Mecanismos de exclusão política e os limites da democracia liberal: uma
conversa com Poulantzas, Offe e Bourdieu
Há, nas democracias liberais contemporâneas, uma convivência difícil entre o
preceito da igualdade política formal e o fato de que a maior parte das cidadãs
e dos cidadãos está excluída dos processos decisórios. A universalização do
acesso à esfera pública política, com a concessão de direitos formais iguais a
todos, coabita com a permanência da dominação social. Tal fenômeno é
naturalizado pelas correntes centrais do pensamento político liberal, que
estabeleceram o terreno em que se travam as disputas sobre justiça e
ordenamento democrático. Ao firmar as noções de direitos individuais e de igual
dignidade de todos os indivíduos, o liberalismo demarcou o horizonte de um
ordenamento político que combinasse o respeito à autonomia individual com a
produção da autonomia coletiva. Mas, em seguida, promoveu a deflação normativa
dos conceitos de igualdade e democracia. Carentes de materialidade, igualdade e
democracia foram resumidas a arranjos jurídicos, em particular à isonomia legal
e à competição pelos cargos de poder. A ideia da equipotência política entre os
cidadãos está fora do horizonte e, quando aventada, é descartada de imediato
como quimérica.
Se a situação é encarada com naturalidade pelo mainstream da ciência política,
outras correntes da disciplina, mais críticas e mais interessadas em resgatar o
sentido normativo da democracia, percebem-na como um problema crucial. Trata-se
de entender como operam os mecanismos de dominação nas democracias
representativas liberais contemporâneas - para também buscar formas de combatê-
los.
Em geral, "democracia" e "dominação" são conceitos que não aparecem juntos. O
regime democrático é caracterizado pela igualdade política formal, traduzida no
peso idêntico de todos os votos e na possibilidade de que, em tese, qualquer
cidadã ou cidadão se candidate para ocupar os cargos de governo. Esse governo,
por sua vez, deve ser sensível às preferências de todos, o que seria garantido
pela vigência dos mecanismos de accountability. As liberdades liberais, que se
tornaram parte central no modelo da democracia ocidental, asseguram a livre
expressão das vontades. O pluralismo social e político, por fim, estabelece que
múltiplos fluxos de informação e influência estarão em permanente disputa,
ampliando, uma vez mais, a autonomia dos cidadãos. A democracia, assim, surge
na reflexão política convencional como sendo a solução para o problema da
dominação.
Uma reflexão alternativa, que coloque em xeque os pressupostos da democracia
liberal, porém, identifica a permanência de mecanismos de dominação política,
em funcionamento nos processos e instituições democráticos. Isso se deve, por
um lado, à conexão da esfera política com as assimetrias vigentes em outros
espaços sociais, questão que será desenvolvida com mais vagar adiante. A
igualdade formal depende de recursos desigualmente distribuídos para se
efetivar em influência política; o pluralismo abstrato reveste uma situação em
que alguns interesses têm maior capacidade de se apresentar na esfera pública;
as vontades dos cidadãos não surgem espontaneamente, mas refletem processos
sociais marcados por essas assimetrias, ou seja: a democracia política não está
imune, muito menos cancela as relações de dominação estabelecidas em outras
esferas da sociedade.
Por outro lado, os regimes democráticos também operam no sentido de produzir
cidadãos adaptados às suas práticas e instituições, o que uma estudiosa
inspirada em Michel Foucault chamou de "tecnologias da cidadania"1. "Ser
cidadão" significa tomar posse de um conjunto de direitos e de potencialidades
de ação, mas também saber operar dentro do arranjo institucional que garante
esses direitos e potencialidades. É um movimento que, ao privilegiar
determinadas modalidades de ação política em detrimento de outras, gera
diferentes matrizes de efetividade para agentes que estão situados em posições
diversas do mundo social e controlam diferentes tipos e quantidades de
recursos, ao mesmo tempo modelando as expectativas desses agentes.
Em suma, este artigo propõe uma investigação sobre o paradoxo inicial das
democracias atuais, que é a convivência entre a igualdade política formal e
profundas desigualdades sociais - que refletem sobre a capacidade que agentes
situados em diferentes posições do espaço social têm tanto de participar dos
processos de tomada de decisão coletiva quanto de definir autonomamente a
própria vida. A inclusão formal, inerente aos regimes democráticos, convive com
a exclusão efetiva de indivíduos, grupos, perspectivas sociais e interesses.
Neste artigo dialogam três contribuições que buscam entender como essa exclusão
se reproduz e se compatibiliza com as regras formalmente democráticas da
política. A primeira é o conceito de "seletividade das instituições", presente
na obra inicial de Claus Offe, que visa mostrar que as instituições políticas
possuem uma seletividade própria, correspondente aos interesses do processo de
valorização do capital, o que se liga à dependência estrutural que os Estados
capitalistas possuem em relação à acumulação privada. O próprio mecanismo
eleitoral é uma instância de seletividade, na medida em que, como buscaram
demonstrar Offe e Wiesenthal, privilegia a expressão de interesses individuais,
em vez daqueles ligados às identidades coletivas.
A segunda contribuição é o conceito de "campo político", desenvolvido por
Pierre Bourdieu. Os campos sociais se definem como espaços sociais
relativamente fechados (que delimitam um "dentro" e um "fora"), hierarquizados
e competitivos. O campo político, assim, estabelece critérios de ingresso e
progresso - as formas legítimas de discursos e de comportamento político - que
afastam ou minimizam o risco de presenças potencialmente disruptivas. Os grupos
dominados são deixados do lado de fora ou, quando entram, sofrem pressão para
se adaptar ao padrão de discurso e ação exigido pelo campo.
A terceira contribuição resgatada aqui é a ideia do Estado como "ossatura
material" da luta de classes, tal como exposta em L'État, le pouvouir, le
socialisme [O Estado, o poder, o socialismo], última obra de Nicos Poulantzas.
Longe de ser a arena neutra de resolução dos conflitos de interesses, tal como
na leitura idealista, ou o instrumento a serviço da classe dominante -
igualmente neutro, porque potencialmente utilizável por qualquer um dos grupos
-, o Estado é visto como espelhando as relações de força presentes na
sociedade.
Oriundas de tradições diferentes, não necessariamente compatíveis entre si,
ainda assim as três contribuições podem oferecer vias complementares de
entendimento do fenômeno da exclusão política estrutural e da dominação sob
regimes formalmente democráticos. Elas têm em comum a preocupação com os
fenômenos da dominação política e a sensibilidade para as múltiplas forças que
agem simultaneamente nos processos históricos. Representam, cada uma a seu
modo, pontos culminantes de um tipo de reflexão que entrou em refluxo a partir
de meados dos anos 1980, com a derrota dos projetos da esquerda. E, com sua
ênfase diferenciada nos aspectos materiais e ideológicos, permitem, em
conjunto, uma visão mais matizada dos fenômenos de que tratam. Embora muitos
outros autores tenham tratado também dos limites da democracia liberal, as
obras de Bourdieu, Offe e Poulantzas são particularmente relevantes e, como
pretendo mostrar ao longo do artigo, também se mostram particularmente
propícias a uma leitura conjugada.
