Les Maîtres Fous, de Jean Rouch: questões epistemológicas da relação entre
cinema documental e produção de conhecimento
A motivação que me levou a investigar o problema central deste texto foi tentar
lançar luz em um visível paradoxo que envolve um dos filmes ícones do
pensamento e do cinema documental da década de 1950, o filme Les maîtres fous,
de Jean Rouch. O paradoxo ao qual me refiro vem do fato de a recepção deste
filme ter mostrado duas possibilidades de leitura radicalmente diferentes. A
primeira, que se materializa em ampla bibliografia ligada à antropologia
visual, ressalta no filme seu caráter etnográfico, ao mostrarum ritual
realizado por determinada população oriunda das matas da África, o termo é do
próprio Rouch, ritual este que é fruto do choque com a civilização mecânica nas
cidades. A outra, radicalmente diversa, aponta para a recepção que este filme
teve nos cinemas de Paris e de outras partes do mundo, entre os quais se
destacam também cineastas e intelectuais universitários africanos negros, para
os quais o filme mostrava uma visão negativa da África Negra e de suas
populações, ao mostrá-los como pessoas bárbaras e selvagens, primitivas em seus
ritos e não civilizadas em suas maneiras.1
Essas duas leituras opostas levantam, para o analista, o problema de investigar
os fundamentos, dentro da constituição do filme, que tornaram possíveis
interpretações tão diversas a partir de um mesmo conjunto e de uma mesma
articulação de imagens, o que extrapola em muito o que se poderia esperar de
meras flutuações de constituição de sentido a partir de referências a valores
diferenciais. Aqui parece se constituir uma ruptura radical entre um olhar
informado, que busca no filme algo específico, e um olhar, com outros valores
culturais, que vê no mesmo filme algo muito diferente.
Devemos, inicialmente, abandonar a saída fácil que permitiria desqualificar a
segunda leitura como fruto de qualquer incompreensão em relação ao relativismo
cultural ou à falta de conhecimento em relação às teorias antropológicas e
visuais. Este paradoxo de leituras ressalta, de maneira incontestável, aquilo
que Bazin apontava como sendo um dos atributos fundamentais de um cinema que
ele dizia realizado por cineastas que acreditam na realidade: o caráter de
ambigüidade das imagens (Bazin, 1985).
Segundo Bazin, entre os anos de 1920 e 1940 duas grandes tendências opostas
travaram um grande debate em torno das relações entre imagem, cinema e
realidade. De um lado, estariam aqueles que fundavam a obra cinematográfica na
plástica da imagem e nas possibilidades advindas da montagem. Eram, na sua
acepção, os cineastas que acreditavam na imagem, entendendo-se genericamente
por imagem "tudo aquilo que pode ser acrescentado à coisa, a sua representação
na tela" (Idem, p. 64). Seriam, portanto, cineastas que se utilizariam dos
meios internos próprios ao fazer cinematográfico para constituir suas obras e
dotálas de proposições de sentido, tanto na direção de uma grande preocupação
com a elaboração de cenários, iluminação e maquiagem, como também na
sofisticada elaboração da narrativa por meio de estratagemas não naturalistas
de montagem que articulariam de maneira diferencial imagens as mais diversas.
São as mais conhecidas expressões deste tipo de fazer cinema tanto o
Expressionismo alemão, famoso por suas vanguardistas proposições plásticas,
como o cinema soviético, tendo nas obras e nas teorias de Eisenstein o seu nome
mais expressivo, criador da montagem dialética com base nos experimentos de
Kuleshov (cf. Morin, 1956, p. 100), que faz com que a contraposição de planos
proponha um sentido radicalmente diferente daqueles possíveis a partir de cada
plano, quando tomados individualmente.
Na direção oposta, estariam aqueles que Bazin denominou cineastas que acreditam
na realidade. Estes cineastas, ao contrário dos anteriores, fundariam as
proposições de sentido de suas obras em uma recuperação visual da continuidade
espaço-temporal que as pessoas experimentam em suas vidas cotidianas. Nessa
acepção, "a montagem não adquiriria [ ] praticamente nenhum papel, a não ser
aquele, puramente negativo, de eliminação inevitável em uma realidade
demasiadamente abundante" (Bazin, 1985, p. 66). Assim, ao contrário de planos
rápidos articulados em contraste, observamos planos mais longos, articulados
segundo a percepção de continuidade no espaço e no tempo, fazendo com que a
montagem se torne praticamente invisível. Bazin associa a essa perspectiva
ainda um outro artifício, agora técnico, que é a utilização de lentes com
grande profundidade de campo, o que permite tomadas mais abertas e mais amplas,
que dariam ao espectador a sensação de ver na tela imagens com o mesmo ângulo
de visão com que enxerga o mundo no qual vive:
[ ] a profundidade de campo coloca o espectador em uma relação com a
imagem mais próxima daquela que ele mantém com a realidade. Seria
justo afirmar, portanto, que independentemente do conteúdo mesmo da
imagem, sua estrutura é mais realista (Idem, p. 75).
Nesse sentido, continuidade espaço-temporal, o que Bazin chamou de plano-
seqüência, e profundidade de campo seriam as características centrais de um
cinema que ele denominou, nos anos de 1940, de neo-realismo, mas que já vinha
se expressando de maneira aprimorada desde a década de 1920, nas obras de
Flaherty, Murnau e Stroheim. Nessa direção, Bazin critica as teorias da
montagem por achar que elas se "opõem, essencialmente e pela sua própria
natureza, à expressão da ambigüidade" (Idem, p. 76).
