Urbanização e emprego doméstico
Ao explicar o siginificativo excedente feminino nas populações das cidades pré-
industriais da Europa Ocidental, Antoinette Fauve-Chamoux (1998) concluiu que
era determinante o papel da imigração feminina, sobretudo das domésticas na
formação das populações urbanas. No Brasil contemporâneo, a população urbana
caracteriza-se também por um alto desequilíbrio entre os sexos: 94 homens para
cada cem mulheres;1 nas capitais, a desproporção é ainda maior (o número de
homens baixa para 91 a cada cem mulheres). Nas zonas rurais, ao contrário,
observa-se um considerável déficit feminino (109 homens para cada cem
mulheres). O desequilíbrio entre os sexos seja entre citadinos, seja entre
camponeses, não pode ser atribuído a uma natalidade ou a uma mortalidade
diferenciada entre homens e mulheres, cuja variação se daria em função da
população ser urbana ou rural. Ele expressa, na verdade, o caráter sexuado dos
movimentos migratórios, a saber, uma sobrefeminilidade das trocas entre o rural
e o urbano e uma sobremasculinidade dos fluxos entre o urbano e o rural (Tabela
1). Em outras palavras, o êxodo rural, que alimenta o crescimento da população
urbana, é um fenômeno majoritariamente feminino. No que diz respeito às
domésticas2 brasileiras, verifica-se que elas participam ativamente do
desequilíbrio entre os sexos, pois na população urbana dos diferentes Estados
do Brasil nota-se uma estreita correlação entre o excedente feminino e a
presença de domésticas (Gráfico_1). Assim, entre os onze Estados que apresentam
os maiores déficits masculinos na população urbana (Maranhão, Piauí, Ceará, Rio
Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Distrito
Federal, Rio de Janeiro), oito registram, também, a maior proporção de
domésticas na população urbana (Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba
Alagoas, Sergipe, Distrito Federal). Por outro lado, sete dos dez Estados com
sex ratio urbano mais equilibrado (Rondônia, Amazonas, Roraima, Amapá,
Tocantins, São Paulo, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás)
exibem percentuais de domésticas baixos (Rondônia, Amazonas, Roraima, São
Paulo, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso). Em Fortaleza, onde foi
realizada a pesquisa de campo,3 tal ligação pode ser observada ao se levar em
consideração a população dos bairros da cidade (Gráfico_2). A proposta deste
artigo é, portanto, estudar as lógicas que presidem a emigração das domésticas
em direção às cidades. Essas lógicas serão apreendidas como resultado de
processos nos quais se articulam escolhas pessoais e determinantes estruturais.
Estes últimos, ao definirem campos de possibilidades, condicionam os destinos
individuais e circunscrevem as práticas dos atores sociais; contudo, o efeito
coercitivo que possam exercer sobre os mesmos não se aplica indistintamente a
todos. Ou seja, os constrangimentos estruturais deixam uma margem de autonomia
aos indivíduos. Na realidade, as estruturas constituem "uma condição da
experiência e não uma causa dos comportamentos" (Terrail, 1990); essa requer,
para ser identificada, a exploração do significado que estas mulheres dão à sua
própria migração.
"Uma mobilidade de prospecção matrimonial"
Composta por 95% de mulheres, das quais dois terços têm entre quinze e 24
anos,4 a população doméstica de Fortaleza concentra uma taxa elevada de
migrantes nativas da zona rural (68,4%).5 A distribuição por faixa etária das
domésticas no momento de sua migração para Fortaleza mostra que 84% deixaram
seu município com idades entre dez e 19 anos.6 Ora, essas idades coincidem com
aquelas do ingresso das jovens do campo no mercado matrimonial local. Com
efeito, no interior cearense, a prática do casamento precoce não é rara:
conforme o IBGE, 42,4% das solteiras que se casaram em 1991 tinham entre quinze
e dezenove anos: em Fortaleza (Gráfico_3), essa proproção alcança apenas 25%;
contudo, esses dados agregam as mulheres das zonas rurais e das zonas urbanas,
mascarando, assim, a maior precocidade das uniões nas zonas rurais. A
justaposição desses dois calendários - migratório e matrimonial -
suscitou a hipótese, a qual analisaremos neste trabalho, de que o motivo da
migração dessas jovens é de ordem matrimonial.
O casamento: um destino natural
Não se pode interpretar o sincronismo entre o ingresso no mercado matrimonial
local e a migração para Fortaleza como uma fuga diante do prazo para o
matrimônio: o casamento está inscrito nos projetos para o futuro da maioria das
domésticas, e isso, com freqüência, dá-se muito mais entre as domésticas não-
nascidas em Fortaleza (Gráfico_4): 73,4% das migrantes exprimiram vontade de se
casar, ao passo que essa taxa atinge apenas 57,1% entre as nativas da capital.
Isso ocorre mais freqüentemente também entre as migrantes recém-chegadas em
Fortaleza (Gráfico_5), sendo que o índice das intenções de casamento decresce
com o tempo de residência: a proporção de domésticas que desejam se casar
alcança 81,0% entre as migrantes presentes na capital há menos de um ano e
70,0% entre as que chegaram há seis anos ou mais. A variação da taxa em função
da origem geográfica, ou do tempo de permanência em Fortaleza, não resulta de
diferenças de estrutura etária das subpopulações, ou seja, da maior juventude
das nativas da capital ou das migrantes ali instaladas recentemente, uma
juventude que poderia gerar, pelo menos provisoriamente, uma menor preocupação
matrimonial. Testemunha, ao contrário, maior dependência das jovens do interior
para com o casamento, o qual permite seu acesso à posição adulta e para com a
instituição familiar que lhe é subseqüente (Entrevista 1). É apenas com o
prolongamento da estada em Fortaleza que o projeto matrimonial das migrantes
será adiado: o valor do indício das intenções de casamento dessas últimas
aproxima-se, então, das nativas, mas sem atingi-lo.
Como explicar o maior apego das migrantes e, entre elas, das migrantes recém-
chegadas em relação ao casamento? O matrimônio e a família revestem-se -
tanto para as mulheres como para os homens - de uma importância econômica e
social fundamental no meio dos pequenos agricultores de onde se originam as
migrantes. A atividade produtiva, organizada em base familiar, repousa na
complementaridade do trabalho feminino e masculino, adulto e infantil. Além
disso, o casamento, indissociável da constituição de uma descendência, inscreve
cada indivíduo em correntes de trocas interfamiliares, cuja estrutura revela a
prioridade das relações de filiação sobre as de colateralidade (Entrevista 2);
essas correntes de trocas hierarquizadas constituem o suporte mesmo da
estruturação social das comunidades rurais. Ademais, o mercado de trabalho
feminino dos municípios do interior contribui também para aumentar a
dependência das mulheres para com a instituição matrimonial. As poucas
oportunidades de emprego fora do lar, assim como a subordinação do trabalho
feminino à família - de origem ou de procriação - não autorizam as
moças a encarar a possibilidade de uma carreira profissional. A taxa de
atividade de mulheres com mais de dez anos residindo na zona rural cearense era
de 29% em 1990, ou seja, um nível inferior ao daquelas que residiam numa área
urbana, cuja taxa de atividade alcançava 39%.7 Por fim, os empregos oferecidos
às mulheres residentes na área rural são muito pouco diversificados: seis
mulheres em cada dez trabalhavam quer na agricultura - onde 90% entre elas
são recenseadas na categoria "responsável ou membro não remunerado da família"
-, quer no artesanato, atividade desenvolvida, na maioria das vezes, em seu
próprio domicílio. Em função de dados como esses, François de Singly (1994)
constata que o casamento desempenha um papel maior na determinação do estatuto
feminino, formando um dos fundamentos da identidade social das mulheres. Nas
entrevistas, o estatuto de casada outorga à mulher um valor simbólico expresso
em termos de respeito. Solteira, a mulher é somente a "metade de uma laranja".
