda
que se o Neoplatonismo de Cambridge influenciou o senso moral e a razão moral
não influenciou menos a consciência moral de Butler. Enfim, este é apenas mais
um aspecto em que o Neoplatonismo de Cambridge deixou marcas profundas e
duradouras.
Mas, talvez que ainda mais importante do que o intuicionismo moral importa de
facto o sentido de umaagency, prática norteada por essa mesma boniform faculty,
no sentido de um envolvimento com a felicidade individual. A definição de ética
para More é já em si muito esclarecedora: "ars bene beatque vivendi"11, sendo
que, nesta linha de orientação, ele define assim a felicidade: "beatitudi est
voluptas quam animus percepit ex sensu virtutis, rectaque (et ad virtutis
normam) factorum conscientia"12. E é este sabor finalístico e eudemonístico que
afasta More do seu mestre Cudworth cujo transcendentalismo aproxima mais de
Kant, como se há-de ver. A íntima conexão entre felicidade e virtude, em More,
matiza o seu intelectualismo e, através da boniform faculty, introduz toda uma
dimensão do sensível com contornos vagamente hedonísticos. E essa capacidade de
gozo moral reside "in facultate animae Boniformi, nempe in ea facultate qua
sapimus id quod simpliciter et asolute optimum est, eoque unice gaudemus"13.
Whichcote evidenciou a importância decisiva destes primeiros princípios, destas
evidências racionais imediatas, de uma forma muito sugestiva, ao afirmar que
"We know in reason, that first principles are self-evident, must be seen in
their own light, and are perceived by an inward power of nature. For, as we
say, out of nothing comes nothing;so, grant nothing; and nothing can be
proved"14. Há um ponto em Whichcote ao qual sou dado a atribuir uma enorme
importância e que consiste no facto de que, para este autor, a moralidade é por
si suficiente para que se possa ganhar a salvação. Formulação que anda próxima
do pelagianismo e que confere ao ser humano um enorme protagonismo no seu
processo salvífico. Claro que se pode dizer que esta afirmação não pode ser
descontextualizada do facto de que Benjamin Whichcote considera a moralidade
como uma espécie de coração da religião. Sem dúvida que esse pormenor faz muita
diferença, mas não fará menos o facto de que o nosso pensador considera que a
moralidade deve ser conhecida pela razão e não através do apelo à autoridade,
incluindo a autoridade Bíblica. E ainda que, se vivermos de acordo com as leis
morais poderemos ser verdadeiramente felizes, aliás podemos até deificar-nos15
através de obras virtuosas. Mas o mais relevante, e o que mais me interessa a
mim é o facto de que o autor reconhece a existência, em nós, de uma espécie de
soberania «over ourselves», que está na base de um poder de autonomia a todos
os títulos relevante.
Finalmente, e é lapidar em Whichcote, e exprime não só a dignidade da razão mas
o seu carácter insubstituível: «We are not taught, but made to know». Penso que
é de todo o interesse e vale portanto muito a pena ler a sentença no seu
contexto:
"Thus Scripture represents the State of Man's Creation; that it is
the proper Employment of Mind and Understanding, to seek after God,
to act our Faculties, to feel God. Therefore it is the Depth of
Degeneracy, to be without God in the World; to have God far from our
Remembrance. There is a natural and indelible Sense of Deity, and
consequently of Religion, in the Mind of Man. Neither is there any
Plea or Apology for the want of this. For there is no invincible
Difficulty; no Ignorance: We are not taught, but made to know. There
is no Impotency: For every one can use the Parts of Nature; at least,
when at Age. There is no Impediment: For it is transacted within ones
self: Not subject to be Control of any Usurper. For, an internal
Elicit Act is exempt from all the World: And may be done by the Mind,
which is at liberty; when the Person is under restraint"16.
Há um laço interno entre a moralidade e o Eu. Deus fez-nos para conhecermos o
modo de aceder a Deus, deu-nos as faculdades sólidas e de confiança para o
conseguirmos, além de que nos criou de tal modo que a moralidade se nos torna
como que inerente. Ser moral é ser racional. A imoralidade é desrazão. E é
assim, de tal modo, que ser salvo se torna simplesmente uma consequência de
viver de acordo com aquilo que nós próprios vemos como sendo certo. Só assim
faz sentido a religião e a moralidade17.
Penso que é nesta dicotomia, que é possível estabelecer, entre uma moralidade
imanente e uma moralidade transcendente, que se abre a grande avenida por onde
há-de passar a modernidade. E é claro que esta bipolarização determina uma
outra dualidade, não menos relevante, voluntarismo / autonomia. E é desde a
Escolástica Peninsular que, passando pelo Neoplatonismo de Cambridge, este
caminho se começa a desenhar. Ainda que alguns autores recuem esta genealogia
até S. Tomás, através das causas segundas, penso que tal é inadequado. Em S.
Tomás ' e apesar da importância atribuída à razão e apesar da mundanização
implícita nas causas segundas ' há pelo menos três elementos que são avessos à
autonomia. A ideia de regula (régua e regra) para o comportamento moral
funciona como uma muleta, sem ela o homem escreveria torto, ou seja, errado. Em
segundo lugar desprende-se, no plano antropológico, uma espécie de determinismo
metafísico essencialista através do qual, obedecendo o homem ao telos da sua
natureza, o homem tenderá naturalmente para o bem, quer dizer para a sua
perfeição, ou seja para a felicidade. Esta injunção: perfeição (bem e
felicidade), natureza, virtude, confere um sentido holista à vida moral que não
pressupõe um arreigado sentido da autonomia. Finalmente, falta ao pensamento
aquiniano e como consequência do que acabei de dizer, um princípio regulador
individual que sendo racional é de ordem prática e que assim acentua o sentido
internalista e autonomista das decisões morais.
As convicções anti-voluntaristas, associadas à constitutiva bondade das
criaturas, homóloga da bondade divina, e ao papel determinante da razão que nos
foi atribuída com o triplo papel de conhecer, de aceder a Deus e de governar a
nossa moralidade, conferem ao pensamento dos Cambridge Platonists a sua
originalidade e encontram-se sistematicamente estruturados no pensamento de um
deles, Ralph Cudworth, de uma forma tão original, que fazem deste autor o
grande pensador da autonomia nas vésperas da modernidade. É claro que nem tudo
aparece em Cudworth, e nunca é demais insistir no facto de que a defesa
intransigente da razão é comum a todo o grupo, e desde logo ao seu fundador. De
facto, encontram-se em Whichcote formalizações, como as que vou referir que,
sendo complementares, resumem bem tudo o que está em jogo: "If Reason did not
apprehend God; Religion could not be learn'd", e "If God had not madeMan to
know there is a God; there is nothing that God could have demanded of him"18.