Isso ressalta, por sua vez, aquilo que Francastel (1983) chamou de caráter
alusivodas imagens, que teriam como seu referencial primeiro de apreensão e
elaboração de sentido os valores da cultura e não sua semelhança a ou
distanciamento de um pretenso "real" pré-existente e, por isso mesmo, dotado de
organicidade e funcionalidade próprias e dadas.
O fenômeno da imagem, do pensamento em imagem, do espírito que pensa
por meio de imagens, é um problema que deve ser considerado como de
outra natureza que a simples enumeração, a simples análise da imagem
que é um meio, que é a análise técnica e não aquela de um fenômeno
intelectual ou de um fenômeno cuja base se liga ao mecanismo da
percepção. Temos aqui uma noção verdadeiramente importante e que é
absolutamente fundamental. [ ] Ela [a imagem] existe em si, ela
existe essencialmente no espírito, ela é uma referência na cultura e
não uma referência na realidade (Idem, p. 193).
Com isso, esses autores questionam uma pretensa visão positivista do real que,
por ser dado, bastaria às imagens apenas mostrá-lo sem distorções para
possibilitar ao espectador lê-lo sem enganos. Nessa acepção, sendo o real já um
constructo, o filme também o seria de maneira ainda mais acentuada, por
efetivar um recorte sobre o mundo que poderia ou não ser exacerbado e colocado
em xeque pela constituição do próprio filme. Um recorte que então colocaria
também em xeque uma das leituras possíveis, a leitura que tomasse o filme como
mera expressão de atributos pertencentes ontologicamente a um real já dado, ao
pensamento e aos olhos. Nesse sentido, e a partir desses questionamentos
iniciais, o que proponho no desenrolar deste texto é uma tentativa de descobrir
quais são os elementos presentes na constituição do próprio filme, na
construção de seu recorte de mundo e de sua narrativa, que levaram uma parcela
bastante considerável do público a vê-lo como um filme que mostrava os negros
de uma forma muito pouco abonadora. Para tanto, busco elementos teóricos que
permitam perceber não só os elementos fundantes dessa segunda perspectiva, mas
também aqueles que, paradoxalmente, parecem impedir a compreensão dos
partidários de uma interpretação pela interpretação do outro e vice-versa.
A lembrança do que afirmou Foucault em "O que é um autor" (1994) me parece
fundamental. Segundo ele, a idéia de autor, unidade autônoma e aparentemente
auto-suficiente, é fruto de um longo processo de individuação na história das
idéias, tendo se tornado, a partir do Renascimento, a unidade primeira de
constituição de sentido, unidade primeira de qualquer referência de identidade.
Mesmo hoje, quando se faz a história de um conceito, de um gênero
literário, ou de um tipo de filosofia, creio que não se deixa de
considerar tais unidades como escansões relativamente fracas,
secundárias e sobrepostas em relação à unidade primeira, sólida e
fundamental, que é aquela de autor e de obra (Idem, p. 792).
Diferentemente de um nome próprio, que expressaria uma descrição, o conceito de
autor implica uma designação, uma dotação de sentido externa e fundante do que
depois se pode conceber como Obra. Obraesta, com O maiúsculo, que pressupõe uma
estrutura de ligação entre seus momentos individualizados (cada um de seus
componentes ' textos, livros, filmes etc.), portanto relações internas de
ligação entre tais elementos que se expressam por meio do pressuposto de uma
lógica interna de desdobramentos que permeia seus vários momentos
constitutivos. Nessa acepção, o nome de um autorseria radicalmente diferente de
um nome próprio, de um nome comum. Pensar em um nome como sendo um autor, seria
pensá-lo como executando um papel, como cumprindo uma função em relação ao
discurso, como assegurando uma função classificatória que permitiria reagrupar
textos dentro de um campo de coerência conceitual e teórica, permitindo
inferências na direção de constituição de homologias, filiações, autenticações
e referências mútuas, de um texto em relação a outros e vice-versa. Assim,
pensar a figura de autor não mais como nome próprio, mas como função, seria
pensá-lo enquanto fundante de uma unidade estilística especial e não apenas
como expressão de uma individualidade única pessoal. Nome de um autor,
portanto, caracterizaria certo tipo de discurso, caracterizaria um texto que
deve ser lido de certo jeito, que deve ser compreendido de certa maneira, que
deve ser recebido com certo status.
Chegaremos finalmente à idéia que um nome de autor não passa, como um
nome próprio, do interior de um discurso ao indivíduo real e exterior
que o produziu, mais que ele vai, de certa forma, ao limite dos
textos, que ele os recorta, que ele segue suas arestas, que ele
manifesta seu modo de ser ou, pelo menos, caracteriza-o. Ele
manifesta a ocorrência de uma certa unidade de discurso, e refere-se
ao statusdeste discurso no interior de uma sociedade e no interior de
uma cultura (Idem, p. 798).
Autor e obra adquiririam, portanto, um princípio funcional, de delimitação, de
exclusão e de seleção que afastaria possíveis proliferações de sentido. Pensar,
portanto, autor e obra, como unidades indissociáveis, significa colocar para a
análise um constrangimento analítico fundamental, pois estes impõem para a
análise das obras particulares uma lógica discursiva advinda de fora, advinda
de seu pertencimento a uma unidade discursiva maior e, em conseqüência, mais
definidora e delimitadora dos sentidos possíveis, que seriam a Obrade um Autor.