Casando-se, ela cumpre o seu destino, definido pela "lei da natureza", e se
torna assim uma mulher... completa. Os benefícios da vida conjugal sobre o
valor simbólico das mulheres são revelados, pelo lado negativo, nos casos de
separação, cujos efeitos são diferenciados conforme o lugar que a mulher
separada ocupa na hierarquia social, o que mostra a dependência feminina
desigual em relação ao casamento (Entrevista 3).
Eleunice: Meu maior objetivo na vida é encontrar a pessoa certa. Meu
sonho é ter filhos e acho que quando a gente encontra a pessoa certa,
todo mundo quer se casar. [...] o casamento faz parte da vida de todo
mundo, é o futuro, a gente constrói uma família, acho que é
importante (Entrevista 1).
Nilda: Acho que todo mundo, ou quase todo mundo, pensa em [se] casar,
quer casar. Para qualquer pessoa normal, é bom casar, ter filhos,
marido e quando eu for velha ter pessoas para cuidar de mim, não
quero ter uma velhice solitária porque quem sabe se na minha velhice
vou ter meus pais para cuidar de mim. Não sei se meus irmãos e minhas
irmãs vão querer cuidar de mim, se eu tiver filhos é melhor. Acho que
é bom ter sua casa, seu próprio canto (Entrevista 2).
Evanisa: Se a mulher for separada, tem muitos homens que não vão dar
valor, isso quando ela é pobre. Quando é separada, que ela tem seu
apartamento, que ela tem seu carro, que ela tem tudo, que ela tem seu
trabalho, aí chove de homens. Agora se uma mulher for separada e se
for pobre, tem nada, os homens não querem dela. Chegam apenas com a
idéia de fazer sexo e pronto, usá-la, a mulher não tem mais valor
para eles (Entrevista 3).
Em suma, apesar de as domésticas deixarem seu município quando entram no
mercado matrimonial local, a coincidência entre esses dois calendários não pode
ser explicada por qualquer rejeição ao casamento: as jovens migrantes
representam seu futuro conforme o modelo que define o acesso das mulheres à
posição adulta a partir do matrimônio, modelo cujos contornos são desenhados
pelo meio de origem. Devemos ver, portanto, nestas primeiras observações, a
invalidação da hipótese inicial ou continuar trilhando o caminho do casamento,
interessando-nos, mais especificamente, pelo estado do mercado matrimonial
local? Com efeito, levando em conta a amplitude dos movimentos migratórios que
atravessam o Ceará, uma hipotética escassez relativa de homens, nos municípios
de origem das domésticas, devido a uma alta emigração masculina, teria como
conseqüência obrigar as moças casadouras a se deslocarem.
O valor social dos rapazes do interior
Quando se compara a taxa de masculinidade da população rural dos municípios de
nascimento das domésticas8 e a dos outros municípios cearenses, pode-se
observar que os lugares de origem das migrantes se caracterizam por taxas de
masculinidade elevadas (Gráfico_6). Em outras palavras, as domésticas
freqüentemente provêm de municípios nos quais, na zona rural, a razão de sexo é
bastante desequilibrada. Porém, não são todos os homens que estão em idade de
se casar, e a abundância de idosos ou crianças não poderia satisfazer os
desejos femininos de conjugalidade. Nesse sentido, a Tabela_2 apresenta, por
faixa etária, a taxa de masculinidade das zonas rurais cearenses, discriminando
os municípios de origem das domésticas dos demais municípios. Nos primeiros, as
mulheres encontram-se numa situação de escassez relativa favorável a seu
casamento - o número de mulheres é deficitário na faixa etária entre quinze
e 29 anos. Pode-se perguntar, a propósito, se o excedente masculino, observado
nos municípios de origem das domésticas, não torna as uniões mais precoces, já
que a questão do casamento estaria mais presente para as jovens nascidas em
municípios com menor número de mulheres. Nos outros municípios, a diferença
homens/mulheres, apesar de positiva, está mais equilibrada. Assim, quando se
analisa os dados relativos aos municípios onde nasceram as domésticas,
verifica-se que a zona rural destes são peculiarmente bem providas de homens em
idade de se casar. Portanto, a hipótese de déficit masculino não explica
absolutamente a migração das domésticas, ao contrário, há uma ligação entre o
excedente masculino e a saída dessas jovens. O problema consiste, então, em
interpretar esse fato, ou seja, descobrir por que as mulheres que aspiram a um
estabelecimento social autonômo pelo matrimônio deixam seu município,
caracterizado por uma taxa de masculinidade alta. De uma situação propícia ao
casamento, elas partem para Fortaleza, onde o contingente masculino é muito
deficitário a partir de dez anos de idade, chegando a ser bastante
significativo entre quinze e 29 anos (Tabela_3). Talvez o excesso de homens nos
municípios de origem não seja o bastante para realizar os projetos
matrimoniais. O que estaria em causa não seria então a quantidade, mas a
qualidade dos cônjuges potenciais disponíveis localmente, ou seja, seu valor
social. Ante a desvalorização dos homens daqueles municípios, as mulheres
optariam por um mercado que oferece maior diversidade. Nessa perspectiva, a
migração para Fortaleza poderia ser definida como uma "mobilidade de prospecção
matrimonial" (Bozon, Héran, 1987).
Uma estratégia de reconversão?
Verificar a validade da hipótese referida implica previamente elaborar o perfil
dos cônjuges potenciais e, então, circunscrever o campo de suas alianças, dando
enfoque às modalidades de formação dos casais nas zonas rurais.
As práticas matrimoniais nas comunidades rurais cearenses
A possibilidade de escolha de um parceiro é limitada por várias "circunstâncias
exteriores" (Girard, 1964), entre as quais a extensão do espaço -
geográfico e social - no qual vive um indivíduo. Para delinear com precisão
as categorias de maridos elegíveis, analisaremos, a seguir, as fronteiras e a
composição social do espaço percorrido pelas mulheres.
O controle parental na formação das alianças
Se as crianças - meninos e meninas indistintamente - desfrutam de
grande liberdade de circulação, quando atingem sete, oito anos, começa a
instaurar-se no seio da frátria uma diferenciação sexual de tarefas, em que
cada um é, então, circunscrito preferencialmente num espaço privado ou público,
conforme o sexo. Essa reorganização intrafamiliar é a ocasião em que se aprende
os papéis e as posições reservados a cada sexo, cujas atividades serão,
doravante, muitas vezes separadas. As meninas, fora do grupo familiar, passam a
ter uma autonomia limitada. Seus deslocamentos e relações serão fiscalizados.
As festas da aldeia ou em um perímetro próximo às quais elas são autorizadas a
participar (a partir da idade de doze anos), sob a vigilância de um irmão mais
velho ou de uma irmã casada, são os principais momentos de encontro entre
jovens. Assim, as moças permanecem confinadas aos espaços da vizinhança, e
quando têm a oportunidade de sair, fazem-no sob o olhar de um membro da
família. Nessas condições, a extensão da área geográfica na qual se contratam
as alianças matrimoniais é muito limitada e a endogamia comunal chega a níveis
elevados. Em outras palavras, a proximidade geográfica é um fator determinante
na formação das uniões. Ora, os espaços da vizinhança que a vigilância dos pais
permite às moças são, muitas vezes, habitados por famílias ligadas pela
consangüinidade ou pela afinidade. Em conseqüência, as chances de se
estabelecer relações amorosas - ou amigáveis - com pessoas aparentadas
ou aliadas são bastante altas. Os amigos são muitas vezes parentes colaterais
- irmãs, primas ou mesmo tias, quando a diferença de idade as aproximam
- e os cônjuges, parentes afins. Portanto, a fiscalização que exercem os
pais nos encontros de suas filhas tende a privilegiar o casamento entre
parentes, levando ao que Tina Jolins, Yvonne Verdier e Françoise Zonabend
(1970) chamaram de "reencadeamentos de aliança".
Ao controle indireto dos pais na formação das uniões que se manifesta pela
vigilância dos deslocamentos das moças, soma-se um controle direto que intervém
menos para impor um futuro esposo do que para proibir um casamento que ameace
os interesses simbólicos - como no caso de Nilda - ou econômicos da
família.
