São Paulo no segundo pós-guerra: imprensa, mercado editorial e o campo da
cultura na cidade
Na primeira metade do século XX, São Paulo, diferentemente do Rio de Janeiro,
era destituída de um sistema cultural baseado em instituições públicas e a sua
incipiente vida artística e literária foi durante muito tempo privilégio de
pequenos círculos de notáveis, animados por expoentes da elite paulistana. Esse
cenário foi alterado na medida em que a cidade deixava seus ares provincianos
para tornar-se uma metrópole moderna, processo para o qual foi decisiva a
emergência de uma burguesia industrial, que contribuiu para o desenvolvimento
de um campo cultural na cidade, em iniciativas que se ampliaram para toda a
sociedade (Candido, apud Camargos, 2000, p. 11).
A consolidação do espaço da cultura em São Paulo concretizou-se em estreita
relação com as ações empreendidas por frações das classes dominantes da cidade,
em momentos distintos de sua história política e econômica. Se a construção da
cultura de uma sociedade deve ser apreendida como forma de dominação simbólica,
no processo histórico das lutas entre grupos sociais que são ou se pretendem
hegemônicos,1 o caso de São Paulo é exemplo revelador dessa lógica. O esforço
em estimular e alargar o terreno das artes e das letras foi, sobretudo,
realização de suas elites, que polarizaram a cultura como elemento estratégico
para garantir e legitimar seus interesses materiais, políticos e sociais.
Tanto representantes da oligarquia como da nova burguesia dos ciclos de
industrialização da cidade buscaram na cultura, sob a forma do mecenato
artístico, recurso para a legitimação de sua supremacia social. Mas isso teve
efeitos de grande alcance, fazendo com que São Paulo, em meados da década de
1950, se transformasse no centro urbano e cultural mais importante do país.
É importante compreender as dinâmicas do processo de modernização da cidade sob
a óptica do "condicionamento de classe" (Idem, ibidem). O papel que as elites
tradicionais e, sobretudo, a burguesia emergente e urbana do meio século
tiveram no progresso do meio cultural paulistano não está dissociado dos riscos
de mobilidade, das alternativas de ascensão, das estratégias de legitimidade de
grupos sociais ávidos por permanecer ou se impor no curso dessas mudanças.
A trajetória de Freitas Valle é um exemplo do primeiro momento do mecenato
artístico em São Paulo. Considerado representante da oligarquia paulista em
período de seu prestígio e força política, Freitas Valle foi líder cultural e
homem público que contribuiu para a formação de elites culturais, incentivou o
campo da instrução fundamental e média, estimulou coleções artísticas e
bibliotecas. O senador criou também em sua residência, a Villa Kyrial, um salão
cujo cosmo singular e efervescente atraia os cenáculos culturais da época:
[...] espaço de grande originalidade, uma espécie de centro cultural
por onde passaram intelectuais e artistas, de maneira a tornar-se
fator de civilização na cidade ainda provinciana daquele tempo. A
Villa Kyrial foi o mais completo exemplar que houve em São Paulo de
um traço característico da Belle Époque: a estetização da vida,
baseada na concepção segundo a qual o cotidiano deve transforma-se em
obra de arte. Segundo esta concepção, seria preciso não só fazer
literatura e arte, mas viver como se a vida pudesse ser uma obra de
arte e literatura. Com grande capacidade de invenção e organização,
Freitas Valle estabeleceu uma decoração, um ritual, uma ordem
honorífica e nesse quadro elevou o convívio intelectual, a culinária,
o vinho, o perfume a traços integrados em sistema, de maneira a
formar um estilo próprio, certamente único no Brasil [...]. Essa
tentativa de fusão [entre vida e arte] faz de seu salon algo
diferente de outros [...]; em São Paulo, o de Dona Veridiana Prado
(anterior) e o de Dona Olívia Guedes Penteado; no Rio, o de Dona
Laurinda Santos Lobo. De fato, essas senhoras foram anfitriãs que
montaram cenários onde artistas, escritores e políticos se reuniam e
conversavam; mas não criaram um conjunto articulado como o que
caracterizou o espaço sui generis da Villa Kyrial (Idem, p. 12).
Até 1930, os mais expressivos focos da vida cultural de São Paulo eram os
salões e pequenos círculos; e o mecenato artístico protagonizado por poucas
famílias tradicionais articuladas em torno da figura de Freitas Valle não ia
muito além do âmbito das relações pessoais. Não obstante, era apenas por
intermédio dessas redes de sociabilidade que pintores, músicos, escultores e
literatos conseguiam, por exemplo, uma bolsa do Pensionato Artístico (1912-
1931), cujos recursos, a despeito de serem públicos, estavam condicionados às
práticas privadas.2 Em outras palavras, a concessão da bolsa não era confirmada
para quem não tivesse na figura de homens influentes, como Freitas Valle, um
padrinho.
Embora a oligarquia paulista tenha patrocinado tendências modernizantes como a
Semana de Arte Moderna de 1922, que fez sugerir a ideia de São Paulo como
centro modernista das artes, esse não foi momento de grande alteração na
estrutura da produção, da circulação e da divulgação da cultura paulistana,
ainda tímida e presa às dinâmicas de um contexto político e econômico que mais
adiante entrou em declínio. De fato, a cultura ganhou expressão na cidade,
posteriormente, quando as mudanças que fizeram de São Paulo um polo urbano,
industrial e moderno criaram condições sociais favoráveis que viabilizaram o
aparecimento de instituições, de instâncias de consagração, a presença e o
aumento do número produtores, a diversificação de sua produção e a proliferação
dos meios de divulgação.3
Para a cultura, a década de 1940 foi decisiva para a cidade de São Paulo, por
questões de escala, de instituições e de mudança de orientação com a entrada em
cena de novos agentes. Entre 1920 e 1950, a população cresceu em 279% (579
mil - 2.198.000); no mesmo período, entre livros e folhetos, os exemplares
passaram de 901 mil a 15.504.000 (Hallewell, 1985, p. 239); no fim desse
período a Universidade de São Paulo era instituição consolidada, enquanto, no
início, a formação superior restringia-se a cursos isolados, tendo no centro o
Direito, a Medicina e a Politécnica. Antes de 1925, nem havia biblioteca
pública e o edifício sede só seria inaugurado em 1942; a Pinacoteca não passava
de uma pequena sala no Liceu de Artes e Ofícios e estava longe de ser um museu
de arte. Museu de verdade só havia no Ipiranga, mas seu caráter era
enciclopédico e a arte estava lá para ilustrar a história. Nos anos de 1930,
com a crise do café e as revoluções, São Paulo esteve em baixa: economia em
crise e derrota política na esfera nacional. Mas, a cidade mudou seu perfil e,
pode-se dizer, realizou uma espécie de acumulação primitiva em matéria de
educação e cultura que traria seus frutos no pós-guerra.