Nesta direção, a referência inicial e anterior a um autor e sua obra se
colocariam mais como um constrangimento interpretativo fundamental do que, como
muitos querem e professam, ser um elemento iluminador que buscaria reencontrar
ali elementos estruturantes e explicativos que a tomam enquanto exterioridade.
O autor é o princípio de economia na proliferação de sentido. [ ] O
autor não é uma fonte infinita de significações que viria preencher a
obra, o autor não precede as obras. Ele é certo princípio funcional
por meio do qual, em nossa cultura, delimita-se, exclui-se,
seleciona-se. [ ] Se temos o costume de apresentar o autor como
gênio, como aparecimento perpétuo de novidade, é porque na realidade
o fazemos funcionar de um modo exatamente inverso. Diríamos que o
autor é uma produção ideológica, na medida em que temos uma
representação invertida de sua função histórica real. O autor é,
portanto, a figura ideológica pela qual se conjura a proliferação do
sentido (Idem, p. 811).
Por fim, vale lembrar que, nessa direção, como apontam Adorno em sua polêmica
com Lukács, bem como Sorlin e Francastel, nossa unidade analítica fundamental é
a obra fílmica em si, tomada como unidade de proposição de sentidos, passível
de uma leitura a contrapelo, que dela tire os elementos fundantes de sua
proposição de interpretação.
As análises que aqui se propõem consideram os filmes ' um a um ou por
grupos em sua globalidade ' como práticas significantes; elas
estudarão neles seus mecanismos, mas colocarse-ão a tarefa de jamais
isolar seu funcionamento da configuração ideológica ou do meio social
nos quais se inserem. [...] É certo que a recepção do filme pelos
espectadores passa por ajustamentos automáticos: o público fica tanto
mais satisfeito quanto menos problemas ele tem em situar o que vê em
referências que lhe são familiares. Mas nosso trabalho consiste
precisamente em recusar o que é exterior ao filme e reter apenas as
indicações presentes na tela (Sorlin, 1977, pp. 58,174).
Nessa acepção, para podermos deslindar a diversidade radical das leituras a
respeito do filme de Jean Rouch, no sentido de entender como é que leituras tão
profundamente díspares se produziram, é necessário que olhemos Les maîtres
fouscomo uma unidade de discurso e não como um filme de Jean Rouch. É preciso
afastar todos os constrangimentos que a rica obra posterior de Rouch, bem como
sua carreira institucional, impõem ao analista. Temos que buscar por dentro de
seu filme, para melhor compreendê-lo, os sistemas relacionais que o constituem,
nos termos de Sorlin (Idem, pp. 237-243), os conceitos que organizam a sua
narrativa, o posicionamento de seus personagens, as hierarquias dos grupos
sociais ali reconstituídos para o espectador. Assim, para se tentar compreender
os vários Jean Rouchs,2 é preciso se esquecer de Jean Rouch,3 como Autor e como
Obra.
Esta introdução teórica visa explicitar para o leitor as opções analíticas
adotadas aqui que, ao lado de outras possíveis, têm o intuito de compreender a
tessitura de discurso expressa no filme, seus conceitos fundantes, seus
personagens construídos e a hierarquia valorativa que eles expressam. Nessa
direção, não estou preocupado com outras análises também possíveis que
buscariam, por exemplo, introduzir o filme de Rouch na história do cinema ou da
técnica, abundantes em sua fortuna crítica, mas que não ajudam a compreender, e
às vezes até velam, os problemas aqui levantados.
Analisemos, então, o filme mais detidamente.
No tocante à constituição de sua narrativa, Les maîtres fousem nada se afasta
do que se convencionou chamar de narrativa clássica:
As famosas regras de continuidade funcionam justamente para
estabelecer uma combinação de planos de modo que resulte uma
seqüência fluente de imagens, tendente a dissolver a "descontinuidade
visual elementar" numa continuidade espaço-temporal reconstruída. [ ]
A opção aqui é, primeiro estabelecer entre os fenômenos mostrados nos
dois planos justapostos uma relação que reproduz a "lógica dos fatos"
natural e, no nível da percepção, buscar a neutralização da
descontinuidade elementar (Xavier, 1984, pp. 23-24).
O que seria ainda chamado, nos termos de Nichols, de cinema expositivo (cf.
Nichols, 1992, pp. 34-38). "O texto expositivo se dirige ao espectador
diretamente, com intertítulos ou vozes que avançam um argumento sobre o mundo
histórico" (Idem, p. 34). Suas características fundamentais são, por um lado, a
articulação das imagens, das cenas e das seqüências segundo uma continuidade
retórica e, por outro, que essa continuidade retórica está fundamentalmente
articulada por um narrador oculto, que se convencionou chamar, exatamente por
suas características de onisciência e onipresença, de vozde-Deus (Idem, p. 37).
Essa forma de narração, no cinema mudo, apresentava-se por meio do uso de
intertítulos, ou cartelas explicativas. Rouch e seus produtores, neste filme,
utilizam-se de ambos.
Les maîtres fouscomeça com uma grande explicação que posiciona de maneira
decidida o espectador diante das imagens que depois vão se desenrolar aos seus
olhos.4 Cito:
O produtor, ao apresentar ao público estes documentos,
SEM_CONCESSÃO_NEM_DISSIMULAÇÃO,
adverte para a violência e a crueldade de certas cenas. Mas quer
fazer o público participar de um ritual que é uma solução particular
para o problema da readaptação e que mostra indiretamente como alguns
africanos representam nossa_civilização_ocidental.
Tiramos, desta introdução, três formulações explícitas.