Tive um namorado, namorei muito tempo com ele, comecei quando tinha
doze anos e ele tem três anos a mais do que eu. Tem uma irmã que na
época era casada com meu irmão. Quando meu irmão se separou dela,
teve muitas brigas entre eles. Meu irmão foi embora e sua mulher
voltou a morar na casa de seus pais, aí teve muitas brigas porque
nossas duas famílias eram vizinhas. Quando meu irmão se separou, meu
pai disse que eu também devia terminar com meu namorado mas a gente
não queria, aí continuou a namorar mas escondidos e pouco tempo
depois engravidei. Quando meu pai soube, ficou com raiva porque
pensava que eu tinha feito de propósito mas na verdade era inocente,
sem experiência e meu namorado também. Aí meu pai disse que sentia
pena pelo que tinha acontecido mas que não dava mais para voltar
atrás, que não podia fazer nada porque não queria que eu me casasse
com o rapaz mas não queria também criar meu filho, queria que fizesse
aborto. Meu pai, minha mãe, minha família toda queria, concordava com
eles. Aí fui morar na casa da minha irmã, fui para Santa Quitéria
morar com ela para que eu e meu namorado não nos vejamos mais, porque
nosso casamento não podia dar certo, meu pai não concordava, seu pai
também, nem minha mãe, ninguém queria que a gente se casasse. Aí fui
na casa da minha irmã. Na verdade, minha família me entregou a minha
irmã como uma mercadoria para que ela faça tudo que tinham decido. Se
por acaso o aborto não puder ser feito, quando a criança nascer,
devia ser dada logo a uma pessoa que eu não conhecia.
Menos que o nascimento de uma criança ilegítima, está a derrogação à obrigação
de solidariedade, que Nilda deveria ter manifestado com seu irmão, deixando de
encontrar seu namorado, já que isso prejudicava a honra familiar.
Contudo, nem sempre as moças se conformam à vontade paterna. Nilda continuou,
durante algum tempo, sua relação amorosa, apesar de proibitiva. E se até pouco
antes do nascimento Nilda submeteu-se ao veredicto familiar - não tendo
abortado teria de dar a criança a uma família "adotiva" -, após o
nascimento, ela decidiu criar sua filha, arriscando, com isso, provocar uma
ruptura familiar.
Disse a minha irmã: "vou te dizer uma coisa que não vai gostar mas
infelizmente para você e felizmente para mim, não vou dar essa
criança, vou ficar com ela, vou fazer o que precisar, vou pedir
esmola se precisar mas não vou dar". Ela ficou chateada porque não
sabia como dizer a meu pai. Foi falar com ele dizendo que eu queria
que eles entendessem, que me aceitem com minha filha. Fiquei lá na
casa da minha irmã esperando a resposta. Quando voltou, minha mãe
tinha mandado tudo, fraldas, mamadeira. Nasci pela segunda vez.
Passei ainda 28 dias em Santa Quitéria, aí minha mãe veio me buscar
com minha filha. A gente chegou em casa e meus dois irmãos não
queriam minha filha. Ficavam zangados porque achavam que tinha feito
uma coisa muito ruim: ter uma criança sem estar casada e em seguida
criar problemas. Nem queriam que eu me casasse com meu namorado, aí
ter filho era pior. Aí ficaram um mês sem ir na casa dos meus pais.
Aí meu pai chamou eles, explicou que não podiam me desprezar por
causa disso, que podia acontecer com todo mundo, que eu não era a
primeira. Não entravam no quarto da menina, nem olhavam para ela mas
eu dizia nada. Depois de alguns tempos, foram ver a menina e sei que
hoje é o coração da casa, nem uma mosca pode tocar nela, tem 5 anos e
tudo mundo adora ela.
A oposição dos pais nem sempre também é suficiente para impedir seu casamento.
Um meio de forçar o consentimento familiar consiste na fuga com o moço
reprovado. Normalmente, quando isso ocorre, os jovens buscam o apoio de um
membro da família do rapaz - irmãos ou tios -, que os hospeda
provisoriamente e desempenha o papel de intermediário para formalizar o
casamento com os pais da jovem que, por sua vez, se sentem na obrigação de
aceitar a união, pois a fuga, nesse caso, equivale à perda da virgindade da
moça. Mas chegar ao ponto de se opor ao casamento não é algo recorrente, nem
tão necessário, já que as jovens aprenderam desde a infância a se submeter ao
interesse familiar garantido pelo pai. Ademais, como observou Bernard Vernier
(1991) em sua análise sobre a sociedade karpathiota, "a posição social de um
indivíduo dependia, antes de tudo, da de seus pais. É preciso levar em conta a
extrema dependência dos filhos [...] para entender melhor sua submissão às
decisões familiares". Quando essa submissão exacerba as tensões no seio da
família pelos constrangimentos rigorosos que pesam sobre os membros do grupo, à
medida que os conflitos intrafamiliares ameaçam a continuidade das relações, há
o incentivo a procurar acordos. A irredutibilidade do pai de Nilda foi quebrada
ao aceitar a decisão de sua filha de ficar com o bebê porque, alguns anos
antes, uma de suas filhas, a mais velha, recusando sujeitar-se à sua vontade,
fugiu do domicílio parental com dezessete anos, rompendo, desde então, qualquer
contato com sua família. Ora, a pertença a um grupo de parentesco determina não
apenas a posição de cada um no seio da comunidade, mas também sua identidade
social. Nas palavras de Martine Segalen (1984):
[...] encerrado na sucessão das gerações, inscrito em redes de
colateralidade, referenciado em relação à origem geográfica familiar,
cada um reconhece seu lugar. As redes dão um sentimento de
estabilidade, de pertença, funcionam como um sistema de
identificação.
Foi categórica a resposta de uma jovem quando lhe foi sugerido a possibilidade
de romper as relações com sua família: "acho que não poderia ficar sem vê-los,
seria como se não tivesse dono".
Os usos sociais do parentesco
A mobilização dos pais, assim como a dos irmãos e das irmãs de Nilda para
impedir sua união, testemunha o cuidado que as famílias tomam na escolha dos
cônjuges: as alianças não dizem respeito apenas a dois indivíduos, mas envolvem
vários grupos familiares - o que Nilda e seu namorado tinham ignorado. Na
realidade, o casamento representa um dos meios pelo qual as famílias constroem
ou consolidam toda uma rede de relações seletivas, indispensável à manutenção
dos grupos domésticos. Com efeito, cada unidade de residência é composta por
uma família nuclear.9 Diferentemente do que alguns antropólogos e historiadores
observaram em várias sociedades camponesas, o casamento, apesar de ser precoce,
não significa a coabitação, inclusive temporária, das gerações, mas implica a
dissociação domiciliar do novo casal. Ora, a família nuclear se realiza
plenamente como unidade de produção autonôma apenas quando sua descendência é
numerosa e quando dela fazem parte adultos, jovens e crianças, constituindo um
grupo extenso e auto-suficiente de cooperação econômica interna,10 já que em
várias fases de seu ciclo de desenvolvimento requer ajuda exterior. As
comunidades camponesas, estruturadas a partir de relações estabelecidas entre
famílias nucleares na base do parentesco (biológico ou espiritual), conseguem
suprir a falta de mão-de-obra familiar para o cumprimento de tarefas cotidianas
agrícolas ou domésticas. Os laços de parentesco constituem a melhor garantia
para assegurar a ajuda imprescindível da vizinhança; o grau de proximidade
familiar entre os grupos domésticos condicionam a amplitude e a estabilidade de
seu apoio mútuo. Assim, as alianças são muito pouco determinadas por
estratégias de ordem patrimonial. Visam menos a evitar a dispersão dos bens
familiares, ou a favorecer sua acumulação, do que a criar redes de
solidariedade permitindo a cada um continuar sua vida. Max Weber (1985)
observou que, numa economia tradicional, "o homem não deseja, "'por natureza"',
ganhar cada vez mais dinheiro, deseja simplesmente viver conforme o hábito e
ganhar tanto dinheiro quanto precisa para isso". Essa proposta é corroborada
por diversos estudos consagrados ao processo de formação e de transformação da
sociedade camponesa brasileira (Candido, 1964; Durhan, 1973; Menezes, 1976).