Sobre esse processo é interessante notar a transição que ocorreu no plano das
iniciativas culturais, com a emergência de uma camada de empresários, cujos
recursos derivaram de negócios propriamente urbanos gerados na dinâmica da
industrialização da cidade. De um lado, na esfera das comunicações, os jornais,
as editoras, o comércio livreiro; de outro, dois tipos de transferência de
capital da indústria para os empreendimentos de caráter cultural, o empresarial
ou o simples dispêndio na busca de capital simbólico.
O tipo de mecenato que entra em curso a partir da década de 1940 se distingue
das formas de proteção e de apoio financeiro prestados às realizações
artísticas e letradas, de outrora, que se caracterizava pelo "conjunto bem
entrosado" (Candido, apud Camargos, 2000, p 13) do espaço do salão, no qual se
fundia vida e arte às dinâmicas de poder político, econômico e social.
Destituídos dos recursos simbólicos e de vínculos mais profundos com as elites
da oligarquia, os principais protagonistas desse mecenato eram, no entanto,
portadores de forte artilharia econômica e das qualidades comerciais que
sustentavam as bases da estrutura de uma nova e moderna sociedade. Apesar de já
serem homens que se destacavam como empresários, não haviam adquirido
legitimidade expressiva nos seletos círculos das famílias tradicionais
paulistanas e estavam também do lado de fora do meio da cultura.
O presente artigo trata da relação entre as iniciativas culturais de Assis
Chateaubriand e de Francisco Matarazzo Sobrinho, expoentes desse mecenato, e o
seu momento, realçando o papel e as estratégias desses empresários nessa
articulação. O segundo pós-guerra foi o cenário de atuação desses mecenas que
se notabilizaram pela criação de instituições consideradas decisivas na
constituição de um campo artístico e literário para a cidade. Em razão disso,
tomei como ponto de partida de análise o diálogo que a imprensa travou, por
meio do Suplemento Literário do Diário de S. Paulo patrocinado por Assis
Chateaubriand, com o contexto cultural da época.
O crescimento da imprensa diária é um dado fundamental para se compreender as
transformações da vida urbana e a diversidade das produções culturais
decorrentes da dinâmica moderna das cidades em desenvolvimento. Nas décadas de
1940 e 1950, os jornais assumiram posições estratégicas nesse circuito na
medida em que eram considerados, entre os demais veículos de comunicação, os
maiores difusores de iniciativas culturais. Por meio deles era possível uma
ampla divulgação dos acontecimentos, das manifestações e dos debates presentes
em uma cidade que, em ritmo acelerado, adquiria a fisionomia de metrópole.4
O periódico de Assis Chateaubriand teve existência curta e não conquistou o
prestígio do Suplemento Literário do Estado de São Paulo, organizado por
Antonio Candido e Décio de Almeida Prado e publicado, em 1956, dez anos depois
da circulação do Suplemento do Diário. Não obstante, as suas páginas foram
veiculadas em momento de inflexão da vida cultural de São Paulo e são,
portanto, reveladoras de um processo de formação. Esse pequeno e breve jornal
teve o mérito de concentrar e organizar em um só veículo a matéria cultural
desse período e, nesse sentido, polarizou, no que diz respeito à divulgação e à
crítica, as realizações culturais dos mecenas da época.
No plano artístico, por exemplo, o Suplemento fez a cobertura da fundação do
MASP e do MAM. Já no âmbito das letras, o periódico divulgou o surgimento do
Instituto Progresso Editorial, projeto de Francisco Matarazzo Sobrinho e de
outros empresários de origem italiana. Essa experiência é também foco de
investigação desse artigo. Trata-se, por meio de fragmentos de sua história, de
problematizar o mecenato em questão pela lógica inversa das ações bem-sucedidas
que redundaram na hegemonia de seu sistema de dominação simbólica, ou seja, a
partir do fracasso dessa primeira e ostensiva empreitada de Matarazzo. A ideia
consiste em iluminar outros mecanismos de luta e os seus desdobramentos nessa
fase de transição de São Paulo dinamizada pela mobilidade de distintos grupos
das camadas dominantes e da cultura.
Os empresários e o ambiente artístico e intelectual paulistano
Entre 1947 e 1949 funcionou em São Paulo uma editora com o nome de Instituto
Progresso Editorial. Na mesma época circulou também nas páginas do jornal
Diário de S. Paulo um Suplemento Literário, que foi veículo de divulgação da
cena artística e intelectual da cidade. As iniciativas foram independentes, mas
há uma nítida interface que as articula. Ambas exploraram o mercado promissor
de bens simbólicos que se redimensionava em novas bases no imediato pós-guerra.
Tanto a editora como o Suplemento foram empreendimentos de grande envergadura
que fracassaram e que são hoje pouco lembrados. No entanto, foram também elos
de transmissão decisivos na formação do campo literário e artístico paulistano.
Para compreender a efervescência que tomou conta da vida cultural da cidade, em
meados dos anos 1940, é preciso levar em conta a fundação da Universidade de
São Paulo, em 1934, e do Departamento de Cultura, criado por Mario de Andrade,
em 1935. A primeira instituição foi centro formador de novos tipos de
intelectuais: críticos, sociólogos e historiadores e, a segunda, espaço que
promoveu pesquisas e debates culturais. Além disso, houve a proliferação das
editoras que ocorreu devido à ampliação do ensino, criando a necessidade de uma
produção mais significativa do livro didático e multiplicando os leitores.
Nesse sentido, cabe ressaltar o interesse pelos estudos brasileiros e a difusão
da literatura moderna realizada por editoras como a José Olympio, a Martins e a
Globo. Essas iniciativas estão articuladas ao processo de democratização do
ensino e da cultura que redundou do espírito republicano das políticas
decorrentes da Revolução de 1930. Foram elas que criaram condições para um
ambiente intelectual e artístico diversificado (Candido, 1987, p. 181).
