ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS: UMA REVISÃO DA LITERATURA SOBRE O PAPEL DOS
SUBSISTEMAS, COMUNIDADES E REDES
INTRODUÇÃO
A literatura sobre subsistemas foi inicialmente desenvolvida no contexto dos
estudos da ciência política estadunidense em meados dos anos 1950. Inseridos
num momento histórico marcado pelo em-bate teórico entre as hegemônicas
perspectivas elitista e pluralista de análise do processo político, os estudos
de subsistemas surgem como uma nova forma de compreensão da formação e atuação
do sistema político americano. Nos estudos recentes, o conceito de subsistema
de políticas (policy subsystem) tem ocupado espaço central em diversos modelos
teóricos, tendo sido considerado como unidade de análise privilegiada em
abordagens recentes sobre o processo de políticas públicas.
Para a compreensão desse conceito, é preciso contextualizá-lo na perspectiva
sistêmica dos estudos conduzidos no campo da ciência política nos Estados
Unidos. Nesse contexto, a literatura tem destacado três dimensões essenciais do
sistema político: o macrossistema, o microssistema e os subsistemas (Thurber,
1996). A primeira dimensão, os macrossistemas (macro policy systems), refere-se
às decisões que afetam diretamente uma política pública ou a estrutura de poder
em torno dela. Essa dimensão é caracterizada por um alto escopo de conflito,
uma vez que as decisões geram impactos visíveis sobre a sociedade e o sistema
político. Além disso,os macrossistemas são compostos de um grande número de
participantes com múltiplos interesses. São decisões que envolvem as principais
políticas de um governo, como as negociações sobre a aprovação final do
orçamento, sobre a política macroeconômica, cortes orçamentários, entre outros.
Essas questões são, frequentemente, controversas e de alta visibilidade,
fazendo com que as decisões tomadas afetem muitos indivíduos e despertem,
assim, a atenção da mídia e da opinião pública. A tomada de decisão política
nos macrossistemas traz para o processo de produção de política novos atores e
tomadores de decisão de alto nível, produzindo novas políticas que não poderiam
ser formuladas em outra dimensão.
No outro extremo, os microssistemas (micro policy systems) envolvem decisões
que geralmente não despertam a atenção do público. Neles são tomadas decisões
baseadas em alta complexidade técnica, envolvendo um número bastante reduzido
de tomadores de decisão que procuram restringir o acesso de outros
participantes. São questões que raramente aparecem nos debates eleitorais, na
imprensa e que ficam restritas aos técnicos dentro da burocracia pública. Os
microssistemas são caracterizados por um baixo e personalizado escopo de
conflito e por baixo número de participantes envolvidos, o que acarreta um
processo de decisão centralizado e praticamente invisível.
Por fim, entre o macrossistema e o microssistema, situam-se os subsistemas
(policy subsystems). Os subsistemas são compostos de um número limitado de
atores e instituições, geralmente reunidos em grupos mais ou menos coesos, que
se especializam e direcionam seus esforços para algumas questões específicas em
relação a uma política. Como resultado da divisão do trabalho e da
especialização da burocracia, as áreas funcionais, como educação, saúde,
transporte, meio ambiente, entre outras, são compostas de arranjos
institucionais e atores que tendem a se aglutinar em torno de programas ou
interesses específicos, no que é chamado pela literatura internacional de
"policy domain"1. O estudo do processo de produção de políticas públicas tem
revelado que, para a análise de uma política, não basta observar a organização
pública encarregada formalmente de sua formulação, implementação ou avaliação.
Para a análise de uma política, a literatura recente tem privilegiado a análise
dos subsistemas, espaços que têm recebido diferenciados tratamentos teóricos ao
longo das últimas décadas. Tal entendimento acerca dos subsistemas como
dimensão integrante do grande sistema político tem permitido o desenvolvimento
de uma extensa bibliografia em torno desses arranjos, suas características,
composição e impacto na produção de políticas públicas.
Entretanto, o conceito de subsistema de políticas é objeto de intensa discussão
teórica, principalmente quando justaposto a conceitos relacionados, como os de
comunidades de políticas (policy communities), redes de políticas públicas
(policy networks) e redes temáticas (issue networks). Tais conceitos podem
contribuir significativamente para análises sobre os processos de mudança em
políticas públicas, sobretudo em perspectivas que consideram o papel dos atores
por meio de suas ideias, seus conhecimentos e interesses. (Baumgartner_e_Jones,
1993; Sabatier_e_Jenkins-Smith,_1993; Howlett_e_Ramesh,_1998; 2003).
O presente estudo tem como objetivo apresentar a construção teórica em torno da
ideia de subsistemas, comunidades e redes de políticas públicas,bem como
discutir a incorporação e o desenvolvimento desses conceitos em modelos
teóricos recentes. Para tanto, na primeira seção apresentaremos o histórico
acerca da construção e ressignificação dos conceitos de subsistemas,
comunidades e redes, categorias mais recentemente utilizadas para a análise de
políticas e que promovem avanços significativos em relação a enfoques
tradicionais. As três seções seguintes são dedicadas à análise da apropriação
desses conceitos por três modelos recentes desenvolvidos no campo de políticas
públicas: o modelo de múltiplos fluxos (multiple streams), o modelo de
equilíbrio pontuado (punctuated equilibrium) e o modelo das coalizões de defesa
(advocacy coalition framework). Tais modelos tomam esses conceitos como base,
embora analisem de forma distinta suas influências no processo político. Na
sequência, apresentaremos estudos de caso baseados nesses modelos e que
permitem observar a aplicação dos conceitos como parte fundamental dessas
lentes teóricas, operacionalizando a relação entre atores, instituições, ideias
e mudanças em políticas públicas. Por fim, serão apresentadas as principais
conclusões sobre o estudo e perspectivas para investigações posteriores.