Primeiro: que estamos diante de um documento, sem concessões nem dissimulações
' lembrando que essa constatação é ressaltada na tela por quatro grifos: texto
grafado em caixa alta, centralizado, em itálico e ainda sublinhado. Difícil não
acreditar, a partir de tal proposição, que o que veremos será a Verdade
objetivade um fato social, nos termos de Durkheim.
Segundo: que estamos diante de um ritual que cumpre uma função de readaptação,
o que reforça a matriz construtiva funcional-positivista do filme.
Terceiro: que a clivagem conceitual que desde este momento nos é proposta tem
como referência essencial o que os produtores chamaram de nossa civilização
ocidental. Esta proposição leva desde logo, para a interpretação do filme, a
pensar o que a ela será contraposto, quem se constituirá filmicamente como o
"outro" dessa "nossa civilização ocidental", que características terá, que
hierarquias expressará.
É evidente que sempre se poderá colocar em questão este intertítulo, alegando-
se o fato de que ele foi escrito, em princípio, pelos "produtores". Partindo do
pressuposto de que tal alegação é possível, então é necessário ao intérprete se
perguntar se o filme como história e narrativa vai desmentir os conceitos ali
levantados ou se, ao contrário, terminará por confirmá-los.
Na primeira cena, sobre a qual correm alguns letreiros, afirma-se que o filme
foi realizado no curso de uma Missiondo CNRS e do Instituto Francês da África
Negra. Esse letreiro cumpre a função de proporcionar uma segunda legitimação
para o que vamos ver. Se antes foi dito que veríamos um documento irretocado,
agora se agrega a essa proposição uma outra, de que além de ser documento, o
que veremos é, além disso, fruto de um trabalho científico de pesquisa. Para
uma língua latina, o termo Mission[Missão] induz a pensar ainda um outro
significado paralelo, tendo em vista as implicações cristãs que comporta, o
significado religioso de catequização que desdobra. No caso brasileiro, implica
ainda uma remissão direta aos padres jesuítas que aqui vieram para catequizar
os gentios, os povos indígenas, e transformá-los em gente ao trazer a eles a
civilização por meio de Deus.
No início da narração propriamente dita, uma segunda legitimação científica vai
se agregar à primeira, neste caso apenas para os especialistas, que
reconhecerão ali instituído como narrador o próprio Jean Rouch, testemunha
ocular dentro dos padrões legados pelo trabalho científico.
A segunda cena apresenta um outro letreiro, com mais uma explicação:
Vindos da mata para as cidades da África Negra, jovens deparam-se com
a civilização mecânica. Assim nascem os conflitos e as religiões
novas. Assim se formou, por volta de 1927, a seita dos Hauka. Este
filme mostra um episódio da vida dos Hauka, da cidade de Accra. Ele
foi realizado a pedido dos "sacerdotes",5 Mountyeba e Moukayla,
orgulhosos de sua arte. Nenhuma cena é proibida ou secreta, mas
aberta a todos aqueles que quiserem jogar o jogo. E este jogo
violento é o reflexo de nossa_civilização.
Como toda narrativa que se pode denominar clássica, esta começa fornecendo
elementos que posicionam o espectador.6 Nesse caso, os conceitos de referência
da narrativa apresentados de imediato são os conceitos de civilização (a nossa)
e o conceito de civilização mecânica (também a deles). Lembrando Starobinski, o
conceito de civilização foi cunhado a partir de sua delimitação com seus pares
obrigatórios opostos, os conceitos de bárbaro, de selvagem e de primitivo (cf.
Starobinski, 2001, p. 16).
O problema que se coloca para a interpretação é de se ver como o filme constrói
esse outro. Se vai construí-lo como Outro, como algo misterioso, diverso e
culturalmente complexo, ou, ao contrário, como "outro", como algo menor, mais
próximo da infância da "civilização", mais próximo das crianças e dos animais.
O filme é construído por meio de três grandes seqüências narrativas, que passam
sucessivamente pela harmonia (ordem), pela anomia (que remete ao ritual de
readaptação) e pelo reencontro da harmonia e da ordem, no final.
Caracteriza a cidade de Accra como uma grande Babilônia Negra, formada por
limpadores de sarjeta, mineiros, contrabandistas, cortadores de grama,
saneadores, pastores, vendedores de garrafas, de latas e de madeiras. A cidade
é mostrada como sendo tomada por um ambiente alegre, cheia de cortejos e
repleta de bares onde se dança o calypso. A civilização mecânica é conceituada
pelo tráfego que não pára, pelo barulho ininterrupto, e o conflito adaptativo
por ela gerado se materializa no aparecimento destes novos deuses, os Hauka,
deuses da cidade, da técnica e da força.
O ritual é constituído em um lugar distante da cidade, para onde se vai de
caminhão alugado, através de estradas sem muito uso, tomadas que estão pelo
capim que brota de suas margens.7
Embora filmado de maneira quase naturalista, o ritual não é montado a partir
dos mesmos pressupostos, o que exigiria longos planos-seqüência. Pelo
contrário, articulam-se imagens que tremem, em choques de planos rápidos,
buscandose com isso recuperar para o espectador o ritmo da possessão pela qual
passam seus protagonistas. As cenas são totalmente narradas por meio de uma
voz-de-Deus especial, encarnada na voz do próprio Jean Rouch, o que termina por
legitimar aquele discurso como um todo ao impor aos espectadores uma verdade
narrativa e científica, fundada em uma continuidade retórica, o que, nos termos
de Nichols, sugere como leitura fundamental para o espectador a de um
conhecimento dado e, ao mesmo tempo, transpessoal.
