Intersexualidade e o "Consenso de Chicago" as vicissitudes da nomenclatura e
suas implicações regulatórias
Em minha tese de doutorado (Machado, 2008), analisei os elementos em jogo nas
decisões envolvendo a "determinação" do sexo em crianças intersex e o
"gerenciamento"1 sociomédico e cotidiano da intersexualidade. De um lado,
tratou-se de compreender as perspectivas, as práticas e os discursos de
profissionais de saúde e, de outro, aqueles das famílias e jovens intersex. No
contexto desse estudo, uma das questões que se apresenta diz respeito às
diferentes posições e apropriações no que tange ao uso da terminologia
concernente à intersexualidade, considerando que também essa denominação
(intersex) não é auto-evidente, ou seja, ela é tão datada histórica e
socialmente como qualquer outra e remete a um determinado contexto social,
político e de produção científica.
O Ocidente lidou de formas muito diferentes com os corpos considerados
"andróginos" ou "hermafroditas" (Fausto-Sterling, 2000). No decorrer do tempo,
observa-se que foram sendo propostas e negociadas modificações nas formas de
nominação, classificação e apreensão de categorias para se remeter às
"variações da diferenciação sexual", desde a antiga concepção de
"hermafroditismo", passando pela "intersexualidade" do século XX e chegando à
definição atual de "Disorders of Sex Development" (DSD). Esses usos têm
implicações na forma como os diferentes atores sociais - médicos, juristas,
ativistas políticos, religiosos, pessoas intersex e seus familiares, entre
outros - compreendem e agem diante dessas situações. Ou seja, as mudanças não
apenas se referem ao modo de denominar os sujeitos, mas também à maneira de
definir a "condição" que os acometeria e em relação às estratégias utilizadas
para "corrigir" seus corpos. Além disso, as transformações e os debates em
torno da nomenclatura apontam para os atores sociais considerados mais
legítimos para tratar da questão e ao modo como os diferentes saberes acionados
se inter-relacionam. Em outras palavras: qual ganha mais ou menos valor, qual
ganha maior ou menor peso e relevância quando se trata de tomar decisões nesses
casos?
Conforme demonstra Anne Fausto-Sterling (2000), o "hermafroditismo" nem sempre
foi regulado pela esfera médica. Segundo a autora, até o início do século XIX,
as decisões envolvendo o estatuto da pessoa intersex estavam a encargo de
advogados e juízes. Michel Foucault (2001) mostra de que modo legalmente - e
sobretudo penalmente - lidou-se com a questão até esse período. Em um curso
ministrado no Collège de France, de janeiro a março de 1975, o autor abordou o
tema da "Anormalidade", apontando como a definição do indivíduo "perigoso",
"anormal", do século XIX, remetia a três figuras. Eram elas: o monstro, o
incorrigível e o onanista.
Segundo Foucault (2001), os hermafroditas constituíam um tipo de monstro que
foi privilegiado na Idade Clássica. Ele demonstra como, ao longo do tempo,
foram operadas modificações na forma de lidar com essa "monstruosidade".
Descreve o autor que, até o século XVI, o simples fato de ser hermafrodita
justificava a condenação à morte. Já no século XVII, observou-se uma
modificação desse imperativo e tal penalidade não tinha mais vigor. No entanto,
o indivíduo incorria em erro grave contra as leis penais caso, depois de
escolhido o sexo "dominante" (o que era necessário fazer), utilizasse o "sexo
anexo". Chegou-se, então, à noção de monstruosidade do século XIX, segundo a
qual não haveria "mistura de sexos" e sim "imperfeições da natureza", que
poderiam evoluir para determinadas condutas criminosas. De algo inscrito na
natureza, passou-se, de acordo com Foucault (2001), ao que progressivamente foi
assumindo um caráter mais moral.
Na esfera médica, em 1917 o termo "intersexualidade" foi utilizado
provavelmente pela primeira vez no sentido de fazer referência "a uma gama de
ambigüidades sexuais, incluindo o que antes era conhecido como hermafroditismo"
(Dreger, 2000, p. 31).2 Nos anos de 1990, essa denominação foi apropriada
também pelos ativistas políticos intersex engajados na luta pelo fim das
cirurgias precoces "corretoras" de genitais ditos "ambíguos".3 Entretanto, é
preciso salientar que médicos e movimento político não definem
"intersexualidade" de maneira idêntica. Os grupos de ativismo intersex
normalmente oferecem outras definições para o termo, por meio das quais buscam
contestar a idéia de patologização da intersexualidade, assim como aumentar as
possibilidades do que é possível de ser incluído no termo para além das
definições médicas.
4
A pertinência da nomenclatura "intersex" e as categorias de "hermafroditismo" e
"pseudo-hermafroditismo" nela compreendida foram recentemente questionadas de
forma "oficial" no domínio médico com a publicação, em agosto de 2006, do
chamado "Consenso de Chicago", no qual está proposta a utilização do termo
"Disorders of Sex Development" (DSD)5 no lugar da antiga nomenclatura
"Intersex" ou "Estados Intersexuais". Um grupo de cinqüenta "especialistas" no
tema (médicos de diversos países e, ainda, dois ativistas políticos) reuniu-se
em 2005, em Chicago, com a intenção de discutir diversos tópicos relacionados
ao "manejo" médico da intersexualidade. A partir dessa reunião, foi elaborado o
documento. De acordo com o consenso,
Termos como "intersex", "pseudo-hermafroditismo", "hermafroditismo",
"reversão sexual" e as etiquetas diagnósticas baseadas no gênero são
particularmente controversos. Esses termos são percebidos pelos
pacientes como especialmente pejorativos e podem ser confusos tanto
para os profissionais como para os pais (Lee et al., 2006. p. e488,
tradução minha).
É possível aventar algumas hipóteses a respeito do contexto no qual se
assinalou a necessidade de elaborar esse "consenso" para modificar a
nomenclatura. De um lado, pode-se apontar para uma motivação mais "formal",
comum à elaboração de qualquer consenso na área médica: a atualização
científica em relação a uma área de conhecimento e intervenção específica,
visando a ditar protocolos gerais e compartilháveis no que concerne à prática
médica. De outro, é possível pensar a elaboração do "Consenso": 1) como
revelador da necessidade de se criar termos supostamente mais "técnicos", a fim
de serem partilhados por um público "iniciado" e, portanto, mais "restrito"; e/
ou 2) como uma reação à visibilidade do movimento político intersex, sobretudo
norte-americano, e às questões que este vem colocando às intervenções médicas
sobre os corpos intersex desde os anos de 1990.
Vale destacar que essa preocupação em redescrever categorias médicas, atualizá-
las, ao mesmo tempo afastando-as do senso comum, é algo que também ocorre em
outras áreas da medicina. Jane Russo e Ana Teresa Venâncio (2006) assinalam
essa questão em sua análise acerca da revisão da classificação psiquiátrica
ocorrida, em 1980, com a publicação da terceira versão do Diagnostic and
Statistic Manual of Mental Disorders (DSM III) pela American Psychiatric
Association. Nesse artigo, as autoras demonstram além dos embates acadêmicos,
os econômicos e políticos envolvidos na emergência da nova nomenclatura.
