A sociologia da religião como recapitulação da teologia cristã: Weber e as
raízes proféticas do racionalismo ocidental
Em todos os tempos só tem havido um meio de quebrar
o poder da magia e estabelecer um padrão racional de
conduta; este meio é a grande profecia racional.
WEBER (1993, p. 362)
Profecias liberaram o mundo da magia e, ao fazê-lo,
criaram a base para a ciência e a tecnologia modernas,
como também para o capitalismo.
WEBER (1993, p. 362)
Desde os escritos seminais de Max Weber, a sociologia da religião tem
desenvolvido uma linha de raciocínio bastante curiosa a respeito do significado
cultural e histórico da profecia hebraica. Por um lado, esta última tem sido
vista como nada menos que o empreendimento intelectual que gerou a
singularidade da nossa civilização ao conceber a idéia de um Deus universal
(que recompensa quem obedece a Seus mandamentos e pune quem os transgride) e
estabelecer, a partir dessa concepção, o preceito, incompatível com "todo
pensamento genuinamente asiático", de que "por meio de um comportamento
prosaico, dirigido às demandas do dia', é possível obter salvação" (Weber,
1960, pp. 332, 342).1 Por outro lado, tem lhe sido atribuída a promessa de um
futuro no qual Israel prevaleceria sobre todas as outras nações, a qual, após a
devastadora experiência do exílio na Babilônia (século VI a.C.), teria
transformado os judeus em um "povo-pária", auto-segregado, ressentido,
ritualista, legalista, orientado por uma ética dual (isto é, com um padrão de
comportamento em relação aos judeus e outro em relação aos gentios) e, como
tal, incapaz de difundir o "padrão racional de conduta" que a doutrina
profética de um Deus universal havia estabelecido.2 Essa linha de raciocínio
conduziu à tese de que, se, por um lado, a doutrina profética hebraica anterior
ao exílio desencadeou o processo de formação dos traços caracteristicamente
"racionais" do padrão de conduta que se estabeleceu no ocidente, por outro, o
fato de os judeus terem sobrevivido ao cativeiro apenas como um "povo pária",
orientado por uma "ética dual", impediu a continuidade deste processo, o qual,
não obstante, não foi interrompido para sempre por causa do subseqüente advento
do universalismo cristão.
Essa postulada transição do particularismo judaico ao universalismo cristão
encontra-se na base de todo esforço já realizado pela sociologia weberiana para
explicar a emergência do racionalismo peculiar ao ocidente. A versão mais
acabada desse esforço encontra-se na obra de Wolfgang Schluchter, que, mais do
que ninguém, empenhou-se em argumentar que enquanto as escrituras judaicas
instituíram o que poderia ser chamado de um "reino da legalidade", isto é, uma
ética baseada na observância mecânica de normas concretas, o Novo Testamento,
ao rechaçar o intelectualismo judaico, típico dos centros urbanos,3 realçando,
no lugar, a importância da convicção supra-intelectual, instaurou o "reino da
moralidade", isto é, uma ética baseada em princípios abstratos internalizados.4
Paulo é apontado como o grande arquiteto dessa transição, cuja caracterização o
próprio Weber encarregou-se de fazer em termos muito vivos:
Com a ajuda de uma dialética que somente um rabino poderia ter,
Paulo, por onde passou, erradicou o que era mais peculiar à lei
judaica, como também o que era mais eficiente nela, a saber, as
normas com caráter de tabu e as promessas messiânicas únicas. Posto
que esses tabus e essas promessas vinculavam toda a dignidade
religiosa dos judeus à sua condição de povo pária, a ruptura
efetivada por Paulo foi fatal em seus efeitos. Paulo efetuou esta
ruptura postulando que as promessas messiânicas presentes nas
escrituras judaicas haviam sido parcialmente cumpridas, e
parcialmente abolidas, pelo nascimento de Cristo. De uma forma
triunfal ele usou o argumento, de fato impressionante, de que os
patriarcas de Israel, já bem antes que os tabus e promessas judaicas
fossem tornados públicos, haviam vivido de acordo com a vontade
divina e, graças à sua fé, que era a garantia da eleição por Deus,
alcançado a bem-aventurança. A força que impulsionou o trabalho
incomparável da missão de Paulo foi sua oferta, aos judeus, de um
tremendo alívio, um alívio proporcionado pela consciência de ter
escapado ao destino de pária. O judeu, a partir de agora, poderia ser
um heleno para os helenos do mesmo modo que um judeu para os judeus
[...]. Esta foi a sensação apaixonada de liberdade trazida por Paulo.
O judeu poderia realmente livrar-se das antigas promessas de seu Deus
colocando sua fé no novo salvador, que se sentiu abandonado na cruz
por aquele mesmo Deus. Várias conseqüências se seguiram deste
rompimento das cadeias vigorosas que mantinham os judeus firmemente
presos à sua condição de pária. Uma delas é o ódio terrível,
suficientemente documentado, precisamente dos judeus da diáspora
contra este homem [...]. Em cada linha escrita por Paulo sentimos o
júbilo contagiante de um homem que foi resgatado, com o sangue do
Messias, da "escravidão" daquela lei sem esperança para a liberdade.
A conseqüência mais ampla foi a possibilidade de uma missão cristã
mundial (Weber, 1965 [1922], pp. 259-260).
Este longo excerto sugere que faltou às escrituras sagradas judaicas um alcance
universal,5 isto é, que nenhuma "missão mundial" poderia ter sido iniciada a
partir da pregação profética hebraica a menos que o padrão particularista de
conduta peculiar ao judaísmo fosse rompido e substituído por um padrão
universalista. Na medida em que, nos marcos dessa linha de raciocínio, o
trabalho missionário de Paulo foi o acontecimento responsável por tal ruptura e
substituição, ele significou uma guinada decisiva na evolução da ética
ocidental.
Nesse artigo discuto a pertinência de toda essa linha de raciocínio. Argumento
que ela se limita a recapitular uma concepção teológica oriunda do pensamento
cristão do segundo século, a saber, a de que o sacrifício redentor de Jesus
tornou o judaísmo obsoleto porque universalizou o acesso à graça divina
anteriormente restrito a um suposto "povo escolhido". Embora esta concepção
possa ser encontrada em escritos cristãos do primeiro século, sua forma mais
acabada aparece na obra do apologista Justino, o mártir (100-165),6 e é
conhecida, desde o influente trabalho da teóloga cristã Rosemary Ruether, por
teologia da superação ' ou teologia da substituição (Ruether, 1974). Nessa
perspectiva, pretendo mostrar o quanto o argumento weberiano a respeito da
emergência do racionalismo ocidental se acha embebido na teologia cristã da
superação. Ao atribuir à ética farisaica, peculiar aos judeus da época da
pregação Paulina, um caráter particularista, pré-Paulino, que em boa hora veio
a ser substituído e superado pelo universalismo subjacente à doutrina Paulina
da justificação pela fé, a sociologia da religião tem sido levada, por um lado,
a subestimar o potencial universalizador do arcabouço religioso judaico e, por
outro, a superestimar o papel histórico-cultural da doutrina Paulina da
justificação pela fé: conforme pretendo mostrar, o desenvolvimento do
cristianismo e, por extensão, do racionalismo ocidental, dependeu de fatores
cuja conexão com a referida doutrina, e com o trabalho missionário de Paulo de
um modo geral, é muito menor do que o pensamento weberiano nos levaria a supor.
1
No excerto acima Weber parafraseia, com grande admiração, o versículo da
Epístola de Paulo aos Gálatas, que diz: "não pode haver judeu nem grego; nem
escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo
Jesus" (Gl 3:28). Weber parece supor que essas palavras traziam algo de
substancialmente novo para os judeus ou gentios de língua grega a quem Paulo se
dirigia. Tal suposição, entretanto, dificilmente se sustenta. Em um artigo
recente, David Niremberg (2003) argumenta que o universalismo presente no
versículo acima já era subscrito por um dualismo filosófico (freqüentemente
chamado de neoplatônico) muito difundido, o qual chamava a atenção para a
existência de uma irmandade de espírito e enfatizava a superioridade do estado
espiritual sobre as várias diferenças de corpo e de circunstância que marcam a
"carne" dos seres vivos. Nesse sentido, o que haveria de extraordinário no
referido versículo seria o fato de Paulo ter defendido seu universalismo contra
um status particular que era até então quase que inteiramente ignorado pela
tradição filosófica grega. Nem a condição de homem ou mulher, nem a condição de
liberto ou escravo, mas somente o judaísmo servia como o alvo permanente de sua
eloqüência. Isto aponta para o fato de
[...] o universalismo de Paulo ter sido articulado no contexto e nos
termos de uma luta pelo controle sobre o passado judaico. De todas as
antinomias de identidade a partir das quais ele foi construído, foi
somente a categoria de judeu, de descendente de Abraão ' não as
categorias de grego, escravo, mulher ou homem ', que precisava se
expandir para abrir espaço para toda a humanidade (Niremberg, 2003,
p. 210).<
Essas considerações chamam a atenção para algo que escapou a Weber, a saber,
que Paulo não negou as distinções homem/mulher e escravo/ liberto da mesma
forma que negou a distinção judeu/grego. Nos dois primeiros casos, Paulo está
dizendo que, embora a condição de homem ou mulher, escravo ou liberto, é
irrelevante perante Deus sob um ponto de vista religioso e espiritual, cada
homem, mulher, escravo ou liberto deve se manter como tal do ponto de vista
físico e social. No caso da distinção judeu/grego, entretanto, tudo muda. Neste
caso, como explicou muito bem o historiador da religião John D. Crossan, em seu
The birth of Christianity, Paulo "tira a distinção da alma e a coloca no corpo;
tira-a do espírito e a coloca na carne" (1999, p. xxv). Para entender este
argumento, basta imaginar o que significaria negar as distinções homem/mulher e
escravo/ liberto da mesma forma que Paulo negou a distinção judeu/grego.