Com isso, superou-se, em parte, a situação de dependência dos produtores
culturais do antigo sistema de mecenato centrado nos salões, característico do
modernismo de São Paulo, e constituiu-se um esboço de mercado que teve por base
o crescimento do público leitor. Além disso, a variedade de produtores
culturais tornou o discurso sobre arte e literatura mais exigente e
redimensionou as alternativas das carreiras literárias. Na esteira desses
acontecimentos, as classes médias ascendentes e a burguesia formadas no novo
ciclo de industrialização passaram a investir em cultura, não só do ponto de
vista de sua formação mas também como negócio promissor, mobilizando de modo
definitivo esse aspecto na vida da cidade.
O ano de 1945 é considerado período estratégico da cena nacional. O fim da
Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo propiciou um ambiente favorável para o
progresso em diversos planos. O otimismo político e econômico deste contexto
levou grandes empresários, sobretudo os imigrantes, a realizarem novos
investimentos na cidade. No que diz respeito à cultura, São Paulo beneficiou-se
desse clima promissor. Como mostra Maria Arminda do Nascimento Arruda,
Tratava-se de uma época com alto grau de dinamismo, na qual a crença
nas possibilidades infinitas do desenvolvimento cultural era homóloga
à convicção da modernização econômica, social e política que tinha em
São Paulo a sua grande promessa. Assim o presente aspirava o futuro
civilizado que, diga-se de passagem, seduzia a todos.
Especificadamente, produziu-se uma confluência do poder econômico e
político com o "mundo do espírito", pois todos estavam imbuídos de
vontades semelhantes, ainda que elas dissessem respeito a campos
diferentes. Entre o dinheiro e o intelecto ocorrem certas analogias
no plano formal [...] caracterizadas pelo impulso de permanente
atualização (2001, p. 107).
As artes, a literatura e a produção intelectual não passaram despercebidas
desse grupo de empresários que se destacou pelo mecenato cultural e teve papel
relevante no processo de modernização da cidade. Esse mecenato foi
protagonizado por representantes da burguesia industrial egressos de recente
processo migratório, que buscavam afirmar-se na sociedade paulista. A criação
de instituições culturais foi uma das vias de reconhecimento e de acesso ao
reservado meio social da cidade.
Figura emblemática nesse sentido foi Francisco Matarazzo Sobrinho, empresário
cuja família, de origem italiana, atuava de forma bem-sucedida em diversos
ramos da indústria.5 Em 1948, Matarazzo criou o Museu de Arte Moderna dirigido
pelo belga Leon Dégand; e o Teatro Brasileiro de Comédia, em parceria com outro
empresário italiano Franco Zampari. No ano seguinte fundou a Companhia
Cinematográfica Vera Cruz e, em 1951, realizou a I Bienal de São Paulo.
Outro nome importante que voltou seus esforços para idealização de grandes
empreendimentos culturais foi Assis Chateaubriand, magnata da imprensa da
época. Reconhecido pelo vigor com que atuava no âmbito político e econômico,
não era homem ligado especialmente à cultura. Todo o seu entusiasmo estava
direcionado em expandir cada vez mais o seu "império de comunicação", cujo
ponto de partida se deu em 1924, quando comprou o seu primeiro impresso - O
Jornal - no Rio de Janeiro. Envolvido em grandes artimanhas políticas e sempre
atento ao que se passava na economia, o jornalista não demonstrava grande
interesse pelos assuntos de arte e literatura. Contudo, Chateaubriand
surpreendeu tornando-se um dos mais importantes empresários que contribuíram
para o desenvolvimento da vida cultural de São Paulo. Em 1947, fundou um dos
primeiros museus de arte de São Paulo, o MASP, cujo projeto foi dirigido pelo
italiano Pietro Maria Bardi. Três anos depois, em 1950, criou a TV Tupi.6 Ainda
de acordo com Maria Arminda do Nascimento Arruda,
[...] o papel dos estrangeiros, ou dos recém-chegados, (caso de
Chateaubriand), foi decisivo na modernização dos diversos setores da
cultura [...]. Nesse andamento, a compreensão das diversas
instituições criadas no pós-guerra em São Paulo não se completa sem o
tratamento da natureza de seu fenômeno imigratório, naquele tempo em
que os herdeiros das famílias de estrangeiros já ascendidas adentram
ao universo da cultura e estabelecem a relação entre riqueza e
mecenato, entre dinheiro e cultura, extrapolando a mera questão
demográfica ou do movimento em direção às posições sociais superiores
(2001, p. 131).
Boa parte desses investimentos voltou-se para as áreas das artes plásticas, do
cinema e da dramaturgia. No entanto, estes empresários buscaram antes no
universo letrado a plataforma de lançamento para as suas iniciativas. A
imprensa e a atividade editorial foram alvos de ações que são pouco conhecidas
na história de São Paulo. Chateaubriand lançou um Suplemento, que fez a
cobertura do que se passava na vida cultural da cidade e Matarazzo aventurou-se
em um projeto bem mais ambicioso: a criação de uma grande editora, o IPE.7
Tais investimentos estavam sintonizados com os acontecimentos do período. No
âmbito da literatura, os egressos do modernismo atuavam na imprensa paulista,
que se desenvolvia em ritmo acelerado, e nas letras em geral; o grupo Clima
impunha-se como uma nova geração de críticos (Pontes, 1998); e os poetas que se
denominavam Geração de 45 criavam polêmicas em torno da poesia e questionavam o
legado do modernismo de 1922. Sem contar que, no início dos anos de 1950, o
novo círculo de artistas e poetas concretos começou a despontar na cidade. Além
disso, São Paulo havia sido e, era na época, berço de experiências editorias de
sucesso.
Imprensa e ações culturais
Em 24 de novembro de 1946, um ano antes de inaugurar o Museu de Arte de São
Paulo, Assis Chateaubriand começou a publicar em seu matutino Diário de S.
Paulo o Suplemento que durou até 28 de novembro de 1948. A direção do periódico
foi confiada ao jornalista e crítico de arte Geraldo Ferraz e contou com a
colaboração permanente de sua companheira Patrícia Galvão.8
Não é de estranhar a aposta de Chateaubriand em um caderno de cultura em um
contexto marcado pelo crescimento da imprensa, pela diversificação do cenário
artístico e intelectual e pela criação de novos estilos literários. A
iniciativa foi o meio pelo qual o empresário abriu um canal de comunicação mais
direto com esse mundo, experimentando um novo rumo em seus empreendimentos
jornalísticos na cidade. Até 1946, não havia nada parecido sendo publicado nas
páginas dos principais jornais de São Paulo.