Destacam, ainda, a "multiplicação" das categorias diagnósticas, cada vez mais
detalhadas e, supostamente, mais "descritivas".
Ao considerar que a escolha dos termos não é aleatória, neste artigo meu
interesse está em examinar as categorias classificatórias utilizadas para
identificar o fenômeno - no caso, relativo à definição e ao gerenciamento de
corpos que variam do padrão dicotômico masculino/feminino - enquanto
operatórias para pensar sobre o tema e também sobre a forma como estão
envolvidas nas condutas a serem tomadas em relação à intersexualidade. Para
tanto, é importante ressaltar que a questão da nomenclatura pode ser
considerada a partir de duas perspectivas: uma horizontal (ou seja, temporal) e
outra vertical (considerando as diferentes esferas sociais envolvidas no
momento presente da discussão), as quais permitem entender como as práticas
levadas a cabo nos corpos de crianças intersex estão inseridas em um contexto
social mais amplo.
O objetivo deste trabalho é analisar especificamente a reformulação
classificatória médica atual. Centrarei tal análise na composição e na
significação do "Consenso de Chicago", publicado em agosto de 2006, em dois
periódicos de grande circulação no meio médico: o Pediatrics - Official Journal
of the American Academy of Pediatrics, e os Archives of Disease in
Childhood.Conforme já assinalado, o "Consenso de Chicago" recomenda o uso do
termo "Disorders of Sex Development" (DSD) em detrimento dos antigos termos
"intersex", "hermafroditismo" e "pseudo-hermafroditismo". Sugere também
condutas em termos de diagnóstico e intervenção nesses casos (Lee et al.,
2006). Para tanto, será analisado especificamente o texto do referido
"Consenso". Além disso, buscarei apontar para algumas implicações relacionadas
aos usos de termos que se propõem a descrever determinadas características
corporais.
É preciso salientar, ainda, que a análise desse documento se inscreve nas
problematizações relativas à pesquisa mais ampla realizada para o doutorado.
Ela está, portanto, amparada pelos dados etnográficos obtidos durante a
pesquisa, para a qual foi realizada observação participante em dois hospitais
de referência: um localizado no Rio Grande do Sul/Brasil e outro, em Paris/
França. Além da observação participante, foram realizadas entrevistas semi-
estruturadas com profissionais desses hospitais (que compunham a equipe
multidisciplinar responsável pelo diagnóstico e posterior acompanhamento dos
casos), com familiares de crianças/jovens intersex e com jovens intersex.
Assim, embora eu não esteja me propondo a centrar a reflexão nesses dados, eles
estarão sempre presentes como pano de fundo para as análises, e poderão ser
acionados pontualmente no decorrer do texto.
Ainda que eu tenha optado por enfocar apenas o aspecto da formulação do
documento em si, considero a nomenclatura como um lócus privilegiado de análise
acerca de uma discussão específica que entrelaça as categorias de ciência,
intervenção, movimento político e cotidiano das relações médico-paciente. Além
disso, sustento que é imprescindível lançar um olhar teórico e metodológico
sobre as definições, bem como em relação às transformações que elas envolvem e
pelas quais são, ao mesmo tempo, envolvidas. Se, de um lado, trata-se de
problematizar o uso de categorias teóricas, inclusive as do pesquisador, de
outro, aponta-se para a necessidade de analisar o deslocamento provocado pelo
conhecimento, no sentido proposto por Marilyn Strathern (1995).
Strathern, ao analisar algumas conseqüências das novas tecnologias reprodutivas
para o parentesco, destaca que o conhecimento tem um efeito de deslocamento. Ao
falar em "deslocamento" e não em "mudança", a autora procura demonstrar de que
modo o conhecimento é capaz de suscitar rearranjos na forma de compreender e de
lidar com os fatos. Se antes, por exemplo, a noção de família estava ligada
diretamente à procriação e à construção da identidade social, com as novas
tecnologias reprodutivas, é possível pensar a procriação (a união dos gametas)
desvinculada da reprodução (que supõe laços sociais). De acordo com Strathern,
isso significa passar a ter mais parentes e, paradoxalmente, menos relações. O
conhecimento e sua explicitação produzem, assim, rearranjos nas relações
sociais, trazendo consigo, segundo ela, mais incertezas para os cientistas, os
médicos e outros que o utilizam.
Um dos efeitos do deslocamento é "tornar o implícito explícito" (Idem,p. 347),
o que faz com que um conhecimento vá se justapondo ao outro, provocando novos
arranjos. O que está em jogo, destaca Strathern, não são apenas novos
procedimentos que auxiliariam a chegar mais perto da "natureza", mas
conhecimentos diferentes. Conforme aponta a autora, quando o implícito se torna
explícito, mudam as concepções e a forma de compreender, de "olhar". "O
deslocamento torna-se radical" (Idem, p. 347).
Fleck ([1935] 2005), em 1935, apontava que as idéias científicas circulam, ou
seja, que não existem rupturas totais entre uma e outra (como sugeriria, mais
tarde, a noção de paradigmas de Kuhn, por exemplo).6 Por outro lado, Fleck
(Idem, p. 53), assim como Strathern, aponta para reposicionamentos, ou mesmo
"mutações" nos estilos de pensamento, o que faz com que a emergência de novos
conceitos desestabilize os antigos e indique outros elementos que devem ser
levados em consideração, além de outras formas de constituir "naturezas" e
"fatos científicos". Em seu trabalho, em que aborda a história da sífilis e a
"descoberta" da reação de Wassermann (teste diagnóstico para a sífilis), Fleck
demonstra que existe uma construção desses "fatos científicos", a qual acontece
a partir de um trabalho coletivo dos indivíduos. Nesse sentido, há uma
historicidade da "descoberta", que não pode ser percebida como um evento
isolado, mas como uma produção que ocorre no contexto de um "coletivo e de um
estilo de pensamento". A produção do conhecimento científico, para Fleck, é um
fenômeno social e cultural (Löwy, 2005). Ao mesmo tempo, o social não é tido
por ele como algo que constrange a ciência, mas o que a torna possível e a
legitima (Latour, 2005).
De um lado, então, o trabalho de Fleck ([1935] 2005) leva a considerar a
elaboração do "Consenso" como um processo sociocultural. Existiriam, assim,
transformações sociais que culminariam na fabricação tanto de um outro
"social", como de uma outra "natureza".7 De outro lado, a análise de Strathern
(1995) ajuda a pensar a questão das definições e das classificações médicas
como efeitos de deslocamentos gerados pelo conhecimento científico - no caso em
questão, mais especificamente, pelo conhecimento biogenético, como será mais
bem explorado. A idéia de que há um rearranjo de domínios também remete aos
desdobramentos práticos gerados pelos novos conhecimentos: o que muda? Quais
reordenações sociais e culturais são engendradas? São mesmo engendradas? No
caso da intersexualidade, se o deslocamento é mesmo possível, quando e onde
podemos percebê-lo e/ou provocá-lo, incitá-lo?