Na primeira seção do texto, analiso a ação do campo político como uma
demonstração do funcionamento da seletividade das instituições. O recurso à
teoria de Offe permite conectar fortemente o campo político à reprodução das
desigualdades sociais, indo além do que formulava o próprio Bourdieu. Na
segunda seção, investigo o estatuto das instituições democrático-
representativas, que são tanto conquistas das lutas dos grupos dominados quanto
mecanismos de reprodução e legitimação da dominação. Na seção conclusiva, por
fim, discuto algumas das estratégias transformadoras que são apresentadas na
literatura recente, à luz da compreensão delineada antes sobre a natureza dos
regimes democráticos liberais.
CAMPO POLÍTICO E SELETIVIDADE DAS INSTITUIÇÕES
Nos anos 1960 e 1970, pensadores marxistas e nas cercanias do marxismo voltaram
à questão do Estado. A interpretação esquemática de que ele seria mero "comitê
para gerir os negócios comuns de toda a classe burguesa", conforme a fórmula do
Manifesto2, não era capaz de explicar o funcionamento dos Estados desenvolvidos
do pós-guerra. O contraste entre a aparente simplicidade dessa definição e a
complexidade da atuação do Estado nas análises históricas e de conjuntura
produzidas pelo próprio Marx já revela a insuficiência da abordagem
instrumental.
A polêmica entre Miliband e o primeiro Poulantzas foi reveladora tanto da
riqueza quanto dos limites das respostas então fornecidas3. Poulantzas
construía um poderoso esquema formal, mas incapaz de indicar como se provia a
racionalidade para a operação do sistema, isto é, como os interesses de longo
prazo do capital eram protegidos contra a miopia dos próprios capitalistas.
Isso era fruto tanto de seu estruturalismo rígido quanto da forma de sua
apropriação da epistemologia althusseriana das "três generalidades", com
primazia absoluta dada ao trabalho conceitual e a visão de que, no final das
contas, como o "real concreto" é inalcançável sem mediações, a pesquisa
empírica é negligenciável4.
Já Miliband tendia a desprezar os elementos estruturais, apoiando sua análise
nas relações interpessoais subjetivas dentro dos grupos dirigentes e
construindo um modelo mais próximo de uma teoria crítica das elites, à la
Wright Mills, no qual o caráter capitalista das relações de produção se tornava
quase um detalhe dispensável. Como observou o próprio Poulantzas, Miliband não
foi capaz de incorporar o fato de que
a relação entre a classe burguesa e o Estado é uma relação objetiva
[e, portanto,] a participação direta dos membros da classe dominante
no aparelho do Estado não é a causa e sim o efeito, e, além disso,
uma possibilidade contingente dessa coincidência objetiva5(grifos
nossos).
Um impulso adicional ao debate sobre o Estado foi dado pelos acontecimentos
iniciados em maio de 1968. Eles iluminaram a centralidade do aparelho de Estado
como provedor de estabilidade para o sistema, atuando para superar a crise,
reacomodar as posições dos sujeitos coletivos, garantir a relegitimação de suas
estruturas e manter a reprodução das relações econômicas capitalistas. As
reflexões suscitadas por esses acontecimentos (tanto a rebelião estudantil e
operária na Europa e na América do Norte quanto as respostas dadas a ela)
deságuam, mais tarde, na obra do segundo Poulantzas, à qual voltarei em breve.
No momento, chamo a atenção para os trabalhos que discutiram as relações entre
o financiamento do Estado capitalista, sua utilidade para a acumulação e sua
ação legitimadora. Destacaram-se, então, os trabalhos de Habermas sobre a crise
de racionalidade sistêmica do Estado capitalista, com a crescente disjunção
entre economia, cultura e administração, e de O'Connor sobre os problemas de
financiamento do Estado6.
No entanto, para os fins deste artigo, a contribuição de Claus Offe é a mais
importante. Sobretudo em seus textos dos anos 1970, o cientista político alemão
apresentou um modelo que enfatizava a dependência estrutural do Estado
capitalista em relação aos investidores privados, impondo aos gestores
governamentais constrangimentos objetivos e independentes de suas vontades,
preferências ou plataformas políticas. Sua análise é conhecida: a crise dos
anos 1960 e 1970 decorria do conflito entre as duas funções do Estado, a
garantia da continuidade da acumulação capitalista e o provimento da
legitimação do sistema. A manutenção da estabilidade política, ancorada nas
políticas de bem-estar social, tornava-se cada vez mais dispendiosa, ameaçando
a remuneração dos capitalistas, seja pela maior taxação, seja pela inflação7.
O modelo de Offe prescinde de conexões especiais entre os detentores do poder
de Estado e a burguesia, como na teoria de Miliband ou nas explicações baseadas
em "anéis burocráticos", a exemplo da formulada por Fernando Henrique quando
sociólogo8, mas também é capaz de apontar qual racionalidade atua no modelo (a
dos governantes autointeressados, que sabem que precisam introjetar os
interesses do capital para manter o financiamento do Estado e, portanto, a
possibilidade de exercício do poder), sem precisar apelar para "as estruturas"
ou outro deus ex machina similar, tal como o primeiro Poulantzas.
A dependência estrutural implica que estão objetivamente vetadas medidas que
afetem os níveis de remuneração considerados aceitáveis para o capital, que
provocariam retração da atividade econômica, pondo em risco o financiamento das
ações governamentais9. Embora os limites impostos à ação do Estado sejam
objetivos, os níveis de remuneração aceitáveis para o capital são subjetivos,
pois, como explicou o próprio Offe,
a posição de força dos empresários ou dos investidores inclui a
capacidade de definir a realidade. Isso significa que aquilo que eles
consideram uma carga [de impostos] insuportável é efetivamente uma
carga insuportável, que conduzirá, nos fatos, a uma queda da
propensão a investir [...]. O debate sobre o fato de saber se o
Estado "realmente" reduziu os lucros é, por essa razão, puramente
acadêmico, pois os investidores estão em posição de realmente poder
produzir, por suas próprias interpretações, um "estrangulamento do
lucro" e os efeitos que o seguem10.
Dessa dependência deriva a "seletividade das instituições". Offe chama a
atenção, em particular, para a "seletividade sistêmica", imposta "pelas
estruturas e processos organizacionais do sistema político", que serve tanto
para decantar um interesse global da classe capitalista quanto para bloquear
manifestações anticapitalistas11. Um exemplo vivo dessa seletividade se
encontra no coração mesmo do elemento democrático do sistema político,
vinculado à possibilidade da participação popular. O modelo liberal de eleição,
em que cada cidadão é chamado a participar como indivíduo isolado, com a
exigência normativa de "votar de acordo com a própria consciência", favorece a
expressão de interesses individuais, em detrimento daqueles que precisam ser
produzidos coletivamente12.
De maneira similar, Poulantzas observa que "o Estado [capitalista] consagra e
institucionaliza essa individualização pela constituição das mônadas econômico-
sociais em indivíduos-pessoas-sujeitos jurídicos e políticos"13. Na verdade, a
concessão do direito de voto deslegitimou, automaticamente, outras formas, mais
ofensivas e mais coletivas, e muitas vezes também mais eficazes, de
manifestação política popular, já que a expressão eleitoral passou a vigorar
como o ápice da soberania coletiva14.
