Ateísmo no Brasil: da invisibilidade à crença fundamentalista
INTRODUÇÃO
O Brasil é reconhecidamente um país de formação histórica católica. Apesar das
rupturas institucionais com a Igreja e dos conflitos políticos que daí
resultaram, o processo de secularização do Estado que acompanhou a
institucionalização das estruturas políticas republicanas não se caracterizou,
no entanto, nem pelo anticlericalismo, nem como uma luta contra a religião.
Além disso, as disputas de parte das elites brasileiras contra a Igreja
Católica não foram sinônimo de uma defesa do ateísmo. Muitos dos mais
importantes próceres republicanos, tais como Joaquim Nabuco e Rui Barbosa,
propunham para o Brasil um catolicismo "mais racional" e "livre de
superstições" que, para os críticos liberais, caracterizavam o catolicismo
"fetichista" das camadas populares2.
Essas peculiaridades do processo político que levaram à instauração de um
regime institucional-jurídico republicano nos permitem compreender por que não
se enraizou na alma brasileira uma cultura cívica laica, ou, dito de outro
modo, por que a formação de uma sociedade secular foi caudatária, em grande
parte, do esforço de intelectuais e pensadores católicos para erradicar a
religiosidade mágico-devocional tão arraigada na experiência popular. Com
efeito, como procuramos demonstrar em trabalhos recentes3, a formação da
sociedade civil e da esfera pública como entidades separadas da esfera política
deveram, em grande parte, sua configuração e gramática ao trabalho de
mobilização política e mediação pedagógica de lideranças católicas leigas e
eclesiásticas no sentido de promover, ao longo do século XX, a "emancipação
libertadora" das camadas mais pobres. O "povo brasileiro", contraparte do
Estado soberano em sua forma republicana, foi, pois, reiteradamente narrado em
termos de alegorias cristãs que descreviam sua "salvação" a partir da figura do
"pobre" e da possibilidade de superação de sua "opressão" por meio de
"pedagogias da consciência" capazes de desarraigar as formas populares de
crença.
Se voltarmos nossa atenção para os modos como as tecnologias censitárias do
Estado vão transformando a imaginação política da sociedade, pode-se notar que
a "religião" do brasileiro foi parte do projeto de construção nacional ainda no
Império, quando, em 1872, classificou-se a população em católicos e acatólicos.
Desde o primeiro censo, de 1940, e em todos os censos subsequentes, o
levantamento incluiu uma questão sobre o perfil religioso da população4. Nas
quatro décadas que se seguiram o catolicismo representou a quase totalidade da
população (acima de 90%); em contrapartida, no mesmo período, os que se
declaravam "sem religião" aparecem estatisticamente como insignificantes (menos
de 1%). Pode-se considerar a década de 1980 como o turning point de uma
importante mutação. Pela primeira vez o catolicismo cai abaixo da marca dos 90%
e as estatísticas passam a desenhar uma linha de queda acelerada, que em 2010
chega ao seu ponto mais baixo (64,6%). Ao lado desse decréscimo, os
levantamentos começaram a indicar um rápido aumento dos protestantes, que, em
cinco décadas, passaram de 5,2% da população para 22,2%.
O movimento de desnaturalização do catolicismo como componente da nacionalidade
é bastante recente e traz como consequência a percepção de que ele representa
não um modo de ser, mas, apenas, uma "escolha religiosa" entre outras
possíveis. Ao jogar luz sobre o declínio do catolicismo e sobre o rápido
crescimento evangélico, a quantificação censitária permite formular, pela
primeira vez, a diversidade religiosa em termos da categoria política de
"pluralismo"5. Permite ainda definir o catolicismo como religião "majoritária"
e acionar a categoria de "minorias religiosas"6 como alvo potencial de uma
política de proteção e/ou controle estatal.
Além do crescimento dos cristãos não católicos, a categoria dos "sem religião"
aparece de maneira mais perceptível no censo de 1980 quando, pela primeira vez,
ela cruza a barreira do 1%. Nas quatro décadas seguintes, acompanhando o
crescimento dos que se declaram evangélicos, o número dos que se declaram "sem
religião" cresce gradualmente e chega a 8% da população em 2010, bem acima do
espectro das "alternativas religiosas" não cristãs, que alcança apenas 3% nessa
data.
O mote do "pluralismo religioso" - inscrito na Constituição de 1988, que pôs
fim ao período ditatorial - se desenha como pauta política para as décadas
seguintes em um contexto marcado pelas seguintes características: a
distribuição da diversidade religiosa é extremamente desigual (mais de 90%
cristã); a ideia de "minoria" é assumida como bandeira política principalmente
pelos evangélicos; no mesmo movimento em que a "religião" começa a ser
percebida como objeto de opinião individual, "não professar religião alguma" se
apresenta como a alternativa disponível no campo das "escolhas religiosas".
Ainda que esses números tenham desencadeado um amplo debate acadêmico em torno
do "declínio da hegemonia católica", parte dele dedicado a explorar o fenômeno
do "trânsito religioso"7 como explicação dos que não declaram uma filiação
religiosa institucional, a posição dos "sem religião" ainda não foi discutida a
partir dos que declaram não acreditar em Deus. Com efeito, pode-se observar uma
significativa lacuna na literatura sobre o ateísmo no Brasil, o que, a nosso
ver, reforça a percepção da sociedade brasileira como eminentemente religiosa.
Para desvendar, em parte, a natureza desse silêncio em torno do ateísmo, nos
propomos neste artigo a compreendê-lo a partir da análise de um caso
específico: o da tentativa da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos
(ATEA) de tornar visível sua posição emulando uma campanha inglesa em defesa do
ateísmo. O fracasso dessa campanha no Brasil, devido à recusa de parte dos
meios de divulgação em veicular as imagens e as frases elaboradas pela ATEA, e
o tipo de reação que suscitou nos levaram à conclusão de que o ateísmo, quando
se posiciona publicamente contra a religião, é percebido como uma "crença
individual" entre outras e, enquanto tal, é devolvido ao campo das disputas
religiosas, seus militantes sendo percebidos socialmente como uma "minoria
fundamentalista".
O ATEÍSMO IMPOSSÍVEL
Nesse contexto particular, em que os enunciados concebíveis na cena pública
tais como "não professar religião alguma" estão formulados pelos atores em
termos de uma "escolha religiosa", para não dizer cristã, torna-se
relativamente fácil compreender por que a posição ateísta permanece invisível
e, mais do que isso, publicamente indefensável até o presente. Segundo o
fundador da ATEA, o engenheiro Daniel Sottomaior, um dos objetivos da
instituição é dar mais visibilidade ao ateísmo e torná-lo uma categoria mais
distintiva e melhor representada no conjunto dos que declaram não ter religião.