A escolha do "Consenso de Chicago" para tratar dessas questões justifica-se
basicamente por duas razões: em primeiro lugar, é a reformulação mais atual,
elaborada por um grupo de "especialistas", que a definem, justamente, como um
"consenso"; em segundo lugar, é um documento privilegiado, em que se podem
identificar algumas diretrizes no "manejo"8 e "diagnóstico" de pessoas nascidas
com corpos sexualmente "não standards", apontando para algo que, durante o
trabalho de campo no Brasil (mas especialmente na França) foi se mostrando cada
vez mais claro: o importante papel desempenhado pela genética e pelos
conhecimentos em biologia molecular nas tomadas de decisões, nas discussões e
nas produções científicas em torno da intersexualidade.
A análise do "Consenso de Chicago" aponta para pelo menos dois tópicos que
serão examinados mais detalhadamente nesse artigo: 1) o surgimento de novas
terminologias, nas quais uma especialidade médica (a genética) ganha destaque;
2) o esforço no sentido de uma classificação calcada em termos cada vez mais
"técnicos" e com códigos muito complexos e específicos.
O Consenso de Chicago e a solidez do invisível
O título oficial do artigo que ficou conhecido como "Consenso de Chicago" é
"Consensus statement on management of intersex disorders". Logo em sua
introdução, aparece o mote geral do texto e do encontro entre os
"especialistas" que contribuíram para a sua forma final: revisar o manejo das
"desordens/distúrbios intersexuais" a partir de uma perspectiva mais ampla,
revisar os dados relacionados com os resultados a longo prazo e formular
propostas para estudos futuros (Lee et al., 2006, p. e488). Nesse sentido, há o
reconhecimento de que está em questão um fenômeno imerso em uma trama complexa,
que compreende os avanços no desenvolvimento científico (os quais se convertem
em progressos nas técnicas de diagnóstico e intervenção), aspectos sociais mais
gerais, assim como transformações no lugar dado ao paciente no processo de
tomada de decisões, apatient advocacy. Segundo o "consenso", todos esses
elementos teriam levado à necessidade de reexaminar a nomenclatura.
Assim, apesar de considerar explicitamente uma série de fatores envolvidos no
"manejo" de recém-nascidos intersex, pode-se constatar um propósito particular
do "Consenso" que parece se sobrepor aos demais: a revisão da nomenclatura.
Conforme nele descrito, uma nova nomenclatura é fundamental no intuito de
integrar os avanços da genética molecular no que concerne ao "desenvolvimento
sexual". É interessante notar que a antiga nomenclatura, "Estados
Intersexuais", já compreendia, na prática, os conhecimentos da genética,
entretanto esses não estavam na base da classificação. A nova proposta sugere
que "os termos deveriam ser mais descritivos e refletir a etiologia genética,
quando disponível, bem como acomodar o espectro da variação fenotípica" (Idem,
pp. e488-e489, tradução minha). Isso sugere que "termos mais descritivos"
evitariam possíveis confusões, aproximando a nova nomenclatura de algo mais
"verdadeiro", da ordem da "realidade" dos corpos. A etiologia genética
constitui-se, assim, como uma versão naturalizada do sexo, que balizaria a
diferenciação entre homens e mulheres em um nível profundo, posição outrora
ocupada principalmente pelas gônadas.9
Tanto quando se refere a crianças nascidas "intersex" como com uma "DSD",
trata-se de "casos" envolvendo a decisão por "reconstruir" um sexo ou outro por
procedimentos cirúrgicos/clínicos, fundamentalmente no período pós-natal (ainda
que as intervenções pré-natais já possam ser vislumbradas no campo de
possibilidades médicas). Especificamente em se tratando dos "estados
intersexuais", de acordo com a literatura médica, eles podiam ser divididos em
quatro principais grupos: pseudo-hermafroditismo feminino (presença de ovário,
sexo cromossômico 46XX,10 genitália interna considerada "feminina", mas
genitália externa tida como "ambígua"); pseudo-hermafroditismo masculino
(presença de testículos, cariótipo 46XY, genitália externa considerada
"feminina" ou "ambígua"); disgenesia gonadal (presença de gônadas
disgenéticas11); hermafroditismo verdadeiro (presença de tecido ovariano e
testículos na mesma gônada ou separadamente) (Freitas, Passos, Cunha Filho,
2002). Anne Fausto-Sterling (2000, p. 52) elaborou um quadro no qual descreve
os "tipos" mais comuns de intersexualidade, que figurariam no interior dos
principais grupos citados. Esses "tipos" seriam os seguintes, segundo a autora:
Hiperplasia Adrenal Congênita (incluída na categoria de pseudo-hermafroditismo
feminino), Insensibilidade Periférica aos Andrógenos (tipo de pseudo-
hermafroditismo masculino), Disgenesia Gonadal, Hipospádias (conformação
corporal que pode ser associada a alguns casos diagnosticados como genitália
incompletamente formada), Síndrome de Turner (tipo de disgenesia gonadal) e
Síndrome de Klinefelter (também incluída, segundo Fausto-Sterling, na categoria
de disgenesia gonadal).
Tal classificação entre "hermafroditas" e "pseudo-hermafroditas" é amparada
pela concepção dominante no período que Alice Dreger (2000) denominou de "The
Age of Gonads" ("A Idade das Gônadas"), que teria sido inaugurado no final do
século XIX e cuja taxonomia - divisão entre "hermafroditas verdadeiros" e
"pseudo-hermafroditas" - manteve sua estrutura mais geral praticamente
inalterada até os dias atuais. A idéia central sobre a qual se baseava essa
classificação era a de que a "verdade" sobre o sexo seria determinada pela
"natureza das gônadas". Assim, possuir testículos ou ovários foi, durante muito
tempo, o marcador inequívoco da diferença entre homens e mulheres
"verdadeiros", assim como o balizador para distinguir o "verdadeiro" do
"pseudo" hermafrodita. Na época que sucede a "Era das Gônadas", esse critério é
relido. A questão, que antes era possuir ou não ovários ou testículos, volta-se
à resposta do corpo aos estímulos hormonais e às "construções" cirúrgicas dos
genitais. Inaugura-se, assim, um período em que todo um arsenal endocrinológico
e cirúrgico vai sendo cada vez mais utilizado a fim de "determinar" e
"construir" o "sexo verdadeiro".12
Dreger (2000) constata que essa divisão baseada nas gônadas tornou-se
insustentável na prática médica até o início do século XX,13 ainda que
teoricamente (para o diagnóstico e no que concernia aos aspectos fisiológicos)
já fosse muito importante para os médicos. A autora revela que, no processo de
definição do sexo a ser "atribuído" a um/uma "hermafrodita" ou "pseudo-
hermafrodita", outros "traços" eram extremamente relevantes. Tais traços
remetiam a aspectos sociais e morais ligados às expectativas culturais de
gênero. Com o avanço da genética e das técnicas cirúrgicas, mais elementos
foram agrupados para as tomadas de decisões, que foram se tornando cada vez
mais complexas. O que se observa nesse sentido é que, quanto mais a produção
científica na área biomédica avançou na busca de elementos inequívocos para se
descobrir onde, afinal, encontrava-se o "verdadeiro" sexo, mais surgiram
"ambigüidades" (Kraus, 2000). Isso porque foram sendo revelados mais "níveis"
possíveis de localização do sexo no corpo - níveis anatômico, genético,
hormonal, gonadal - não necessariamente coerentes entre si e, além disso,
passíveis de serem combinados de diferentes formas (Machado, 2005).