Além disso, é preciso levar em conta a ligação do Suplemento com o projeto do
MASP. É razoável supor que Chateaubriand promoveu o periódico para receber a
instituição e divulgar suas futuras ações. O Suplemento fez a cobertura
completa do que ocorria com o museu e acompanhou também a fundação do MAM,
tornando-se espaço privilegiado dos debates que essas iniciativas
proporcionaram na época. Por outro lado, não se deve negligenciar a preocupação
de seus organizadores com os assuntos voltados para a literatura moderna e o
mercado editorial (Neves, 2005, p. 81).
Patrícia Galvão assinava a coluna "Antologia da literatura estrangeira"
destinada a autores como Jean Paul Sartre, Guillaume Apollinaire, Arthur
Rimbaud, Rainer Maria Rilke e Virginia Woolf. Já o mercado de livros foi
abordado por Geraldo Ferraz no espaço "Leitura da Semana", que fazia a
cobertura do que estava sendo e do que seria publicado por editoras nacionais
como o IPE, a José Olympio e as Edições Pongetti; informava sobre os livros
estrangeiros que estavam para ser editados no Brasil; e comentava a respeito de
ilustradores e tradutores. Ferraz também dedicou a coluna a querelas literárias
e aos empreendimentos que despontavam como a inauguração das oficinas gráficas
do Instituto Progresso Editorial:
Há cerca de quatorze meses o Instituto do Progresso Editorial lançava sem
cerimônias na parada de Campo Belo, à beira da linha dos bondes de Santo Amaro,
a primeira pedra de suas oficinas gráficas [...]. Esta semana, o redator destas
linhas visitou estas oficinas do IPE, as maiores e melhor equipadas,
possivelmente, do Brasil, visando a especialização que é a produção de livros.
Chegaram os seus dirigentes, logo, a conclusão de que deveriam ter essa
oficina, libertando o progresso editorial que colocaram no nome da organização,
dos entraves das tipografias particulares, sobrecarregadas muitas vezes, e sem
poder dar preferência a um novo cliente como é o caso dos novos editores. Estes
tiveram que lançar mão, aliás, até dos tipógrafos de Buenos Aires... e consta-
me mesmo que da Europa. Mas o problema do IPE está resolvido. Vão ser impressas
agora na fábrica de Campo Belo as suas novas edições. [...] Composição,
impressão, clicherie, encadernação, tudo é feito pois na oficina do IPE e por
um conjunto de máquinas moderníssimas, da esmerada fabricação Nebiolo, donde
teremos um conjunto de máquinas automáticas, o maior que se dedica a fabricação
de livros no Brasil, empregadas em fazer o livro brasileiro bem composto, bem
impresso, bem apresentado (SL, 25 de julho de 1948).9
Os projetos do IPE ocuparam parte significativa da coluna "Leitura da Semana",
se comparado ao espaço destinado às outras editoras. A divulgação sistemática
de suas ações pode estar relacionada com o impacto que a editora causou na
época, sobretudo, pela promessa de revolucionar a produção de livros no Brasil;
e com a simpatia de Ferraz, que era militante da alfabetização e da leitura
como hábito. Mas é também razoável supor que o Suplemento tenha sido
considerado pelos idealizadores do IPE o veículo mais apropriado para
visibilidade da empresa. Os lançamentos da editora eram constantemente
anunciados em suas páginas:
A atuação editorial do IPE já conquistou o lugar de primeiro plano
que justissimamente lhe cabe, pela importância de seus
empreendimentos. Entre esses últimos, e que merece um rastro
especial, destaca-se a apresentação, pela primeira vez, dos
escritores Jean Paul Sartre e William Faulkner, com os livros "O
Muro" e "Santuário". Trata-se de obras menos recente desses autores,
mas em todo caso é essa literatura mais avançada nos Estados Unidos e
na França, chegando-nos ambas com cerca de dez a vinte anos de data
de sua publicação original [...]. Estas duas obras, a que acabamos de
fazer referência, representam, do ponto de vista da iniciativa
editorial, a maior empresa divulgadora destes últimos anos (SL, 11 de
julho de 1948).
A linha editorial do IPE não se restringiu à literatura estrangeira. Autores
brasileiros foram também publicados e divulgados:
A edição das poesias completas de Guilherme de Almeida, que está
sendo preparada pelo Instituto de Progresso Editorial sairá dentro de
uns três meses e se comporá de mais de mil e duzentas páginas em fino
papel "bíblia", constituindo, verdadeiramente um acontecimento
editorial, pois pela primeira vez se produzirá no país uma obra
gráfica nesse estilo (SL, 8 de agosto de 1948).
À sociologia a editora dedicou uma série que apresentou, entre outros, a
produção de professores da Universidade de São Paulo. O trabalho Sociologia e
psicanálise de Roger Bastide foi lançado em primeira mão pelo IPE. Outros
livros, que provocaram entusiasmo em Ferraz, compunham a coleção:
Uma verdadeira crônica, que abrange um largo aspecto da resistência,
acompanha a história deste livro de Paul Rivet, "As origens do homem
americano" n. 3 da série sociologia da coleção Minerva, do IPE. Paul
Rivet é o organizador e o diretor do famoso Museu do Homem, de Paris.
A edição que agora sai em São Paulo foi revista e aumentada conforme
uma nota datada do ano passado, o que lhe dá maior importância. A
edição, graficamente, se apresenta em aprimorada impressão, em
excelente papel, com nítidas ilustrações (SL, 15 de agosto de 1948).
O Suplemento teve papel decisivo na difusão da vida cultural de São Paulo. A
despeito das revistas organizadas por intelectuais, dos rodapés críticos e das
páginas literárias, que também circulavam na cidade, a iniciativa de
Chateaubriand promoveu um primeiro esforço de modernização na imprensa cultural
paulistana. Além disso, o periódico revelou em suas páginas a transição pela
qual o terreno das artes e da literatura passava na época, sendo o próprio
Suplemento produto dessas mudanças.10
O Instituto Progresso Editorial
O Instituto Progresso Editorial não foi uma iniciativa particular de Matarazzo.
A ele estiveram associados outros empresários de origem italiana.
O nome desta editora revela muito do espírito de seus idealizadores e,
consequentemente, de seu projeto que buscou promover uma renovação de impacto
no mercado editorial vigente. Apesar do entusiasmo que a proposta causou no
meio intelectual paulistano, o IPE teve curto tempo de vida. A editora começou
as suas atividades em 1947 e fechou as portas já em 1949. Talvez essa seja uma
das razões da obscuridade que a envolve. São poucas as informações encontradas
a respeito desse empreendimento, mas os dados que foram possíveis recuperar
iluminam parte de sua história.
