Corpo e outras (de)limitações sexuais: uma análise antropológica da revista
Sexuality and Disability entre os anos de 1996 e 2006
Há mais de vinte anos as abordagens construtivistas vêm se afirmando a partir
da contraposição às leituras médicas e sexológicas da sexualidade. Tais
abordagens produziram um importante referencial sobre diversidade sexual e de
gênero, amplamente utilizado para instrumentalizar a idéia dos direitos sexuais
e reprodutivos como direitos humanos. O tema das "deficiências",1 nesse
contexto, descortina uma "nova pauta" de pesquisa em relação às convenções
corporais relacionadas com sexualidade e gênero. Ele remete a uma discussão
sobre limites para o exercício da sexualidade no que concerne à presença de
"deficiências" cognitivas e físicas e de doença crônicas. Ao mesmo tempo,
suscita um questionamento sobre a opressão das convenções corporais relativas à
sexualidade (relação heterossexual e penetrativa) para as pessoas com
"deficiência". Apesar de constituir uma novidade, muito poucos pesquisadores
dessa área têm se apropriado dos referenciais que enfatizam a variabilidade das
experiências sexuais e sua potencialidade na produção de subjetividades para
pensar essa temática.
Na contramão dessa tendência, pode-se observar uma significativa mobilização
para a produção de alternativas médico-químicas e psicológicas para viabilizar
o exercício da sexualidade entre pessoas com "deficiências" físicas, bem como
estratégias para conter os excessos sexuais das pessoas com "deficiências"
cognitivas. Nesse sentido, o cruzamento entre sexualidade e "deficiência"
mobiliza a produção de um conhecimento que dê sustentação à prática clínica em
diferentes áreas, como a sexologia, a medicina de reabilitação, a enfermagem, a
fisioterapia, a psicologia, além de mobilizar uma série de outros interesses
jurídicos, políticos e tecnológicos.
O objetivo desse texto é explorar a emergência da interface entre sexualidade e
"deficiência", tomando como foco a análise dos artigos de um periódico
internacional, que desde o final da década de 1970 propõe associar as duas
temáticas. Publicada pela primeira vez em 1978,2 a revista Sexuality and
Disabilitypropõe abarcar os aspectos médicos, psicológicos e sociais da
sexualidade relacionados com a reabilitação dos mais diversos tipos de
"deficiências". Em sua origem, a sexualidade é considerada, essencialmente,
parte de um processo mais amplo de reabilitação das pessoas com "deficiência".
Os centros de pesquisa que sustentam as primeiras publicações são faculdades de
medicina e reabilitação, entidades de proteção aos veteranos de guerra e
centros públicos e privados de reabilitação.3
Foram selecionados para análise dez volumes publicados entre os anos de 1997 e
2009, período no qual a revista esteve sob a coordenação editorial do sexólogo
e terapeuta sexual, Stanley Ducharme. Os textos consistem em pesquisas
acadêmicas, estudos de casos, relatos de prática clínica, questões levantadas
pelos consumidores,4 programas comunitários, programas para vida independente;
orientações para prática clínica, desenvolvimentos em programas especiais de
educação sexual e aconselhamento para pessoas com "deficiência". Com base em
uma leitura etnográfica dos artigos são identificadas quatro perspectivas de
articulação entre as temáticas que remetem a problemas de investigação
distintos, a modelos específicos de explicação da "deficiência", a diferentes
áreas profissionais ou científicas e ainda a posições variáveis em relação à
produção, à aplicação e ao consumo do conhecimento científico. Essas
perspectivas foram agrupadas em uma proposta tipológica que separa a ênfase no
funcionamento sexual, a preocupação com as especificidades das mulheres com
"deficiência", a perspectiva da desabilitação e as redes de suporte e
assistência.
Discute-se ainda a discrepância numérica em favor dos artigos que abordam
"deficiências" físicas em relação aos que tematizam "deficiências" cognitivas e
doenças degenerativas relacionadas com o envelhecimento, sobretudo ao sentido
que a sexualidade assume em cada tipo de "deficiência". Os dados apontam para a
sexualidade como um dispositivo de fronteira no que diz respeito ao acesso à
normalidade, operando ora como atestado de uma reabilitação satisfatória dos
sujeitos, ora como evidência da anormalidade. Antes, porém, de adentrar essa
discussão, explicito o percurso metodológico desse trabalho, com especial
atenção para a descrição da organização formal e uma breve contextualização da
heterogeneidade de seu conteúdo.
Uma revista como "campo" de pesquisa
O interesse pela "deficiência" origina-se nas discussões de um grupo de
trabalho sobre direitos sexuais e reprodutivos como direitos humanos.5Nesse
âmbito, a proposta atraiu a atenção de uma entidade da sociedade civil
vinculada a um grupo religioso (evangélico tradicional), a qual organizava
ações de inclusão social de crianças e jovens com Síndrome de Down. Com uma
postura bastante progressista, as profissionais da área de psicologia,
pedagogia e assistência social da instituição manifestavam seu desconforto
profissional em utilizar "medidas repressivas" como único recurso diante das
manifestações "sexuais" de crianças e jovens Down. Era necessário pois
construir alternativas de manejo da sexualidade que tivessem maior respaldo
científico e, ao mesmo tempo, amparo legal.
Na busca de um embasamento teórico que pudesse contribuir nesse sentido, a
revista Sexuality and Disability, acessada no portal de periódicos da Capes,
foi privilegiada como fonte bibliográfica. No entanto, com o contato mais
próximo ao conteúdo dos artigos, a própria revista foi se convertendo em objeto
de reflexão, pela multiplicidade de abordagens, muitas vezes contraditórias, em
torno das quais são propostas articulações entre as duas temáticas. Tais
abordagens remetem a uma negociação complexa sobre os limites e as
potencialidades sexuais colocados pela variação corporal, seja ela resultante
de uma "deficiência" cognitiva ou física, de origem congênita ou adquirida,
seja pela "degradação" relativa aos processos de adoecimento físico e psíquico.
Ao mesmo tempo, elas estabelecem prescrições e proibições no âmbito das
interações sociais e sexuais entre as pessoas consideradas normais e aquelas
portadoras de algum tipo de "deficiência". A revista pode ser considerada, no
sentido antropológico do termo, um "campo" profícuo para a investigação das
perspectivas de articulação entre as duas temáticas.
Do ponto de vista metodológico, a leitura antropológica dos artigos publicados
nesse periódico implica uma apropriação da etnografia como ferramenta útil para
a descrição e a análise de outros objetos que não pessoas em seus valores e
práticas cotidianas. Para tanto, as análises realizadas a seguir estão
fundamentadas na discussão proposta por Adriana Vianna (2006) sobre a
etnografia de documentos. Dirigida a esse campo específico, a abordagem
etnográfica supõe que se persiga a trilha das condições da produção de
"verdades", "informações", "práticas", "dados" e "recomendações" enunciados nos
artigos analisados.
