A morte do alferes Cabrita e a Paixão portuguesa
O caminhão militar avança pela estrada de terra que rasga a mata tropical.
Visto de frente e de perto, sua presença é impositiva. Novas imagens frontais
definem um olhar mais afastado que permite descortinar outros veículos que o
seguem. Os créditos do filme desfilam na tela.
Terminada a apresentação, a câmera se instala num dos veículos, de modo a
encarar um grupo de soldados sentado em sua carroceria, destacando o rosto, um
a um, cada qual entretido em devaneios e numa residual atenção ao que o cerca.
Nada em sua atitude solicita o contracampo, pois o que estão a ver, sem muito
ver, é a imagem que nosso olhar simetricamente descortina: a passagem regular e
lateral da mata espessa. Esta compõe um campo de imersão para a longa conversa
que virá. De imediato, é a expressão desses jovens calados que interessa
sublinhar como primeiro estágio de um desfile de fisionomias que, ao longo do
filme, vão expressar uma variedade de estados de espírito que resumem, a cada
passo, a relação de distintas personagens com as dores da guerra.
Na alternância de passado e presente, veremos personagens ilustres, homens de
poder celebrados pela crônica e comentados nos livros; no limite, ícones
maiores de um imaginário popular de longa duração, como é o caso do Dom
Sebastião, figura central que assombra todo o desenrolar de Non, ou a vã glória
de mandar. Um tecido de memória far-se-á visível através de flashbacks
deflagrados pela conversa dos soldados que coloca entre parênteses a iminência
de um combate. Estamos nessa antevéspera que a tradição literária tornou
simbólica como lugar do simpósio que distrai, lugar de memória e reflexão que
fortalece o senso de partilha na tropa e também estabelece alguns nexos entre
sua experiência imediata, seu trajeto de vida e o plano maior da história.
Diante deste último, esses homens de farda deverão permanecer como figuras
anônimas, embora no filme eles tenham nome e nos ofereçam alguma intimidade,
pois o seu destino provável é entrar para o elenco daqueles que, nesta época
moderna do Estado-nação, são lembrados nas cerimônias de homenagem ao Soldado
Desconhecido em cujo túmulo coletivo, em geral nas grandes capitais, os
governantes de plantão depositam flores para cimentar as ideias de unidade e
soberania, bem como marcar os sacrifícios que elas exigiram.
Digamos que tal seria o caso do Alferes Cabrita, professor de História
convocado para servir na guerra, não estivesse ele em defesa de uma empreitada
colonial já falida que as mudanças políticas em Portugal terminaram por
enterrar. Embora de início não tenhamos uma data precisa, a fala dos soldados
indica estarmos já no declínio do regime de Salazar quando observamos o avanço
dos caminhões em território africano. A cena que encerra o filme terá uma data
definida, o 25 de abril de 1974, anunciada num prontuário médico e pela
intervenção de uma voz over que nos lembra ser esse o dia da Revolução dos
Cravos. A forma lacônica da enunciação do momento de ruptura torna esse lance
final da figuração da história que atravessa o filme uma peça sutil de grande
efeito que contrasta com o aparato cênico dominante no retrospecto milenar em
que cada episódio foi tomado como uma "estação" da Paixão portuguesa.
O último ato dessa figuração tem lugar na África negra, onde conversam o
Alferes Cabrita e seus companheiros de armas, mas a memória histórica posta em
cena passa ao largo desta África tropical e de seu papel no domínio colonial
português. Ausentes nos flashbacks, os negros devem esperar o momento de
desenlace para serem vistos na tela como combatentes à distância, dentro do que
é usual nas cenas de guerra em que o interesse está concentrado na ação e no
destino dos protagonistas, o que não impede que o efeito maior de horror da
violência se encarne na figura de um africano ferido de morte a correr e a
gritar segurando o ventre dilacerado.
Esse momento do combate choca, dado seu contraste, com a atmosfera de sala de
aula das preleções históricas de Cabrita, seguidas com interesse pelos
soldados; torna mais contundente a violência já visível nos episódios evocados
nos flashbacks, em que predomina um zelo iconográfico que intelectualiza a
imagem, enquanto agora o fardo do desejo imperial cai sobre os ombros de quem
não parece estar sintonizado com ele. Quando o Alferes Cabrita é ferido de
morte, o efeito é distinto daquele produzido quando personagens de outros
séculos, interpretados pelo mesmo ator Luís Miguel Cintra para marcar uma
continuidade, tiveram destino semelhante na narrativa que sua voz conduziu.
