Trabalho e sociabilidade privada: a exclusão do outro um olhar a partir das
células de produção
Introdução
O trabalho assalariado tem sido associado, na modernidade ocidental, à questão
social e à incorporação de massas de trabalhadores à arquitetura regulatória do
Estado, abrindo o caminho para o reconhecimento dos direitos coletivos e
sociais. Esses direitos funcionaram por muito tempo como quadro de referência
para o conjunto da população pobre e passaporte para a obtenção de uma condição
de segurança em termos de modo de vida, na medida em que conjurava
relativamente os acasos e as intermitências associados ao trabalho ocasional
nas cidades, fosse ele qualificado ou não. A disciplina no uso da força de
trabalho na fábrica moderna correspondia a uma certa previsibilidade na
condição de emprego do operário ou operária, o que alimentava também formas
determinadas de ação coletiva, associadas simultaneamente à resistência e a
expectativas utópicas de emancipação.
No momento contemporâneo, a crise de formas consagradas de organização do
trabalho, do emprego, da estruturação interna das empresas, com reflexos em sua
localização espacial e na própria definição de seus limites físicos, tem levado
os estudiosos a identificar uma verdadeira mudança de paradigma no ambiente
industrial, justificando a caracterização da época em curso como sendo pós-
fordista. Sem entrar no debate especializado sobre o significado desse termo, é
suficiente reter de uma tal caracterização o diagnóstico de uma mudança
estrutural que afeta, de maneira coerente e integrada, os vários elementos que
compõem a regulação do trabalho assalariado e, portanto, a própria existência
da classe social, definida em sua concepção clássica.
O aspecto a ser explorado no presente artigo está relacionado à experiência dos
trabalhadores afetados pelas modernidades gerenciais aplicadas por empresas
atingidas pelo processo de reestruturação industrial. Essas mudanças têm
implicações importantes para a sociabilidade do grupo operário. Enquanto a
identificação de classe associada ao que poderíamos designar como "velha
questão social" está carregada de um conteúdo coletivo e com potencial de
universalização, o novo desenho organizacional do trabalho enfatiza a
participação diferenciada da força de trabalho e solicita cada vez mais o
engajamento individualizado desse contingente. Se as literaturas sociológica e
historiográfica recentes sobre classes sociais e o mundo do trabalho, em suas
análises e narrativas, têm acentuado as clivagens geracionais, de gênero e
raça, não deixa de ser também verdadeiro que o próprio processo de trabalho, em
seu formato atual flexível, conspira para a fragmentação e o seccionamento do
coletivo operário, sendo, dessa forma, igualmente uma fonte potente de clivagem
e segmentação. Mais do que simplesmente fragmentar e dividir, a conseqüência
última da aplicação de novos modelos produtivos testados pelas empresas é
também o de excluir, isto é, afastar as linhas de força tendentes à conformação
de uma identidade coletiva de grupo e incitar, ao contrário, aquelas tendentes
a difundir em cada participante um comportamento instrumental e emulativo de
tipo possessivo-aquisitivo.
Além disso, em vez de aparecer como uma imposição autoritária de níveis
hierárquicos da empresa sobre os seus subordinados, os novos modelos procuram
deixar à discrição do próprio grupo as decisões disciplinares (em maior
proporção) e produtivas (em menor proporção), baseados em pressupostos
delegativos e de autonomia do trabalho. A intenção deste artigo é discutir
criticamente tais pressupostos, tendo por âncora uma pesquisa efetuada a partir
de visitas e da observação direta do processo de trabalho de duas empresas do
ramo de confecções na Região Metropolitana de São Paulo, entre 2001 e 2005. O
formato de gestão do trabalho utilizado por ambas as empresas é conhecido por
"células de produção".1
O texto está montado da seguinte maneira: a primeira seção expõe rapidamente o
problema, o que envolve uma digressão sobre os modelos produtivos alternativos
ao taylorismo-fordismo; discute a disjunção entre ruptura e continuidade,
associada àquela periodização, e apresenta a pesquisa, descrevendo o processo
de obtenção dos dados que oferecem o suporte para a discussão feita adiante. Na
segunda seção é feita uma análise do contexto no qual se inserem as células de
produção e o trabalho em grupo. A terceira seção organiza-se segundo os tópicos
mais importantes encontrados nos casos estudados, tendo por fio orientador as
características mais salientes desse modo de organização do trabalho,
evidenciadas pela literatura da área. Uma confrontação entre essas
características e os achados de campo percorre todo o texto. Por fim, em uma
seção conclusiva faz-se o balanço dessa confrontação.
O problema
O debate sobre modelos produtivos ' o taylorismo e o fordismo e suas
alternativas ' opunha idealmente dois conjuntos com características mutuamente
exclusivas: produção rígida versus produção flexível, produção de bens
discretos versus produção em massa, produção em esteira ou linha de montagem
versus produção em módulos simultâneos. No entanto, essa estilização revelou-se
pouco útil. A observação de casos concretos mostrou antes a convivência e a
complementaridade desses princípios dicotômicos, tanto dentro de uma mesma
unidade (onde seções mantinham um perfil "antigo", ao passo que outras
aplicavam mais estritamente os ditames da produção enxuta), como ao longo da
cadeia de clientes e fornecedores, em que empresas se especializam em partes ou
componentes do produto final, marcada ademais por forte heterogeneidade
organizacional, tecnológica e social. A noção de "fluxo" parece ser mais
adequada para captar essa forma de racionalização do processo de trabalho que
dosa elementos de ambos os modelos produtivos, o que demonstra também o seu
potencial em termos de flexibilidade. Retirando boa parte de sua lógica interna
do toyotismo ("modelo japonês"), o fluxo produtivo deve antes de tudo estar
sempre em funcionamento,2 exigindo para a sua manutenção adequada a mobilização
permanente do trabalho a ele associado. O fluxo é tenso porque obedece muito
estritamente aos movimentos do mercado. Por outro lado, a mobilização
permanente do trabalho toma a feição de uma responsabilidade coletiva. A
"polivalência" atesta essa interdependência de intervenções produtivas que
misturam tarefas bem definidas com manutenção de máquinas, zelo pela qualidade
e prontidão diante de possíveis panes e desbalanceamentos. A rigor, o
"trabalho" como um qualificativo bem demarcado pela tarefa (no sentido
taylorista do termo) dilui-se, em certa medida, em favor do trabalho coletivo
de manutenção do fluxo ' pelo menos em sua versão mais bem acabada.