A contraface da dependência estrutural, que leva os agentes do Estado a
introjetar a necessidade de acumulação do capital, é a baixa permeabilidade à
expressão de interesses conflitivos. O campo político - para introduzir aqui o
conceito de Bourdieu - trabalha sistematicamente no sentido da moderação de
demandas, comportamentos e discursos. A expressão do conflito é sempre limitada
a um espectro considerado aceitável, isto é, há um esforço perene de restrição
e domesticação dos antagonismos sociais. É possível dizer que a estrutura do
campo político condensa os mecanismos de seletividade das instituições, no
sentido de Offe.
A relação de Bourdieu com a tradição marxista é complexa. Para alguns de seus
críticos à direita, ele seria um marxista disfarçado15. Autores dentro do
marxismo, por sua vez, assinalam cuidadosamente o que consideram as limitações
do sociólogo francês16. O próprio Bourdieu preferia dizer que tinha Marx entre
seus interlocutores, tal como Weber ou Durkheim, mas não se julgava obrigado a
um tipo de filiação que o rotulasse: "ser ou não marxista é uma alternativa
religiosa e de modo algum científica"17.
De fato, o pensamento de Bourdieu possui aproximações e distanciamentos com o
marxismo. Aproxima-se, em primeiro lugar, pela preocupação central com as
práticas sociais, que ecoa a oitava das "Teses sobre Feuerbach", de Marx ("A
vida social é essencialmente prática"). E também por uma abordagem materialista
que não se funda "a partir da biologia mas a partir de determinantes
sociais"18. Distancia-se pela primazia que confere aos elementos simbólicos e
pela relativa indiferença às relações de produção. Não se trata, portanto, de
forçar Bourdieu numa moldura marxista, nem de buscar uma conciliação perfeita
de seu pensamento com o de Offe ou Poulantzas. É na sua diversidade que essas
abordagens permitem uma visão mais rica dos mecanismos de dominação social. Em
particular, o conceito bourdieano de "campo" contribui para expandir a
compreensão da seletividade das instituições, de uma forma que o modelo
original de Offe não contemplava.
O campo político é o
lugar em que se engendram, na concorrência entre os agentes que nele
se encontram envolvidos, produtos políticos, problemas, programas,
análises, comentários, conceitos, acontecimentos, entre os quais os
cidadãos comuns, reduzidos à condição de "consumidores", devem
escolher19.
Assim, o próprio conceito de campo já determina a existência de um lado de
dentro e um lado de fora, rompendo com a ficção democrática de que somos todos
cidadãos iguais, com igual participação potencial na condução das questões de
interesse coletivo. De fato, a conciliação entre a ideologia democrática
igualitária, necessária à legitimação do sistema, e o funcionamento oligárquico
das instituições vai ser uma questão central para a estabilidade das
democracias liberais.
Não por acaso, para as leituras conservadoras da política democrática, a
"cultura cívica" ideal seria aquela que combinasse uma alta crença na
efetividade da própria atuação política com uma propensão nula a testar essa
crença20. As virtudes da apatia política são exaltadas pela teoria democrática
hegemônica desde a obra seminal de Schumpeter, cujo ideal prevê a participação
dos cidadãos comuns restrita ao momento do voto21. Um pouco depois, Seymour
Lipset argumentou que a baixa participação política demonstra que o regime
democrático vai bem, possui alto grau de aprovação. Ele chegou a afirmar que,
em sistemas de voto facultativo, quanto maior a taxa de abstenção eleitoral,
mais firme está a democracia22. Samuel Huntington é mais sutil: não é a apatia
que é um bem, mas a participação que é um mal. O excesso de participação
aumenta os conflitos sociais, põe em risco a continuidade do sistema e gera um
excesso de demandas que o Estado é incapaz de processar23. Bourdieu, tanto
quanto esses autores, compreende que a redução da participação popular é
condição sine qua non para o funcionamento dos regimes políticos de tipo
ocidental. Mas, ao contrário deles, identifica nesse fato um conflito com o
ideal democrático oficialmente reconhecido.
O campo político é, como qualquer outro campo social, um espaço de exclusões.
Os agentes que dele participam precisam se adequar a formas de comportamento e
de expressão sob pena de serem segregados pelos outros integrantes do campo e
terem reduzida ou mesmo anulada sua capacidade de intervenção efetiva. Três
aspectos, entre outros, podem ser ressaltados:
1. A participação no campo político, sobretudo em suas posições mais centrais,
carrega exigências de disponibilidade de tempo que trabalham objetivamente
contra pessoas que estão presas a outros tipos de compromisso. É um elemento
que opera, em primeiro lugar, contra trabalhadores de ambos os sexos, uma vez
que o provimento da própria subsistência é prioridade e o tempo para a
participação política fica severamente constrangido. Aqueles que superam essa
barreira inicial têm, por vezes, condições de se profissionalizar na política
(como legisladores, dirigentes sindicais, dirigentes partidários), o que
resolveria o problema - para os homens, não para as mulheres. Como são em geral
as principais responsáveis pela gestão de suas unidades domésticas, elas
encontram nessa exigência de tempo uma barreira importante não só para iniciar,
mas também para desenvolver uma carreira política24. Não por acaso, os dados
mostram que o percentual de viúvas e solteiras entre ocupantes de cargos
públicos é muito maior que o de viúvos e solteiros. A unidade familiar, que
para eles significa um apoio à carreira, para elas conta como um fardo.
2. Um mecanismo particularmente efetivo de exclusão do campo político é a
necessidade de adequação ao padrão discursivo dominante. O "discurso político
espontâneo dos dominados", nas palavras de Bourdieu, é desacreditado
simbolicamente, por fugir dos critérios tácitos de elevação de vocabulário, de
observância da norma linguística culta, de apresentação de seu conteúdo na
forma de "argumentos racionais"25. São os critérios que garantem ao discurso a
respeitabilidade necessária para que seja de fato aceito no campo político.
Elementos desimportantes à primeira vista, como o timbre de voz ou as marcas
regionais, contribuem, nas situações efetivas de fala, para a desqualificação
da expressão de integrantes de grupos minoritários26. Aos integrantes de grupos
dominados, então, resta a opção entre insistir em uma dicção própria,
produzindo um discurso menos efetivo, dada sua baixa legitimidade no campo, ou
tentar reproduzir os modos de fala dominantes, o que implica distanciamento em
relação à sua base social, incapacidade de expressar plenamente a experiência
vivida e uma contribuição para a reprodução das estruturas de exclusão27.