Cada um dos artigos faz parte de um determinado contexto de produção de
conhecimento, está inserido numa certa tradição disciplinar, possui objetivos
específicos em relação à publicação e, principalmente, constrói a relação entre
sexualidade e "deficiência" de uma maneira particular. Ao mesmo tempo, todos
eles compartilham (como documentos de um arquivo) certa padronização formal e
são avaliados a partir do estatuto, ou do lugar que a revista ocupa em relação
às hierarquias de credibilidade do campo editorial. Importa questionar sobre o
ato da publicação em si, sobre a seleção do que merece ser publicado, sobre o
"julgamento editorial" do que contribuirá para a articulação entre as duas
temáticas. Nesse âmbito, não só é necessário atentar para o que os artigos
efetivamente mostram, mas também questionar sobre o que eles silenciam (Vianna,
2006).
Em suma, pode-se dizer que a proposta aqui consiste em fazer com os artigos da
revista Sexuality and Disabilityum pouco daquilo que os antropólogos fazem com
as situações de trabalho de campo. Isso implica não apenas descrever o maior
número possível de situações, mas também atentar para detalhes aparentemente
banais, selecionar determinados artigos e passagens que se tornaram marcantes
ao longo da leitura porque ajudaram a construir uma coerência diante da
multiplicidade de abordagens que perpassa a revista.
A inserção nesse "campo" de pesquisa possibilita um diálogo com os estudos de
antropologia e sociologia que têm como objeto a análise da ciência. Embora não
se trate de estudar um tipo específico de produção e prática científica (como a
de laboratório) nem de um campo disciplinar (como a medicina), a análise da
revista em pauta pode contribuir para uma abordagem das dinâmicas sociais que
perpassam a produção de fatos científicos. Isso porque a revista coloca em
evidência disputas e alianças entre atores, saberes e campos disciplinares que
operam a partir de concepções de ciência e de critérios de cientificidade
diferentes. Tais relações concorrem para a emergência de diferentes interfaces
entre sexualidade e "deficiência".
Para compreender esse processo, privilegia-se o conceito de problematização,
desenvolvido por Foucault (2004) na esteira das discussões sobre ciência
propostas por Georges Canguilhein. Seguindo a orientação de outros trabalhos
que propõem uma leitura metodológica desse conceito, considera-se a noção de
problematização uma ferramenta de investigação mais do que uma teoria
explicativa.6 Nesse sentido, o texto remete à maneira pela qual um objeto se
torna problema para o pensamento mediante práticas discursivas e não
discursivas que o inserem num determinado "regime de verdades" (Idem, p. 242).
Trata-se de compreender as formas de articulação entre os discursos sobre
sexualidade e os discursos sobre "deficiência" na conformação de problemas
específicos.
Descrevendo a revista e contextualizando o "campo"
Os volumes publicados entre 1997 e 2006 comportam quatro números anuais, em que
são apresentados entre cinco e oito artigos. Embora a estrutura não seja fixa,
há um padrão de apresentação, composto por notas de edição, artigos, resenhas,
anúncios, sumário e listagem de editores convidados para os próximos volumes.
Alguns números organizam-se em tópicos especiais para os quais são chamados
editores convidados.7 Outros são inteiramente dedicados à transcrição de
resumos e principais artigos apresentados em congressos internacionais. Essas
publicações abrangem diferentes tipos de eventos, como aqueles realizados por
militantes, ou grupos profissionais além daqueles de caráter acadêmico.8 Uma
outra modalidade são as compilações bibliográficas, geralmente organizadas pelo
editor convidado dos tópicos especiais.
O caráter menos acadêmico de alguns artigos pode ser evidenciado principalmente
em volumes não organizados em torno de um tópico especial. Nestes, não é
incomum encontrar textos em estilo de depoimento, de autores qualificados como
"consumidores" dos serviços de reabilitação. O relato de casos ou de
estratégias terapêuticas empregados por profissionais, principalmente da área
da psicologia, também encontram ali um importante espaço de expressão.
Além da sessão de artigos, a revista comporta ainda uma sessão de resenhas
(composta geralmente por uma ou no máximo duas resenhas) de livros ou filmes
que vinculem de alguma maneira a temática da sexualidade à da deficiência, ou
que abordem pelo menos uma das duas. Aqui novamente encontramos o espaço para a
realização de comentários, reflexões e divulgação dos mais diversos tipos de
literatura.
A edição fecha com a previsão de tópicos especiais e editores convidados, além
de anúncios das mais diferentes ordens: divulgação de eventos, concursos
acadêmicos e bolsas de pesquisa, propaganda de programas terapêuticos, cursos e
ações de formação e treinamento para cuidadores e trabalhadores da área da
saúde, e até convocações dirigidas à população desabilitada para participação
em pesquisas científicas.
Esse tipo de organização contrasta bastante com outros periódicos da área
médica, principalmente no que diz respeito ao grau de especialização das
temáticas e à homogeneidade dos artigos acolhidos para a publicação. O que
marca a revista Sexuality and Disabilityé justamente a heterogeneidade9 de seu
conteúdo e a explicitação de uma complexa rede de articulações entre os atores
envolvidos na produção, na aplicação e no consumo do conhecimento científico.
Essa característica deve ser considerada em relação ao lugar ocupado pela
sexologia e pela medicina de reabilitação no campo de lutas por posição,
prestígio e recursos biomédicos. Nesse sentido, a medicina de reabilitação pode
ser pensada a partir da diferenciação valorativa entre disciplinas diagnósticas
e terapêuticas proposta por Camargo Jr. (2003). Relacionadas com a modalidade
terapêutica, ambas as especialidades são menos valorizadas e menos reconhecidas
do ponto de vista científico.
Mesmo em relação à prática médica, que segundo Camargo Jr. (2003) é lócus
privilegiado para mudanças valorativas (no qual a cirurgia, por exemplo, se
destaca em termos reconhecimento) a posição da reabilitação não é diferente.
Isso porque essa especialidade é perpassada por uma incontornável tensão entre
a expectativa de cura ou erradicação da doença (importante objetivo da
medicina) e a sua impossibilidade ante a deficiência. A prática médica de
reabilitação é desprestigiada porque evidencia os limites da atuação médica na
superação da "deficiência", constituindo-se numa espécie de medida paliativa.
Assim, pode-se argumentar que o manejo médico das "deficiências" segue uma
tendência de maior abertura para a multidisciplinaridade, que já foi observada
por Menezes (2004) em relação à emergência dos cuidados paliativos.