Candido, por exemplo, interessado pelas condições sociais que presidiram a
constituição da cultura caipira, concluiu que a abundância de terras férteis,
associada à precariedade dos modos de ocupação das terras e a uma baixa
densidade demográfica, propiciou o surgimento de um sistema cultural, cuja
característica reside na desambição. Para as famílias do pequeno campesinato, o
principal enjeu das trocas matrimoniais não é, então, melhorar a posição de
seus filhos no campo social, mas mantê-la. Trata-se de uma manutenção que
precisa recorrer ao auxílio de vizinhos, garantido pela inserção numa rede de
parentesco. Daí o controle parental na escolha dos cônjuges, privilegiando as
uniões que envolvem duas famílias já aparentadas. Esse tipo de casamento é
garantido indiretamente pela pequena autonomia consentida às jovens que, além
disso, são incentivadas desde criança a submeter-se ao interesse familiar,
visto que sua posição e identidade são definidas pelo pertencimento a um grupo
de parentesco. Nessas condições, ao ficar em seu município de origem, elas
estão destinadas a desposar homens de sua aldeia; em contrapartida, para
ampliar suas opções matrimoniais, necessitam ir embora.
A alteração das condições de reproduçãodo pequeno campesinato
A estreita dependência entre os campos matrimonial e econômico já foi atestada
por numerosos estudos de antropologia (Bourdieu, 1972; Segalen, 1984; De
Singly, 1994). Tal relação sugere a importância de se analisar as condições de
reprodução do pequeno campesinato e sua evolução, sobretudo em se tratanto de
entender, como no caso da presente pesquisa, por que há "desvalorização social"
dos rapazes na zona rural em questão. Assim, a migração das domésticas para
Fortaleza, determinada por objetivos de ordem matrimonial, poderia ser
analisada como uma estratégia de reconversão de sua posição, desenvolvida pela
pressão de mudanças econômicas estruturais que as teriam levado a "mudar para
se manter" (Bourdieu, Boltanski, Saint-Martin, 1973). Com efeito, as
transformações socioeconômicas ocorridas desde os anos de 1950 na agricultura
cearense modificaram profundamente o perfil dos parceiros potenciais ao alcance
dessas mulheres.
O aumento da população agrícola (801.491 pessoas trabalhavam na agricultura em
1960, enquanto em 1995 este número passou para 1.170.724) foi associado a uma
recomposição interna ao campesinato, a qual pode ser apreendida a partir da
evolução da superfície dos estabelecimentos agrícolas, por um lado, e dos modos
de exploração das terras, por outro. Entre 1950 e 1995, o número total de
estabelecimentos agrícolas no Ceará foi multiplicado por 3,9, passando de
86.684 para 339.217. Mas são as pequenas unidades produtivas (menos de dez
hectares)11 que registraram a maior progressão (de 19.607 para 245.312) e sua
proporção, no total, expandiu de 22,6% em 1950 para 72,3% em 1995. Nessa
classe, são os minifúndios com menos de dois hectares que mais cresceram: o
número foi multiplicado por 34 no correr dos 45 anos estudados, e sua proporção
no total das pequenas unidades passou de 18,1% para 49,6%. Esse incremento
realizou-se em detrimento das unidades de cinco a dez hectares, visto que estas
representavam quase a metade dos pequenos estabelecimentos em 1950 e apenas
16,0% em 1995. Quanto aos estabelecimentos médios e grandes, seu peso relativo
assinalou uma regressão importante: respectivamente, de 54,1% para 22,5%, e de
23,3% para 5,2%. A fragmentação das unidades está associada à expansão de modos
indiretos e inclusive precários de apropriação da terra (Gráfico_7): a curva de
evolução da proporção de estabelecimentos com menos de cinco hectares e a da
proporção de arrendatários e ocupantes apresentam um movimento similar. Se em
1950, 81% das unidades eram dirigidas por proprietários, essa taxa atingia
somente 47% em 1995; simultaneamente, a proporção de arrendatários e ocupantes
passou de 8% para 50%. No entanto, a evolução da repartição das superfícies
agrícolas, segundo a condição do responsável, indica que a proporção de terras
cultivadas por proprietários permaneceu, comparativamente, constante no
decorrer do período (72%, em 1950, e 64%, em 1995), pois a redistribuição dos
modos de apropriação da terra variou muito em função do tamanho das unidades
produtivas. Destarte, a propriedade está cada vez menos relacionada aos
pequenos estabelecimentos que, por sua vez, se caracterizam pela precariedade
do sistema de exploração: em 1970, 48% dos pequenos estabelecimentos eram
compostos por terras próprias; em 1995, essa percentagem era apenas de 33%. Nas
unidades médias e, sobretudo, nas grandes, as condições de uso da terra
passaram a se apresentar, ao contrário, notavelmente estáveis.
As importantes mudanças que afetaram as estruturas agrárias cearenses
conduziram à precariedade da condição e da posição do pequeno proprietário. A
exploração de minúsculas parcelas herdadas não possibilita mais a reprodução da
economia familiar. Para permanecer na agricultura, uma porção crescente de
famílias tem de arrendar ou ocupar as terras ou procurar atividades
complementares. Na agricultura, a mão-de-obra progrediu muito (de 46% entre
1960 e 1995, passando de 801.492 para 1.170.724). Contudo, esse aumento resulta
exclusivamente do crescimento do número de pequenos estabelecimentos explorados
pelo trabalho familiar. As unidades médias e, sobretudo, grandes, suscetíveis
de contratar assalariados, registram regressão de pessoal ocupado
(respectivamente -26% e -52% entre 1960 e 1995). Então, se a população agrícola
cresceu foi por causa, antes de tudo, do crescimento do número de responsáveis
e membros não remunerados da família, que representavam 80% da força de
trabalho agrícola, em 1995, e apenas 45%, em 1960. O contingente de empregados
diminui bastante, tanto em valor relativo como em absoluto. Segundo os censos
do IBGE, em 1960, 44% da força de trabalho da agricultura era composta por
empregados temporários ou permanentes, em 1995, essa porcentagem caiu para 18%.
Na realidade, sob o aparente aumento da população agrícola, uma dupla mudança
se deu, reduzindo consideravelmente as capacidades de absorção da mão- de-obra
na agricultura: o crescimento da produtividade do trabalho nos estabelecimentos
médios e grandes e o aumento do subemprego nos pequenos. Ora, fora da
agricultura, as oportunidades locais de emprego são muito restritas. Os
municípios do interior (zonas urbanas e rurais) apresentam uma estrutura
socioprofissional pouco diversificada. Artesanato, serviços essencialmente
pessoais (confecção, sobretudo), pequenos estabelecimentos comerciais, ensino e
cargos político-administrativos, não chegam a oferecer recursos complementares
suficientes e, ainda, menores opções de reconversão. Assim, à medida que no
seio do pequeno campesinato a transmissão intergeracional do estatuto social
acontece com muitas dificuldades, as práticas matrimoniais homogâmicas dessa
população apresentam grande probabilidade de conduzir as jovens oriundas desse
meio à desclassificação social e, mais ainda, a uma desclassificação
permanente.
A procura dos fatores que determinaram o desprestígio dos homens no meio rural,
suscitada pela proposta deste estudo, segundo a qual uma lógica matrimonial
condiciona o deslocamento das jovens até Fortaleza, nos levou a verificar o
respaldo de uma hipótese formulada em termos de estratégia de reconversão.
Notamos que "as chances objetivas de reprodução do grupo" (Bourdieu, Boltanski,
Saint-Martin, 1973) pertencente ao pequeno campesinato são restritas
localmente, o que contribuiu para a diminuição do "valor social" dos jovens
nesse ambiente e a consecutiva migração das mulheres. Todavia, este modelo,
baseado apenas na leitura das estruturas econômicas, não dá conta da dimensão
subjetiva, essencial neste caso, cujo esclarecimento é indispensável à
compreensão da lógica dos comportamentos individuais.