3. Por fim, o campo político trabalha no sentido de excluir as posições
políticas mais radicais e menos abertas ao compromisso, à barganha e à
negociação. A literatura da ciência política já indicou, há décadas, a
tendência centrípeta da competição eleitoral, em que todos os concorrentes
efetivos têm incentivos palpáveis em buscar aproximação ao centro político. O
mesmo se pode dizer da atuação no poder legislativo. É possível concorrer às
eleições só para marcar posição e aproveitar o momento da campanha para fazer
proselitismo, assim como é possível manter absoluta intransigência no trabalho
parlamentar, recusando qualquer acordo. Mas isso significa condenar à
irrelevância prática a ação política. A tentação de utilizar as posições
conquistadas para obter vitórias ainda que pequenas, participando do jogo de
acordos que desgasta as posições mais radicais ou principistas, é simplesmente
grande demais. E pode ser sustentada não por oportunismo ou pela busca de
vantagem pessoal, mas pelo desejo de gerar melhorias concretas, mesmo que
laterais, para os seus representados.
Assim, as exclusões não são desvios ou imperfeições do campo político: são
efeitos necessários da própria estrutura, funcionais para a sua reprodução e
definidores dos sentidos socialmente dominantes da política e da ação política.
Ao mesmo tempo, não é possível compreender adequadamente o funcionamento da
política - isto é, do campo político - sem levar em conta a relação entre
Estado e capital. A exclusão de alguns grupos, a modulação das demandas na
direção de sua moderação e a domesticação dos discursos e formas de ação são
mecanismos centrais e complementares do funcionamento de instituições que, ao
mesmo tempo, legitimam a si mesmas e as estruturas da economia.
É por isso que se pode dizer que o funcionamento cotidiano do campo político
expõe a seletividade das instituições. Os grupos dominados têm dificuldade em
apresentar demandas que não sejam traduzidas na linguagem "legítima" da
política, o que significa adaptar essas demandas, tornando-as mais palatáveis,
e comprometer a representatividade do discurso diante da experiência vivida
daqueles grupos. Trabalhadores, mulheres e integrantes de minorias étnicas,
entre outros grupos, são suscetíveis aos mecanismos de exclusão, tanto pela
desvalorização de suas formas expressivas quanto pelo fato de que demandas pela
transformação social são as mais comprometidas pela exigência de barganha e
produção de consensos.
A DEMOCRACIA REPRESENTATIVA COMO ESPAÇO E EFEITO DE LUTAS
A contribuição de Claus Offe ao entendimento do funcionamento do Estado
capitalista pode ser agregada à teorização do último Poulantzas sobre a relação
entre Estado e luta de classes. São autores com trajetórias e bagagens
intelectuais muito diversas, mas com uma preocupação comum relacionada aos
mecanismos estruturais que garantem a reprodução da dominação capitalista. Se,
em sua obra final, Poulantzas se aproxima de Offe ao moderar o
hiperestruturalismo que marca muito de sua produção anterior, por outro lado
ele aumenta a complexidade de sua reflexão, em direção estranha ao autor
alemão, sobretudo pela incorporação de um conceito de poder inspirado em Michel
Foucault28.
A importância de O Estado, o poder, o socialismo na renovação da estratégia da
esquerda não pode ser desprezada. Poulantzas foi fundamental para construir a
base teórica do compromisso democrático da esquerda, de uma maneira bem mais
sofisticada do que ocorria na mesma época, por exemplo, com alguns dos
principais teóricos do eurocomunismo, que desembocaram numa aceitação acrítica
das instituições representativas liberais29. Para Poulantzas, as instituições
do Estado não podem ser entendidas como mero instrumento a serviço da classe
dominante, nem como um espaço neutro de resolução dos conflitos, mas como a
resultante da correlação de forças de determinada formação social em
determinado momento de sua história. Elas são capazes de incorporar avanços,
mas sempre tendo como limite a hegemonia estabelecida. Um governo de
trabalhadores, por sua vez, não pode simplesmente tentar usar a seu favor a
estrutura estatal vigente, já que ela não é um instrumento, mas uma
materialização da forma específica da dominação de classe e da correlação de
forças entre as classes sociais30. Um governo a serviço de outros interesses e
outro projeto de sociedade precisaria constituir novas estruturas, que
expressassem a nova hegemonia e que, portanto, fossem mais (e não menos)
democráticas que aquelas herdadas do Estado capitalista.
Com isso, Poulantzas avançou de forma significativa na direção de um
entendimento mais complexo das estruturas do Estado. Elas têm lado, mas ao
mesmo tempo estão em disputa. E se constituem como fruto dessa disputa:
Não basta dizer simplesmente que as contradições e as lutas
atravessam o Estado, como se se tratasse de fazer aflorar uma
substância já constituída ou de percorrer um terreno vazio já
existente. As contradições de classe constituem o Estado, presentes
na sua ossatura material, e fabricam assim sua organização31.
Dito de outra forma,
o Estado, no caso o Estado capitalista, não deve ser considerado como
uma entidade intrínseca mas, como aliás é o caso do "capital", como
uma relação, mais exatamente uma condensação material (Estado
aparelho) de uma relação de forças entre classes e frações de classe,
tal como elas se expressam, de maneira sempre específica (separação
relativa do Estado e da economia dando lugar às instituições próprias
do Estado capitalista), no próprio seio do Estado32.
Assim, Poulantzas contribui para o entendimento de que as instituições também
estão em disputa. Não é possível aceitar a percepção ingênua de que essas
instituições não participam da reprodução das relações de dominação. O Estado é
entendido a partir de seu caráter tanto material, no sentido de que são
instituições concretas, que possuem agentes próprios e que moldam a agência de
outros, por meios tanto ideológicos quanto abertamente repressivos. A partir
daí, fica estabelecido o caráter produtivo do Estado - que ecoa o poder
produtivo de Foucault e a ideologia produtiva de Althusser33. O Estado produz
os comportamentos, institui categorias de agentes, dissemina práticas (como a
"cidadania", apontada no início deste artigo) e contribui para moldar o mundo
social sobre o qual se impõe34.
Ao mesmo tempo, o elemento de violência da dominação é recuperado, na denúncia
da ilusão de que o domínio não se baseia mais na violência física. A lei
intervém não contra a violência do Estado, mas no papel de sua organizadora;
ela é "o código da violência pública organizada"35. Quando Poulantzas escreveu,
tais lembretes talvez parecessem desnecessários, já que, de diferentes
maneiras, tanto marxistas como weberianos trabalhavam com percepções realistas
do Estado, em que o exercício da violência ganhava destaque. Talvez não seja o
caso hoje.
Há um viés de classe nessa ignorância. Para as camadas pobres da população,
para os moradores das periferias, para os integrantes das minorias étnicas e,
em certa medida, também para a juventude, a materialidade do "Estado" continua
aparecendo, antes de qualquer coisa, na forma de seu aparelho repressivo. Uma
estimativa do final do século XX indicava que, na cidade de Nova York, 80% dos
jovens negros e latinos do sexo masculino já haviam sido detidos pela polícia
ao menos uma vez36. Nas periferias brasileiras, entre os jovens negros, a
situação não é diferente. Concorrem para essa situação, por um lado, o fato de
que o respeito à lei impõe maiores custos para os integrantes dos grupos em
situação material mais precária e, por outro, o viés discriminatório do aparato
policial, que também não é exclusividade do Brasil37.
