Les Batutas, 1922: uma antropologia da noite parisiense
Introdução
Em 1922, Os Oito Batutas ' reduzidos a sete músicos ', sob a direção de
Pixinguinha e incluindo Donga e outros membros importantes do círculo de música
popular do Rio de Janeiro, passaram seis meses em Paris, de fevereiro a
agosto.1 Durante esse período, o grupo ' na França chamado de Les Batutas '
apresentou-se no Shéhérazade, entre outros locais.2 Este trabalho pretende
contribuir para a compreensão dessa viagem, episódio pouco conhecido na
história da música popular brasileira, embora considerado pelas fontes
brasileiras dos anos de 19703 bastante importante para a carreira de
Pixinguinha e para a música popular brasileira em geral, particularmente por
evidenciar já naquela época as influências musicais norte-americanas, o que não
é comumente reconhecido. Tais fontes ' com exceção de Pixinguinha e Donga nos
depoimentos incluídos em Fernandes (1970) ' enfatizam que, em Paris, Os Batutas
mantiveram ligações relevantes com colegas norte-americanos. Apenas com estes,
em uma cidade como Paris, em que se encontravam músicos de toda parte do mundo.
Destacam também que depois da viagem o grupo incorporou aos arranjos
instrumentos como saxofone, clarinete e trompete, além de gêneros musicais como
fox-trots e outros, passando, ainda, a usar o estilo de arranjo de jazz-band
(Marcondes, 1998, pp. 583-584, 634). A excursão foi também construída pelas
fontes em comentário como jornada épica, isto é, os viajantes-músicos passaram
a ser vistos como heróis e aqueles que escreveram a seu respeito como
narradores épicos (ver especialmente Cabral, 1978, pp. 41-46; Silva e Oliveira
Filho, 1979, pp. 43-78).

Na época, a viagem provocou no país um acalorado debate sobre a legitimidade d'
Os Batutas ' em sua maioria negros, que faziam uma música considerada nacional
brasileira ' como representantes brasileiros em Paris. Para os envolvidos no
debate, Paris não se tratava de uma cidade qualquer, mas a capital cultural do
mundo, desde o século XIX referência central para a cultura brasileira,
especialmente para as elites (Ortiz, 1991, p. 8; Rial e Grossi, 2000, p. 2).
Embora a viagem não fosse uma missão de Estado, o debate tendeu a assim
considerá-la.4 No debate em consideração, os argumentos dos "contra" tinham um
cunho racista e eurocêntrico, desqualificando a música nacional como
provinciana e de baixa extração. Os "pró" enalteciam a competência dos músicos
e a natureza indígena de sua música.5 A literatura dos anos de 1970 descreve as
apresentações do grupo em Paris como muito bem-sucedidas, considera o contato
com os músicos norte-americanos fértil e qualifica a volta do grupo ao Brasil,
que iria participar das festividades do primeiro centenário da Independência no
Rio de Janeiro, como triunfante.
Pixinguinha é um nome consagrado da música popular brasileira, rei do choro '
ilustre gênero instrumental ', e um dos músicos mais importantes na construção
do samba carioca como gênero emblemático da música popular brasileira (Vianna,
1995).6 Esse lugar ímpar resulta de vários fatores: desde sua posição central
no universo do samba, passando pelo seu virtuosismo como flautista, até sua
genialidade como compositor e arranjador. Essas qualificações foram
paulatinamente reconhecidas pelos colegas, pelo público e pelos críticos da
música popular brasileira. Embora não tenha sido sambista, mas chorão,
Pixinguinha tinha amplo acesso ao mundo do samba, especialmente em relação à
sua variedade mais antiga (do tipo de Pelo telefone, de 1917). Apesar de
carioca, tinha uma profunda lealdade em relação à Bahia, pois, como Donga e
João da Baiana,7 era filho de pai carioca e mãe baiana (Baiana, 1970, p. 60).8
Tudo isso criou condições para que ele tivesse uma inserção privilegiada no
universo do samba, que, desde o final dos anos de 1920, era dominado por
disputas entre uma facção identificada com a variedade mais antiga, denominada
baiana, e outra, com a mais nova, carioca (Sandroni, 2001).9 Ademais,
Pixinguinha tinha acesso à música erudita ocidental ' e contato com músicos,
como Villa-Lobos ', fator que contribuiu fortemente para a criação de uma
verdadeira aura em torno de sua pessoa.
Este texto pretende mostrar que a viagem para Paris d'Os Batutas foi
fundamental e deu o primeiro impulso para a construção de Pixinguinha como
primus inter pares da música popular brasileira.10 A estadia na Europa e o
debate gerado aqui no Brasil em torno da viagem significaram o auge de um
movimento iniciado com a fundação d'Os Batutas em 1919, por meio do qual
Pixinguinha foi confirmado como grande músico e a música produzida pelo grupo,
sob sua liderança, imediatamente reconhecida, tornando-se a seguir o âmago do
universo do samba. Foi a partir dessa jornada que Pixinguinha começou a criar
vínculos musicais e compatibilizar sua música com o jazz, que na época se
encontrava em franco processo de se estabelecer como o novo universal da música
popular.
A trajetória musical de Pixinguinha teve várias fases. A primeira evidencia-se
ainda na adolescência, quando ao 14 anos já era um flautista virtuoso (Cabral,
1978, pp. 21-26).11 A estréia, em 1919, d'Os Batutas marcou a abertura da
segunda fase de seu trajeto. Havia no Rio de Janeiro uma forte presença da
música norte-americana baseada na jazz-band, identificada como moderna
(Tinhorão, 1990, pp. 195-203), o que se contrapunha à idéia de uma música
nacional ' popular ' sertaneja e indígena, associada pela intelligentsia ao
grupo d'Os Batutas. Havia, portanto, uma oposição entre essa música popular e a
estrangeira, e ainda entre o popular e o aristocrático, isto é, a música
erudita, incluindo a ópera (Cabral, 1978, p. 31). Os Oitos Batutas foi formado
para tocar na sala de espera do elegante Cine Palais, e teve como público
membros da elite carioca, muitos deles ' como Arnaldo Guinle (1884-1964) '
ligados a um ideário nacionalista em defesa da cultura popular, pensada como
rural por excelência, em oposição à urbana (Idem, pp. 31-32). Guinle será o
mecenas do grupo, financiando suas viagens pelo interior do Brasil, em 1919 e
1921, além da estadia em Paris.
Desde sua fundação Os Oito Batutas geraram polêmica. O fato de serem em sua
maioria negros e o tipo de música que faziam eram motivos para controvérsia.