O sistema organizacional, tal como é concebido, conecta ao mesmo tempo
diferentes máquinas e segmentos da produção a diferentes atividades, e com isso
força a uma interação entre os operadores dedicados a cada uma delas
separadamente. No nosso caso, as várias especialidades do corte e da costura
(galoneira, máquina reta, overloque etc.) ' exceto para o caso do corte de
tecidos na fábrica de capas automotivas, que é mantido como uma tarefa
masculina apenas ' cruzam-se nas células, mesmo que a intercambialidade de uns
postos com os outros não seja observada na prática ' ao contrário, a
persistência da qualificação do posto denuncia a continuidade entre paradigmas
produtivos, discutida mais acima. A polivalência (ou multifuncionalidade) entre
operadores é o reconhecimento do caráter interdependente dos trabalhos no novo
formato produtivo, ao mesmo tempo em que aproveita os recursos de dentro, sem
precisar contratar novos contingentes no mercado de trabalho. A forma
organizacional que uma tal polivalência assume é a do trabalho em grupo. As
células de produção são uma modalidade de trabalho em grupo. Cada célula fica
encarregada de um conjunto de máquinas, a qual corresponde, por sua vez, a um
segmento do processo (por exemplo, cuecas "samba-canção", cuecas slip; ou
ainda, no outro caso, bancos traseiros de uma determinada marca de automóvel
etc.). As variações do produto final, no caso do setor de confecções, não
exigem uma diferenciação muito pronunciada entre os segmentos, as mudanças de
produto podendo ser alcançadas no interior de cada segmento, por meio da
mudança do tecido, do corte, da emenda etc., e não das máquinas propriamente.
A estratégia da pesquisa dividiu-se em três fases. Na primeira, foram feitas
visitas a duas fábricas de confecções: uma de cuecas, localizada em um antigo
bairro industrial da cidade,3 outra de capas de assentos de veículos
automotores, localizada em um município limítrofe à zona leste da cidade. As
visitas permitiram conhecer o processo de produção de ambos os produtos, bem
como o desenho das células4. Em seguida, foram aplicados questionários fechados
com perguntas sobre a atividade de trabalho, a avaliação do sistema
organizacional em relação ao sistema anterior (produção "em linha") e
informações gerais sobre o tempo de emprego. As respostas foram importantes
para orientar o repertório de questões a ser explorado na terceira fase, de
entrevistas abertas realizadas no próprio domicílio das costureiras. De fato,
essa última fase foi adequada ao objetivo da investigação e também a mais rica
em termos das evidências coletadas, pois elas permitiram o entendimento das
mudanças organizacionais nas fábricas desde o ponto de vista daqueles que, em
certo sentido, são o objeto das mudanças, isto é, as próprias trabalhadoras.
O ramo de confecções compreende atividades basicamente de corte e costura e é
tradicionalmente um setor feminino. Nas fábricas estudadas, a divisão sexual de
tarefas é nítida: os homens estavam alocados na seção de corte (no caso da
fábrica de capas automotivas), ou então em serviços de apoio ' manutenção
mecânica e elétrica ', sendo que nesse último caso a convivência com mulheres
em uma mesma célula é raramente observada (fábrica de cuecas).
A consideração da inovação organizacional vista "de baixo" desorganizou
determinadas percepções de senso comum sobre o significado das mudanças no
processo de trabalho, vistas como exigências da globalização e da modernização
produtiva. Ela permitiu, por exemplo, situar dentro de um quadro de
inteligibilidade coerente o juízo sobre as células, que é mais crítico do que
supõe um visada superficial, ao mesmo tempo em que não é avesso a esse
determinado sistema de trabalho. Na verdade, as células nãosão um marco
significativo dentro da experiência de trabalho das informantes, embora o seja
para sociólogos e investigadores interessados com as mudanças paradigmáticas do
mundo do trabalho. Esse descompasso, que à primeira vista poderia parecer
decepcionante, foi revelador ao mostrar que muito caminho ainda está por ser
trilhado no rumo de um entendimento mais completo de um fenômeno aparentemente
esgotado, como é o efeito da reestruturação produtiva sobre o trabalho.
Auto-regulação do grupo e o ardil da autonomia do trabalho
Nas formas clássicas do conflito de classes do capitalismo dentro da produção,
quer seja em seu formato concorrencial, quer seja monopolista, a oposição entre
os subordinados e os níveis hierárquicos marcava uma diferença entre um grupo
(operários) e um outro grupo menor (encarregados, supervisores, contramestres
etc.). A luta pelo poder entre esses dois grupos anunciava a promessa de
mudança social. Vejamos como se passam as coisas nos sistemas de produção
baseados nos programas de qualidade.
O sistema de organização celular aparece no discurso das empresas como um
contraponto ao sistema de produção "em linha", isto é, às características do
modelo taylorista-fordista: rigidez dos equipamentos, cadeia de montagem,
classificação funcional dos postos de trabalho, divisão do trabalho entre
concepção e execução. No entanto, o controle do tempo de execução das tarefas
persiste. O formato da organização celular das fábricas pesquisadas baseia-se
no princípio da "linearização da produção" implementado pela indústria
japonesa, e não na experiência dos grupos semi-autônomos suecos, em que o tipo
de racionalização é diferente.5
A fábrica de cuecas segue o modelo da chamada "manufatura em U", onde máquinas
semelhantes estão dispostas seqüencialmente numa ordem que lembra o desenho da
letra "U", permitindo a redução do tempo "em curso" entre as peças e produtos
semi-acabados, até o produto final. Cada conjunto de máquinas em forma de "U" é
considerado uma ilha de produção. Uma célula compõe-se, por sua vez, de várias
ilhas.
Na fábrica de capas automotivas, a disposição das máquinas é diferente. Não
existem ilhas, e as células mais destacadas (duas) ficam uma diante da outra,
sendo que uma esteira no meio recolhe os produtos prontos e os conduzem para um
cesto, o qual segue para o estoque. As variações de produto não exigem mudanças
de máquinas, mas de tipos de corte, dobra, tecido, emenda etc.
As características organizacionais associadas ao modelo da manufatura celular
são bem conhecidas, pois fazem parte do repertório da "produção enxuta" ou do
"toyotismo": preocupação com o desperdício; ausência de estoques ou, então, a
manutenção de um patamar mínimo de estoques; busca incessante de qualidade;
possibilidade de confecção simultânea de mais de um produto, aproveitando a
ociosidade das máquinas; polivalência ou multifuncionalidade dos operadores,
agregando tarefas antes alocadas ao pessoal de apoio; ênfase nas sugestões de
melhorias; reuniões periódicas das células.
Na fábrica de cuecas, uma das razões para o sentimento compartilhado de que
"antes era melhor" ' o sistema de linha com características tayloristas, em vez
do sistema atual, celular ' está na existência do prêmio (bônus) pelo alcance
de metas de produção. O sistema de trabalho em linha era nomeado como
"individual" e o prêmio, quando havia, era contabilizado individualmente. Já o
sistema de células, ao contrário, aparece como coletivo. As costureiras
preferem o primeiro ao segundo.
Na fábrica de capas automotivas não há prêmio. Em ambos os casos, contudo,
existe uma queixa generalizada contra o ritmo intenso de trabalho. Na enquete
levada a efeito entre as operárias das duas fábricas, o ritmo intenso aparece
como um dos principais aspectos negativos da organização do trabalho (59% na
fábrica de confecção de cuecas e 30% na fábrica de confecção de capas
automotivas),6 juntamente com outros aspectos que reforçam a mesma percepção
(22% das trabalhadoras na fábrica de confecção de cuecas queixaram-se de que em
toda a hora há mudanças de produtos; 54% na fábrica de capas automotivas
disseram que a preocupação em errar é maior do que antes).