Mas, não é exagerado afirmar que é no internalismo autonomista de Ralph
Cudworth que todo o sentido da autonomia se consagra. Aliás, o internalismo
autonomista de Cudworth é mais do que autonomista. É mesmo um internalismo de
auto-determinação que anuncia a revolução ético-jurídica neste domínio. Daí a
sua importância absoluta e relativa. Mas é justo que se diga que também este
sentido da autonomia foi comum a todos os membros do movimento, se é que de
movimento verdadeiramente se tratou.
3.2. Ralph Cudworth
3.2.1. Introdução
Mallum actum malum esse nisi quatenus a Deo prohibitum, et qui non
possit fieri bonus, si a Deo praecipiatur; et e converso. Ockham.
Se eu precisasse de uma referência, entre muitas, para situar a batalha
intelectual conduzida por Ralph Cudworth, este excerto de Ockham, retirado da
própria obra do neoplatónico inglês do século XVII, assentar-lhe-ia como uma
luva. É claro que os inimigos ideológicos estavam muito mais próximos e eram os
puritanos ingleses da mesma época, mas a verdade é que a fundamentação do
puritanismo é, pelo menos, tanto lutero-calvinista, quanto occamista.
Mas, sabe-se que desde a Escolástica Franciscana e até já antes através do
magistério de Santo Anselmo se começou a recuperar um património que pode ter
começado com S. Paulo e foi seguramente desenvolvido pelo Santo Agostinho das
obras posteriores às Confissões e que encontrou a mais desvairada formalização
com a reforma. Esse património estabelece um nexo indissociável entre, por um
lado, a tradição voluntarista e a omnipotência divina e, por outro lado, com o
positivismo da obrigação jurídica.
A ele não foram insensíveis autores como Hobbes e Locke e dominou,
concretamente, a tradição intelectual portuguesa setecentista. Em Portugal, é
um domínio suave e mitigado, mas é um domínio. O que eu quero dizer é que há
mais voluntarismo teológico que intelectualismo teológico na cultura portuguesa
do século XVIII. Há mais Santo Agostinho do que S. Tomás de Aquino. Muito
provavelmente, a luta contra a escolástica e contra o aristotelismo produziu
colateralmente esta consequência. Consequência perversa, atrevo-me a dizer.
Desde, pelo menos, o franciscano Roger Bacon que a esta ideologia teológico-
metafísico-jurídica se acrescentou um elemento empírico-naturalista e sensista,
com particular ênfase no sentido prático e utilitário dos saberes, acompanhado
também invariavelmente por uma suspeição, a meu ver suspeita, acerca dos
poderes da razão. Este dispositivo, aqui esquematicamente esboçado, encontra,
nas vésperas da modernidade e dentro já do século XVIII, um papel nuclear no
combate intelectual contra as formas mais ousadas da secularização, tanto no
domínio ético-moral, como no domínio estritamente jurídico-político.
Em conformidade com este esquema, interessa-me sobremaneira evidenciar, para a
mesma época, todas as reacções sistemáticas ao modelo. Não me interessa se a
propedêutica é de natureza teológica ou laica. Onde quer que o pensamento se
tenha entrincheirado para combater o pessimismo ontológico19, a heteronomia
alicerçada na desvalorização da razão, a redução do processo soteriológico à
arbitrariedade da Graça e finalmente a condenação da felicidade terrena, e onde
quer que, pelo contrário, se tenham promovido as faculdades próprias do homem,
a autonomia centrada na racionalidade, a bondade intrínseca de Deus e a
possibilidade humanista da salvação transcendente e da felicidade terrena,
estão encontrados para mim os precursores da tradição emancipadora das luzes.
Neste acervo genealógico, o pensamento dos Cambridge Platonists desempenha um
papel notável e nuclear e, dentro dele, o pensamento específico da sua figura
mais proeminente, a saber, Ralph Cudworth.
3.2.2. Intelectualismo e voluntarismo
Vou voltar à epígrafe de Ockham. Ela diz textualmente que nenhum acto é mau se
não for proibido por Deus, e que também não se torna bom se não for por Deus
ordenado. E assim esta epígrafe sintetiza tudo o que Cudworth resolveu atacar
sem desânimo. Mas não bastava ao platonizante autor do século XVII limitar-se a
criticar o voluntarismo, enredando-se em intermináveis quezílias teológicas.
Ele percebeu que o que suporta o voluntarismo é uma antropologia e uma linha de
orientação ética e moral, dela decorrente.
E uma vez que a linha que conduziu à formalização moderna do voluntarismo,
nomeadamente em Hobbes mas também em Locke e até em Pufendorf, se bem que neste
autor de uma forma mais ambígua, radica numa concepção não essencialista da
natureza humana e das próprias coisas, chegando-se a promover um relativismo
próximo do cepticismo e do niilismo, Cudworth tomou-se de brios e ultrapassou-
se na promoção de uma natureza eterna e imutável das coisas.
Uns dizem que o bem e o mal, o justo e o injusto só existem pela lei e não pela
sua natureza, seja ela qual for. Outros acrescentam que não há nada que seja
absoluta e intrinsecamente bom ou mau, ou ainda justo e injusto, anterior a
qualquer decreto, ordem ou proibição positiva de Deus.
Mostra Cudworth, através de um acervo muito razoável de exemplos na história do
pensamento e da cultura que, desde Platão (na nossa cultura), estas posições se
tornaram habituais. Na tradição pagã estas posições foram protagonizadas por
Cálicles e Trasímaco, no Górgiase na República, mas também por Protágoras no
Teeteto, Polus no Górgias, e Glauco no Político. Se acrescentarmos a estes
nomes os de Aristipo de Cirene, fundador da escola pós-socrática mais
consistentemente promotora do hedonismo como filosofia de vida e outros como
Demócrito, Pirro o fundador da escola céptica, Carnéades fundador da Nova
Academia nos séculos III e II a. C., altura em que culminou, no seio dos
académicos, a orientação céptica, que havia começado com Arquesilau na Academia
Média durante o século IV e III a. C.; tem-se uma perspectiva, suficientemente
ampla, para perceber que este tipo de posições corresponde à orientação de
escolas de pensamento marcadas por ideologias relativistas e/ou cépticas. Assim
aconteceu com os sofistas, os retóricos visados por Sócrates e, ainda, as
escolas pós-socráticas, sobretudo as helenísticas, já numa época de extensa
crise da polis.