Uma outra tendência, diante da impossibilidade de cura ligada à "deficiência",
é o deslocamento do lugar do paciente dentro da cena médica. Como ressalta
Ducharme, em um de seus editoriais de despedida, a própria criação da revista
resulta desse deslocamento: do paciente como ouvinte passivo das recomendações
clínicas para consumidor dos serviços de saúde, dos recursos tecnológicos e do
próprio conhecimento científico. Segundo sua descrição:
A idéia de proporcionar educação sobre sexualidade é uma coisa única
para o campo da medicina de reabilitação. Na verdade, apenas desde
meados da década de 1970 é que as pessoas começaram a falar sobre
sexualidade como parte do processo de reabilitação. Antes disso, nem
mesmo os médicos consideravam que você pudesse ter uma vida sexual
após uma lesão grave. Eles acreditavam que a sua vida sexual
terminava a partir do momento em que você se tornava uma pessoa com
lesão na coluna vertebral. Em conseqüência, o assunto foi evitado ou
ignorado.
Não por acaso, foram as próprias pessoas vinculadas aos programas
pela vida independente e consumidores com lesão da coluna vertebral
que começaram a buscar esse tipo de informação de seus médicos. Os
consumidores dos serviços de reabilitação mudaram o
stablichmentmédico. Eles queriam ter uma vida sexual. Seus
relacionamentos conjugais eram importantes pra eles. Os pacientes
começaram a falar sobre sexo entre si e apelar aos médicos, quando
tinham dúvidas. Naquela época, os médicos prestadores de serviço
também estavam embaraçados em falar sobre sexo, mas eles não tinham
outra escolha, a não ser responder a esses questionamentos (Ducharme,
2005, p. 117, trad. livre).
Resgatando os elementos que desencadearam a organização da revista, o autor
assinala que a iniciativa de abordar a sexualidade nos processos de
reabilitação é dos próprios pacientes. Essa demanda impulsionou a realização
das primeiras pesquisas sobre implante peniano entre homens com lesão da coluna
vertebral. Tal técnica foi, até a invenção do viagra, uma das mais difundidas
nos processos de reabilitação sexual, muito embora sua utilização implicasse
vários riscos para os pacientes.
Convenções corporais e (de)limitações sexuais
A emergência da interface entre sexualidade e "deficiência" como objeto de
produção de conhecimento conforma diferentes possibilidades de problematização
relacionadas não só com as diferenças disciplinares, mas também com uma
complexa rede de relações políticas, interesses econômicos e de normatizações
jurídicas. Nesta sessão, apresento uma proposta tipológica das formas de
problematização encontradas nos artigos da revista Sexuality and Disability.É
importante destacar que, a despeito do investimento tipológico realizado, não
se trata aqui de enquadrar cada um dos artigos da revista numa dessas
perspectivas. Pelo contrário, muitos artigos podem conformar a um só tempo mais
de uma dessas perspectivas e outros, ainda, parecem inclassificáveis.
A funcionalidade sexual
A ênfase majoritária nos processos de reabilitação fornece uma pista importante
sobre a preocupação mais típica dos objetos de investigação que perpassam os
artigos da revista: a funcionalidade sexual. Nesse sentido, o discurso
sexológico desponta como principal referencial tanto no campo da pesquisa como
no da proposição terapêutica, embora não exclusivamente. As principais áreas do
conhecimento empenhadas na construção desse tipo de problema são a medicina
(com grande destaque para a urologia) e a psicologia, além da biologia
molecular, cuja expressividade vem aumentando nos três últimos anos
principalmente no campo da disfunção erétil e das patologias relativas à
diferenciação sexual. Nessa perspectiva privilegiase a influência sobre o
funcionamento sexual dos mais diferentes tipos de "deficiência", tanto no que
diz respeito ao comprometimento corporal e aos limites que este estabelece para
o desempenho da atividade sexual, como no que concerne aos aspectos
psicológicos decorrentes ou não de condições físicas. Outro foco privilegiado
para esse tipo de estudo é o impacto sobre o funcionamento sexual da utilização
de medicamentos e técnicas terapêuticas de combate a doenças crônicas. Exemplo
disso aparece no quarto número do vigésimo volume, publicado em dezembro de
2002, inteiramente dedicado ao impacto de diversos tipos de câncer sobre a
sexualidade, principalmente no que diz respeito ao uso de técnicas radio e
quimioterápicas.
Ao mesmo tempo, as próprias patologias físicas e psíquicas desencadeadoras de
comprometimento para a atividade sexual normal (como a disfunção erétil) são
consideradas, nessa perspectiva, formas de deficiência. Aproveitando-se desse
deslizamento semântico, a própria psiquiatria ganha espaço em meio ao discurso
sobre a funcionalidade, ao destacar os distúrbios do comportamento sexual
associados à transexualidade, às diferentes formas de fetichismo, ao
devoteísmo10 e até mesmo à homossexualidade.11
Os estudos que assumem a problemática da funcionalidade estão empenhados tanto
na descoberta das causas orgânicas e psicológicas de prejuízo da atividade
sexual (numa atuação mais diagnóstica), como na produção de medicamentos,
técnicas cirúrgicas, desenvolvimento de próteses e outras estratégias
terapêuticas de reabilitação. Também se observa uma preocupação com a redução
dos efeitos colaterais de diversos tipos de medicamentos utilizados em
pacientes psiquiátricos e com outras doenças crônicas. No campo da psicologia,
destacam-se o desenvolvimento e a avaliação de escalas de mensuração da
satisfação e da auto-estima sexuais.
É importante ressaltar que a preocupação com o funcionamento sexual no campo da
sexologia não se restringe à questão das "deficiências". Ela deve ser
contextualizada em relação às práticas mais gerais de medicalização da
sexualidade. Estudos brasileiros recentes sobre sexologia, em especial o de
Jane Russo (2008), argumentam que uma segunda onda de produção sexológica
focada nas "disfunções sexuais", inaugurada pelos trabalhos de Masters e
Jonsons nos anos de 1970, teria substituído nos códigos internacionais de
doenças os antigos desvios da norma heterossexual. Nas palavras da autora, na
sexologia:
Não se está mais produzindo identidades desviantes ou definindo novos
sujeitos na cena pública (como foi o caso, por exemplo, da
homossexualidade), mas alargando e pavimentando o caminho para a
construção médico-psicológica da performance sexual como ideal de
saúde e bem estar (Russo, 2008, p. 7).
Para ela, essa psico-medicalização da heterossexualidade coexiste com a intensa
politização da diversidade sexual. Estes processos estariam interligados na
medida em que ambos resultam da autonomização da sexualidade em relação à
esfera reprodutiva e da ênfase no prazer como objetivo primordial da atividade
sexual. Em face desse movimento sexológico mais abrangente, a "deficiência"
pode ser pensada como um terreno fértil para a proliferação do conhecimento e
das terapêuticas sobre "disfunções sexuais".