Ainda que em 2010 os recenseadores do censo tivessem tido o cuidado de não
apresentar ao entrevistado um cardápio oficial de respostas possíveis, para
Sottomaior, a formulação da pergunta "qual é a sua religião ou culto?" teria
induzido o recenseado a uma escolha binária: ou bem ele especifica a sua
religião ou bem declara não ter nenhuma. A possibilidade de uma terceira
alternativa, como "sou ateu", não estaria ainda, segundo ele, presente no
espírito dos respondentes. Citando uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo de
2008/2009, a posição de Sottomaior é, ainda, que a afirmação de si como "ateu"
enfrentaria forte preconceito por parte da população, sendo a minoria que mais
sofre rejeição por parte da opinião pública8.
Em contraposição ao opróbrio que se projeta sobre os que se dizem ateus, "não
ter religião" é uma forma de apresentação de si relativamente bem-aceita
socialmente, ou considerada com menos escândalo do que declarar "não acreditar
em Deus". Tentar compreender essa sutil distinção mereceria um estudo mais
detalhado que não cabe no escopo deste artigo. De um modo geral, "não ter
religião" é uma afirmação que remete, em parte, ao fato de alguém apresentar-se
como católico sem ser "praticante". Esse fenômeno é bem conhecido dos
estudiosos do catolicismo no Brasil9 que descreveram o catolicismo das elites
como "social", isto é, algo herdado, involuntário, e o catolicismo "popular"
como meramente devocional e frágil em suas relações com as instituições
eclesiásticas. Mas remete, também, à dimensão sincrética do catolicismo e à
maneira como ele acaba por tornar-se o quadro de referência para a constituição
e o reconhecimento de novas religiões10. O modo como o catolicismo operou como
matriz de referência para a configuração da diversidade religiosa brasileira em
todo o seu espectro desde as religiões mais africanizadas até os esoterismos
mais recentes da Nova Era ofereceu as condições necessárias para que as
delimitações religiosas permanecessem sempre porosas, sem nitidez e as
organizações religiosas, sempre flexíveis e versáteis.
Nesse contexto, a proclamada "diversidade religiosa" tanto estudada na
literatura especializada resultou, em parte, de um laborioso trabalho teórico
de modelagem das diferenças cosmológicas e de definição de recortes
institucionais e rituais precisos que procurou tornar inteligível a propagação
quase infinita de variantes de todo tipo. Mas o modelo teórico assim
construído, talvez útil para pensar o arranjo e o repertório das diferenças e
suas estruturas de pensamento, não correspondia à "lógica das práticas" no
sentido que Pierre Bourdieu dá a essa expressão, ou ao modo como os indivíduos
se movem nesse campo e como descrevem aquilo que fazem. Com efeito, em estudo
de 2001 pudemos demonstrar que as pessoas transitam constantemente por
diferentes casas de culto sem necessariamente associar essas passagens a uma
narrativa de "mudança de religião" ou de "conversão" pessoal11. Ao contrário,
essa amplitude e flexibilidade nas formas de apropriação das variações
disponíveis e articuladas pela matriz católica tornou verossímil e aceitável
que, até muito recentemente, os indivíduos recenseados se declarassem
católicos. Em contrapartida, na medida em que o "pluralismo religioso" e as
lutas políticas pela tolerância e pela liberdade religiosa que o acompanham se
disseminam como leitura da diversidade, mais a "religião" se torna o
equivalente de uma instituição religiosa e mais pessoas passam a se
autodesignar como "sem religião". Essa distinção também vai sendo formulada no
próprio campo religioso com o crescimento evangélico neopentecostal, que não se
apresenta como uma "religião" ou "igreja", mas sim como uma "fé". Assim, embora
esse tema merecesse um estudo mais detalhado, não erraríamos muito ao afirmar
que a categoria censitária dos "sem religião" cresce sem implicar,
necessariamente, o declínio da "crença em Deus" e de práticas não
institucionalizadas de todo tipo que, por economia, os analistas ainda chamam
de religiosas.
Esse contexto particular nos permite compreender por que "não ter religião"
torna-se a formulação convencional mais verossímil e aceitável para expressar a
inespecificidade das práticas "religiosas". Ao mesmo tempo, nos permite
compreender por que, no intuito de especificar e dar visibilidade a sua
posição, os ateístas desenvolvem suas campanhas no próprio campo das lutas
religiosas. Embora se apresente como uma posição de combate ao teísmo e a toda
forma de "religião", a mobilização pública da associação se organiza na chave
política do "pluralismo religioso": por um lado, reivindicando liberdade de
expressão e de crença, direito constitutivo da liberdade religiosa; por outro,
parafraseando, em sua luta contra o "preconceito", os modos de defender as
minorias religiosas por meio de slogans tomados de empréstimo do vocabulário
político das lutas de minorias raciais e sexuais.
ORIGEM E OBJETIVOS DA CAMPANHA
A criação da ATEA, como uma organização formal, é bastante recente (2008), e a
tentativa de emular a veiculação da bus campaign no Brasil foi a primeira
proposta concreta de dar visibilidade pública à organização. Até então, as
manifestações na esfera pública ficavam restritas aos membros que,
individualmente, se manifestavam como cidadãos. Segundo o presidente da
associação, Daniel Sottomaior, a campanha inglesa o fez compreender a
importância de realizar algo similar no Brasil para combater o que ele descreve
como o "arraigado preconceito antiateu". Segundo nota oficial da ATEA, o
objetivo principal da campanha era lutar por um Estado verdadeiramente laico e
pelo reconhecimento dos descrentes como cidadãos plenos.
Segundo Sottomaior, o preconceito contra os ateus deve ser comparado ao racismo
contra os negros e aos casos de discriminação contra a comunidade LGBT. Tomando
como referência a pesquisa da Fundação Perseu Abramo já mencionada acima, ele
relaciona casos de pessoas que perderam o emprego ou não foram contratadas após
se declararem ateias, casos em que relacionamentos amorosos e familiares se
romperam e até mesmo casos de ameaças físicas que ele sofreu em razão de seus
posicionamentos públicos. Para ele, a existência de preconceito contra os ateus
fica comprovada quando se nota que ameaças e agressões contra os que dizem não
acreditar em Deus não geram debate nem causam desconforto. Em suas palavras,
"não há sensibilidade" para esses casos de discriminação.
A iniciativa da ATEA não resultou de colaboração ou apoio dos responsáveis pela
veiculação da campanha nos demais países. Consistiu, na verdade, em um
empreendimento inteiramente pessoal de seu presidente, e, por essa razão,
Sottomaior julgou ter liberdade para conceber seus próprios slogans e imagens.