Elementos da história ritualística que se desdobra passam, então, a ser
relatados. Sabemos que o "governador do ritual fala francês; que Mme Lokotoro
foi a mulher de um médico francês, um dos primeiros colonizadores do Niger no
século XIX; sabemos, ainda, como são o chapéu e a roupa colonial, assim como
que a quebra do ovo na cabeça da estátua simboliza as penas do chapéu do
governador (neste caso, um britânico). Se o ritual é descrito com sutileza de
detalhes, de explicações sobre o sentido do que estamos vendo, não deixa de
saltar aos olhos o silêncio absoluto em relação à inserção desses franceses na
história. Qualquer relação com o passado colonial francês em solo africano é
subsumido ao presente da dominação britânica, que simbolizaria de maneira
eficaz a assim chamada "civilização mecânica". É curioso perceber que tal
seleção deixa de lado ' como algo desimportante tanto para a articulação
interna do ritual, como para a articulação externa do contexto da colonização '
qualquer remissão, por menor que seja, aos possíveis significados da presença
francesa no ritual, e, por conseqüência, na África. Interessante, também, pelo
fato de o narrador fazer questão de detalhar todos os passos ritualísticos, bem
como suas relações com a sociedade que os circunda, materializada nas cenas
contrapostas que mostram a chegada do governador britânico, seu chapéu, sua
guarda uniformizada. O desarmônico na "civilização" parece se materializar
apenas no legado colonial inglês, o que também não deixa de ser extremamente
significativo.
A estrutura na qual o ritual é reconstituído pelo narrador, que fecha os
sentidos possíveis das imagens que vemos, tem como referência explícita os
padrões cristãos europeus. Frases proferidas pelo narrador ' como, por exemplo,
"os culpados devem se acusar"; "a infidelidade sexual causa a impotência"; "eu
sou sujo", "eu jamais me lavo", "eu não me perfumo" ' parecem deixar claros os
conceitos de referência que estruturaram tal recorte e reconstituição de mundo.
Afinal, teria a relação entre sujeira e ausência de perfume o mesmo significado
para um africano e para um francês, que é seu maior produtor cultural? Da mesma
forma, tudo caminha para a punição, outro vínculo claro com nossa tradição
civilizatória européia e cristã. Assim, apesar do que vimos ser a nós
apresentado como um ritual, sem dissimulações nem concessões, fica evidente o
quanto essa voz-de-Deus é seletiva, mostrando, a partir disso, os fundamentos
do recorte que propicia. Voz-de-Deus que tanto explica, que tanto quer dar
sentidos, mas que, ao mesmo tempo, omite qualquer referência ao sentido e ao
lugar da colonização francesa na África, que, diga-se de passagem, não foi nada
amena. Voz-de-Deus que também não comenta a intromissão mundana na estrutura do
ritual, que acaba de maneira súbita, pois não se quer pagar mais "aluguel dos
carros". Nada se pergunta também sobre o fato de os "sacerdotes" serem as
pessoas mais ricas daquela comunidade, um mercador de sal e o proprietário da
plantação de cacau, dono do local no qual eles realizam o ritual. Por fim, não
se faz referência ao fato de haver uma certa homologia moral entre a
distribuição dos Hauka entre homens e mulheres, além do fato evidente de que o
único homossexual explícito do filme representa uma mulher durante o ritual.
A cena do cachorro que será cozido e comido é apresentada como o apogeu ritual
por mostrar a quebra de uma interdição radical. Trata-se de uma cena delicada,
pelos problemas que apresenta, pelas clivagens que alude, pelas avaliações que
desdobra. É, no meu entender, a cena-chave para se compreender a dupla
possibilidade de leitura que a ambigüidade das imagens propicia e que essa
cena, em particular, ressalta. Se, por um lado, pode ser lida por dentro do
contexto ritual, como uma cena onde a quebra de um interdito radical mostra o
poder dos Hauka e o poder ritual daqueles que participam do interdito em curar
seus males e afastar seus maus espíritos, em outras palavras se readaptarem à
"civilização mecânica", pode, por outro lado, também ser lida no sentido
inverso.
John Berger (1980) mostrou que o século XIX materializou de maneira definitiva
a separação que se engendrava, desde o Renascimento, entre homem e natureza,
entre os homens e os animais. Se estes eram antes portadores de mistérios e de
respostas para os mais diversos problemas do homem, o afastamento gradativo de
seu círculo de referência e sua gradativa domesticação, ou aniquilação,
transformaram aquele que fora outrora um Outro do ser humano em algo a ser
controlado, enjaulado ou domesticado. A criação dos zoológicos no fim do XIX
marca simbolicamente essa separação que fez com que o lugar a partir de então
reservado aos animais fosse as jaulas dos zoológicos, ou, no melhor dos casos,
a doçura e a intimidade caseira do Pet, elevado, por isso, à função de "melhor
amigo do homem".8 Desse ponto de vista, a cena do sacrifício do cachorro no
filme adquire um significado muito mais assustador. Sua construção demonstra
que, para o próprio Jean Rouch, se tratava de uma cena problemática. Em um
longo plano-seqüência, vemos um cachorro no colo de um dos participantes do
ritual, lembrando o modo como aninhamos nossos bichinhos de estimação. O
cachorro, em um movimento suave de cabeça, vira os olhos em direção à câmera.