Além disso, a problematização da funcionalidade sexual alinha-se ao modelo
médico de explicação e manejo da deficiência. Isso pode ser observado pela
fragmentação e individualização das pesquisas, geralmente direcionadas para um
tipo específico de "deficiência". Nesse sentido, a primeira grande divisão
realizada do ponto de vista da construção do objeto é a separação entre
desabilidades físicas e mentais/cognitivas e doenças crônicas. Ademais,
investigam-se individualmente: lesão na coluna vertebral, surdez (para a qual é
direcionado um número especial com cerca de cinco artigos), cegueira, Doença de
Huntington, diferentes tipos de câncer, afasia, Síndrome de Turner, stoma,
demência, Alzheimer, esclerose múltipla, esquizofrenia, autismo, cistismo,
osteoporose, dor crônica, paralisia cerebral, lúpus, Doença de Peyronie,
Síndrome de Asperger etc.
Conforme Diniz (2007), esse tipo de abordagem considera a "deficiência" uma
condição corporal exclusivamente negativa, que traz prejuízos aos indivíduos.
Em razão disso, ela deve ser enfrentada, combatida ou, pelo menos, minimizada
em seus reflexos sobre a atividade sexual. Nesse contexto observa-se um dos
terrenos mais férteis para o desenvolvimento dos discursos sexológicos que dão
sentido à sexualidade por meio de elementos que sejam válidos universalmente,
tais como a idéia de pulsão sexual.
A especificidade das mulheres
A segunda modalidade de problematização da relação entre sexualidade e
"deficiência" parte da crítica feminista à centralidade dada ao funcionamento
sexual, como uma preocupação eminentemente masculina, direcionada à
reabilitação dos homens. Entre os dez volumes analisados, seis números
especiais são dedicados à temática das mulheres, além de um sobre gênero e
vários outros artigos que ao longo das edições regulares também tratam deste
tema. Entre os principais argumentos que sustentam a especificidade da
experiência das mulheres desabilitadas está a idéia de dupla opressão: de um
lado pela própria condição feminina, de outro, pela condição de pessoa com
"deficiência"/desabilitada. Ellen Rubin (1997)12, por exemplo, aborda as
dificuldades de reabilitação entre mulheres cegas, que precisam ultrapassar uma
dupla barreira (interior e exterior) para enfrentar suas desabilidades. Os
homens, mesmo sendo cegos, são socializados para enfrentar as dificuldades
relativas à sua condição física como desafios exteriores a serem superados. No
caso das mulheres, a incapacidade física tende acentuar elementos de
domesticidade e dependência que fazem parte da socialização feminina. Além das
dificuldades específicas que a reabilitação apresenta no caso da deficiência
visual, colocam-se uma série de barreiras subjetivas relativas à ausência de um
estímulo para a auto-suficiência bem como da própria crença na superação das
dificuldades.
O argumento da dupla opressão torna-se ainda mais eficaz na construção desse
tipo de problematização à medida que é operacionalizado no âmbito da
sexualidade. Nesse caso, a crítica se dirige às iniciativas de desenvolvimento
de tecnologias de reabilitação focadas na disfunção sexual masculina, como se a
sexualidade fosse algo de menor importância para as mulheres. No campo da
sexologia, os autores apontam a inexistência de alternativas medicamentosas de
estímulo à excitação e ao desejo sexual das mulheres. Espera-se que o
desenvolvimento de um viagra feminino possa promover uma revolução tão
expressiva no acesso ao desempenho sexual das mulheres quanto aquela que vem
promovendo entre os homens.13 A menor associação da mulher à sexualidade seria
responsável também pela maior dificuldade das mulheres desabilitadas em acessar
informações e educação sexual. Walters, Nosek e Langdon, numa pesquisa que
compara as condições de acesso à educação sexual e às informações sobre
funcionamento reprodutivo e contracepção, justificam a maior dificuldade das
mulheres desabilitadas pela indiferença social e histórica em relação à
sexualidade feminina: "Historicamente as mulheres têm sido vistas como
empregadas dos homens e potenciais mães e não como seres sexuais. Espera-se
delas que ajam como se realmente não tivessem desejo sexual" (2001, p. 168,
trad. livre).
Além de promover a investigação da sexualidade feminina no campo da
"deficiência", essa perspectiva aponta para um outro foco de discussões, o do
acesso à saúde reprodutiva. Desse modo, atrai para o campo da "deficiência"
novas especialidades médicas como a ginecologia e a obstetrícia que vão atuar
na pesquisa e no manejo do ciclo menstrual, da menopausa, da infertilidade, das
complicações da gravidez, das doenças sexualmente transmissíveis e das
estratégias de prevenção e contracepção.
A vulnerabilidade ao abuso e à violência sexual é outra dimensão importante que
se torna objeto de problematização a partir da perspectiva da vivência feminina
da sexualidade no contexto da "deficiência". Entre as principais razões dessa
vulnerabilidade são a proximidade e a maior dependência das mulheres
desabilitadas em relação aos perpetradores do abuso. Para Beck-Massey é preciso
considerar também a existência de uma espécie de aceitação social da violência
contra mulheres desabilitadas:
A mulher com deficiência freqüentemente sofre todo o tipo de abusos,
muitos dos quais perpetrados sem a consciência e o reconhecimento
dessa mulher como ser humano, fato que legitima o próprio abuso.
Sendo vista como uma pessoa defeituosa, a mulher deficiente é
depreciada, desvalorizada e tratada muitas vezes com desrespeito
(Becck-Massey, 1999, p. 271, trad. livre).
Mesmo os artigos que se contrapõem à percepção de uma maior vulnerabilidade,
argumentando que os índices de abuso não se distanciam da incidência entre as
mulheres em geral, destacam a diferença em relação ao acesso às estratégias de
enfrentamento, como condições de expressão e denúncia.
Sexualidades desabilitadas14
A preocupação com os aspectos sociais ligados à deficiência inaugura a
participação das ciências sociais, da história e da psicologia social na
abordagem da interface entre sexualidade e "deficiência". Entre os primeiros
elementos destacados por essa perspectiva está a presunção de assexualidade das
pessoas desabilitadas, que já vinha sendo pautada na perspectiva da
reabilitação. É vinculado à teoria social da "deficiência" que esse enfoque
ganha mais força, pois a unidade de análise se desloca da limitação sexual para
as expectativas sociais relativas à sexualidade. Tepper (2000), por exemplo,
mostra como a própria sexologia durante o século XX, ao eleger o orgasmo como
determinador do desempenho e da expressão sexual, além de uma medida da saúde
sexual instaura uma espécie de profilaxia da sexualidade. Em sua avaliação, os
imperativos culturais do orgasmo e da terapia sexual (no caso da falta dele)
reforçam a representação das pessoas desabilitadas como assexuadas ou incapazes
sexualmente. Nesse sentido, para o autor criticar a presunção de assexualidade
das pessoas desabilitadas demanda mais do que um discurso sobre a necessidade
de sexo como critério de qualidade de vida.