Identificá-los à genuína musicalidade nacional, significava para muitos uma
desqualificação em termos de uma pretensa universalidade ' equacionada com o
cânone da música clássico-romântica ocidental ' e um veredicto de
provincianismo. Além disso, a negritude era vista como sinal de inferioridade
sociocultural. Após a viagem a Paris, essas questões tenderam a ser absorvidas
positivamente, e o choro foi assumindo um papel central em nossa cultura até se
consagrar, vinculado ao samba, como o símbolo da música popular brasileira, ao
tempo em que se tornava compatível com o jazz, nova linguagem musical do
sistema mundial.12
Voltando de Paris, Os Batutas ' agora, oito músicos ' viajaram a Buenos Aires,
de novembro de 1922 a abril de 1923,13 onde gravaram para a Victor e se
apresentaram em teatros, com muito sucesso. No entanto, nesse período ocorreu a
dramática segmentação do grupo, que se dividiu em dois sob as lideranças de
Pixinguinha e Donga.14
Entre 1919 e 1922, o Brasil, governado por Epitácio Pessoa (1865-1942) '
importante político, ex-senador, ministro e chefe da delegação brasileira na
Conferência de Paz de Paris em 1919 ', conheceu um período de considerável
prosperidade econômica, como exportador agrícola, principalmente de café no
decorrer da Primeira Guerra Mundial (Fausto, 1999, pp. 292-295). Politicamente,
foi um momento turbulento, marcado por greves de trabalhadores urbanos e por
uma forte tensão entre governo e militares (Idem, pp. 295-315). Data de 1922 a
fundação do Partido Comunista Brasileiro (PCB). No âmbito da cultura, a época
foi de mobilização, marcada pela Semana de Arte Moderna em São Paulo, em 1922,
que envolveu a vanguarda artística do país ' Mário de Andrade, Oswald de
Andrade, entre outros (Carpeaux, 1964, p. 270) ', tendo Villa-Lobos entre seus
mais notáveis participantes da música erudita (Wisnik, 1977). O movimento
lutava por uma arte nacional brasileira, de inspiração folclórica, tendo como
um de seus principais alvos de crítica as concepções clássico-românticas
européias. A França, em 1922, vivia as catastróficas conseqüências da Primeira
Guerra; sua economia estava fragilizada, com altos níveis de desemprego, e
havia, politicamente, um clima de muita perturbação (Agulhon et al., 1993, pp.
35-50). Em 1918, 200 mil soldados norte-americanos se encontravam no país,
evidência eloqüente de sua "invasão musical" por parte dos Estados Unidos
(Richard, 1991, pp. 214-216; Tournès, 1999, pp. 11-32; Martin e Roueff, 2002,
pp. 93-104).
Desde o final do século XIX e início do XX, a França já vinha sendo "invadida"
pelas danses exotiques e danses nouvelles (Apprill e Dorier-Apprill, 2001, p.
31). As primeiras incluíam tudo que fosse estrangeiro; as segundas,
especialmente as manifestações artísticas provindas das Américas ' o cake walk
norte-americano, o tango argentino, o maxixe brasileiro, o paso doble espanhol,
a rumba cubana, entre outros. Os gêneros provenientes da América Latina e os
orientais ' danças cambojanas, por exemplo ' eram muito prestigiados (Decoret,
1998, vol. 1, pp. 59-132).15 Misturavam-se todos, juntamente com os gêneros
propriamente franceses, no music hall ' se os anneés folles foram o tempo de
consagração, na França, de Josephine Baker, eles também o foram de Mistinguett
e Maurice Chevalier.16 Após a guerra, o bal musette ' proibido de 1914 a 1919 '
foi retomado como principal opção de dança francesa nos dancings e cabarés
(Argyriadis e Le Menestrel, 2003, p. 27).
Os músicos-viajantes, o dançarino-agente, o empresário-mecenas e o aficionado-
político
Este era o clima cultural na França, quando da viagem d'Os Batutas ' uma
aventura sem igual, envolvendo vários agentes e agências em torno de três
personalidades notáveis: o empresário Arnaldo Guinle, no papel de mecenas; o
dançarino Antonio Lopes de Amorim Diniz (1884-1953), cujo apelido, Duque,
salientava sua elegância como agente cultural; e o político e diplomata Lauro
Müller (1863-1926), que imprimia na jornada uma idéia, diríamos, de missão
quase diplomática. Unia essas personalidades o encanto pela música d'Os
Batutas, a crença na idéia de que o Brasil tinha uma missão no mundo e a
convicção de que a música ' nacional, de inspiração folclórica, feita por
negros, sim, no âmago da elegante boemia carioca ' constituía a essência dessa
missão.
Radicado no Rio de Janeiro desde 1906, o Duque foi responsável pela criação de
coreografias primorosas para gêneros brasileiros, especialmente o maxixe, então
considerado gênero das camada baixas. Em 1909, ele se mudou para Paris,
dançando em bares e teatros com Maria Lino ' famosa dançarina ítalo-brasileira.
Alcançaram fama em 1913, ao ganharem o primeiro prêmio em uma competição em
Berlim. Fundou uma escola de dança em Paris em 1915, viajou para Londres e Nova
York para realizar apresentações; em seguida, voltou para o Brasil, de onde fez
excursões para Montevidéu e Buenos Aires; em 1921 retornou a Paris, quando
lançou o samba no teatro Albert Premier, tornando-se, em seguida, diretor
artístico do Schéhérazade. Depois disso, no Rio de Janeiro foi acompanhado
pelos Batutas, que pela primeira vez tocavam para uma apresentação de
dançarinos, no elegante cabaré Assírio (Pixinguinha, 1970, p. 23). Duque
encantou-se com o conjunto, obtendo ajuda financeira de Guinle e apoio
político-diplomático de Müller para tornar possível a viagem à França, a fim de
disseminar a música e a dança brasileiras (Marcondes, 1998, p. 254).17
Guinle, engenheiro e empresário, possuía grande fortuna, oriunda da exploração
do porto de Santos (Alvarenga, 2001); refinado e filantropo, foi o mecenas de
um dos primeiros esforços no Brasil de coleta de música folclórica. Com seu
patrocínio e sob a supervisão de Villa-Lobos, Pixinguinha, Donga e João
Pernambuco (compositor e violonista João Teixeira Guimarães [1883-1947) ' o
último então também membro d'Os Oito Batutas ' viajaram pelo interior de São
Paulo e Minas Gerais, em 1919, e pelo interior da Bahia e de Pernambuco, em
1921, para recolher, via transcrições feitas de ouvido, manifestações de música
folclórica (Cabral, 1978, pp. 32-35, 38-40; Donga, 1970, pp. 88-89). De origem
francesa, Guinle era habitué do Le Schéhérazade em Paris. No Rio de Janeiro,
freqüentava os elegantes music halls, conhecendo Os Batutas no Assírio
(Pixinguinha, 1970, p. 23). Junto com o irmão Carlos, financiou a estadia de
Villa-Lobos em Paris, de 1927 a 1930.18
Müller, originalmente engenheiro militar que alcançou o generalato, era
seguidor de Benjamin Constant Botelho de Magalhães (1836-1891) ' também
engenheiro militar ', um dos mais importantes intelectuais e políticos
brasileiros ligados ao positivismo de Comte, doutrina de grande impacto no
Brasil, particularmente entre os militares (Fausto, 1999, pp. 232-233;
Giannotti, 1978, pp. xv-xviii). Müller foi deputado federal, senador e, entre
1912-1917, ministro das relações exteriores, como sucessor do Barão de Rio
Branco. Em virtude de seu prestígio, foi peça estratégica para a viagem d'Os
Batutas, dando-lhes apoio político-diplomático no Brasil e na França. Era
também habitué da elegante vida noturna carioca, na qual conheceu o grupo
(Donga, 1970, p. 89).19
Les Batutas em Paris: sobre a americanização francesa da música popular
brasileira
Les 'étoiles' d'aujourd'hui sont artificielles; elles sont guindées et
mécaniques parce qu'elles n'ont pas la même ressource, ce qui reste de monde
autour d'elle [sic] s'adonnants [sic] aux tangos et matchiche qui n'ont aucun
rapport avec la chorégraphie des théâtres officielles, pour l'aquelle [sic]
travaillent nos compositeurs de ballets.