Significaria supor que seria indiferente perante Deus que, por exemplo, um
homem pintasse as unhas ou inserisse silicone no peito, ou que um escravo se
rebelasse contra a sua condição. Certamente não era nada disso que Paulo tinha
em mente quando disse que não pode haver homem nem mulher, nem escravo nem
liberto, perante Cristo. Mas era exatamente algo desta natureza que estava
presente na sua negação da distinção judeu/grego. Nenhum homem, nem escravo
algum poderiam, segundo Paulo, renunciar à sua condição física e/ou social
(quer pintando as unhas, quer renunciando a servir a seu amo), mas um judeu
poderia renunciar à sua condição físico-social abrindo mão das "normas com
caráter de tabu" e das "promessas messiânicas únicas" contidas na Torá. Há,
portanto, uma clara incoerência aqui, e o próprio Weber acabou por incorporá-la
ao seu pensamento ao elogiar Paulo por oferecer aos judeus uma oportunidade
(não aproveitada) para abandonar o judaísmo.7
Se Weber equivocou-se ao supor que o citado versículo Paulino trazia alguma
novidade teologicamente revolucionária, ele, não obstante, estava certo ao dar
a entender que a posição de Paulo era motivada pela tensão entre dois
objetivos: o de manter a relevância da promessa de Deus a Abraão (e, portanto,
a relevância das escrituras judaicas) e o de estender esta promessa para além
dos descendentes carnais de Abraão. Afinal de contas, como Niremberg nos faz
lembrar, se o objetivo de Paulo tivesse sido o de abandonar as escrituras
sagradas dos judeus, ou de simplesmente condená-las como falsas ' como pouco
mais tarde o fariam tanto os marcionitas como os cristãos gnósticos, aos quais
oportunamente retornarei ', "o particularismo judaico não teria se tornado mais
importante para os primeiros cristãos do que todo um conjunto de outras
identidades étnicas que eles foram capazes de simplesmente ignorar como
espiritualmente insignificantes" (Niremberg, 2003, pp. 210-211). Mas, como
Paulo não o fez, o caminho ficou aberto para que a "questão judaica" se
tornasse o problema chave da hermenêutica cristã e na elaboração da teologia e
ontologia cristãs.
Que a "questão judaica" tenha se tornado o problema chave da hermenêutica
cristã é algo que dificilmente alguém contestaria em nossos dias. Na verdade, o
próprio Weber parece estar sugerindo isso ao afirmar que uma das "atividades
sem par" de Paulo, que teve "efeitos significativos para o cristianismo
primitivo", foi ter "transformado o livro sagrado dos judeus em um dos livros
sagrados dos cristãos e, no princípio, o único" (Weber, 1965 [1922], p. 259).
Há de se perguntar, entretanto, se não seria mais apropriado ver tão
extraordinário feito como a culminação de um processo muito mais complicado e
laborioso, isto é, como o resultado final de uma longa e sangrenta batalha pela
criação da ortodoxia cristã ' ou, o que resulta no mesmo, como a solução que se
obteve, após um enorme esforço, para um problema extremamente espinhoso que,
por muito boas razões, dominou todo o período patrístico. Refiro-me ao
problema, jamais abordado por Weber, ou por seus seguidores, de saber se o Deus
dos judeus e o dos cristãos era o mesmo.
É sabido que nas décadas que se seguiram à crucificação de Jesus muitos
caminhos alternativos estavam abertos para o que posteriormente viria a ser
chamado de cristianismo.8 Quando Paulo iniciou seu trabalho missionário, em
meados do primeiro século, um leque de "cristianismos" potencialmente viáveis
já estava se formando, e o cristianismo que ele próprio lutou para estabelecer
era apenas um a mais. Weber, evidentemente, estava ciente disto. Ele parece não
ter estado suficientemente atento, entretanto, para uma outra coisa, a saber,
que qualquer que fosse a forma final a ser tomada pelo cristianismo, o caminho
que conduziria a ela seria atravessado por uma questão absolutamente decisiva:
o que fazer do Deus da Bíblia hebraica? ' o deus da vingança e da espada, como
o diria o teólogo patrístico Marcião (85-159), cujo pensamento só nos é
acessível pelos escritos de seus inúmeros adversários. Poderia o Deus ciumento
e punitivo dos judeus ser reconciliado com o Deus do amor e da compaixão, dos
(então emergentes) cristãos?
Embora a resposta que se sagrou vencedora, após o quarto século, tenha sido um
"sim", muitos influentes teólogos patrísticos do início do segundo século não
hesitaram em responder negativamente. Dentre eles, destacavam-se o já
mencionado Marcião e, também, Valentim (105-165, aproximadamente) ' um líder
cristão da Alexandria que, a exemplo de Marcião, se dirigiu a Roma, trazendo
consigo um conjunto complexo de idéias gnósticas gregas que pudessem ser
utilizadas para elaborar uma teologia cristã essencialmente diferente da
judaica. Se as doutrinas desses teólogos tivessem, no fim das contas,
prevalecido, não haveria qualquer razão para que a Bíblia hebraica tivesse que
ser transferida para os cristãos como um de seus próprios livros sagrados.
Entretanto, mesmo asseverando que "no Antigo Testamento a idéia de salvação'
aparece somente no sentido elementar e racional de liberação dos males
concretos" (Weber, 1965 [1922], p. 44), Weber considerava inconcebível qualquer
tipo de cristianismo à margem desse livro. Assim, em seu Ancient Judaism ele
assegurou que se Paulo não tivesse transferido o Antigo Testamento para os
cristãos, "seitas gnósticas e mistérios do culto de Kyrios Christos teriam
existido no solo helênico, mas não teriam proporcionado uma base para a Igreja
cristã ou para uma ética cristã do dia-a-dia" (Weber, 1952, p. 4).
Na próxima sessão, deter-me-ei na expressão "ética cristã do dia-a-dia", uma
vez que por meio dela Weber está sugerindo algo, crucial para sua linha geral
de argumentação, que pretendo contestar, a saber, que se uma ética cristã não
tivesse substituído a ética característica do judaísmo farisaico do primeiro
século nenhum padrão racional de conduta concebível poderia ter surgido naquela
época. Por ora, entretanto, devo me voltar para a afirmação de que nenhuma
verdadeira Igreja cristã poderia ter surgido sem a ajuda das escrituras
judaicas. Trata-se, na verdade, de um equívoco, porque, conforme apontou o
historiador da religião Burton Mack, no início do segundo século a doutrina de
Marcião ' segundo a qual o Cristianismo só poderia ter sua própria identidade
se cortasse todos os laços com os judeus, com suas escrituras e com qualquer
coisa remotamente relacionada a seu Deus da espada e da vingança ' "foi ouvida
em Ponto, Éfeso e Roma. Congregações se formaram, uma escola se fez, e uma
Igreja marcionita se espalhou por todo o império e em direção ao leste. Vilas
inteiras tornaram-se cristãs marcionitas, e os marcionitas desafiaram os
teólogos centristas por centenas de anos" (Mack, 1996, p. 253, grifos meus).9
Sendo Weber tão excepcionalmente erudito, ele certamente sabia que o
cristianismo marcionita havia se difundido. Por alguma razão, entretanto, ele
ignorou este fato. Se não o tivesse feito, ele não teria descrito a missão
Paulina da forma como o fez, isto é, como um empreendimento tão
excepcionalmente bem-sucedido e decisivamente importante. Ele não teria
afirmado, por exemplo, que o trabalho missionário de Paulo "ergueu uma cerca
robusta contra toda intrusão do intelectualismo grego, especialmente o
gnóstico" (Weber, 1965 [1922], p. 259). A força exibida pelas doutrinas
teológicas de Marcião e Valentim no início do segundo século leva-nos a duvidar
de que uma "cerca" de tal natureza tenha sido erguida algum dia. Em
conseqüência, se o cristianismo conseguiu forjar, para si próprio, a imagem de
uma religião que superou o judaísmo no plano teológico, isto não ocorreu, como
a linha weberiana de raciocínio nos levaria a pensar, por causa do trabalho
(supostamente emancipatório) da missão de Paulo.10 Ao contrário, isto foi o
resultado de um longo e extenuante esforço, cujo ponto de partida foi uma
reação, dos teólogos patrísticos, à tentativa marcionita de separar
completamente o cristianismo do judaísmo. Afinal de contas, conforme Mack
mostrou, após a pregação de Marcião, os cristãos não poderiam mais meramente
pressupor que o Deus e pai de Jesus Cristo era o mesmo Deus de Israel; que eles
próprios, os cristãos, ao mesmo tempo em que deveriam ser gratos às normas
éticas e aos sentimentos veiculados pelas escrituras judaicas, deveriam também
rejeitar a Lei judaica, e que o sentido principal da aparição de Jesus era,
como apregoava Paulo, a expansão da noção de Israel, de forma a incluir os
gentios (Mack, 1996, p. 259).