Apesar de ter apreciado a iniciativa inglesa, sua percepção do conteúdo daquela
campanha não foi das mais favoráveis: ele a considerou pouco agressiva e "muito
aguada". Além disso, ficou insatisfeito com a reiteração de apenas uma mensagem
e acreditou que a variação de imagens e slogans seria uma forma de comunicação
mais impactante e eficiente. A campanha foi produzida por uma agência de
publicidade contratada pela ATEA, e a escolha do conteúdo foi feita pelos
membros da organização, principalmente os membros da diretoria, que propuseram
diversas frases, submetidas a votação dos associados por meio de uma enquete no
site da ATEA. Desse modo, podemos dizer que as frases escolhidas para a
campanha no Brasil são resultado tanto das percepções dos diretores da ATEA
quanto das preferências dos membros mais ativos e engajados na militância em
prol do ateísmo. A partir desse processo foram definidas quatro imagens com os
respectivos slogans (veja as imagens abaixo, nas páginas 11-14). Coube à
empresa contratada iniciar os contatos com as companhias de ônibus de diversos
estados do Brasil no intuito de veicular as mensagens em seus espaços pagos
destinados a publicidade.
Foi grande a surpresa da ATEA quando, ao tomarem ciência do conteúdo da
campanha, as empresas recusaram os contratos de publicidade oferecidos. As
justificativas apresentadas pelas empresas de ônibus se basearam
majoritariamente nas proibições legais vigentes na legislação específica dos
estados. Diante da impossibilidade de seguir com o plano inicial, a solução
encontrada foi exibir a campanha em outdoors. Por razões estratégicas e de
custo decidiu-se colocar, ao longo de um mês, quatro outdoors no centro de
Porto Alegre. Na análise a seguir, procuraremos explicitar os elementos que, na
perspectiva de sua audiência, transformaram aquilo que se apresentava como uma
"crítica ao preconceito" em uma "ofensa aos que creem".
SLOGANS E IMAGENS
Sob o mote geral "diga não ao preconceito contra ateus" frase recorrente no
ativismo político brasileiro contemporâneo12 os idealizadores lançaram quatro
diferentes slogans: "Somos todos ateus, com os deuses dos outros"; "A fé não dá
respostas. Só impede perguntas"; "Se Deus existe, tudo é permitido"; "Religião
não define caráter". É interessante notar que, nessa forma de conceber a
campanha, as frases sozinhas não conseguem comunicar e não fazem muito sentido;
é a relação das frases com as imagens escolhidas que confere contundência às
mensagens e provoca desconforto na opinião pública. Mas, antes de passarmos à
análise dessa conjunção, atenhamos rapidamente nossa reflexão aos efeitos
retóricos pretendidos e obtidos nesses quatro slogans.
Tomadas em conjunto, podemos observar que, em sua composição, as frases
desafiam a religião a partir de dois registros principais: o primeiro diz
respeito ao problema da crença; o segundo, ao problema da moralidade.
A primeira frase, "Somos todos ateus, com os deuses dos outros", faz um
movimento argumentativo bastante interessante: em sua primeira assertiva
(separada por uma vírgula) generaliza o ateísmo como parte inerente à condição
humana. Nesse movimento procura retirar o ateísmo de sua posição imaginária de
anomalia ou aberração. No movimento seguinte generaliza a crença: somos todos
crentes, mas acreditamos em coisas diferentes. O efeito retórico dessa
conjunção, que pretende, à primeira vista, "colocar o teísta no lugar do ateu
para que aquele possa vê-lo como um igual"13, acaba, no entanto, promovendo
também o deslocamento inverso: aloca o ateísmo no registro das crenças, ao
qualificá-lo como uma variação possível no campo da diversidade religiosa.
Afirmar que todos "compartilhamos a mesma descrença com relação aos deuses dos
outros" não é o mesmo que não ter deus algum. Ao referir-se aos "deuses dos
outros", a mensagem mantém latente a aceitação da existência de um deus
próprio, e, desse modo, o efeito generalizador buscado acaba por adscrever o
ateísmo a uma posição relativa no campo geral do teísmo.
A segunda frase, "A fé não dá respostas. Só impede perguntas", também está
composta de duas assertivas contrastantes no que diz respeito à qualificação da
fé. Como pano de fundo silenciado, a fé aparece aqui em confronto com a
ciência. Tomando por base implícita do argumento um modelo normativo e
simplificador de ciência (como capaz de fazer perguntas e oferecer respostas),
a formulação retira peremptoriamente a religião do campo do conhecimento: ela
não conhece porque não pergunta, apenas crê. Poderíamos sublinhar aqui o
movimento artificioso dessa retórica contrastiva, uma vez que todo estudioso
das religiões ressaltaria a infinitude de perguntas que as religiões fizeram e
fazem, e mais, como muitas das perguntas que elas se colocaram acabaram por
promover o espírito científico ele mesmo. Mas veremos adiante, no entanto, que
a imagem da Bíblia nas mãos do prisioneiro requalifica a assertiva e delimita a
ideia geral de crença na direção de uma forma particular de crer: aquela do
fundamentalismo.
Se as duas primeiras se relacionam com o estatuto da crença, as outras duas
frases relacionam a religião a suas funções de controle social e produção de
moralidades. A primeira, "Se Deus existe, tudo é permitido", remete,
invertendo-a, à proposição bem conhecida de Dostoiévski na obra Os irmãos
Karamázov, de 1879. Para Dostoiévski a moralidade natural que nos obriga a amar
nosso semelhante estaria fundada na crença em Deus e na imortalidade; para os
que não creem, a lei moral da natureza seria o egoísmo e até mesmo o crime.
Segundo a ATEA, essa frase é recorrentemente utilizada em tom acusatório contra
os ateus14. Ao evocá-la nesse slogan, a referência não tem por objetivo,
segundo eles, fazer uma crítica à religião, mas sim aos sistemas éticos que
elas mobilizam. No entanto, como veremos adiante, a imagem anexada à sentença
também aqui lhe redireciona o sentido tornando-a mais radical. É de se notar
ainda, permanecendo no plano da linguagem escrita, que a frase promove um
deslocamento do plano da crença na qual se situa a formulação de Dostoiévski
(se não acreditamos em Deus, nem na imortalidade) para o plano da falsificação
da ideia da existência de Deus (se Deus não existe). Além disso, ao fazê-lo,
volta-se para a falsificação da moralidade com Deus, procurando disputar, pelo
escândalo, a posição hegemônica da religião na definição do Bem.