M. Lebond, 192220.
Como foi construída a persona d'Os Batutas em Paris? Que recepção teve o grupo
nesta cidade? Estas as questões a explorar agora, no contexto de uma pesquisa
em andamento, com base tanto na literatura especializada, como na leitura de um
número expressivo de jornais e revistas franceses da época, e também de fontes
brasileiras. O objetivo é recompor não só as intenções do grupo e de sua equipe
' Duque e o staff do Le Shéhérazade ', como também o perfil do público e suas
reações. Em suma, pretendo analisar como a aquisição e a atribuição da persona
d'Os Batutas combinaram-se em Paris. Nesse sentido, faz-se necessário lançar um
olhar sobre o ambiente cultural da cidade no período ' a noite parisiense nos
anos de 1920, quando a capital começava a ser desenhada no imaginário mundial
como a cidade dos prazeres. À maneira de Geertz, a análise será feita na
cidade, nas ruas, nas casas noturnas, nos lupanares.
A crônica da qual foi extraída a epígrafe desta seção é toda uma queixa sobre a
situação da dança e da música francesas durante a época em estudo. Além de ser
um ataque ao tango e ao maxixe, faz ácidas comparações entre a música e a dança
francesas e as correspondentes russas na França, avaliadas como bem-sucedidas
em detrimento das francesas.
Não abordarei a questão interessante que pode ser inferida da crônica dos
Leblond, de como escritores tão vinculados à luta pela validação do ponto de
vista do colonizado e, portanto, envolvidos profundamente com o tema do
déracinement, em contato com expressões culturais de ex-colônias européias
'tangos e matchiche ', alinham-se com os cânones franceses, desqualificando os
gêneros musicais de países como Brasil e Argentina. Para meus objetivos aqui, o
que é importante extrair da crônica é a evidência de que em julho de 1922,
final da estadia d'Os Batutas em Paris, o maxixe (juntamente com o tango) não
só era muito bem conhecido na cidade ' o que confirma a efetividade do trabalho
de Duque ', mas também era usado como diacrítico de oposição em relação à
música francesa canônica. Não se tratava, a crônica em comentário, de um
editorial, ou de um texto cuja autoria poderia ser creditada à equipe de
redação, mas de uma crônica assinada por escritores ilustres e engajados no
mundo colonial francês, além de ter sido publicada em um importante jornal
francês na área das artes e espetáculos.21 Também é instrutivo extrair da
crônica a verificação de que o maxixe brasileiro era, no início do século XX,
considerado "invasor", "afetado" (guindé), "mecânico" (méchanique), por autores
relevantes da cidade reconhecida pela elite brasileira de então como a capital
cultural do mundo.22 Sobre a eficácia do trabalho de Duque, vale lembrar que de
1906 a 1923 várias partituras de composições brasileiras foram lançadas na
França e que o samba era citado como exemplo paradigmático do tipo fantaisiste
entre as danses nouvelles.23 Como dançarino e professor de dança, ele também é
referido com freqüência como figura notável em vários manuais de dança
correntes na França, pelo menos desde 1913.24
Alguns dias antes da publicação dessa crônica, saiu no mesmo jornal em primeira
página uma matéria intitulada "Orchestres et jazz-band: la protection des
musiciens français", em que as críticas são pesadas e revelam o temor dos
franceses em relação à "invasão" do país por gêneros musicais estrangeiros:
"aujourd'hui, c'est la concurrence du jazz-band et autres orchestres exotiques
qui porte un préjudice considérable aux musiciens français [...]" (Paris-Midi,
1922). Tornam-se evidentes as queixas de músicos e proprietários de casas
noturnas e restaurantes franceses. Em 1922, uma crise ameaçou o setor, causada,
segundo este e outros textos, pela excessiva quantidade de músicos estrangeiros
em Paris e pelo fato de o Estado cobrar uma taxa de 13% aos donos de
restaurantes e casas noturnas que contratavam orquestras. A ameaça de
desemprego para os músicos franceses ante a possibilidade de dissolução de
grupos e fechamento de estabelecimentos foi anunciada dramaticamente em edições
sucessivas de outros jornais importantes no domínio das artes e espetáculos.25
Uma solução provisória para a crise ' oferecida pelo então ministro da economia
numa reunião com representantes dos músicos e proprietários ' foi liberar da
taxa estabelecimentos cujo foco principal não fosse a música e a dança, o que
excluía dancings e cabarés.26 No mesmo encontro, os representantes dos músicos
exigiram do ministro a imposição de um limite de 10% de estrangeiros em
orquestras da cidade (Le Journal, 1922d).27 Essa questão continuou a ocupar os
jornais de Paris durante várias edições de 1922.28
No entanto, o debate não se restringia a esse lado, diria, protecionista ou
mesmo intolerante em relação à invasão de Paris por estrangeiros. Não, ele
tinha pelo menos mais um lado, consistente com o desejo de Paris continuar
sendo a capital cultural da Europa (Martin e Roueff, 2002, p. 9), uma capital
que revelava, adicionalmente, uma forte predisposição em relação ao Outro
(Clifford, 1988, p. 136). Este outro lado aponta para a vanguarda artística
parisiense ' da qual faziam parte muitos estrangeiros ' e seu estilo de vida
boêmio (Franck, 1998). Conforme Clifford (1998), essa vanguarda,
particularmente o surrealismo, mantinha um relacionamento próximo com a
antropologia e tinha a África como universo privilegiado de interesse. Em
termos musicais, o jazz estava no centro deste interesse, sendo considerado o
filho prestigioso de uma África negra generalizada, nascido nos Estados Unidos,
um país cujo poderio era suficientemente grande para ajudar a própria França a
recuperar-se da devastação.29 Esta fascinação pela África e por manifestações
culturais tidas como de origem africana, alcançou não só a vanguarda artística
e áreas da antropologia, mas também consideráveis contingentes da classe média
parisiense que, emulando a sensibilidade da vanguarda, formavam um público cada
vez maior, ávido por experimentar, na noite, todos os tipos de exotismo,
vivenciando-os como viagens simbólicas (Decoret, 1998, vol. 1, p. 277). Uma
crônica escrita por um intelectual de nível intermediário, o libretista René
Jeanne (1922), e publicada em um importante jornal da área das artes e
espetáculos, aponta claramente para essa busca intensa pela vivência do exótico