No prêmio, a vinculação da formação de salários com o trabalho em grupo ' da
mensuração baseada na produtividade individual para a mensuração baseada na
produtividade da célula ' expõe de maneira mais aguda o lado perverso da
organização celular, quando vista da perspectiva dos que a experimentam. Só
então fica claro o juízo compartido entre as costureiras de que o sistema de
trabalho individual, em linha, era melhor. Mas, além da formação de salários, o
foco de resistência pode ser detectado também na moldagem de uma sociabilidade
imposta, com a conseqüente erosão das referências espontâneas de relacionamento
entre as colegas e um maior peso da reflexão sobre a própria condição no grupo,
sobrecarregando o sujeito e, em decorrência, afastando a operária de uma
identidade coletiva, espelhada pela indiferenciação da classe.
Na fábrica de confecção de cuecas e na de capas, a maior parte das costureiras
passou pelos dois sistemas (individual, primeiro; célula, depois):
respectivamente, 66% e 76% das respondentes da enquete. As preferências pelo
sistema individual referem-se a uma maior possibilidade de controlar o próprio
trabalho e, portanto, o próprio rendimento. Quando a regulação se desloca para
o grupo (com a sanção da encarregada ou supervisora), a norma de rendimento
depende de um arranjo interno ao próprio grupo. Uma vez que o prêmio está
indexado à meta fixada pela gerência para toda a célula, as próprias
costureiras devem achar a medida de rendimento para alcançar a meta e, assim,
embolsar o prêmio, que passa a ser uma referência para o rendimento no final do
mês, uma vez que o salário-fixo é muito baixo. Várias "ilhas" competem entre si
porque, para efeito do prêmio, vale a performance mais baixa: se, por hipótese,
a primeira ilha alcançou os 100% da meta e a segunda e a terceira conseguiram
apenas 80%, o prêmio da célula como um todo vai ser de 80% e não de 100%. Isso
implica em cobranças recíprocas, ao passo que no sistema individual o prêmio
era administrado por cada uma, na medida em o hábito do trabalho repetitivo,
paradoxalmente, permitia à trabalhadora ajustar os próprios limites e com isso
"domar" aquelas resistências, conquistando assim um mínimo de previsibilidade
na consecução laborativa da atividade.
Para os organizadores do trabalho, contudo, o sistema é mais transparente
exatamente por assaltar os esconderijos individuais (ergonômicos inclusive) da
produtividade, distribuídos e controlados coletivamente pelo grupo de
trabalhadores, os quais operam mesmo dentro do formato da linha de montagem. Ao
deixar exposto de maneira a mais direta possível a relação entre rendimento e
resultado do trabalho, o sistema rememora a racionalidade tayloriana, em seu
componente individualizante.
Vale lembrar da famosa experiência com o operário Schmidt, um homem bruto e de
"mentalidade limitada", quando foi exposto ao método para fazer o carregador de
lingotes de ferro (Taylor, 1987, pp. 54-59) levar 47 toneladas por dia no
carrinho, em vez de 12 toneladas, como ocorria antes. Taylor perguntou ao
operário se ele, Schmidt, era um homem "valioso",7 ao que retrucou que não
sabia o que isso queria dizer. Então, Taylor perguntou se ele gostaria de
ganhar U$ 1,85 em vez de U$ 1,15 por dia, desde que seguisse rigorosamente as
ordens do homem que lhe diria, a cada passo do processo de descarregar e
carregar os lingotes, bem como de transportá-lo no carrinho, o que deveria
fazer e como. Schmidt aceitou e concluiu: "Bem, então eu sou um homem valioso".
Curiosamente, segundo o autor, se esse comportamento mercantilizado ' expresso
aqui pelo salário ' se generalizasse no ambiente da seção ou da fábrica, ele
acabaria minando a própria possibilidade de "colaboração" entre operários
(ponto ressaltado em todo o discurso baseado nas filosofias da qualidade,
hoje), pois quando o trabalho é realizado em grupo (Idem, p. 77) o operário
perde a "ambição e a iniciativa":
Análise cuidadosa demonstrou que, quando os trabalhadores estão
reunidos, tornam-se menos eficientes do que quando a ambição de cada
um é pessoalmente estimulada; que quando os homens trabalham em grupo
sua produção individual cai invariavelmente ao nível, ou mesmo abaixo
do nível, do pior homem do grupo; e que todos pioram em vez de
melhorarem o rendimento com a colaboração. Por estas razões foi
expedida uma ordem geral na Bethlehem Steel Works que proibia
trabalharem juntos, em grupo, mais do que quatro homens sem ordem
especial do superintendente e que a permissão não podia ir além duma
semana. (Idem, ibidem).
Assim, o trabalho em grupo realmente existente hoje esconde um componente
individualizante, instaurando uma estranha compatibilidade entre os pólos
antinômicos do coletivismo (veiculado no discurso gerencial) e do
individualismo (observado na prática).
Mas isso não é tudo. O poder coletivo da célula pode eventualmente "premiar" o
membro que, na opinião do próprio grupo, não se esforçou o suficiente, isto é,
não deu "tudo o que pode" nesse caso indicando um rebaixamento individual do
prêmio. Pode também, inversamente, "premiar" aquela, no caso as costureiras,
que, embora pouco produtiva, demonstrou "força de vontade em ajudar", o que é
reconhecido com a sua permanência na própria célula, em vez de ser transferida
para a célula das "menos capazes" (associada a uma máquina mais "fácil" de
operar), o que é prontamente estigmatizado pelo restante das costureiras. Em
termos weberianos, a força de legitimação das células encontra-se abrigada
muito mais do lado do "direito material" do que do "direito formal".
Há também um outro efeito do prêmio: ele acaba incitando a uma obrigatoriedade
no relacionamento com o outro, no caso, a colega da célula. Assim, o outro pode
aparecer antes como um fardo, em vez de ser um interlocutor em uma relação
comunicativa. A constituição das células, aliás, não passa por nenhuma
deliberação prévia do grupo. À parte as (escassas) especialidades (máquina
reta, galoneira, overloque, colocação de perfil), o critério para juntar uma ou
outra no mesmo grupo não parece obedecer a lógicas de amizade, vizinhança ou
parentesco trazidas da esfera social para a esfera produtiva. No entanto, uma
vez constituída a célula, a insegurança da aceitação pelo grupo passa pela
performance produtiva individual ' ou, então, por alguma forma de dom pessoal
que compense aquele atributo objetivo (o que não foi observado em nossa
pesquisa, isto é, alguém que tenha obtido a aceitação não pelas qualidades
produtivas, mas outras, tais como simpatia, bom humor, convivialidade etc.).