A violência organizada do Estado reprime as formas cotidianas de conflito que a
concentração de poder político e econômico produz. Reprime, inclusive, a
revolta daqueles que estão excluídos da espiral de consumo conspícuo que é
alimentada por um discurso ideológico quase onipresente e que se tornou crucial
para a reprodução do capitalismo desenvolvido38. Essa violência ocorre tanto
dentro da letra estrita da lei quanto às suas margens, pela ativação de códigos
que estão subjacentes ao ordenamento social, mas que a pressão dos grupos
subalternos conseguiu que fossem eliminados das normas oficiais.
Pierre Bourdieu não chegou a produzir sua prometida obra sobre o Estado ou,
ainda mais amplamente, sobre o "campo do poder". A compilação de suas
conferências sobre o assunto, proferidas no início dos anos 1990 no Collège de
France, leva a um conjunto bastante fragmentário e insatisfatório39. Ainda
assim, há elementos no pensamento do sociólogo francês que contribuem para uma
compreensão do Estado contemporâneo que guarda afinidades com o último
Poulantzas.
Para Bourdieu, os embates cruciais dentro da sociedade devem ser buscados no
campo de poder, o espaço social no qual se defrontam diferentes formas de
poder, que por isso se define como "campo de lutas pelo poder entre detentores
de poderes diferentes"40. Aqueles que controlam diferentes formas de capital
(econômico, cultural, político, religioso etc.) disputam o peso relativo de
seus ativos, a capacidade que possuem de determinar o funcionamento do conjunto
da sociedade. Trata-se da "luta pela imposição do princípio de dominação
dominante", que alcança equilíbrios sempre provisórios na "divisão do trabalho
de dominação", e "também uma luta pelo princípio legítimo de legitimação"41.
Nesse processo, o Estado pode ser considerado o "campo administrativo", um
"setor particular do campo do poder"42. Seria possível pensar numa teoria
ampliada do Estado em Bourdieu, paralela à de Gramsci, em que o Estado (em
sentido amplo) coincidisse com o campo do poder. Mesmo sem essa manobra, porém,
é possível vislumbrar a centralidade do Estado para a dominação política.
Afinal, o Estado concentra diferentes espécies de capital (econômico, militar,
político), o que o torna um agente social especial43. E, como observa Bourdieu,
é por meio do Estado que se estabelece a "crença política primordial", a
imposição do ponto de vista dos dominantes como sendo o ponto de vista
universal44. É o fundamento da legitimidade, que para Bourdieu, ao contrário de
Weber, não é algo que se organize no plano da consciência; antes, "está
enraizada no acordo imediato entre as estruturas incorporadas, tornadas
esquemas práticos [...], e as estruturas objetivas"45. A abordagem weberiana da
legitimidade, diz Bourdieu, é "um problema escolástico". O problema, de fato, é
que ela não se apresenta como problema; que, "exceto nas situações de crise, a
questão da legitimidade do Estado, e da ordem que ele institui, não é
colocada"46.
Em ações aparentemente banais, produzindo o acordo imediato sobre o qual se
falava, o Estado funda o consenso social "sobre esse conjunto de evidências
partilhadas que são constitutivas do senso comum"47. Ele estabelece, por
exemplo, os grandes ritmos do calendário social, como as férias escolares (ou o
horário de verão), assegurando experiências do tempo concordantes48. Ou então,
continuando com exemplos do próprio Bourdieu, a divisão do mundo universitário
em disciplinas, o que determina o arcabouço para as lutas entre os acadêmicos.
Entendendo o Estado como um campo, Bourdieu percebe que ele é um espaço que se
reconfigura a partir das relações de força entre os agentes que nele ingressam,
sem por isso ser neutro diante dos interesses em jogo. É necessário entender
simultaneamente a maleabilidade do aparelho estatal e sua vinculação com os
padrões de dominação. Justamente por isso, como ressaltava Bourdieu em sua fase
mais militante, o Estado é um terreno em que os interesses dos grupos dominados
têm melhor condição de se expressar do que em outros campos, como o econômico,
por exemplo. A retração do Estado em relação ao mercado é, assim, um
retrocesso49.
Há aqui uma marcante afinidade com o Poulantzas de O Estado, o poder, o
socialismo, que, aliás, foi assinalada já por Alex Callinicos50. O Estado
aparece como um espaço a ser disputado, sem que se negue seu caráter de peça-
chave na manutenção das relações de dominação. Isso permite valorar as
conquistas que os grupos dominados obtêm, sem desdenhá-las como "concessões da
classe dominante", cosméticas e desprovidas de importância, nem aceitá-las como
prova da neutralidade estatal. É o caso, por exemplo, dos mecanismos de bem-
estar social, da legislação trabalhista, antirracista e de proteção às mulheres
ou dos próprios direitos políticos que formam a democracia representativa.
É fato que a conquista do sufrágio universal não realizou a igualdade que a
divisa "uma pessoa, um voto" prometia. Os processos de decisão são muito mais
influenciados pelos grupos dominantes, cujos recursos garantem uma capacidade
de pressão maior e mais efetiva. Mas os direitos democráticos reafirmam, de
maneira normativa e simbólica, a igual consideração devida a todos os cidadãos
e a todas as cidadãs. E possuem efeitos concretos que não são desprezíveis,
obrigando que os interesses dos grupos sociais dominados sejam levados em
consideração, ainda que seja para apaziguá-los. Em suma, a democracia concede
mecanismos institucionais de pressão que não podem ser simplesmente ignorados.
Com isso, abre a possibilidade de que, por vezes, os acertos políticos dos
dominantes sejam embaralhados por imprevistos que nascem de baixo.
Ou seja: os mecanismos democrático-representativos vigentes revelam tanto a
força dos grupos dominados (que foram capazes de impor o processo eleitoral
como forma quase universal de legitimação) quanto sua debilidade (já que o
campo político permanece exclusionário e a seletividade das instituições
enviesa os resultados em favor dos dominantes). São, assim, uma expressão clara
da condensação material de determinada correlação de forças, como diria
Poulantzas. E alterações na correlação de força exigem novas formas
institucionais.
ESTRATÉGIAS POLÍTICAS DE RESISTÊNCIA À DOMINAÇÃO
Ainda que em estágio muito preliminar de elaboração, a triangulação aqui
proposta, entre as contribuições de Bourdieu, Offe e Poulantzas, ajuda a pensar
os limites ao aprofundamento da democracia no atual quadro de instituições. Ela
concorre, em particular, para evidenciar os limites tanto da mera incorporação
de integrantes de grupos subalternos aos espaços decisórios já constituídos (a
"política de presença" propugnada pelo movimento feminista a partir dos anos
1990) quanto da abertura de arenas marginais na estrutura do Estado, que seriam
mais permeáveis às demandas dos grupos dominados (os novos espaços
participativos, como conferências, conselhos de políticas públicas ou
orçamentos abertos à manifestação popular, para citar exemplos em voga na
ciência social brasileira).
Não se trata de negar a eventual importância desses mecanismos, mas sim de
entender que eles, por si sós, não são capazes de avançar além de certo ponto.