na noite, avaliando de modo positivo a forte presença de negros na cidade '
africanos, norte-americanos, latino-americanos.30
Nesse contexto, qual era o lugar da música-dança popular brasileira em Paris
antes d'Os Batutas? De um lado, fazia parte das danses exotiques, universo em
oposição ao francês (civilizado), apontando para os campos da etnicidade e da
nacionalidade. De outro, era considerada também uma das danses nouvelles, que
incluía o cake walk norte-americano, o tango argentino, o paso doble espanhol,
a rumba cubana, entre outros gêneros. Ainda, estava entre as danses latines, de
fato entre aquelas provenientes da Amérique Latine, isto é, outros domínios
também vinculados à etnicidade e à nacionalidade, o último ligado de maneira
peculiar à geopolítica francesa do século XIX.31 Vale lembrar, por fim, como as
manifestações artísticas brasileiras de música e dança eram fortemente
identificadas com a figura de Duque, seu genial divulgador branco. Parece,
pois, que do ponto de vista francês, seu lugar em Paris antes d'Os Batutas era
mais ao lado do tango argentino, conforme estabelecido pelos Leblond, do que da
rumba cubana.32 Como visto, a associação do maxixe com o tango ocorria no
Brasil como uma tentativa de escapar dos julgamentos que o condenavam ' toda a
musicalidade considerada africana no Brasil ' como lascivo e de baixa
qualidade. Se o argumento central deste texto é o de que a construção da figura
de Pixinguinha como nome consagrado da música popular brasileira foi
impulsionada quando de sua estadia em Paris, seu fundamento é de que essa turnê
foi estratégica para a mudança da forma de compreender o Brasil, segundo a qual
a africanidade era um problema, não uma solução. A viagem, assim, antecipou
horizontes que só nos anos de 1930 seriam consolidados no país (Vianna, 1995),
o que ilustra de maneira feliz a idéia da vocação profética da música (Attali,
1992, p. 4; Jameson, 1992, p. xi).
Les Batutas em Paris: pequeno ensaio hemerográfico
Em 12 de fevereiro de 1922, Le Journal anunciou a chegada de Les Batulas (sic)
em Bordeaux e seu début sensational em Paris na mesma semana. No dia 13, uma
nota projetava a turnê do grupo como um dos grandes sucessos da estação.33 No
dia seguinte, o mesmo jornal publicou o seguinte anúncio:
Les Batutas, cet extraordinaire orchestre brésilien, unique au monde,
d'une gaieté endiablé, compose de virtuoses surnommes les rois du
rythme et de la samba, joue toutes les jours aux thés et aux soupers
de Shéhérazade, 16, Faubourg Montmartre. Direction: Duque (Le
Journal, 1922g).
Com pequenas alterações no texto, este mesmo anúncio saiu em Le Figaro (1922a)
até o dia 31 de março. Também o Comdia de 14 de fevereiro (em uma seção não
especializada) exibia uma propaganda sobre Les Batutas no Le Shéhérazade. Do
dia 15 até o final de março, agora na seção "Les Music-Halls" e na página final
' onde eram publicados juntos os anúncios das casas noturnas ' saiu a mesma
publicidade,34 que voltou a ser noticiada de meados de abril até o dia 20 de
maio. Daí em diante, nenhuma outra notícia sobre o grupo foi publicada no
Comoedia. No dia 16 de fevereiro, Le Journal publicou:
L'orchestre des Batutas n'est pas un jazz-band. Il ne comprend ni
piano ni batterie, composé d'instrumentistes spéciaux, d'une
virtuosité accomplie, il est d'une gaieté communicative formidable.
Aujourd'hui, soirée de gals pour fêter son début sensationnel (Le
Journal, 1922h).
Ainda em fevereiro, dia 22, este mesmo jornal dizia:
Les Batutas, le célèbre orchestre brésilienne, unique au monde, a
débutée avec de plus grand succès à Shéhérazade, le féerique
establishment du faubourg Montmartre. Allez entendre Les Batutas vous
ne reggreterez pas votre déplacement (Le Journal, 1922i).
Até o dia 22 de maio, anúncios semelhantes, de Le Shéhérazade, saíram neste
jornal. De 16 de fevereiro a 25 de maio, o jornal L'Intransigeant (1922)
anunciou a estadia do grupo em Le Shéhérazade. Nesse mesmo dia, Le Journal
publicou a seguinte propaganda sobre o grupo, agora no estabelecimento Le
Duque:
Batutas. Orchestre à la Mode. Chez Duque. Au Thé et Soirée Dansante.
17, rue Caumartin ' Tél Louvre 43-09
Samba Danse Nouvelle (Le Journal, 1922j).
Desde então, os anúncios sobre o grupo oscilaram em freqüência em Le Journal,
voltando a aparecer em 5 de maio (1922k) e em alguns dias de junho. Propagandas
sobre Le Shéhérazade sem nada sobre Les Batutas continuaram a sair, sinal de
que a mudança para Le Duque era definitiva. Ao mesmo tempo, Le Figaro (1922b)
publicou de 1º a 30 de junho:
Chez Duque. 17, rue, Caumartin, Tél Louvre 43-09. Thés dansants de 4
a 7 heures. Soupers de 10 h à 3 h du matin, avec le concours des
Batutas, l'orchestre à la mode, et le Bernard Kay's Jazz Trio.35
Do mês seguinte em diante, nenhum anúncio consta nos jornais citados sobre Les
Batutas e sobre o Duque em Le Shéhérazade. Também nada mais sobre a casa de
espetáculos Le Duque.
A campanha ' houve aqui, sim, uma campanha ' para promover Les Batutas em Paris
teve início em meados de fevereiro, muito próximo à sua estréia, e durou até o
último dia de junho. Sua principal característica foi o desenho da musicalidade
do grupo como algo único (unique) em relação à identidade étnico-nacional,
construída como indubitavelmente brasileira, e a respeito da formação
orquestral, esta identificada por um gênero bastante percussivo (o samba)...
Escolhendo o samba como marca, a campanha livrou o grupo da possibilidade de
associação com o tango argentino e sua ligação com o mundo dos brancos, o que a
opção pelo maxixe ' criação do branco Duque em Paris ' poderia provocar.
Também, essa escolha enfatizou o espírito nouveau da música executada pelo
grupo.36 Com as opções pelo universo do jazz como pólo de contraste e do ritmo-
percussão como território do encanto (gaieté) do grupo, a campanha inseriu a
sua musicalidade no plano mundial (não mais restrito à América Latina), lar do
poderoso Outro, e aproximou-a da música africana, considerada pelo público em
geral (e também por muitos musicólogos já) extremamente rítmica e percussiva '
Les Batutas, Duque, Guinle e Müller queriam projetar a idéia de um Brasil
grande, que se encontrava no centro do mundo, e de uma música popular ' negra,
sim ', no âmago de toda a sua grandeza.