Uma questão-chave de Non, ou a vã glória de mandar advém do cotejo entre os
cerimoniais de guerra e de morte que compõem a história relatada pelo alferes e
as condições mais insípidas de sua própria morte no hospital militar em Luanda.
Ao longo do filme, há um fio de relações que se tece pela expressão de rostos e
olhares diante da morte e do desastre, algo que se reconfigura a cada episódio.
Há a sobriedade do herói trágico, Viriato; o olhar perplexo de D. João ii, o
pai que encara o abismo no funeral do príncipe herdeiro, cujo casamento com a
infanta Doña Isabel, de Castela, em 1479, parecia selar a união da península
Ibérica num só reino; a soberba autossuficiência no olhar de Dom Sebastião às
vésperas do combate em 1578; a prostração resignada dos nobres guerreiros no
cenário dos mortos de Alcácer-Quibir; o olhar sem rosto do ferido no hospital
moderno que, envolto em bandagens, expressa o horror diante da morte de
Cabrita; e, por fim, há as feições do próprio alferes, que acentuam o contraste
entre a bonomia das preleções históricas, onde se insinuam as inclinações
melancólicas do intelectual, e o momento dramático da sua agonia, que se
desenha como um ajuste de contas, e de olhares, na hora da morte, longe da
reflexão serena.
Ao lado do reiterado confronto de olhares, há o tecido de violência que incide
sobre os corpos e sua simbologia, da figura sagrada do monarca absoluto ao do
cidadão comum do século XX, corpos que na variedade de seu status e poder fazem
valer a repetição de um princípio norteador da história de Portugal tal como
esta é concebida ao longo do filme, não só pela voz de Cabrita, mas também
pelas imagens e inscrições que a cercam ao longo do percurso até o ponto
climático em que, agonizante, ele se confronta no delírio com a imagem de Dom
Sebastião, num misto de antagonismo e identificação, continuidade e ruptura que
cabe discutir.
Temos aí um caminho para esclarecer a relação entre o filme e o implacável
princípio do "Non" ou da recusa, que o cineasta tanto reitera (ou vê a história
reiterar), não tanto para "explicar", mas para absorver poeticamente o fracasso
do sonho imperial e a condição subalterna de Portugal na Europa a partir da
batalha de Alcácer-Quibir em 1578.
Como alegorista, Manoel de Oliveira extrai dessa justaposição entre a
enunciação seca do 25 de abril e a cena branca do hospital um efeito de sentido
esteticamente mais feliz do que certas advertências morais que se podem extrair
da recapitulação. Se há em Non um conselho de narrador cioso da mensagem, seu
ponto de maior interesse não está na postulação nacionalista de um interdito
que supõe Portugal como entidade especial, digna de um povo eleito da
Providência, mesmo que pela negativa. Nem na lição moral de inspiração barroca,
porém deslocada, que castiga a vaidade da glória efêmera dos poderosos,
separando-a das virtudes civilizadoras, estas mesmas que se beneficiam dos
"vícios" do poder. Está na forma como o seu desfecho figura o presente.
As contradições presentes na lição do alferes quando explica aos soldados como
se deve separar a conquista imperial, a violência e a dominação, de um lado, e
o legado cultural e o conhecimento, do outro, já foram bem apontadas por Randal
Johnson1, Carolin Overhoff Ferreira2, entre outros leitores de Oliveira. O
elogio dos Descobrimentos como a dádiva portuguesa para a história universal é
central no filme e devo voltar a ele, procurando discutir como se articula a
alegoria do "Non", que marca o diálogo do cineasta com o Padre Vieira, e a
noção quase iluminista de progresso da civilização assumida no discurso sobre a
dádiva. Como observei, o final é uma solução formal feliz que redimensiona a
força poética de um filme em que o nacionalismo e os aspectos mais pedagógicos
da alegoria têm seu lugar central, como também terão em filmes posteriores, a
exemplo Palavra e utopia e Um filme falado. Tampouco está ausente o movimento
de queixa, o comentário ressentido que aqui, quando se faz, é pela mediação de
uma ou outra personagem e não pela postura geral do filme.