Salvaguardo aqui a posição de Epicuro uma vez que me parece que a devo colocar
noutro plano e assim à margem do cepticismo e relativismo dominantes:
"Pour tous ceux des êtres vivants qui n'ont pas pu passer de contrat
sur le point de ne pas faire de tort mais de n'en pas subir non plus,
à l'égard de ceux-là, rien n'est juste ni injuste ; de la même façon
aussi à l'égard des peuples qui n'ont pas pu ou n'ont pas voulu
passer de contrat sur le point de ne pas faire de tort ni d'en subir.
(...) La justice n'est pas un quelque chose en soi, mais, quand les
hommes se rassemblent, en des lieux, peu importe, chaque fois,
lesquels et leur grandeur, un certain contrat sur le point de ne pas
faire de tort ou de ne pas en subir"20.
A ideia de Pacto ou de Contrato superioriza-se a tudo o resto. Epicuro não se
refere ao problema do bem e do mal, apenas à justiça, e intui-se que não
estamos na ombreira de uma ideia absoluta de justiça mas da justiça relativa à
polis e à vida social. A posição de Epicuro, até pelo que eu disse, é de uma
estranha modernidade e actualidade. Exemplos como este permitem-me dizer que o
neo-epicurismo na Europa no século XVII alcançou uma dimensão muito apreciável,
através da obra de Gassendi mas não só.
Mas vou voltar a Cudworth. Como eu estava a dizer, o autor sentiu a necessidade
de uma propedêutica ontológica fundamental através da qual pudesse erguer a sua
epistemologia moral essencialista. Ou seja, partir do facto de que existe uma
natureza nas coisas, ou de que as coisas possuem uma natureza o que é o mesmo,
de que elas possuem portanto uma essência, e que essa essência ou natureza é
eterna e imutável e ainda, uma vez que é esse o objectivo central, que é da sua
apodicticidade que dependem as propriedades morais. Ou seja, que a moralidade
deriva de uma natureza e não de uma normatividade positiva e arbitrária21.
Neste ponto, reconheço, Cudworth mantém-se muito ligado ao legado aristotélico-
tomista. É por isso que ele considera que, e é todo o objectivo do capítulo II
do seu tratado, existem coisas que o são por natureza, e sendo assim, entidades
como o bem e o mal, o justo e o injusto "(...) cannot possible be arbitrary
things made by will without nature, because it is universally true, that things
are what they are, not by will but by nature"22.
Esta é a base de todos os desenvolvimentos ulteriores e por isso o autor renova
esta convicção reiteradamente sob muitas formas proposicionais (elocutórias):
Nomeadamente que "is impossible anything should be by will only, that is,
without a nature or entity, or that the nature and essence of any thing should
be arbitrary"23; ou ainda e finalmente que, apesar de todas as coisas serem
criadas por Deus e de Deus dispor de uma vontade plena de poder e de uma
ilimitada capacidade para ordenar, mesmo assim, "(...) yet when things exist,
they are what they are, this or that, absolutely or relatively, not by will or
arbitrary command, but by the necessity of their own nature"24.
Até porque, e já se sabia, o próprio Deus "cannot supply the place of a formal
cause"25, embora ele seja a suprema causa eficiente. Mas Cudworth, no auge do
seu intelectualismo anti-voluntarista, já disse o mesmo de uma forma mais
parecida com a célebre formalização dos autores que mais o influenciaram,
Grócio e de uma maneira geral a Escolástica Peninsular: "Neither can
Omnipotence itself To speak with reverence by mere will make a thing white or
black without whitness or blackness, (...) Or, to instance, in geometrical
figures, omnipotence itself cannot by mere will make a body triangular without
having the nature and properties of a triangle in it"26.
E nada disso apoquenta o nosso autor uma vez, que como refere Schneewind, "It
is not limiting God's power to say that he can do only what is not self-
contradictory", argumento forte sem dúvida e que se reforça porque acrescenta
logo que "God's wisdom is as much a part of God as his will, so if the latter
is limited by the former, God is still not controlled by anything external to
himself"27.
Schneewind limita-se aqui a fazer uma paráfrase bem lograda do § 7, do cap.
III, do Livro I. Mas eu prefiro este tópico desta parte da obra de Cudworth
onde ele diz liminarmente,
"Wherefore as for that argument, that unless the essences of things
and all verities and falsities depend upon the arbitrary will of God,
there would be something that was not God, independent upon God (...)
there is no other genuine consequence deducible from this assertion,
that the essences and verities of things are independent upon the
will of God. Now the wisdom of God is as much God as the will of God.
And whether (which) of these two things in God, that is, will or
wisdom, should depend upon the other, will be best determined from
the several natures of them"28.
E, não pode haver dúvidas sobre isso, é totalmente compreensível que seja a
vontade a submeter-se à sabedoria. Até porque, e Cudworth não enjeita para o
caso o léxico neoclássico, "For wisdom in itself hath the nature of a rule and
measure, it being a most determinate and inflexible thing. But will being not
only a blind and dark thing as considered in itself, but also indefinite and
indeterminate, hath therefore the nature of a thing regulable and
measurable"29. E portanto, vai longa a citação, o mais normal é que seja a
faculdade dotada do sentido do limite, da medida e apetece dizer, da proporção
e da harmonia que deve regular a faculdade à qual tudo isso falta e que
portanto contém em si o ilimitado, a ausência de bornes, de medida, etc. Se nos
lembrarmos o que tudo isso significa, arqueologicamente falando, pode concluir-
se, sem que isto represente um salto no escuro, que é natural que seja o bem a
regular o mal, uma vez que o bem e a bondade são o domínio do limite e da
medida.
Mais tarde ou mais cedo Cudworth daria o salto que desde o princípio se
adivinha, ou seja, a fundamentação do direito. E se até aqui a luta foi
conduzida contra o voluntarismo moral agora o inimigo é o positivismo conexo.