Uma das nuanças que podem ser percebidas nos textos identificados com a teoria
social da "deficiência" é a mudança de posição das pessoas com "deficiência",
que deixam de ser consideradas apenas como "pacientes". Sua atuação não se
resume ao consumo de tecnologias e serviços de reabilitação e, ela passa a
ocupar o próprio espaço da produção do conhecimento. Nesse sentido, cabe
destacar que o modelo social tem sua origem entre ativistas políticos ingleses
vinculados à Union of Physically Impaired Against Segregation (Upias). Esse
grupo defende que os problemas com a "deficiência" não são causados pelas
características corporais em si, mas pela forma opressiva por meio da qual a
sociedade lida com a diferença corporal. Desse modo, o modelo social procura
imprimir um sentido particular ao termo disability, privilegiando a distinção
entre corpos socialmente habilitados e desabilitados.
No que tange à interface com a sexualidade, a aplicação desse modelo implica a
tese de que não são os elementos físicos e psicológicos imediatamente
decorrentes das condições corporais diferenciadas que desabilitam as pessoas em
relação ao exercício da sexualidade, mas sim os padrões de normalidade sexual
que não comportam as experiências das pessoas desabilitadas. Dito de outro
modo, o que desabilita para o sexo para além da incapacidade corporal e/ou
cognitiva são as normas sociais que determinam o que é sexualmente possível e
aceitável.
A problematização dos aspectos sociais que desabilitam os indivíduos em relação
ao exercício da sexualidade contempla as dificuldades estruturais que
ultrapassam as peculiaridades de cada tipo de desabilidade. Segundo Tom
Shakespeare (2000), destacam-se a falta de condições de privacidade e de
condições financeiras decorrentes de situação de dependência econômica; o
estigma vinculado à imagem corporal; a baixa auto-estima e autoconfiança; a
dificuldade no estabelecimento de relações interpessoais; a alta incidência de
situações traumáticas de abuso sexual (principalmente entre mulheres),
dificultando o estabelecimento de laços de confiança para o exercício da
sexualidade.
A abordagem relativista da diversidade sexual, que vem encontrando respaldo e
amparo conceitual na teoria queer,15 é uma das principais características da
perspectiva social. Os artigos que discutem a situação de pessoas desabilitadas
pertencentes a grupos sexuais minoritários, como faz Odette (1999) em relato de
sua experiência pessoal como mulher lésbica e desabilitada, apontam para a
insuficiência dos padrões binários de gênero para descrever a diversidade de
expressões que perpassam as relações das pessoas.
A vinculação com a teoria queerpermite questionar a um só tempo as modalidades
de interações sexuais standard(intercurso penetrativo heterossexual) e os
padrões eróticos que elegem como desejáveis apenas determinados tipos
corporais. A crítica, principalmente aos padrões estéticos que organizam a
produção de desejo legítimo, vai ao encontro de uma posição mais relativizadora
de práticas e desejos, como aqueles que pautam o devoteísmo.
Em geral, os artigos constituídos de narrativas de experiência, escritos pelos
consumidores do conhecimento científico veiculado pela revista, também podem
ser pensados a partir dessa perspectiva social de problematização. Isso
acontece, em grande medida, porque tanto no campo da teoria queer, como no
interior da escola sociológica de Leeds há uma defesa e um reconhecimento da
autoridade da experiência como chave para a produção do conhecimento sobre o
tema.
O destaque aos aspectos sociais desabilitadores em relação à sexualidade é
simultâneo à mudança de uma prática discursiva alicerçada na promoção da saúde
para um outro tipo de discurso, cuja ênfase está no direito, no reconhecimento
da cidadania e na busca por uma não patologização da variação e da diversidade
corporal e sexual.
Redes de suporte e assistência
A quarta perspectiva de abordagem contempla a formação de redes de suporte e
assistência ao exercício da sexualidade para pessoas com os mais diversos tipos
de "deficiência". Esse tipo de abordagem marca a presença de vários outros
grupos profissionais vinculados à área da saúde, como enfermagem, fisioterapia,
serviço social, além de uma contribuição mais efetiva da área de educação
especial e educação sexual propriamente dita. A questão do suporte e da
assistência agrega elementos dos dois modelos teóricos de explicação da
"deficiência", o médico e o social. Seu foco é a intervenção direta em face dos
mais diferentes tipos de "deficiência" para o exercício da sexualidade. Além da
abertura do campo profissional, há que se destacar também a organização das
famílias de pessoas desabilitadas em redes de apoio e solidariedade baseadas
nas trocas de experiência.
Nesse tipo de texto há um recorte diferenciado em relação ao universo de
estudo. Se a perspectiva da funcionalidade sexual delimita sua análise em torno
dos indivíduos desabilitados ou das pessoas com "deficiência", a perspectiva
feminista preocupa-se especificamente com as mulheres desabilitadas e a
perspectiva social procura dar conta dos elementos que compõe a estrutura
social mais ampla, os artigos que abordam as redes de suporte e assistência
privilegiam os agentes de suporte, os profissionais envolvidos nos processos de
reabilitação e inclusão social, os cuidadores, os parceiros e os familiares das
pessoas desabilitadas.
O trabalho de Esmail e Munro (2002), por exemplo, sobre o papel dos
profissionais da saúde na criação de alternativas para a vida sexual de casais
em um dos parceiros possui algum tipo de "deficiência", aponta para a
necessidade de uma abordagem terapêutica que contemple também os(as) parceiros
(as) das pessoas afetadas por "deficiências" físicas e cognitivas, bem como por
doenças crônicas. Uma das principais dificuldades na elaboração de novas formas
e sentidos de satisfação sexual é a expectativa de retomar o mesmo tipo de
intimidade que constituía a relação sexual antes da deficiência ou da doença.
Embora compartilhada pelo casal, muitas vezes é o(a) parceiro(a) não
desabilitado que precisa de mais ajuda para superar essa expectativa e engajar-
se numa nova dinâmica de interação sexual.
A perspectiva das redes delineia uma forma específica de produção textual,
pautada pela cooperação entre profissionais acadêmicos e consumidores, sejam
eles as próprias pessoas desabilitadas sejam seus familiares. Exemplo disso, no
campo das desabilidades cognitivas, é o material produzido por Robert Strike e
David McConnel (2002). Este trabalho mostra a possibilidade de acesso ao
casamento, a uma vida sexual ativa e à parentalidade, o que, na maioria das
vezes, são aspectos interditados. Além disso, ele também destoa dos demais
artigos no que diz respeito à preocupação dos profissionais da saúde (em
especial enfermeiros e fisioterapeutas) com os excessos sexuais das pessoas com
deficiências cognitivas ou alguns tipos de doenças crônicas associadas à
capacidade psíquica.