O SOLDADO COMUM, O HERÓI TRÁGICO DA RESISTÊNCIA, O PATRIOTA DECEPADO, O
PRÍNCIPE SEM SORTE, D. JOÃO PERPLEXO
A primeira conversa dos soldados no caminhão já põe em foco a questão da guerra
nas colônias e o lugar indigno de Portugal na conjuntura da Guerra Fria,
mobilizando sentimentos e opiniões de um grupo cuja grande pergunta é "o que
estou fazendo aqui?", pergunta que engendra o debate que alimentará a
recapitulação histórica conduzida pelo alferes que, afinal, intervém no grupo
como a voz da razão para aplacar as tensões e o senso de desamparo - "estamos
sós". Ele monta um contexto para essa experiência que, não tendo o solo
familiar como apoio, recolhe um estranhamento em verdade já presente antes da
primeira cena dos caminhões e dos soldados: refiro-me à célebre imagem da
árvore que se impõe na abertura do filme.
Houve a epígrafe com a frase de Vieira: "Terrível palavra é um Non." Em seguida
vem essa imagem singular (de fato, três planos) de uma árvore imponente que o
olhar da câmera foi contornando por um tempo suficiente para que se invertesse,
com claro toque de fascínio, o senso de imobilidade e de movimento, de modo que
tal imagem pudesse flutuar soberana. Esse efeito é ampliado pelo enquadramento
que corta a parte inferior do tronco da árvore e a desliga do solo. Um som
agudo inquietante e uma percussão insólita, em surdina, suplementam o poder de
imantação dessa entidade autárquica que paira acima da paisagem, do mundo
natural, e convida aos mais variados investimentos simbólicos. Uma árvore é uma
árvore e seu enigma, antes e depois dos tempos bíblicos3.
Essa imagem inaugural é um dos emblemas de uma intenção de ambiguidade e de
ruptura com o familiar reiterada ao longo do filme, ponto de interrogação que
funciona como um contraponto para a exposição clara da história que se desenha
na palavra do alferes. Compõe como que uma experiência a memorizar, pois pode
oferecer a cifra visual de certas sugestões do professor sobre a vida e o
tempo. Este, embora confira sentido aos episódios que narra, deixa sempre a
brecha para que se perceba que está a expor um conhecimento incompleto que não
nos dá acesso a uma transcendência acima da ordem natural e histórica
cognoscível. Ou seja, tal imagem da árvore na abertura, na variedade de suas
leituras, seria a cifra de uma interrogação endereçada à história, um capítulo
das "verdades últimas" a que vai se referir o Alferes Cabrita, que, não
rejeitando o sagrado, sugere mais de uma vez que há limites na compreensão do
humano apoiada na ideia de secularização, dentro da visão laica do processo
histórico tal como entendido a partir do Iluminismo.
No filme, antes do advento da palavra, há esse passeio pelo campo de imagens
sugestivas, mas incertas, que somente ganham um contorno mais familiar quando
nosso olhar se volta para os rostos fixos dos soldados em seu longo silêncio.
Através dessa montagem, Oliveira obriga a oralidade tão típica e fundamental em
seus filmes a esperar o seu momento propício de entrada, pois é preciso que se
adense uma interrogação que, iniciada nas primeiras imagens do filme, ainda
persiste no que pode haver de enigmático nesse quase inventário de fisionomias
do homem comum português trazido pela sequência de planos frontais. Diante dos
olhares dos soldados, a nossa indagação é mais psicológica, pois observamos uma
cena que comporta um movimento natural em sua dimensão pragmática: há a
estrada, as rodas, os veículos, o grupo sentado, a mata como pano de fundo.
Estamos inseridos num fluxo temporal cujas coordenadas não demoram a se
definir, pois o que aí acontece se conecta com a conversa dos soldados que
discutem a hipocrisia das grandes potências, "só humanistas quando fartas",
ponto de concórdia entre eles, e o significado do colonialismo português para
os africanos, ponto de discórdia que opõe a postura crítica de uns ao
patriotismo convencional de outros. Fala-se, de passagem, em interesses
econômicos, discute-se a posição dos que resistiram à convocação, preferindo o
cárcere ou o exílio como forma de combate a Salazar; há menção à violência e à
opressão. Entretanto, a questão específica da África permanece, em verdade,
recalcada no filme, seja nos seus aspectos mais recentes (anos 1970), seja em
sua história geral, pois a recapitulação do passado em grande escala elide toda
a questão da colonização na África, a escravidão e o tráfego negreiro,
experiência de que Portugal manteve o controle entre os séculos XVI e XIX,
enriquecendo senhores do comércio e o Estado num período que é posterior ao que
os flashbacks põem em cena, concentrados que estão nas refregas da península
Ibérica e na luta contra os mouros, sendo a derrota de 1578 seu último e mais
dramático episódio, referência a partir da qual se faz o salto para 1974.
