A teoria do simbólico de Durkheim e Lévi-Strauss: desdobramentos contemporâneos
no estudo das religiões
Na celebração do centenário de Emile Durkheim na Sorbonne em 1960, Lévi-
Strauss1 presta homenagem ao fundador da escola sociológica francesa saudando
sua conversão para a etnologia em seu livro de 1912, As formas elementares da
vida religiosa. Lévi-Strauss atribui à fundação do L'Année Sociologique o
repentino interesse de Durkheim por tal ciência. Nas resenhas que publicou
nesse periódico, do qual foi o fundador, Durkheim se deu como tarefa comentar e
criticar o que aparecia no mundo como literatura sociológica. Desse modo,
passou a inteirar-se sistematicamente do que faziam e observavam os etnógrafos
"de campo", tais como Boas, Spencer e Gillen, Cushing etc. Ao aceder
diretamente às fontes, Durkheim teria feito, segundo Lévi-Strauss, uma
importante descoberta: voltando-se para os dados particulares da observação
direta, abandonando os simples compiladores como Tylor e Wundt, a etnologia
durkheimiana pôde libertar-se das pretensões histórico-filosóficas, que faziam
dos fatos meras ilustrações de hipóteses especulativas, e ganhar autonomia como
uma nova ciência experimental.
Talvez a noção de etnologia então abraçada por Lévi-Strauss hoje já nos pareça
um tanto antiquada: "espécie de inventário humanista de todas as formas de
expressão suscetíveis de serem adotadas pela natureza humana"2. No entanto,
para além de seu valor humanístico, Lévi-Strauss imputa à etnologia um valor
heurístico no campo das ciências sociais, ao mesmo tempo muito próximo e
bastante crítico àquele expressado por Durkheim. Ao assumir em 1951 a cadeira
de Religiões dos povos não civilizados, fundada em 1888 na École Pratique des
Hautes Études, e que fora de Léon Marillier, Marcel Mauss e Maurice Leenhardt,
Lévi-Strauss lhe muda o nome para Religiões comparadas dos povos sem escrita.
Naquele contexto de descolonização, em que os "ouvintes de ultramar" começavam
a discordar das interpretações de Lévi-Strauss e seus alunos, essa mudança não
foi inocente: sensível aos novos tempos, tornara-se impossível cultivar a
colaboração dos não europeus mantendo o suposto de que as religiões em estudo
eram praticadas por povos "não civilizados". Lévi-Strauss considerou o epíteto
"sem escrita" valorativamente mais neutro, além de acrescentar uma estabilidade
relativa ao objeto que o deixava mais próprio à pesquisa experimental3. Foi
nesse quadro institucional e ideológico francês de meados dos anos 1950 que
Lévi-Strauss experimentou métodos de análise das representações míticas e das
práticas religiosas antes de migrar, nas décadas seguintes, para a construção
sistemática de seu modelo estrutural. São os escritos desse período que nos
permitem, então, perceber com mais clareza o que as suas interpretações sobre
as religiões ditas primitivas devem (ou não) a Durkheim. O ensejo deste artigo
será, portanto, em parte, o de examinar se e como Lévi-Strauss reportou-se ao
modelo durkheimiano das religiões ditas primitivas e quais desdobramentos
particulares imprimiu a esse legado. Demonstraremos a centralidade de
determinado conceito de representação nessa teoria do simbólico, de viés
cognitivista, e examinaremos, à luz das perspectivas atuais, as suas limitações
para a compreensão dos fenômenos religiosos contemporâneos.
O PRIMITIVO E SUAS RELIGIÕES
A trajetória acadêmica de Lévi-Strauss é, como sabemos, bastante heterodoxa.
Recém-graduado em direito e filosofia teve, entre 1934 e 1939, uma primeira
experiência impactante entre os povos indígenas brasileiros. A sua formação
antropológica mais sistemática se deu somente na fase seguinte, quando migrou,
na década de 1940, para Nova York e associou-se pessoal e intelectualmente a
Franz Boas. Desse modo, não é muito difícil supor que Lévi-Strauss tivesse sido
obrigado a dialogar mais intimamente com o legado da escola antropológica
durkheimiana apenas quando se sentou,em 1951, na cadeira que fora de Marcel
Mauss.
Tomando-se, no entanto, o livro Antropologia estrutural, publicado em 1958,
quando já lecionava havia alguns anos na École Pratique des Hautes Études, mas
que reúne ensaios publicados ao longo de uma década (entre 1945 e 1956), essa
suposição não se fundamenta. Ao contrário do que se poderia esperar, chama
nossa atenção as raríssimas referências de Lévi-Strauss a Durkheim nessa obra -
pouco menos de quinze menções em mais de 450 páginas, todas elas bastante
críticas. Não se notam evidências de que no inciso em que se dedica aos temas
de magia e religião Lévi-Strauss tenha ensaiado um diálogo direto com a teoria
durkheimiana de religião. Paradoxalmente, é no decorrer de seu acrimonioso
debate com Georges Gurvitch em torno do conceito de estrutura que Lévi-Strauss
se alinha como herdeiro da escola sociológica francesa. Para Lévi-Strauss a
contribuição central de As formas elementares da vida religiosa é ter mantido
claramente a distinção metodológica entre estrutura social e estrutura mental.
Como seria possível compreender esse comentário mencionado de modo tão sucinto?
Minha hipótese é de que não é a teoria da religião que interessa Lévi-Strauss,
mas, sim, a ideia de "categorias de pensamento", tal como aparecem no estudo
durkheimiano sobre o totemismo. Voltemos, pois, o nosso olhar para a obra
clássica de E. Durkheim, As formas elementares da vida religiosa, para
retomarmos o modo como o tema da religião está associado, nesse autor, à noção
de representação.
RELIGIÃO E CONHECIMENTO
O interesse pelos mitos, ritos de iniciação, pela religião e pela magia foi uma
constante na antropologia francesa do século XX, e se mantém consideravelmente
estável até hoje. O interesse de Durkheim pelos fenômenos religiosos foi, no
entanto, relativamente tardio em sua carreira: deu-se em 1895, quando entrou em
contato com a obra de W. Robertson Smith e sua escola. O estudo comparado das
religiões de Smith e os detalhes etnográficos das civilizações primitivas
descritos pelos etnógrafos que faziam trabalho de campo e publicados no L'Année
Sociologique reorientaram seu campo de interesses e influenciaram sua abordagem
teórica: Durkheim abandona parcialmente seu evolucionismo sociológico em
direção a um "evolucionismo metodológico", que evita a questão das origens.