Vale destacar que o conteúdo sociocultural dos aspectos biológicos considerados
sempre estiveram muito presentes e, após a "Idade das Gônadas", principalmente
a partir da "Era Money", nos anos de 1950, passaram a ganhar uma nova tradução
mediante a idéia de função.A funçãose inscreve, nas definições médicas, em dois
registros: sexual (referente à possibilidade de se engajar em relações sexuais
envolvendo penetração), e reprodutivo (relacionado à conservação da capacidade
procriativa).14 Assim, uma decisão que devesse levar em conta a melhor
possibilidade de exercício dessas funções é o paradigma sustentado com muita
força a partir da metade do século XX.
A idéia de "funcionalidade" guiando as escolhas no que diz respeito ao "manejo"
da intersexualidade não desapareceu no "Consenso de Chicago", porém a nova
nomenclatura ofereceu um novo enquadramento para essas funções. Não se trata
apenas de uma nova estandardização, mas também de um novo olhar, de um outro
registro da "natureza" e, conseqüentemente, de novos dispositivos de regulação.
A mais recente codificação revela, também, a emergência de uma outra biologia,
de um outro corpo, bem como de outra materialidade que os compõem. O Quadro_1,
reproduzido do "Consenso", esquematiza a revisão da nomenclatura.
Logo em seguida, ainda no artigo referente ao "Consenso", é fornecido um
exemplo de classificação por "Desordens/Distúrbios do Desenvolvimento Sexual",
a qual merece também uma atenção especial (Quadro_2).
Abaixo do Quadro_2, há ainda uma nota que merece ser destacada. Nela está
escrito:
Embora a consideração do cariótipo seja operatória para a
classificação, a referência desnecessária ao cariótipo deve ser
evitada; idealmente, um sistema apoiado sobre termos descritivos (por
exemplo, síndrome de insensibilidade aos andrógenos) deve ser
utilizado sempre que possível (Lee et al., 2006, p. e489, tradução
minha).
Essa citação fornece no mínimo duas indicações: em primeiro lugar, que é o
cariótipo, e não mais as gônadas, que sustenta a estrutura da classificação,
remetendo-a ao domínio da genética, da embriologia e da biologia molecular. Em
segundo lugar, estabelece que existem elementos, como a referência ao
cariótipo, que, embora importantes do ponto de vista teórico e conceitual,
devem ser evitados no contexto da relação médico-paciente, provavelmente para
evitar as supostas "confusões" que essa informação possa gerar nos pacientes e
em suas famílias.
Se observarmos os dois quadros acima, veremos que algumas das classificações
antigas foram agrupadas. Por exemplo, a categoria "Homem XX" ou "Reversão
Sexual XX" é incluída na categoria "DSD 46 XX", como uma desordem do
desenvolvimento sexual testicular ligada a um SRY positivo e/ou a uma
duplicação de SOX9, considerando que SRY e SOX9 são nomes dados a dois dos
múltiplos genes descritos como envolvidos nas "DSDs". Já a antiga categoria
"Hermafroditismo Verdadeiro", ao contrário, é diluída em três novas classes:
"DSD ligada ao cromossoma sexual", "DSD 46XX" e "DSD 46XY".
Especificamente em relação a esse último ponto, é importante ressaltar que
desde os primórdios da "Idade das Gônadas", segundo Alice Dreger (2000), o
"hermafrodita verdadeiro" estava fadado à extinção em termos sociais. Conforme
demonstra a autora, a possibilidade da existência social de um "verdadeiro
hermafrodita" era considerada, por definição, algo impossível, na medida em que
era preciso pertencer a um entre os dois sexos considerados factíveis. Nesse
sentido, Dreger interroga a justificativa meramente "científica" como a única
razão de se adotar as gônadas enquanto marca de distinção sexual no que se
refere ao período considerado em seu estudo. Para ela, esta foi uma tentativa
de preservar a "clara" distinção entre "homens" e "mulheres", independentemente
da ambigüidade que pudesse ser identificada na aparência física ou nos
comportamentos adotados. Desse modo, Dreger (2000, p. 153) acredita não ser uma
mera coincidência que na mesma época em que ela identifica o "desaparecimento"
da categoria "hermafrodita", outros historiadores apontem o nascimento da
categoria "homossexual". Na visão da autora, tratava-se, na verdade, da
necessidade de localizar esses sujeitos - "o/a hermafrodita" e "o/
a homossexual" - em classificações específicas e autônomas entre si. Como se
pode constatar, essas definições acerca do "verdadeiro sexo" ou do "verdadeiro"
ou "pseudo" hermafroditismo, para além de representarem um interesse meramente
acadêmico, sempre possuíram importantes implicações políticas e sociais (Idem).
Retomando a análise sobre os quadros e sobre o "Consenso", é possível observar
que ocorrem rearranjos tanto na nomenclatura, como em relação a alguns aspectos
do gerenciamento sociomédico da intersexualidade, na medida em que antigos
parâmetros de classificação e ação se tornam insuficientes do ponto de vista
técnico e social. No que se refere às transformações no campo científico, uma
nova taxonomia torna-se necessária já que muda, entre outros elementos, a
ênfase que é dada aos diferentes componentes envolvidos na "determinação e
diferenciação sexual". Como apontado anteriormente, o que sustenta a nova
classificação é especialmente a "etiologia genética" do sexo, e não
simplesmente o modo como a suposta "desordem" se expressa no fenótipo, seja ele
interno (o que inclui as gônadas) ou externo.