Supõe-se nesse grande intervalo 1578-1974 o longo declínio de Portugal, como
nação, em sentido lato, no interior da trama que envolve os povos com suposta
vocação de liderança na história universal4. Ou seja, parte-se da consciência
de que o processo de formação dos Estados-nações modernos enterrou a utopia do
Quinto Império tal como profetizada pelo Padre Vieira, que reservava ao seu
país o papel central numa etapa futura do plano de salvação da humanidade.
Embora não deem sinais de conhecer bem essa história, os soldados revelam seu
mal-estar diante da evidente condição periférica de Portugal, que embaralha os
valores em jogo nessa insistência colonial e põe em questão uma retórica
nacionalista que tenta legitimá-la. A dinâmica do mundo levanta suspeitas sobre
a ideia de nação.
Nos termos da conversa entre os soldados, vale a pergunta: "o que é a pátria?",
feita por um deles ao grupo. A resposta de outro, "minha pátria é minha
aldeia", é o sinal para que Cabrita tome a palavra para pôr em pauta o problema
da formação das nações, começando por evocar tempos mais antigos em que
Portugal não era ainda Portugal e os lusitanos dispersos em aldeias resistiram
à invasão romana comandados por Viriato, que terminou traído e assassinado, mas
cuja coragem, retidão e sacrifício fez com que o cerimonial de sua cremação
acendesse, digamos assim, a chama de uma unificação e identidade futura. Valem,
na encenação desse episódio, a sobriedade e a firmeza no olhar do herói trágico
(interpretado pelo próprio Cintra) cuja luta adveio antes do tempo propício,
sendo, portanto, trágica. O corajoso líder abraçou uma empreitada justa sem
condições para vislumbrar o horizonte para além do embate imediato, pois não
podia transcender sua experiência local e perceber que os romanos eram, naquele
momento, o povo de vocação universal, com destinação histórica, segundo o
alferes que segue, em muitas passagens, uma noção do papel dos povos na
dialética da história universal de tipo hegeliano5. Os romanos eram "o mundo
avançado" e reuniam condições imperiais - pela violência e poder - para fazer
avançar a civilização em benefício da humanidade, produzindo um legado cultural
que o alferes vai chamar de "dádiva" quando estiver em pauta a dimensão
civilizatória, de ampliação do conhecimento presente nas grandes navegações do
século XV, com Portugal na vanguarda.
Seguindo uma regra do filme, o momento decisivo da unificação e soberania, sob
D. Afonso Henriques, o vitorioso no século XII, um desdobramento de longo prazo
do processo vivido na experiência da Reconquista (expulsão dos árabes da
península Ibérica) e nas Cruzadas, não é trazido à cena. Esta se concentra na
representação dos desastres da história portuguesa. Unificado, porém diminuto
em território, o reino procura se expandir e o faz pensando no domínio da
península. O conflito reiterado com os espanhóis tem seus momentos de heroísmo,
como no século XV na figura do decepado que, sem as duas mãos, continuou a
segurar o estandarte lusitano cercado pelos inimigos na Batalha de Toro,
confronto que se marcou pelos momentos de desarticulação estratégica em
combates sem resultado definido. Diante dessas experiências, o alferes opera
como um cronista que destaca o pitoresco e resume a ideia de história aos
campos de batalha e seus horrores, instâncias onde o poder se expressa na busca
de domínio territorial e em símbolos heráldicos que tanto zelo exigem de seus
súditos. Até este ponto do relato, nenhuma vertigem barroca, nenhum olhar para
o abismo, o que só vai acontecer na próxima estação do drama das frustrações
nacionais, ou melhor, dinásticas.