As formas elementares da vida religiosa (1912)4, obra que pretende colocar o
fato religioso em bases teóricas distintas do evolucionismo, é um verdadeiro
mapa do pensamento do século XIX relativo ao estatuto da religião em suas
relações com a filosofia e a teoria do conhecimento. Nesse trabalho, Durkheim
toma o totemismo como uma forma elementar de religião que, pela sua
simplicidade, permitiria acessar o fundamento de toda configuração religiosa
como um modo de conhecimento sistemático do mundo a partir de sua divisão nas
categorias sagrado e profano, formas primeiras e universais de "representação".
O totemismo também é estratégico para a tese durkheimiana de que as categorias
de pensamento não são dadas a priori, isto é, não são anteriores à experiência
nem imanentes ao espírito.
Durkheim dá especial atenção aos processos de simbolização, colocando a noção
de "representações coletivas"5 no centro de sua teoria do conhecimento. O
primeiro sistema de representações que o homem teria construído para si seria
religioso. Desse modo, segundo Durkheim, as "crenças religiosas" nada têm que
ver com a ideia de deus ou de vida eterna, mas diriam respeito a uma
representação do mundo6 que tem, universalmente, um caráter dual e oposto. O
totemismo, essa religião sem deus, seria um caso exemplar para demonstrar a
tese de que o traço distintivo do pensamento religioso em toda parte é o de
representar o mundo "em dois domínios, um que compreende tudo o que é sagrado,
e outro que compreende tudo que é profano"7. Nesse sentido, crenças, mitos,
lendas etc. seriam "sistemas de representações" que expressam a natureza das
coisas sagradas, as suas virtudes, os poderes que lhes são atribuídos e as suas
relações com as coisas profanas. Sagrado e profano seriam categorias de
pensamento que, na teoria durkheimiana, classificam o universo conhecido e
cognoscível em "dois gêneros que compreendem tudo o que existe"8. Essa
polaridade antitética, pilar que sustenta qualquer classificação do real,
divide o mundo em dois domínios heterogêneos e separados, mas que podem se
comunicar, desde que regras disciplinadoras desse contato sejam respeitadas.
Por meio das crenças, a sociedade define a qualidade das coisas sagradas, e,
pelo rito, sanciona institucionalmente as modalidades autorizadas de atitudes
do homem diante do sagrado. Os símbolos lógicos são construídos pelo homem, que
toma como modelo a vida coletiva. As classificações são sistemas cujas partes
estão dispostas em ordem hierárquica de gênero e espécie, categorias estas que
o homem emprestou de seu modo de agrupar a vida social em fratrias, clãs e
subclãs9.
Para Durkheim, crenças e categorias de pensamento estão associadas, mas não são
exatamente a mesma coisa. Poderíamos afirmar, talvez, que as crenças, como
representações coletivas, seriam a roupagem cultural, a forma particular com a
qual as sociedades experimentam as categorias abstratas. As crenças designam as
coisas sagradas e as conectam mediante relações de subordinação, equivalência,
hierarquia, oposição etc. Ao experimentar essas relações na vivência social, o
homem se vê pela primeira vez capaz de conceber e operar categorias abstratas.
As categorias mentais, tais como tempo, espaço, gênero etc., são para Durkheim
a "ossatura da inteligência"10. E essas categorias "nasceram da e na religião,
são produto do pensamento religioso"11.
O conceito de "formas elementares" nos remete a duas ordens de realidade
distintas, embora conectadas: o mundo das representações coletivas, que se
desenvolve no plano das relações sociais e diz respeito aos conteúdos das
coisas sagradas, e o das categorias de entendimento, que se desenvolve no plano
da mente humana. Durkheim não tem dúvidas quanto ao modo universal de operação
dessas categorias, entendidas como "um quadro abstrato e impessoal que envolve
não apenas a nossa existência individual, mas a da humanidade"12.
LÉVI-STRAUSS E A ESCOLA SOCIOLÓGICA FRANCESA
Em um de seus posfácios ao livro Antropologia estrutural, Lévi-Strauss postula
que, para o etnólogo, toda sociedade engloba um conjunto de estruturas que
correspondem a diferentes tipos de ordem social, como parentesco, organização
social e estratificação econômica13. O desafio que se coloca para a etnologia
seria o de formular o modelo geral de uma sociedade particular que fosse capaz
de determinar o modo como todas essas ordens se regem umas às outras de um
ponto de vista sincrônico. Na perspectiva levistraussiana, as tentativas de
construção desse modelo geral não tiveram muito êxito porque levaram em conta
apenas as estruturas tais como podem ser objetivamente observadas na vida
social. Lévi-Strauss distingue, assim, as estruturas de ordem "vividas" (que
equivalem à realidade objetiva) das estruturas de ordem "concebidas" - as
representações que os homens fazem de sua realidade. Desse modo, enquanto o
parentesco, a organização social, as relações de troca pertencem à primeira
ordem, a religião e o mito correspondem à segunda. Essa formulação inspira-se
explicitamente na distinção marxista infra/superestrutura, correlacionando as
religiões e os mitos das sociedades não europeias ao campo da ideologia nas
sociedades contemporâneas. No entanto, as conclusões que Lévi-Strauss retira
dessa distinção da sociedade em duas ordens diversas (a social e a
representacional) estão mais próximas de Durkheim do que de Marx.
Como Durkheim, Lévi-Strauss reconhece que os fatos religiosos devem ser
estudados como parte integrante da vida social. O papel da etnologia seria,
pois, o de estabelecer correlações entre diversos tipos de religião e diversos
tipos de organização social. Mas as relações entre religião e sociedade não são
nem diretas nem imediatas. O pecado de Radcliffe-Brown e o consequente fracasso
de sua sociologia religiosa deveram-se, segundo Lévi-Strauss, a sua tentativa
de fazer uma aproximação abstrata entre religião e sociedade. O autor propõe
uma etnologia religiosa fundada em estudos concretos de pequena escala. Somente
a partir da construção de vários modelos de sociedade seria possível, pela
comparação, compreender a série regular de variações concomitantes das crenças.
Chamo aqui atenção à importância que o autor dá à noção de modelo. Apenas uma
etnologia capaz de construir modelos poderia equiparar-se às ciências mais
avançadas. Segundo ele, as jovens teorias da comunicação daquele momento, em
particular o modelo da linguística estrutural, estariam abrindo novas
possibilidades metodológicas para tratar de maneira mais rigorosa esses objetos
representacionais que são os signos.