Um corte seco e abrupto decepa a imagem exatamente no momento em que os olhos
do cachorro iriam encontrar os olhos do espectador. É provável que Rouch, com
este corte abrupto, tenha imaginado eliminar qualquer possibilidade de
cumplicidade entre o espectador e o cachorro, impedindo com isso que aquele,
acostumado com a intimidade do seu "melhor amigo", pudesse sentir no olhar do
cão a súplica de quem está condenado ao sacrifício e ao esquartejamento. Pois
se assim o fosse, a morte do cão que não nos é mostrada, poderia encontrar nos
olhos do espectador o mesmo lugar simbólico que encontram os sacrifícios de
outros animais no filme, como, por exemplo, o da galinha. Entretanto, pela
reação das platéias, pode-se dizer que o corte efetivado por Rouch não foi
suficiente, pois essa cena, ao materializar o sacrifício e a transformação do
bichinho de estimação em algo a ser comido, fez com que grande parcela do
público visse ali não apenas um ato ritual, mas, e sobretudo, um ato primitivo
de barbárie e selvageria. Com isso, viram também os seus protagonistas como
pessoas bárbaras e selvagens, como primitivos que devoram os "pobres
cachorrinhos". Poderia ser pior, se Rouch tivesse agregado a esta cena também a
cena da degola do animal, o que não fez, mostrando apenas o momento posterior
em que os participantes do ritual se jogam sobre o animal já morto para beber
seu sangue ainda quente, que transborda depois se misturando à baba que escorre
de suas bocas.
Assim, por meio desses artifícios, parte letrada do público via ali momentos
ritualísticos, ao passo que outra parcela sentia apenas pena do animal,
estabelecendo um olhar hierarquizado e desqualificador dos participantes do
ritual. Quanto mais urbana a platéia, mais essa distância é ressaltada, pois
não faz mais parte da tradição urbana "acariciar" a comida antes do jantar,
como ainda se pode observar em certas regiões rurais. Esta cena, construída e
mostrada dessa maneira crua, expositiva, naturalista, acaba por causar repulsa
em grande parte da platéia que reage assumindo um posicionamento moral nada
favorável aos participantes desse ritual.
Uma cena extremamente problemática e decisiva como essa, pelos preconceitos que
estimula, pelos julgamentos que detona, poderia ser construída, para não criar
asco no espectador não iniciado nem antropólogo,9 de forma muito mais alusiva,
com inúmeras cautelas e mediações que deslocassem o olhar do espectador para
longe de suas valorações mais imediatas.10
A última parte do filme, sua seqüência final, é elaborada quase na contramão da
crueza da seqüência de cenas do ritual, mantendo-se apenas, como ligação
iminente entre elas, a voz-de-Deus do narrador, voz-de-Deus-cientista.
Trata-se de uma seqüência onde a palavra talvezé bastante reiterada. Imagino
ser possível identificar aí algum significado epistemológico, pois, em outros
contextos, tal termo muitas vezes cumpre apenas a função lingüística de criar
uma mediação do que se conta, eliminando suas características totalizantes.
Este termo já havia aparecido duas vezes em narrações de cenas anteriores. A
primeira, lá no início do filme, quando Rouch afirma que aquela comunidade é
"talvez" a mais interessante das que ali se encontram, em Accra. A segunda,
mais misteriosa, como já disse, quando ele fala que a estrada que leva ao lugar
onde se realizará o ritual é, "talvez", a "primeira estrada macadamizada da
África".
Depois, o termo volta com mais ênfase. "O comandante Moungou, retomando
talvez' um dos diálogos da véspera", não é mais impotente, e sua "bonne amie
est toute contente". É interessante ressaltar que a imagem nada mostra desta
alegria que o narrador aponta no rosto daquela senhora. Nesse contexto, o
advérbio adquire um outro lugar epistemológico, diferente daquele que havíamos
sugerido, pois acentua na voz do narrador, e em suas falas, a imputação de
sentidos que a narração passa a fazer a partir de então, reforçando mais ainda
os pressupostos de um cinema expositivo, no sentido de organizar falas e
imagens segundo uma continuidade retórica fundamental. Desloca, ainda, a
estruturação da proposição de sentidos que o filme sugere das imagens para as
falas. Na cena que se segue, isso fica ainda mais patente:
Mme. Lokotoro, a mulher do doutor, reencontramos em Punjabi. Ele
trabalha em um armazém, é um rapaz "talvez" um pouco efeminado, que
usa muita brilhantina no cabelo, mas é um excelente trabalhador.
Neste trecho, vemos, de maneira mais acentuada, a narração da voz-de-Deus
assumir uma característica que Nichols imputa inerente a este tipo de cinema
expositivo, e que até então era secundária na narração de Les maîtres fous.Diz
Nichols que este tipo de narração, que se utiliza da onisciência e da
onipresença para parecer falar de lugar nenhum e, portanto, de todos os
lugares, carrega suas mensagens aparentemente neutras e descritivas com um
forte conteúdo moralizador, que retira sua força exatamente dessa pretensa
universalidade espacial, e especial. Uma narração que, às vezes, disfarça em
sua pretensa "neutralidade" uma grande dose de julgamento moral. Pois, afinal,
o que é que tem a ver com o ritual que acabamos de ver o fato de ser este
trabalhador "talvez" um pouco efeminado, mas, além disso, "ser um ótimo
trabalhador", como se alguém efeminado simplesmente não o pudesse ser?