Autocontrole e exclusão
O auto-controle não é apenas uma vigilância em torno da manutenção das quotas
de cada operária para garantir o prêmio no final do mês. Ele leva no limite à
exclusão do outro. Se o poder vem da célula, ela tem soberania para decidir
sobre quem fica e quem sai. A encarregada ou supervisora "delega" essa função
ao grupo. Com isso ela a um só tempo "lava as mãos" e desvencilha-se da
suspeita de estar protegendo alguém. Enquanto o julgamento da encarregada ou
supervisora pode ser "subjetivo", o julgamento do grupo não deixa margem à
dúvida sobre a aceitação da colega que não segue ou não acompanha a norma de
produção. Ele seria, assim, mais "objetivo" ou transparente ' e também mais
definitivo porque a operária excluída não tem a quem recorrer, dado o caráter
peremptório de um julgamento feito por uma coletividade inteira, e não apenas
de uma pessoa. Contra um é plausível recorrer; contra vários, fica mais
difícil.
Ora, se o taylorismo gabava-se pela objetividade do método (the one best way),
encontramo-nos diante de um tipo de racionalização que faz com que a
objetividade do processo não seja vista como imposta de cima para baixo, mas
antes como resultante "natural" da decisão soberana do grupo, isto é, em última
instância dos próprios sujeitos, que, nesse caso, aceitam os constrangimentos
apresentados pela firma: qualidade para o cliente, acesso a fatias maiores do
mercado etc.
Não importa que a decisão se dê sobre um quesito disciplinar e não sobre um
quesito técnico-econômico que ponha em questão as escolhas produtivas da firma.
O princípio da solicitação da opinião (ou da decisão) já é um elemento novo em
relação ao antigo modelo, baseado no controle estrito do trabalhador e na
sublimação da iniciativa. Ele admite ' mesmo dentro de campos pouco
estratégicos para a empresa ' a partilha do saber e, em tese, confirma a
necessidade de compromisso (ou cooperação) entre o trabalho e os planejadores.
Formalmente, a democracia nos locais de trabalho, que estava na boca da geração
militante do novo sindicalismo, já está sendo exercida nas células. No entanto,
ela conduz à exclusão, não à inclusão de seus "cidadãos". Se a célula é uma
espécie de micro-Vontade Geral, seu modo de funcionamento expõe então uma
faceta totalitária. Não existem direitos a que a parte possa invocar contra o
bom senso do todo.
Nós fazemos uma reunião, com a menina participando da reunião, e a
gente fala o que está acontecendo: ou ela melhora ou sai fora. Então,
quando há o interesse da parte da pessoa, ela procura sempre
melhorar, mas, quando não há, então a gente pede por favor para
tirar, que troque (Trabalhadora de célula, empresa de confecção de
cuecas. Depoimento em Mello e Silva, 2004, pp. 249-250).
Mais uma vez aparece o arbitrário do julgamento subjetivo.
"Se a gente vê que ela tá melhorando, que ela tá se esforçando, o que
acontece? A gente procura ajudar. A gente corta o serviço, a gente
arruma o serviço, depende da operação que ela faça. Mas se a gente
resolver dar uma nova chance e a gente vê que ela não tá se
esforçando, então..." (Idem, ibidem).
Se nos lembrarmos do que mostra Castel (1995), o direito do trabalho teve
exatamente o papel de regular a parte subordinada (o trabalho) dentro da
relação salarial. Agora, o discurso gerencial acena com a concessão de um
alívio no velho estilo do controle direto ' o que aparece em algumas
interpretações como "consentimento ativo", "autonomia regulada" ou "implicação
constrangida"8 ', e que, nos casos mais bem-sucedidos, desorganiza a auto-
representação da classe como a parte subordinada naquela relação. Em outras
palavras, embaralha a localização social antes clara entre o "nós" e o "eles",
na formulação de Beaud e Pialoux (1999, pp. 35ss.).
Se antes a relação salarial recalcava as divisões da classe (entre qualificados
e não-qualificados, entre homens e mulheres, entre estáveis e precários) em
nome de uma positividade do indiferenciado e do indistinto, hoje a fratura da
relação salarial destampa a caixa de Pandora das habilidades e das qualidades
individuais. O operário (ou operária) não tem mais só de julgar o colega (para
se certificar de que ele ou ela não vai prejudicar o rendimento do grupo), mas
também a si mesmo (para se certificar de que ele ou ela é digno de estar no
grupo). Essa pressão constante, que muitas informantes interpretam como stress,
é fruto de uma situação objetiva de desregulação e de indeterminação que afeta
a posição social da classe e joga a responsabilidade de construção de
parâmetros coletivos para os próprios sujeitos. Quanto mais esses parâmetros
não se detêm em um nível generalizante e universalizável (como é o caso da
relação salarial fordista) e caem para o nível das irredutibilidades
individuais (trabalhador esforçado, diligente, relaxado, cuidadoso, grosseiro,
tolerante, obsessivo etc.), mais frágil vai-se tornando a situação daqueles que
os suportam. É por esse flanco que se insinua o discurso da competência ou das
competências, o que no entanto não será abordado aqui.9 Os trabalhadores
deixariam de se auto-representar como "subordinados" diante do poder da classe
capitalista, passando a se ver como parceiros ' e, no entanto, encontram-se
mais fragilizados.
A norma pública do direito do trabalho é conhecida. A norma privada da empresa
é imponderável. Contra quem vai se queixar a costureira excluída? Contra as
próprias colegas? Com que armas vai organizar a sua luta?
Relata a mesma informante:
Ela fica até o fim. Até que as colegas vêm e dizem: Olha, não dá
mais'. É desagradável, mas se a gente tem a possibilidade de ter
outra costureira que vá fazer a tarefa e que a gente vá ganhar, então
é melhor. É melhor até para a companheira que vai sair porque ela não
se sente humilhada. Ela sabe que a gente tá ganhando, ou melhor, que
a gente tá deixando de ganhar por causa dela. Só que ela não tem
aquele impulso de dizer olha, eu vou sair'. Então, há casos em que a
pessoa às vezes até agradece a gente por ter tomado essa atitude
(Trabalhadora de célula, empresa de confecção de cuecas. Depoimento
em Mello e Silva, 2004, p. 251).
A exploração da rebeldia
Ajudar a colega que tem dificuldade em realizar o próprio trabalho é um dos
pontos altos da solidariedade de seção, em qualquer situação, seja o grupo,
seja a linha. O sistema de células, que na propaganda gerencial dá um peso
considerável à superação da segmentação taylorista e à possibilidade de uma
maior autonomia10 dos operadores diretos, conspira exatamente contra isso,
porque todas as operárias têm que se preocupar com as próprias metas, e ajudar
uma colega pode significar uma subtração da acumulação duramente construída.