Todo o § 3 do capítulo II do Livro I não é mais do que uma paciente condução de
argumentos para deslocar a hierarquia das leis com o objectivo claro, primeiro,
de subalternizar o direito positivo relativamente ao Direito Natural e, depois,
inverter o nexo de causalidade entre a justiça e a lei, no sentido de que as
coisas são ordenadas porque são justas e nunca que sejam boas pelo facto de que
sejam ordenadas. Quer dizer, a lei vem ao encontro de uma justiça que lhe pré-
existe e não é portanto a lei que inaugura o domínio da justiça e estabelece a
fronteira entre o bem e o mal. Há uma consciência do que é certo e errado, bom
e mau, justo e injusto e a lei limita-se a dar corpo formal a essa verdade e
dimensão coerciva à obrigação que está imediatamente nas consciências e não a
ideia peregrina de que é a lei --- através da emergência da sua formalização,
essa erupção normativa vindo do nada acrescentada à força coerciva, que o
lawgiver lhe conferiu --- que determina a justeza ou não do comportamento
humano. A adequação ou inadequação está na natureza das coisas como viu
Cudworth e depois dele todos os intuicionistas morais, que reconhecem não só a
essência da moralidade mas ainda a existência de uma faculdade própria para a
perceber, uma vez que não haveria adesão sem essa compreensão.
É curioso que o intucionismo moral de um Cudworth se simplificou através dos
epígonos, sejam os defensores do intuicionismo racional, Wollaston, Clarke,
Balguy, Price, Malebranche e Leibniz, quer os defensores do senso moral, e não
descrimino o sentimentalismo moral ou o senso moral de razão prática,
Shaftesbury, Butler, Hutcheson, Reid, Hume, Smith. Em Cudworth a razão teórica
é acompanhada de uma razão prática responsável pelo tipo muito particular de
intuicionismo e de internalismo autonomista que caracteriza o seu pensamento
moral.
3.2.3. Transcendentalidade e Autonomia
Mas é pela epistemologia transcendental que devemos começar. Se bem que seja da
autonomia que eu quero traçar os contornos decisivos e seja portanto ela o
móbil, por excelência, da minha reflexão preliminar à consideração da ideia de
felicidade no âmbito do universo mental da proto-modernidade, começo e bem pela
transcendentalidade.
É que a posição de Cudworth, até pelo seu essencialismo eterno e imutável,
favorece uma epistemologia da transcendentalidade, que o autor exprime de
múltiplos modos semânticos: «a priori»,«proleptically», «Inward antecipation of
the mind»,«that is native»,«domestik», etc., enfatizando todo um acervo de
elementos que constituem «condições de possibilidade» que residem, desde
sempre, na própria essência do agente. Todo o capítulo III do Livro III é a
defesa da transcendentalidade e seria demasiado especioso trazer ao meu texto
todas as formulações inequívocas desta orientação. Apraz-me registar aquela que
em minha opinião mais se aproxima da formalização kantiana: "Knowledge is a
comprehension of a thing prolleptically, and as it were, a priori"30,
formalização que foi ao ponto de identificar o objecto com o sujeito, "the
intellect and the thing Known are really one and the same"31.
À semelhança de Kant, a transcendentalidade conduz Cudworth, no plano moral,
para o domínio prático da motivação. Em Kant, a razão pura prática será levada
à construção de um imperativo categórico em que a motivação é apenas formal e
em Cudworth será o amor que aparece como fonte universal de motivação. Cudworth
desenvolveu o papel do amor num sermão pregado na Câmara dos Comuns em
Westminster em 31 de Março de 1647, mas o texto é mais apologético que
filosófico. Diz, contudo, coisas importantes relativamente ao seu pensamento.
Por exemplo que o amor tal como Cristo pregou aos seus discípulos e que
Cudworth cita a partir de versos paulinos (Coríntios I) e joaninos (João 4), é
"the source of true happiness"32; que "truth and love, are two the most
powerful things in the world, and when they both go together, they cannot
easily be withstood. The Golden Beams of truth, and the Silken cords of love,
twisted together, will draw men on with a sweet violence, when they will or no"
aqui33.Enfim, há aqui uma sábia mistura de caridade e erosplatónico na génese
deste entusiasmo. E finalmente, para já, "let this soft and silken knot of
love, tie our Hearts together, though our heads and aprehensions cannot meet,
as indeed they never will, but always stand at some distance off from
another"34.
Tudo isto é apologético e tem o sabor de um sermão mas lá mais para o fim o
discurso adensa-se intelectualmente e vale a pena citar longamente uma vez que
toda a fundamentação do papel moral do amor assim como o espaço de autonomia
que abre no agente moral o justifica:
"I do not here urge, the dead law of outward works, which indeed if
it be alone, subjects us to a state of bondage; but the inward law of
the Gospel, the law of the spirit of life, then which nothing can be
more free and ingenuous: for it doth not act us by principles without
us, but is an inward self-moving principle, living in our hearts. I
do not urge the law written upon tables od stone without us (though
there is still a good use of that too) but the law of holiness
written within upon the fleshly tables of our hearts. (...) They that
are acted only by an outward law are but like neurospast; (...) But
they that are acted by the new law of the Gospel, by the law of the
spirit, they have an inward principle of life in them, that from the
centre of it self, puts forth it self freely and constantly into all
obedience to the will of Christ. (...) The law that I speak of, it is
a law of love, which is the most powerfull law in the world; and yet
it freeth us in a manner from all law without us, because it maketh
us become a law unto our selves. (...) Love is at once a freedome
from all law, a state of purest liberty, and yet a law too, of the
most contraining and indispensable necessity"35.
Bastou que entre outras pérolas o autor tenha deixado escapar esta, «a law unto
our selves» para ter valido a pena a leitura do texto. A lei do amor é o
imperativo categórico de Cudworth, fonte de toda a moralidade e, tal como para
Kant, ela encerra o princípio da mais radical autonomia. Só o internalismo
absoluto desta concepção que passava pela rejeição total do modelo externalista
do voluntarismo positivista poderia augurar todo o sentido da emancipação, da
liberdade e da autonomia.
Ralph Cudworth voltará a fomentar o espírito de autonomia no seu tratado sobre
o livre arbítrio, através da recuperação de uma conceptualização estóica. Em
particular o conceito de eph'hemin. E que significa «as coisas que nos são
atribuídas», mas que ganhou ao longo da história do pensamento uma conotação
com a autarcia e a autonomia no sentido de que ao homem estão designadas, tanto
na vida social quanto na vida moral, responsabilidades relativamente às coisas
que estão no seu poder, in nostra potestate. E isso é que é a autonomia, o
reconhecimento de que reside nas capacidades intelectuais e volitivas do homem
uma possibilidade de autodeterminação, ou seja, a assunção de uma capacidade de
eleição e de realização próprias. É nisso que reside a valência emancipadora do
sapere aude.