Mobilidade geográfica e mobilidade social: o emprego doméstico
Como sinal de uma melhoria de sua posição social, as domésticas sintetizam sua
ida a Fortaleza com a expressão "mudar de vida", manifesta por meio do uso de
superlativos na evocação das circunstâncias da migração para a capital:
Matilde: Achava que eu ia ter mais liberdade aqui, que ia conhecer
melhor a vida, lá sabia de nada, aqui seria diferente.
Lucia: Decidi vir para cá para ter uma vida melhor.
alete: Fortaleza era perto da minha cidade, e era lá que queria
recomeçar.
Raimundinha: Fazia tempo que tinha vontade de vir. Minhas primas
encontraram um trabalho para mim e vim para questionar a vida, para
melhorar minha situação.
Deuslange: Desde criança eu queria vir, queria ter minha própria
vida, sem depender de ninguém. Aqui trabalho, ganho meu dinheiro,
quando quero um coisa eu tenho. Lá, quando as pessoas têm um
trabalho, ganham uma mixaria e nunca me conformei com a pobreza.
Entrevista de grupo: Saí de casa porque queria uma vida melhor e lá
não podia ter o que quero para mim. Aí escolhi mudar de vida, vim
trabalhar para comprar o que eu quero, o que eu desejo (Entrevista
4).
O desejo de ascenção social, expressado pelas domésticas entrevistadas, nos
permite interpretar a migração para Fortaleza como uma "conduta de mobilidade
social", no sentido que a definem Alain Touraine e Orietta Ragazzi (1961). A
partir de um estudo sobre os operários de origem agrícola, estes autores se
propõem a analisar a migração como uma "conduta orientada e significativa de um
ator", que resulta, ao mesmo tempo, "de constrangimentos ou de estimulações
econômicas e [...] de um projeto pessoal". Eles identificam, do ponto de vista
analítico, três casos gerais de passagem de emprego de trabalhador agrícola
para o de operário da indústria, definidos a partir do "tipo de decisão que
acarreta a mobilidade". Em primeiro lugar está o deslocamento. Quando numa zona
rural a oferta de trabalho aumenta, em função da implantação de uma empresa, o
trabalhador agrícola pode ser contratado sem deixar sua aldeia, ou instalando-
se numa aldeia vizinha. Nesse caso, "uma ocasião precisa deu forma a uma
intenção, talvez e mesmo provavelmente latente; a iniciativa não veio do
próprio indivíduo". Em segundo lugar está a partida. "Sempre querida ou pelo
menos aceita", corresponde à migração para um centro industrial: o trabalhador
agrícola "decide ir trabalhar numa usina, deixar a terra, tornar-se operário".
Por fim está a conduta de mobilidade social que supõe que "o indivíduo que
deixa seu meio social de origem seja dirigido por uma vontade ou uma
perspectiva de ascensão". Esses três tipos de movimento caracterizam-se por ter
objetivos diferentes: a empresa, para o deslocamento, a indústria, para a
partida, e a cidade, para a mobilidade social, sendo que a meta, nesse último
caso, é "antes de tudo, entrar na economia e na cultura urbana". Passa-se,
assim, de objetivos específicos para gerais e, acrescentam Touraine e Ragazzi,
"quanto mais o objetivo do movimento é geral, mais também seus fins culturais
adquirem importância em relação a seus fins diretamente econômicos". Tal
abordagem, que faz da migração o resultado de um projeto pessoal de ascensão
social, permite que não nos detenhamos em uma explicação exclusiva e
mecanicamente centrada nos contrangimentos econômicos e na "resignação à
necessidade" (Bourdieu, 1979) como fundamentos das práticas populares.
Ambições matrimoniais e seleção do cônjuge
A aspiração de promoção social manifestada pelas jovens se traduz também na
concepção que têm do casamento. Embora as migrantes encarem seu futuro conforme
a definição dos destinos femininos vigentes no seu meio de origem, definição
segundo a qual o casamento determina, para as mulheres, o acesso à posição
adulta, sua concepção do casamento, ao contrário, diverge. Enquanto nas
sociedades rurais as estratégias de aliança visam a garantir a continuidade das
posições sociais de uma geração para outra, as migrantes concebem o casamento
como um intrumento de promoção social: o modelo da homogamia foi substituído
pelo da hipergamia feminina. Daí o cuidado extremo na seleção do cônjuge:
Nilda: Nunca quis de um homem que sabe de nada, falo de uma coisa,
nem sabe do que estou falando, pergunto alguma coisa e nem sabe me
responder. Não. Quero alguém que sabe me responder, que tira minhas
dúdivas, não quero de um homem burro. Gosto das pessoas inteligentes,
educadas, que sabem um pouco de tudo, que sabem conversar, acho que é
muito importante, tem muito valor, quando você conhece alguém que
conhece as coisas, principalmente que sabe falar, acho que é bom, aí
você deve dar valor a isso (Entrevista 5).
Se o amor não é esquecido, se conjuga perfeitamente com o interesse:
Albanisa: Eu sou pobre, não vou me casar com um pobre!
Aparecida: Deus me livre de me casar com um homem pobre. Para sofrer?
Claro que eu não quero viver às costas dele, quero ter meu próprio
negócio, se tem dinheiro pode montar um negócio para mim.
Rita: Vou me casar quando vou ser apaixonada por um rapaz, quando vou
saber que ele me ame, que eu o amo de verdade, que ele tem um bom
emprego para poder se casar, se não tem um bom emprego como é que a
gente pode sobreviver? (Entrevista 6).
Do mesmo modo, a diferença que percebem entre casamento e concubinato, segundo
o estatuto socioeconômico do parceiro, testemunha a procura de uma ascensão
social pelo casamento:
Vilma: A gente pode viver juntos com um homem pobre, mas não com um
homem rico. Com um homem rico, a gente se casa. Se divorcia, a gente
tem direitos, a casa, tudo é dividido.
Nilda: Se o rapaz tem mais que a moça, acho que é melhor casar
(Entrevista 7).
Tal concepção do casamento tem forte incidência na escolha do marido. Com
efeito, enquanto nas comunidades rurais o controle parental delineia
estreitamente o círculo das uniões, o sistema de alianças é, apesar de tudo,
preferencial e não prescritivo, quer dizer, o cônjuge é escolhido e essa
escolha pertence aos filhos. Ora, Michel Bozon (1991) mostrou que a seleção de
um parceiro se efetua também "através de julgamentos que cada um faz sobre os
indivíduos que encontra". Assim, no mercado matrimonial, o conjunto dos
capitais que os jovens detêm, quer dizer, seu valor social, é objeto de
apreciação por parte das moças; seu resultado dependerá do valor social dos
homens, por um lado, e das categorias que as moças empregam para julgar esse
valor, por outro. À medida que as migrantes esperam do futuro marido uma
melhoria em sua posição social, um rapaz será avaliado em função de suas
potencialidades promocionais. Nessas condições, a desqualificação dos homens do
pequeno campesinato pode se referir não apenas a seu empobrecimento, que
compromete as chances de reprodução do grupo, mas também à redefinição dos
critérios de avaliação das moças; aliás é o que confirmam os resultados obtidos
a partir do estudo do retrato que as pesquisadas construíram de seu futuro
cônjuge. Com efeito, François de Singly (1994) constata que as mulheres
sensíveis a seu sucesso social e casadas com um parceiro de melhor nível
cultural, econômico e social são particularmente propensas a retraduzir esse
valor social superior em valor psicológico: "vêem seu parceiro como um
interlocutor atento, um confidente, uma pessoa que desempenha o papel de
"'terapeuta'" e de apoio". Do mesmo modo, conforme as observações de Michel
Bozon (1990), as qualidades psicológicas ou relacionais que as mulheres
reconhecem, de bom grado, em seu futuro cônjuge, por ocasião de seu encontro,
"remetem à posição social mais elevada do homem". Ao descreverem seu cônjuge
ideal, 88,9% das domésticas fazem referência a suas qualidades de ordem
psicológica (Tabela_4).