Ao submeter os mitos à sua análise estrutural, Lévi-Strauss decompõe a trama
narrativa em unidades mínimas de relações, como o parentesco. As frases
narrativas que desenvolvem o mesmo tema são, então, agrupadas em conjuntos
orgânicos. E esses conjuntos são comparados de modo a construir uma série de
variações. A teoria do significado levistraussiana está subordinada, portanto,
a essa operação de composição de séries: é a relação lógica das séries entre si
que nos dá acesso ao significado do mito.
Podemos perceber que, para além da sofisticação teórica e analítica implicada
no esforço levistraussiano, as duas ordens descritas por Durkheim permanecem em
sua análise do pensamento religioso - a das relações sociais e a das operações
mentais.
Na análise de Lévi-Strauss, a narrativa mítica se desenvolve no plano das
relações sociais - relações de parentesco -, mas o seu significado se realiza
no plano das estruturas mentais. No mito, "o espírito, deixado a só consigo
mesmo e liberado da obrigação de compor-se com os objetos, fica de certo modo
reduzido a imitar-se a si mesmo [...] e evidencia assim sua natureza de coisa
entre as coisas"14. A mitologia assim apresentada, como o universo da regra em
si, seria a mais pura expressão do modus operandi da mente humana. Desse modo,
se, para Durkheim, o estudo das crenças religiosas observadas nos daria acesso
às categorias abstratas de entendimento, tais como tempo, espaço, gênero e
espécie, para Lévi-Strauss, as categorias sensíveis - cru e cozido, fresco e
podre -, definidas pela observação etnográfica, servem como ferramentas
conceituais para isolar noções abstratas e encadeá-las em proposições. Nos dois
casos, as operações da mente se caracterizam por processos classificatórios de
oposição e homologia. Comparando, no entanto, os dois procedimentos, poderíamos
dizer que a diferença entre as duas démarches estaria no lugar atribuído às
categorias para o funcionamento da mente. Durkheim relaciona crenças (que estão
no plano etnológico) às categorias mentais (que são universais), ferramentas de
todo conhecimento humano. As primeiras dão acesso às segundas. Lévi-Strauss as
coloca no plano etnológico - as categorias são sensíveis. Elas dão acesso à
estrutura da mente, pensada como um conjunto de relações lógicas, mas elas
mesmas permanecem no plano particular. Ou seja, se, por um lado, os dois
autores trabalham com a mesma ideia universal de mente humana, por outro,
trabalham a teoria da representação por caminhos distintos: enquanto, para o
primeiro, ela é uma teoria do pensamento, para o segundo, trata-se de uma
teoria da comunicação.
MITO E RELIGIÃO COMO FORMAS DE REPRESENTAÇÃO
Pode-se atribuir a Durkheim a cristalização do conceito de representação nas
ciências sociais15. A noção de "sistema de representações" é ainda muito
influente nas ciências sociais contemporâneas e designa, de modo geral, o
conjunto de ideias e valores próprios de uma sociedade. Essas "representações
coletivas", pensadas como relativamente autônomas tanto no que diz respeito à
materialidade social como em relação à consciência dos indivíduos, elaboram
modos de representar o cosmos, a totalidade social, a magia, a feitiçaria, a
pessoa etc. Em sua crítica à psicologia, Durkheim é bastante enfático em
sublinhar que as atitudes intelectuais do grupo são independentes das
disposições mentais individuais. Além de defender a posição de que as ideias
religiosas não podem ser consideradas indícios de um pensamento ou emoção
aberrantes ou equivocados, o autor ainda postula que elas constituem um modo
particular de expressar o real e a vida social. "[...] [D]ebaixo do símbolo, é
preciso saber atingir a realidade que ele figura e que lhe dá sua significação
verdadeira [...]"16, observa Durkheim ao afirmar que as religiões primitivas
não podem ser consideradas nem "erro" nem "mentira", porque estão "fundadas na
natureza das coisas". Temos aqui a distinção entre estrutura social e estrutura
mental mencionada por Lévi-Strauss. Está bastante claro nesse trecho que o
autor entende a representação como imagens mentais transfiguradas do mundo
real. Mas qual seria a relação que essas imagens mantêm com a materialidade das
coisas? Durkheim afirma que "[...] quando abordamos o estudo das religiões
primitivas, é com a certeza de que elas pertencem ao real e o exprimem"17. Há
aqui um modo bastante atual de formular as relações entre ideia e mundo. Para
Durkheim as representações são compostas de símbolos. O conceito durkheimiano
de símbolo postula que as representações religiosas expressam o mundo das
coisas sociais. Desse modo, o símbolo nele mesmo não é o objeto da reflexão.
Ele precisa ser decifrado em termos daquilo que esconde. A significação,
portanto, diz respeito a buscar os referentes das ideias que estão em outra
dimensão, fora do mundo simbólico: uma ideia significa quando encontra sua
contrapartida social. É nesse sentido que Durkheim considera o totem "antes de
tudo simbólico". "O deus do clã [no caso dos Arunta], o princípio do totem,
nada mais é do que o próprio clã, hipostasiado e representado na imaginação sob
a forma perceptível de espécies vegetais ou animais vistas como totens"18. O
engano aqui - indicado na escolha da palavra de origem grega hipóstase - diz
respeito ao fato de o homem primitivo tomar como real o que apenas existe na
abstração. Duas implicações interessantes podem ser retiradas dessa colocação:
a primeira se refere a esse entendimento da representação como engano; a
segunda, à representação como figuração.
Em sua crítica à interpretação naturalista da religião em Max Müller, Durkheim
argumenta que, se a função da religião fosse "nos dar uma representação do
mundo que nos guiasse em nossas relações [práticas] com ele [...], os
fracassos, infinitamente mais frequentes do que os êxitos, rapidamente lhes
teriam advertido de que estavam em um caminho equivocado [...]"19. Nesse
comentário, é possível perceber que, se a religião expressa o mundo real, esse
real não é a natureza física. As representações religiosas não são, para ele,
uma teoria extravagante sobre as causas que regem os fenômenos físicos. Ainda
assim, Durkheim trata a crença como um engano. Qual seria então a diferença do
estatuto do engano na teoria durkheimiana com relação aos autores que ele
critica? Questão que nos leva à segunda implicação, a da representação como
figuração.