Uma derradeira proposição, ligada a essa mesma perspectiva, aparece nas cenas
finais do filme. A seqüência mostra, em frente ao hospital psiquiátrico de
Accra, um grupo de trabalhadores que realiza escavações para a instalação de
adutoras e esgotos. O narrador conta que ali estamos encontrando o que ontem,
no ritual, era o seu estado-maior: o governador, o condutor da locomotiva, o
condutor do caminhão, todos empregados da Water-Works. Ademais, afirma que os
punidos rasparam as cabeças e não são mais impuros. Para iniciar, então, sua
fala final:
E ao ver estes rostos sorridentes, ao saber que estes homens são
"talvez" os melhores operários da Water-Works, ao comparar estes
rostos com os horríveis rostos da véspera, não podemos deixar de nos
perguntar, se estes homens da África não conhecerão certos remédios
que os impedem de ser anormais, tornando-os perfeitamente integrados
ao seu meio. Remédios que nós não conhecemos ainda [Grifo e aspas
meus].
A esta narração são contrapostas as imagens dos sorridentes trabalhadores,
intercaladas com algumas das imagens da véspera, de momentos de possessão, em
que vemos rostos desfigurados tomados pela baba sanguinolenta que escorre das
bocas ao lado de mordidas na cabeça do cachorro cozido.
É evidente a valoração positiva que a narração final tenta dar ao filme, e ao
ritual, como um todo. Isso deixa claro que Jean Rouch interpreta de maneira
positiva aquele ritual, associando a ele a poderosa função de integrar
populações vindas das matas às agruras da vida socializada das cidades. Ao
mesmo tempo, o tipo de sua narração, a utilização continuada da voz-de-Deus,
aqui somada ainda à sua característica de voz-de-cientista, de voz-de-
pesquisador, incorpora uma das características fundamentais desse tipo de
narrativa, das quais a voz-de-Deus não consegue escapar mesmo que deseje, a
saber, "descrever outras culturas dentro de nossa estrutura de moralidade
segura" (Nichols, 1991, p. 35). Sua fala final, pelo seu tom moralizante, mesmo
que positivo, realçando que aqueles "talvez" sejam os melhores trabalhadores,
que o rapaz apesar de um pouco efeminado é também um bom trabalhador, acaba por
inserir este relato expositivo num contexto de referência onde impera uma
moralidade evidente. Isso cria o efeito perverso, nos termos de Weber, de poder
ser este discurso facilmente invertido por todos aqueles que não compartilham
da mesma moral, desses mesmos valores, criando um lugar onde a mensagem do
filme possa ser construída na direção oposta àquela realizada pelos que fixaram
o seu sentido a partir do desvelamento de um ritual.
Isso poderia ser conseguido por meio de um questionamento radical de
determinadas proposições moralizantes classificatórias que o filme explicita
sem colocar em questão, como no caso do rapaz efeminado, associado a um
questionamento visual que impedisse qualquer espectador de ver no rapaz bebendo
o sangue do cachorro apenas barbárie e selvageria. Estas opções evidentemente
não se apresentam para um tipo de narrativa quase clássica como a que organiza
o filme, nem na utilização de uma voz-de-Deus como lugar central de articulação
da continuidade retórica do filme. Outras opções narrativas poderiam ter
diminuído esse amplo espectro de proposições de sentido. Com isso Jean Rouch
talvez pudesse ter evitado a péssima recepção que seu filme teve nos mais
variados fóruns em que foi exibido, por conta da imagem negativa da África e
dos africanos que supostamente expressava, exatamente ao contrário do que Rouch
afirmava ter realizado, segundo suas entrevistas. A começar por Paris, onde
Marcel Griaule (cf. Rouch, 1996, p. 83), após assisti-lo pela primeira vez,
solicitou a Rouch que queimasse os negativos do filme, prevendo o imenso
problema que ele estava por criar. Além disso, foi também mal recebido por
cineastas e intelectuais africanos11 que ali viam mais uma forma de se reforçar
os preconceitos já existentes contra os povos africanos e suas possibilidades e
capacidade de emancipação e independência na luta anticolonização.12
A meu ver, é evidente que Rouch, no decorrer de sua carreira, levou em
consideração essas críticas, bastante ácidas. Em suas propostas posteriores, ao
identificar as formas problemáticas utilizadas em Les maîtres fouse das quais
nunca mais faria uso, ele experimentou novas possibilidades narrativas. Assim,
diferentemente daqueles que acham que Rouch com este filme inventou o cine-
transe, trazendo novidades para o campo da antropologia e, em especial, da
antropologia visual, minha posição é de que Les maîtres fouscausou na obra de
Rouch uma inflexão tão significativa que, a partir de sua negação, ele acabou
por criar, nos filmes posteriores, uma forma narrativa que se transformou em um
paradigma do cinema documental como um todo, e não mais apenas do cinema
antropológico em particular: o chamado cinéma-verité, ou cinema verdade.
Pode-se vislumbrar esse novo caminho já no filme seguinte, Pyramide humaine, no
qual Rouch retorna ao cenário africano para discutir, de maneira decidida, o
racismo em um contexto de interação inter-racial. Mas aqui, escaldado pelas
críticas recebidas no passado, Rouch muda radicalmente sua estratégia fílmica e
narrativa. A narração em vozde-Deus, intrinsecamente moralizante, é, em virtude
disso, abandonada. O olhar de fora, a câmara expositiva, que parece olhar o
mundo como se dele fizesse parte, escondendo sua capacidade construtiva, também
é abandonada. Em direção oposta, a construção da história do filme passa a ser
tematizada desde o primeiro momento, quando Rouch propõe aos estudantes que
atuem, à maneira de uma peça de teatro, como se fossem alunos de uma mesma
classe começando o semestre, mas dividida por um racismo evidente, marcado até
mesmo pela distribuição espacial ' cada grupo étnico ocuparia metade da sala de
aula. A partir das interações que acontecem com o passar do tempo, por causa da
câmera e diante das câmeras, a situação vai se alterando, os conflitos vão se
explicitando e as tomadas de posição vão ficando claras. É curioso perceber
que, em certos momentos do filme, o espectador fica realmente em dúvida se
aquelas relações eram pura encenação ou se, como diria Goffman (1975), as
pessoas passaram a acreditar no papel que executavam a ponto de incorporarem
realmente a vida e os sentimentos de seus personagens.