Deixar o próprio posto para dar uma "mão" àquela que está em dificuldade era
paradoxalmente mais fácil no sistema anterior, pois o controle externo dava
margem a certas fugas que o novo formato tende a gravar por intermédio de uma
grande sobrecarga impingida a cada uma em particular. Se no caso da empresa de
fabricação de cuecas, o prêmio é o principal instrumento que incita ao controle
do grupo sobre a performance de cada costureira, na empresa de fabricação de
capas, onde não existe o prêmio, o contínuo acúmulo de tarefas, que nunca
permite um momento de descanso ' fazer o papel da ajudante na embalagem,
apresentar-se no corte do tecido com defeito, na pesquisa por um tecido de
tonalidade semelhante, na preparação da máquina, na limpeza dela etc. ' é o que
afasta os pruridos humanitários que ainda podem subsistir nos juízos das
operárias quando percebem alguém em apuros. Não há tempo! Se por acaso alguém
se rebela contra o "sistema" e espontaneamente acorre para socorrer alguma
colega que está visivelmente atrapalhada com a consecução da tarefa na máquina
ao lado, esse impulso é imediatamente individual, reputado à "personalidade" da
pessoa, já que a solidão em que se manifesta dificilmente o relaciona a um
campo coletivo de forças. No entanto, esse impulso é tolerado ' se é que ele é
percebido pelo enquadramento intermediário, formado pelas supervisoras (duas
para a seção de costura, em cada turno) e pelo agente da qualidade. A operária
"rebelde", que lê no sofrimento da colega um traço perverso da organização,
toma a iniciativa de lhe prestar ajuda, já que ela é produtiva, eficiente e por
isso consegue terminar seu trabalho antes do que as outras; ela é capaz de
fazer o seu trabalho e ainda arranjar tempo para trabalhar pela colega. Como os
super-heróis, que salvam primeiro os outros e só depois si próprios, a operária
rebelde se impõe mais essa carga, graças a seu gesto de nobreza. Com isso
trabalha dobrado, intensificando seu próprio ritmo e ainda ajudando a manter o
da colega ' o que é orgulhosamente exposto para o interlocutor como uma vitória
física (afinal, ela é jovem) e moral. Preenche assim, com louvor, a consciência
íntima com o dever cumprido. E a produtividade da fábrica.
Talvez seja insatisfatório falar em desapropriação dos sentimentos individuais
de injustiça e sua esterilização por conta da invisibilidade e do confinamento
no qual eles se manifestam. Essa interpretação não capta a volta completa que é
dada em torno das noções de autonomia, confiança, comunicação e deliberação
ética do sujeito moral, que são definitivamente invertidas. É preciso levar a
sério e atentar para a produtividade dos procedimentos postos em funcionamento
por meio da dúvida e do conflito consigo mesmo: a reflexão que atormenta o
sujeito e acaba deslizando para a classe ' afinal, no exemplo do grupo que
pensa e decide sobre a exclusão do outro está o exercício dessa reflexividade
coletiva ' mostra-se extremamente eficaz para a coerência do modelo de
manufatura celular. Em pesquisas anteriores,11 explorando os modos de
organização do trabalho baseados na qualidade, como o Total Productive
Maintenancee outros, saídos todos da mesma fôrma do fluxo tensionado (Durand,
2003), já se tinha observado que o comprometimento do trabalhador passava pela
ativação de disposições subjetivas que mobilizavam qualidades para as quais
faltava uma norma muito precisa ' empenho, investimento mental, abertura para o
conhecimento, relacionamento positivo com os colegas etc. ', o que levava não
só a uma grande arbitrariedade da parte do dominante (Durand, 2001), mas também
a uma reação, da parte do dominado, que recusava o "envolvimento" por meio da
invisibilidade e da discrição bem calculadas.
Dificilmente pode-se responder à questão de saber se a exploração da indignação
moral da rebeldia faz parte ou não de uma estratégia de "reapropriação" por
parte da empresa, ou seja, se os gerentes e a alta administração fazem isso de
caso pensado. Não há nenhuma resposta que permita tal tipo de inferência. Ao
contrário, nos relatos nunca aparece qualquer hostilidade aberta em relação aos
patrões ou a seus representantes. Esses últimos tampouco parecem dedicados a
algo mais do que a aplicação correta de um modelo disponível no mercado de
consultoria organizacional. Creio que seja relativamente desnecessário
perseguir esse tipo de resposta. É na naturalização do esforço de estar à
altura de um bom julgamento de si e dos outros que reside todo o funcionamento
da produtividade da fábrica. Com acréscimo de que esse bom funcionamento é
extraído não do comportamento apático, mas exatamente do comportamento rebelde.
Aí se encontra o elemento perverso, ponto de chegada da torção das noções
originais da crítica do próprio modelo. Só o trabalhador ativo interessa, não
aquele que "não está nem aí".
Aliás, se nossa "heroína" Vanessa não jogar o jogo do salvamento, ela acaba
contribuindo, no limite, para excluir a colega, pois esta, ao não agüentar o
ritmo, acaba sendo demitida. Além disso, a comparação entre operárias com
perfis opostos confirma a importância dos traços subjetivos para o campo de
atração da empresa: Silvia,12 mais velha, trabalha há dezenove anos na fábrica
de confecção de cuecas e com personalidade mais retraída, mal conhece a vizinha
de alguns quarteirões (Jardim Carumbé, zona Noroeste da cidade de São Paulo),
costureira da mesma fábrica;13 tímida, uma vida em segredo, fez toda a sua
trajetória na mesma operação de máquina. Em contrapartida, Vanessa ' a rebelde
', atirada e participativa, criou em pouco tempo de casa uma rede de amizades
em torno do espaço de trabalho ' exatamente o que as células ou os times de
produção prescrevem. A saída de uma colega (na verdade, uma amiga), por não
conseguir acompanhar o ritmo de produção, causou uma verdadeira decepção, quase
uma mágoa, pela "falta" dela.