Disso resulta que, se o cristianismo finalmente tornou-se uma religião mundial,
isto dependeu muito mais do sucesso dos apologistas patrísticos em
compatibilizar o Deus das escrituras judaicas com o Deus do Novo Testamento do
que de um presumido empenho (ou sucesso) da missão Paulina em livrar os judeus
de sua presumida condição de "povo pária" expandindo a noção de Israel. Há de
se perguntar, entretanto, por que a visão gnóstica de Marcião foi tão
contestada no segundo século. Por que tantos pais da Igreja reagiram à sua
doutrina de forma tão vigorosa, mesmo após sua morte? Por que, em outras
palavras, eles insistiram em se manter ligados às escrituras judaicas, a
despeito de todas as inconsistências, de um ponto de vista teológico, que tal
decisão poderia acarretar?
A visão que o cristianismo forjou a respeito do seu próprio desenvolvimento
levar-nos-ia a responder que as escrituras judaicas tinham que ser mantidas
para que se tornasse compreensível o sentido da morte e da ressurreição de
Jesus. Esta não é, entretanto, uma resposta muito boa, se tivermos em mente que
no segundo século, e mesmo nos séculos subseqüentes, era perfeitamente possível
compreender o sentido da morte e da ressurreição de Jesus nos marcos do
arcabouço gnóstico trazido a Roma por teólogos como Valentim. Portanto, a
profecia hebraica não era necessariamente imprescindível para a validação do
argumento de que Jesus morreu e ressuscitou por alguma boa razão teológica.11
Por que, então, a insistência em manter o laço com o judaísmo?
2
Até meados do segundo século, o cristianismo não havia ainda conseguido forjar
sua unidade. Faltava-lhe uma voz unânime, ou algo próximo disso, pois as
igrejas ditas cristãs se achavam bastante espalhadas, funcionando cada qual a
seu modo, com seus respectivos bispos desfrutando de grande autonomia. Nessa
época, um grande número de novos líderes começou a afluir para Roma. Era o
início de um processo que se estenderia por mais de cem anos (Webb, 1998).
Marcião e Valentim foram dois dos primeiros líderes a chegar. Ambos imaginavam
que a unidade cristã só poderia ser obtida se o cristianismo pudesse ser visto
como uma novidade, isto é, como uma nova maneira de pensar a respeito de Deus,
dos seres humanos e do mundo. Este clamor por novidade foi sedutor por algum
tempo, mas, a partir de certo momento,
[...] ficou claro que a própria idéia [gnóstica] dos cristãos serem
uma "raça" nova, filhos de um Deus completamente novo e tornado
conhecido em tempos recentes por meio de um mensageiro vindo de um
outro mundo, desafiava frontalmente toda sensibilidade cultural e
toda convicção filosófica no mundo greco-romano (Mack, 1996, p. 161).
Para resumir uma longa história, Marcião e Valentim estavam apresentando o
cristianismo como uma novidade, e havia ficado claro que "novidade não era um
sinal de sabedoria no mundo greco-romano. O que as pessoas queriam era uma
sabedoria enraizada em tempos antigos e digna da história ilustre de seu
próprio povo e cultura" (Idem, p. 261).12 O homiliasta J. Webb expôs esse mesmo
ponto de vista de uma maneira que vale a pena reproduzir:
[...] tanto para a mente romana como para a grega uma religião "nova"
não era algo que merecesse muito crédito. Para ser respeitada e
amplamente aceita, uma religião tinha que ser antiga, tinha que ter
raízes no passado, de preferência em um passado remoto. Em certo
sentido, isto se tornou a pedra de toque do impulso cristão para
"criar" um passado para si próprio, não só na acepção histórica do
termo [...], mas, sobretudo, na acepção teológica, isto é, um passado
cuja origem remontasse à própria mente de Deus (1998, p. 3).
Essas considerações levantam uma questão absolutamente crucial: como foi
possível aos cristãos criar tal passado teológico para si próprios de forma a
permitir que o cristianismo finalmente pudesse alcançar sua unidade e encontrar
seu lugar no Império? Devo dizer prontamente que isso nada tem a ver com o
trabalho missionário de Paulo. Afinal, mesmo tendo Paulo pregado por toda a
Grécia, quase um século após sua morte ainda continuava difícil para um grego
compreender sua pregação: o que poderia ser, por exemplo, um deus martirizado,
ou uma ressurreição corpórea, ou uma nova ordem mundial advinda desta
ressurreição? (Mack, 1996, pp. 262ss.). Esta "conversa" cristã certamente soava
tola se comparada com a sabedoria produzida pelas escolas clássicas de
filosofia grega. Havia, então, uma difícil missão a ser cumprida: mostrar aos
gregos que tudo o que os cristãos diziam fazia sentido até mesmo nos termos dos
próprios gregos. É aqui que Justino, o mártir, o apologista patrístico
mencionado na sessão introdutória deste artigo, que, a exemplo de Marcião e
Valentim, deixou sua terra natal (a Samária) para se dirigir a Roma, entra em
cena e, por assim dizer, a "rouba". É melhor deixar que o historiador Burton
Mack diga qual foi o extraordinário feito teológico de Justino:
Olhem para nós [os cristãos] e nosso elevado padrão moral, Justino
disse, e vejam vossas próprias orgias e festivais de bebedeira.
Alguma coisa deve estar errada com vossos deuses e deusas. Olhem para
eles: orgulhosos, invejosos, licenciosos e traiçoeiros. Certamente
não foi com eles que vossos filósofos aprenderam sobre a virtude.
Sabem de onde vem a sabedoria de vossos filósofos? Ela vem de Moisés.
Foi lendo Moisés que eles descobriram a sabedoria (sophia) e a razão
(logos) de Deus, a qual criou o mundo e continua a mantê-lo. E um
deles, Sócrates, estava mesmo disposto a morrer pela verdade. Ora,
que grego já se dispôs a morrer por Sócrates? Agora vejam o caso de
Jesus. Ele não apenas conhecia o pensamento (logos) de Deus como os
filósofos o conhecem, mas o conhecia como filho de Deus, ou sua auto-
expressão (logos) pessoal. E revelou a sabedoria e o pensamento de
seu Pai pela maneira como viveu, como a própria encarnação da
mensagem (logos) do Pai para nós. Em decorrência, vejam quantos
cristãos estão dispostos a morrer por ele. Esta é então a sabedoria
adequada tanto para um filósofo como para um teólogo (Idem, p. 263,
grifos do autor).
Os filósofos gregos obtiveram acesso à sabedoria e à razão divina por
intermédio de Moisés! Mas, e quanto a Moisés? Como ele próprio obteve sua
sabedoria? Teria sido por intermédio de Deus, cuja voz escutava em certas
circunstâncias, como os judeus estavam acostumados a pensar? Não, responde
Justino. Moisés adquiriu sua sabedoria ouvindo, não a Deus diretamente, mas ao
"primeiro logos criado por Deus",13 isto é, o filho de Deus. Quando, por
exemplo, lemos Êxodo 3:2-10, imaginamos que a voz que Moisés escuta ' vindo da
"sarça ardente", dizendo: "Eu sou o Deus de seus pais, o Deus de Abraão, o Deus
de Isaac e o Deus de Jacó" (Ex; 3:6); "Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que
está no Egito" (Ex; 3:7) etc. ' é a do próprio Deus. Mas Justino não pensa
assim. "Quando Deus fala, ai de nós!, não é mais Deus quem fala", teria dito
Justino se pudesse ter lido Schiller.14 Como não pôde, recorreu a Isaias 1:3
("mas Israel é incapaz de conhecer, meu povo não é capaz de me entender") para
provar que a voz que se dirigia a Moisés não podia ser a de Deus mas, sim, a de
Jesus.