Nos estóicos a expressão tinha sobretudo a denotação de uma responsabilidade
moral mas não se lhe pode retirar o sentido de que aí se alimenta um forte
sentido da autonomia. Uma autonomia que reconhece implicitamente outras
instâncias de poder e decisão mas que afirma que há coisas e domínios que nos
estão adstritos. Há assim o que está no meu poder e o que não está, o que
depende de mim e o que não depende, o que me está distribuído e o que não está,
aquilo de que sou ou posso ser responsável e aquilo de que não sou nem posso
ser, etc.
Apesar de residir no intelecto puro a dimensão sensível e afectiva do amor
universal, isso não implica que não possa ser gerido, em qualquer
circunstância, pela razão prática, pelo contrário, a impetuosidade do
sentimento amoroso ' impetuosidade clamada pelo próprio Cudworth, como se viu
atrás, ' exige uma faculdade própria. Em Deus, ser dotado de toda a perfeição,
a regulação é uma auto-regulação. A razão prática em Deus é uma razão prática
pura. Os seres imperfeitos necessitam de uma capacidade de auto-governo, de
auto-regulação. É aí que aparece o autexousious power. O autexousious power (το
αυτο εξουσιον) tem algumas afinidades com o poder de suspensão do juízo e da
acção que o autor promove como momento decisivo na procura das soluções
práticas.
Sem mais. Mas também se sabe que a necessidade do uso do poder de auto-
determinação, sobretudo quando converge com a imperfeição das criaturas,
costuma aparecer como um indício de falibilidade e de fraqueza. Não é o caso
agora.
Ela, a necessidade, é o pretexto para a autodeterminação, a oportunidade para o
agente exercer a liberdade e a autonomia, valor maior de uma filosofia que
anuncia o fim das muletas externalistas. Ele, o poder de autodeterminação, é
mesmo o poder de autonomia. E, sendo o órgão do poder da autonomia, ele é
também o garante das escolhas que garantem ao agente o caminho para a
felicidade.
Mas é o amor que coloca o agente no caminho da felicidade e é o amor que
mobiliza a razão pura prática através do seu órgão de autodeterminação, o
autexousy power. Por tudo isto se percebe o carácter central do Amor na
moralidade de Ralph Cudworth. Ele é o nexo entre a razão teorética e a razão
prática. Ele é o motivo ético fundamental. A moralidade em Ralph Cudworth, e
isso é extensível ao resto do círculo dos Cambridge Platonists, começa e acaba
com o Amor.
É por isso que "we conclude that the το πρωτος κινουν, that which first moveth
in us, and is the spring and principle of all deliberative action, can be no
other than a constant, restless, uninterrupted desire, or love of good as such,
and happiness"36. A felicidade não é o bem. A felicidade é o amor pelo bem.
Como já referi atrás, Cudworth, na linha de avaliação estóica da liberdade,
reconhece que não somos completamente passivos e condenados ao reino da total
necessidade: "We seem clearly to be led by the instincts of nature that there
is something ef emin, in nostra potestate, in our own power (though dependently
upon God Almighty)"37. Se não existisse esta margem de manobra, esta autonomia,
estava o homem inibido, eu diria mesmo constitutivamente, para "praise and
dispraise, commend and blame (men) for their actings"38.
Ora esta atitude moral é a prova de que não só possuímos a suficiente autonomia
para tais juízos, mas também que possuímos faculdades para exercer esse poder,
faculdades cognoscitivas e faculdades deliberativas. E para a questão da
autonomia são tão importantes umas quanto as outras. A própria noção de
imputabilidade e de responsabilidade moral decorre dum prévio sentido de
autonomia já reconhecido: "we do not impute the evil of all men's wicked
actions to God the creator and maker of them, after the same manner as we do
the faults of a clock or watch wholly to the watchmaker"39.
Em resumo o homem não vive num reino de absoluta necessidade. Possui liberdade
e autonomia. Não haveria vida moral, uma vez que não haveria responsabilidade,
se não houvesse liberdade e autonomia, isto é, se não se verificasse aquilo que
disse Cícero e que Cudworth sublinhou, isto é a culpabilidade imputada ao mal
cometido, malum culpae.
É do reconhecimento da responsabilidade e da autonomia, volto a insistir, no
reconhecimento de que há coisas que estão no nosso poder (a palavra poder é
aqui carregada de uma forte conotação humanista), que decorre a construção por
Cudworth do autexousious power. Em boa verdade este poder não é mais do que o
eph' hemin(sui potestas) estóico. E é claro, porque os conceitos não valem só
pelo que imediatamente significam mas também pelo que desencadeiam, quer dizer,
pelas consequências intelectuais que promovem, que o reconhecimento da
liberdade e da autonomia fomenta o sentido da perfectibilidade, da capacidade
de transformar as coisas, de as melhorar, etc. Todo o universo ideológico que
virá a triunfar com as Luzes; com os seus ideais próprios ligados aos conceitos
em que a ideologia se cristaliza (perfectibilidade, progresso, optimismo,
pedagogia, aprendizagem); se desdobra a partir da assunção de um valor
humanista fundamental, o da autonomia, que confere ao agente um poder
(liberdade) para transformar as coisas: "(...) there is a contingent liberty,
and that men have something in their own power add something of their own, so
that they can change themselves, and all things are not linked and tied in a
fatal adamantine chain of causes"40.
O inimigo que está no horizonte continua a ser o voluntarismo e o positivismo
sobretudo pelo que neles se cristaliza de predestinação, fatalidade, pessimismo
ontológico etc., e sendo assim, Cudworth regressa à teorização da liberdade
paradoxalmente subtraindo alguma liberdade ao próprio Deus, o que era
totalmente inaceitável por parte da linha teológica de orientação puritana. "
(...) it may be well concluded that God can act nothing contrary to the same
law of his own perfections, that is, can do nothing either foolishly or
unjustly"41.