Também, segundo elas, são evidenciadas suas capacidades de comunicação conjugal
("escuta o que quero dizer", "conversa comigo", "me conta seus problemas"), de
compreensão ("sabe me entender"") e de proteção ("deve procurar me ajudar de
todo jeito", "está sempre do meu lado para tudo"). O lugar privilegiado que as
entrevistadas atribuem a esses critérios pode ser considerado como o indicador
da prioridade que outorgam à superioridade social do homen. É importante
assinalar que a freqüência com que são citadas as qualidades de natureza
psicológica fica estável qualquer que seja a duração de residência das moças na
capital ou no emprego doméstico; em outras palavras, suas ambições matrimoniais
não se desenvolvem posteriormente à sua chegada em Fortaleza, mas acompanham
sua migração e seu ingresso na domesticidade. Portanto, a "desvalorização
social" dos jovens camponeses resulta, certamente, da transformação das
estruturas agrícolas, que promoveu o empobrecimento daqueles que porventura
seriam os pretendentes naturais das moças, caso tivessem ficado em seu
município de origem. Este fator, no entanto, deve ser relacionado também a
mudanças de ordem cultural. Os processos ocorrem de maneira simultânea, ou
seja, o empobrecimento no meio rural é acompanhado pelo desejo de ascensão
social que passa a determinar as ambições matrimoniais das moças, o que
contribui para redefinir os critérios de avaliação e de escolha do cônjuge.
Novas normas passam a determinar o valor matrimonial: um esposo não deve se
contentar apenas em manter a posição social de sua mulher, deve também
assegurar sua promoção social.
Em suma, apesar de as oportunidades matrimoniais serem mais numerosas nos
municípios de origem das domésticas do que em Fortaleza, a prática homogâmica e
a preferência pelo casamento entre parentes, que, nas comunidades rurais, regem
as trocas matrimoniais entre as famílias, designam às moças parceiros pouco
suscetíveis de atender suas expectativas conjugais. O espaço social de seu
município de nascimento é, então, descrito em termos de imobilidade; e como não
muda, não oferece oportunidade de mudar:
Maninha: Lá a vida é como parada não tem progresso, as pessoas vivem
da casa para o trabalho, do trabalho para a casa e é assim, não tem
evento, nada de novo. O trabalho é sempre o mesmo, os homens
trabalham na agricultura e as mulheres em geral ficam em casa mas tem
algumas que ajudam os homens na agricultura.
Bethânia: Lá não tem jeito para mudar de vida. A única maneira que
você tem de mudar de vida quando você é uma moça pobre, é encontrar
um rapaz rico mas não tem rapaz rico que quer se casar com uma moça
pobre. Querem juntar o dinheiro para ser mais ricos (Entrevista 8).
O controle parental na formação das alianças é percebido como um encerramento
numa condição da qual as moças querem escapar, e a estreita vigilância de sua
conduta, que constitui o meio pelo qual esse controle se exerce, é considerado
um aprisionamento. Assim, a migração das moças até Fortaleza pode ser analisada
como uma "mobilidade de prospecção matrimonial", mas esta se inscreve numa
estratégia de promoção social pelo casamento. Deve-se levar em conta a dimensão
promocional das condutas das moças para se compreender a estreita relação entre
migração e domesticidade: mais de 75% das migrantes pesquisadas nunca haviam
residido em Fortaleza antes de trabalhar nesta cidade como domésticas. Para
satisfazer suas expectativas de ascensão social, precisam ampliar suas opções
conjugais, redefinindo a área de recrutamento de seu parceiro e libertando-se
da tutela parental e do controle familiar em geral. Ora, como a profissão de
doméstica implica a residência no emprego, permite às migrantes afastarem-se do
domicílio parental, libertando-as da ingerência familiar e da influência do
meio social de origem que predeterminam sobremaneira seu destino e sua posição
social. Assim, o deslocamento geográfico marca apenas o engajamento das moças
num processo de deslocamento social, cujo objetivo é a construção de uma nova
identidade social que o emprego doméstico deve possibilitar.
Os benefícios do ingresso na domesticidade
Noventa por cento das pesquisadas declararam nunca ter trabalhado antes de se
tornarem domésticas. As atividades remuneradas que exerciam antes de ingressar
nesse ambiente foram, freqüentemente, omitidas, tanto nos questionários como
nas entrevistas. Da mesma forma, quando interrogadas sobre quando começaram a
trabalhar de forma remunerada, muitas indicaram o primeiro emprego doméstico.
Na realidade, 25% das domésticias entrevistadas já haviam exercido algum tipo
de atividade remunerada, o mais das vezes, artesanal, quando residiam com seus
pais, e essas atividades inscreviam-se na divisão familiar do trabalho. O
salário das moças fazia parte da economia familiar: era entregue à mãe, que
cuidava da organização (aprendizagem, inclusive) do trabalho de suas filhas. A
lógica das despesas expressava a primazia da família e o lugar residual deixado
ao indivíduo (entrevista 9):12
Helena: Minha mãe fazia chapéus e engomava. Agora eu nunca aprendi a
fazer chapéus, minhas irmãs sabiam, menos eu. Minha função era
engomar e lavar, as pessoas me chamavam e eu dava o dinhero a minha
mãe, ela comprava o que queria, com o que sobrava, comprava roupas
quando achava que eu merecia. Eu trazia tudo para casa, não gastava
nada (Entrevista 9).
O emprego doméstico em Fortaleza, porque pressupõe a saída do lar, permite às
migrantes uma maior autonomia fora desse modelo de atividade subordinado à
família. Contrariamente a uma idéia muito difundida por uma concepção
economicista da domesticidade, o emprego doméstico não pode ser analisado
exclusivamente como uma estratégia para garantir a renda familiar quando os
pais inserem as meninas ainda muito jovens nesse universo. Essa análise pode
ser aceitável apenas para as meninas que ingressaram no emprego doméstico antes
de dez anos e, portanto, uma minoria (6,3%). Muitas vezes, elas exercem a
atividade de "babá", que consiste, sobretudo, em ser companheira de
brincadeiras das crianças dos patrões. A natureza das tarefas realizadas por
essas jovens muda, perdendo pouco a pouco seu caráter lúdico, quando, a partir
de treze anos, passam a guardar para elas mesmas seu salário até então
integralmente mandado aos pais:
Socorro: Não achava que fosse um trabalho, eu nem sabia o que era um
trabalho, fazia mas para mim era nada, era como se fosse uma
obrigação que tinha em casa, considerei como trabalho mais tarde, aos
12-13 anos. [O que você fazia nesta casa até 12 anos?] Só fazia
brincar porque là na minha casa tinha nada e aqui eles me davam
muitas coisas. Vim para brincar, para passar tempo com o menino.
[Depois você cresceu...] Aos 12 anos, comecei a lavar fraldas, dar
sopa, ajudar a preparar a comida, dar os remédios, pequenas coisas
assim. [E em seguida?] Acho que o serviço cresceu junto comigo, tinha
condição de fazer mais, aí devia fazer, como cuidar deles. Varria a
casa, passava o pano, fazia as compras.
Irene: Vim para brincar, era menina ainda. Aí quando cresci, ela [a
patroa] exigiu mais, cuidava da casa e quando tive 13-14 anos, a
cozinheira foi embora, aí ela me pediu para fazer o almoço, gostou da
minha comida, aí continuei até agora (Entrevista 10).
Fora esses casos, o emprego doméstico em Fortaleza, em virtude da separação
residencial, liberta as moças da obrigação de participar na economia familiar.
Assim, apesar de dois terços das domésticas afirmarem ajudar seus pais, elas
participam, na realidade, de maneira irregular na economia familiar com o envio
de dinheiro ou de bens materiais como roupas e remédios, e isto
independentemente de sua idade no momento da pesquisa ou do início da atividade
doméstica, ou ainda, do tempo de serviço. As mães reclamam e as domésticas o
confirmam:
[Você manda dinheiro a seus pais?]
Cleoneide: Quando vou lá e que posso dar, dou. Pode ser todo mês,
pode não ser, não tem momento fixo não.