De acordo com a publicidade, o itinerário de Les Batutas em Paris incluiu as
casas de espetáculo Le Shéhérazade e Le Duque ' o grupo estreou na primeira em
meados de fevereiro apresentando-se ali até cerca de 25 de maio; depois
transferiu-se para a segunda, onde permaneceu até 30 de junho de 1922. Pode-se
supor que a transferência do grupo para Le Duque foi resultado de um conflito
de perspectivas entre os projetos dos brasileiros e do proprietário do Le
Shéhérazade.37
A turnê d'Os Batutas em Paris não incluiu apenas apresentações em casas
noturnas. Em 28 de março, um longo artigo, de primeira página, no Comdia
(Silver, 1922), informa que o grupo seria um dos dois a tocar em uma recepção
amplamente promovida para as Rainhas da Micareme no Lé Shéhérazade, oferecida
pelo jornal Comoedia. Na véspera do evento (25 de março), lia-se no jornal:
M. Duque a organisé à cette occasion une fête splendide. Un jazz
endiablé dirigé par M. Bouvier et le curieux orchestre "Les Batutas",
que le directeur de Shéhérazade est allé chercher au Brésil même,
mènera la danse après le dîner. On dansera la "Semba", la nouvelle
danse à la mode, et l'amusant black-step ou Pas de Nègre, ainsi que
la farandole brésilienne. Enfin, à minuit: grand cotillon! (grifos
meus).38
Matéria similar saiu no dia da recepção (Comoedia, p. 5). Do artigo de Marcel
Silver e dos anúncios citados relativos a essa recepção, pode-se depreender que
tanto Duque como Les Batutas eram muito bem conhecidos na cena parisiense da
época. Além disso, fica evidente que se, por um lado, o samba constituía a
marca do grupo, por outro, havia o desejo de manter uma relação
contrapontística com o jazz, a um só tempo de pertinência e de independência em
relação a esse gênero musical. Por fim, pode-se também deles concluir que a
característica principal de Les Batutas em Paris era de serem curieux '
originários do Brésil même ', provocadores de indiscreção e curiosité, isto é,
desejo de ver, conhecer e aprender (Larousse, 1954, p. 96).39
Sobre o êxito do grupo em Paris, a avaliação de Pixinguinha é discreta,
apontando que sucesso na cidade então ' tonitruante ' era privilégio dos norte-
americanos (Pixinguinha, 1970, p. 24). Donga é mais enfático; afirma que o
sucesso de Les Batutas foi considerável, não tendo sido maior devido à falta de
apoio do governo brasileiro, haja vista que o governo norte-americano mantinha
as jazz-bands (Donga, 1970, p. 91). Sobre as influências sofridas pelo grupo em
Paris, Pixinguinha permanece discreto ao declarar que para ele se tratava de
uma questão muito mais de admiração e escolha ativa ' portanto de apropriação '
do que de influência, naturalizada, passiva (Pixinguinha, 1970, pp. 24, 32-33).
Ele se refere não apenas aos músicos norte-americanos, mas também a colegas de
outros lugares, como os músicos do admirável sexteto que tocava na casa em
frente ao Le Shéhérazade. Foi o contato com o violoncelista deste conjunto '
diz ele ' que despertou seu interesse pelo saxofone (Idem, p. 26).
Considerações finais
Nos últimos dez anos,40 venho desenvolvendo a idéia de que a música popular
brasileira ' como qualquer música popular nacional, no contexto das relações
dos Estados-nações modernos ' somente pode ser bem entendida dentro de um
quadro cujos nexos tenham simultaneamente pertinência local, regional, nacional
e global, e que tome as músicas erudita, folclórica e popular como universos em
comunicação. Essa idéia mostrou-se produtiva para o estudo da música popular
brasileira desde sua fase inaugural, da modinha e do lundu, gêneros que
constituíram no século XVIII um dos primeiros casos de globalização no âmbito
da música popular do Ocidente. O romance vocal e a ária de corte franceses, o
bel'canto italiano e outros universos cancionais constituíram suas conexões
européias. Os gêneros, com suas variantes brasileira e portuguesa, formavam o
nodo luso-brasileiro do sistema, um nodo entre outros plausíveis euro-latino-
americanos. Essas variantes eram versões locais vigentes no Estado luso-
brasileiro, logo estabelecendo-se como símbolos das identidades nacionais
respectivas. Domingos Caldas Barbosa (1738- 1800) foi o demiurgo desse encontro
na formalização dos gêneros luso-brasileiros. A moldura internacional é também
congênita na formação do samba, desde a época em que o rótulo ' como o de tango
(Sandroni, 1996, p. 140) ' apontava a africanidade pan-latino-americana na
esfera da música e da dança, do México e Cuba à região platina (Menezes Bastos,
2005).
Entendo que também o presente estudo traz evidências importantes no sentido de
verificar a consistência da idéia acima referida: foi na Cidade Luz dos anos 20
do século passado ' cidade mundial (capital cultural do mundo, para as elites
brasileiras), sede de um universo de encontros musicais inter-nacionais (e
plurilocais) de grandes dimensões ' que a musicalidade d'Os Batutas pôde se
desenvolver na direção da invenção de uma brasilidade musical que somente na
década seguinte seria consagrada. A esfera internacional das relações musicais
envolvidas no engendramento da música popular brasileira, pois, tomado como
superveniente na grande maioria dos estudos, em um caso a mais ' e de extremo
interesse ', evidencia-se como absolutamente congênita, tudo parecendo apontar
para o fato de que o contato intermusical (como o intercultural em geral), ao
contrário de se estabelecer como cenário apenas especial da gênese musical (e
cultural em geral), parece constituir-se em um de seus cenários mais típicos.
Venho desenvolvendo em diversos trabalhos a proposição de que desde sua origem,
no século XVIII, a música popular brasileira tem sido um espaço privilegiado de
discussão das principais questões do país. O Estado ' e sua atualização em
governos concretos ' e os costumes ' envolvendo relações de classe, étnicas,
inter-nacionais, de gênero, familiares e outras ' têm sido alguns de seus temas
centrais. Essa vocação da música popular brasileira mostrou-se especialmente
evidente durante os períodos críticos da história do Brasil ' como, por
exemplo, nos anos de 1930 (Menezes Bastos, 1999b) ', quando a sociedade
dividiu-se em posições irreconciliáveis. A música popular brasileira, assim,
desde suas origens, é um universo dialógico crucial por meio do qual a
sociedade brasileira discute o país e o mundo, negociando armistícios e os
destinos da nação.