Finalmente, a última frase, "Religião não define caráter", coloca o problema da
conduta moral. Contrariamente às anteriores, essa é a única proposição que não
joga com antinomias, mas faz uma afirmação mais categórica. Dita desse modo
genérico, ela poderia ser aceita sem grande controvérsia; mas causa escândalo
pelas imagens escolhidas para acompanhá-la. Restringindo-nos ao seu aspecto
mais conceitual, merece destaque a adoção do uso comum da ideia de "caráter"
que reduz as várias dimensões da personalidade a seus traços morais. Se, em seu
sentido mais estrito, todo indivíduo é dotado dessas disposições congênitas,
sejam elas consideradas qualidades ou defeitos, em seu uso comum a pessoa pode
vir a ser concebida como desprovida de "caráter". Ao tomar como referência esse
sentido comum a campanha procura desnaturalizar a associação recorrente entre
"falta de caráter" e "falta de religião". Veremos logo adiante, no entanto, que
no plano das imagens essa dissociação se radicaliza, sugerindo até mesmo uma
formulação inversa: é a presença mesma da religião que promove a falta de
caráter.
É interessante notar que, se no nível da linguagem escrita as proposições são
relativamente aceitáveis e podem ser lidas como divergências no plano das
opiniões, quando acrescentadas às imagens as frases se revestem de escândalo,
ainda que seus formuladores entendam que "nenhuma das peças exibidas é
ofensiva". O efeito performático das imagens fecha o campo discursivo e
transforma a arena do que se apresentava como um debate sobre opiniões em um
sistema de acusações.
Os anúncios que tiveram maior repercussão e causaram a reação mais virulenta
por parte dos religiosos foram os dois que mobilizam o imaginário do genocídio:
a imagem do avião (islâmico) chocando-se com o World Trade Center e a que
associa Hitler à religião.
O efeito retórico dessas imagens vai muito além do que está dito nas frases
publicadas e chega até mesmo a contradizê-lo. No caso das Torres Gêmeas, os
formuladores da campanha entenderam que essa imagem era a mais adequada para
expressar "a insanidade que vem de um imperativo religioso". Essa escolha
dispensou alternativas como "a tortura da Santa Inquisição" ou a "descrição das
Cruzadas", que também apelam para o imaginário do genocídio, mas que não teriam
ao seu dispor uma linguagem tão persuasiva como a da fotografia. O efeito
verdade da fotografia desloca o debate abstrato sobre os fundamentos da
moralidade para o campo dos fatos (i)morais efetivamente praticados. Nesse
giro, reifica e imobiliza a representação do ser religioso na posição do
insano, do terrorista, do genocida que comete crimes contra a humanidade. A
associação da frase sobre o caráter com a imagem de Hitler evoca todos os
compromissos históricos que a Igreja Católica estabeleceu com o nazifascismo
europeu e com as ditaduras latino-americanas15. Em resposta, religiosos
modificaram o original e colocaram no lugar da imagem cândida de Chaplin
fotografias de Stalin, Che Guevara e outros personagens comunistas, como
abaixo.
[/img/revistas/nec/n100//0101-3300-nec-100-00057-gf02.jpg]
[/img/revistas/nec/n100//0101-3300-nec-100-00057-gf03.jpg]
[/img/revistas/nec/n100//0101-3300-nec-100-00057-gf04.jpg]
Nessa guerra de imagens, a controvérsia se desloca, portanto, da chave da
moralidade individual e se generaliza, passando para o plano da crítica aos
sistemas políticos e instituições. Nesse plano o debate, na verdade,
desaparece. Tendo como pano de fundo o consenso em torno do genocídio como
barbárie, os argumentos novamente aqui performatizam um sistema de acusações:
para cada exemplo de genocídio perpetrado por sistemas políticos apoiados por
sistemas religiosos acionado pela narrativa ateísta, outro exemplo de genocídio
perpetrado por sistemas políticos não religiosos será evocado pela narrativa
religiosa. É difícil avaliar o efeito dessa dramatização na construção da
posição ateísta. No entanto, no contexto atual no qual "ser religioso" ou "ter
religião" depende cada vez menos de uma identificação institucional, poderíamos
afirmar que as críticas ao que fazem as igrejas não afetam necessariamente
aquilo que as pessoas entendem por "religião".
A frase seguinte, "A fé não dá respostas. Só impede perguntas", vem acompanhada
da imagem de duas mãos segurando uma Bíblia.
[/img/revistas/nec/n100//0101-3300-nec-100-00057-gf05.jpg]
O que poderia ser apenas a imagem comum de um fiel protestante torna-se
intrigante pelo fato de as mãos estarem apoiadas nas grades de uma prisão. Ao
contrário das duas mensagens anteriores, o ruído é introduzido não pela imagem,
mas pela frase que a acompanha. O prisioneiro, que parece buscar a resposta
para sua condição na Palavra, é desmentido: não é ali que ele encontrará a
Verdade. Na perspectiva de seus idealizadores, a imagem sugere que "a (própria)
fé é uma prisão"16. É interessante observar, no entanto, que essa imagem de
mãos sobressaindo às grades de um cárcere em precaríssimas condições é bastante
rotineira no imaginário brasileiro. A imagem de uma Bíblia nas mãos de um pobre
sofredor se acomoda bem à ideia que se tem daquilo que um indivíduo poderia
fazer para suportar semelhantes condições. Tendo em vista esse contexto,
dificilmente a leitura dessa imagem levaria o público a considerar a Bíblia
como a verdadeira prisão do sujeito, e não a prisão ela mesma. De qualquer
modo, o hiato que caracteriza essa conjunção revela uma leitura que opõe fé e
razão. Embora os formuladores da campanha afirmem que esse anúncio se opõe "ao
preconceito que emana da fé", o efeito retórico que essa imagem põe em
circulação é uma desqualificação culta do pensamento religioso como pouco
razoável e alienante17.
Finalmente, a última frase, como a anterior, é mais contundente pelo que diz do
que pela imagem que veicula.