Estamos, portanto, diante de um épico no qual um Jesus etéreo fala a um Moisés
de carne e osso, cuja pregação é a fonte da sabedoria da filosofia clássica
grega! Este foi o grande feito teológico e filosófico de Justino (Mack, 1996,
pp. 259-273). O cristianismo precisava de um passado teológico. Justino lançou
as bases para que tal passado pudesse ser criado ao fazer de Moisés um
personagem da história do cristianismo; ao converter o passado judaico em um
passado cristão, isto é, ao encontrar uma maneira de ler a história de Israel
como a história do Deus cristão; como uma história que contava como o épico
cristão e não como o épico de Israel, o qual apontava em direção ao
estabelecimento de uma teocracia judaica em Jerusalém (Idem, p 268). No coração
de todo esse empreendimento estava uma única palavra: logos,
[...] a noção grega que escorregou, quase que incidentalmente, para o
Evangelho de João, bem no início do segundo século. O logos de João
revelava a "mente de Deus", assim argumentava o evangelho; ademais,
palavras similares a logos ' "a mente de Deus" ' estavam espalhadas
por todas as escrituras hebraicas, a começar dos longínquos mitos da
criação, presentes no Gênesis. Justino desenvolveu o argumento de que
Jesus estava presente o tempo todo. As escrituras hebraicas versavam
sobre Jesus, afinal. Assim, tudo o que se fazia necessário era
encontrar as referências a Jesus ' por mais escondidas ou veladas que
estivessem ' e segui-las até o final. As profecias hebraicas, e havia
muitas, não eram, então, o que aparentavam; o que elas
verdadeiramente faziam era anunciar a chegada de Jesus. A "palavra"
de Deus que já se ouvia desde Abraão, Isaac e Jacó era, na verdade, a
voz de Jesus. Nessa perspectiva, Marcião, com sua obstinada rejeição
das escrituras hebraicas, constituía um obstáculo para o
desenvolvimento do cristianismo. Não se tratava de rejeitar o
judaísmo, mas de rever a história judaica de tal forma que ela
culminasse em Jesus, e não no estabelecimento de um estado judeu
sediado em Jerusalém. Isto significava rearranjar as escrituras
hebraicas de forma tal que o último livro fosse o de Malaquias, em
vez das Crônicas. Significava também criar uma teologia que
sustentasse que o Deus e Pai de Cristo era o mesmo "Deus" que havia
tentado, em vão, conduzir o povo judeu por séculos (Webb, 1998, p.
3).15
Sugiro que essa teologia, constituída a partir do empenho dos teólogos do
segundo século, notadamente de Justino, em transformar o passado judaico em um
passado cristão mediante o argumento de que o povo judeu foi incapaz de
realizar, ou mesmo de perceber, aquilo que seus próprios profetas haviam
anunciado, e hoje conhecida pejorativamente, até mesmo pelos próprios cristãos,
como "teologia da superação", é o empreendimento intelectual que, desde os
escritos seminais de Max Weber, se encontra na base de toda discussão
sociológica a respeito do processo de racionalização ocidental. Afinal, se tal
empreendimento não tivesse sido bem-sucedido, não teria sido possível atribuir
às missões de Paulo, ocorridas quase três séculos antes, a importância
teológica e histórica que retrospectivamente se lhes atribuiu e,
conseqüentemente, não teria também sido possível atribuir a essas missões o
papel tão crucial (na evolução da ética ocidental) que Weber, Parsons e,
recentemente, Schluchter lhes atribuíram. Assim, sem o alicerce propiciado por
essa teologia, que sentido poderia fazer a tese weberiana de que a profecia
hebraica trazia em germe certas concepções inovadoras (como, por exemplo, o
próprio monoteísmo), cujas potencialidades éticas o povo judeu, em razão de sua
condição de pária, não foi capaz de desenvolver e, portanto, foi necessário que
o judaísmo farisaico viesse a ser substituído, ou superado, pelo cristianismo
Paulino, para que tais potencialidades pudessem, de fato, ser desenvolvidas?
Ou, ainda, como compreender a grande admiração de Weber por Paulo e seu
trabalho missionário? ' admiração que, diga-se de passagem, torna-se
particularmente nítida se atentarmos para o fato de Weber ter identificado, no
episódio de Antioquia (Gálatas, 2:11), onde Paulo, em contraste com Pedro,
sentou-se à mesa com os gentios, um dos três momentos chaves da história da
cultura ocidental (Weber, 1993, pp. 322-323).16
Da mesma forma, pode-se perguntar se sem o lastro proporcionado por essa
teologia, a sociologia de matriz weberiana poderia ter formulado a tese de que
o advento do cristianismo significou uma "revolução de valores últimos",17 ou
sugerido que as missões Paulinas purgaram a Torá "de todos os aspectos da ética
imposta por ela que ritualmente caracterizam a posição especial dos judeus como
um povo pária" (Weber, 1952, p. 4) ou, ainda, postulado a existência de uma
"ética cristã do dia-a-dia" (Idem, ibidem), moldada a partir do universalismo
Paulino, que teria substituído, ou superado, uma ética farisaica dual, baseada
em tabus, peculiar à existência pária dos judeus, exemplificada pelo
comportamento de Pedro no episódio de Antioquia. Seria viável tudo isso à
margem da teologia cristã da superação?
3
Minha resposta é, evidentemente, não. Para justificá-la, vou iniciar
relembrando a tese de Weber, exposta no Ancient Judaism, de que graças ao
trabalho missionário de Paulo foi possível surgir uma "ética cristã do dia-a-
dia" ao final do primeiro século, em substituição à então prevalecente ética
farisaica. Weber não diz (no Ancient Judaism) em que exatamente consistia essa
ética que acabara de surgir, mas é muito claro a respeito do tipo de ética que
havia sido superada: tratava-se da tradicional "ética da retribuição",18
característica das "classes não-privilegiadas", e que, no caso específico dos
fariseus, pressupunha um homem "fraco, como uma criança e, portanto,
inconstante em sua vontade e sujeito a pecados, isto é, à desobediência ao
criador paterno" (Weber, 1952, p. 400). Em resumo, o que havia sido superado
era uma ética religiosa que demandava, sobretudo, "uma obediência de criança ao
monarca do mundo" (Idem, ibidem). Em um contexto inteiramente diferente, Weber
faz referência a um padrão de conduta que "não consiste em uma sistematização
vinda de dentro, irradiando a partir de um centro que o próprio indivíduo
logrou estabelecer" (Idem, 1965 [1922], p. 190). Seu alvo, ao fazer tal
afirmação, não foi os fariseus, mas sua linha de raciocínio autoriza-nos a
afirmar que ele lhes atribuiria, também, tal padrão heterônomo, infantil de
conduta. Além disso, Weber mostra-se bastante agradecido a Paulo por ter este
último oferecido aos seres humanos uma oportunidade (que só viria a ser
verdadeiramente aproveitada um milênio e meio mais tarde, pelos protestantes
calvinistas) de se comportar autonomamente, como se espera de um adulto.
Mas, devemos mesmo ser tão agradecidos a Paulo? Alguns sociólogos têm se
apoiado nos ombros de Weber para dar a entender que sim. Schluchter, por
exemplo, em seu já citado livro Rationalism, religion and domination, sugere
que a passagem de Paulo significou uma "reviravolta dos valores tradicionais" '
por "tradicionais", é importante esclarecer, Schluchter quis dizer, exatamente,
farisaicos. Nos marcos do "arcabouço tradicional", Schluchter argumenta, "havia
a lei' controlando o espírito'; agora é o espírito' que controla a lei'."
Essa transição, de acordo com ele, "levou à flexibilidade na aplicação das
normas" (Schluchter, 1989, p. 206). Há de se indagar, entretanto, se alguma
"reviravolta" ocorreu mesmo em razão da passagem de Paulo e, em caso
afirmativo, se consistiu, como afirmou Schluchter, em uma "reavaliação da
relação entre espírito' e lei' de forma a proporcionar novos meios de
conceber a natureza da lei' e o alcance de sua validade sem, entretanto,
anulá-la" (Idem, pp. 206-207). Curiosamente, há teólogos cristãos (e judeus
também, naturalmente) que não só negariam que tal "reavaliação" tenha ocorrido
(porque, na verdade, nada havia para ser "reavaliado") como, também, não
parecem ter por Paulo, o suposto arquiteto dessa suposta "reavaliação", tão
elevado apreço. Deixemos que um deles, o teólogo protestante Lloyd Gaston, fale
por si:
A abolição da Lei por Paulo é o que mais tem aborrecido não só os
intérpretes judeus, mas a quem quer que tenha algum conhecimento
sobre o conceito de Torá nos escritos judaicos. Não é tanto a
invectiva de Paulo o que incomoda, mas sua ignorância. Para quem
compreende o judaísmo rabínico, os ataques de Paulo são não apenas
injustos, mas totalmente fora de propósito. Os rabinos nunca falam da
Torá como um meio de salvação, e quando falam em salvação, se é que o
fazem, o modo da Torá, "que é a vossa vida" (Dt: 32:47), é esta
salvação. O zelo ético dos rabinos torna-se ainda mais fervoroso em
razão de acreditarem que os mandamentos expressam a vontade de Deus
para o bem de Israel, mas eles jamais podem, por isto, ser tachados
de legalistas. Fé e obras jamais podem ser vistos como opostos, pois
cada um se tornaria sem sentido sem o outro. A lei não é sentida como
um fardo (quando o é, é modificada), e a frase característica é "o
júbilo dos mandamentos". Longe de ser um estímulo ao pecado, ou a
maldição da condenação, a lei é o meio misericordioso de Deus ajudar
as pessoas a superar seus "impulsos malignos". Não há qualquer
indicação de que Paulo fosse ciente de que muitas das leis dizem
respeito aos meios de arrependimento, os quais pressupõem o pecado
humano, mas, em contrapartida, proclamam o perdão divino. É
extremamente significativo que o conceito de arrependimento, tão
central tanto para a teologia rabínica como para a doutrina de Jesus,
nunca ocorra em Paulo. Como G. F. Moore observou: "o fato de um judeu
com os antecedentes de Paulo ignorar, e por implicação negar, a
grande doutrina profética do judaísmo, a saber, que Deus, a partir do
amor, livremente perdoa o pecador sinceramente penitente e o restaura
para sua proteção, parece, de um ponto de vista judaico, inexplicável
(Gaston, 1987, pp. 18-19).