A jornada d'Os Batutas ora estudada parece também dar substância a esta idéia
que venho desenvolvendo nos últimos anos: o debate ruidoso, suscitado acerca da
legitimidade de um grupo de maioria negra que executava uma música indígena
poder representar o Brasil na capital cultural do mundo, pode ser lido como um
imenso diálogo sobre a identidade do país. Foi no encontro com o grande Outro
musical, o jazz, tornado possível no cenário parisiense da década de 1920, que
o que antes aparecia como um grande problema para o Brasil ' a musicalidade
negra ' pôde se transformar numa solução. O caráter épico ' hagiográfico até '
com que as fontes setentistas do século XX constroem a excursão d'Os Batutas
parece encontrar consistência exatamente nesta, por assim dizer, vitória do
grupo em sua jornada ao centro do mundo civilizado, ali onde o negro era
inventado como cerne da música popular do sistema mundial.
Parto da evidência de que na mesma época em que o samba carioca foi construído
como gênero emblemático da música popular brasileira ' entre os anos 20 e 30 do
século passado ', parece ter ocorrido fenômeno semelhante na Argentina com o
tango (Grünewald, 1994), sendo os dois eventos sintomaticamente simultâneos ao
desaparecimento, no Brasil, do então denominado tanguinho ou tango brasileiro
(Tinhorão, 1991, pp. 97-102). Em outros países da América Latina ' como em Cuba
em relação à rumba (Alén, 1984; Daniel 1995) ' parece ter acontecido processo
análogo. Tudo isso aponta para o fato essencial de que esses processos não são
simplesmente coincidentes, mas estão de maneira sistemática relacionados no
interior do sistema internacional de Estados-nações modernos, envolvendo a
América Latina e seus vínculos com a Europa ocidental e os Estados Unidos, o
que só pode ser bem compreendido dentro de um quadro global de relações
musicais com várias camadas, no qual os gêneros musicais personificam as formas
de sociabilidade de cada localidade (cidades, regiões, países). Nesse sentido,
Paris dos anos de 1920 teve um papel crucial como local de consagração dos
gêneros musicais nacionais emblemáticos da América Latina ' samba, tango,
rumba, entre outros ', mas não só. Foi também ali e na mesma época que o jazz
começou a se constituir como o novo kathólon musical do sistema mundial. Depois
dos anos de 1930, esse papel parece ter migrado para os Estados Unidos.
NOTAS
1 Pixinguinha era o apelido do compositor, arranjador, regente, flautista e
saxofonista Alfredo da Rocha Viana Filho (1897-1973); Donga, o apelido do
compositor, violonista e banjoísta Ernesto dos Santos (1890-1974), autor da
música de Pelo telefone (1917). Os outros membros do grupo durante a viagem a
Paris foram: China (compositor, violonista e pianista Otávio Liplecpow da Rocha
Viana, irmão sênior de Pixinguinha [1888-1927]), Nelson dos Santos Alves
(cavaquinho, bandolin e reco-reco [1895-1960]), José Alves Lima (banjo,
bandolim e ganzá), Feniano (Sizenando Santos, pandeiro) e José Monteiro (canto,
violão e reco-reco). Talvez Monteiro seja o autor (conhecido como Zé Boiadêro)
do tango brasileiro O boi no telhado, lançado no Rio de Janeiro durante o
carnaval de 1918, música que deu nome ao Le boeuf sur le toit, de Darius
Milhaud (ver site de Daniella Thompson). A foto de Les Batutas, com a presença
de Duque, publicada em Cabral (1978), foi originalmente publicada no jornal
carioca A Noite, em 14 de agosto de 1922, quando o grupo chegou ao Brasil de
volta de Paris. Sobre a estada do grupo na França, ver Cabral (1978, pp. 41-46)
e Silva e Oliveira Filho (1979, pp. 43-78).
2 Le Shéhérazade localizava-se em Faubourg Montmartre, n. 16, 9º distrito.
Havia uma casa homônima, fundada em 1927, na rua de Liège, n. 3, entre o 8º e o
9º distritos (Agradeço a Chantillon, por esta informação). Decoret refere-se ao
primeiro como Le palais de la danse, registrando que a casa foi reformada em
1920; e ao segundo como um dos mais famosos cabarés russos instalado em Paris a
partir de 1930 (1998, vol. 1, pp. 179, 187). O grupo tocou também em festas e
em outras casas noturnas, como em Le Duque (rua Caumartin, n. 17, 9º distrito).
Sobre a história da noite parisiense, ver Richard (1991), Chevalier (1982),
Sallée et Chauveau (1985) e Miomandre (1932).
3 Ver Cabral (1978), Silva e Oliveira Filho (1979) e os depoimentos sobre a
viagem, dados por Pixinguinha e Donga, incluídos em Fernandes, org. (1970).
Nessas fontes basearam-se, entre outros, Braga (1997), Alencar (1979),
Marcondes (1998, pp. 583-584, 633-635) e uma infinidade de sites na Internet.
4 Sobre esse debate, ver Cabral (1978, pp. 41-46) e Silva e Oliveira (1979, pp.
43-78). Ele teve um alcance considerável: jornais e revistas do Rio de Janeiro,
São Paulo, Recife, entre outras cidades brasileiras.
5 A denominação "indígena", indicando a música nacional em oposição à
estrangeira, era usada no país desde o início do século XX. O caso da obra de
Chiquinha Gonzaga (compositora, regente e pianista Francisca Edwiges Neves
Gonzaga [1847-1935]) é típico a esse respeito (Menezes Bastos, 1998, p. 207). A
partir dos anos de 1930, o termo foi abandonado em favor de uma nova maneira de
interpretar a música nacional, ou seja, como fusão de fatores de origem
africana e portuguesa, nada tendo de indígena (Menezes Bastos, 2002a).
6 Sobre Pixinguinha, ver Fernandes (1970), Cabral (1978), Alencar (1979), Silva
e Oliveira Filho (1979), Braga (1997), Marcondes (1998, pp. 583-584, 633-635).
Sobre o choro, ver Rangel (1962) e Cazes (1998).
7 João da Baiana era o cantor, compositor e percussionista João Machado Guedes
(1887-1974).
8 Suas mães eram "comadres" (Baiana, 1970, p. 60). Esse termo aponta para o
sistema de relações vigente no círculo do samba da época, em que o parentesco
era essencial. Sobre os antecedentes no século XIX desse tipo de sociabilidade,
encontrada na "pequena África" do Rio de Janeiro e habitada por uma grande
quantidade de migrantes baianos ' local de origem do samba carioca segundo os
comentaristas mais autorizados ', ver Moura (1983). As notas biográficas que
fazem parte dos estudos sobre Pixinguinha falam muito mais de seu pai ' letrado
e funcionário dos Correios e Telégrafos ' do que de sua mãe, de origem popular.
9 A mais antiga (samba "amaxixado") pertence à família do tresillo (duas
colcheias pontuadas, uma colcheia) de gêneros latino-americanos. A mais nova
surge em 1930, inaugurando o que Sandroni (2001, pp. 19-37) denomina "paradigma
do Estácio" (presente, por exemplo, na canção Se você jurar).
10 Sobre a singularidade de Pixinguinha, Vasconcelos escreveu: "Se você tem 15
volumes para falar de toda a música popular brasileira, fique certo de que é
pouco. Mas se dispõe apenas do espaço de uma palavra, nem tudo está perdido;
escreva depressa: Pixinguinha" (1964, vol. 1, p. 84).