BREVE HISTÓRICO DOS ESTUDOS SOBRE SUBSISTEMAS, REDES E COMUNIDADES
Diversos autores procuraram analisar a dinâmica dos subsistemas e o padrão de
relacionamento dos atores participantes nessa dimensão do processo de políticas
públicas. Uma das primeiras análises a respeito dos subsistemas pode ser
encontrada no trabalho de Ernest_Griffith_(1939) sobre o que o autor denominou
policy whirlpools, ou centros de atividades focalizados em questões
específicas. Mais tarde, a noção de "subgoverno" (subgovernment), definido como
"pequenos grupos de atores políticos, tanto governamentais como não
governamentais, que se especializam em áreas temáticas específicas" (Ripley_e
Franklin,_1984, p. 7), aponta para a existência de grupos de atores envolvidos
em processos rotineiros de tomada de decisão em uma determinada área de
política e que podem permanecer ativos durante longos períodos de tempo.
Tido como o primeiro autor a definir propriamente o conceito de subsistemas, J.
Leiper_Freeman_(1955) define um subsistema como o padrão de interações entre o
conjunto restrito de participantes envolvidos na tomada de decisões em uma área
específica das políticas públicas. Opondo-se à perpectiva pluralista, cuja
definição se dá pelas "formas plurais de poder", o autor observa padrões de
interação existentes entre pessoas-chave internas ao Executivo, líderes de
comissões do Congresso e outros atores, especialmente grupos de interesse. De
acordo com Freeman:
[Este estudo] defendeu a utilização desse tipo de abordagem analítica
com base no fato de que o estudo do processo nacional de produção de
políticas no nível institucional mais geral do Congresso, do governo
e dos partidos políticos nem sempre fornece a compreensão mais
significativa dos fatores decisivos. [...] a diversidade social, a
multiplicidade de tipos de grupos especiais de pessoas que promovem e
defendem valores particulares na vida americana, resulta em
concentração seletiva do interesse público e da atenção na política.
(Freeman,_1955, p. 265)
Focalizando as relações entre esses grupos de atores na formulação de políticas
públicas no governo americano, seu estudo buscou demonstrar uma maneira útil de
examinar o processo político, revelando a existência de subunidades
(subsistemas) como lócus do processo de discussão de temas específicos,
construção de problemas públicos e formulação de soluções. Nos subsistemas,
esse grupo de atores, que podem ser servidores públicos, grupos de interesse,
pesquisadores acadêmicos, membros do Legislativo, representantes de governos
locais, entre outros, estabelecem redes de relacionamento e utilizam
estratégias de persuasão e barganha de forma a privilegiar seus interesses.
A análise dos subsistemas também levou à noção dos "triângulos de ferro",
abordagem que rompe com a perspectiva pluralista sobre a produção de políticas
públicas dominante nos anos 1950 e 1960 nos Estados Unidos. Pautados em
relações baseadas no intercâmbio de favores de mútuo interesse, três atores –
grupos de interesses, parlamentares e burocratas – controlariam o processo de
produção de políticas, excluindo a possibilidade de participação de outros
atores. Nesse sentido, há uma significativa mudança na concepção sobre os
principais atores e resultados do processo de produção de políticas. A
abordagem do triângulo de ferro, ao evidenciar a troca de favores e de
interesses privados mútuos como propulsor da policymaking, desconsidera a
existência da luta de grupos de interesses difusos, potencializando, assim, o
papel de legisladores, burocratas, agências regulatórias e grupos de interesse,
tornando-os atores capazes de influenciar a agenda do governo a seu favor
(Peters,_1986).
Uma das críticas mais incisivas à ideia de "triângulos de ferro" foi elaborada
por Heclo, no final dos anos 1970. Para o autor, o conceito seria incapaz de
explicar as conexões entre administração e política.
[...] o conceito de triângulo de ferro não é tanto errado quanto é
desastrosamente incompleto [...]. Preocupados em tentar encontrar os
poucos atores verdadeiramente poderosos, os observadores tendem a
ignorar o poder e a influência que surgem por fora das configurações
através das quais decisores políticos se movem e fazem acordos entre
si. Olhando para os triângulos de controle restritos, tendemos a não
ver as redes bastante abertas de pessoas que cada vez mais
influenciam o governo. (Heclo,_1978, p. 88)
Heclo propõe um olhar mais atento sobre os diferentes interesses em jogo, numa
visão da relação entre diferentes grupos sociais mais pluralista do que a visão
elitista, presente na ideia do "triângulo de ferro". O autor propõe,
alternativamente, o enfoque em "redes de temáticas", ou "issue networks".
Olhando para os poucos que são poderosos, tendemos a ignorar os
muitos cujas redes de influência induzem e orientam o exercício do
poder. Essas redes, ou o que eu chamarei de "redes temáticas", são
particularmente relevantes para as políticas de bem-estar altamente
complexas e confusas que foram realizadas nos últimos anos.(Heclo,
1978, p. 102)
Enquanto o conceito de "triângulos de ferro" parte do pressuposto da existência
de um grupo pequeno de participantes autônomos e relativamente estáveis,
reunidos de forma a exercer estrito controle sobre programas públicos que
afetassem seus interesses econômicos, as issue networks envolveriam uma
quantidade maior de participantes, que se relacionariam em diversos níveis de
comprometimento e dependência. Nessas redes, a permanência dos grupos seria
mais fluida e menos estável, no sentido de que os grupos ingressariam e sairiam
da rede constantemente. Além disso, o interesse material seria secundário: o
principal interesse dos participantes dessas redes seria o comprometimento
intelectual ou emocional. Assim, o elemento que os manteria unidos na rede é o
compartilhamento de uma base comum de informação e compreensão sobre uma
política e seus problemas.