Para encontrar uma alternativa à ideia de representações religiosas como
engano, Durkheim desenvolve uma estratégia argumentativa na qual é possível
perceber uma diferenciação entre a categoria de crença e a noção de ideias
religiosas. Na minha leitura do texto de Durkheim, as crenças são o modo como
as ideias religiosas são ditas, o modo como os nativos expressam as ligações
que concebem entre as coisas. No caso das crenças totêmicas, elas aparecem na
forma do medo e/ou respeito a certos animais, na convicção do parentesco entre
homens e animais. "Quando o australiano da tribo Port-Mackay sustenta que o
sol, as serpentes etc. pertencem à fratria [...] [ele] realmente crê que os
'caimãs são cangurus', e que os cangurus são Wootaroo"20. Ao enfatizar o verbo
ser, em itálico no texto, Durkheim explica que a etiqueta da fratria tem para o
nativo um sentido: o de expressar que há um laço que liga coisas e animais às
pessoas, tornando-os parte do mesmo grupo. O homem simboliza essas crenças em
imagens e lhes rende culto. Cabe, pois, ao observador analisar as ideias atrás
das crenças e dos símbolos. Explicar o totemismo, argumenta Durkheim, é mostrar
a razão por que as coisas são reunidas sob um totem, e por que, uma vez
reunidas, essas figurações são consideradas sagradas e passam a ser objeto de
culto. A explicação durkheimiana se desenvolve, portanto, em dois planos
distintos: o do pensamento lógico e o dos sentimentos de coletividade,
exacerbados pelas virtudes dinamogênicas de toda espécie de religião.
As ideias religiosas, tais como o totem, estão ocultadas atrás das crenças
religiosas e têm que ver com o exercício prático da classificação dos homens e
das coisas em classes (por exemplo, fratrias e clãs). Observando essa realidade
empírica da organização totêmica que apareceria reiteradamente no material
etnográfico compulsado por Durkheim, ele pôde perceber, por detrás desse
exercício classificatório prático, a presença de um pensamento ainda mais
abstrato: as categorias de pensamento, agora não mais ideias religiosas, mas
instrumentos universais de conhecimento, como gênero e classe. Se as ideias
religiosas são um modo particular de como as categorias se apresentam, o passo
seguinte é perguntar quais os princípios que ordenam os homens e as coisas
nessas categorias, ou, na formulação de Durkheim, quais seriam as razões que
inspiram essa forma de classificar. "É muito verossímil que as duas fratrias
constituíram os marcos iniciais e fundamentais dessas classificações, que
consequentemente começaram a ser dicotômicas"21. Durkheim sugere que categorias
como gênero impõem um modo dicotômico de classificação. As sociedades separam
coisas e pessoas em classes nitidamente antagônicas, tomando como referência as
propriedades mais contrastantes das coisas. Assim, ao contrário das ideias
religiosas que são imagens vagas flutuantes, as categorias têm uma forma
definida, constituindo um "símbolo lógico com o qual pensamos com precisão as
semelhanças e outras [coisas] análogas"22.
No entanto, esse modo de organizar homens e coisas em classes antagônicas não
responde apenas a um princípio exclusivamente lógico, ele é "ao mesmo tempo
moral"23, observa Durkheim. As coisas que estão reunidas sob o mesmo totem são
sagradas porque "participam de uma mesma carne no sentido de que participam da
natureza do animal totêmico"24. É importante ressaltar que o clã reunido
simbolicamente sob o nome de um totem não corresponde a um grupo local, nem a
uma comunidade de sangue. O totem associa pessoas dispersas em uma comunidade
moral que se reconhecem por serem portadoras de um mesmo emblema, essa
representação inscrita nas coisas e no corpo do nativo para expressar seu
pertencimento. Nesse sentido, tudo o que as relações sociais reúnem sob a mesma
rubrica é representado como sagrado, posto que organizam simbolicamente um
grupo.
Todas as crenças religiosas conhecidas, sejam simples ou complexas,
apresentam um mesmo caráter comum: supõem uma classificação das
coisas, reais ou ideais, que os homens concebem, em duas classes, em
dois gêneros opostos, designados geralmente por dois termos distintos
que as palavras profano e sagrado traduzem bastante bem"25.
E, para Durkheim, existe religião, ou sentimento religioso, no momento em que
se distingue sagrado e profano. Explicar o sistema religioso totêmico é, pois,
demonstrar as razões que movem os homens a designar essas imagens como
sagradas. A resposta durkheimiana a essa questão é bem conhecida. O culto não
se dirige aos emblemas, mas à "força anônima e impessoal", esse princípio
comum, neles presente, mas que não se confunde com nenhum deles.
Analisando o totemismo na chave da representação, isto é, da "forma material
por meio da qual a imaginação se representa essa substância imaterial, essa
energia que se difunde em todo tipo de seres heterogêneos, e que é o único
objeto de culto"26, Durkheim propõe uma ideia de simbólico como forma mental
separada das coisas empíricas. Quando o autor lança mão do termo
"representação", ele informa ao leitor que está se deslocando para o ponto de
vista do nativo. "Significado", neste caso, seria o sentido que o nativo dá aos
símbolos inseridos de modo mais ou menos visível em suas crenças. As imagens do
ser totêmico são mais sagradas - leia-se mais significativas - do que o ser ele
mesmo, porque as imagens representam e permitem formular abstratamente a ideia
da força social que os move. Pode-se, talvez, para concluir, arriscar o desenho
de um paradigma durkheimiano das representações que incluiria duas dimensões:
uma teoria do conhecimento e uma teoria da significação. Na primeira, as
representações são concepções nativas que nos dão acesso à "ossatura da
inteligência"; modos universais e não religiosos de organizar o mundo para
conhecê-lo - estamos aqui no plano das proposições lógicas que implicam o uso
das categorias; já a teoria da significação diz respeito ao plano das ideias
religiosas que produzem, mais do que pensam, forças de coesão social. Neste
plano, as imagens são a forma mental por meio da qual o nativo simboliza, ou
"imagina" na linguagem de Durkheim, essa substância imaterial, essa energia
dinamogênica que os une. Nesse sentido, o símbolo é uma imagem mental composta
pelo nativo para expressar sua crença ou sentimento de coesão. Esta teoria do
simbólico postula a vida mental como separada do mundo das coisas. Sacralizar
as coisas é fazer delas o símbolo de algo que está fora delas. "É o emblema que
é sagrado. Conserva este caráter com independência do objeto sobre o qual ele
se representa"27. O símbolo aqui está no lugar da coisa representada28.