A política de presença, permitindo a incorporação nos espaços decisórios de
novas "perspectivas sociais", nos termos de Iris Marion Young51, tem aparecido
como a solução para os problemas da democracia representativa, evitando o
monopólio das posições de poder por integrantes de um único grupo social. As
novas arenas participativas, por sua vez, resolveriam o problema da
impermeabilidade do sistema político às demandas dos grupos subalternos. A
literatura inicial sobre o Orçamento Participativo ilustrava, até de forma
ingênua, a natureza das apostas nesses novos espaços: promotor da
"revitalização da vida cívica" e "local vibrante de organização e
ativismo"52gerador de uma "ética democrática radical"53, efetivação das
promessas da democracia deliberativa54. Ultrapassado esse entusiasmo inaugural,
a esperança deslocou-se para conselhos e conferências de políticas públicas, em
que os grupos populares se fariam ouvir por meio de representantes virtuosos55.
São apostas excessivas, naquilo que esperam da institucionalidade política - e,
como outro lado da moeda, extremamente tímidas no reconhecimento de como os
mesmos mecanismos de incorporação dos grupos subalternos funcionam como
instrumentos de cooptação e de canalização das energias políticas em detrimento
de outras formas de mobilização. São tímidas, também, na reflexão sobre o modo
pelo qual a política é influenciada pelas desigualdades em outras esferas (em
primeiro lugar, nas relações econômicas e no lar).
A incorporação à esfera política de grupos antes impedidos de chegar a ela é
importante e necessária, mas não significa, em nenhuma medida, a superação do
problema da desigualdade de poder. As desigualdades marcam a presença desses
grupos e agem de forma permanente no sentido de orientar e limitar sua ação.
Eles possuem menor controle dos recursos materiais, a começar pelo tempo livre,
que são a base da ação política. São menos hábeis na produção do discurso
adequado, até porque em geral são menos treinados para o debate, muitas vezes
ocupando posições profissionais subalternas em que não participam da tomada das
decisões. E têm maior dificuldade em fazer com que seus interesses transitem
como interesses universais, pois mudanças na ordem social geram beneficiados e
prejudicados, ao passo que a manutenção do status quo pode se apresentar como
neutra.
As contribuições de Offe, Bourdieu e Poulantzas ajudam a entender as maneiras
pelas quais as estruturas políticas trabalham para neutralizar a eventual
incorporação de representantes dos grupos subalternos. É necessário ter
consciência da força e da resiliência dos mecanismos de reprodução da dominação
social, a fim de que as estratégias transformadoras não se tornem
autocomplacentes formas de ilusão consoladora.
Em primeiro lugar, é preciso voltar à conexão entre a política e as outras
esferas da vida social. A dependência estrutural do Estado em relação ao
capital ou os efeitos da dominação masculina, que retira das mulheres recursos
necessários para a ação política (como o tempo livre), permanecem em ação,
mesmo quando medidas de inclusão são adotadas. A mudança institucional é
relevante, mas não esgota, nem garante, a mudança social.
A presença das classes dominadas no Estado é assegurada enquanto dominadas; por
isso, não se trata de ganhar "por dentro" o Estado56. Ao mesmo tempo, convém
não ignorar o peso dos mecanismos de domesticação do conflito político, que
estão permanentemente em ação no campo político. As instituições geram, pelo
próprio funcionamento, distinção entre os interlocutores aceitos e a base que
devem representar. Elas promovem um estímulo constante à cooptação das
lideranças, dadas as recompensas simbólicas e materiais para aqueles que
aceitam "jogar o jogo" da política normalizada. Mais de cem anos atrás, Robert
Michels57 já indicava a tendência à "oligarquização" das organizações políticas
revolucionárias e, em que pesem as simplificações do autor, suas provocações
permanecem válidas.
Há também o esforço permanente de "civilização" do conflito político. A
ocupação dos espaços institucionais cobra seu preço na forma da exigência de
adesão a determinadas pautas, cronogramas e formas de ação e de discurso. Em
particular, bloqueia as expressões mais disruptivas do conflito, canalizando-
o para manifestações contidas dentro de uma institucionalidade que, como se
viu, é marcada por sua seletividade58. Tal normalização do conflito político
teria, como principal mérito, o afastamento do risco da violência, entendida
aqui, é claro, como a violência física aberta, sem levar em conta as formas de
violência estrutural ou sistêmica (que, no entanto, geram efeitos igualmente
materiais). Ela é feita, porém, às custas da redução da política à
administração rotineira das coisas, mutilando-a de seu potencial mais criativo
e transformador.
Nesse processo, é retirada dos grupos dominados a capacidade de adotar
estratégias mais ofensivas de luta política, que em muitos casos se mostram
mais eficazes. Falando da obtenção dos direitos civis pelos negros no Sul dos
Estados Unidos, James Scott observa que "desordem de massa e violência
obtiveram, em curto espaço de tempo, o que décadas de organização pacífica e
lobby falharam em alcançar"59. Não se trata de fazer uma apologia acrítica da
violência dos dominados, mas de compreender que o simples descarte da pressão
política extrainstitucional paralisa formas de promoção da mudança social - e
também de colocar essa violência em perspectiva, contrastando-a com a violência
estrutural ou sistêmica, que age cotidianamente contra os grupos subalternos e
que a própria institucionalidade legitima e torna invisível.
De maneira ainda mais crucial, os imperativos da eficácia política empurram os
grupos contestatórios na direção da reprodução das mesmas estruturas
hierárquicas e da mesma lógica política excludente do sistema político contra o
qual se insurgem. Numa resposta a esses dilemas, ativistas apresentam o
programa de "mudar o mundo sem tomar o poder", para usar o slogan de John
Holloway60. É a manifestação da consciência de que o acesso aos espaços do
poder político implica mudanças e no afastamento dos ideais originários. A
conquista do poder político se torna um objetivo que subordina todos os outros,
instrumentalizando todas as expressões da luta antissistêmica, o que terminaria
por validar o realismo cínico e manipulador que marcou parte da esquerda
tradicional. O movimento revolucionário é construído "como imagem espelhada do
poder, exército contra exército, partido contra partido, com o resultado de que
o poder reproduz a si mesmo dentro da revolução mesma"61.
Não há como ignorar o alerta, que ecoa a tragédia dos movimentos emancipatórios
do século XX. No entanto, é questionável se o purismo é a saída: afinal, o
poder continuará a ser exercido. Dificilmente, o movimento zapatista, principal
exemplo evocado por Holloway, pode ser considerado um caso de sucesso na
construção de uma sociedade nova. O que sua posição tem de mais valioso é a
percepção de que é necessário manter autonomia e distância em relação ao
Estado. Algo que já estava presente em Poulantzas, quando ele observa que,
embora a luta de classes se dê também no Estado, é necessário construir redes à
distância dos aparelhos estatais, com democracia de base e autogestão62.
Trata-se de uma discussão particularmente importante no Brasil, em que a
combinação entre a experimentação democrática posterior à Constituição de 1988
e a chegada ao governo do Partido dos Trabalhadores, em 2003, deslocou
fortemente o foco da mobilização política e das esperanças de transformação
social para o interior do aparelho de Estado. Por um lado, muitas lideranças
dos movimentos sociais passaram a ocupar posições dentro do poder executivo.