Fátima: Não. Quando vou em casa, quando levo dinheiro, eu dou, quando
não tenho, eu digo logo: "vim apenas com o dinheiro da passagem".
Elsa: Não, ele [seu pai] pede mas meu salário é pouco pra dar.
Liane: Às vezes, mas não todo mês, às vezes, quando eu quero
(Entrevista 11).
O envio sistemático e regular de dinheiro, assim como visitas mais freqüentes à
família, ocorre quando os pais ficam cuidando dos netos enquanto as mães
trabalham como domésticas na capital.
Escapando ao olhar familiar, que limita a existência individual, as domésticas
esperam ter a liberdade indispensável à sua colocação no mercado matrimonial de
Fortaleza. Existe agora a liberdade de sair e, portanto, de encontrar pessoas:
Entrevista de grupo: Numa casa de família, eles [os patrões] não vão
ficar preocupados com você como sua própria família, você é uma
pessoa independente, quase livre. Você trabalha, ganha seu dinheiro,
compra o que você quiser, faz o que você quiser. Lá em casa, você não
pode, deve dar satisfação à família. Na minha casa, por exemplo, para
sair, tenho que pedir a meu pai e às vezes ele não deixava.
Evanisa: Posso sair na hora que eu quiser, tenho os amigos que eu
quiser, tenho o namorado que eu quiser. Vou num lugar, numa festa,
sem horário para voltar. Com meus pais, não tinha tudo isso, tinha um
horário para voltar, tinha que dizer com quem eu saía, onde acontecia
a festa [...] (Entrevista 12).
Salários baixos ou pagos de maneira irregular é um problema normalmente
negociado entre patrões e empregadas em termos de diminuição de carga horária
ou de trabalho, mas, ao contrário, o controle rígido de encontros ou a
limitação das saídas por parte do empregador torna-se rapidamente intolerável
para a empregada. A liberdade de gastar dinheiro também é outro fator
importante. Maninha, por exemplo, quando residia em Pacatuba com os pais,
trabalhava em casa como bordadeira. Quando completou treze anos passou a
trabalhar como doméstica em Fortaleza: "queria ganhar meu dinheiro, queria
comprar eu mesma, com meu suor, minhas coisas". O fato de elas não mais morarem
com os pais e estarem distantes geograficamente da família torna possível a
elas decidirem sobre o que fazer com sua renda, já que seu salário não faz mais
parte dos recursos familiares, a não ser de modo bastante irregular. As
"coisas" a que Maninha se refere consistem sobretudo em vestuário: 57% das
domésticas entrevistadas consideram ser este o principal item de suas despesas
mensais (essa taxa chega a 72% quando da exclusão das domésticas que possuem
filhos). Normalmente, as roupas não são compradas em lojas, mas de vizinhas ou
amigas que vendem a domicílio, ou de uma costureira que as confecciona sob
medida, sendo que o pagamento é parcelado. Os cosméticos, ao contrário,
representam pouco nos orçamentos. As domésticas usam, sobretudo, batom e o
perfume é, muitas vezes, dado pela patroa. Raramente o salário é economizado.
Um terço das moças poupam dinheiro, mas de forma irregular, para o caso de
serem demitidas ou para comprar alguma roupa mais cara. Quando ficam noivas, no
entanto, a poupança passa a ser mais sistemática e sua quantia mais elevada; as
somas servem para comprar enxoval e louças. Assim, os investimentos monetários
que realizam são, sobretudo, de ordem estética. Dando grande importância a
isso, as domésticas esperam mascarar sua origem e condição, redefinindo, assim,
seu lugar na hierarquia social: a qualidade das roupas e sua combinação são
indícios que servem para situá-las socialmente, e, em conseqüencia, para serem
avaliadas por um eventual cônjuge:
Rose: Quando a gente é bem vestida, pode encontrar alguém melhor.
Nilda: Um rapaz que vê a gente bem arrumada, acha que a gente é da
classe média. Os rapazes são desse jeito (Entrevista 13).
A diversidade do espaço social local
Esse desejo de ascender socialmente, tão transparente nas entrevistas, mostra
que as moças compartilham sua concepção de vida apenas parcialmente com seus
pais. Se a ambição marca a idéia de futuro dessas mulheres, a desambição
caracteriza a concepção dos pais, ou seja, o sistema de representações e de
valores das domésticas não é inteiramente herdado do meio familiar. Assim,
compreender as condições de desenvolvimento de suas aspirações é identificar os
fatores que contribuíram para dificultar a transmissão de valores entre as
gerações.
Uma primeira explicação diz respeito ao empobrecimento do pequeno campesinato.
Se as moças são pouco vinculadas aos valores tradicionais, é porque estes lhes
parecem ilegítimos à medida que se tornaram ineficazes para evitar a
desclassificação: os pais não são mais os fiadores de sua inserção social. O
destino pode, então, ser pensado em termos individuais. E é o que manifesta a
autodeterminação espontânea nos relatos de emigração ("eu não queria ficar lá",
"eu queria sair de casa", "sou eu que tomei a decisão", "logo [depois da minha
saída] não deixei mais ninguém mandar em mim, vou onde eu quero"), uma maneira
de significar o domínio de seu próprio destino oposto à submissão ao grupo
familiar, domínio que a emigração tornou possível.
Uma segunda explicação está relacionada à configuração socioespacial dos
municípios de origem das migrantes. Vários autores mostraram o papel
determinante que desempenham as características morfológicas do espaço local
nos fenômenos de reprodução social. Patrick Champagne (1986) observou que nos
municípios isolados geográfica e socialmente os valores tradicionais são
facilmente conservados e transmitidos, na medida em que, hegemônicos, impõem-se
como evidências. Ao contrário, nos municípios socialmente heterogêneos e
abertos a influênciais exteriores, os valores tradicionais não estão
garantidos. Nesse meio convivem e interagem indivíduos que ocupam posições
sociais variadas e que, portanto, são detentores de valores também diversos, os
quais são referências imprecindíveis para a avaliação das condições de vida
desses indivíduos. A fim de verificar a validade dessa proposição no caso das
domésticas, tentamos caracterizar a configuração socioespacial de seu município
de nascimento em relação aos demais municípios cearenses. Para isso, elaboramos
cinco indicadores13 a partir de dados estatísticos disponíveis. Três deles são
destinados a medir a maior ou menor homogeneidade socioespacial dos municípios:
proporção dos ativos ocupando um emprego fora da agricultura, número médio de
empregados nos estabelecimentos não-agrícolas e taxa de população urbana. Os
dois últimos indicadores permitem avaliar o isolamento geográfico, ou seja, a
distância de Fortaleza e o fato de o município ser ou não turístico. A partir
dessas variáveis,14 chegamos a um índice cujo valor fornece uma escala do
encravamento dos municípios cearenses. Cada modalidade foi afetada por um
coeficiente que vale entre 1 e 3, da seguinte maneira:
O índice total de um município foi calculado somando-se os coeficientes
atribuídos a cada modalidade das variáveis. Vai de 5, nível máximo de
encravamento, a 15, nível mínimo. Os resultados apresentados no Gráfico_8
mostram a pertinência das observações de Patrick Champagne (1986). O perfil dos
municípios de origem das domésticas e o dos demais municípios, ante os valores
tomados pelo índice, são bastante diferenciados. O primeiro caracteriza-se por
uma sub-representação dos índices, entre 5 e 7 (5,0% contra 63,6% para os
municípios onde não há recrutamento de domésticas), e uma sobrerepresentação
dos índices mais elevados (60,0% dos municípios de origem das migrantes têm um
índice entre 11 e 15, sendo essa taxa apenas de 12,7% para as outras
localidades). A atração por Fortaleza é muito pequena em municípios isolados e
socialmente homogêneos, e grande nos municípios que apresentam diversidade
socioespacial.
Em síntese, as aspirações de ascensão social, que levam as jovens a procurar um
cônjuge apto a melhorar sua posição, se desenvolvem sob a pressão de
transformações internas do pequeno campesinato, por um lado, e da
heterogeneidade do espaço social local, por outro. Se as famílias não conseguem
mais impor seu sistema de valores aos descendentes, é porque não somente se
tornaram incapazes de assumir seu destino, como também porque os municípios,
onde residem as famílias, acolhem populações diferenciadas, que proporcionam
aos indivíduos outras escolhas e, então, outras possíveis identidades sociais.