Devo deter-me na expressão "o modo da Torá" porque ela aponta para algo que a
linha de raciocínio de Weber nos impediria de entreter, a saber, a existência,
entre os fariseus, daquilo que Weber, ele próprio, chamou de "um padrão de
conduta que seja uma sistematização vinda de dentro, irradiando a partir de um
centro que o próprio indivíduo logrou estabelecer". Fiel à sua abordagem
"desenvolvimentalista", Weber concebia vários estágios no desenvolvimento da
ética religiosa. Em um estágio primitivo, ela é freqüentemente composta "por um
conjunto de prescrições e proibições heterogêneas, derivadas dos mais
diferentes motivos e ocasiões. Nesse conjunto, há pouca diferenciação entre
exigências importantes e sem importância; qualquer infração da ética constitui
pecado" (Weber, 1965 [1922], p. 44). A afirmação de Weber, à qual já fiz
alusão, de que "no Antigo Testamento a idéia de salvação', prenhe de
conseqüências, ainda tem o significado racional elementar de liberação dos
males concretos" (Idem, ibidem), conjugada com sua insistência em enfatizar o
caráter "tabuístico" do judaísmo farisaico, autoriza-nos a inferir que Weber
incluiria a ética religiosa farisaica nesse estágio primitivo.
Mas ética religiosa é algo que evolui. Isso ocorre quando após algum tempo
passa a haver um melhor entendimento a respeito de o que constitui um pecado ou
o que conta como uma exigência ética importante. Nesse caso, uma transformação
radical pode acontecer: o desejo racional de assegurar prazeres pessoais para
si próprio realizando ações que agradem a Deus pode ser substituído por uma
concepção do pecado como o poder unificado do antidivino em cujas garras o
homem pode cair. Na medida em que tal substituição ocorre, a "bondade" começa a
ser vista como uma capacidade integral para uma atitude de santidade, como
também para um comportamento consistente derivado de tal atitude. Este é o
estágio mais racionalizado que uma ética religiosa pode alcançar, especialmente
se durante a transição se desenvolve "uma esperança por salvação concebida como
um anseio irracional por ser bom sem ganhar nada com isto, a não ser a própria
consciência gratificante de sê-lo" (Idem, ibidem).
A expressão "o modo da Torá", na citação acima, refere-se exatamente a esta
"atitude de santidade" que acabo de mencionar, em conjunto com o "comportamento
consistente" dela derivado. Em outras palavras, refere-se exatamente a algo que
Weber supôs inconcebível entre os fariseus: uma ética altamente racionalizada,
caracterizada por "um anseio irracional" por seguir os mandamentos meramente
por segui-los. Que tenha surgido, contra as expectativas de Weber, tal forma
racionalizada, sublimada, de piedade entre os fariseus, é algo que pode ser
entendido se nos detivermos em uma breve asserção dele próprio em Ancient
Judaism, a saber, que uma "esperança messiânica [...] foi por toda parte
mantida pelos fariseus" (Idem, 1952, p. 390). Isto é verdade, naturalmente, mas
deve-se perguntar que tipo de esperança messiânica era esta. Pretendo mostrar
que uma vez entendida a natureza da esperança messiânica farisaica ficará
imediatamente claro o quanto Weber se equivocou ao supor impossível uma ética
racionalizada entre os fariseus e o quanto Schluchter errou o alvo ao propor,
ancorando-se em Weber, que o advento dos primeiros movimentos cristãos
significou uma "reviravolta dos valores tradicionais".
Retomemos, então, à questão-chave: qual a natureza da esperança messiânica
mantida pelos fariseus? Weber responderia que se trata da "esperança racional
elementar de liberação de males concretos", característica de toda
"religiosidade de retribuição". Receio, entretanto, que esta não seja uma boa
resposta. Para explicar isso, devo recorrer aos escritos de um estudioso ímpar
do judaísmo farisaico, o teólogo Jacob Neusner:
Os autores do Levítico e do Deuteronômio, dos livros históricos de
Josué a Reis, e a literatura profética concordavam que quando Israel
fazia a vontade de Deus, era recompensado com paz, segurança e
prosperidade; quando desobedecia, era punido pelas mãos de reinos
poderosos que surgiam como instrumentos da ira divina. Esse modo de
conceber o significado da vida israelita levantou a questão: por
quanto tempo? Quando os grandes eventos da história conheceriam seu
clímax e conclusão? A esperança pelo Messias ' o ungido de Deus, que
redimiria o povo e o colocaria no caminho para sempre, acabando,
dessa forma, com as vicissitudes da história ' surgiu como uma
resposta para essa pergunta (1991, p. 10).
Esta passagem poderia muito bem ter sido escrita pelo próprio Weber. Afinal, o
que mais ela oferece senão uma bela ilustração daquilo que Weber chamou de
"religiosidade de retribuição", caracterizada por uma "obediência de criança" a
um monarca celestial todo-poderoso que um dia apontará (ungirá) aquele que
livrará seu povo dos "males concretos" que sempre o afligiram? E, de fato, se
não fosse pela expressão "uma resposta", a qual sugere que pode ter havido pelo
menos mais uma (como de fato houve, conforme veremos), não haveria diferença
entre a perspectiva de Weber e a de Neusner sobre a religiosidade farisaica.
Acontece, entretanto, que o anseio por um redentor, tal como descrito na
citação acima, já não é mais uma característica do judaísmo farisaico desde o
final do primeiro século.19 Devo passar a palavra a Neusner novamente:
Quando chegamos ao primeiro século da era comum, assistimos a uma
mudança radical da natureza da esperança messiânica farisaica. Quem
quer que seja familiarizado com os evangelhos não se surpreenderia em
saber da grande e viva expectativa, prevalecente entre alguns grupos,
da chegada do Messias. As pessoas que fixam sua atenção em eventos de
seu próprio tempo, cujos desdobramentos são catastróficos, esperam,
naturalmente, por um futuro melhor. Tal expectativa constitui, então,
um contexto para o mito messiânico. Mais surpreendente, entretanto,
foi o desenvolvimento, entre o povo de Israel, de uma segunda
resposta à história, de natureza radicalmente distinta. Trata-se da
resposta daqueles preparados de uma vez por todas para transcender os
eventos históricos e se despedir das guerras e rumores de guerra, da
política e da vida pública. Essas pessoas, após 70 d.C. [ano da
destruição, pelos romanos, do segundo templo de Jerusalém],
empenharam-se em construir uma nova realidade, para além da história,
que enfocava o significado dos afazeres comezinhos da vida cotidiana.
A sabedoria compilada na Mishnah não mostra covardia, nem passividade
diante de eventos catastróficos, mas o início de um novo modo de ser.
Os sábios resolveram exercer uma liberdade não controlada pela
história [...]. Eles empreenderam uma busca pela eternidade no aqui e
agora; lutaram para estabelecer uma sociedade capaz de se manter em
meio à mudança e à tensão. Na verdade, esta era uma nova
interpretação do significado da história. As nações do mundo supunham
que "faziam" a história e que suas ações importavam. Mas esses sábios
sabiam que Deus faz a história, e que é a realidade formada em
resposta à vontade de Deus que conta como história [...]. Esta
novaconcepção de tempo e de mudança constituiu o início de uma
tradição sacerdotal que mais tarde teve continuidade no judaísmo
chamado rabínico ou talmúdico (Neusner, 1991, pp. 10-11, grifos
meus).