* * *
Retomando criticamente os problemas sobre as formas primitivas de pensar
inaugurados por Durkheim, Lévi-Strauss lhe inverte radicalmente os termos: ao
invés de uma teoria sociológica do simbolismo, ele propõe uma teoria simbólica
da sociedade. Lévi-Strauss trata as culturas ditas "primitivas" não como um
conjunto de dados a serem descritos, mas como ponto de partida para um modelo a
ser construído pelo observador. Dito de outra forma, não é a variedade empírica
particular das culturas que o interessa, mas a regra de suas variações. Pela
comparação é possível estabelecer uma gramática das diferenças, isto é,
demonstrar que apenas um número limitado de invariantes organiza todas as
estruturações possíveis. É nesse sentido que Lévi-Strauss se interessa pela
religião primitiva e pelos mitos. Para ele, toda religião diz respeito a uma
exigência universal de ordem: "essa exigência de ordem está na base de todo
pensamento que chamamos de primitivo, mas somente porque ela está na base de
todo pensamento". Ao submeter ao foco de sua atenção o modo primitivo de
pensar, Lévi-Strauss retoma criticamente o tema durkheimiano da classificação.
Quando Lévi-Strauss se coloca o problema do simbolismo animal, conclui que os
fenômenos totêmicos traduzem uma cesura entre a ordem da natureza e a da
cultura. A ideia do quadro de permutações entre diferenças e semelhanças
relativas seja aos grupos sociais, seja às espécies animais ou vegetais resulta
de uma hipótese sobre um duplo movimento do intelecto: por um lado, os nativos,
em sua observação do mundo natural, comparam as coisas e percebem suas
homologias e diferenças; por outro, tomando como modelo a natureza, se
aproveitam dessas distâncias e aproximações lógicas para descreverem a si
próprios. Trata-se, pois, como em Durkheim, de colocar em operação uma lógica
do contínuo/descontínuo inerente aos sistemas de classificação. No entanto, se
para Durkheim os homens tomam como modelo a sociedade, para Lévi-Strauss os
homens tomam como modelo a natureza. Ao privilegiar o tema das classificações
primitivas, Lévi-Strauss privilegia a vertente durkheimiana de uma teoria do
conhecimento em detrimento de uma teoria da significação na qual o símbolo está
no lugar da coisa representada. Na abordagem estruturalista, o pensamento
primitivo articula proposições cosmológicas por meio de categorias sensíveis. A
significação se produz, então, como se sabe, na relação dos elementos nas
frases das narrativas míticas ou na tradução daquilo que está expresso em uma
linguagem para outra situada em nível diferente, mas isomórfico29. Para Lévi-
Strauss falar em significação é, pois, falar em regras de tradução. Como
Durkheim, Lévi-Strauss procurou um sentido sob a aparente desordem das
representações míticas. Mas, diferentemente de Durkheim, não fundou essa ordem
na "natureza das coisas", e sim nas regras que organizam a linguagem. Para
Lévi-Strauss o signo não é um símbolo, ele não "representa" algo que está fora
dele. Revelar a significação de um signo não é encontrar o seu sentido
verdadeiro, mas compreender a relação que estabelece com outros signos. Há de
se notar aqui, portanto, uma diferença significativa no uso da ideia de
representação pelos dois autores. Em ambos os casos o conceito de representação
remete a uma concepção em dois níveis: o das imagens mentais tomadas como
símbolos e signos e o daquilo a que elas remetem. Enquanto para Durkheim as
imagens remetem às forças sociais de coesão (a ordem dos fatos)30, para Lévi-
Strauss elas remetem à regras de tradução (a ordem da significação). No
entanto, se aproximarmos os dois autores a partir de suas teorias do
conhecimento, perceberemos certa similitude quanto ao entendimento das
representações como uma porta de acesso aos modos universais do funcionamento
da mente humana. Se para Durkheim as categorias são os instrumentos universais
do pensamento humano, para Lévi-Strauss o pensamento mítico opera com os
procedimentos do espírito humano, também eles universais; sua análise nos
permite descrever com lente de aumento a natureza desses mecanismos universais
de pensamento e como eles operam de modo geral.
Para avançarmos em nossa reflexão crítica dessa noção de representações, iremos
nos deter rapidamente na análise de dois de seus supostos fundamentais: a ideia
de mente e a pressuposição das crenças.
A MENTE E AS CRENÇAS COMO EFEITO DE EXPLICAÇÃO DA RELIGIÃO
Paul-François Tremlett define como cognitivistas as abordagens antropológicas
da religião que apelam para a mente e os processos de cognição universais a fim
de explicar as representações religiosas31. Essas teorias tratam a mente como
um fundamento estável sobre o qual as explicações a respeito das crenças
religiosas podem erigir-se. No entanto, propõe o autor, a mente não pode ser
entendida como fenômeno natural universal, mas como produto dos discursos que
sobre elas se elaboram. Na verdade, sugere Tremlett, o modo como a mente e a
cognição foram entendidas mudou em função das tentativas de desenvolver uma
explicação para a religião. Tanto Durkheim como Lévi-Strauss são tributários da
filosofia kantiana, que propõe que as coisas não podem ser conhecidas como elas
são, mas somente por meio desse aparato biológico de cognição que é a mente.
Para Lévi-Strauss, "a mente joga um papel constitutivo em como os seres humanos
aprendem e se engajam no mundo"32. Para Durkheim, as categorias não precedem o
social, posto que a mente é socialmente constituída. O sistema classificatório
vai do mundo social ao mundo lógico, ou seja, as coisas só se tornam lógicas
porque foram antes sociais. Em contrapartida, é a relação do homem com o meio
natural que possibilita, para Lévi-Strauss, tomar as espécies como operadores
lógicos. No entanto, se também neste caso a elaboração dos conceitos não é
anterior à linguagem, ainda assim, a mente é concebida como uma especificidade
humana biologicamente dada. Essa centralidade do conceito de "função simbólica"
no estudo das representações e das crenças religiosas já tem sido bastante
criticada pela antropologia contemporânea, seja porque retira as formas de
conhecimento de seus contextos particulares e dos contextos de poder, como
sugere Talal Asad33, seja porque pensa a percepção, como observa Tim Ingold,
"como uma atividade computacional de uma mente dentro de um corpo", dentro de
uma lógica que opõe "representação mental à sensação corporal"34. Mas antes de
desenvolvermos este ponto, voltemo-nos para a ideia de crença.
Na tradição antropológica o suposto de que o objeto central da observação de
campo eram as crenças dos povos estudados foi, até muito recentemente, um
consenso silencioso que não exigia uma reflexão prévia35. Admitiu-se como
postulado geral que não há sociedade sem "sistema de crenças". O etnólogo é
esse "descrente que crê que os crentes creem" na formulação tornada célebre de
J. Pouillon36. Essa associação e, às vezes, até sinonímia entre uma teoria das
representações e o sistema de crenças predominou nos modos antropológicos de
interpretação das culturas não ocidentais. Embora, como vimos acima, no caso de
Durkheim, as "crenças religiosas" nada tivessem que ver com a ideia de deus ou
de vida eterna, mas dissessem respeito a uma representação do mundo social e,
em Lévi-Strauss a categoria central seja "espírito humano" e "saberes ou
especulações míticas" mais do que "crença", quando se imputa ao nativo um "modo
de pensar", esse ponto de partida heurístico coloca necessariamente o
pensamento antropológico às voltas com os problemas dos "critérios e das
possibilidades das coisas pensadas", da "realidade ou verdade" das formulações
religiosas, da "coerência dos sistemas das crenças", de como medir a "convicção
ou a disposição para a ação conferida pela crença" etc.37.