Nesse sentido, o "Consenso de Chicago" e o uso do termo "DSD" nele proposto
expressa o que desde o final dos anos de 1990 vem se configurando como o quadro
contemporâneo no diagnóstico e no "manejo" envolvendo crianças intersex: o
papel central ocupado pela genética e pela biologia molecular na discussão e na
produção de conhecimento no interior do campo médico e biológico do
"desenvolvimento (determinação e diferenciação) sexual". Então, ainda que o
"Consenso" afirme que o "desenvolvimento psicossexual" é influenciado por
múltiplos fatores - exposição aos andrógenos, genes dos cromossomos sexuais,
estrutura cerebral, contexto social e dinâmica familiar (Lee et al., 2006, p.
e489) -, do ponto de vista do "desenvolvimento sexual", especialmente no
período pré-natal, parece ser a genética e a rede de conhecimentos que a compõe
(oriundos da embriologia e biologia molecular, por exemplo) que encompassam
todo o processo de definição do sexo. O "invisível" genético e molecular, nessa
perspectiva, ganha uma concretude - ou seja, uma solidez - e perfaz, sob o
signo de outra materialidade, um outro corpo, aquele da verdade genética.
As subdivisões do "Consenso" ou o que mais está em jogo?
O "Consenso de Chicago" é composto por uma série de subdivisões que pretendem
abordar o "manejo" da intersexualidade a partir de uma perspectiva mais ampla.
O artigo (Lee et al.,2006) está, assim, dividido em quatro grandes blocos:
"Nomenclatura e definições", "Investigação e manejo das DSDs", "Resultados em
relação às DSDs" e "Estudos futuros". E mais dois apêndices: "Papel dos grupos
de suporte" e "Questões legais". Vale destacar que metade do "Consenso" é
dedicada apenas aos dois primeiros blocos, aqueles voltados à nomenclatura e ao
"manejo" clínico-cirúrgico-psicoterapêutico das "DSDs".
Já discorri sobre os elementos centrais desenvolvidos no "Consenso" em relação
aos aspectos terminológicos. No que concerne ao "manejo", o documento é claro
ao destacar que:
O manejo clínico ideal de indivíduos com DSD deve compreender as
seguintes recomendações: 1) antes que os recém-nascidos sejam
avaliados por experts, a atribuição de gênero [gender assignment]
deve ser evitada; 2) a avaliação e o manejo a longo prazo devem ser
realizados em um centro que possua uma equipe multidisciplinar
experiente; 3) todos os indivíduos deveriam receber uma atribuição de
gênero; 4) a comunicação aberta com pacientes+ e familiares é
essencial, e a participação dos mesmos na tomada de decisão é
encorajada; e 5) as preocupações de pacientes e famílias devem ser
respeitadas e tratadas com estrita confidencialidade (Idem, p. e490,
tradução minha).
Mesmo que as opções de manejo da intersexualidade apresentadas pelo "Consenso"
se mantenham basicamente as mesmas - intervenção hormonal e/ou intervenção
cirúrgica e suporte "psico-social", sobretudo para a família, mas também para
as próprias pessoas intersex -, é possível identificar algumas poucas mudanças.
Entre elas, destaca-se a recomendação de que as cirurgias para redução do
clitóris em crianças com Hiperplasia Adrenal Congênita só deveriam ser
consideradas em "graus de virilização" Prader III a V. O Prader, de acordo com
a literatura médica, é uma medida do grau de virilização dos órgãos genitais
que pode variar de I a V. Assim, segundo o novo "Consenso", não haveria
indicação de operar em casos de Prader I e II. Na verdade, conforme me explicou
um dos médicos brasileiros, a mudança está relacionada basicamente com a
contra-indicação de cirurgia no que se refere às virilizações classificadas
como PraderII, uma vez que o Prader Ijá seria considerado uma virilização
normal, indicativa apenas de um "leve aumento" no tamanho do clitóris.
Reitera-se, ainda, a ênfase na importância de uma equipe multidisciplinar desde
o momento do diagnóstico, a qual, em situações ideais, incluiria no mínimo:
especialistas em endocrinologia, cirurgia e/ou urologia, psicologia/
psiquiatria, ginecologia, genética, neonatologia e, se possível, serviço
social, enfermagem e ética médica (Idem, p. e490). A novidade é que se
prescreve o alargamento do grupo envolvido, sendo incorporada a participação da
família e prevista a indicação de "grupos de apoio" (support groups).
No entanto, é necessário fazer uma ressalva em relação a esses outros atores
sociais reconhecidos no "Consenso" como fundamentais no processo de tomada de
decisão e acompanhamento. Eles são posicionados em lugares bastante
circunscritos. Conforme descrito no artigo, a família deve ser incluída em um
processo de comunicação e troca de informações, com base nas quais lhe seja
possível decidir quanto às intervenções médicas. Porém, não há nenhum ponto
mais específico que trate da sua participação no processo mesmo de decisões em
relação à definição do sexo da criança, por exemplo. Assim, na prática, os
pacientes e familiares continuariam não participando de todas as etapas. De
todo modo, esse movimento em direção ao "reconhecimento" e "aceitação" do lugar
dado à patient advocacy(Idem, p. e488) talvez já aponte para algumas
especificidades socioculturais relacionadas com determinados contextos de
interação médico-paciente.
É preciso também fazer uma observação acerca do papel atribuído no "Consenso"
ao movimento político intersex. Apesar de o ativismo ter sido incluído na
reunião que resultou na citada publicação, mediante a participação de
integrantes da ISNA, o mesmo fora reconhecido no documento sob a insígnia de
"grupos de suporte". Em última análise, esse fato sugere que a legitimidade do
ativismo intersex não passou pelo caráter político nem pela discussão ética que
os diferentes grupos suscitam em relação à prática médica voltada ao
gerenciamento da intersexualidade.
O relatório apresentado por uma representante alemã do movimento intersex, que
compôs o grupo com os "especialistas" médicos, afirma que o subgrupo
responsável por discutir a questão da cirurgia - subgrupo 4, Surgical
Management of Intersex - não contava com nenhum membro da militância (Thomas,
2006). De acordo com Bárbara Thomas, o grande grupo foi subdividido em seis,
tendo ficado cada um responsável por discutir questões específicas em relação
às DSDs. Segundo Thomas, o movimento político estava representado apenas nos
subgrupos 3 (Investigation and Medical Management of Intersex in the Infant,
Child and Adolescent) e 5 (Psychosocial Management of Patients with
Intersexuality and Related Conditions), sendo que ficara também de fora dos
subgrupos 1 (Recent Molecular Genetic Impact of Human Sexual Development), 2
(Brain Programming by Genes and Hormones - evidence-based) e 6 (Outcome Data:
Evidence-based).
Pela proposta de revisão da nomenclatura, é possível perceber que a questão
terminológica ainda está aberta na esfera médica e é objeto de muitos embates e
reflexões.18 Entre outros motivos, isso ocorre porque não somente os termos,
mas também as decisões em relação à intervenção e à designação do sexo em
crianças intersex, levantam algumas controvérsias no meio médico, bem como no
interior do movimento político intersex. Assim, o "Consenso de Chicago", ao
incluir alguns nomes expoentes do ativismo (sobretudo norte-americano) na
equipe de especialistas que construiu o documento, desponta também como um
marcador que torna visível uma série de tensões e conflitos no contexto da
própria militância: a intersexualidade está na ordem da biologia? É uma
categoriaidentitária? É uma má-formação? Quais as conseqüências éticas e
políticas de se passar a utilizar um termo como "DSDs"?