Rodolfo Crespi, proprietário da maior indústria têxtil de São Paulo da época, é
outro nome associado ao projeto do IPE, que possivelmente também envolveu as
famílias Lunardelli e Bonfigliolli.11 Ao que tudo indica nenhum destes
empresários conhecia o mercado do livro, mas apostaram na capacidade comercial
do grupo para o sucesso da iniciativa. O aspecto empresarial da editora foi,
para Hallewell, o motivo de sua rápida existência:
Instituto Progresso Editorial, empreendimento - também de 1947 - de
um grupo de empresários de São Paulo, novatos no ramo editorial, mas
decididos a provar que a experiência e o conhecimento comercial
geral, aliados a um produto de boa qualidade e à disposição de
utilizar prodigamente a publicidade, era tudo de que se precisava. O
castigo veio em pouco mais de um ano, apesar da publicação de algumas
obras interessantes e importantes, entre as quais as que trouxeram
Roger Bastide para o público brasileiro (Hallewell, 1985, p. 436).
A equipe de trabalho do IPE foi composta, sobretudo, por membros que pertenciam
à rede de relações estabelecida pelas famílias de italianos, que residiam na
cidade, e por seus parentes e conhecidos que se encontravam na Itália. Com o
fim da Segunda Guerra Mundial, muitos desses italianos vieram para o Brasil em
busca de melhores condições de vida. Ou dirigiram-se ao país para exilar-se,
por conta de suas ligações com o fascismo, e foram muitas vezes acobertados por
seus conterrâneos.12 É o caso de Francesco Malgeri que ocupou o cargo de
diretor geral do IPE.
Jornalista de renome, que dirigia o jornal mais importante de Roma - Messaggero
- Malgeri fugiu da Itália no final da guerra, passando primeiro por Portugal e
radicando-se, posteriormente, em São Paulo. Malgeri foi indicado para editora
por Rodolfo Crespi, com quem estabeleceu vínculos familiares. O jornalista
casou-se com Nelida, viúva do filho mais velho de Crespi, que morrera
prematuramente assassinado.
Nessa mesma época, Gianino Carta, por indicação de Malgeri, aceitou de bom
grado o convite de Matarazzo para deixar a Europa e compor o grupo de
jornalistas que iria trabalhar em seu projeto das Folhas. Contudo, o
empreendimento malogrou e Matarazzo ofereceu a ele o cargo de diretor artístico
do IPE. Carta aceitou e foi responsável pela parte gráfica da editora até ser
contratado para trabalhar no jornal O Estado de S. Paulo, por indicação de
Paulo Duarte que, segundo Mino Carta, foi o responsável pela linha editorial da
IPE.13
Há controvérsias quanto ao fato de Paulo Duarte ter se ocupado de tais
atividades. De um lado, Carta afirma, em suas reminiscências, a participação do
jornalista como diretor cultural do IPE. Consta, também, do catálogo da editora
nomes de autores que eram amigos de Paulo Duarte, como Paul Rivet e Amadeu
Amaral. Deste último, o jornalista reconstituiu e publicou as suas obras
literárias. O ponto de partida deste projeto foi anunciado pelo Suplemento:
"Para iniciar a publicação das Obras Completas de Amadeu Amaral, a IPE lançou
ontem, nas livrarias de São Paulo, assinalando a passagem do aniversário do
poeta [...] o primeiro volume intitulado, Tradições populares" (SL, 7 de
novembro de 1948). De outro lado, Paulo Duarte não faz menção sobre o seu
trabalho no IPE. Nos anos em que a editora funcionou na cidade, o jornalista
ainda residia na França, onde já havia passado parte de seu exílio por ocasião
da ditadura de Vargas. Em Paris foi Secretario geral do Institut Français des
Hautes Études Brésilienne e assistente do professor Paul Rivet, diretor do
Musée de l'Homme. Em texto dedicado a Rivet, Duarte comenta sobre o ir e vir ao
país que marcou sua rotina naqueles tempos:
Vim de novo ao Brasil, por pouco tempo. De volta traduzi a bordo,
para o português, o seu livro [de Rivet] "Les origines de l'Homme
Américain", que ele reviu [...]. O livro foi publicado imediatamente
graças à boa vontade de Francesco Malgeri diretor do Instituto
Progresso Editorial, que teve o gesto correspondido, pois esgotou-se
logo [...]. Regressei, de novo a Paris, onde permaneci por vários
meses. Entre 1947 até o fim de 1949, meu tempo foi dividido entre O
Estado de S. Paulo e o Musée de l'Homme (Duarte, 1960).14
Além de Paulo Duarte, que se não foi diretor da editora, colaborou de outra
maneira para a sua linha editorial, o IPE contou com um grupo bem diversificado
de assessores como, por exemplo, Sergio Buarque de Holanda e Luigi Federzoni.
Este último, figura obscura do alto escalão fascista, foi acolhido e ajudado
por Malgeri, colaborando com nome falso na editora e no jornal O Estado de S.
Paulo.15
O catálogo do Instituto Progresso Editorial buscou contemplar diversas áreas do
conhecimento e da cultura. No entanto, a literatura estrangeira e os estudos
brasileiros se destacam como os principais investimentos de sua linha
editorial.16
No que diz respeito aos clássicos da literatura estrangeira, foram publicados
Fausto de Goethe (trad. Jenny Klabin Segall) e uma série de poesia francesa, na
língua original, intitulada Collection des poetes maudits, composta, entre
outros, pelo livro Les fleurs du mal de Charles Baudelaire. Do universo de
autores internacionais contemporâneos da época, o IPE difundiu muitas obras
como, por exemplo, O zero e o infinito de Arthur Koestler (trad. Domingos
Mascarenhas); O muro (trad. H. Alcântara Silveira) e A idade da razão (trad.
Sergio Milliet) de Jean Paul Sartre; Santuário de William Faulkner (trad. Ligia
Junqueira Smith); Os velhos e os moços de Luigi Pirandello (trad. José Geraldo
Vieira); Leviatã de Julien Green (trad. Almeida Salles).
A aposta do IPE em autores nacionais foi pouco expressiva. Boa parte desses
escritores era publicada por outros editores de sucesso como José de Barros
Martins. Barro blanco e Longe da terra de José Mauro de Vasconcelos e Teodoro
Bicanca de Renato Castelo Branco foram alguns dos romances brasileiros
publicados pela editora.