Por outro, multiplicaram-se as experiências de conferências inclusivas, que
mobilizam milhares de pessoas na busca de influência sobre a formulação de
políticas públicas. As mobilizações de rua iniciadas em junho de 2013 revelaram
com clareza os limites dessa estratégia, mas não a capacidade dos movimentos
sociais brasileiros de estabelecer alguma outra.
Das obras de Pierre Bourdieu, Claus Offe e Nicos Poulantzas, certamente não
brota nenhuma receita para suprir essa lacuna. Elas são necessárias, no
entanto, para evitar a tentação de soluções aparentemente fáceis para os
problemas da transformação social. O desafio se liga ao fato de que os
mecanismos de reprodução da dominação têm, como uma de suas características
mais marcantes, a capacidade de acomodar aquilo que parecia ser sua completa
negação. O entendimento de seu funcionamento e, em particular, de como as
instituições políticas trabalham no sentido de preservar as hierarquias e as
exclusões ainda quando são forçadas a indicar sua superação é crucial para a
produção de formas de uma ação transformadora lúcida e efetiva.
[*] Este artigo integra as pesquisas "Representação política, perspectivas
sociais e representação simbólica", financiada pelo CNPq com uma bolsa de
Produtividade em Pesquisa, e "Democracia e desigualdades", financiada pelo CNPq
com recursos da chamada MCTI/CNPq n-º 14/2012 (Edital Universal). Uma versão
anterior foi apresentada no 37º Encontro Anual da Anpocs, realizado em Águas de
Lindoia, de 23 a 27 de setembro de 2013. Agradeço às observações das(os)
participantes do Seminário Temático Democracia e Desigualdades, em particular
de Claudia Feres Faria, e também os comentários de Regina Dalcastagnè, de
Flávia Biroli e do parecerista de Novos Estudos Cebrap. Permaneço, é claro,
como único responsável pelas lacunas e equívocos do texto.
[1] Cruikshank, B. The will to empower: democratic citizens and other subjects.
Ithaca: Cornell University Press, 1999.
[2] Marx, K. e Engels, F. Manifesto comunista. São Paulo: Boitempo, 2010
[1848], p. 42.
[3] Miliband, R. O Estado na sociedade capitalista. Rio de Janeiro: Zahar, 1972
[1969]; Poulantzas, N. Poder político e classes sociais. São
Paulo: Martins Fontes, 1986 [1968]. A rigor, seguindo a
periodização proposta por Sérgio Braga ("Poder, formas de dominação e Estado no
diálogo entre Nicos Poulantzas e a sociologia política norte-americana".
Revista Brasileira de Ciência Política, n-º 5, 2011, pp. 109-37), estou me
referindo à segunda fase da obra de Poulantzas (a primeira, com foco no
direito, revelava a influência de Sartre). No que se refere à teoria do Estado,
porém, é corrente a distinção apenas entre a elaboração de Poder político e
classes sociais e mesmo de As classes sociais no capitalismo de hoje (Rio de
Janeiro: Zahar, 1975 [1974]), por um lado, e, por outro, de L'État, le
pouvouir, le socialisme (Paris: Les Prairies Ordinaires, 2013 [1978]), o
"segundo Poulantzas", que corresponderia à quarta e última fase de sua obra,
segundo Braga.
[4] Cf. Poulantzas, Poder político e classes sociais, op. cit., pp. 12-3, e Althusser, L. Pour Marx. Paris: La Découverte, 1996 [1965].
[5] Poulantzas, N. "O problema do Estado capitalista". In: Blackburn, Robin
(org.). Ideologia na ciência social: ensaios críticos sobre a teoria social.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982 [1972], p. 226.
[6] Habermas, J. Problemas de legitimación en el capitalismo tardío. Buenos
Aires: Amorrortu, 1975 [1973]; O'Connor, J. The fiscal crisis
of the State. Nova York: St. Martin's Press, 1973. De uma
posição política oposta, Samuel Huntington ("The United States". In: Crozier,
Michel J.; Huntington, Samuel P. e Watanuki, Joji. The crisis of democracy:
report on the governability of democracies to the Trilateral Comission. Nova
York: New York University Press, 1975) construiu uma narrativa que possui vá rios pontos de contato com a dos autores aqui discutidos,
observando a tensão crescente entre os mecanismos democráticos, necessários
para a legitimidade da dominação política, e a manutenção da apropriação
capitalista. Sua receita, afinal, é "menos democracia" para salvar o
capitalismo.
[7] Offe, C. "Dominação de classe e sistema político. Sobre a seletividade das
instituições políticas". In: Problemas estruturais do Estado capitalista. Rio
de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984 [1972].
[8] Cardoso, F. H. Autoritarismo e democratização. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1975.
[9] O último Poulantzas vê nessa dependência estrutural o principal limite
material à ação do Estado capitalista, em narrativa bastante coincidente com a
de Offe (Poulantzas, L'État, le pouvouir, le socialisme, op.cit., p. 274; ver
tb. p. 242).
[10] Offe, C. "De quelques contradictions de l'État-providence moderne". In:
Les Démocraties modernes à l'épreuve. Paris: L'Harmattan, 1997 [1984], pp. 84-
5; ênfases suprimidas.
[11] Offe, C. "Dominação de classe e sistema político", op. cit., pp. 148-50.
[12] Offe, C. e Wiesenthal, H. "Duas lógicas da ação coletiva: anotações
teóricas sobre classe social e forma organizacional". In: Offe, C. Problemas
estruturais do Estado capitalista. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984
[1980]. Os autores tratam das desigualdades de classe. No
entanto, é fácil perceber como, para integrantes de todos os grupos dominados,
a disjuntiva "assimilação individual vs. luta coletiva" está sempre colocada,
de uma maneira que não existe para os dominantes.
[13] Poulantzas, L'État, le pouvouir, le socialisme, op.cit., p. 109.
[14] Hirschman, A. O. De consumidor a cidadão: atividade privada e participação
na vida pública. São Paulo: Brasiliense, 1983 [1982], pp. 121-6.
[15] Ferry, L. e Renaut, A. Pensamento 68: ensaio sobre o anti-humanismo
contemporâneo. São Paulo: Ensaio, 1988 [1985].
[16] Callinicos, A. "Social theory put to the test of politics: Pierre Bourdieu
and Anthony Giddens". New Left Review, n-º 236, 1999, pp. 77-102; Burawoy, M. (2010). O marxismo encontra Bourdieu. Campinas: Editora
Unicamp, 2010.
[17] Bourdieu, P. Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense, 1990 [1987], p. 66.
[18] Quiniou, Y. "Das classes à ideologia: determinismo, materialismo e
emancipação na obra de Pierre Bourdieu". Crítica Marxista, n-º 11, pp. 44-61,
2000 [1996], p. 95.
[19] Bourdieu, P. "La Représentation politique. Éléments pour une théorie du
champ politique". Actes de la Recherche en Sciences Sociales, n-º 36-7, pp. 3-
24, 1981, pp. 3-4.
[20] Cf. Almond, G. e Verba, S. The civic culture: political attitudes and
democracy in five nations. Princeton: Princeton University Press, 1963.