Em relação a esse aspecto, é preciso interrogar por que um grupo como a ISNA,
que em sua origem levantava como uma de suas principais bandeiras a
despatologização da intersexualidade, passou a defender e a utilizar o termo
DSD. No próprio site da ISNA, encontra-se a explicação de que essa atitude
"abriu muito mais portas", especialmente no que se refere à possibilidade de
diálogo com os médicos. Essa seria, entre outras razões, uma estratégia
pragmática, com o objetivo de se fazer "ouvir" na esfera médica.19 Seria também
um reflexo do fato de que o termo "intersex" não se estabeleceu como categoria
identitária eficaz, capaz de reunir muitos adeptos para o movimento, ao
contrário do que ocorreu no contexto das comunidades LGBTT (Koyama, 2006).
No que se refere ainda às discussões sobre a participação da militância na
elaboração do "consenso", é preciso também considerar que a inclusão - embora
sob a denominação de "grupos de suporte" - de representantes de um segmento do
ativismo intersex norte-americano na formulação de um documento médico (um
"consenso", para ser mais exata) não é um procedimento habitual no meio médico.
Poderíamos pensar que esse caminho assemelha-se ao que ocorreu na história da
epidemia da Aids no Brasil. Richard Parker, Jane Galvão e Marcelo Bessa (1999)
demonstram, nesse sentido, como houve uma intensa ação e articulação do
movimento social com diversos setores da sociedade e com programas
governamentais de Aids no Brasil. Esse teria sido um caso, portanto, em que o
ativismo político teve um importante impacto na formulação de políticas
públicas.
Finalmente, há mais um ponto salientado em uma das subseções do "Consenso" -
"Avaliação diagnóstica" - que merece ser destacado. Diz respeito à falta de
protocolos no que se refere ao "manejo" médico das "DSDs". De acordo com o
"Consenso", não existe um "protocolo de avaliação único" que possa ser aplicado
a todas as circunstâncias, em função do amplo "espectro de achados e
diagnósticos" envolvido (Lee et al., 2006, p. e491).
Pode-se aventar que essa posição abala, em certa medida, a própria forma de
agir e pensar na esfera médica, que possui como eixo principal de sua "teoria",
segundo Kenneth Camargo Jr. (2003, p. 79), a "teoria das doenças". De acordo
com o autor, esta última consiste em produzir as doenças como categorias
diagnósticas cujos protocolos de avaliação e ação possam ser estabelecidos de
forma estável e homogênea. Ocorre que a intersexualidade e o próprio
conhecimento em relação à "determinação e diferenciação sexual" (ou
"desenvolvimento sexual") lançam desafios à medicina, e qualquer tentativa de
estabelecer um protocolo padrão torna-se insuficiente.
A técnica, os códigos e o espaço da moralidade
Após destacar e analisar alguns pontos presentes no artigo que ficou conhecido
como "Consenso de Chicago", nessa terceira parte deste trabalho desenvolverei a
idéia já anunciada de que, no referido documento, há um esforço de um grupo de
experts na direção de estabelecer uma classificação calcada em termos cada vez
mais "técnicos" e com códigos muito complexos e específicos. Dessa forma,
termos como "intersex", "pseudo-hermafroditismo", "hermafroditismo" e "reversão
sexual", considerados "etiquetas diagnósticas baseadas no gênero" (Lee et al.,
2006, p. e488) dão lugar a outras "etiquetas" representadas principalmente por
letras e números (como evidencia a sigla DSD 46XX, por exemplo), as quais
seriam supostamente menos "controversas" do que as primeiras.
Cabe a pergunta: o que há de tão controverso nos antigos termos? Ou ainda: em
relação a que eles geram tanta polêmica? Se tais termos podem causar
"confusão", como assinalado no "Consenso", o que, por assim dizer, não deve ser
"confundido" em se tratando da diferenciação sexual? Finalmente, vale também
indagar quem detém o poder de falar sobre o "sexo verdadeiro" e sobre a
"realidade do corpo" em cada uma de suas partes mais microscópicas? E que
ferramentas (técnicas, conceituais, lingüísticas, entre outras) é preciso
dominar para tanto?
A proposta de mudança da nomenclatura e a própria elaboração e significação do
"Consenso de Chicago" oferecem pistas interessantes na direção dessas questões.
A hipótese central que pretendo desenvolver é a de que a utilização de termos
cada vez mais "codificados" responde, por um lado, ao esforço de tentar
encobrir aspectos mais relacionais envolvidos no "diagnóstico" do sexo de
alguém, como as negociações cotidianas entre os profissionais da saúde
envolvidos, famílias e pessoas intersex. É como se, através dessa nova
proposta, fosse possível invisibilizar os processos e as relações sociais
implicados nas tomadas de decisão em relação à atribuição do sexo em crianças
intersex. As letras e os números tornam-se variantes naturalizadas de
conhecimentos informados por valores e representações socioculturais.
Por outro lado, ao afastar-se de expressões mais compartilhadas pelo senso
comum (como hermafroditismo) ou pelo ativismo político (como intersex) e
aproximar-se de códigos mais "técnicos", os novos termos buscam invisibilizar o
uso de categorias classificatórias morais e/ou identitárias, associando essas
últimas a um caráter necessariamente "pejorativo". Dessa forma, o antigo
"hermafrodita verdadeiro" não é o mesmo, do ponto de vista social e cultural,
que o indivíduo "DSD Ovotesticular", ainda que essas categorias estejam
relacionadas no texto do "Consenso".
É fundamental apontar, portanto, que os deslocamentos gerados pelo conhecimento
biogenético vão muito além de sua legitimidade científica. No caso específico
do gerenciamento sociomédico da intersexualidade, um desses efeitos é deixar
menos manifestos os elementos sociais envolvidos no processo de tomada de
decisões, reafirmando a concretude do sexo - um entre dois, e apenas dois - por
meio da reconstrução da sua história biológica no interior do corpo. Conforme
aponta Rabinow (1999) ao se referir às novas tecnologias ligadas à genética,
ocorre uma espécie de dissolução do social, que leva, entre outras
conseqüências, à construção de uma outra noção de natureza, talvez menos
"romântica" e com contornos menos fixos. Para Rabinow, algumas categorias
culturais - como o gênero e o sexo - podem rearranjar-se com outras, serem
sobrepostas ou mesmo redefinidas por elas. Nesse ponto, eu gostaria de
introduzir o que me parece ser outro efeito do deslocamento fomentado pelo
conhecimento biogenético: a emergência do que chamarei de "sexo-código".