Quando se observam as imagens escolhidas, chama atenção que elas venham
apodadas pela categoria "mito" e que a preferência para sua designação tenha
sido seu lugar de origem e não o nome de uma divindade: "mito hindu" é a
legenda para a figura de Vishnu, deus responsável pela manutenção do universo;
"mito egípcio" para a figura de Hórus, considerado o iniciador da civilização
egípcia; e "mito palestino" para a imagem de Jesus. Esse modo de representar
divindades remete a um denso e ilustrado debate teológico/histórico/
arqueológico em torno da historicidade dos textos bíblicos que já produziu
imensa bibliografia. As imagens de Jesus e Hórus usadas na campanha circulam
amplamente nas redes ateístas e de outros movimentos que reivindicam o uso de
métodos científicos na leitura das religiões. Colocadas assim, lado a lado,
aparecem no livro do teólogo Llogari Pujol e sua mulher, a historiadora Claude
Carcenac, Jesus 3000 años antes de Cristo? Jesús y el Antiguo Egipto, editado
pela Grijalbo em 2003. Comparando imagens bíblicas com as do Antigo Egito, os
autores sugerem, nesse trabalho, que os evangelistas se inspiraram nos contos
populares egípcios, que estavam então muito na moda na Palestina, para
construir a vida de Jesus e a essência de seu personagem mítico. Embora não
sejam os primeiros nem os únicos autores a fazer esse tipo de comparação, o
livro circulou nas redes ateístas e provocou grande polêmica entre teístas e
ateístas que, usando de grande erudição, procuravam, cada um a seu modo,
demonstrar a veracidade ou falácia histórica das passagens bíblicas. A "crença"
na verdade literal dos fatos bíblicos é um clichê recorrente nas acusações de
"fundamentalismo" religioso por parte dos não religiosos. Evidentemente a
remissão a esse amplo debate, que no Brasil permanece circunscrito a um pequeno
número de aficionados, não é legível para o grande público. Lançando mão de um
repertório crítico bem conhecido nas redes e nos círculos ateístas contra uma
leitura literal da Bíblia, a tentativa da campanha de transformar os deuses em
personagens míticos construídos historicamente tende a permanecer
demasiadamente criptográfica para realizar o efeito desejado. Na falta desse
referente, tende a prevalecer uma leitura dessa sequência de "deuses" na chave
da diversidade religiosa.
AS REAÇÕES RECEBIDAS
Foram três as grandes cidades em que a campanha foi recusada a partir de
justificativas legais: São Paulo, Salvador e Porto Alegre. Somente em
Florianópolis apresentou-se o argumento de que o conteúdo era "ofensivo". No
caso de São Paulo, recorreu-se à legislação estadual que proíbe:
Capítulo 6, item 20: I a veiculação de mensagens publicitárias que
infrinjam a legislação vigente, atentem contra a moral e os bons
costumes, possuam temas de cunho religioso ou político partidário,
que possam prejudicar o desenvolvimento operacional do sistema
metroviário ou a imagem da Companhia do Metrô e ou que possam
suscitar comportamentos inadequados.
Já no caso de Salvador a empresa contratada alegou que a campanha infringia a
legislação municipal que proíbe anúncios que "favoreçam ou estimulem qualquer
espécie de ofensa ou discriminação racial, sexual, social ou religiosa", ou
quando for "considerado atentatório, em linguagem ou alegoria, à moral pública
e aos bons costumes" (ênfases adicionadas). Assim, a campanha violaria o
decreto municipal 12.642, de 28 de abril de 2000. Finalmente, em Porto Alegre a
Agência de Transporte Público alegou que a exibição das peças violaria o
decreto municipal 11.460, de 1996, que estabelece em seu artigo 1°:
§ 2º É vedada a veiculação de anúncios que estimulem algum tipo de
discriminação social, racial, de credo, de atividade ilegal, de
incentivo à violência ou que veicule propaganda de produtos que
comprovadamente poluam ou façam mal à saúde e ao meio ambiente, bem
como de cigarros, bebidas alcoólicas e motéis. (ênfase adicionada)
Assim, embora a campanha não se pense como religiosa, mas como não religiosa
(ou até mesmo como antirreligiosa), a legislação na qual ela é enquadrada é a
que diz respeito a qualquer afirmação ou imagem que pretenda fazer uso da
religião em sentido amplo. Com isso, podemos dizer que ela entra no campo das
disputas sobre o que é religião e que sua definição é sempre feita em relação
ao que se compreende como religioso. Por outro lado, é possível argumentar que,
ao se apresentarem essas legislações como justificativa, permanece uma
ambiguidade ou até mesmo uma dupla condenação. Isso se deve ao fato de que o
mesmo artigo regula a discriminaçãoreligiosa e a ofensa àmoral e aos bons
costumes. Vemos aqui como a dupla entrada das mensagens da ATEA (da crença/
religião e da moralidade) está presente na própria legislação. Ao questionar
simultaneamente essas duas dimensões e a sua relação, a campanha brasileira
está disputando o sentido de moralidade estabelecido no campo religioso.
Além disso, ao afirmar que as imagens ferem moralmente os costumes socialmente
estabelecidos, a justificativa jurídica apresentada pôde ser compreendida pela
ATEA como uma continuação do preconceito contra aqueles que não creem, já que a
divulgação da posição deles é uma ofensa a esses costumes hegemônicos. A partir
dessa interpretação, a ATEA cogitou acionar juridicamente as companhias. Sua
justificativa era que um Estado laico é um Estado que permite a livre expressão
também daqueles que não creem.
Curiosamente, os mesmos artigos legais utilizados para recusar a campanha são
por eles mobilizados para defendê-la. É interessante observar que, como no caso
de muitos outros movimentos sociais, o "ativismo jurídico", ou a opção
preferencial pela via legal, é a principal forma de ação política da ATEA. Isso
se explica em parte porque, no entender de Sottomaior, as ações políticas
intermediadas pelo Poder Legislativo ou pelo Poder Executivo são infrutíferas,
pois frequentemente a pressão dos interesses políticos se sobrepõe ao
cumprimento da legislação. A seu ver, apenas o Poder Judiciário é capaz de agir
com isenção e fazer com que a discriminação seja percebida como tal.
Mas o ativismo jurídico da ATEA também se realiza em nome da laicidade do
Estado. Sottomaior cita inúmeros casos nos quais esse princípio é
negligenciado, tal como na inscrição "Deus seja louvado" nas notas de dinheiro,
na presença de símbolos religiosos em locais públicos e nas tentativas de impor
a oração do pai-nosso em escolas públicas. Em todos esses casos, o que se
reivindica é uma defesa da laicidade do Estado e da liberdade de não crer. No
entendimento de Sottomaior, a religião como objeto de escolha livre de uma
consciência individual deveria permanecer restrita à dimensão privada. A
laicidade, compreendida como uma "neutralidade, plena, completa e absoluta" do
Estado, exigiria que este renunciasse a qualquer tipo de intervenção no campo
religioso e na vida privada.
Porém, ele considera que apenas o movimento LGBT, em sua luta contra a presença
religiosa na esfera pública e em cargos políticos, teria compreendido o
"verdadeiro sentido da laicidade". Essa aproximação dos ateus com o movimento
LGBT no entendimento da laicidade pode ser mais bem compreendida quando se
considera que ambos se aliam na disputa contra as posições consideradas
"conservadoras" dos religiosos. No centro do debate estão a proibição do aborto
e do casamento de pessoas do mesmo sexo e a pesquisa científica com células-
tronco. No entanto, quando os ateus assumem essa aliança com as minorias
sexuais, a questão da laicidade como neutralidade do Estado se complica. Como
se sabe, o problema das minorias põe em ação a ideia de direitos positivos
diante dos quais o Estado se engaja diretamente em uma política de tratamento
diferenciado de uma coletividade particular.