O consentimento ativo da força de trabalho, perseguido pelos aplicadores dos
novos métodos de gestão do trabalho, não se manifesta apenas em procedimentos
protocolares medidos por auditorias periódicas, mas sobretudo pela ativação de
disposições subjetivas do tipo das discutidas acima. Pode-se observá-las em
comportamentos de tipos diversos, que se misturam a traços psicológicos
irredutíveis, ligados à constituição do "eu". Separar esses traços da
personalidade social tem sido um dos papéis da relação salarial e da
socialização que ela promove.14 Ora, os novos métodos de gestão, aproveitando-
se do abalo na relação salarial (desemprego, mudanças nas qualificações,
persistência da precariedade etc.) permitem um deslizamento da definição da
atividade do trabalho cada vez mais em direção a atributos que sancionam a
indistinção das esferas privada e pública. As empresas sob o novo regime de
mobilização permanente dos assalariados têm operado uma vitória surda, talvez
ainda pouco perceptível, sobre a consciência pública que até então preservava o
espaço da vida familiar e dos interesses próprios da invasão estranha dos
interesses do patrão. Vai-se tornando normal, na produção e nos serviços, o
expediente de levar trabalho para a casa, assim como usar o espaço doméstico
como treino para um manejo eficiente das chamadas boas práticas de
fabricação.15
Podemos acompanhar, no discurso das informantes, o sentimento de autodenegação
como um efeito do peso de ter de achar a própria medida do trabalho diante
daquele das colegas: como saber se se está aquém ou além? Se é possível ser
melhor? Se um dia se vai conseguir o rendimento ideal? No "empreendedorismo-de-
si", esta é uma responsabilidade pessoal, para a qual todos os investimentos
são mobilizados, de modo que a sensação de fracasso se mistura a uma derrota
pessoal. Retração, vergonha e timidez, por um lado, ou certo otimismo
desabusado, por outro, são os pólos subjetivos por onde oscilam as resultantes
do embate do trabalhador com o seu meio, na falta de um parâmetro coletivo em
que se possa expiar as dúvidas extremas: admiração exagerada ("fazer bem feito"
requer mais do que técnica; requer talento, arte, dom), ou resignação exagerada
("jamais serei capaz de ser como fulana"). Isso não quer dizer que, entre as
costureiras, por exemplo, não seja percebido claramente o estratagema da
intensificação por obra da alocação sempre crescente de novas provações: a cada
patamar alcançado como meta de produção, acrescenta-se mais um pouco para se
testar até onde é possível chegar. Essa queixa demonstra que a consciência da
exploração não está ausente. Falta, contudo, o apoio de uma baliza comum,
espécie de âncora totêmica que esteja fora de cada uma delas; a certeza de que,
separada dessa âncora, o desvio não é muito grave. A resistência ao estado de
coisas, portanto, filtra-se na forma da indignação individualizada, fruto do
dano corpóreo (cansaço, doença, acidentes) imediatamente identificado; ela
dificilmente se converte, contudo, em uma resistência do grupo, porque faltam
os processadores sociais que impeçam a incerteza dos juízos do trabalho de uma
em relação ao trabalho das outras, o que dá ao mesmo tempo coesão e orientação.
Contar consigo mesmo
O esforço de autoformação é um aspecto recorrente do mundo operário no ambiente
pós-reestruturação produtiva, em especial para a geração mais jovem. As
costureiras das empresas pesquisadas confirmam esse dado. A preocupação em não
ficar parada, em buscar sempre uma fonte de melhoramento que pode vir de
conteúdos gerais ou específicos, de cursos direta ou indiretamente associados
ao trabalho que se faz na fábrica, é um sinal de que os constrangimentos da
escolaridade e do maior conhecimento necessário para manejar as novas máquinas
e estar em dia com as exigências do ambiente são conscienciosamente percebidos.
As respostas vêm com as iniciativas, sobretudo individuais, já que esse esforço
não é sustentado coletivamente pela empresa.
Lá e cá, quando sobra tempo ou há um interregno na trajetória profissional, são
procurados os cursos do Senai (entrevistada mais velha da fábrica de cuecas),
ou cursos de computação e de inglês (Lúcia, da fábrica de capas automotivas). A
relativa aleatoriedade das escolhas e a incoerência em relação ao tipo de
trabalho efetuado em seus postos nas fábricas traem a insegurança quanto à real
eficácia desses cursos para uma estratégia de enfrentamento efetivo (e
preventivo) das vicissitudes do mercado de trabalho. Afinal, o horizonte
funcional e profissional da costureira é limitado: não há para onde "subir" '
galoneira, overloquista, máquina reta etc. ', as variações esgotam-se e a
mobilidade em direção a uma função técnica é quase fora de cogitação, porque
isso implicaria galgar competências propedêuticas, cujo handicap escolar atual
dessa população praticamente proíbe. Por isso, tais cursos são também uma
aposta em uma saída eventual para fora do universo da costura: nos serviços ou,
quem sabe, como um patamar para um novo degrau de formação, que prossegue nesse
caso como uma autoconfirmação da esperança de se achar qualquer coisa de melhor
mais à frente.
Quando eu vi aqueles negócios lá dentro [refere-se às máquinas
sofisticadas, com programação automática], eu falei para o meu
marido: eu vou fazer um curso de computação. Aí fiz. Fiz lá no SOS
Computadores [nome do curso]. Ele ainda foi comigo porque ele me dá o
maior apoio. Tanto que ele queria que eu fizesse nutrição, que ele
fala que nutrição é bom. Não sei (Vanessa, fábrica de capas).
Uma alternativa seria abrir um negócio próprio. A saída de trabalhar por conta
ou ter a sua própria oficina é, no caso da costura, uma opção que sempre foi,
por assim dizer, comum no universo popular que envolve esse tipo de trabalho
feminino. Uma opção tradicional de famílias das classes trabalhadoras que acaba
por se juntar à vaga recente de empreendedorismo e de opção pelo conta-
propismo. Seria preciso, no nosso caso específico, em primeiro lugar
desconectar o discurso e a prática disseminados como uma variante da crise da
grande indústria fordista, por um lado, e, por outro, a situação desde sempre
observada em termos de trabalho por conta-própria para esse ramo de atividade.
Mas é evidente que a primeira tendência se sobrepõe também à segunda. Desde os
anos de 1980 a realidade da conexão entre o trabalho de confecção e as formas
de "terceirização" que então ganhavam espaço no tecido industrial foram bem
apontadas.16 A conexão entre o trabalho efetuado pela unidade familiar e a
grande indústria (na confecção, mas também no calçado e na agricultura)
desenhava os contornos de uma cadeia produtiva que parecia confirmar a vigência
do paradigma da flexibilidade. Mais recentemente, são o cooperativismo e as
iniciativas produtivas individuais que parecem tomar o proscênio, tendo em
comum com o discurso anterior o diagnóstico de crise irreversível do trabalho
assalariado formal. Assim, vamos encontrar as costureiras usando do patrimônio
secular da oficina no fundo do quintal, para "pegar a onda" do
empreendedorismo, sair da fábrica ou ' o que é mais comum a partir da
observação de campo ' manter as duas atividades, às vezes sendo subcontratadas
por oficinas maiores (terceirização para cima), às vezes subcontratando outras
costureiras, abaixo (nesse caso, quando são elas as "donas" do negócio). No
entanto, o juízo acerca dessas saídas não parece ser o de uma adesão
entusiasmada. Antes, parece mesmo de resignação diante da debilidade da opção
assalariada, esta sim a escolha principal.
Os marcos regulatórios institucionais e seu significado
Tanto na fábrica de cuecas como na fábrica de capas automotivas, o instrumento
coletivo que lembra a existência do sindicato é a negociação da Participação
nos Lucros e Resultados (P.L.R.). No primeiro caso, a P.L.R. cobre nada menos
do que a negociação do prêmio, sendo, por isso, superimportante. No segundo,
ela absorve itens nevrálgicos da agenda de qualidade e produtividade. Outro
instrumento cada vez mais disseminado é o Banco de Horas. Ambos serão
analisados a seguir.