11 A respeito das fases e da trajetória de Pixinguinha, ver Menezes Bastos
(2005).
12 O choro e o samba mantêm desde os tempos da casa de Tia Ciata ' no início do
século XX ' uma relação do tipo "através", segundo a qual um conduz ao outro e
vice-versa (Menezes Bastos, 2005). Sobre Tia Ciata, uma das principais
matriarcas baianas da "pequena África" do Rio de Janeiro, ver Moura (1983).
13 Nessa ocasião, o grupo tinha incluído nos arranjos instrumentos como
saxofone (Pixinguinha), banjo (Donga, China) e bateria (João Thomaz)
[Marcondes, 1998, p. 584]. A respeito do desenvolvimento do jazz como a nova
linguagem musical do sistema mundial ' seu novo kathólon, universal ', a partir
dos anos de 1920, ver Menezes Bastos (1996, 1999a, 1999b).
14 Os motivos da divisão do grupo teriam sido desentendimentos entre os
músicos. De volta ao Brasil, em abril de 1923, Donga fundou Os Oito Cotubas, e
Pixinguinha permaneceu com Os Oito Batutas. O primeiro conjunto apresentava-se
como jazz-band, ao contrário do de Pixinguinha. Cotuba (cutuba) é uma palavra
de origem tupi que significa "corajoso" (Cunha, 1982, p. 126). O nome do novo
grupo refere-se provavelmente ao éthos da facção de Donga em face das
vicissitudes vividas na Argentina. Sobre as gravações argentinas, ver Barg
(s.d.). Doze delas encontram-se em Braga e Hime (2002). Em outubro do mesmo
ano, os dois grupos se uniram na Bi-Orquestra Os Batutas, que alternava entre
ser uma jazz-band e um conjunto de choro (Cabral, 1978, pp. 50-57).
15 O tango não estava entre as danses latines, pois era considerado danse
stardard, passível de inclusão em campeonatos (Apprill e Dorier-Apprill, 2001,
p. 34). As danças exóticas latinas reduziam-se de fato às danças afro-
americanas (Idem). Sobre as danses latines, ver também Bernand (2001). Sobre a
música em Paris de 1870 a 1925, ver Brody (1987).
16 Cf. Chevalier (s.d.), uma autobiografia, e Coquart e Huet (1996), sobre
Mistinguett.
17 Duque era dentista, mas abandonou a carreira para se tornar ator de teatro e
cinema. Voltando ao Brasil, após a estadia d'Os Batutas em Paris, tornou-se
jornalista e cronista de teatro, compositor e letrista (cf. Efegê, 1974, pp.
129-140; Marcondes, 1998, p. 254; e o site do Dicionário Cravo Albin da música
popular brasileira). O maxixe surgiu no Rio de Janeiro na segunda metade do
século XIX, e hoje é considerado a primeira música dançante urbana genuinamente
brasileira (Marcondes, 1998, p. 494; Efegê, 1974; Sandroni, 2001, pp. 62-83;
Tinhorão, 1990, pp. 187-193; 1991, pp. 58-96). Visto como lascivo e de baixa
extração, seus compositores o denominavam sob o rótulo tango brasileiro, como
nos casos de Ernesto Nazaré (compositor, pianista [1863-1934]) e Chiquinha
Gonzaga (cf. Menezes Bastos, 2000, p. 13). O maxixe era bastante popular na
Europa desde o início do século XX e mesmo antes (cf. Efegê, 1974, pp. 141-156;
Tinhorão, 1991, pp. 58-96): em 1905, a canção La mattchiche (música de P.
Badia, letra de Paul Briollet e Léo Lelièvre, arranjo de Charles Borel-Clerc e
tendo Mayol como intérprete) teve grande sucesso na França (cf. Saka e
Plougastel, 1999, p. 13). Sobre o lançamento do samba por Duque no Theâtre
Albert Premier, ver La danse (1922a). Pixinguinha declarou em novembro de 1922
que o grupo viajou para Paris com contrato com o empresário G. Calmet, então
proprietário do Le Schéhérazade (Cabral, 1978, p. 45).
18 Há vários sites que fazem referência às atividades filantrópicas de Guinle,
nos esportes e no escotismo. Ele foi também presidente da Orquestra Sinfônica
Brasileira (1940-1947, 1952-1956 e 1960-1962). Sobre sua ligação com Os Batutas
e Villa-Lobos, ver notícia sobre uma investigação de Edilene Matos em http://
www.usp.br/agen/bols/2003/rede1209.htm, segundo a qual o material coletado por
Pixinguinha, Donga e Pernambuco em suas pesquisas ' que evidenciam uma vez mais
que as musicologias (no caso, a etnomusicologia no Brasil) são invenções dos
músicos, que sempre julgaram a ciência algo de muito sério para ser deixado
apenas com os cientistas (Menezes Bastos, 1995) ' foi transferido em 1929 para
as mãos de Mário de Andrade, e atualmente se encontra no Instituto de Estudos
Brasileiros da USP. Para referências a Guinle, ancestral do famoso playboy
Jorginho, recentemente falecido, ver Cabral (1978) e Fernandes (1970).
19 Sobre Müller, ver Konder (1957). Müller também foi membro da Academia
Brasileira de Letras, sendo responsável, como ministro das Relações Exteriores,
pela aproximação do Brasil com os demais países das Américas (ver o site da
Academia). Durante a estadia d'Os Batutas em Paris, o ministro de relações
exteriores de então era José Manoel de A. Marques. O Brasil não tinha
embaixador na França, mas um attaché, Carlos Taylor. Em novembro de 1922, o
Brasil nomeou como embaixador naquele país, Luiz Martins de Souza Dantas, que
antes servira em Roma. Souza Dantas é citado por Pixinguinha como anfitrião do
grupo em uma festa no Palais des Affaires Publics (Cabral, 1978, p. 45). É
possível que Dantas freqüentasse Paris antes de se tornar embaixador ali.
Agradeço ao embaixador João Hermes Pereira de Araújo, diretor do Museu
Histórico do Ministério de Relações Exteriores, pelos dados sobre a diplomacia
brasileira.
20 Estou tomando como certo que o nome Lebond tenha sido grafado erroneamente,
e na realidade a crônica cujo extrato compõe a epígrafe desta parte era de
autoria de Marius-Ary Leblond, pseudônimo de George Athénas (1877-1953) e Aimé
Merlo (1880-1958), que escreviam em dupla e ganharam em 1909 o prestigiado
prêmio Goncourt. Ver, a respeito, o site do Dictionnaire des auteurs.
21 Trata-se do jornal Paris-Midi, que contou com autores como Jean Cocteau e
Louis Delluc. Cocteau escreveu em 1919 os artigos Carte blanche. Delluc
inaugurou, em 1921, a seção "Cinémagazine". Ver respectivamente http://
www.uneautredimension.free/cocteau/oeuvre/bio1919.htm e http://
www.ecrannoir.fr/dossiers/critique/histoire.htm .