Embora tenha movimentado as redes sociais mais diretamente interessadas no tema
do ateísmo, a exibição dos outdoors em Porto Alegre não causou impacto na mídia
brasileira e seu teor não alcançou o grande público. Os jornais mais
importantes limitaram-se a dar pequenas notas informativas descrevendo a
campanha e seus objetivos. Na maior parte das vezes não se estenderam em uma
análise de fundo sobre a questão ateísta no Brasil; praticamente se
restringiram à reprodução dos posicionamentos de Daniel Sottomaior a respeito
do preconceito contra os ateus.
Pode-se, portanto, afirmar que, de um modo geral, a campanha suscitou
controvérsia apenas nos meios intelectuais e religiosos associados ao
catolicismo. Com efeito, é interessante notar o total silêncio de atores
relacionados às outras instituições religiosas. À parte um ou outro
editorialista, como o articulista do jornal Folha de S.Paulo Hélio Schwartsman,
que defendeu claramente a campanha da ATEA, jornalistas, pesquisadores,
juristas não expressaram nenhuma opinião a respeito do evento. Seria
necessário, na verdade, empreender uma pesquisa mais ampla para compreendermos
o sentido dessa abstenção. De todo modo, quaisquer que tenham sido as razões da
pouca repercussão do movimento, pode-se verificar, no modo como a imprensa e os
blogs trataram o assunto naquele momento, que o debate mobilizou apenas pessoas
bem colocadas no establishment católico tais como o conhecido jurista católico
e liderança do Opus Dei no Brasil Ives Gandra Martins18 e o cardeal arcebispo
de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer19.
Em entrevista concedida ao site da Canção Nova em dezembro de 2010, Gandra
Martins defende que a campanha brasileira viola a Constituição em seu artigo 3º
porque "além de mentirosa [...] discrimina aqueles que acreditam em Deus". O
conteúdo das mensagens publicadas foi considerado por ele "agressivo e
preconceituoso" porque não tem por objetivo apenas "defender o direito de ser
ateu", mas sim "agredir a própria religião". Pode-se perceber nessa formulação
que os dois lados do debate usam como referente comum o conceito político de
"minoria" e constroem sua posição como vítimas de atos de discriminação
perpetrados pelo oponente: uns por serem ateus, outros por terem religião.
Dessa forma, pode-se concluir que o modo como as divergências são delineadas
está constrangido pelos princípios da "liberdade de expressão" e da "tolerância
à diferença", aceitos por ambas as partes como princípios legítimos do Estado
de direito. "Uma verdadeira sociedade democrática não pode ter preconceitos, e
essas campanhas são preconceituosas", afirma Ives Gandra. Já para Sottomaior,
em sua resposta a essa entrevista, "fazer os religiosos se sentirem atacados
por ateus é uma estratégia eficaz para advogados da Cúria Romana. Com o medo,
impede-se que indivíduos possam se aproximar das linhas do livre-pensamento"20.
Como já bem haviam observado Eliacheff e Larivière21, há uma forte ligação
entre democracia e vitimização. A compaixão pelas vítimas "tornou-se a primeira
qualidade de um homem político, tanto da direita como da esquerda". Além disso,
"os direitos acordados às vítimas têm por objeto ir no sentido da igualdade, e
mais ainda, do pertencimento a uma humanidade comum". Assim, pode-se dizer que
no debate entre Gandra e Sottomaior está em jogo a disputa pela posição da
vítima. Para Gandra os ateus sempre foram reconhecidos como "cidadãos plenos e
dignos", pelo menos por ele; já a campanha é preconceituosa porque pretende
"desmoralizar os que acreditam". "Nada é tão ruim, num Estado democrático de
direito, como a tentativa de impor um pensamento, principalmente pensamentos
que são minoritários, discriminando aqueles que pensam de maneira diferente",
conclui Gandra. Sottomaior procura inverter as posições afirmando que "nossa
guerra é contra ideias, não contra pessoas".
Quando analisamos o debate no conjunto dos argumentos é possível perceber que,
como já observamos acima, o terreno da disputa, embora assuma uma linguagem
jurídica, não escapa propriamente do campo da disputa religiosa. Gandra afirma
que os ateus são "profundamente religiosos na negação da existência de Deus, a
sua religião é a negação de Deus". E, segundo ele, essa minoria fundamentalista
estaria tentando impor sua opinião (leia-se crença) de maneira autoritária,
desfigurando o pensamento da maioria que não pensa como eles. Sottomaior, de
sua parte, afirma: "reconhecer o fundamentalismo como uma praga é dizer
implicitamente que a religião só se torna aceitável quando não é levada lá
muito a sério, ideia com que enfaticamente concordam centenas de milhões de
'católicos não praticantes' e religiosos que preferem se distanciar de todo
tipo de igrejas e dogmas". É interessante como Sottomaior acaba por dar razão,
nessa formulação, à acusação de intolerância feita por Gandra. Se a religião
não deve ser levada a sério, não há como argumentar que se deva respeitá-la. Em
sua "crítica às ideias religiosas" Sottomaior não consegue escapar à armadilha
de sua própria posição duplamente religiosa: ou bem se instala no plano
teológico e falsifica as "mentiras" propaladas pelas ideias religiosas, ou bem
se instala no campo da disputa religiosa e falsifica a "verdade" dos deuses
alheios.
Na entrevista concedida no mesmo site do movimento católico carismático, Canção
Nova, dom Odilo Scherer enfatizou a questão do artificialismo da campanha: "Eu
primeiramente diria que se trata de uma questão posta artificialmente no
Brasil, [que] está suscitando um problema que em si não existe", afirma ele.
Poderíamos inicialmente nos perguntar qual seria, exatamente, o "problema
inexistente" no Brasil sugerido pelo arcebispo. Pelo que se pode depreender na
sequência de sua fala, o entrevistado está se referindo mais especificamente ao
fato da ausência de "perseguição aos ateus" no Brasil: "Primeiramente, não
existe uma situação de discriminação, de perseguição de ateus e agnósticos.
Ateus e agnósticos sempre existiram, e existem também hoje, e de fato têm a
liberdade de se expressarem, ninguém lhes tirou a liberdade de se expressarem",
afirma o arcebispo. Em sua reação, o entrevistado recusa, pois, os próprios
termos a partir dos quais a campanha foi formulada "diga não ao preconceito
contra ateus" negando-lhe seu fundamento histórico, pelo menos no caso
brasileiro:
[o] problema, propriamente não é sentido [aqui], isso [é] alguma
coisa importada de algum lugar, de algum grupo de ativistas ateus lá
na Europa, onde a gente tem ouvido falar.