Como um dos novos expedientes institucionais das relações de trabalho no
Brasil, a P.L.R. deveria, segundo o espírito do legislador, favorecer a
negociação coletiva e a relação direta (bipartite) entre patrões e empregados,
sepultando desse modo o passado corporativista. Seria, portanto, um instrumento
de modernização das relações trabalhistas. Nesse sentido, ela se mostra
bastante compatível com o clima geral de modernização que envolve a empresa e o
modo de execução do trabalho.
Na empresa de capas de veículos, a P.L.R. passou a considerar o retrabalho de
peças um objeto de pontuação com vistas à obtenção de ganhos anuais por lucros
e resultados. Com isso, ela incita à produtividade e intensifica o trabalho das
costureiras. Tudo reside na definição do critério: o retrabalho considerado é
apenas aquele que vem do cliente (produto recusado), não de dentro, isto é, de
uma seção para outra (da máquina para a mesa de revisão). Isso reforça entre as
operárias a mentalidade de vigilância permanente com a qualidade e de
implicação com o destino das peças confeccionadas, como se o poder de sanção
estivesse dentro e não fora do próprio local de trabalho. O mecanismo, que é
recente ' revelando uma suave evolução da medida regulamentadora em direção a
um sentido marcadamente flexibilizante ', funciona da seguinte maneira: cada
setor da fábrica tem uma quantidade de pontos para alcançar; estabelece-se uma
cota de desperdício tolerada que é associada a uma escala de pontos invertida:
7,0 pontos é o máximo permitido; o índice de 0,0 pontos significa que a seção
teve, segundo o jargão organizacional, zero desperdício. Em reuniões do grupo
(da seção),17 as coordenadoras expõem a pontuação até o momento e indicam
quantos pontos faltam para atingir a quantidade estipulada como meta ' o
retrabalho entra como elemento de subtração dos pontos (por "retrabalho de
peça").
Aumentava a quantidade de pontos para ver se a gente se esforçava
mais para ver se não voltava peça! Quando aumenta o ponto é quanto o
operário vai perder (Vanessa, fábrica de capas automotivas).
Isso também está relacionado com uma maior preocupação em fazer certo da
primeira vez: "A cada cinco capas, olha-se 1 peça para ver se está dentro da
conformidade" (Idem). Aumenta, também a preocupação em errar,18 juntamente com
a agregação de novas tarefas de manutenção dos instrumentos. Antes de começar,
por exemplo, há o set-up e depois, o check-list, que também consiste em uma
inspeção da máquina. Oset-up é para verificar se há algum ponto solto, e o
check-list é para saber se está faltando algo na máquina. As supervisoras
querem saber se de fato "[a costureira] fezo set-up ao invés de apenas escrever
o set-up". Aumenta a responsabilidade da operadora. Não dá mais para pôr a
culpa na máquina.
Antigamente se chegava, já ia costurando, não olhava nada. Depois que
foi implantando esse ISO aí [mudou] (Idem).
Outro expediente da reforma das relações trabalhistas que faz parte do mesmo
conjunto em que se insere a P.L.R. é o Banco de Horas. Destinado a possibilitar
uma compensação dos momentos de pouca demanda com outros em que a jornada se
estende, teve como conseqüência prática o fato de substituir o mecanismo das
horas extras, que eram previstos estatutariamente e que significavam ganhos
monetários para os trabalhadores. No novo formato, o trabalhador não ganha o
"crédito" em dinheiro, mas em horas (tempo de trabalho).19
O Banco de Horas era bom porque tinha dias que precisava sair mais
cedo, aí debitava no Banco de Horas. Mas, por outro lado, "perdia"
porque tinha dias que entrava 6h e saía 9h da noite. Era preferível
ganhar em dinheiro, não em horas (Idem).
O sentimento de perdas e ganhos, contudo, não é medido pelo metro do tempo, mas
por aquele do dinheiro, o que afasta qualquer ilusão sobre o sucesso das
estratégias de entropismo típicas das grandes corporações que aplicam o
produção enxuta. Quando se trata de empresas pequenas ou médias, subcontratadas
das grandes (a empresa de capas, por exemplo, fornece produtos para as
principais empresas montadoras do país), os efeitos do fluxo manifestam-se
muito mais como constrangimento do que como capacitação, o que afeta também a
percepção de sua força de trabalho, a qual fica menos exposta às virtudes
integradores e comunais reputadas da organização pós-fordista. As células '
índice daquelas virtudes, por ativar a circulação de valores ligados à
solidariedade de grupo, parceria e investimento emocional, em vez do vínculo
instrumental apenas ' experimentam, assim, uma situação de certa inadequação,
relacionada à parcialidade de sua aplicação (valem antes de tudo para a
obtenção de maior produtividade para a empresa).
A privatização das relações de trabalho pode ser constatada sob dois ângulos:
primeiro, pela experiência da própria célula, que reforça o pertencimento à
empresa, às expensas do mundo público; segundo, pela erosão da instituição
clássica de representação do trabalho, o sindicato. Isso expõe a situação de
desamparo político em que se encontram as operárias. Para 49% delas, na fábrica
de cuecas, o sindicato é distante na defesa das condições de trabalho e não dá
muita atenção à base. Esse percentual sobe para 60% na empresa de capas
automotivas. No entanto, institucionalmente ele existe, porque negocia a P.L.R.
e o Banco de Horas. Como se não bastasse, seu papel é invocado não para impedir
ou remediar os efeitos da organização celular, mas, ao contrário, para reforçá-
la, na medida em que deveria, segundo o ponto de vista de uma das operárias,
contribuir para que o rendimento salarial delas fosse maior (ora, diz a
informante, "o sindicato não serve exatamente para isso: aumentar os
salários?") por meio de um apoio resoluto ao prêmio, lutando por ele, ao invés
de ser contraele.
Dessa maneira, as fontes de um comportamento baseado no "empreendedorismo-de-
si" encontram na organização do trabalho uma acolhida que dá coerência a
práticas e a valores exercitados também extra-muros, como a abertura de um
negócio próprio (por exemplo, uma oficina de costura no próprio domicílio) e a
organização deste segundo o esquema cliente-fornecedor. A célula é uma fonte
permanente de exclusão porque, como vimos, a luta para alcançar o prêmio
(coletivo) passa pela incitação das colegas a ajustar seus ritmos (individuais)
pelo padrão mais elevado. A costureira que não consegue alcançar o padrão não é
bem-vista. O sindicato, portanto, ao ungir a célula e o prêmio que lhe
corresponde, contribui indiretamente para minar um comportamento solidarista na
produção. Isso é mais do que meramente confirmar a tão conhecida política
desmobilizadora do sindicalismo pelego, "de carimbo", pois agora o sindicato é
solicitado, pela sua própria base, a ser ativo e a entrar no jogo.
Por conta dessas e de outras mudanças, muitas costureiras ' as que passaram
pelos dois sistemas, em linha e em células ' demonstram uma preferência pelo
antigo modelo, tecnologicamente menos sofisticado e organizacionalmente mais
tradicional. No primeiro, "o ganho dependia do esforço de cada um", ao passo
que hoje ele "depende dos outros" (operária da célula n. 14, fábrica de
cuecas). "É melhor trabalhar individual" do que em grupo, pois no primeiro
caso, "cada um fazia a sua parte" (Idem). Esse sentimento é mais ou menos
compartilhado pelas entrevistadas da fábrica de confecção de cuecas (onde há o
prêmio).