A tentativa de unificação de Portugal e Espanha num único reino não se deu
apenas pelas armas, pois encontrou também o caminho bem típico às dinastias da
época, quando o casamento de um príncipe com uma princesa de reinado vizinho,
ou mais distante, definia um novo domínio que vinha reativar a ciranda do
redesenho do mapa do continente e o realinhamento dos vassalos. A reunião de um
suposto princípio de Eros com o princípio da Polis - digo suposto porque
casamento não era ainda o apanágio do sonho romântico como ficou instituído na
era burguesa - definia uma via pacífica de arranjos políticos e expansões de
poderes dinásticos, então confundidos com a noção de Estado. A integridade e
continuidade deste se assentavam na linhagem de sangue e, de forma variada, na
sacralização dos mandatários abençoados pela Igreja, dentro das relações tensas
bem conhecidas. Vocação histórica se confundia com o sacramento, a política com
a teologia, de forma que a reunião de tantos poderes sagrados e profanos, numa
península que, como poucas outras regiões, encarnava o triunfo de um
cristianismo combativo e expansivo, tornou o casamento do príncipe herdeiro D.
Afonso com a infanta espanhola Isabel um fato auspicioso, digno da fé e das
pompas que o marcaram. Tal cerimonial, Oliveira o recupera em sua iconografia e
em seus sermões, reencontrando a teatralidade na imobilidade, este motivo tão
associado ao funesto em seus filmes. Na celebração do momento utópico de união
do casal, apesar das palavras de euforia já se insinua o que vai se radicalizar
na encenação do luto, depois de a reviravolta do destino envolver o príncipe
num acidente ao mesmo tempo banal e fatal em sua inusitada trama e detalhes,
tudo encaixado para sugerir o seu sentido trágico. Na reversão da fortuna do
casal, que se confunde com o colapso da união desejada, a ocasião do luto é o
confronto com o abismo, mais do que tudo estampado no rosto e no olhar do mais
desamparado dos personagens de Non, a vã glória de mandar: D. João ii, a figura
do silêncio e solidão no espaço do funeral de seu filho. Seu rosto aparece
isolado no centro de uma área de sombra, uma tela preta que se confunde com a
roupa do luto e torna sua máscara da dor a mais condensada visão do sentimento
de perda ao longo do filme. No centro do quadro, único ponto visível. Ele
inclina a cabeça, tensiona o olhar e indaga o vazio como à procura de uma
resposta que se sabe impossível pelo teor mesmo da composição da imagem. Em
conexão com essa figura, repetida mais de uma vez, o sermão do padre celebrante
do ritual vem conferir um sentido ao desastre, responder a seu modo à
perplexidade, invocando a vaidade do sonho de grandeza e os pecados da
sociedade como raiz do que seria uma resposta negativa da providência. A morte
do príncipe que encarna a unidade do grande reino peninsular com aspirações
imperiais é uma punição, pois que a história se tece segundo tais desígnios; a
causalidade natural e o que chamamos de acaso se impregnam da vontade de Deus,
senhor maior desta trama, foco maior da recusa.
Posta a cena, poder-se-ia esperar uma preleção de Cabrita feita em outros
termos, digamos mais seculares, tal como havia feito no caso da ideia do
trágico na experiência de Viriato. No entanto, seu discurso, ao dar sentido ao
fracasso histórico que relata, confirma o diagnóstico do sermão ministrado no
século XV, não sem amenizar a ideia de princípio motor, pois não se refere ao
"Non" de Deus, mas ao "Non" de entidades sobre os quais é mais fácil projetar a
ideia da linguagem figurada como um ornamento, dada a descontraída citação do
discurso clássico pagão em que Cabrita fala à maneira de Camões ("os deuses não
quiseram"). Logo adiante, sua expressão "ambições às quais Portugal não estava
predestinado" se insere numa informalidade que torna sua dicção algo ambíguo
entre o metafórico e o sacramental, de certa forma evidenciando a tonalidade
desejada por Oliveira em sua relação com o mundo da oratória dos púlpitos que
tanto o inspirou na concepção do filme, em particular a figura do Padre Vieira.
OLIVEIRA LEITOR DE VIEIRA
A referência ao "Non" da providência, inaugurada na narração do funeral do
século XV, é uma forma de articular fatos históricos e punição divina que,
guardadas as enormes diferenças de envergadura na oratória, nos faz recordar o
sermão do Padre Vieira proferido na Bahia em 1640, "Sermão pelo bom sucesso das
armas portuguesas contra as de Holanda". Ele trata das aflições da guerra
contra os holandeses no Brasil e indaga o porquê da mudança da vontade divina
em relação aos portugueses, defendendo os méritos destes e advertindo para o
perigo da vitória dos hereges, pela qual Deus ficaria desacreditado. Novas
indagações sobre a inteligência da história não excluem, nesse sermão, o
enfático pedido de perdão pelos pecados, a hipótese da derrota como punição.