Esse modo de apresentar a situação revela uma dimensão interessante da
invisibilidade do ateísmo no Brasil: ela não diz respeito apenas ao aspecto
numérico dos ateus, mas, sobretudo, à ausência de uma percepção de
conflituosidade que os torne objeto claro de alguma forma de perseguição e/ou
agressão enquanto coletividade. Ao contrário dos movimentos homossexuais e
antirracistas com os quais procura se aliar politicamente, o ateísmo é
percebido como uma "escolha" individual e íntima, uma "convicção" a ser
respeitada. E o princípio geral de respeito pelas diferentes convicções é
aceito por todas as posições que se enfrentam nesse debate: "a única coisa é
que é necessário o respeito também pelos outros, de maneira que a minha forma
de expor o meu pensamento não seja uma agressão à posição do outro, e também,
às convicções do outro", afirma o cardeal. Desse modo, ainda que "minoria"
numérica, a fragilidade dos fatos a partir dos quais o ateísmo procura
constituir-se como minoria socialmente perseguida torna sua causa, pelo menos
até o momento, pouco convincente. O debate perde assim seu objeto, e a dimensão
da arbitrariedade das acusações ateístas contra as religiões e de seu caráter
ofensivo ganha mais verossimilhança. A campanha, que se apresenta como uma
"luta política", é tomada pela outra parte como simples "provocação",
incitamento ao conflito pelo conflito e, consequentemente, uma afronta que não
merece resposta. "A melhor forma dos cristãos, das pessoas de fé, conviverem
com isso, que de fato se apresenta como uma espécie de provocação, é se
firmarem mais na própria fé", conclui o arcebispo. Nessas condições nas quais o
objeto da luta política não se constitui legitimamente e a "fé" passa a ser a
resposta a "provocações", o debate público se desqualifica e não tem
possibilidade de instituir-se enquanto tal, permanecendo no campo das acusações
mútuas restritas ao pequeno círculo dos que se sentem afrontados.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao lançar a campanha, a ATEA buscava posicionar-se publicamente como uma
minoria política, afirmando que ser ateu faz da pessoa um alvo do preconceito.
Porém, o resultado não esperado foi o seu reconhecimento como uma minoria
religiosa, acusada de fundamentalismo e de ser tão intolerante e ofensiva
quanto as posições religiosas que ela visava a combater. Para explicar esse
aparente paradoxo, procuramos demonstrar que a posição social a partir da qual
a associação pretendia se colocar publicamente não está disponível no contexto
sócio-histórico do secularismo brasileiro atual, considerando três
constrangimentos que devolvem o ateísmo para a posição religiosa. O primeiro é
a presença ainda hegemônica da Igreja católica na vida pública e o importante
papel que ela exerceu na formação da sociedade civil ao longo do século XX; o
segundo é o modo particular como foi juridicamente formulado, no Brasil, o
direito à liberdade religiosa; e o terceiro é a reivindicação por parte do
movimento ateísta de uma posição de minoria que, de um modo geral, apenas se
justificaria quando um destino social estigmatizante fosse coletivamente
atribuído a um grupo, independentemente de suas escolhas conscientes. Esses
dois últimos constrangimentos se tornam evidentes na análise quando se observa
que tanto religiosos quanto ateus são levados a disputar suas posições com base
na mesma linguagem jurídica e política, enfrentando-se, como em um jogo de
espelhos, a partir de posições idênticas, mas invertidas. Retomemos,
resumidamente, os três aspectos mencionados.
Conforme dissemos no início, o espaço civil brasileiro foi marcado por uma
forte presença católica até os anos 1980. Desde então, houve uma diminuição
progressiva da população que se declara católica e um aumento daqueles que se
declaram cristãos não católicos. Houve, também, um significativo aumento
daqueles que se declaram "sem religião". Porém, como vimos, "não ter religião"
não é, necessariamente, sinônimo de ser "ateu". É preciso distinguir "sem
religião" de "não religioso", pois o primeiro termo é usado para todos aqueles
que, crendo, não possuem uma filiação institucional. Assim, o número de não
religiosos pode ser apenas estimado, sem que exista uma clareza de sua
proporção em relação às demais posições. Considerando a grande mobilidade
religiosa, é possível que a maior parte dos 8% declarados sem religião seja de
crentes em Deus. Outro aspecto desse constrangimento é a importância do
catolicismo na formação da sociedade civil no Brasil. Principalmente do início
da década de 1960 até o final dos anos 1980, a Igreja católica sustentou uma
forte posição de esquerda e de oposição ao regime ditatorial imposto pelos
militares. Com isso, foi uma das responsáveis pela organização de movimentos
sociais, de lutas pela liberdade e pelos direitos humanos. A partir disso, ela
posiciona-se como fomentadora da democracia num Estado laico. Além disso, sendo
o declínio da hegemonia católica um fenômeno recente, a lógica social que
confere plausibilidade à apresentação de si como uma "minoria" religiosa ainda
não está plenamente estabelecida. Essas dificuldades reverberam nas tentativas
da ATEA de se posicionar como uma minoria política, tornando-a pouco plausível.
Na medida em que a campanha buscava contrapor-se à religião nos dois eixos
delimitados acima em nossa análise, por um lado, no da crença, por outro lado,
no da moralidade , ela foi levada a inserir-se no campo de disputas delimitado
pela própria religião católica e legitimado enquanto tal pelo Estado. Nesse
caso, cabe ressaltar que o entendimento jurídico que dá suporte à laicidade do
Estado brasileiro protege a liberdade religiosa e sustenta que as religiões não
devem ser alvo de ofensas. Ora, a opção por não crer é, também, defendida pela
mesma lei e, assim, acaba por encapsular a posição dos ateus como uma variante
da liberdade religiosa.
Vimos que, nas legislações estaduais apresentadas como justificativas para
negar a veiculação da campanha, são os mesmos artigos que impedem a
discriminação racial, sexual e religiosa e defendem a moralidade e os "bons
costumes". A tentativa de afirmar-se uma minoria política, espelhando-se nos
movimentos negros e homossexuais, não encontra, pois, respaldo legal,
estimulando a leitura da posição minoritária dos ateus na chave religiosa. Não
crer na existência de Deus é percebido como uma escolha dentro do campo de
possibilidades religiosas. Desse modo, a posição pretendida pelos ateus, de
poder expressar publicamente suas críticas à religião situando-se ao mesmo
tempo fora do campo religioso, não é uma posição historicamente possível no
atual contexto social e jurídico brasileiro. Essa impossibilidade histórico/
jurídica é reforçada pelo fato de que "ser ateu" é percebido como uma "escolha
religiosa" individual tornada possível pela proteção legal, e não uma herança
"natural" como a cor da pele ou a orientação sexual. O entendimento comum de
que as pessoas são livres para escolher a própria "crença", um dos princípios
mais bem- -aceitos do Estado laico, é continuamente mobilizado aqui para
definir o "ateísmo" como uma variante "religiosa".