Quando Lévi-Strauss afirma, a respeito da Gesta de Asdival, que "as
especulações míticas [...] buscam, em última análise, não descrever o real, mas
justificá-lo", ele está sublinhando uma relação homomórfica entre pensamento
mítico e mundo real. Essa relação de adequação do mito à realidade, tributária
da função primordial do mito, que seria reunir as pessoas em torno de uma ideia
primordial de ordem do mundo e das coisas, supõe o real como separado das
imagens mentais. Bruno Latour intui esse problema quando aponta para o dilema
que o fetichismo coloca para o pensamento antropológico: na interpretação
antropológica o poder dos objetos não está neles, mas só pode ser explicado por
meio de forças que estão fora deles, tais como "a sociedade" (em Durkheim), o
"inconsciente" (em Lévi-Strauss). A noção de crença, essa forma de engano
quanto àquilo que confere poder aos objetos e às imagens, produz, portanto,
heuristicamente, essa separação do pensamento e da sociedade em duas ordens de
realidade distintas.
Parece-nos que Talal Asad, ao propor um deslocamento do estudo das religiões do
regime das representações para o regime dos discursos, abre um caminho
interessante para a superação desse dualismo. Para o autor, a ideia
antropológica de mito herdada da antiguidade alimenta uma série de oposições
dualistas, tais como crença vs. conhecimento; símbolo vs. alegoria; natural vs.
sobrenatural, que caberia superar. Os seus argumentos ficam claros na crítica
que ele endereça à noção de religião como sistema simbólico tal como trabalhada
por Clifford Geertz. Voltemos, pois, nossa atenção para esse texto.
A ANTROPOLOGIA RELIGIOSA DE GEERTZ
No texto "A antropologia como sistema cultural", de 1966, Geertz se diz
decepcionado com o estado de estagnação do campo dos estudos antropológicos da
religião desde Durkheim e Weber. Em sua tentativa de trazer os clássicos para o
contexto mais amplo do pensamento contemporâneo, Geertz privilegia uma
abordagem simbólica dos fenômenos religiosos. Segundo ele, os símbolos podem
ser definidos como "qualquer objeto, ato acontecimento ou relação que serve
como vínculo para uma concepção"38. Os sistemas simbólicos estariam, no
entanto, fora do alcance das relações intersubjetivas, mas forneceriam um
gabarito para a ação. Já os símbolos religiosos funcionariam para tornar o
ethos (as disposições morais e estéticas de um povo) intelectualmente razoável
e adaptado, do ponto de vista prático ao estado de coisas tal como ele é
descrito pela visão de mundo. Na antropologia simbólica de Geertz, a função dos
símbolos é ajustar as ações humanas a uma ordem cósmica imaginada e projetar
imagens dessa ordem no plano da experiência. Mas como descrever analiticamente
esse processo? Ao invés de fazê-lo tomando as crenças como objeto como
propusera Durkheim, ou as narrativas míticas como sugerira Lévi-Strauss, Geertz
voltou-se para o que ele chama de "disposições" - conjunto de habilidades,
hábitos ou inclinações - para executar certo tipo de ato e experimentar certos
sentimentos em determinadas situações39. Os sistemas de símbolos religiosos
induziriam, segundo o autor, uma disposição religiosa ao formularem uma ideia
geral de ordem do mundo e do cosmos. Em sua crítica a Lévi-Strauss que
pretendeu ter acesso ao conhecimento nativo pela via de uma "gramática do
intelecto", a abordagem hermenêutica de Geertz pretende compreender como os
nativos percebem o mundo descrevendo o modo como usam os símbolos40. Para
Geertz, descrever o simbolismo religioso é descrever seu significado em três
diferentes aspectos: cognitivo, afetivo e moral. No nível cognitivo, o problema
do significado impulsiona o homem para a crença, e, neste plano, a sua
definição do simbólico se encontra com a perspectiva durkheimiana. No modo de
ver o mundo por meio da "perspectiva religiosa" é preciso "crer", aceitar a
autoridade de uma ideia. Como seus antecessores clássicos, Geertz não considera
as "crenças nativas" ou os mitos declarações falsas ou verdades ilusórias. Mas,
diferentemente deles, não considera possível elaborar uma teoria geral do modo
como a religião significa. Lançando mão do conceito "províncias de significado"
de Schultz, Geertz considera que as figurações são sempre singulares e
contextuais. Desse modo, as ideias religiosas são modelos particulares de
conceber o real elaborados pelo pensamento nativo.
Para Talal Asad, a ideia de "disposição" é um conceito frágil como instrumento
de interpretação de um comportamento, pois não há como qualificar abstratamente
uma ação como religiosa, ou deduzi-la de "motivos" puramente religiosos.
Segundo ele, essa associação imediata entre ação e motivo está inscrita no DNA
da modernidade que, ao construir a ideia de sujeito autônomo, também construiu
o conceito de responsabilidade moral e legal. Para Asad, o mais importante na
interpretação dos fenômenos não seria identificar os motivos, mas compreender
os processos de atribuição de responsabilidades moral e legal. Nesse sentido,
as "representações" (conceitos nativos) são para Asad categorias historicamente
construídas que modelam a sensibilidade e as identidades. O que a antropologia
deve fazer, portanto, é examinar no tempo e no espaço o processo de construção
das categorias - como a própria categoria de "religioso" e de seu contraponto,
o "secular" - de modo a compreender as formas de vida que as articulam e as
formas de poder que liberam.