O contraste entre este longo excerto e aquele igualmente longo de Weber,
reproduzido na sessão introdutória deste artigo, não poderia ser maior. Ambos
referem-se ao judaísmo farisaico do primeiro século.20 Entretanto, enquanto
Weber vê um judaísmo "tardio", ou mesmo esgotado, engessado em centenas de
prescrições rituais e tabus, e em boa hora sendo substituído por uma forma mais
"flexível" (como o diria Schluchter) e "emancipatória" de religiosidade,
representada pelo cristianismo Paulino, Neusner, cuja linha de raciocínio não
se desenvolveu sob o guarda-chuva da teologia cristã da substituição, vê um
judaísmo que está apenas começando. Nesse novo judaísmo, renascido das cinzas
do Segundo Templo, um certo tipo de esperança messiânica, ou um certo modo de
experimentar e interpretar os grandes eventos, que pode ser chamado histórico,
foi substituído por outro, que pode ser chamado meta-histórico. O modo
histórico enfatiza a importância intrínseca dos eventos e se interessa por seu
peso e significado. Nesse sentido, ele reivindica conhecer "o segredo da
história, a época da salvação e o modo pelo qual podemos nos redimir" (Idem, p.
11). O modo meta-histórico, em contraste, ignora os grandes eventos e realça,
em contrapartida, a "construção de um modo de ser eterno, imutável neste mundo,
capaz de pairar acima das vicissitudes da história" (Idem, p. 12).
Nos marcos desta imagem do judaísmo farisaico como um modo meta-histórico de
abordar a vida, no qual a atenção do fiel é dirigida para o "significado último
contido nos menores e mais modestos afazeres" (Idem, p. 11), nada haveria de
surpreendente em ouvir, por exemplo, do historiador fariseu Flávio Josefo (37-
100 d.C.), que
[...] muitos povos, e desde muito tempo, mostram um grande interesse
por nossas práticas piedosas. Não há uma só cidade grega e nem um
povo bárbaro para onde não se tenham estendidos nossos costumes do
repouso semanal e onde não se guardem os jejuns, as lamparinas acesas
e muitas regras a respeito da comida (Contra Apião 2:282).21
Da mesma forma, não ficaríamos surpresos de ouvir que "durante toda a
antiguidade, os pagãos, os judeus e vários cristãos continuavam a se misturar
nas sinagogas; a se encontrar em eventos culturais e cívico-esportivos; a se
encontrar em cerimônias oficiais e nos banhos [...]. Esta conexão cultural
perdurou mesmo após a conversão de Constantino" (Fredriksen e Lieu, 2004, pp.
88-89).
Tudo isso está claramente em desacordo com a tese weberiana, realçada por
Schluchter, de que a "judiaria da diáspora" constituía uma "comunidade
especial, fechada para o mundo exterior através de barreiras rituais" e "com
baixa capacidade de difusão" (Schluchter, 1989, p. 199). Em resumo, a tese
weberiana, muito pouco discutida na literatura sociológica, de que os judeus
constituem um povo pária, escravizado por um legalismo que foi abolido pelo
trabalho missionário de Paulo, não faz justiça às relações de fato existentes
entre judeus, pagãos e cristãos nos primeiros séculos da era comum. Em relação
a tudo isso, vale a pena mencionar que o próprio Schluchter contestou, ainda
que de forma bastante tímida, a tese weberiana do povo-pária, ao afirmar,
valendo-se de um livro publicado em 1937 (Causse, 1937), que se trata de "uma
projeção retrospectiva da fase do desenvolvimento medieval sobre a antiguidade"
(Schluchter, 1989, p. 178).22
Mas, contestar este caráter de povo pária que Weber atribui aos judeus é
vislumbrar no arcabouço religioso judaico alguma possibilidade de inclusão de
não judeus. Seria, entretanto, concebível tal inclusão? Em outras palavras:
teria o arcabouço religioso judaico um alcance universal?
4
Dentre os livros da Bíblia hebraica que mereceram de Weber uma atenção
especial, há um diretamente endereçado a essa questão. Refiro-me ao livro
conhecido por Deutero-Isaias (Isaias 40-55). Weber tinha por este livro o mais
elevado apreço, por supor que seu autor, diferentemente de todos os outros
profetas bíblicos, não estava preocupado meramente com o futuro de Israel; "o
problema" desse autor anônimo, Weber enfatizou, era "a teodicéia do sofrimento
de Israel na perspectiva universal de um governo mundial sábio e divino"
(Weber, 1952, p. 375). Assim, Deutero-Isaias é, para Weber, um livro único
porque traz consigo uma "teodicéia do sofrimento", de acordo com a qual Deus
possui um plano sagrado para todo o mundo, e não somente para o benefício de
Israel.
De acordo com Weber, o autor anônimo de Deutero-Isaias via na experiência
devastadora do exílio babilônico nada mais que um meio (na verdade, o mais
importante) para a realização do plano sagrado de Deus. Em outras palavras,
Deus tinha um plano para toda a humanidade cuja realização só seria possível se
Israel fosse "purificado". Sendo este o caso, o destino ignominioso de Israel
era apenas um meio de purificação: "Yahweh não purifica seus fiéis como se
refina a prata'", afirma Weber, parafraseando Isaias 48:10, "mas o torna seu
povo escolhido' na fornalha da aflição'" (Idem, p. 371). Assim, enquanto a
pregação profética hebraica pré-exílio supunha que o sofrimento fosse meramente
uma punição pelo pecado, ou uma advertência para fazer penitência, em Deutero-
Isaias esse padrão foi amplamente superado por uma valorização do sofrimento
per se como um meio de obter salvação. Na medida em que Deutero-Isaias
"glorifica o sofrimento imerecido" como um meio de cumprir uma missão
soteriológica, este "livro extraordinário", como Weber a ele se referiu,
encerra a "ética específica da humildade e da não-resistência revivida no
Sermão da Montanha" (Idem, p. 376).
Se é verdade que Deutero-Isaias encerra uma "ética específica da humildade e da
não-resistência", cabe perguntar de que tipo de "humildade" e de "não-
resistência" está se falando. Será da "humildade" e da "não-resistência"
revivida no Sermão da Montanha, como Weber o asseverou? Receio que não. A
humildade e a não-resistência apregoada no Sermão da Montanha encerra uma
esperança messiânica totalmente desconectada de preocupações nacionais e
políticas. Em decorrência, o reino da terra é separado do reino divino, algo
inaceitável para toda a literatura profética, que sempre "coloca sua esperança
na dinastia de Davi e na restauração de um reino justo e bem-sucedido"
(Shmueli, 1968, p. 221). Portanto, ao sugerir que o Sermão da Montanha "revive"
a prédica do autor anônimo de Deutero-Isaias, Weber está ignorando o fato de
que a "humildade" e a "não-resistência" apregoadas em Deutero-Isaias estão
relacionadas com a elevação do reino terrestre, e não com sua negação. É
conveniente recorrer, para explicar melhor essa questão, a um estudioso do
assunto, o já mencionado scholar Efraim Shmueli:
Weber afirmava repetidamente que a doutrina profética atingia,
sobretudo, um estrato "plebeu", da mesma forma que uma ética do dia-
a-dia era essencialmente "plebéia" por causa de sua afinidade com
esse estrato [...]. A justificação do sofrimento tinha um apelo
particular ao estrato plebeu, ao pobre e humilde, que acreditavam ser
piedosos e justos. A moralidade profética não poderia ser aceita por
um nobre militante, um rico proprietário de terra ou em uma corte
principesca. Entretanto, isto é uma visão equivocada, influenciada
pela idéia defendida por Nietzsche, em A genealogia da moral, de que
a moralidade defendida pelas doutrinas proféticas tem um caráter
plebeu, ou constitui a fonte de uma religiosidade cultivada por
grupos de status que têm uma existência pária. Os estratos mais
baixos ' argumentaram Nietzsche e Weber ', particularmente os pobres
e os expropriados, quando não reconhecem a astúcia e a fraude como
armas legítimas em sua luta pela sobrevivência, tornam-se piedosos e
celebram a humildade e a subjugação como virtudes morais em si
mesmas. Nietzsche rejeitou esta "moralidade de escravos" como uma
forma disfarçada de ressentimento. Entretanto, a moralidade profética
era revolucionária e heróica. Ela protestava contra a subjugação
social e econômica, como também contra toda ausência de poder que
colocava alguns homens nas mãos de outros. O sofrimento que resultava
da opressão social não era celebrado. O livro Deutero-Isaias aclamava
o sofrimento como um serviço prestado à causa divina para acelerar a
salvação. Convictos de que representavam a causa de Deus, os profetas
foram capazes de enfrentar os poderosos. Em períodos posteriores,
quando a luta aberta se revelou impossível, a paciência heróica
tornou-se a característica do povo judeu (Idem, pp. 221-222).