O texto é uma co-produção entre um pai com desabilidades cognitivas moderadas e
um pesquisador (em pós-doutorado) da área do serviço social. Seu propósito é
descrever alguns pontos de conflito no exercício parental de pessoas com
"deficiências cognitivas", principalmente no que concerne à participação de
agentes de suporte na parentalidade. Ao longo do artigo, que pode ser descrito
como uma entrevista/diálogo entre os dois autores, Robert Strike usa sua
experiência como pai que necessita de suporte para dar sugestões aos
profissionais que trabalham na assistência. Entre os elementos destacados
estão: olhar para além do rótulo de deficiente; falar diretamente com a pessoa
desabilitada e não por intermédio de outras; apenas ouvir o que o pai/mãe
desabilitado tem a dizer não é suficiente, é preciso escutar e respeitar o que
ele está dizendo; fazer as coisas com e não para as pessoas desabilitadas. Na
conclusão do artigo, ele pondera sobre a colaboração entre as pessoas
desabilitadas e os agentes de suporte:
Acho que a primeira coisa que temos a fazer é perguntar o que os pais
querem, em vez de deduzir o que eles querem. Certifique-se de que
você é capaz de parar o que você está fazendo e mostrar-lhes que você
está ouvindo. Você precisa ter certeza de que está entendendo o que a
pessoa está dizendo. Em vez de colocar palavras na boca das pessoas,
é preciso deixar que a pessoa termine de falar para depois fazer a
pergunta. Penso que é importante para nós mostrar para as pessoas
(que trabalham na assistência) que podemos trabalhar juntos e não um
contra o outro (Strike e McConnel, 2002, pp. 62-63, trad. livre).
Esta passagem reafirma o argumento central do texto, qual seja, de que as
pessoas com desabilidades cognitivas "têm algo importante a dizer" sobre a sua
própria trajetória e sobre o serviço de assistência que lhes é prestado. A
questão que se coloca para as pessoas que trabalham no suporte é justamente não
fazer as coisas pelas pessoas com deficiência e sim junto com elas. A
dependência, portanto, não exclui a possibilidade de fazer escolhas e de tomar
decisões, "relativamente autônomas", como fazem todas as outras pessoas.
Sexualidade como fronteira da normalidade
Essa diversidade de perspectivas remete a uma complexa negociação dos limites
entre normalidade e patologia em relação à experiência da diversidade corporal,
cognitiva e psíquica, à experiência sexual e aos cruzamentos entre elas. O
estudo de tais negociações não pode estar desvinculado das relações de poder e
das disputas de legitimidade social e acadêmica entre os diferentes grupos
profissionais que produzem conhecimento nessa área. Procurei descrever em
linhas gerais a contribuição de diferentes atores na construção da interface
entre essas temáticas, tecendo interpretações sobre as relações estabelecidas
entre eles.
Nesta sessão, proponho discutir diferenças na abordagem da sexualidade quanto
ao tipo de "deficiência". Para tanto, inicio retomando a discrepância
quantitativa em favor da abordagem das "deficiências" físicas. Embora eu não
esteja fazendo um estudo do tipo análise de conteúdo, no qual as categorias são
mensuradas em relação à freqüência e ao tipo de referência, parece-me
imprescindível ressaltar o contraste numérico. Dos mais de trezentos artigos,
menos de trinta abordam especificamente essa temática. A maior parte está
agrupada em um tópico especial intitulado "Sexualidade entre pessoas com
Demência e Alzheimer", publicado no volume 16, número 3, em 1998.
Os demais artigos apresentam-se de modo disperso, aparecendo de maneira mais
significativa a partir de 2000. Além disso, muitos deles não se detêm
especificamente na questão da sexualidade, mas sim na reprodução e na
parentalidade, articulandose assim com uma discussão sobre direitos
reprodutivos. Destaco os mais afinados com a perspectiva das redes de suporte e
assistência, como o de Strike e McConnel, acima referido, bem como os textos
preocupados com os aspectos sociais. Exemplar dessa última perspectiva é o
trabalho de Pamela Block (2000 e 2002), que analisa as questões de
parentalidade, fertilidade e os processos de esterilização de mulheres com
"deficiências" cognitivas no Brasil e nos Estados Unidos. Ao abordar a questão
da sexualidade, a autora defende a normalidade e a positividade da atividade
sexual entre pessoas com "deficiência" cognitiva. No entanto, seu trabalho é
uma exceção quando comparado aos demais textos que abordam a diversidade
cognitiva.
Do ponto de vista etnográfico, tal lacuna pode ser considerada um dado de
pesquisa, uma vez que aponta para um tipo de articulação preferencial entre as
temáticas sobre sexualidade e "deficiência". Nesse sentido, abundam
investigações quantitativas e qualitativas destinadas a explorar a hipótese de
um menor desempenho e satisfação sexuais por parte das pessoas fisicamente
desabilitadas. Vejamos alguns exemplos.
Taleporos e McCabe revisam a literatura sobre as implicações físicas e as
barreiras sociais que comprometem a atividade sexual entre pessoas com
desabilidades físicas. Para os autores, o comprometimento físico não implica
uma diminuição das necessidades sexuais:
Embora esse estudos demonstrem que a atividade sexual das pessoas com
deficiência física sejam limitadas, não há razão para acreditarmos
que as necessidades sexuais e amorosas sejam inferiores às da
população em geral. De fato, Cummins e Deeks mostraram que as
necessidades sexuais das pessoas com deficiências físicas são
elevadas. Desse modo, a combinação entre pouca experiência sexual e
elevada necessidade interfere facilmente na estima sexual das pessoas
com deficiência. Entretanto, essa questão vem sendo amplamente
ignorada na literatura (Taleporos e McCabe, 2001, p. 113, trad.
livre).
Seu objeto de investigação é a relação entre estima sexual e auto-estima dos
sujeitos. Descrevendo experiências individuais em que não há diminuição da
satisfação sexual, pelo contrário, em que se observa uma aquisição de maior
criatividade e versatilidade sexuais, os autores concluem que a "deficiência"
não pode ser tomada como determinante de uma baixa estima sexual. Tais exemplos
devem ser explorados, segundo eles, no aconselhamento de pessoas que enfrentam
dificuldades dessa ordem (Idem).
Outro artigo interessante é o de Irzyniek e Lew-Starowicz sobre a vida sexual
de mulheres com síndrome de Turner. A citação a seguir mostra a discussão
decorrente da dos dados sobre a diferença entre a vida sexual das mulheres com
síndrome de Turner em relação às mulheres que não possuem a doença:
A vida sexual é uma das atividades mais essenciais para a mulher e
determina sua qualidade de vida. O reconhecimento dessa esfera é de
grande importância para os médicos que atendem pacientes com Síndrome
de Turner. Como dissemos anteriormente, uma porcentagem alta das
mulheres com Turner demonstra pouco interesse por homens, retardam
sua iniciação sexual ou mesmo não se relacionam sexualmente, se
comparadas às mulheres que não apresentam essa doença (Irzyniek e
Lew-Starowicz, 2006, p. 210, trad. livre).