Nossa ideia de mito, observa Asad, foi emprestada do mundo grego. No seu
sentido original significava "palavra autorizada". Foi somente com o
desenvolvimento histórico das ideias cristãs que o mito acabou por assumir o
sentido de uma narrativa a ser decifrada. O cristianismo, ao colocar o
sobrenatural para fora deste mundo, transformou a própria ideia de natureza,
que se tornou algo material, manipulável, determinada por leis mecânicas e
homogêneas. Os fundadores iluministas da mitologia tomaram o mito como uma
mentira social útil, tendo como seu oposto a transparência da razão. Já o
pensamento antropológico, tomando de empréstimo dos classicistas a ideia de
tabu, termo por meio do qual esses pensadores interpretavam as religiões
antigas, e dos teólogos a ideia de religião verdadeira, instaurou a oposição
sagrado/profano como a essência universal do religioso. Assim, enquanto a
crítica iluminista exigia o desmascaramento das ideias religiosas, o pensamento
antropológico transformava os fetiches e tabus em essência do sagrado. Vimos
como Durkheim, inspirado em Robertson Smith, fez do tabu a forma típica da
religião primitiva e do sagrado uma essência universal do religioso. A religião
primitiva seria, conforme notamos, o que a sociedade elabora como
representação, fonte de suas categorias cognitivas e força transcendente que se
impõe ao indivíduo.
Asad observa que, em sua teoria dos sistemas religiosos, Geertz retoma a ideia
de símbolo como representação, a nosso ver, de maneira muito próxima à
abordagem durkheimiana. O símbolo seria uma imagem que serve de suporte a outra
concepção, oculta atrás dele, e que seria o seu significado. Asad propõe que o
campo da significação pode ser abordado de duas maneiras distintas: no nível
cognitivo, que diz respeito a um modo de conceber o mundo e que visa a
compreensão de seu conteúdo; no nível comunicativo, que se refere ao modo de
descrever o mundo e que trata os símbolos como categorias discursivas que se
organizam na prática. Embora Geertz pretenda, contra a abordagem "racionalista"
de Lévi-Strauss, introduzir a questão do conhecimento do ponto de vista do
nativo, em seu texto da religião como sistema cultural, Geertz mantém o
privilégio de uma abordagem cognitivista dos símbolos religiosos que, como
demonstramos anteriormente, está também presente no conceito de representação
tal como foi utilizado por Durkheim e por Lévi-Strauss.
Na leitura crítica que faz desse texto de Geertz, Asad introduz o problema
teórico da relação entre os sistemas simbólicos e as práticas religiosas, ou
entre o plano da cognição e o da comunicação. Quando Geertz sugere que os
símbolos religiosos induzem "disposições religiosas", ele confunde, no
entendimento de Asad, dois níveis distintos de discurso: o falar de (nível
cognitivo) e o falar a (nível comunicativo). O discurso teológico, por exemplo,
que insere os símbolos no arcabouço cosmológico, não é o mesmo discurso das
atitudes morais, que produz disposições religiosas: são duas operações
diferentes que usam signos diferentes. Os discursos envolvidos nas práticas são
distintos dos discursos sobre as práticas. Talal Asad propõe uma noção não
cognitivista de símbolo: para ele, o símbolo não deve ser tomado como objeto/
evento que serve de veículo para um significado na mente, mas como um conjunto
de relações entre objetos. O que o antropólogo deve se perguntar seria,
portanto, como essas relações se formaram e como tal formação se relaciona com
a variedade das práticas. Para esse autor, a formação dos símbolos como
resultado das relações entre objetos depende dos contextos sociais. Geertz faz
crer que os símbolos são capazes de produzir por eles mesmos "disposições/
motivações religiosas". Asad considera que os símbolos não são capazes de fazer
isso por si sós. É preciso que as instituições, tais como as igrejas, a
família, a escola, produzam sanções, disciplinas, preces, obediência. Assim,
não é a mente que se move espontaneamente na direção da verdade religiosa; é o
poder material e simbólico das instituições que produz o que ele denomina de
uma "rede motivada de práticas". São os processos de autoridade - os discursos
teológicos, litúrgicos e, eu acrescentaria, os discursos antropológicos - que
criam a relação entre práticas, enunciados, disposições e as ideias cósmicas de
ordem. Os discursos religiosos criam espaços religiosos por meio de manuais,
proibições, autorizando ou não relíquias e santuários, compilando vidas de
santo, reconhecendo milagres etc. A igreja medieval, por exemplo, tinha a
necessidade de distinguir o sagrado e o profano não para controlar as
convicções, mas para dominar as práticas. Segundo Asad, a ideia de convicção é
tributária da emergência da modernidade e da ciência. O problema da teoria da
religião de Geertz, ao supor que todo símbolo religioso é um veículo de acesso
a significações universais, tais como o desejo de ordem (como propuseram
também, cada um à sua maneira, Durkheim e Lévi-Strauss), é que a teoria
antropológica não se distingue do discurso de qualquer atividade
evangelizadora. Como já o fizera antes dele Durkheim, Geertz toma a crença como
uma pulsão simbólica universal e, conforme bem observa Asad, reconhece como
religiosa toda prática de conhecimento que tenha como função dar sentido à
existência no mundo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O problema da abordagem cognitivista da religião, centrada no conceito de
representação, é seu suposto implícito de que o mundo simbólico e o mundo
social são duas dimensões separadas. Ao adotar acriticamente esse entendimento,
essa abordagem reproduz sem perceber, como sugere Asad, o discurso teológico
que transforma ocorrências, gestos e eventos em significados cosmológicos. Por
essa razão, o autor sugere que a antropologia da religião abandone esse viés
cognitivista, no qual o observador pensa poder definir o sentido das práticas
de um ponto de vista exterior a elas. Essa atitude heurística, em grande parte
herdada das práticas missionárias cristãs, está presente na antropologia das
religiões desde os clássicos até o momento atual. Tratar as crenças religiosas
como representações simbólicas supõe que, para interpretá-las, é preciso
decifrar as ideias que elas produzem na mente e descobrir como os sentidos
cosmológicos ocultos organizam as práticas41. Para superar essa separação do
pensamento e da sociedade em duas ordens de realidade distintas, Talal Asad
sugere que a antropologia das religiões se pergunte não sobre o sentido das
crenças, mas sim como os discursos constroem a religião no mundo. Se estivermos
dispostos a aceitar que as religiões são formas discursivas que, nas sociedades
contemporâneas, articulam lugares, pessoas, coisas e ideias as mais
diversificadas, podemos concluir que as condições históricas que deram
sustentação à ideia de "crença" como convicção íntima ou como aquilo que uma
pessoa ou grupo considera verdadeiro se modificaram profundamente. Nesse caso,
as proposições de Asad nos oferecem um caminho para que possamos desafiar as
hipóteses fundamentais da teoria do simbolismo herdadas pelos clássicos,
deslocando a primazia da noção da representação do campo do conhecimento para o
campo do poder.
[1] Lévi-Strauss, Claude. "O que a etnologia deve a Durkheim". In: Antropologia
estrutural dois. Rio de Janeiro: Biblioteca Tempo Universitário, 1976 [1960],
pp. 52-6.