A promoção da autonomia do autexousious powercomporta ainda uma consequência de
natureza teológica de extrema importância pela sua relação eminente com a
heresia pelagianista. É pela existência deste poder, e da liberdade que o
comporta, e desta autonomia que o põe em marcha, que justamente os actos
humanos são merecedores de encómio ou condenação. Ou seja, o poder permite
julgar e o exercício desse poder de julgar coloca-nos na alçada de um
julgamento sobre nós próprios. O poder da autonomia coloca directamente na
soleira do processo de salvação, já que permite uma valorização moral dos
actos. A autonomia é processualmente soteriológica. Como, de resto, já se
sabia, o pelagianismo comportava como perigo maior justamente este perigo de
que o homem se pudesse tornar um Deus para si mesmo. O pelagianismo comportava
a autonomia e a autonomia desencadeia uma soteriologia de tipo pelagiano.
Permita-se-me que circularmente regresse ao ponto de partida: quando o ser se
dota, através de um poder de autonomia, do poder de se salvar, o ser está no
caminho da sua própria divinização, ou seja, de se tornar um Deus para si
próprio. É, e sempre foi, o pecado da hybris que incluiu este desvio humanista.
E isto apesar de a tradição humanista poder comportar, como comporta, desde a
cultura clássica, uma dimensão que se opõe ao excesso e se determina pela
moderação, pela temperança e pela medida. Há na tradição humanista uma mediania
ôntica associada a um excesso ontológico. É esta contradição que alimenta um
conflito estrutural no seio da tradição religiosa, desde sempre. A tradição
humanista incorpora em si simultaneamente o excesso dionisíaco de todos os
prometeus e faustos da nossa cultura e ao mesmo tempo o «gentilhomme» e o
pequeno burguês. Em síntese: o excesso e a media res.
3.2.4. A autonomia em Ralph Cudworth. Análise complementar.
Poderia dizer-se, sem especulação, que o mais importante do pensamento do
Neoplatonismo de Cambridge se subsume nesta passagem da obra de Platão: "Then
Knowledge does not consist in impressions of sense, but in reasoning about
them; in that only, and not in the mere impression, truth and being can be
attained"42.
Uma boa proposição é por vezes mais esclarecedora que amplos discursos sobre um
tema. O que se diz aqui, extraído do Teeteto de Platão, mas citado a partir do
texto de Cassirer, The Platonique Renaissance, é para mim de uma enorme
utilidade para aprofundar a perspectiva da autonomia em Ralph Cudworth. Tenho a
certeza que ele próprio, Cudworth, e mesmo todo o Neoplatonismo de Cambridge,
no seu conjunto, assinariam por baixo, sem hesitações, este pequeno trecho. E,
no entanto, Cassirer, que o usa, não tirou a meu ver todas as ilações
possíveis, quer dizer, todas as potencialidades que o texto encerra. Esta
reflexão de Platão podia ser de Cudworth e foi com essa intenção que Cassirer
aqui a incluiu, de tal modo que logo a seguir confessa que esta citação dá o
mote ao pensamento próprio de Cudworth e mesmo assim continuou a referir-se ao
neoplatonismo como um movimento intelectual, essencialmente contemplativo e
meramente teorético, em cuja epistemologia se desenha um retrocesso em direcção
ao panteísmo da Renascença. Foi isso mesmo que ele disse. Mas agora nesta
passagem do seu trabalho acrescenta e sobre Cudworth que "all knowledge is
actio not reactio; it is free creation and association, not reception"43.
Eu não podia estar mais de acordo. Esta concepção de conhecimento, assim como o
modo como implicitamente desvaloriza o conhecimento sensista, permite perceber
imediatamente a íntima relação entre o empirismo, o sensismo e os sectores mais
conservadores da Igreja e da sociedade, assim como a luta sem quartel que
continuava, nesta época e ainda depois, a ser conduzida contra a razão. É o
momento de introduzir aqui o que, muito acertadamente, Charles Taylor escreveu
sobre o assunto: Reconhecendo que existe uma afinidade histórica entre o
«empiricist mechanism» e o «Puritans theological voluntarism», e que
inclusivamente este enlace foi já notado, referir-se-á talvez a Cassirer ou a
Windelband, ou aos dois, acrescenta de seu moto e a meu ver num sentido
totalmente correcto,
"this theological outlook itself pushed towards the adoption of the
mechanistic world picture, (...) God's sovereignty was best
safeguarded in face of a creation without purpose of its own. But the
disengaged subject resembles the Deity in this respect.
Disengagement, (...) operates by objectifying the domain in question,
rendering it neutral. The disengaged subject of empiricist mechanism
takes over some of the prerogatives accorded God in Occamist
theology. Indeed, in some ways the new outlook can be seen as a kind
of anthropological transposition of this theology"44.
Ora, era essa neutralidade que asfixiava o humanismo, uma vez que ela favorecia
a assunção de uma lógica de poder e de domínio, como já se viu, tanto sobre as
coisas como sobre o próprio homem. E, pelo contrário, era contra essa
neutralidade anti-humanista que porfiava a teologia do Neoplatonismo de
Cambridge. Este é que era o cerne da questão senão em consciência pelo menos o
que subterraneamente alimentava a discórdia e, sem sombra de dúvida, o que
acabou por vir à superfície e alimentou as explorações que tenho vindo a
explorar (Cassirer, Taylor, Windelband, entre outras).
O voluntarismo do pensamento puritano presente em Hobbes e em Locke, por
exemplo, chocava profundamente os Cambridge Platonists e muito em particular
Cudworth, e o grande objectivo tornou-se a defesa da liberdade religiosa, assim
como da sua beleza intelectual, contra as formas de fanatismo e de
irracionalidade. Só que a mobilização retórica e argumentativa contra o
voluntarismo positivista, contra a sua arbitrariedade legal, por um lado, e
contra a sua desvalorização do homem e da inteligência, por outro, forçou a
construção de um modelo parapelagiano e profundamente humanista.
Foi talvez no plano jurídico que melhor se exprimiu a rebelião de Cudworth
contra a heteronomia e o domínio cego, a que já aludi.
Nesse plano, a perspectiva de Ralph Cudworth é muito estimulante do ponto de
vista em que coloco a minha análise. Ele diz, e cito Cassirer, que "the true
noμoς (law) is no mere δογμα πολεος (decree of a city) but implies something
substantial, self-existing, and valid in its own right, it is του οντος
εξευρεσις (The discovery of being)"45. É esta a concepção que, modernamente,
foi adquirindo a autonomia para o sujeito moderno. O homem dá-se a lei para si
mesmo e submete-se-lhe.