Conforme nos mostra Machado (2005) sobre as patologias associadas à
diferenciação sexual, há uma preocupação especial por parte dos médicos na
normalização sexual dessas pacientes, em vista da legitimação do sexo feminino
assignado.16 Recomenda-se uma maior atenção nessa dimensão sexual da vida
dessas pacientes, inclusive para que os médicos possam ajudá-las em suas
dificuldades. Mais do que anular o efeito negativo da "deficiência" física, a
retomada da vida sexual é pensada como um importante aliado no controle ou no
enfrentamento da própria deficiência ou patologia. Em tais casos, é percebida
como normal (como uma evidência de melhora) a iniciativa do indivíduo em
procurar apoio para a retomada de sua vida sexual, inclusive no caso da
manutenção de vínculos conjugais preexistentes.
Os psicólogos Andrew Walters e Gail Williamson defendem a existência de uma
forte correlação entre o exercício da sexualidade e a qualidade de vida das
pessoas com "deficiências" físicas. Num estudo com pessoas amputadas (1998),
eles destacam que o incremento da auto-estima, a melhora da auto-imagem e da
imagem corporal estariam diretamente implicados na visão de si como alguém
atraente e desejável sexualmente. Nesse sentido, os autores encorajam os
profissionais a estimularem a expressão da sexualidade.
Todos esses exemplos levam a pensar que quando se trata de "deficiências"
físicas, bem como doenças fisiológicas crônicas, o interesse pela sexualidade,
as iniciativas de reabilitação e o exercício da sexualidade em si operam como
uma espécie de fronteira de acesso à normalidade. A prática sexual é vista como
algo que não traz prejuízos ou agravos para a condição física do indivíduo,
pelo contrário numa perspectiva mais ampla de saúde, ela é considerada saudável
e benéfica. Até mesmo do ponto de vista da inclusão social, a inserção dos
indivíduos nos programas de educação sexual, a abordagem para prevenção de
doenças, a capacidade de despertar interesse erótico operam de modo a diminuir
o estigma e a distinção pejorativa das pessoas desabilitadas.
No entanto, quando o assunto são as desabilidades cognitivas ou doenças
crônicas que perturbam a sanidade mental (como a demência e o mal de Alzheimer,
por exemplo) a presença de atividade sexual aparece nos artigos como um
elemento que reforça a própria deficiência, ou que coloca entraves para o seu
manejo. Essa tendência é expressa nos próprios títulos dos artigos, que passam
a enfatizar expressões inadequadas, excessivas, impróprias e perversas da
sexualidade. Nesses casos, não é a falta de sexo que é percebida como
problemática, já que do ponto de vista corporal essas pessoas se encontram
plenamente habilitadas para atividade sexual, mas a busca de uma parceria
sexual ou a manifestação pública da sexualidade é que é em si considerada
problemática. Prevalece nos artigos a idéia de sexualidade descontrolada,
exacerbada e doentia.
O texto de Katlen Mayers realiza um surveyentre profissionais de saúde que
trabalham com idosos institucionalizados sobre o comportamento sexual dos
internos. A ênfase do artigo são os abusos sexuais cometidos por internos,
homens e mulheres, contra os próprios profissionais de saúde e contra outros
pacientes. Os dados mostram a freqüência das ocorrências nesse sentido
indicadas pelos profissionais de saúde a partir de sua experiência e observação
das atitudes sexuais dos internos. Práticas como "toques nos seios", "toques
nas nádegas", propostas de conteúdo sexual, masturbação, de carícias sexuais
entre os pacientes, entre outras são percebidas pelas cuidadoras como formas de
abuso . A análise que empreendem a partir desses dados tem como principal
objetivo prevenir a vitimização de profissionais e pacientes em relação aos
excessos sexuais:
Alguns cuidadores acreditam que o comportamento dos pacientes pode
predizer atitudes sexualmente agressivas. Eles afirmam que os
agressores sexuais verbalizam coisas sobre sexualidade, se engajam em
atividades de autoestimulação, masturbação e inspeção das partes
privadas do corpo dos outros. Segundo um cuidador, os homens queriam
mostrar seus genitais para as mulheres e tentaram puxálas para dentro
dos quartos. Observar esses comportamentos tem sido útil para
prevenir a ocorrência de agressão sexual. Membros da equipe indicaram
que a maior parte dos comportamentos preditivos da vitimização sexual
é a verbalização sexual e a masturbação (Mayers, 1998, p. 222, trad.
livre).
Nesses casos, as atitudes sexuais são justificadas pela própria doença, sendo
consideradas uma manifestação da própria demência.
Mesmo entre os artigos que não consideram patológicas as expressões sexuais
socialmente inapropriadas, como o texto do "educador especial" Anthony Walsh
(2000), há um investimento no desenvolvimento de estratégias de controle ou
domesticação de práticas como a masturbação, inapropriadas entre pacientes com
"deficiências" cognitivas severas. Não se trata de combater a masturbação (que
em si é considerada positiva), mas de criar estratégias para que ela aconteça
de forma mais apropriada. O autor propõe intensificar a preocupação e a
responsabilidade dos cuidadores com a melhora dos pacientes, modificando o tipo
de resposta dada à masturbação inadequada.17 Outra "educadora especial",
Rebecca Koller (2000), ao abordar a sexualidade entre adolescentes com autismo
também defende a necessidade de educação sexual no que diz respeito à promoção
de um autoerotismo mais adequado às normas sociais, à autoproteção em relação
ao abuso e ao suporte ante o direcionamento do desejo sexual a outras pessoas.
A sexualidade masturbatória (e poderíamos acrescentar também as demais práticas
não penetrativas), como bem descreve Foucault (2001) no curso sobre "Os
anormais" ministrado na década de 1970 no College de France, foi considerada
propulsora de todas as anomalias no século XIX. Pode-se observar, nos artigos
aqui analisados, que tal sexualidade continua servindo como manifestação e, ao
mesmo tempo, como prova de anormalidade. Creio, dessa forma, que as
manifestações da sexualidade entre pessoas com "deficiências" cognitivas são
abordadas muito mais em relação ao desconforto e à perturbação que causam às
outras pessoas, em especial os familiares e cuidadores. O efeito de fronteira
operado pela sexualidade alarga ainda mais o espectro de anormalidade que
assombra a variabilidade cognitiva. Muito raras são as iniciativas que procuram
compreender de maneira positiva tais expressões sexuais, ou que investem na
reabilitação e na promoção da sexualidade.
Considerações finais
Uma das principais virtudes da etnografia, segundo Peirano (1995), é que
geralmente os dados apresentados ultrapassam as interpretações do antropólogo.
Partindo desse preceito, este artigo teve como principal finalidade servir de
convite e estímulo para que estudiosos da sexualidade e das relações de gênero
observem mais de perto a temática das "deficiências" e, principalmente,
analisem com mais acuidade o conteúdo dos artigos, para além daquilo que a
leitura apresentada permite compreender.
Seguramente, grupos religiosos, entidades filantrópicas, Ongs, ativistas
políticos e associações de pessoas com "deficiência" aguardam respostas
cientificamente embasadas sobre as possibilidades sexuais, bem como sobre
estratégias menos repressivas de manejo da sexualidade e das intenções
reprodutivas de pessoas com diferentes tipos de deficiências físicas,
cognitivas ou com doenças crônicas.