O sexo-código é aquele que está sob o registro lingüístico e cognitivo da nova
genética e da biologia molecular. Desse modo, não se apresenta através de uma
linguagem que pode ser compartilhada por todos, mas apenas por um grupo
restrito de "iniciados". No seu dia-a-dia, as pessoas não se perguntam se
possuem SRY positivo ou negativo, se possuem ou não uma duplicação em SOX9, se
apresentam ou não uma mutação em WT1 ou quem sabe, em DMRT1. O sexo-código
constitui uma outra verdade sobre o sujeito, que é revelada pelo corpo em cada
molécula, em cada seqüência genética. As pessoas são, paradoxalmente, cada vez
mais inseparáveis (não se pode escapar do sexocódigo) e, ao mesmo tempo, cada
vez mais distantes do seu sexo-código.
Instaura-se, assim, uma outra biologia. Segundo Jean-Paul Gaudillière (2000, p.
54), ao contrário dos reducionismos iniciais, o que temos hoje é uma "ciência
de sistemas complexos". Além disso, ele afirma que não se está mais tratando
dos mesmos pressupostos que aqueles da embriologia do século XIX. Há, assim,
uma nova concepção de corpo, de "sexo", e uma outra compreensão do processo de
"determinação e diferenciação sexual". O sexo-código revela o corpo em seu
registro microscópico, ao mesmo tempo em que se sobrepõe a seu registro
macroscópico.
Das concepções abstratas e conceituais, sustentadas pela biologia molecular e
pela "nova embriologia", à prática clínica e às intervenções cotidianas, há,
contudo, uma distância considerável. Em relação a isso, Camargo Jr. (2003) já
apontava para os paradoxos e contradições possíveis entre a medicina teórica e
a prática clínica. Assim, ainda que eu mesma utilize os termos "intersex"/
"intersexualidade" e o "Consenso de Chicago" proponha o termo "DSD", durante o
meu trabalho de campo para a pesquisa de doutorado, outros termos eram também
utilizados pelos atores sociais, em contextos e condições específicas, tanto no
hospital brasileiro como no francês.
Ainda que a literatura médica fizesse menção aos "estados intersexuais", mesmo
os médicos que acompanhei no hospital brasileiro, por exemplo, dificilmente
utilizavam a denominação "intersexo" entre eles e, pelo menos nos momentos em
que pude observar, nunca fizeram uso desse termo durante as consultas com os
familiares e/ou com as crianças/jovens intersex. Se, de uma forma geral, o
termo genitália ambíguaera visto por eles como inadequado (porque não daria
conta de todos os "estados intersexuais" e, também, porque faria referência à
idéia de "ambigüidade"), o termo intersexo também não era considerado livre de
problemas. No seu dia-a-dia, percebi que os médicos permitiam-se utilizar entre
eles o termo genitália ambíguaquando se referiam a algumas "condições"
consideradas "intersexualidade". No entanto, esse uso era terminantemente
contra-indicado diante das famílias e pessoas intersex, situação na qual
julgavam preferível o uso da expressão genitália incompletamente formada
(Machado, 2006).
O modo como as diferentes nomenclaturas são acionadas pelos médicos mereceria
uma discussão mais detalhada. Restrinjo-me, aqui, a salientar que, em seu
cotidiano, os médicos que acompanhei mesclavam o uso de algumas nomenclaturas
(como genitália ambígua e genitália incompletamente formada) e sistemas de
classificação (conforme observei no hospital francês em relação ao sistema pré
e pós-"Consenso de Chicago"), dependendo do contexto da enunciação, ou seja, se
a mesma era feita em uma situação de discussão acadêmica, se estava restrita
aos pares no cotidiano do hospital, se era remetida aos pacientes e seus
familiares, entre outras possibilidades. Além disso, deve ser salientado que o
uso dos termos não muda repentinamente em função de uma determinação externa,
visto que eles refletem percepções e valores internalizados.
Considerações finais
No que se refere à medicina do século XIX e início do século XX, merece
destaque a preocupação com a origem da "diferença sexual" e a descoberta dos
hormônios sexuais como promessa de desvelamento da "chave" ou ponto inequívoco
para entender essa diferenciação (Oudshoorn, 1994; Wijngaard, 1997; Rohden,
2008). Os chamados "hermafroditas" desempenharam um papel fundamental nessas
definições (Dreger, 2000). Se é possível afirmar que o saber médico impõe um
regime político e de autoridade sobre os corpos de uma forma geral, os corpos
intersex constituíram um palco privilegiado de ação dessas regulações, em
função de desafiarem a estabilidade da dicotomia sexual como norma. De acordo
com Elsa Dorlin:
O poder médico foi historicamente empregado como paliativo das
tensões e das contradições teóricas, para acabar com os casos
excepcionais, com os casos limites, suscetíveis de minar os modelos
explicativos da bisexuação. Nesse sentido, a questão do
hermafroditismo, dos casos de ambigüidade sexual tornando difícil a
assignação a um sexo, foi o ensejo para uma longa crise na história
do pensamento médico e das teorias da diferença sexual ou da
diferenciação sexuada (Dorlin, 2005, p. 123, tradução minha).
Integrando esse regime político e de autoridade, estão, como procurei
demonstrar, as nomenclaturas e as taxonomias empregadas, as quais atuam,
também, como práticas regulatórias. Como lembra Judith Butler (2002), a
nomeação cria distinções, estabelece fronteiras e obedece a um conjunto de
normas, que são exaustivamente reiteradas. Assim, as categorias
classificatórias dirigidas ao corpo, em particular à "determinação e
diferenciação sexual", e a regulação da sexualidade por elas operadas possuem
implicações na forma como ocorre o gerenciamento sociomédico da
intersexualidade e, também, na maneira como é pensado o estatuto corporal e
ético das pessoas intersex. A partir de uma perspectiva crítica, e considerando
a perspectiva dos direitos sexuais enquanto direitos humanos, vale refletir,
entre outros elementos, acerca das implicações políticas e éticas, em um nível
mais amplo de análise, das terminologias como operadoras de diferença, bem como
para as conseqüências concretas que elas podem gerar nos corpos intersex, como
as intervenções clínico-psicoterapêutico-cirúrgicas.
Conforme já salientado, as transformações e os embates em torno da nomenclatura
indicam que, de um lado, mudam os atores sociais envolvidos no processo, mas,
de outro, transforma-se o modo como os saberes desses atores se compõem entre
si, ora se aliando, ora se distanciando. A partir das análises sobre o
"Consenso de Chicago" fica, então, evidente que a nomeação, ou o "ato de
nomear", é estabelecida dentro de um campo de disputas (Bourdieu, 1996).