Significados da flexibilidadedo trabalho
Dentro do limite de uma mesma família de produtos, no interior da célula, uma
operária pode fazer a operação da outra. Esse é o aspecto da flexibilidade da
mão-de-obra no processo de trabalho associado, em uma versão mais "positiva", à
polivalência dos operadores. Contudo, ele responde antes de qualquer coisa a
dois constrangimentos bastante precisos: o absenteísmo e as lesões advindas da
repetitividade dos gestos em uma única operação.20 A substituição imediata das
costureiras faltosas demonstra inadvertidamente que ninguém é insubstituível, e
que a qualificação não é suficiente para dificultar a rotação pelos postos da
célula, já que as variações entre as máquinas e as respectivas operações
requeridas por elas não são tão salientes. Por outro lado, a polivalência está
estreitamente vinculada ao tipo de organização da produção, no sentido da
possibilidade de manufaturar mais de um produto durante a mesma jornada.
Na fábrica de forros para o interior de veículos, como se trata de uma planta
com poucos trabalhadores, as coordenadoras respondem diretamente à chefia, no
caso, um supervisor de produção (com curso de nível superior) e um técnico da
qualidade (com nível de 2° grau). Na fábrica de confecção de cuecas, com
contingente bem maior, as supervisoras também não encontram nenhum escalão
intermediário, remetendo-se ao engenheiro de produção e, em menor medida
(porquanto o poder de decisão quanto aos aspectos do funcionamento do processo
produtivo parecem ser diminutos), à responsável pelos recursos humanos. Há
reuniões freqüentes entre as coordenadoras e as integrantes das células, no
estilo dos Círculos de Controle da Qualidade (porém sem essa designação), em
que não só são discutidas questões referentes à produção e às melhorias no
local de trabalho, mas também é estimulado o levantamento de sugestões por
parte das operárias.
Tal como em outras fábricas que aplicam o sistema de manufatura celular, a
publicidade dos resultados dos operários expõe para todos as diferenças de
performance, isto é, quem é mais produtivo. Na fábrica de cuecas, é a célula,
responsável pelo ajuste da produtividade do grupo e com base em parâmetros
definidos no escritório de métodos, quem decide expor o desempenho individual.
Na fábrica de capas automotivas, com apenas duas células, quadros em forma de
papel tamanho ofício e ilustrado com gráficos, afixados pelo técnico da
qualidade, contêm as informações acerca dos resultados da produção de cada
costureira, a comparação entre as metas previstas e as metas alcançadas para o
seu posto de trabalho, e ainda um índice de defeitos.
Existe um balanceamento entre o treinamento realizado na empresa, no exercício
do próprio posto de trabalho (on the job) e o treinamento trazido de fora (elas
teriam de "saber costurar"). O prato da balança pende cada vez mais para o
treinamento adquirido antes de começar a trabalhar na fábrica, à medida que nos
aproximamos do contingente mais novo em termos de tempo de casa. Isso fica
evidente na fábrica de cuecas, pois na mudança para a nova planta (município
limítrofe à cidade, zona oeste) contou bastante a contratação de novas
trabalhadoras do local que tinham já passado por curso do Senai, em vez da
manutenção das guardiãs do velho saber fazer, localizado nas instalações
antigas de São Paulo. No entanto, o treinamento é muito importante quando se
trata de "subir" dentro da empresa. Tanto na fábrica de capas automotivas
quanto na de cuecas, as líderes (coordenadoras, primeiro caso; supervisoras, no
segundo) são aquelas, dentre as costureiras, que seguiram a trajetória de
treinamentos oferecidos. Mas isso não é tudo. A experiência conta também, isto
é, conhecer todas as operações realizadas nas máquinas, mesmo que não de
maneira empírica e direta. Além, é claro, de conhecer muito bem o maior número
possível de operárias, ou seja, cultivar um bom relacionamento com as colegas
do grupo, o que é facilitado pelo fato de a líder ter sido, ela mesma, operária
como as outras. A posição da líder é ambígua porque, a despeito de cultivar
alguns elementos de proximidade com as costureiras, a função de controle do
trabalho e de disciplina das colegas, além da desenvoltura na circulação junto
às chefias e seu papel de correia de transmissão das ordens vindas do
planejamento da produção (o "bom relacionamento com o outro lado", muito
enfatizado pela própria líder), faz com que ela, embora o tenha sido no
passado, não seja mais considerada no presente como "uma delas".
Conclusão
A promessa de uma maior autonomia do trabalho, com os novos métodos de
organização, revela-se uma armadilha. Umas contra as outras, mais auto-
controladas do que nunca, tensas e cansadas, o exemplo das costureiras mostra
os efeitos bastante práticos do desgaste do trabalho fabril. Há indicações de
que tais efeitos são encontrados também em outros ramos industriais, assim como
em outros tipos de atividade profissional, como os serviços. Na dificuldade de
estabilização de um novo modo de regulação, tanto no centro como na periferia
do capitalismo, repousa a indeterminação sobre as linhas de força a orientar a
ação de grandes agregados sociais, como os assalariados da indústria. As formas
de reprodução dos novos modelos produtivos disponíveis parecem prescindir, ao
contrário, desses grandes agregados, jogando todo o peso na saída individual,
no comportamento empreendedor que extrai a sua força da competição interna à
própria classe, ali onde os processos de trabalho de antanho secretavam formas
coletivas de ação ' e de ação antagônica. Longe de incluir os assalariados em
uma forma de vida, seja de matiz mecânica, seja de matiz orgânica, os métodos
de organização do trabalho educam-nos para fora do social, ou seja, para o
mercado.21
Os excertos retirados aqui e ali dos casos estudados, juntamente com os ecos de
outros trabalhos de campo, indicam um caminho, uma tendência que se desenha: no
prêmio salarial está a negação da sociabilidade fordista, a qual teve o seu
ponto máximo, no Brasil, nas jornadas de greves que deram nascimento ao "novo
sindicalismo". Foi ali o nosso momento de classe (1964-1980), correspondendo
exatamente à consolidação de uma norma salarial entre as empresas montadoras de
veículos, numa espécie de formação de salários coletiva do ramo (e que acabou
por se chocar contra o Estado). Com o deslocamento da formação de salários para
dentro da empresa, e como função do desempenho individual do trabalhador, o
alvo muda: o poder de coação já não está mais no "outro", mas em si mesmo. É
como se a "salvação", no sentido religioso, tivesse como única instância de
certeza aquilo que se mostra pelas obras: a resultante é... trabalhar e
trabalhar! O fracasso não é o produto de relações de força (exploração)
objetivas, mas o indicador de uma culpa subjetiva, atribuída pelos outros ou
até por si mesmo.