Se a ética da "humildade" e da "não resistência" apregoada em Deutero-Isaias
foi de alguma forma "revivida" em uma época posterior, como Weber o sugeriu,
seria muito mais apropriado dizer que ela foi revivida na forma da "heróica
paciência" mencionada acima, do que na forma de uma "glorificação do sofrimento
imerecido" tal como expressa no Sermão da Montanha. Afinal, "paciência heróica"
é claramente algo que diz respeito ao modo meta-histórico de abordar a vida ' o
qual enfatiza o significado último dos afazeres comezinhos da vida cotidiana ',
característico, conforme vimos, do judaísmo após a queda do segundo templo,
enquanto a "glorificação do sofrimento imerecido" é algo que diz respeito ao
modo histórico, ou messiânico, de abordar a vida ' o qual enfatiza a
importância dos grandes eventos. Mas Weber não enxergou essa diferença. O que
ele viu foi um modo "humilde" e "não-resistente" de ser, sendo, em um primeiro
momento, assumido pelos judeus ' acarretando, para os mesmos, uma "conseqüência
fatal": "a glorificação da situação de povo pária e sua perseverança nessa
situação" (Weber, 1952, p. 375) ' e, posteriormente, "revivido" por Jesus em
seu Sermão da Montanha. E, embora Weber não o tenha dito, sua linha de
raciocínio autoriza-nos a afirmar que, de acordo com ele, é exatamente por
causa de ter sido "revivido" no Sermão da Montanha que o projeto, presente em
Deutero-Isaias, de colocar a teodicéia do sofrimento de Israel na "perspectiva
universal de um governo mundial divino e sábio" pôde ser devidamente executado.
Assim, mais uma vez a sociologia de Weber se mostra embebida na teologia cristã
da superação: se Deutero-Isaias é um livro relevante histórica, teológica ou
mesmo eticamente, é apenas porque concebeu um projeto universalista cuja
execução estava condicionada à posterior superação do judaísmo pelo
cristianismo.
Aparte Deutero-Isaias, há ainda, na perspectiva de Weber, uma maneira de
conferir à Torá um alcance universal, qual seja, purgá-la "de todos aqueles
aspectos da ética imposta por ela que ritualmente caracterizam a posição
especial dos judeus como um povo pária" (Idem, p. 4). Weber, conforme vimos,
supunha que Paulo, por meio de seu trabalho missionário, havido realizado tal
tarefa. Os próprios teólogos, entretanto, não atribuem a Paulo tão
extraordinário feito. Não me refiro a teólogos judeus, mas aos próprios
teólogos cristãos, como Lloyd Gaston, já citado longamente, ou Rosemary
Ruether, bastante conhecida por ter cunhado a feliz expressão "teologia da
superação".
Assim, em seu célebre Faith and fatricide, já mencionado, Ruether observa que
enquanto o cisma entre particularismo e universalismo era um problema maior
para a Igreja, o judaísmo já havia encontrado uma solução. Colado no postulado
fundamental "toda Israel tem uma parte no mundo vindouro" (Mishnah Sanhedrin
10:1) está o corolário referente aos "justos dentre as nações do mundo que têm
uma parte no mundo vindouro" (Talmude Sanhedrin 13:2 ' R. Joshua, fim do
primeiro século). Nessa perspectiva, seria exatamente a perspectiva
universalista de Israel que permite aos não-judeus relacionar-se com Deus à sua
própria maneira, que lhe autoriza ter sua maneira particular de relacionar-se
com Ele através da aliança do Sinai. Mas, para ser considerado um "justo", é
necessário manter alguma forma de relacionamento com o Criador, e não pode
haver tal relacionamento à margem da Torá, como também não pode haver Torá à
margem dos mandamentos (Gaston, 1987, p. 23).
Nessa perspectiva, o alcance universal do judaísmo farisaico estaria em
especificar os mandamentos aos quais todos devessem se submeter. Isto seria
possível? Na verdade, não é difícil entreter uma resposta afirmativa. Conforme
vimos, teólogos cristãos contemporâneos como Lloyd Gaston, e não tão
contemporâneos como George Foot Moore, mostraram-se surpresos pelo fato de
Paulo jamais fazer referência à doutrina judaica do arrependimento. Talvez,
entretanto, esta omissão não seja algo assim tão surpreendente se tivermos em
conta que Paulo se dirigia fundamentalmente a uma audiência culturalmente grega
e, por essa razão, o conteúdo de sua pregação podia ser baseado em uma parte da
Torá que lidava exclusivamente com não-judeus.23 Refiro-me às chamadas leis de
Noé, que seriam mais tarde codificadas por Maimônides. Alguns estudiosos
sustentam que elas formavam o núcleo da doutrina de Paulo tal como revelada em
suas epístolas.24 As leis de Noé são um conjunto muito simples de proibições: à
idolatria, a evocar o nome de Deus em vão, ao roubo, ao assassinato, à má
conduta sexual e à crueldade com os animais, acrescidas de um mandamento
segundo o qual se deveria estabelecer tribunais de justiça que assegurassem
localmente a observação dessas proibições. Muitos dos fariseus contemporâneos
de Paulo já afirmavam que qualquer gentio que pudesse guardar as sete leis de
Noé seria um justo e, portanto, teria seu lugar "no mundo vindouro" (Keener,
2005, p. 538). Nessa perspectiva, a Torá não precisaria ser transferida para os
cristãos ' ou, como apregoava Weber, ser purgada de seus traços
caracteristicamente judaicos ' para que fosse possível lhe atribuir um alcance
universal. Afinal, ao encerrar as leis de Noé, ela propicia uma religiosidade
sem restrições de laços étnicos ou nacionais ao mesmo tempo em que proíbe
qualquer meio institucionalizado de conceder a graça. A razão, aliás, para que
o arcabouço dessas leis fosse tão "magro" (seis proibições muito simples mais a
prescrição do estabelecimento de tribunais locais) é a de que, em seus marcos,
o conceito de autoridade religiosa deixava de pertencer a alguma base
institucionalizada e passava a ser posto nas mãos dos indivíduos. Por esta
razão, ninguém, nem mesmo um rabino, poderia prescrever normas de conduta a, ou
ter qualquer autoridade religiosa sobre, um seguidor das leis de Noé.
5
Nota-se que o argumento aqui desenvolvido envolve uma espinhosa discussão sobre
as relações entre o judaísmo e o cristianismo. Entretanto, penso que a
sociologia da religião, a menos que deliberadamente desista de abordar certos
temas, não pode se furtar a discussões de tal natureza ' por mais espinhosas
que se mostrem. Weber parecia estar ciente da inevitabilidade de discutir no
terreno teológico, como se pode concluir da asserção de Friedrich Graf, após
ter tido acesso à sua correspondência pessoal, de que "nos últimos anos, Weber
repetidamente enfatizou que para ele os interlocutores mais importantes no
debate sobre A ética protestante eram os especialistas' em assuntos
religiosos, os teólogos. Deles somente ele esperava uma crítica frutífera e
instrutiva'" (Graf, 1993, p. 27, grifos meu).
Ao permitir que sua discussão sociológica se deslocasse para o terreno da
teologia, Weber deliberadamente incorreu em certos riscos, mas, se não o
fizesse, ele teria que recuar diante de seu principal tema: o processo de
racionalização ocidental. Se é verdade que um momento crucial desse processo
tenha sido, como se tem sugerido desde Weber, a transição de Saulo, o fariseu,
para Paulo, o cristão, então é inevitável discutir a natureza e a real
importância dessa transição ' algo que não pode ser feito à margem da teologia.
Assim, se contestamos (como procurei fazer aqui) a tese weberiana de que havia
um particularismo legalista farisaico que veio a ser superado pelo
universalismo peculiar ao pensamento Paulino estaremos nos movendo no terreno
da teologia. Se, por outro lado, aceitamos essa tese, estaremos, também, nos
movendo em um terreno teológico, mais precisamente, nos marcos da teologia
cristã da superação. Nesse caso, estaremos permitindo que uma concepção
teológica que vem sendo crescentemente rejeitada mesmo no interior do
pensamento cristão sirva de quadro de referência para a investigação
sociológica. Se parece ser inevitável que nos movamos no terreno da teologia ao
estudarmos o impacto sócio-histórico de diferentes doutrinas e práticas
religiosas, é melhor que o façamos abertamente.
Notas
1 Weber enfatiza que este preceito constitui o fundamento de todo o significado
"especificamente ocidental de personalidade'", posto que "é em um reino trans-
mundano de salvação da transitoriedade que todos os mais elevados interesses da
Ásia estão postos e, com isto, a personalidade' também acha seu valor" (Weber,
1960, p. 339).
2 De acordo com Weber, a transformação dos judeus em um "povo pária" teve
início ainda antes do exílio (586 a.C) e consumou-se com a Restauração judaica,
após o exílio (538 a.C), tal como relatada nos livros de Esdras e Neemias. A
partir de então, iniciou-se um processo de auto-segregação, pois não era mais
concedido aos judeus o direito de se casar com gentios, e os casamentos
"mistos" já existentes foram desfeitos por decreto. Ver, por exemplo, Neemias
13:23.