As reflexões apresentadas também apontam para determinadas reconfigurações
provocadas pelo conhecimento científico na esfera da intersexualidade. No
contexto das novas tecnologias reprodutivas, Marilyn Strathern (1995) chama
atenção, por exemplo, para a emergência de novos elementos, provocada pela
produção de conhecimento e de tecnologias, os quais tensionam os limites de
antigas definições e geram deslocamentos que perturbam a suposta estabilidade
dos domínios da "natureza" e "da cultura". Ao mesmo tempo, cabe lançar algumas
questões para reflexão a partir das análises realizadas: no que concerne às
intervenções, o que muda, efetivamente, com o "Consenso de Chicago"? Se, como
desenvolvi ao longo do artigo, os conhecimentos em biogenética geram
deslocamentos, emergindo nesse processo novas concepções de corpo e de sexo - o
"sexo-código" - por que a lógica das decisões parece se manter inalterada? O
que, nesse sentido, extrapola as definições médicas?
Os embates em torno da nomenclatura ou dos "termos corretos" a serem utilizados
indicam, ainda, que existem rupturas e ruídos não apenas entre profissionais de
saúde ou entre campos de saber, mas também no contexto das relações entre esses
profissionais, as pessoas intersex e seus familiares. Ainda, a adesão da ISNA à
nomenclatura DSD (e a posterior dissolução do grupo para dar origem à Accord
Alliance) parece marcar algo importante do ponto de vista do ativismo intersex,
em particular, e do ativismo pelos direitos humanos, em geral. Conforme
ressalta Mauro Cabral (2008), essa adesão a termos "medicalizados" inscreve-se
em um processo de transformar o corpo do sujeito "político" em um corpo que
necessita de cuidados médicos.É a medicalização do político, em última análise,
que acaba mediando o acesso aos direitos.
Encerro este texto reforçando a importância de lançar um olhar teórico e
metodológico para essa questão das definições em "consensos" e nomenclaturas
que designam estados - e estatutos - corporais. Como procurei demonstrar no
decorrer deste artigo, essas definições entrelaçam diferentes questões e
permitem situar as decisões que acontecem nos hospitais em um contexto social
mais amplo de produção de conhecimento. A terminologia emerge, assim, como um
nó situado entre considerações técnicas, humanas e ético-políticas. A reflexão
sobre a mesma se estende, ainda, à minha própria pesquisa e às minhas escolhas
terminológicas como pesquisadora. Desse modo, projeta-se, também, sobre as
implicações éticas, políticas e teórico-metodológicas que delas decorrem.
Notas
1 Agradeço a sugestão do professor Richard Miskolci (UFSCAR) quanto à
utilização desse termo, proposta na ocasião da apresentação do trabalho no 31º
Encontro da Anpocs. A palavra "gerenciamento", aqui, remete à idéia de
administração e gestão. Essa noção também se vincula ao que Foucault (1988)
descreve como o poder de gerir a vida, ou "biopoder". Da forma como utilizo o
termo, "gerenciar" é, ao mesmo tempo, dirigir, regular e acompanhar de maneira
sistemática e constante por meio de ferramentas e estratégias específicas.
Nesse sentido, tanto médicos, como familiares e pessoas intersex "gerenciam" a
intersexualidade. Ao fazer referência a um gerenciamento adjetivado como
"sociomédico", busco chamar a atenção para o fato de que existem aspectos
socioculturais, como o gênero, que se entrelaçam com os argumentos técnico-
científicos.
2 Conforme esclarece a autora, o termo apareceu no artigo do pesquisador
biomédico Richard Goldschmidt (1917), intitulado "Intersexuality and the
endocrine aspect of sex".
3 O primeiro grupo de ativismo intersex foi a Intersex Society of North América
(ISNA), fundada por Charyl Chase nos anos de 1990, nos Estados Unidos (ver site
<http://www.isna.org>).
4 Vale destacar que a ISNA também passou a promover o uso do termo DSD (sem,
necessariamente, abandonar o termo "intersex"). Recentemente, esse grupo
encerrou seu trabalho, dando lugar a uma nova organização, chamada Accord
Alliance, inaugurada oficialmente em março de 2008 e que adota a nova
nomenclatura DSD. Disponível no site <http://www.isna.org>. [Acesso em maio de
2008].
5 Termo que tem sido traduzido para o português como "Anomalias do
Desenvolvimento Sexual" (ADS) (Damiani, Guerra-Júnior, 2007). Há também a
proposta de "Distúrbios do Desenvolvimento Sexual" (DDS), conforme me
esclareceu uma médica brasileira, única latino-americana a ter participado da
reunião para elaboração do "Consenso".
6 No posfácio à edição francesa da obra de Ludwik Fleck, Bruno Latour (2005)
sugere que uma das injustiças dirigidas a esse pensador é o fato de seu
conceito de "coletivo de pensamento" ter sido considerado um mero "precursor"
da noção de "paradigma" de Kuhn. Segundo Latour, para Fleck não se tratava
apenas de estudar o contexto social das ciências, mas de perseguir todas as
relações, os embates e as alianças envolvidas na produção do conhecimento e na
história do pensamento. Latour o considera, assim, um pioneiro ainda atual e
instigante.
7 Esse aspecto remete ao conceito de "co-produção", nos termos de Sheila
Jasanoff (2006), que aponta para a inseparabilidade entre o domínio da
"natureza" e da produção dos "fatos científicos", além da ordem social e
política.
8 "Manejo" é uma palavra utilizada no meio médico, especialmente na literatura
científica. No inglês, tem-se o termo "management", que diz respeito à forma
como uma determinada "condição" será manipulada, gerida, conduzida.
9 Sobre o papel central das gônadas na medicina do final do século XIX e início
do século XX, no que diz respeito à diferenciação entre homens e mulheres, ver
Alice Dreger (2000).
10 A sigla 46XX (ou 46XY) é uma convenção biomédica, em que 46 diz respeito ao
número total de cromossomos de um indivíduo e XX ou XY referem-se a um dos
pares desse conjunto. São os chamados "cromossomos sexuais".
11 Gônadas com "alterações".
12 Não parece, contudo, que a "Idade das Gônadas" tenha sido suplantada. A
idéia de rearranjos em relação às definições e às intervenções médicas pode ser
mais adequada nesse caso.
13 De acordo com a autora, foi apenas por volta de 1915, com o advento de novas
tecnologias médicas, como as laparotomias e as biópsias, que foi possível
identificar de fato testículos em mulheres vivas, ovários em homens vivos e
ovotestes em "verdadeiros hermafroditas" vivos (Dreger, 2000).
14 Sobre a importância da idéia de "função" no contexto empírico em que foi
realizada minha pesquisa para o doutorado, ver Machado (2005).
15 Significa 5 alfa-reductase.
16 Insensibilidade Completa (ICA) ou Parcial (IPA) aos Andrógenos.
17 Disgenesia Gonadal Mista.
18 Para uma análise médica crítica à proposta de revisão de nomenclatura ver,
por exemplo, Durval Damiani e Gil Guerra-Júnior (2007).
19 Conferir site <http://www.isna.org/node/1066>.