No rastro desta experiência, Rouch realizará o filme Crônica de um verão, que
mostrou a todos sua capacidade inventiva e sua extrema percepção de que somente
a inovação e o abandono de formas instituídas e comprometidas de narrativa
poderiam fazer com que o cinema adquirisse um outro patamar nas experiências de
interações humanas, capaz de realizar de modo significativo novas proposições
sociais. Assim, num profundo e incessante trabalho de reinvenção de si mesmo,
que superou as aporias legadas pelo seu passado, Rouch terminou por criar uma
forma de fazer cinema que o transformou, desta vez em definitivo, em um nome de
referência do cinema universal.
Notas
1 Um apanhado dessas críticas está reunido no número especial de CinémAction,
81, 1996.
2 Expressos em cada obra particular.
3 Expresso na unidade de sua Obra.
4 No cinema clássico, esta introdução, que ocorre nos primeiros minutos do
filme, tem a função de responder três perguntas fundamentais para a orientação
da narrativa: onde, quando e por que estamos.
5 "Prêtres" no original. Adotei "sacerdotes" na ausência de um termo mais
preciso.
6 Vale ressaltar que o que entendo por clássico não significa a recuperação
direta de formas narrativas "congeladas" no tempo, mas formas narrativas que se
organizam enquanto argumento tendo, como eixo, uma idéia central. Essa idéia
constitui-se enquanto continuidade retórica e subsume todos os outros elementos
constituintes da narrativa. Devemos lembrar que no mundo ocidental, desde o
Renascimento, nossa concepção de ciência foi fundada primordialmente nas formas
escritas de transmissão de conhecimento, que adquiriam ainda mais solidez
quando fundadas em pesquisas empíricas. Mesmo nas ciências sociais, a
transmissão do conhecimento se faz sobretudo por meio da escrita. Nessa
direção, a narração entendida como vozde-Deus funda-se também no pressuposto de
que a "verdade" científica se expressa mediante uma literaridade que assume
forma fílmica por meio de cartelas (intertítulos) ou de uma narração. Assim, se
existem movimentos de câmera pouco usuais no filme de Rouch, que aliás já
faziam parte do cinema de outros seus contemporâneos, como Chris Marker, eles
em nada colocam em questão o eixo argumentativo constituído pela narração. Bill
Nichols ressalta que a narrativa clássica incorporou, em sua modernização,
elementos narrativos que, em princípio, seriam inovadores, como a entrevista,
por exemplo, no documentário mais contemporâneo (cf. Nichols, 1991, pp. 34-38).
A questão central, portanto, seria de verificar se essas novas formas são
cruciais na constituição da narrativa ou se, ao contrário, são comandadas por
outras formas mais convencionais, como a narração voz-de-Deus do filme de
Rouch, ali também voz-de-cientista.
7 A esse respeito, há uma frase absolutamente misteriosa no filme: estrada que
foi, "talvez", a primeira "macadamizada da África", indicando porventura a
importância perdida daquele lugar que ora se presta como sede deste ritual.
8 Para uma discussão mais detalhada das implicações desta passagem, ver Menezes
(2005).
9 Que é, de resto, a quase a totalidade do público do circuito aberto,
comercial ou não.
10 É certo que o próprio Jean Rouch percebeu os problemas que seu filme,
construído desta forma, gerava em relação aos espectadores. "Creio que
problemas de difusão efetivamente se colocam. Uma vez, mostrei o filme na
Filadélfia, em um congresso de antropologia. Uma senhora veio me ver e disse:
Posso receber uma cópia?'. Ao lhe perguntar o porquê, ela respondeu que era
dos estados do Sul e que queria exibir... este filme para mostrar que os
Negros eram selvagens! Recusei. [ ] Em comum acordo com os produtores, a
difusão de Les maîtres fousfoi reservada a cinemas de arte e experimentais, e
também a cineclubes" (Rouch, 1996, p. 106).
11 Sembène Ousmane, por exemplo, questiona até mesmo os filmes mais
"etnográficos" de Rouch, dizendo que o cineasta deveria parar de "olhar os
africanos como insetos" (CinémAction, 81, p. 106).De outro lado, Barnouw afirma
que a cena do cachorro, para os críticos africanos de Rouch, "exemplificava a
predileção colonialista, pela qual o homem branco ancorava suas pressupostas
superioridades" (Barnouw, 1993, p. 253).
12 Até hoje a recepção deste filme é complexa. Todos os anos realizo com meus
alunos um levantamento sobre a imagem dos povos africanos a partir da recepção
do filme. Mesmo alunos de ciências sociais, em princípio um público mais
familiarizado com essas questões, o percentual dos que o consideram um filme
depreciador da África é assustador, algo em torno de 75% e 85% a cada ano. Esta
questão é ainda mais candente neste momento histórico, quando o presidente da
França, Jacques Chirac, solicita a historiadores que mostrem o que de bom a
colonização trouxe para a África e os africanos.