Mas, se, de um lado, o IPE não abordou o Brasil pela pena de seus romancistas,
de outro, os estudos e assuntos brasileiros foram temáticas centrais de seus
investimentos editoriais. Entre os títulos publicados sobre os problemas
brasileiros da época encontram-se: O petróleo no Brasil de Juarez Távora; A
previdência social no Brasil de Aloizio Alves; A produção de trigo no Brasil de
Edgar Fernandes Teixeira. Biografias e autobiografias de personalidades
brasileiras também foram divulgadas. Entre elas, Memórias de Visconde de Tanay
de Alfredo d'Escragnolle Tanay; Rui Barbosa de Mario de Lima Barbosa e Os
primeiros núncios no Brasil de Hildebrando Pompeo Pinto Accioly. Sobre os
estudos brasileiros cabe destacar a publicação das obras completas de Joaquim
Nabuco; Palmares pelo Avesso de Paulo Duarte e Tradições populares de Amadeu
Amaral.
O IPE também dirigiu seus interesses para as ciências sociais e, além do livro
já citado de Paul Rivet, publicou Materialismo histórico e economia marxista de
Benedetto Croce (trad. Luis Washington). Ainda nesse âmbito, a editora buscou
atrair para o seu catálogo os intelectuais da Universidade de São Paulo. O
trabalho de Florestan Fernandes Organização social dos Tupinambá e de Roger
Bastide, também já mencionado, Sociologia e psicanálise foram iniciativas
editoriais da casa.
Filosofia, história e artes são outros temas que constituem o catálogo. Os dois
últimos tiveram investimentos voltados para a instrução e a formação de um
público leitor mais bem informado. Nesse sentido, os títulos são sugestivos:
História da literatura norte americana: dos inícios a 1930 de Thomas Herbert
Dickinson; História da literatura italiana, das origens até nossos dias de
Attilio Momigliano; e Aprenda a ver: como se contempla uma obra de arte de
Matteo Marangani (trad. Aldo Della Nina).
Para finalizar, a guerra e o fascismo, que eram assuntos daquele contexto e com
os quais Malgeri tinha bastante familiaridade, estavam inseridos na programação
editorial. Títulos como Eu fui da polícia de Mussolini de Carmine Senise e
Minha vida com Benito foram promovidos pela editora.
O IPE e o campo editorial de São Paulo
No artigo que Geraldo Ferraz dedicou à inauguração das oficinas gráficas do
IPE, o crítico destacou a magnitude do investimento e o comparou às iniciativas
de Monteiro Lobato:
Quando a Cia Gráfica Editora Monteiro Lobato mudou-se da rua dos
Gusmões para a rua Brigadeiro Machado no Braz, havia em São Paulo um
empreendimento da mesma envergadura que este. Não estávamos,
certamente, trabalhando com os mesmos rumos de racionalização, nem as
máquinas podiam ser o que estas nos prometem, embora Lobato mandasse
vir para o Brasil as primeiras monotipos, há vinte quatro anos atrás.
A equipe que dirigia esta oficina era composta por experimentados
operários e quase todos estes de origem italiana, como Rosseti e
Daiuto na direção geral, Cesário Sekler na tipografia e linotipia,
Puzzielo na impressão, Donato na encadernação, o gordo Guilherme na
secção de livros em branco. Alguns ainda vivem e são ou foram
gerentes e donos de tipografias. Foi um empreendimento prematuro, com
as suas dezessete máquinas de impressão entre minervas e planas e
cilindros. S. Paulo e o Brasil não tinham ainda campo para tamanho
sonho. Nunca mais se conjugou de tal maneira uma editorial e a
indústria gráfica: cada ramo cresceu independente do outro. O IPE,
agora, retoma a empresa que Lobato imaginara e a que lançara um marco
(SL, 25 de julho de 1948).
Monteiro Lobato é muitas vezes lembrado como uma espécie de herói cultural pela
revolução que realizou no mundo editorial no Brasil. Nos idos de 1920, os
pontos de vendas de livro eram algumas poucas livrarias localizadas,
principalmente, em bairros nobres do Rio de Janeiro e de São Paulo; boa parte
dos livros que circulavam era importada de Portugal e da França; a produção
brasileira restringia-se, sobretudo, aos volumes didáticos; e o autor nacional
tinha que investir, por conta própria, na publicação de sua obra e tratar de
sua difusão.
Em 1919, acompanhado de seu sócio Octalles Marcondes Ferreira, Lobato
estabeleceu em São Paulo a editora "Monteiro Lobato e Companhia". Literato e
então também editor, Lobato não mediu esforços para a realização de seus
ambiciosos devaneios. Investiu em novos autores nacionais se negando a publicar
qualquer escritor conhecido. Para aumentar as vendas ampliou os pontos de
distribuição do livro, que passou a ser tratado como uma mercadoria que poderia
ser vendida em farmácias, mercadinhos, bancas. Apostou também na publicidade em
jornais e para atrair o leitor "desavisado" inovou a parte gráfica organizando
capas coloridas e chamativas e mudando muitas vezes o título das obras. Toda
essa transformação, como mostra Hallewell, não podia depender da inexpressiva
indústria gráfica brasileira da época:
De fato, a maior parte dos livros produzidos localmente nesse período
provinha de gráficas de jornais ou de revista - que não tinham a
menor noção do que fosse a produção de livros, bem como não estavam
equipadas para produzi-los em quantidade. Mesmo que Lobato não
estivesse interessado na parte estética da impressão, alguma coisa
tinha que ser feita, simplesmente para fazer face à crescente escala
de seu programa editorial (Hallewell, 1985, p. 252).
Em 1924, Lobato lançou uma grande novidade quando incorporou ao projeto da
editora uma gráfica. Desde então a casa passou a chamar-se "Companhia Gráfica -
Editora Monteiro Lobato". Contudo, em 1925, a editora encerrou as suas
atividades. Na avaliação de Octalles Marcondes, a união das funções editoriais
e gráficas foi a principal razão da falência da empresa. Já para Hallewell,
Como empreendimento editorial, a Companhia Gráfica - Editora Monteiro
Lobato surgiu, de fato, cerca de dez anos antes do tempo. Como
tentativa de unir gráfica e editora em uma só organização, surgiu
ainda mais precocemente, e quase todos os seus sucessores dos anos 30
prudentemente concentraram-se numa ou noutra dessas atividades. Como
inspiração, porém, mostrando o que podia ser realizado, sua
importância é incalculável (Idem, p. 265).