Os conceitos desenvolvidos por Heclo foram aprofundados por diversos autores
durante as décadas seguintes (de 1980 em diante), destacando a fragmentação e a
ausência de um grupo (ou poucos grupos) dominante na produção de políticas
públicas. Seguindo Heclo, estudiosos de agenda-setting se debruçaram sobre as
definições de subsistemas, mas não sem antes efetuar importantes revisões.
Keith_Hamm_(1983) foi o primeiro a aplicar de forma sistemática a pesquisa de
Heclo para o estudo da formulação de políticas em âmbito federal. Como Heclo,
Hamm chama atenção para um processo político altamente descentralizado,
composto de "subgovernos" numerosos e complexos. O autor se concentra nas
relações entre os comitês do Congresso, grupos de interesse e agências
federais, e sua pesquisa indica que esses grupos trabalham em estreita
colaboração na formação de políticas públicas, muitas vezes produzindo
políticas em seu próprio benefício. Ainda que o processo de política seja
caracterizado de forma mais descentralizada, quando comparado ao modelo de
"triângulo de ferro", a proposta de Hamm se afasta do modelo pluralista quando
o autor sugere que as subunidades especializadas continuam a desempenhar um
papel central na produção de políticas.
O conceito de issue networks e os estudos que procuraram aprimorar a noção de
subsistemas de política produziram mudanças no entendimento de que um único
grupo de atores, bastante fechado e inacessível, possa exercer influência
direta sobre os problemas abordados pelo governo. No entanto, esses modelos não
necessariamente apoiam um modelo pluralista do processo político. Em vez disso,
as elites – ou technopols, para usar o termo de Heclo, ou committee staff, como
sugerido por Hamm – bem como os grupos organizados – ainda exercem uma parcela
desproporcional de poder indireto no processo de políticas públicas e nas
tomadas de decisão.
Outra influente perspectiva desenvolvida a partir do conceito de redes de Heclo
é a proposta de Rhodes_(1988), que desenvolve a ideia de redes de políticas
públicas (policy networks). Para Rhodes, as origens da ideia de rede residem na
perspectiva pluralista desenvolvida pelos estadunidenses e na literatura sobre
os subgovernos. Tal perspectiva permitiu o desenvolvimento de explicações sobre
o relacionamento entre o Estado e os diferentes grupos que buscam influenciar a
produção de políticas públicas, por um lado, e o interesse do próprio Estado em
obter apoio desses grupos. Tais padrões de relacionamento, aponta o autor, se
institucionalizam e se tornam parte do dia a dia das organizações públicas:
"eles [os grupos] são consultados antes que documentos sejam enviados para
consulta. Eles não fazem lobby. Promovem almoços. Esses padrões rotineiros,
estandardizados de interação entre governo e interesses de grupo se tornam
redes de políticas" (Rhodes,_2008, p. 427). Assim, as redes representam uma
abordagem que, de certa forma, rompe com a dicotomia Estado-sociedade, ao en-
tender que atores pertencentes aos quadros governamentais são também atores
sociais e mantêm relações constantes com outros atores numa rede de
relacionamentos.
Outro conceito, bastante relacionado à ideia de redes, é o de comunidades de
políticas públicas (policy communities), que se desenvolve entre os anos 1970 e
1980, sobretudo no contexto do Reino Unido. Embora ainda não haja consenso na
literatura a respeito de uma definição precisa sobre o termo, grande parte dos
pesquisadores associa a ideia de comunidades de políticas ao modelo de Rhodes.
As comunidades teriam as seguintes características principais: participação
limitada, alta integração entre os membros, consistência ao longo do tempo,
controle de recursos e distribuição balanceada de poder.
Uma comunidade de políticas tem as seguintes características: um
número limitado de participantes com alguns grupos conscientemente
excluídos; interação frequente e de alta qualidade entre todos os
membros da comunidade em todos os assuntos relacionados com as
questões das políticas; coerência em valores, filiação e resultados
das políticas que persistem ao longo do tempo; consenso, com a
ideologia, valores e preferências políticas gerais compartilhados por
todos os participantes; e relações de troca com base no controle de
alguns recursos por todos os membros da comunidade de políticas.
Assim, a interação básica envolve a negociação entre os membros com
recursos.Há um equilíbrio de poder, não necessariamente aquele em que
todos os membros se beneficiam igualmente, mas aquele em que todos os
membros se veem em um jogo de soma positiva. As estruturas dos grupos
participantes são hierárquicas para que os líderes possam garantir
membros cooperativos. Este modelo é um tipo ideal; nenhuma área de
políticas públicas é propensa a se conformar exatamente a ele.
(Rhodes,_2008, p. 427)
As comunidades configurariam um extremo da rede de políticas públicas, sendo o
outro extremo caracterizado pelas redes temáticas (issue networks). Segundo
Rhodes, as redes temáticas têm participação ampla, baixa integração entre os
membros, ausência de consenso, conflito e relações assimétricas de poder entre
os integrantes.
As redes temáticas são caracterizadas por: existência de muitos
participantes; interação e acesso flutuantes para os vários membros;
ausência de consenso e presença de conflitos; interação com base em
consultas em vez de negociação ou barganha; uma relação desigual de
poder em que muitos participantes podem ter poucos recursos, pouco
acesso e nenhuma alternativa. (Rhodes,_2008, p. 428)
Assim, as comunidades configuram, para Rhodes, uma modalidade específica de
rede, caracterizada por alta integração e padrões densos de relacionamento
entre os atores. No entanto, apesar da diferenciação proposta pelo autor, a
literatura especializada ainda não registra consenso em relação à aplicação dos
conceitos de redes e comunidades (Miller_e_Demir,_2007).