22 Desde o século XVIII, antes assim da Independência (1822), a música popular
"brasileira" é vista como uma excelente "invasora". De Portugal, no caso, por
intermédio do lundu e da modinha (cf. Menezes Bastos, 2005).
23 Ver, entre outras, as partituras disponíveis na seção musical da BNFM: para
orquestra, La vraie polka brésilienne (4 Vm 15 4488), La vraie samba (4 Vm15
8875), Bregeiro [sic] (4 Vm15 4706); para piano, Gaúcho (Fol. Vm12 5354),
Araguaya (Fol. Vm12 3956), La vraie samba (Fol. Vm12 8594). Agradeço a Carlos
Sandroni por essas referências. Segundo Decoret (1998, vol. 2, p. 477), no
período os franceses classificavam as danses nouvelles como acrobáticas,
excêntricas, mundanas e fantasistas. Como exemplo da primeira e da segunda,
respectivamente, a autora cita a Valse chaloupée e a dança dos Nouveaux clowns.
24 Ver Rivere (1913, pp. 73-78), Lefort (s.d., pp. 95-98), Buxon e Guzmão
(1924, pp. 46-51), e Jattefaux (1926, pp. 274-275, 291). O livro de Buxon e
Guzmão comenta que o samba, classificado como fantaisiste, evoca as danças da
África negra devido a seu ritmo bizarro, recomendando a seus dançarinos serem
discretos para evitar tal associação.
25 Consultar Le Journal (1922a, b e c).
26 O uso francês do termo dancing data do final da Primeira Guerra Mundial.
Tratava-se de um salão de baile diferente do cabaret: ao dancing, ia-se para
dançar, das 17:00hs às 19:00hs; aos cabarés, para ver dançarinos profissionais,
durante a noite propriamente (Miomandre, 1920, 1924; Decoret, 1998, vol. 1, p.
16).
27 Sobre o limite de 10%, La Danse (1922b) afirma que a decisão foi tomada em
outubro de 1922 pelo Conselho Municipal para vigorar em 1923, e que o limite
incluía não só músicos, mas todos os funcionários das casas.
28 Ver Comdia (1922a).
29 Sobre o jazz na França desde o final dos anos de 1910, ver os textos
publicados em jornais franceses compilados por Martin e Roueff (2002, pp. 163-
312). Para algumas contribuições recentes sobre o tema, ver também Tournès
(1999) e alguns dos artigos em Jamin e Williams (2001).
30 Vinte anos depois, Jeanne (1887-1969), escritor e ator, seria um dos autores
do libreto da conhecida opereta Violettes imperiales, cuja música foi composta
pelo famoso compositor Vincent Scotto (1874-1952) [Saka e Plougastel, 1999, pp.
397-398]. Esta opereta estreou em 1948 no teatro Mogador (ver site <http://
perso.wanadoo.fr/anao/oeuvre/violettes.html>). Algumas décadas depois, ele dará
nome ao Prize René Jeanne, da Société des Auteurs, Compositeurs et Éditeurs de
Musique (Sacem, ver site). A noção de middle ground intellectual ("intelectual
de nível intermediário") é de Rabinow (1989, p. 13), indicando os intelectuais
situados entre os mestres da cultura erudita e as experiências da vida comum,
no contexto do modernismo.
31 A categoria Amérique Latine data da metade do século XIX, como invenção da
geopolítica francesa em reação aos interesses anglo-saxões na região, no
contexto da ascensão dos Estados Unidos ao cenário mundial (cf. Vayssière,
1999: 4, Menezes Bastos, 1999a, p. 22; Delannoy, 2000, p. 22, n. 1).
32 Na época, a associação do maxixe com o tango argentino era tão forte em
Paris a ponto de provocar brigas envolvendo músicos e clientes brasileiros e
argentinos nas casas noturnas (cf. Tinhorão, 1991, p. 85; e as memórias de
Maurice Chevalier [Chevalier, s.d.], citadas por Tinhorão [Idem]). Note-se,
assim, que este estar ao lado um do outro ' do maxixe e do tango ' era
fricativo.
33 Respectivamente, Le Journal (1922e e f).
34 Respectivamente, Comdia (1922a e b).
35 Não encontrei em fontes brasileiras, francesas e americanas, referências
sobre o Bernard Kay's Jazz Trio. Argyriadis sugeriu-me que poderia se tratar de
um grupo francês que utilizava um nome inglês.
36 Sobre o repertório do grupo em Paris, ver Pixinguinha (1970, p. 24) e Donga
(1970, p. 90). De acordo com o primeiro, somente estavam incluídas músicas
brasileiras: sambas, choros e maxixes. Valsas ' comuns no choro ' foram
evitadas, para impedir a associação d'Os Batutas com outros grupos, tipicamente
europeus. Na discografia, cf. Barg (s.d.), Braga e Hime (2002) e alguns dos CDs
incluídos em Francêschi (2002) para ter uma idéia dessa musicalidade. Sobre a
associação do tango argentino com o mundo dos brancos, ver Bernand (2001, p.
34).
37 Para a história do Shéhérazade: em carta de 1º de novembro de 1920 (cerca de
um ano e meio antes da chegada d'Os Batutas em Paris), Frédéric, du Carlton de
Monte-Carlo ' novo gerente ou proprietário do Le Shéhérazade ' informa aos
clientes que acabara de concluir sua reorganização "sur le modèle de l'an
dernier, de Shéhérazade, en Restaurant-Dancing élégant". A carta incluía um
convite para o Réveillon 1920 (cf. Frédéric, 1920). No final de março de 1922 '
quando Les Batutas ali já se apresentavam ', Fernand Lamy era provavelmente
membro do staff do dancing (cf. Silver, 1922). Para mais dados sobre essa
história, ver nota 2. Nos jornais pesquisados, não foram encontradas
referências ao La Reserve de Saint Cloud, outro estabelecimento aberto por
Duque, no Boulevard Senard, próximo ao Parc de Bèarn (cf. Cabral, 1978, p. 69).
38 Nas fontes pesquisadas, não há referência a M. Bouvier. Note-se neste
anúncio o uso do arcaísmo semba, que em quimbundo significa "umbigada"
(Marcondes, ed. 1998: 704).
39 Donga (1970), Cabral (1978) e Silva e Oliveira Filho (1979) relatam a
participação do grupo em outras festas em Paris, não citadas nas fontes
pesquisadas. Donga (1970, p. 91) fala avidamente sobre seu envolvimento afetivo
' e de Pixinguinha ' com mulheres francesas, mostrando que o universo da
sexualidade estava bastante presente. Ver os números das revistas femininas
Paris Plaisirs (1922) e Femina (1922a), para referências às casas noturnas,
incluindo Le Shéhérazade, como locais freqüentados por mulheres em busca de
emancipação sexual (cf. Roueff, 2002, p. 96).
40 Cf. Menezes Bastos (1995, 1996, 1999a, 1999b, 2000, 2002a, 2002b, 2003,
2005).