Por fim, a própria estratégia política da ATEA acaba por reforçar essa leitura
"religiosa" de sua atuação. Nosso argumento aqui sugere a existência de um
espelhamento entre ateus e religiosos nas formas de se posicionar e agir
publicamente. Esse espelhamento se torna visível em dois planos: na formulação
da campanha e nas respostas jurídicas e sociais.
Ao formular a campanha, um dos objetivos declarados de seus idealizadores era
relativizar a crença. Para isso, afirmaram que "somos todos ateus, com os
deuses dos outros". Porém, essa afirmação aceita o suposto latente da
existência de um Deus, ao menos aquele que é verdadeiro para um sujeito. Some-
se a isso a imagem da religião como fonte de malefícios e tragédias, como o
avião colidindo com as torres do WTC e a Bíblia na mão de um presidiário. Essas
imagens recolocam o debate no campo da disputa doutrinária intrarreligiosa, ao
indicar que eles são descrentes apenas com relação às crenças dos demais, mas
que possuem uma crença mais verdadeira. Esses dizeres os posicionam, portanto,
como uma crença alternativa com relação à crença dos outros. A análise dos
slogans e imagens da campanha demonstrou que a proposta da ATEA disputou,
certamente em desigualdade de posições, dois campos de debate nos quais as
religiões já têm longa experiência e farta reflexão: o estatuto da crença e a
religião como fonte de moralidade.
No que tange às respostas jurídicas, pode-se observar o uso de uma mesma
linguagem, jurídica e política, entre o presidente da ATEA e o jurista Ives
Gandra. Ambos aceitam os termos do debate: a liberdade religiosa, a noção de
minoria e a existência de vítimas, mas competem entre si para ser publicamente
reconhecidos como os verdadeiros ofendidos e se acusam mutuamente de
fundamentalistas. Para Sottomaior, são os ateus que sofrem preconceito por não
acreditarem em Deus, sendo alvo do fundamentalismo religioso. Eles teriam o
mesmo estatuto das minorias políticas, como negros e homossexuais. Para Gandra,
eles são os ofensores, fomentando a intolerância religiosa e pondo em risco a
paz social. Tentariam, ainda, impor a toda a sociedade uma visão pouco
representativa o que lhes confere características autoritárias e contrárias ao
regime democrático.
Para além dos constrangimentos políticos e jurídicos que deram à campanha um
sentido não previsto pelos seus idealizadores, gostaríamos de sugerir que a
escassa visibilidade da campanha está também relacionada à pouca densidade e
sofisticação científica, intelectual e mediática desse debate no Brasil. Com
efeito, observando o debate sobre o ateísmo no plano mundial, pode-se perceber
que as proposições defendidas remetem continuamente a um vasto campo de
conhecimento e erudição acumulados ao longo de várias décadas de reflexão,
ensino e debate público entre intelectuais de prestígio tanto no campo das
ciências quanto no campo das religiões. No caso brasileiro, o limitado acesso
da população à universidade, a relativamente mal distribuída cultura científica
e a total ausência de estudos religiosos como disciplina acadêmica instituída
nas universidades públicas são alguns dos condicionantes históricos que
restringem as possibilidades de alargamento desse debate para o conjunto mais
amplo das camadas cultas, mantendo-o confinado ao pequeno círculo dos mais
diretamente interessados pelo problema. À falta de um repertório científico,
filosófico, literário e teológico relativamente vasto, os atores envolvidos
como a ATEA acabam por privilegiar o campo político da discriminação contra as
minorias como arena principal do debate.
Embora a campanha de Sottomaior tenha se inspirado em questões presentes no
debate internacional, o problema do ateísmo como minoria e como ofensa ganhou
no caso brasileiro configurações muito particulares. Se tomarmos como exemplo o
vídeo, de grande circulação, Os quatro cavaleiros do ateísmo 22, que coloca em
cena uma troca de opiniões entre quatro conhecidos intelectuais ateus,
Christopher Hitchens, jornalista e crítico literário inglês, Richard Dawkins,
biólogo e escritor também britânico, Sam Harris, filósofo e neurocentista
americano, e Daniel Dennet, filósofo e um dos mais conhecidos ateus americanos
, veremos que apresentar-se como minoria é, para esses pensadores, cometer o
mesmo erro dos religiosos que tomam a crítica como ofensa pessoal. Isso porque,
para eles, o ateísmo é uma atitude intelectual que tem por objeto a crítica das
ideias religiosas, e não uma "crença a ser protegida". Consideram ter o direito
legítimo de discordar das ideias religiosas e criticá-las publicamente sem que
isso seja necessariamente tomado como insulto ou desqualificação. Esse
posicionamento nos leva ao delicado problema da ofensa. Um dos interlocutores
do vídeo acima mencionado, Daniel Dennett, observa como é difícil debater nesse
campo sem que a ofensa surja como elemento desse jogo. Para ele, os religiosos
usam do artifício dos "sentimentos feridos" para tornar impossível a
discordância. Tomando como referência o campo do debate científico, no qual a
falsificação de uma teoria não é lida como uma ofensa pessoal, seu colega Sam
Harris conclui que é impossível argumentar em um debate com os religiosos: eles
são capazes de demonstrar a implausibilidade das crenças alheias, mas não são
capazes de usar argumentos para defender a sua própria opinião.
No caso brasileiro, ao contrário, o problema da ofensa não tomou como
referência o ethos científico da falsificação dos argumentos, mas sim o ethos
político/moral do "reconhecimento" da diferença. Em razão da ausência de
personagens acadêmicos publicamente reconhecidos nesse debate, o modus operandi
da argumentação científica não funcionou como balizamento. Nesse sentido, o
ateísmo brasileiro não tinha como dispor do capital cultural necessário para
apresentar-se como uma "atitude intelectual de questionamento da fragilidade
dos argumentos religiosos". Na falta dessa possibilidade, o debate deslocou-se
para o campo da crítica política ao autoritarismo: independentemente de sua
razoabilidade, as ideias não podem ser nem perseguidas, nem impostas. Nesse
sentido, toda oposição à crítica das ideias religiosas, que no caso do debate
anglo-americano foi libelada como fundamentalismo, será tomada no debate
brasileiro como forma de autoritarismo. Parece não haver, tal como a crítica à
posição ateísta foi formulada nas reações católicas à campanha, a possibilidade
de um mundo no qual a religião seria erradicada por falsa sem que o imaginário
político das ditaduras do mundo comunista fosse acionado. Essa é, no entanto,
uma imagem bastante datada. É possível imaginar, e as novas gerações já começam
a fazê-lo, inúmeras outras maneiras de viver sem religião.