Talvez a ousadia de Lobato tenha entusiasmado os grandes empresários,
proprietários do IPE, em conciliar as atividades editoriais e gráficas em uma
só empresa, quando o investimento pretendido começou a ser prejudicado pelos
limites da indústria gráfica brasileira, que não conseguiu dar conta do ritmo
das demandas do novo cliente. Isso ocorreu, a despeito de São Paulo, na década
de 1940, ter se tornado o maior centro gráfico do Brasil, onde era impresso 70%
do material de leitura do país (Idem, p. 399).
Não obstante, o IPE ter se estabelecido em São Paulo em um contexto no qual o
plano literário e intelectual e o mercado de livros da cidade eram
caracterizados por padrões de desenvolvimento inimagináveis nos tempos da
empresa de Lobato, a editora faliu depois de pouco mais de um ano do lançamento
de seu parque gráfico. No caso, o objetivo era redimensionar o mercado de
livros, aumentando a escala de sua produção e investindo em um produto de alta
qualidade para os moldes brasileiros contemporâneos.
Mino Carta associou a falência do IPE aos pesados investimentos que os seus
proprietários fizeram, quando importaram máquinas modernas e caríssimas para o
projeto das oficinas gráficas.17 Mas o empreendimento do IPE malogrou também
por outras razões.
A expansão da indústria gráfica e do setor editorial tornou o ambiente do
mercado de livros de São Paulo bem competitivo. Para que as máquinas adquiridas
pelo IPE se mantivessem ocupadas, o que garantiria o funcionamento e o
equilíbrio financeiro da editora-gráfica, era preciso, a um só tempo, concorrer
com as demais oficinas estabelecidas na cidade, que não eram poucas, e atrair
outros clientes além da própria editora, isto é, outros editores que, por sua
vez, eram concorrentes do IPE. Nesse sentido, chama a atenção um apelo
realizado por Geraldo Ferraz no Suplemento:
Penso que será possível aos editores, aos quatro ou cinco grandes que
aqui temos, um trabalho de cooperação com o IPE. Trata-se de melhorar
a qualidade do livro brasileiro, melhorar o material que nos faltou
até agora, e, possivelmente, de baratear o seu preço, pois o IPE vai
produzir em grande escala. Uma campanha capaz de fazer com que haja
um consumo adequado do livro brasileiro poderá e mesmo deverá chegar
a este resultado, pois o livro barateia apenas em função das grandes
tiragens (SL, 25 de julho de 1948).
Octalles Marcondes Ferreira e José de Barros Martins eram dois desses grandes
editores que atuavam em São Paulo. O primeiro comprou a "Companhia Gráfica -
Editora Monteiro Lobato", na ocasião de sua falência, e fundou a "Companhia
Editora Nacional" que teve no Rio de Janeiro uma filial, a "Civilização
Brasileira". Octalles beneficiou-se do surto editorial que ocorreu nos anos de
1930. Com a crise de 1929, houve um processo de "substituição de importação"
que mobilizou de maneira positiva o desenvolvimento da indústria nacional do
livro. O crescimento do setor foi notável e não só ampliou o público leitor de
ficção estrangeira e brasileira como atingiu de maneira significativa a
produção do livro didático, em função do alargamento do ensino fundamental,
médio e superior.
Dotado de aguda perspicácia empresarial, Octalles separou a gráfica da antiga
firma de Lobato e voltou os seus interesses para a atividade editorial,
particularmente, para os gêneros que rendiam maiores lucros como a ficção,
investindo nos nomes mais conhecidos da literatura, e o livro didático.18
Outro editor de sucesso que se aproveitou da situação promissora no mercado de
livros para iniciar seu negócio foi José de Barros Martins. A emergência da
Segunda Guerra Mundial restringiu novamente a importação de livros e propiciou
um novo boom na indústria brasileira do livro. Poucos meses depois da
deflagração da guerra, Martins abriu em São Paulo a sua editora que foi, do
ponto de vista cultural, a mais expressiva do período. Em primeiro lugar, a
Editora Martins investiu no escritor brasileiro e atraiu autores perseguidos
pelo Estado Novo, dado que Martins era adversário fervoroso do regime. É o caso
de Jorge Amado que foi o best-seller da editora. Em segundo lugar, a casa
reuniu em torno de si um grupo de pessoas importantes ligadas à Universidade de
São Paulo e ao Departamento de Cultura que colaboravam como autores, tradutores
e organizadores de coleções. E, por fim, é preciso levar em conta a inovação do
projeto gráfico e estético de seus livros que eram ilustrados por artistas
brasileiros.
Quando Matarazzo e Crespi resolveram investir no setor, o momento já não era
propício. No pós-guerra a indústria editorial passou por uma grave crise, que
se desencadeou, entre outras razões, pela concorrência acirrada das inúmeras
editoras que proliferaram com o crescimento do setor na guerra, pela taxa de
câmbio desfavorável que dificultou a competição do livro brasileiro em relação
ao estrangeiro e pelo aumento dos custos gráficos e do papel nacional
(Hallewell, 1985, p. 431).
A crise, no entanto, não atingiu de modo devastador as editoras que já
lideravam o setor antes da guerra, que mantiveram suas posições fazendo ajustes
para sua segurança. Mas os poucos e novos nomes que apareceram no período
encontraram dificuldades em permanecer no mercado ou sucumbiram. O IPE foi um
deles e ao que tudo indica os seus idealizadores não levaram em conta as
conseqüências desfavoráveis desse contexto.
A falta de conhecimento do ramo editorial foi decisiva para o desaparecimento
do IPE não só no que se refere a uma situação específica como a crise do setor
no pós-guerra, mas a outros elementos da lógica particular desse mercado. A
legitimidade de um editor é menos conquistada pelo aspecto comercial do
investimento do que por outros atributos. Como mostra Heloisa Pontes,
No mundo editorial, o prestígio assim como o lucro - indício seguro
de uma editora bem sucedida - são os mais cobiçados predicados. É por
meio do prestígio que os editores se diferenciam do simples
comerciante e do empresário. E mais: é através dele que os negócios
editorias parecem perder a sua dimensão "profana" ganhando um espécie
de "aura", que os demais empreendimentos empresariais dificilmente
chegam a possuir um dia [...]. O prestígio, por recobrir a condição
primeira de empresários de bens culturais, é um dos meios que os
editores dispõe para serem reconhecidos e se reconhecerem como
sujeitos destinados a uma missão social de alcance e importância
consideráveis [...]. Nenhuma outra pessoa soube tão bem construir
essa imagem do editor predestinado a cumprir uma missão como José de
Barros Martins (1989, pp. 379-380).