Apesar das imprecisões conceituais,a perspectiva de redes e comunidades de
políticas tem se expandido na literatura de políticas públicas, sobretudo a
partir dos anos 1990. Em tais abordagens, os diferentes tipos de relacionamento
estabelecidos entre os diversos atores (estatais e não estatais), desenvolvidos
num contexto institucional específico, explicam as formas pelas quais o sistema
político produz as políticas públicas. Explicar como os relacionamentos que se
estabelecem nas comunidades e redes são formados e como são alterados ao longo
do tempo,gerando mudanças nas políticas públicas,é o desafio dos principais
modelos de análise em políticas públicas na atualidade. Nas próximas seções,
buscaremos apontar como três modelos que se apoiam nessa perspectiva têm lidado
com essa questão.
SUBSISTEMAS E AS COMUNIDADES DE POLÍTICAS NO MODELO DE MÚLTIPLOS FLUXOS
A abordagem proposta por John_Kingdon_(2003)para explicar mudanças na agenda
governamental (agenda-setting) não só contribuiu para ampliar a compreensão
sobre o processo de produção de políticas públicas em relação ao momento da
formulação, mas auxiliou no entendimento de aspectos mais amplos do processo
político, como a natureza "anárquica" da tomada de decisão em organizações
burocráticas e a dimensão das ideias e dos atores organizados em tor-no de
comunidades de políticas.
As comunidades de políticas são centrais ao modelo de Kingdon, configurando um
elemento primordial para a análise política. O autor as caracteriza como um
conjunto de especialistas que atuam numa área específica (saúde, educação,
habitação, transporte etc.). Tais especialistas podem fazer parte do governo,
como assessores parlamentares, servidores do Poder Executivo ligados a
atividades de planejamento, orçamento, ou a áreas funcionais. Da mesma forma,
os especialistas podem integrar consultorias, grupos de interesse ou
universidades, em organizações estatais ou não. Em comum, os especialistas
compartilham preocupações com relação a uma determinada área de política.
Em algumas comunidades, as interações se processam de forma coesa e integrada,
como relata Kingdon_(2003) em suas experiências de entrevistas com membros de
comunidades.
Kingdon mostra que esses padrões de interação, presentes nas comunidades, têm
influência sobre a forma como as políticas são produzidas em cada área. Em
áreas de políticas nas quais comunidades são mais coesas (como no caso da
saúde), os integrantes compartilham perspectivas, orientações e referenciais
mais gerais sobre os temas que os unem. Dessa forma, os entendimentos são
compartilhados e a comunidade se torna cada vez mais integrada. Por outro lado,
em comunidades fragmentadas (como no exemplo dos transportes), a ausência de um
entendimento comum torna as próprias comunidades também mais instáveis. Como
resultado, a formulação das políticas de saúde tende a se apresentar de forma
mais estruturada, o que facilita seu ingresso na agenda, ao contrário das
questões oriundas de comunidades mais fragmentadas, como no exemplo da área de
transportes.
As comunidades são espaços importantes para a geração de ideias relativas a
soluções e alternativas que podem ser desenvolvidas e adotadas como políticas
públicas pelos tomadores de decisão. Muitos participantes apresentam em suas
comunidades propostas sobre o que fazer sobre uma determinada questão. Algumas
dessas propostas serão consideradas, enquanto outras serão descartadas pelo
próprio grupo. Propostas viáveis tecnicamente e adequadas aos valores do grupo
e do mundo político acabam alcançando consenso dentro de uma comunidade.
Portanto, as comunidades representam um importante espaço de experimentação,
debate e difusão de ideias.
É importante destacar que as comunidades funcionam de forma independente do
calendário eleitoral e das mudanças nos postos de comando da alta burocracia, e
também não são diretamente afetadas pelas pressões da opinião pública sobre a
ação governamental. As ideias geradas nas comunidades não estão necessariamente
ligadas a problemas a ser resolvidos pelo governo. O modelo, baseado em três
processos (ou fluxos) que afetam a formação da agenda governamental –
problemas, soluções e contexto político –, pressupõe certa independência entre
esses três elementos. Assim, o modelo assegura às comunidades papel fundamental
no desenvolvimento das ideias que podem ser adotadas pelos formuladores de
políticas. A atividade das comunidades, entretanto, não é condição suficiente
para que uma questão seja inserida na agenda governamental, uma vez que o
modelo destaca a importância da confluência entre propostas (geradas pelas
comunidades no fluxo de soluções), definição de problemas (no fluxo de
problemas) e um contexto político favorável (fluxo político). Ou seja, as
comunidades são fundamentais ao modelo, mas não explicam, por si sós, mudanças
em políticas públicas.
SUBSISTEMAS E MONOPÓLIOS DE POLÍTICAS NO MODELO DO EQUILÍBRIO PONTUADO
O modelo do equilíbrio pontuado foi proposto por Baumgartner_e_Jones_(1993)
para analisar longos períodos de estabilidade na produção das políticas
públicas, nos quais as elites dominam uma área de política, e também rápidos
períodos de mudança, nos quais não se verifica a preponderância dessas elites.
Os autores partem da perspectiva de que o sistema político é estruturado em
torno de arranjos que proporcionam benefícios contínuos para alguns grupos
privilegiados. Tais arranjos (e os autores se referem especificamente à ideia
de subsistemas) se formam devido ao processamento paralelo de decisões nas
organizações públicas.