[21] Schumpeter, J. A. Capitalism, socialism and democracy. Nova York: Harper
Perennial, 1976 [1942].
[22] Lipset, S. M. Political man: the social bases of politics. Reed. Garden
City: Anchor Books, 1963 [1960], p. 227.
[23] Huntington, S. P. A ordem política nas sociedades em mudança. Rio de
Janeiro: Forense-Universitária; São Paulo: Edusp, 1975 [1968].
[24] Cf. Miguel, L. F. e Biroli, F. Caleidoscópio convexo: mulheres, política e
mídia. São Paulo: Editora Unesp, 2011, cap. 3.
[25] Bourdieu, P. La Distinction: critique sociale du jugement. Paris: Minuit,
1979, p. 538.
[26] Bickford, S. The dissonance of democracy: listening, conflict, and
citizenship. Ithaca: Cornell University Press, 1996, pp. 97-8.
[27] Cf. Miguel, L. F. "Perspectivas sociais e dominação simbólica: a presença
política das mulheres entre Iris Marion Young e Pierre Bourdieu". Revista de
Sociologia e Política, n-º 36, 2010, pp. 25-49.
[28] Sobre esse ponto, ver Motta, L. E. "Poulantzas e o seu diálogo com
Foucault: direito, Estado e poder". Paper apresentado no 6-º Colóquio
Internacional Marx e Engels. Campinas, 3 a 6 de novembro de 2009.
[29] Cf., por exemplo, Carrillo, S. Eurocomunismo y Estado. Barcelona: Crítica,
1977.
[30] Poulantzas. L'État, le pouvoir, le socialisme, op. cit., pp. 192-3.
[31] Idem, p. 197.
[32] Poulantzas, N. "Les transformations actuelles de l'État, la crise
politique et la crise de l'État". In: Poulantzas, Nicos (org.). La crise de
l'État. Paris: P.U.F., 1976, p. 38. O trecho é reproduzido
com pequenas modificações em L'État, le pouvoir, le socialisme, op. cit., p.
191.
[33] Poulantzas, L'État, le pouvoir, le socialisme, op. cit., p. 76.
[34] É possível lembrar, aqui, o estudo de James Scott sobre os esforços de
normalização, legibilidade e simplificação do tecido social, efetuados pelo
Estado para facilitar seu próprio trabalho de dominação. Scott, J. Seeing like
a State: how certain schemes to improve the human condition have failed. New
Haven: Yale University Press, 1998.
[35] Poulantzas, L'État, le pouvoir, le socialisme, op. cit., pp. 124, 129 e
144.
[36] Wacquant, L. Les Prisons de la misère. Paris: Raison d'Agir, 1999, p. 29.
[37] É exemplar, neste sentido, o estudo de Robert Reiner sobre a polícia
britânica, The politics of the police. 4ª ed. revista. Oxford: Oxford
University Press, 2010.
[38] Cf. Gorz, A. Métamorphoses du travail: quète du sens. Critique de la
raison économique. Paris: Galilée, 1988. Agradeço a Flávia
Biroli a lembrança deste ponto.
[39] Cf. Bourdieu, P. Sur l'État: cours au Collège de France (1989-1992).
Paris: Seuil, 2012. Não há espaço, aqui, para desenvolver a
crítica ao esboço de teoria do Estado apresentado por Bourdieu em seus cursos.
Limito-me a apontar o excesso retórico, o esforço exagerado de diferenciação em
relação às contribuições teóricas prévias e uma ênfase nos aspectos simbólicos
que o leva a deixar em segundo plano a materialidade do aparelho estatal. Uma
afirmação como a de que o Estado é uma "ilusão bem fundada", que "existe
essencialmente porque acreditamos que existe" (p. 25), exemplifica meu ponto.
Ainda creio que as melhores contribuições de Bourdieu para a compreensão do
fenômeno do Estado se deram à margem de Sur l'État.
[40] Bourdieu, P. La Noblesse d'État: grandes écoles et esprit de corps. Paris:
Minuit. 1989, p. 375.
[41] Ibidem, p. 376; ênfases suprimidas.
[42] Bourdieu, Sur l'État, op. cit., p. 40.
[43] Bourdieu, P. Raisons pratiques: sur la théorie de l'action. Paris: Seuil,
1994, pp. 108-9.
[44] Bourdieu, P. Méditations pascaliennes. Paris: Seuil, 1997, p. 208.
[45] Ibidem, p. 211.
[46] Ibidem, p. 213.
[47] Ibidem, p. 210.
[48] Compare-se com a afirmação de Poulantzas: "A matriz temporal capitalista,
esse tempo segmentado, serial e dividido, está já implicada na ossatura
institucional própria do Estado e seus diversos aparelhos (exército, escola,
burocracia, prisões)". Poulantzas, L'État, le pouvoir, le socialisme, op. cit.,
p. 171.
[49] Bourdieu, P. Contre-feux. Paris: Liber, 1998.
[50] Callinicos, "Social theory put to the test of politics", op. cit., p. 93.
[51] Young, I. M. Inclusion and democracy. Oxford: Oxford University Press,
2000.
[52] Abers, R. N. Inventing local democracy: grassroots politics in Brazil.
Boulder: Lynne Rienner, 2000, p. 4.
[53] Baierle, S. G. "A explosão da experiência: emergência de um novo princípio
ético-político nos movimentos populares urbanos em Porto Alegre". In: Alvarez,
Sonia; Dagnino, Evelina e Escobar, Arturo (orgs.). Cultura e política nos
movimentos sociais latino-americanos: novas leituras. Belo Horizonte: Editora
UFMG, 2000, p. 212.
[54] Avritzer, L. "Teoria democrática e deliberação pública". Lua Nova, n-º 50,
pp. 25-46, 2000, p. 43. Para uma discussão sobre a
compreensão equivocada desses estudos quanto à natureza do Orçamento
Participativo, cf. Miguel, L. F. (2003). "Democracia na periferia: receitas de
revitalização democrática à luz da realidade brasileira". Mediações, vol. 8, n-
º 1, pp. 9-23, 2003.
[55] Almeida, D. R. "Representação política e conferências: os desafios da
inclusão da pluralidade". Textos para Discussão, n-º 1750. Brasília: IPEA,
2012.
[56] Poulantzas, L'État, le pouvoir, le socialisme, op. cit., p. 210.
[57] Michels, R. Sociologia dos partidos políticos. Brasília: Editora UnB, 1982
[1911].
[58] Miguel, L. F. "Consenso e conflito na teoria democrática: para além do
'agonismo'". Paper apresentado no 8º Encontro da Associação Brasileira de
Ciência Política (ABCP). Gramado (RS), de 1ª a 4 de agosto de 2012.
[59] Scott, James C. Two cheers for anarchism. Princeton: Princeton University
Press, 2012, pp. 21-2.
[60] Holloway, J. Change the world without taking power. Londres: Pluto Press,
2010 [2002].
[61] Ibidem, pp. 16 e 36.
[62] Poulantzas, L'État, le pouvoir, le socialisme op. cit., p. 223.