Na articulação de Cudworth explora-se ainda o elemento mais orgânico e não o
elemento puramente artificial. E se é verdade que esta identificação da norma
com a descoberta do ser pretenda conferir à norma uma essencialidade
ontológica, que ela perderá mesmo em Kant, não é menos verdade que se pode ler
a locução como sendo a expressão de uma procura universal da norma, aquela
norma que seja capaz de se impor tanto ao indivíduo quanto à comunidade.
Mais adiante, Cassirer toca o âmago da questão quando diz que "in its
controversy with Calvinistic dogma the Cambridge School now occupies exactly
the same position that Pelagius had taken against Augustine, and Erasmus
against Luther"46. Já o tinha percebido e desde sempre me pareceu que a grande
fronteira do conflito, mas não apenas deste conflito regional, mas de toda a
conflitualidade que eclode a partir da protomodernidade, é a do humanismo
contra os seus inimigos. Ora, para este efeito, nada é mais indicado que trazer
Pelágio a terreiro. De facto ele é e será sempre a melhor metáfora do
humanismo.
E para deixar Cassirer em paz, por agora, nada melhor que persegui-lo até às
últimas frases deste seu capítulo III, porque irá dizer o que já esperava e
nada mais do que isto, no fim de contas, que o Neoplatonismo de Cambridge
preparou a superação do conflito a que acabei de fazer referência na medida em
que preparou a autonomia do imperativo categórico kantiano. Para Cassirer, tal
como para Alain Renaut por exemplo, também Leibniz desempenhará um papel
relevante neste trajecto: "They form two independent movements tending toward
the same end; they are two important stages on the way of leading from Luther
to Kant, from the concept of freedom of freedom of idealism, from the principle
of justification by faith to the principle of the autonomy of the will and of
practical reason"47.
Confesso que foi com muita satisfação que anotei esta última proposição e nela,
muito em particular, uma palavra, «autonomy», e uma expressão, «practical
reason».
Só não compreendo, mas provavelmente não irei compreender, porque provavelmente
não serão compreensíveis, os motivos pelos quais Cassirer não extrai as
consequências que a sua análise implica, nas linhas essenciais. A verdade é que
conhecendo eu o teor fundamental da sua grande obra A filosofia das luzes e
sabendo que nela uma das ideias mais inovadoras para a época, mas para mim a
mais perniciosa, estava na definição das Luzes como sendo um movimento
intelectual que resultou do cruzamento da racionalidade à francesa, e portanto
sempre com a marca do cartesianismo, com o empirismo inglês, não posso deixar
de compreender apenas que lhe fosse de todo impossível explorar as vicissitudes
perversas e anti-iluministas desse mesmo empirismo inglês. Provavelmente. Mas
porquê? É como se o autor que escreveu A filosofia das luzes não fosse o mesmo
que escreveu O renascimento platónico em Inglaterra.
1 Pode parecer presunçoso, mas tenho como adquirido que todas as
reinterpretações da Aufklårung centradas na crítica da razão, como é o caso das
perspectivas da Escola de Frankfurt e de Michel Foucault, ambas já subsidiárias
da leitura proposta pela crítica da metafísica levada a cabo por Heidegger,
entre muitas outras, estão estruturalmente erradas, porque exacerbam o papel da
razão, ou seja, justamente da faculdade que começou a perder influência logo
nos alvores do Iluminismo. Assim o que diz Ana Cristina Araújo: "Theodor Adorno
e Max Horkheimer (...) Na célebre obra Dialektik der Aufklarüng (1947), os dois
filósofos alemães interrogam-se sobre os efeitos demolidores do culto da razão.
Em seu entender, o «desencantamento do mundo» provocado pela confiança cega na
racionalidade do homem e pela sobredeterminação da ética à lógica totalitária
do conhecimento teria conduzido à «auto-destruição da Aufklårung»", (in Araújo
2003: 12), não me parece adequado à reinterpretação que proponho. A destruição
da Aufklårung deve associar-se, pelo contrário, à perda de influência da razão,
logo nos alvores da Filosofia das Luzes e, em particular, da razão teórica. A
substituição de uma ideia de progresso, globalmente humanista, centrada na
razão teórica emancipadora e fomentadora do sentido da autonomia, por uma ideia
de progresso, meramente empiricista, --- centrada no sentido estreito da
utilidade e no pragmatismo material, ancorada, de resto, numa atitude
eticamente e metafisicamente heterónoma, --- é que deve ser responsabilizada
pelo colapso precoce da aventura libertadora da Aufklårung.
2 Leia-se o anjo através da intertextualidade interdisciplinar que mobiliza
Paul Klee e Walter Benjamin.
3 Mas outros consideram o raciocínio inverso: se não neoplatónicos, pelo menos
próximos do círculo dos divinos de Cambridge.
4 É sabido que a antipatia dos Cambridge Platonists por Bacon não era menor
que a antipatia por Calvino. A identificação excessiva da ciência com a técnica
não podia deixar de chocar o humanismo dos neoplatónicos de Cambridge.
5 Cassirer, E., The platonic renaissance in England, Nova Iorque: Gordian
Press, 1970.
6 Windelband, W., History of Philosophy, Nova Iorque, 1958.
7 Eliade, M., «La nostalgie du paradis dans les traditions primitives», in
Diogène(nº 3), Paris, 1953.
8 Taylor, C., Sources of the self: The making of modern identity, Cambridge:
Cambridge University Press, 1989.
9 Renaut, A., L'ère de l'individu. Contribution à une histoire de la
subjectivité, Paris: Éditions Gallimard, 1989 e Ferry, J.L.,
Homo Aestheticus, Paris: Grasset, 1990.
10 Cassirer, E., The platonic renaissance in England, Nova Iorque, Gordian
Press, 1970.
11 Henry More [Ethica Noemata, Livro I, Cap. I]. (arte de viver segundo as
virtudes = arte de viver beatamente, virtuosamente)
12 Henry More [Ethica Noemata, Livro I, Cap. II, § 2].
13 Henry More [Ethica Noemata, Livro I, Cap. II, § 5].
14 Whichcote [The use of reason in matters of religion], in Patrides, C. A.,
The Cambridge Platonists, Cambridge, Harvard University Press, 1970, p. 47.