Os sistemas políticos, como os seres humanos, não podem considerar
todos os problemas que enfrentam de forma simultânea. Assim, a
existência de alguma forma de subsistema de políticas pode ser vista
como um mecanismo que permite que o sistema político se envolva em
processamento paralelo. Milhares de questões podem ser consideradas
simultaneamente em paralelo dentro de suas respectivas comunidades de
especialistas. [...] O processamento paralelo de fato opera contra
mudanças políticas maiores, porque tende a ser isolado dos holofotes
da publicidade associada com a política do macrossistema. (True,
Jones_e_Baumgartner,_1999, p. 100)
Os subsistemas, para os autores, constituem-se como comunidades de
especialistas caracterizadas por participação limitada e mudanças lentas e
incrementais. Há, no entanto, momentos em que algumas questões escapam ao
processamento insulado nos subsistemas e acessam o macrossistema. "As questões
não podem ser sempre consideradas nos limites de um subsistema de políticas;
ocasionalmente intervêm forças macropolíticas" (True,_Jones_e_Baumgartner,
1999, p. 100). O acesso de uma questão ao macrossistema é o momento em que as
maiores mudanças numa política tendem a ocorrer, e isso geralmente se dá quando
outros participantes se tornam interessados, podendo gerar, como consequência,
mudanças nos próprios subsistemas.
Central ao modelo é o conceito, proposto pelos autores, de monopólios de
políticas (policy monopolies). Tais monopólios são caracterizados por dois
aspectos. Em primeiro lugar, um entendimento compartilhado – uma imagem (policy
image) – a respeito da política de interesse. Quando um entendimento específico
se torna dominante, os atores ganham a habilidade de controlar a interpretação
sobre um problema e a forma como este é percebido e discutido. Tal imagem
geralmente está associada a valores políticos e pode ser comunicada de forma
simples e direta ao público, reforçando o controle do monopólio sobre a
questão. Em segundo lugar, os monopólios são reforçados por arranjos
institucionais que mantêm o processo decisório limitado a um grupo pequeno de
atores, restringindo o acesso dos demais. Esses monopólios são responsáveis
pela manutenção da estabilidade na produção de políticas públicas e pela
restrição da inclusão de novas questões na agenda governamental.
Enquanto uma visão compartilhada sobre símbolos, problemas, soluções e relações
causais a respeito de uma determinada política prevalecer, restringir-se-á o
acesso ao processo decisório daqueles atores que não concordam com essa imagem.
Tem-se, então, a prevalência de mudanças lentas, graduais e incrementais,
configurando uma situação de equilíbrio na produção das políticas públicas. No
entanto, em alguns momentos, novos atores conseguem acesso aos monopólios,
criando instabilidade e a oportunidade de mudança na agenda. Isso geralmente
acontece, segundo os autores, devido a mudanças na forma como uma questão é
compreendida, ou seja, por meio de alterações na imagem de uma política.
Mudanças na percepção das questões, acontecimentos que focalizem a atenção do
governo, alterações na opinião pública, por exemplo, podem contribuir para a
alteração na imagem de uma política, permitindo o acesso de diferentes grupos
ao processo decisório e, dessa forma, favorecendo o acesso de novas questões à
agenda governamental. Quando uma questão ascende ao macrossistema, o monopólio
deixa de existir e o sistema se torna propenso à mudança, já que a atenção dos
líderes governamentais e do público pode levar à introdução de novas ideias e
de novos atores. As novas ideias e instituições tendem a permanecer ao longo do
tempo (policy legacy), criando um novo estado de equilíbrio no sistema
político, que, após um período, tende a voltar à estabilidade.
Assim, o modelo de equilíbrio pontuado toma como unidade básica de análise os
monopólios de políticas, destacando a relação entre instituições, atores e
ideias na estruturação de políticas. A abordagem desenvolvida por Baumgartner_e
Jones_(1993) apresenta um desenvolvimento importante na literatura sobre os
subsistemas, considerando não apenas a estabilidade característica destes, mas
os mecanismos de mudanças que impactam a produção de políticas numa determinada
área. Além disso, contribui para esclarecer as conexões entre o subsistema e o
macrossistema político.
SUBSISTEMAS E AS COALIZÕES DE DEFESA NO MODELO DAS COALIZÕES DE DEFESA
Inicialmente apresentado por Sabatier_e_Jenkins-Smith_(1993), o modelo das
coalizões de defesa (advocacy coalition framework – ACF) se propõe a analisar
mudanças nas políticas públicas destacando o papel da informação técnica no
processo de disputas que envolvem múltiplos atores em distintas esferas e
níveis de governo (Sabatier_e_Weible,_2007).
Ao adotar o termo "coalizão", os autores indicam que os atores estão inseridos
em um subsistema político, entendido pelos autores como o lócus onde ocorrem
discussões e debates de múltiplos atores motivados pela defesa de suas crenças.
Atores de diferentes origens e níveis de governo compartilham sistemas de
crenças específicos e atuam coordenadamente com o objetivo de tornar os seus
posicionamentos predominantes nos programas e políticas de governo.
O ACF [advocacy coalition framework] sugere que o nível e unidade de
análise mais útil é o grupo, por exemplo, as coalizões em um
subsistema de políticas definidas como um conjunto de agentes
envolvidos com o mesmo problema. O que importa é entender como as
coalizões são formadas, como adquirem recursos e desenvolvem crenças
políticas, e como elas tentam influenciar as decisões de autoridades
soberanas. (Zahariadis,_1998, p. 437)
Na perspectiva do modelo, as coalizões são geradas a partir de convicções,
opiniões, ideias e objetivos dos atores envolvidos no processo do "fazer"
política pública. Esse conjunto de ideais e convicções, unido aos recursos
políticos, formata as coalizões e concretiza os objetivos e os interesses dos
atores. São, portanto, as coalizões de defesa, dependendo de sua extensão e da
natureza da política em causa, que determinam quais atores participam no
sistema político (Sabatier_e_Weible,_2007).