Neófitos no campo da produção de bens culturais, os proprietários do IPE não
atinaram para essa característica tão fundamental que garante em larga medida a
sobrevivência no universo de livros. As relações pessoais e a sociabilidade
promovida pelo editor entre autores, críticos, tradutores, artistas, interfere
de modo significativo nesse tipo de negócios.
A carga comercial do investimento do IPE foi também um obstáculo à aquisição de
prestígio do empreendimento no disputado mercado daqueles tempos. O discurso
que José de Barros Martins fez na ocasião de sua homenagem, em 1950, um ano
depois da falência do IPE, é revelador da desconsideração da "classe" de
editores por aqueles que tratavam a atividade do ponto de vista puramente
comercial:
Um dos maiores editores já disse, certa vez, que se editar livros não
é um bom negócio no sentido estritamente comercial é, pelo menos, o
mais belo dos negócios. Nós, que estamos nele, sabemos o quanto isso
é verdadeiro! A história do livro no Brasil pode ser dividida em duas
fases bem distintas: Antes de Lobato e depois de Lobato [...]. Mas
Lobato, espiritualmente herdeiro da vocação "bandeirante", autêntico
abridor de picadas e caminhos [...] deu ao movimento editorial [...]
um caráter de continuidade [...] e um sentido cultural bem marcante e
construtivo. Ele e assim a maioria dos que se entregam de corpo e
alma a essa atividade - não foi editor de livros para mais facilmente
ficar rico [...], Lobato era um bandeirante no mais duplo sentido do
vocábulo e, mais do que o lucro fácil, preocupava-o o futuro de sua
terra (Martins, 1950, p. 20).
O ambicioso projeto de unir a atividade gráfica a uma editora, a disputa no
interior do campo da indústria gráfica e do livro, a crise do setor no pós-
guerra, a falta de prestígio de seus organizadores no meio literário e
intelectual, o forte traço comercial da iniciativa foram algumas das razões
pelas quais o IPE não prosperou, a despeito do pesado investimento financeiro e
também cultural direcionado ao sucesso de seu empreendimento.
A aventura do IPE pode ter sido apenas mais um investimento de grandes
empresários, que buscavam aumentar o seu patrimônio apostando em novos setores
da indústria. No entanto, Matarazzo Sobrinho foi exemplo emblemático que
protagonizou a construção do campo cultural da futura metrópole, o que leva a
pensar a criação da editora como ponto de partida de um projeto "pessoal" mais
amplo, cuja tarefa "bandeirante" tinha por foco a modernização do mercado de
bens simbólicos da cidade. Mas, ao que tudo indica, a seara dos livros não
estava disposta a incorporar em sua dinâmica um concorrente de peso como o IPE,
que representaria no interior de sua lógica particular uma inversão simétrica
entre economia e cultura.
Grande empresário, porém, estabelecido em redes de relações duvidosas e
desprovido dos capitais específicos requeridos para o acesso a esse mundo,
Matarazzo desviou de rota e garantiu o sucesso de suas realizações no terreno
das artes, cujo desenvolvimento mais tímido, se comparado ao do universo
letrado daquele momento, permitiu maior adesão e legitimidade de um mecenato
que foi responsável pela profissionalização de diversos campos culturais da
cidade. E foi apenas com a fundação do MAM e de uma série de outras incisivas
ações que Matarazzo se inseriu no reticente meio artístico e intelectual de São
Paulo para então projetar-se e ser reconhecido pela elite paulistana da época.
Notas
1 A respeito da problemática do simbolismo sob formas de dominação na tradição
do pensamento de Max Weber e de Pierre Bourdieu, ver Miceli (1999, p. LIII).
2 Para informações a respeito do Pensionato Artístico, consultar de Camargos
(2000, p. 159).
3 Sobre o conceito de campo consultar Bourdieu (1996), e "O mercado de bens
simbólicos", em Miceli (1999, p. 99).
4 A respeito da importância do desenvolvimento da imprensa no processo de
autonomia do campo da cultura, ver Bourdieu (1996).
5 A respeito de Francisco Matarazzo (1854-1937), consultar Couto (2004).
6 Para mais informações sobre Assis Chateaubriand, ver Morais (1994) e Bardi
(1982).
7 A família Mesquita, proprietária do jornal O Estado de S. Paulo, contribuiu
também de modo significativo para esse processo. Entre os projetos em que
esteve envolvida destaca-se a idealização da Universidade de São Paulo. Cf.
Peixoto (2000, p. 159).
8 Para maiores informações sobre Geraldo Ferraz, consultar sua autobiografia
(1979). A respeito de Patrícia Galvão, ver também sua autobiografia (2005) e
Campos (1982).
9 As citações referentes ao Suplemento Literário do Diário de S. Paulo serão
indicadas com a abreviação SL e a data de publicação.
10 Sobre a imprensa paulista, consultar Nobre (1950) e Duarte (1972). A
respeito de periódicos e páginas culturais publicadas, em meados dos anos de
1940, em São Paulo, ver Cruz (1997, 2000).
11 Informações obtidas nas entrevistas realizadas com Antonio Candido e Mino
Carta.
12 A respeito da ligação de Francisco Matarazzo e Rodolfo Crespi com o regime
fascista, consultar Trento (2007, p. 21).
13 Informações obtidas nas entrevistas realizadas com Antonio Candido e Mino
Carta.
14 No que diz respeito às memórias de Paulo Duarte, ver Duarte (1974).
15 As informações sobre Luigi Federzoni e sua ligação com Malgeri foram obtidas
no texto I Diari di Luigi Federzoni, disponível em <www.liberliber.it/
biblioteca/riviste/studistorici/1995>.
16 Foi possível recuperar 66 títulos do catálogo da editora IPE. A pesquisa foi
realizada no acervo de bibliotecas (SP e RJ). Para termo de comparação, as
edições da Editora Martins da década de 1940 encontram-se no livro Dez anos de
atividades editoriais de José de Barros Martins 1940-1950. No ano de 1947 foram
editados 36 títulos; em 1948, 35; e em 1949, 27.
17 Informação obtida em entrevista realizada com Mino Carta.
18 Sobre a hierarquia de gêneros literários no período, consultar Miceli (2001,
pp. 156-157).