15 "But to speak, now, of the great Benefits that accrue to us, by our
Saviour's being in our Nature. He doth acquire the Right of Redeeming us; and
makes Satisfaction in that Nature that had transgressed: And, he doth repair
the ruined Nature of Man; by dwelling in it, and by working Righteousness in
it: by which means he hath wrought our, all Malig-nicy, and naughicy
Habits, by contrary Acts; the Acts of Sin and Vice, by Acts of Virtue and
Goodness; the Acts of Intemperance, by Acts of Sobriety and Temperance. Now,
let us look for the Explication of this, in our selves; in our Nativity from
above; in Mental Transformation, and DEIFICATION. Do not stumble at the use of
the Word. For, we have Authority for the use of it, in Scripture. 2 Pet. 1.4.
Being made Partakers of the Divine Nature; which is in effect our Deification.
Also, let it appear in our Reconciliation to God, to Goodness, Righteousness,
and Truth; in our being created after God, in Righteousness, and true
Holiness", cf. Benjamin Whichcote [The manifestation of Christ and the
Deification of man], in Patrides, C. A., The Cambridge Platonists, Cambridge:
Harvard University Press, 1070, pp. 69 e 70.
16 Whichcote [The use of reason in matters of religion], in Whichcote [The
manifestation of Christ and the Deification of man], in Patrides, C. A., The
Cambridge Platonists, Cambridge, Harvard University Press, 1970, pp. 69 e 70. Patrides, C. A., The Cambridge Platonists, Cambridge, Harvard
University Press, 1970, pp.59 e 60.
17 Whichcote [The use of reason in matters of religion], in Patrides, C. A.,
The Cambridge Platonists, Cambridge, Harvard University Press, 1970, pp 59 e
60.
18 Whichcote [The use of reason in matters of religion], in Patrides, C. A.,
The Cambridge Platonists, Cambridge, Harvard University Press. 1970, p. 47.
19 Sendo que esta luta atravessa todo o século XVII. Embora não se justifique
uma abordagem detalhada da obra moral de La Rochefoucauld (1613-1680),
justifica-se aqui uma pequena nota, uma vez que na sua pena o tema do
pessimismo atingiu uma altura inédita. A sua denúncia das diversas máscaras do
amor-próprio atingem momentos de grande brilhantismo intelectual e fazem pensar
nos primórdios de uma moral da suspeita que assim poderia ombrear com as
hermenêuticas da suspeita que, contudo, só aparecerão no século XIX, com
Schopenhauer, Nietzsche e Freud. O mau amor de si, ou filaucia, é desmontado
segundo todas as suas máscaras. O carácter dissimulado dos vícios, o seu modo
de se confundirem na composição das virtudes, tudo isso atinge em La
Rochefoucauld uma finura que deixa a perder de vista o esquematismo do
pessimismo teológico, no qual este autor achou por bem não se meter, embora
seja evidente que a oposição agostiniana, entre o amor sui e o amor Dei, esteja
como que adquirida e suposta, assim como a dualidade da condição humana na sua
situação pré-lapsária e pós-lapsária. E é também óbvio que, apesar do autor não
se debruçar explicitamente sobre questões jurídicas que envolvam a questão da
obrigação, está também igualmente subentendida uma radical heteronomia. Em
carta a Jacques Esprit, ele chega a acentuar que é pedagógico o exagero sobre o
carácter humano assim como a enfatização das suas merecidas misérias, para que
através da humilhação sistemática do ridículo orgulho humanista se possa
estimular a consciência da necessidade de encontrar apoio no cristianismo.
Mostrando a precariedade do homem, entregue a si próprio, salienta-se a
necessidade de ter sempre em conta as directivas cristãs.
20 Conche, M. (coord), Épicure: Lettres et maximes, Paris, Presses
Universitaires de France, 1992, P.241.
21 Ia dizer, uma construção artificial do espírito. Mas isso seria injusto, uma
vez que há menos construtividade nas posições voluntaristas e positivistas, do
que em Cudworth ou Kant e, de resto, em toda a tradição intelectualista. O
facto de exisir uma essência não inibe a ideia de artificialidade, nem a ideia
de construção, bem pelo contrário.
22 Hutton, Sarah (ed.), Cudworth: A treatise concerning eternal and immutable
morality, with a treatise of freewill, Cambridge, Cambridge University
Press,1996, p. 16.
23 Ibidem, p.17.
24 Ibidem, p.17.
25 Ibidem, p.17.
26 Ibidem, p.:16 e 17.
27 Schneewind, J. B., The, invention of autonomy. A history of modern moral
philosophy, Cambridge: Cambridge University Press, 1998, pp.207 e 208.
28 Hutton, Sarah (ed.), Cudworth: A treatise concerning eternal and immutable
morality, with a treatise of freewill, Cambridge, Cambridge University
Press,1996, P. 26.
29 Ibidem, P. 26.
30 Hutton, Sarah (ed.), Cudworth: A treatise concerning eternal and immutable
morality, with a treatise of freewill, Cambridge, Cambridge University
Press,1996, P.:60. É hoje considerado praticamente
indiscutível que Kant terá lido Cudworth e sido influenciado pelo seu
transcendentalismo larvar. Cf. Darwall, TheBritish Moralists and the Internal
'Ought' (1640-1740), Cambridge: Cambridge University Press, 1995, p.124.
31 Hutton, Sarah (ed.), Cudworth: A treatise concerning eternal and immutable
morality, with a treatise of freewill, Cambridge, Cambridge University
Press,1996, P.:60.
32 Patrides, C., Cudworth , A sermon preached before the House of Commons, em
1647, 1970, p.117.
33 Ibidem, p.118.
34 Ibidem, p 121.
35 Ibidem, pp. 124 e 125.
36 Cudworth, R., Treatise of Freewill, Cambridge: Cambridge University
Press,1838, p.173.
37 Ibidem, p. 155.
38 Ibidem, p. 155.
39 Ibidem, p. 155.
40 Ibidem, p.163.
41 Ibidem, p.166.
42 Platão [Teeteto, 186 d].
43 Cassirer, E., The platonic renaissance in England, Nova Iorque: Gordian
Press, 1970, P. 57.
44 Taylor, C., Sources of the self: The making of modern identity, Cambridge:
Cambridge University Press, 1989, pp. 248 e 249.
45 Cassirer, E., The platonic renaissance in England, Nova Iorque: Gordian
Press, 1970, p. 80.
46 Cassirer, E., The platonic renaissance in England, Nova Iorque: Gordian
Press, 1970, p. 82.
47 Cassirer, E., The platonic renaissance in England, Nova Iorque, Gordian
Press, 1970, pp. 84 e 85.