A partir da análise dos artigos publicados ao longo de dez anos na revista
Sexuality and Disability, procurou-se descrever a emergência da interface
sexualidade e "deficiência" com base em quatro diferentes formas de
problematização. é dialogando com essas diferentes perspectivas -
funcionalidade sexual, especificidade das mulheres, desabilitação e redes de
suporte e assistência -, é que os cientistas sociais poderão produzir novas
interpretações sobre essa interface. Mais do que isso, a leitura das
"deficiências" em termos de variabilidade corporal traz novas interpelações
sobre as convenções corporais em torno da sexualidade.
Ao suscitar discussões em torno da relativização do corpo e das potencialidades
físicas e cognitivas, essa análise apresenta questões desafiadoras às clássicas
teorias do construtivismo social. Acostumadas a privilegiar a dimensão
história, contextual e simbólica da sexualidade, as teorias parecem pouco
confortáveis diante da necessidade de retorno ao corpo como lócus da diferença
(Vance e Adress, 1989). Para fazer frente a essas questões, a discussão
construtivista precisa reencontrar o caminho do diálogo com a sexologia e com a
medicina, para além das já desgastadas críticas à abordagem essencialista.
Notas
1 A grafia entre aspas da palavra deficiência ao longo do artigo objetiva
assinalar a dificuldade de tradução do termo inglês disabilitypara o português
e a imprecisão do termo deficiência. Ao mesmo tempo visa estabelecer uma
distinção entre utilização e menção do termo. As aspas indicam a menção ao
conceito médico de deficiência, o qual não subscrevo ao longo do artigo. Sua
referência no texto como designativa do objeto em questão justifica-se por uma
questão de comunicação, tendo em vista que historicamente o conceito adquiriu
um caráter de verdade oficial, sendo incorporado ao senso comum.
2 A revista é publicada pela editora Springer, que trabalha com periódicos
internacionais nas áreas de ciência, tecnologia, matemática e medicina. Tendo
iniciado em 1978, ela seguiu sendo publicada periodicamente até 1984. O oitavo
volume foi publicado em 1987 quando houve uma nova interrupção de três anos. O
nono volume e a seqüência anual regular foram retomados em 1991. Dos primeiros
quinze volumes estão disponíveis até o momento apenas os títulos dos artigos e
os autores.
3 A organização dessas instituições, principalmente nos Estados Unidos e na
Inglaterra, ocorreu num contexto marcado pela industrialização e urbanização
das cidades (cuja conseqüência inevitável é a proliferação de acidentes de
trânsito e de trabalho) e pela atuação desses países em diferentes guerras ao
longo do século XX.
4 Para a revista, são considerados consumidores as próprias pessoas com
"deficiência", à medida que para elas é que se dirigem o conhecimento, as
técnicas e as estratégias terapêuticas apresentadas pela revista.
5 Trata-se do Projeto "Difundindo os Direitos Sexuais e Reprodutivos da América
Latina" realizado entre 2005 e 2007, junto ao Observatório de Direitos Humanos
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob a coordenação dos professores
Daniela Riva Knauth e Fernando Sefner.
6 Refiro-me em especial a Almeida (2005).
7 Nesses números a nota do editor é sucedida por uma introdução e o prefácio é
redigido pelo editor convidado. Podem ser compostos por artigos produzidos por
um mesmo grupo de pesquisa, ou o próprio editor convidado faz contatos com
autores estrangeiros que trabalham com a temática proposta , além de procurar
abordagens distintas para diversificar as perspectivas.
8 Por exemplo, no primeiro número do volume 15 publicado em março de 1997, a
maior parte foi dedicada ao detalhamento da programação, com resumos e
principais artigos do "Seminário Internacional de Mulheres e Deficiência".
Havia desde textos políticos de militantes feministas, até apresentação dos
resultados de pesquisas sobre os principais problemas enfrentados pelas
mulheres nos processo de reabilitação e também relatos de prática clínica
ginecológica.
9 Observação similar é evidenciada na tese de Malcher (2007) sobre as
tentativas de criação da Andrologia como especialidade médica, distinta da
Urologia. Tal investimento caracterizava-se pela busca de diferentes
referenciais em fisiologia, psicologia, estudos de patologia sexual, relatos de
casos hospitalares e de terapêuticas, entre outros, a fim de justificar a
especificidade e a importância da andrologia dentro da medicina.
10 Devoteísmo é o termo utilizado para descrever atração ou desejo erótico
vinculado à condição corporal diferenciada ou deficiência. Do ponto de vista
psiquiátrico, essa atração é caracterizada como parafilia, ou seja, um
transtorno do desejo sexual.
11 Vale lembrar que não apenas os comportamentos que se distanciam da norma
heterossexual são tomados em si como patológicos, mas também são associados a
outros tipos de patologias, como a Aids, o uso de drogas e o alcoolismo. Na
próxima sessão analiso em detalhe os deslocamentos entre os limites de
normalidade em relação à deficiência a partir da sexualidade.
12 A autora é coordenadora de programas em prol da igualdade de educação para
pessoas desabilitadas.
13 Apesar dessa expectativa por parte dos sexólogos, Ducharme (2005) assinala a
existência de uma série de controvérsias relacionadas à desconfiança quanto à
participação das indústrias farmacêuticas nas pesquisas e também à desconfiança
da efetividade do próprio medicamento na resolução do problema, sem considerar
a influência de outros aspectos, tais como a moralidade sexual, o stress, a
emoção, o tipo de relacionamento, as condições de conforto, a idade, as
características religiosas e culturais etc.
14 A tradução corrente da palavra disabilitypara o português é incapacidade ou
deficiência. No entanto, a fim de contemplar o sentido proposto no contexto da
teoria social, optei pelos termos desabilitação ou desabilidade, nos casos em
que os autores endossam esse modelo teórico. Esses termos possibilitam uma
leitura que acentua a arbitrariedade social da divisão entre corpos habilitados
e desabilitados e, portanto, descrevem de forma mais adequada o sentido
conferido pela teoria social à palavra disability.
15 O termo queer, que significa "torcido", "oblíquo", "esquisito", era usado
nos Estados Unidos e na Inglaterra em tom de rejeição e degradação para se
referir aos gays, lésbicas e transgêneros. Entretanto, no final dos anos de
1980 foi reapropriado de modo afirmativo para se referir a todos os indivíduos
cuja sexualidade extrapolasse os limites da heterossexualidade binária.
16 No contexto das Desordens do Desenvolvimento Sexual (DSD), o processo de
assignação sexual diz respeito às decisões tomadas para a designação do sexo e
para a correção dos genitais.
17 Inadequada, segundo Walsh (2000), é a masturbação praticada no lugar e hora
errados, que cause qualquer tipo de lesão à genitália, em que a freqüência
possa perturbar o exercício de outras atividades, que causa desconforto à
própria pessoa ou às outras.