Nesse processo, que busca influenciar a produção de políticas correspondentes
às crenças dos grupos inseridos nos subsistemas, o modelo destaca o papel dos
especialistas, entendidos como atores que podem orientar os processos de
aprendizado dentro de coalizões de defesa e entre elas. O aprendizado é
beneficiado pela análise dos resultados e impactos das políticas, realimentando
assim o subsistema através da modificação de crenças, convicções e recursos.
Subsistemas interagem com os amplos sistemas social, econômico, legal e
institucional na atualização de informações e na produção de novos
conhecimentos. Isso significa dizer que, no nível macro, ainda que a maior
parte dos processos de políticas ocorra entre especialistas dentro de um
subsistema de política pública, seus comportamentos são afetados por fatores
mais amplos presentes no amplo sistema político e socioeconômico, e suas
decisões, em contrapartida, também afetam o macrossistema, não se limitando ao
subsistema no qual estão inseridos (Sabatier_e_Weible,_2007).
Dessa forma, o conceito de coalizões parece se aproximar do significado de
comunidades políticas ao assumir que a especialização é tida como condição
necessária para o indivíduo/grupo influir no processo de formulação de
políticas.
Como o ACF [advocacy coalition framework] assume que a informação
científica e técnica desempenha um papel importante em modificar as
crenças dos participantes da política, ele, correspondentemente,
assume que pesquisadores (cientistas universitários, analistas de
políticas, consultores etc.) são alguns dos atores centrais em um
processo de políticas. (Sabatier_e_Weible,_2007, p. 192)
São, portanto, a forte relação entre os membros, o compartilhamento e a coesão
de valores, ideias e crenças, somados aos domínios técnicos e legais sobre
políticas específicas (policy domain), que legitimam a participação dos atores
e a formação de coalizões de defesa (Sabatier_e_Weible,_2007).
A APLICAÇÃO DOS CONCEITOS DE SUBSISTEMAS, REDES E COMUNIDADES: EXEMPLOS
EMPÍRICOS NOS MODELOS DE MÚLTIPLOS FLUXOS, EQUILÍBRO PONTUADO E COALIZÕES DE
DEFESA
As divergências na utilização dos conceitos estão presentes mesmo entre os
autores que desenvolvem suas análises com base nos modelos teóricos apontados
anteriormente. Zahariadis_(2003), por exemplo, entende que as comunidades de
políticas consistem em um tipo específico de rede, mais estável e com maior
restrição ao acesso de novos participantes, enquanto a noção de redes
envolveria um con-junto amplo de atores em interações de caráter mais fluido.
Assim, ele adota o conceito de redes para se referir ao que Kingdon chama de
comunidades de políticas (Zahariadis,_2003, p.48). Em sua análise do processo
de privatização na Grã-Bretanha, o autor examina a relação entre a estrutura
das redes e a evolução da ideia de privatização, com base no modelo de
Múltiplos Fluxos.
Zahariadis mostra que a rede que se estabeleceu em torno da re-forma britânica
era composta de atores (administradores, sindicatos, consumidores, entre
outros) que apresentavam um nível bastante baixo de integração, característica
definida a partir de quatro elementos: a) tamanho, uma vez que se tratava de
uma rede grande, envolvendo di-versos atores; b) modo de operação competitivo,
no qual os atores não buscavam consensos e estabeleciam contatos
aleatoriamente, dentro de uma lógica de oposição; c) capacidade de
administração baixa, ou seja, atores com acesso limitado às ferramentas de
implementação; d) alta permeabilidade da rede, caracterizada por acesso pouco
restringido, tanto do ponto de vista interno (padrões de comunicação e
influência entre os participantes de uma mesma rede) quanto externo (relações
estabelecidas entre uma rede e as outras). Essas características da rede em
torno da reforma foram, para o autor, fundamentais para o tipo de mudança que
se observou na reforma britânica.As ideias sobre a privatização circularam em
diversas redes ao longo do tempo. Mas, em algumas redes, as opções alternativas
à transferência da propriedade estatal ao mercado foram consideradas mais
seriamente do que em outras.
O autor mostra que o tamanho foi uma característica relevante e que
proporcionou a subsistência das ideias ligadas à nacionalização das empresas. A
rede em torno de diferentes políticas públicas ampliou-se com a inserção dos
sindicatos e com o aumento da participação desses atores em comissões e comitês
governamentais, o que reduziu as chances de a ideia de privatização prosperar
como uma alternativa viável no fluxo de soluções. A participação dos
trabalhadores na gestão e a representação dos sindicatos nos conselhos teriam
pouco efeito em um cenário no qual a atividade privada orientasse a ação em
diferentes setores da vida nacional. Por outro lado, grupos de consumidores
organizaram-se e, muito embora tenham tido pouca influência sobre as políticas
públicas, foram bem-sucedidos no aces-so à rede, com o estabelecimento de
conselhos consultivos. Alguns desses grupos influenciaram na criação de padrões
de qualidade de produtos (como grupos ligados à carvoaria), enquanto outros
foram decisivos para garantir a prestação de serviços para algumas comunidades
(grupos ligados às ferrovias). Esses grupos tinham incentivos contrários à
privatização, uma vez que essa mudança limitaria seus recursos de poder. Assim,
o argumento do autor é que a ampliação da rede, a inserção e legitimação de
novos atores por meio da participação em canais institucionais, sustentou a
ideia de empresas estatais por um longo período.