*****
Questionar os fatores que podem predispor mulheres jovens a emigrar,
trabalhando como domésticas em cidades grandes, levou-nos a explorar a
configuração demográfica de seus municípios de origem, que se caracteriza por
um grande desequilíbrio entre os sexos (o número de homens em idade de se casar
é maior do que o de mulheres). Chegamos à conclusão de que a migração das
jovens se inscreve numa lógica matrimonial, expressão de uma estratégia de
reconversão. Todavia, o pressuposto metodológico adotado, que consiste em
articular componentes estuturais e biográficos das experiênciais individuais,
revelou a dimensão de ascensão social do comportamento migratório das jovens,
dimensão esta que as leva a procurar um cônjuge apto a melhorar sua posição
social. Infelizmente, os dados da pesquisa nada dizem a respeito do que se
passou com essas mulheres depois de serem entrevistadas, ou melhor, como seus
projetos foram realizados.15 Convém ressaltar, entretanto, que o emprego
doméstico constitui um canal de acesso e de estabelecimento na cidade. Para 88%
das domésticas entrevistadas em Fortaleza, a migração aconteceu junto com o
ingresso na domesticidade. As moças encaram a migração - que representa, para
quase dois terços delas, a primeira experiência migratória desde o nascimento -
não como modo temporário de estada antes do regresso ao lugar de origem ou de
uma próxima partida em direção a novo destino, mas como modo definitivo de
instalação. Setenta por cento das domésticas declararam ter vindo à Fortaleza
com a pretensão de ficar. Reconstrução a posteriori? Pouco plausível, uma vez
que se sabe que a taxa é quase igual para as recém-instaladas. As domésticas
que exprimiram uma vontade de voltar à sua região de origem, ou de prosseguir
um caminho que as levaria até outro lugar, encontram-se preferencialmente entre
aquelas que não têm plano algum de permanência. Assim, as disposições iniciais
perduram, pois determinam de forma duradoura os projetos, que se traduzem por
uma vontade de enraizamento na cidade. E, de fato, é pequeno o número de
migrantes que retornam à sua região de origem para ficar, como o demonstra a
baixa incidência de herança profissional entre as mulheres que trabalham como
domésticas (somente um décimo das migrantes têm mãe que exerce ou já exerceu no
passado essa atividade). Então, a saída das moças é definitiva, conforme suas
pretensões iniciais. Ora, a domesticidade é um emprego de juventude e,
conseqüentemente, renova-se a um ritmo muito rápido: em 1991, dois terços das
domésticas brasileiras tinham menos de 25 anos, 60,0% delas agrupadas nas
faixas etárias comprendidas entre quinze e 24 anos. Em outras palavras, depois
dos 25 anos, muitas jovens deixam o emprego doméstico sem, contudo, voltar à
zona rural; destarte, se a proporção de domésticas na população urbana feminina
do Brasil atingia apenas 3,5% em 1995, a das antigas domésticas, infelizmente
impossível de ser avaliada a partir dos dados disponíveis, deveria ser muito
mais alta, o que nos leva a concluir, assim como Antoinette Fauve-Chamoux
(1998) em seu estudo sobre as cidades européias do século XVIII, que as
domésticas participaram ativamente da formação da população urbana brasileira.
NOTAS
1 Fonte: IBGE, Censo demográfico, 1991.
2 Trata-se aqui das empregadas domésticas que dormem no emprego, ou seja, as
que são classificadas pelo IBGE sob a modalidade "Empregado doméstico",da
variável "Condição na família". As diaristas estão, portanto, excluídas do
presente estudo.
3 Fortaleza é uma das capitais que apresenta não apenas um dos maiores
excedentes femininos do Brasil, assim como uma das maiores proporções de
domésticas em sua população (1,5%). A pesquisa de campo consistiu em:
Entrevistas individuais semi-dirigidas com empregadas domésticas (n = 48),
patroas (n = 13), mães de domésticas de Fortaleza (n = 12). Todas as mães
residiam em Camocim, município do litoral norte cearense, de onde eram oriundas
muitas domésticas já entrevistadas; Questionários com domésticas escolarizadas
(n = 150); Entrevistas de grupo com domésticas escolarizadas (quatro
entrevistas, ou seja, 41 domésticas); Exploração segundária dos dados da
pesquisa "Desemprego e subemprego no município de Fortaleza" realizada em 1991
pelo sine, com uma amostragem aleatória estratificada de 2.379 domicílios, o
que representa 11.374 indivíduos, entre os quais 162 domésticas; Exploração
secundária da base de dados Samba, 2000; Levantamento de dados estatísticos do
ibge sobre Fortaleza e os municípios cearenses.
4 Fonte: Sine, "Desemprego e subemprego no município de Fortaleza", 1991.
5 Esse resultado agrega os dados das investigações que conduzimos com as
empregadas domésticas, a saber: questionários, entrevistas de grupo e
entrevistas individuais (N = 240). A análise a seguir diz respeito às migrantes
cearenses que representam mais de 80% do total das migrantes; desse modo, foram
excluídas as oriundas de outros Estados.
6 Vale ressaltar que a migração dessas jovens é individual e direta entre o
município de origem e Fortaleza.
7 Fonte: IBGE, PNAD, 1990.
8 A fim de reduzir o efeito de flutuações aleatórias, foram considerados
municípios de nascimento das domésticas somente os que apresentavam, em nossa
amostragem, uma freqüência igual ou superior a cinco, o que representa um total
de 28 municípios. Entre os dois censos de 1980 e 1991, houve várias mudanças no
recorte administrativo dos municípios cearenses: 43 distritos tiveram acesso à
autonomia a partir do desmembramento de 31 municípios; as domésticas
entrevistadas, nascidas num município criado após 1980, podiam declarar como
lugar de nascimento o antigo município ou o novo. Em compensação, entre 1960 e
1980, apenas um município foi fracionado. Os limites da quase totalidade dos
municípios, portanto, não variaram entre essas duas datas que constituem o
período de nascimento de 95% das domésticas. Por isso, preferimos analisar a
partir das fronteiras municipais de 1980 (ou seja, um total de 140 municípios).
Os diversos dados relativos aos novos municípios foram incluídos nos dos
municípios iniciais. Trabalhar a partir de unidades geográficas estáveis
permitiu adotar uma perspectiva dinâmica no sentido de entender as mudanças do
contexto social no qual as domésticas foram criadas.
9 Segundo o censo de 1991, 75,1% dos domicílios particulares permanentes,
localizados numa zona rural cearense, constam de uma família nuclear.
10 A este propósito, ver Durham (1973).
11 Usamos a divisão determinada por Sadi Dal-Rosso (1980). As pequenas unidades
contam com menos de 10 ha, as médias, entre 10 e 100 ha, e as grandes, 100 ha e
mais.
12 A partir de pesquisas com homens migrantes de origem rural, Eunice Durham
(1973) chegou à mesma conclusão: "o trabalho que o jovem realiza com seu pai
nunca é mencionado na descrição das atividades profissionais. A atividade
agrícola é incluída pelo migrante na descrição de sua carreira apenas quando é
exercida como atividade independante, ou seja, como trabalho do indivíduo
adulto. Isto parece indicar que as crianças e os adolescentes não são
considerados trabalhadores, mas somente mão-de-obra familiar".
13 Todos os cálculos foram efetuados excluindo Fortaleza das contagens.
14 Cada variável é parcialmente correlata às outras; a que apresenta os maiores
coeficientes de correlação é a proporção dos ativos ocupando um emprego não
agrícola; a variável que apresenta os menores coeficientes é a distância de
Fortaleza.
15 Tentamos desenvolver uma pesquisa longitudinal mas, infelizmente, o
resultado dessa busca foi decepcionante: conseguimos localizar menos de um
quinto das moças já entrevistadas, tornando impossível qualquer análise do
devir das domésticas.