3 Seria conveniente reproduzir o argumento de Weber a esse respeito: "[...] o
judeu estabeleceu como seu ideal ético [...] o intelectual que dedica a vida ao
estudo dos textos sagrados e dos comentários [...]. Foi exatamente esse traço
intelectualista do genuíno judaísmo tardio, com sua preocupação com a erudição
bíblica, que Jesus criticou. Sua crítica [foi motivada] pela natureza de sua fé
e por sua maneira peculiar de obedecer a lei, ambas apropriadas a um artesão
rural ou a um habitante de cidade pequena, e ambas constituindo a base da
oposição de Jesus aos virtuosos do conhecimento da lei, os quais eram nascidos
e criados no solo da polis de Jerusalém. Os membros desses círculos legalistas
urbanos perguntavam O que pode vir de bom para nós de Nazaré?' ' uma pergunta
típica de qualquer habitante de cidade grande no mundo clássico" (Weber, 1965
[1922], p. 253).
4 A tese de que a transição do Antigo para o Novo Testamento significou uma
transição da "legalidade" para a "moralidade" foi defendida por W. Schluchter
(1981, p. 69; 1989, especialmente pp. 197ss.).
5 Na verdade, Weber admite uma honrosa exceção. De acordo com ele, a pregação
do autor anônimo do livro conhecido como Deutero-Isaias, ao qual oportunamente
retornarei, tem um caráter universalista.
6 A obra de Justino resume-se às Apologias I e II e ao Diálogo com Trifão. O
cerne do que é hoje conhecido como "teologia da superação" está presente no
Diálogo com Trifão, escrito por volta do ano 150.
7 Ao afirmar que, após a missão de Paulo, "o judeu poderia realmente livrar-se
das antigas promessas de seu Deus colocando sua fé no novo salvador, que se
sentiu abandonado na cruz por aquele mesmo Deus" (Weber, 1965 [1922], pp. 259).
Weber está claramente elogiando Paulo por oferecer aos judeus uma oportunidade
para abandonar o judaísmo.
8 Conforme apontou o historiador Burton Mack, após a morte de Jesus, "Sectários
hassídicos, cultos locais de mistério, mágicos itinerantes, místicos exegetas,
filósofos cósmicos e mistagogos gnósticos apelavam todos para o nome de Jesus
para validar a fonte ou a verdade de seus respectivos programas" (1996, p.
199).
9 A expressão "teologia centrista" é uma invenção de Mack. Os textos que
compõem o Novo Testamento foram coletados de acordo com o interesse de uma
forma particular de congregação cristã que se formou aos poucos, entre o
segundo e o quarto séculos. Ao chamar essa forma de cristianismo de
"centrista", Mack quer dizer que "ela se posiciona entre as formas gnósticas de
cristianismo, por um lado, e formas radicais de comunidades Paulinas e
espiritualistas, por outro. Foi o cristianismo centrista que se tornou a
religião do Império sob Constantino, reuniu os textos que hoje conhecemos como
o Novo Testamento e os juntou às escrituras judaicas para formar a Bíblia
cristã" (1996, p. 6).
10 A esse respeito, o historiador da religião John Crossan foi mais longe, a
ponto de sugerir que Paulo foi mais importante, tanto de um ponto de vista
histórico como teológico, no século VI do que no primeiro (ver Crossan, 1999,
p. xxi).
11 Ver a esse respeito J. Crossan (1999, especialmente o capítulo 2).
12 A preocupação em apresentar o cristianismo como uma religião antiga
permaneceu extremamente viva até pelo menos o século IV. Isto fica evidente se
lermos a História eclesiástica, de Eusébio, bispo da Cesaréia. Assim, o livro
1, capítulo 4:1, diz: "Mas para que ninguém suponha que sua [a de Jesus]
doutrina seja nova e estranha, como se tivesse sido elaborada por um homem de
origem recente, e em nada diferente dos demais, passemos a considerar
brevemente essa questão também"; e, o parágrafo 4 deste mesmo capítulo afirma:
"Mas se somos evidentemente novos e se este nome de cristãos, novo na verdade,
é conhecido somente há pouco tempo por todas as nações, nosso modo de vida e
nosso comportamento, com nossas doutrinas religiosas, não foram recentemente
inventados por nós, mas desde a criação primordial do homem, por assim dizer,
foram estabelecidos pelo entendimento natural dos hebreus, os divinamente
favorecidos de outrora" (Eusébio, Church history, versão eletrônica, tradução
livre).
13 Justino, o mártir, Apologia 1:63, apud Mack (1996, p. 270).
14 O verso de Schiller é "Quando a alma fala, ai de nós!, não é mais a alma que
fala" (ver Munz, 1999, p. 20).
15 Talvez o leitor não saiba que na Bíblia hebraica o livro de Malaquias situa-
se no meio, e o livro de Crônicas é o último, por ser o mais tardio. Após a
Bíblia hebraica ter sido transformada no "Antigo Testamento" da Bíblia cristã,
o livro de Malaquias tornou-se o último, em razão do que diz no capítulo 3,
parágrafo 1: "Eis que enviarei o meu mensageiro para que prepare um caminho
diante de mim".
16 Os outros dois momentos são a profecia hebraica, por ter eliminado a magia,
e o milagre de Pentecostes, por ter promovido a fraternização no espírito
cristão.
17 Schluchter expôs esta tese da seguinte maneira: "Jesus iniciou uma revolução
de convicção, de valores últimos, a qual conduziu a uma religiosidade da fé.
Nem a subordinação da lei sagrada' à sagrada convicção', a penetração dos
conteúdos da Torá e da profecia ética [hebraica] pelo mandamento do amor, nem a
expectativa da segunda vinda de Jesus, combinada com uma moralidade rudimentar
do ressentimento, traduz o caráter radical dessa transformação. Esta se
expressa muito mais em uma atitude interna não-racional de confiança ilimitada
em Deus'. Jesus buscava uma fé caracterizada pela convicção supra-intelectual.
Sua mensagem produziu a unificação, a simplificação e a internalização do modo
religioso de vida. Ela também substituiu o virtuoso da lei pelo virtuoso da fé,
produzindo, assim, uma nova forma de aristocracia sagrada" (1989, p. 210). Este
excerto levará o leitor desavisado a concluir que o estabelecimento de uma
ortodoxia cristã foi algo que se estabeleceu de forma muito fácil.
18 "[...] a religião judaica tornou-se notavelmente uma religião de
retribuição. As virtudes demandadas por Deus são praticadas apenas para obter
compensação" (Weber, 1965 [1922], p. 112).
19 A bem da verdade, Weber sabia disso. Em The sociology of religion, ele
menciona, de passagem, "que a espera dos judeus por um governante autoritário,
na pessoa do Messias, foi mantida até, pelo menos, a destruição do Templo por
[Tito]" (p. 228). Weber só não se perguntou que tipo de esperança foi mantida
pelos fariseus após tal destruição.
20 Na verdade, desde a destruição do segundo templo, em 70 d.C., não há outro
judaísmo além do farisaico.
21 Este livro foi recentemente traduzido para o português, ver Josefo (2006).
22 A bem da verdade, a tese do povo pária é de valor duvidoso mesmo em relação
à Idade Média. O scholar Ephraim Shmueli deixou isto claro: "Até o século XIV,
os judeus eram aceitos nas guildas dos comerciantes e dos artesãos [...].
Apenas no período da peste negra, com as revoltas plebéias contra os patrícios,
as guildas de ofício tornaram-se poderosas na Alemanha, excluindo os judeus,
embora não totalmente nem em todo lugar. Em muitas cidades da Alemanha os
judeus eram burgueses e empregavam cristãos. Eles administravam seus próprios
negócios por intermédio de instituições autônomas no âmbito da comunidade
citadina. Esses fatos não são certamente evidência de uma situação de pária"
(Shmueli, 1968, p. 191).
23 De fato, esta é uma interpretação generosa. Um teólogo judeu como Leo Baeck
não se surpreenderia com o fato de Paulo ter ignorado o conceito judaico de
arrependimento por uma razão bastante diferente. Para Baeck, não haveria lugar
para o arrependimento no pensamento de Paulo porque a doutrina deste último
postulava um "homem completo" (finished man). Ela supunha que quando um homem
"recebe" Cristo ele se completa, nada mais havendo para aprender ou do que se
arrepender (ver Baeck, 1958, especialmente o capítulo intitulado "Romantic
religion").
24 Devo esta informação a um texto de autoria anônima, intitulado Christian
Talmud, disponível no site http://www.geocities.com/athens/parthenon/2787/
ixcnine.html. Embora a autoria seja anônima, o Autor oferece a fonte, a obra do
rabino alemão Jacob Emden (1697-1776), e a informação em questão é consistente
com as informações obtidas na Encyclopaedia judaica, verbete: "Jewish Christian
Sects".