Outra característica marcante da rede – seu modo de operação competitivo –
permitiu a sobrevivência da ideia de privatização ao longo de décadas, porém os
debates em torno da ideia não prosperaram durante décadas devido à própria
competição entre atores dentro da rede, especialmente nos casos do aço e do
transporte rodoviário de mercadorias. Apesar de a ideia da privatização estar
presente nas redes, os sindicatos, o Partido Trabalhista, alguns ministros
Conservadores e vários gerentes de empresas públicas foram atores importantes
para que essa ideia não fosse entendida como uma opção viável no interior da
rede. Esse cenário muda com a chegada de Thatcher ao poder, em 1979, quando a
composição das redes é alterada e indivíduos favoráveis à ideia de privatização
passam a ocupar cargos-chave em áreas estratégicas da administração (energia,
indústria), enquanto aqueles contrários a essa ideia foram afastados. A baixa
capacidade administrativa,ou seja, a limitação das soluções disponíveis para a
implementação de políticas, relacionada ao modelo britânico, dificultou a
resolução dos conflitos relativos às finanças das empresas públicas, e a ideia
de privatização ganha larga aceitação depois de se esgotarem os arranjos de
financiamentos impostos pela nacionalização. Assim, Zahariadis_(2003) mostra
que a estrutura das redes – considerada em termos da sua integração (tamanho,
modo, capacidade e acesso) influenciou a trajetória das ideias desenvolvendo e
fazendo avançar a concepção original de Kingdon sobre o fluxo de soluções.
Outro exemplo da aplicação dos conceitos de subsistemas, comunidades e redes
vem do trabalho pioneiro de Baumgartner_e_Jones_(1993). Como vimos, os autores
concentram suas explicações na noção de monopólio de políticas públicas, e,
embora eles tenham se dedicado à investigação de diversos casos nas mais
diferentes áreas setoriais,o estudo sobre a política de energia nuclear é
bastante ilustrativo.
A construção de um monopólio em torno da política de energia nuclear
desenvolveu-se nos Estados Unidos ao longo das décadas de 1940 e 1950,
associada a uma imagem muito positiva sobre as questões nucleares, envolvendo
elementos como a característica limpa dessa fonte de energia e a possibilidade
de redução da poluição, o aspecto econômico da produção de energia impactando
diretamente a redução das contas para os consumidores, a alta tecnologia
envolvida e o desenvolvimento de uma fonte de energia de baixo custo para o
futuro, reduzindo a dependência de outros países para obtenção de petróleo,
entre outros aspectos. É certo que outras imagens sempre estiveram presentes,
envolvendo aspectos negativos como o potencial altamente destrutivo das armas
nucleares, interesses de empresas privadas, mutações genéticas, entre outros
entendimentos, mas a visão positiva era, nesse período, muito mais presente.
Membros do governo, da comunidade científica, jornalistas e empresas do setor
privado estavam entre os atores que compartilhavam essa visão positiva. Além da
imagem positiva, mudanças institucionais foram produzidas e permitiram aos
defensores desse entendimento sobre a energia nuclear exercer controle sobre a
política. A Comissão de Energia Atômica, criada em 1946, tinha a
responsabilidade de promover a regulação e o fomento da produção nuclear, bem
como de produzir os itens militares associados à energia nuclear. Além da
comissão, integraram o monopólio os construtores das centrais nucleares, a
elite tecnocrática civil e militar e a Comissão Mista sobre Energia Atômica,
comitê con-junto entre a Câmara e o Senado. Segundo os autores, o monopólio se
manteve enquanto a imagem positiva perdurou e o controle sobre a questão
permaneceu nas mãos da Comissão de Energia Atômica e da Comissão Mista.
Duas décadas depois, nos anos 1960 e 1970, o monopólio entra em colapso. Vários
fatores contribuíram para sua dissolução. No interior da Comissão de Energia
Atômica, diversos membros questionavam aspectos relacionados à
segurança,levando à deserção de parte do grupo original. A questão se expande
para além dos limites do monopólio e da Comissão de Energia Atômica quando
cientistas compartilham as preocupações internas com segurança com outras
organizações, previamente excluídas do debate e também relacionadas à temática.
A imagem passa de positiva a negativa também na mídia, que destaca elementos
até então ausentes, como preocupações com a segurança e com possíveis impactos
negativos ao meio ambiente, e cristaliza-se com o acidente em Three Mile
Island, no estado da Pennsylvania, ocorrido em 1979. Paralelamente, novos
atores começaram a demandar o controle sobre a questão da energia nuclear, o
que pode ser observado com o aumento do número de comitês e subcomitês no
Congresso voltados sobretudo a ações de controle da energia nuclear. Em 1974 a
Comissão de Energia Atômica foi desmantelada e suas funções regulatórias
passaram a ser atribuídas à Comissão Regulatória Nuclear, sendo as demais
funções direcionadas para a Agência de Pesquisa e Desenvolvimento Energéticos.
Assim, o monopólio em torno da política nuclear – envolvendo tanto os
entendimentos a respeito da questão quanto as instituições construídas para lhe
dar suporte – foi destruído. Nas décadas seguintes, a imagem negativa em torno
da questão permaneceu,e até recentemente a energia nuclear não era uma opção
seriamente considerada pelos tomadores de decisão.