[2] Idem. "Religiões comparadas dos povos sem escrita." In: Antropologia
estrutural dois. Rio de Janeiro: Biblioteca Tempo Universitário, 1976 [1965],
p. 59.
[3] Ibidem, p.70.
[4] Durkheim, Émile. Las formas elementales de la vida religiosa: el sistema
totémico en Australia. Madrid: Akal Editora, 1982 [1912].
[5] Para um bom balanço da trajetória do conceito de "representações coletivas"
na obra de Durkheim, ver Oliveira, Marcio de. "O conceito de representações
coletivas: uma trajetória da divisão do trabalho às formas elementares".
Debates do NER. Porto Alegre, ano 13, n-º 22, 2012.
[6] Durkheim, op. cit., 1982 [1912], p.138.
[7] Ibidem, p. 46.
[8] Ibidem, p. 46.
[9] Durkheim, Émile. "Le Problème religieux et la dualité de la nature
humaine". Bulletin de la Société Française de Philosophie, n-º 13, 1913, pp.
63-100.
[10] Durkheim, Las formas elementares... op. cit., 1982 [1912], p. 38.
[11] Ibidem, p. 38
[12] Ibidem, p. 41.
[13] Lévi-Strauss, Claude. "Postface au chapitre XV". In:
Anthropologie structurale. Paris: Plon, 1958 [1955], pp. 347-51.
[14] Lévi-Strauss, Claude. O cru e o cozido. SãoPaulo: Brasiliense, 1991
[1964], p. 19.
[15] Marcio de Oliveira, op. cit., p. 71, sugere que o conceito de
"representação coletiva", em termos teóricos, mantém semelhanças com o conceito
de fato social, embora seja pensado de modo menos coercitivo porque tem como
foco as interações sociais.
[16] Durkheim, Las formas elementares... op. cit., 1982 [1912], VIII.
[17] Ibidem.
[18] Ibidem, p. 73.
[19] Ibidem, p. 73.
[20] Ibidem, pp. 138-9.
[21] Ibidem, p. 135.
[22] Ibidem, p. 137.
[23] Ibidem, p. 139.
[24] Ibidem, p. 140.
[25] Ibidem, p. 140.
[26] Ibidem, p. 178.
[27] Ibidem, p. 114.
[28] Embora a teoria durkheimiana das representações sociais se diferencie
significativamente de uma antropologia simbólica que se desenvolveu na França
na década de 1930 em torno de Marcel Griaule, a ideia de que os saberes nativos
são formas de representar o mundo de maneira independente do mundo que conhece
também está implícita nos estudos desta abordagem. Empenhada em interpretar as
significações dos sistemas de pensamento mitológicos, teológicos, cosmológicos
das sociedades africanas ditas "tradicionais", essa corrente inaugura, ao mesmo
tempo, a prática etnológica e o africanismo francês. A teoria do conhecimento
subjacente a essa corrente de pensamento, centrada nas formas discursivas da
literatura de tradição oral - nos mitos, contos, lendas, provérbios -, no
estudo das línguas e dos saberes filosóficos, religiosos e artísticos, está
menos preocupada com os modos de funcionamento da mente ou com o fundamento
social das ideias como em Durkheim do que com a reconstituição dos sistemas de
pensamento e conhecimento em si próprios. O seu principal foco é a teoria que a
sociedade estudada elabora para dar conta de si própria; seus desdobramentos
abrem o caminho para estudos que se qualificam hoje como "etnociência".
[29] Lévi-Strauss, Claude. Mito e significado. Lisboa: Edições 70, 1978, p. 24.
[30] "[...] Com efeito, é um postulado essencial da sociologia que uma
instituição humana não pode repousar sobre o erro e a mentira, caso contrário
não pode durar. Se não estivesse fundada na natureza das coisas, ela teria
encontrado nas coisas resistências insuperáveis. Assim, quando abordamos o
estudo das religiões primitivas, é com a certeza de que elas pertencem ao real
e o exprimem; veremos este princípio retornar a todo momento. Ao longo das
análises e das discussões a seguir, e o que censuraremos nas escolas das quais
nos separamos é precisamente havê-lo desconhecido. Certamente, quando se
considera apenas a letra das fórmulas, essas crenças e práticas religiosas
parecem, às vezes, desconcertantes, e podemos ser tentados a atribuí-las a uma
espécie de aberração intrínseca. Mas, debaixo do símbolo, é preciso saber
atingir a realidade que ele figura e lhe dê sua significação verdadeira [...]".
Durkheim, op. cit., p. VIII. [grifos meus].
[31] Tremlett, Paul-François. "Re- cognizing the mind in the anthropology of
religion". Numen, n-º 58, 2011, pp. 552-3.
[32] Ibidem, pp. 552-3.
[33] Asad, Talal. The formations of the secular christianity, islam, modernity.
Stanford: Stanford University Press, 2003
[34] Ingold, Tim. "Pare, olhe, escute! Visão, audição e movimento humano".
Revista do NAU, ano 2, jul., 2008.
[35] Lenclude, Gérard. "Croyance". In: Bonte, Pierre e Izard, Michel.
Dictionnaire de l'ethologie et de l'anthropologie. Paris: PUF, pp. 184-6.
[36] Pouillon, Jean. "Remarques sur le verbe 'croir'''. In: Izar, Michel e
Smith, Pierre. (dir). La Fonction symbolique. Essais d'anthropologie. Paris:
Gallimard, 1979.
[37] Lenclude, op. cit., p. 186.
[38] Geertz, Clifford. "A religião como sistema cultural". In: A interpretação
das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978, p. 106.
[39] Ibidem, pp. 109-10.
[40] Geertz, Clifford. "O selvagem cerebral: sobre a obra de Lévi-Strauss".
Cadernos de Campo, ano 13, n-º 12, 2004, p. 130.
[41] Em seu trabalho sobre o candomblé "Candomblé é em rosa, verde e preto.
Recriando a herança religiosa afro-brasileira na esfera pública de Salvador, na
Bahia". Debates do NER. Porto Alegre, ano 13, n-º 22, 2012, p. 130, Mattijs Van
de Port critica a forma clássica como esse culto tem sido estudado pela
antropologia brasileira: o foco da observação centrado em um templo específico;
o sacerdote tomado como principal informante e exegeta das crenças; a iniciação
como método de conhecimento do culto. Essa opção metodológica revela o parti
pris clássico dos estudiosos que pensam estar assim mais aptos a acessar os
significados cosmológicos "escondidos" atrás das crenças.