No modelo de Coalizões de Defesa, o conceito de subsistemas é aplicado por meio
da noção de coalizões que abrangem ideias, interesses e crenças. Em um estudo
que busca mapear as coalizões existentes e suas formas de interação na área
ambiental, Sabatier_e_Basher_(1993) analisaram 190 depoimentos em audiências
legislativas e administrativas cujo tema era o uso da terra e a política de
qualidade da água na bacia de Lake Tahoe (Califórnia e Nevada) entre os anos de
1960 e 1984. Nesse estudo, os autores demonstram como um cenário bastante
fluido dos anos 1960, em que os múltiplos atores não se reuniam em torno de
nenhum tipo de associação ou comunidade nem tinham interesses comuns sobre
questões locais, transformou-se, a partir de fusões de grupos difusos, em duas
coalizões bem delimitadas e muito distintas em meados dos anos 1970. A primeira
coalizão foi denominada Coalizão de Propriedade Econômica e era composta de
funcionários de governos locais, gestores públicos na bacia de Lake Tahoe,
empresários locais, líderes de grupos de direitos de propriedade e vários
legisladores (em especial de Nevada). Do outro lado, a Coalizão Ambiental,
adversária, era composta de grupos de ambientalistas locais e estaduais,
funcionários de várias agências de controle de poluição, tanto da Califórnia
quanto de Nevada, diversos pesquisadores, acadêmicos e legisladores da
Califórnia. A análise desse estudo de caso demonstrou como o subsistema Tahoe
se transformou ao longo de pouco mais de uma década. Inicialmente caracterizado
por um consenso vago, difuso e sem estratégias definidas de planejamento
ambiental regional, o subsistema transformou-se em uma arena em que duas
coalizões foram formadas a partir de um sistema de crenças comuns, defendendo
distintas formas de atuação para a solução de problemas locais relativos ao uso
da água e do solo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo procurou apresentar e discutir o histórico e as
transformações nos conceitos de subsistemas, redes e comunidades de políticas
públicas, apontando para a incorporação desses elementos como mecanismos
centrais em modelos mais recentes de análise de políticas públicas. A revisão
dessas questões nos dá uma melhor noção sobre o que esses conceitos podem, ou
não podem, explicar. O conceito de subsistemas se refere às nossas instituições
sociais e à forma como elas interagem umas com as outras e com entidades e
atores não governamentais, tais como grupos de interesse, a mídia e
especialistas em política. Nesse sentido, a revisão histórico-conceitual
proposta na primeira parte do artigo aponta para uma das questões de
investigação mais significativas inseridas nesse contexto: o papel dos
subsistemas na análise de políticas públicas. Como visto, as principais
mudanças, a partir da noção tradicional de triângulos de ferro para os
conceitos mais atuais de redes, comunidades e coalizões, estão relacionadas à
forma como o conflito se estabelece, aos atores envolvidos e às dinâmicas
internas que operam o processo de construção de políticas.
Os três modelos aqui analisados – Multiple Streams Model, Punctuated-
Equilibrium Model e Advocacy Coalition Framework – tomam esses conceitos como
base, embora analisem de forma distinta suas influências no processo político.
No modelo de Kingdon_(2003), o conceito de comunidade de políticas (policy
community) recebe especial ênfase, particularmente em processos de definição de
alternativas. No entanto, o autor denomina comunidades também os grupos menos
coesos (o que poderia ser compreendido, na perspectiva de Rhodes, como uma rede
temática – e não propriamente uma comunidade). Kingdon mostra que o grau de
coesão de uma comunidade é uma característica importante, pois acarreta
consequências para o processo político. O modelo apresenta as comunidades como
elemento responsável por um dos três fluxos da formulação de uma política
pública, com destaque para a atuação de especialistas reunidos em torno de um
tema vinculado a uma área temática e do compartilhamento de ideias entre eles.
No modelo de Sabatier_e_Jenkins-Smith_(1993), os subsistemas são compostos de
diversas coalizões, formadas por atores governamentais e não governamentais. As
coalizões contemplam os especialistas, suas ideias e crenças e ainda os
interesses dos grupos em disputa. Os interesses e crenças também constituem a
base dos monopólios de políticas, no modelo de Baumgartner_e_Jones_(1993). Tal
conceito é empregado para auxiliar na explicação de processos de mudança e
também de estabilidade na produção de políticas públicas. Assim, os três
modelos destacam a o papel das ideias e dos interesses nos subsistemas,
desenvolvendo conceitos complementares em cada caso. O foco predominante dessa
literatura reside, portanto, nas interações entre diferentes atores,
instituições e ideias no âmbito dos subsistemas. Ainda que não exista na
literatura um consenso a respeito desses conceitos, uma característica parece
evidente: entendidas como partes integrantes dos subsistemas de políticas,
comunidades e redes passaram a ser consideradas como unidade de análise
privilegiada em abordagens recentes sobre o processo de políticas. Segundo
Sabatier, o conceito de subsistemas é uma contribuição distintiva para a
teorização do processo de políticas públicas (Sabatier,_1991).
Entretanto, ainda que o conceito de subsistemas tenha ganhado relevância e seja
frequentemente aplicado para entender a produção de políticas nos contextos
estadunidenses e europeus, estudos recentes indicam que, ao adotar os
subsistemas como unidade básica de análise, os estudiosos de políticas públicas
têm, em grande parte, ignorado as possibilidades e os desafios impostos pela
dinâmica dos cross-subsystems. Segundo essa crítica, ainda que se reconheça a
existência de sobreposição de comunidades e redes em diferentes subsistemas
(McCool,_1989; Jochim_e_May,_2010; Sabatier,_1998),a literatura sobre o
processo de políticas públicas ainda tem muito pouco a dizer sobre essa
dinâmica política que envolve vários subsistemas (Jochim_e_May,_2010). Assim,
um dos desafios teóricos a ser superados pela literatura diz respeito às
relações entre diferentes subsistemas, contribuição que pode fazer avançar a
pesquisa,possibilitando um melhor entendimento sobre a dinâmica das interações
entre instituições,atores e suas ideias na produção de políticas públicas.
[1]Policy domain pode ser definido como "a área substantiva de política pública
sobre a qual os participantes na produção da política competem e fazem
concessões para chegar a um acordo, tais como o domínio da política ambiental o
domínio da política de saúde" (Birkland,_2005, p. 97).