Vieira roga a Deus e argumenta. Quer evitar o "Non". A lógica da história
providencial, pensada em todos os seus torneios, está lá nesse sermão, que é
dos mais explícitos no comentário à conjuntura bélica daquele século; mas não
foi desse exemplo que Oliveira extraiu a passagem inspiradora do filme. Foi de
outra peça oratória, de que ouvimos apenas um trecho, quando chegamos à cena em
que o princípio do "Non" é enunciado da forma mais contundente após a derrota
de 1578. A referência central do cineasta é o "Sermão da terceira quarta-feira
da Quaresma", pregado na Capela Real no ano de 16706.
Oliveira não se preocupou com o contexto do sermão de que extraiu a passagem
célebre; isolou o trecho desejado e o colocou em cena quando o filme já se
encaminha para o final. Cabrita, no leito do hospital, não mais domina a
palavra. A montagem alterna a sua agonia com as imagens da desolação dos
portugueses após a derrota de Alcácer-Quibir, um campo de batalha repleto de
cadáveres. Tudo confere enorme ressonância à citação que alcança, desse modo, a
força de um diagnóstico geral da história ali condensada, como era desejado. Um
nobre militar de dentes cerrados atira ao mundo as palavras de Vieira e,
terminada a imprecação, se suicida em total desengano, disposto ao sacrifício
como gesto de salvação da honra diante do que estava claro como infâmia,
derrota de longo prazo, uma catástrofe que se desenha no último plano - o
penacho, a armadura, o corpo e o estandarte caídos por terra. Outras
fisionomias moralmente arrasadas compõem a moldura desse discurso, oferecendo a
síntese onde repercutem a epígrafe do filme, a sucessão de fracassos anteriores
e as preleções do Alferes Cabrita.
No sermão de Vieira em seu movimento completo, o contexto dessa anatomia do
vocábulo "Non" é uma reflexão sobre o exercício do poder do Estado em sua
rotina - o que marca um estilo de governo e suas decisões; enfim, os dilemas do
príncipe antes já tematizados, em outra chave, por Maquiavel. O sermão se
concentra numa longa ponderação sobre as difíceis situações em que há o
imperativo da recusa diante de uma demanda apresentada pelos súditos. Para
Vieira, isso é sempre um problema, dado que o "Non" é intragável para quem
reivindica o direito ou o favor. Seja a demanda justa ou injusta, ele é também
desgastante para o príncipe porque supõe ou um "não querer" (ofensivo para o
não atendido) ou um "não poder" (constrangedor para o governante porque
denuncia seus limites). Enfim, é terrível para todos os lados, simétrico em seu
malefício. Resumindo o longo argumento, pode-se dizer que, no plano prático,
ele analisa distintas formas de habilmente se evitar essa situação-limite e
suas consequências; por outro lado, ao se mover no plano da teologia política,
introduz, como baliza moral-metafísica da questão, tanto para o príncipe como
para os solicitantes, a questão do "Non" tal como se põe na relação entre Deus
e os homens, plano de relações mais complexo que Vieira enfrenta, ressaltando
as dificuldades que encontramos ao tentar separar a reivindicação justa da
injusta. Supondo que Deus está sempre com a razão e sabe melhor do que ninguém
de que lado está o bem, cabe ao solicitante apresentar justas demandas,
produtoras do bem. Mas o que é a justiça e o Bem? Como discernir o que, no
longo prazo e no plano da salvação (não nesse terreno da glória efêmera), é o
Bem para mim e para os outros, o que na trama dos caminhos uma suposta
conquista ou perda me reserva. Em resumo, os homens não sabem o que pedem...
Atendê-los pode gerar o Mal, não atendê-los, o Bem. Há sempre um momento
seguinte que pode reverter, surpreender, esclarecer, transformar uma satisfação
em frustração, e vice-versa. A questão não se fecha no plano de uma
temporalidade conjuntural, pois são opacos os desígnios da providência. Tal
campo de indagações se complica pelo recurso de Vieira à citação da frase de
Cristo, de fato o mote do sermão, dita aos apóstolos - "não me pertence dá-lo,
mas é para aqueles para quem meu Pai o tem preparado" - em resposta a uma
reivindicação. Tal gesto acentua o desdobramento do processo que leva ao poder
"em última instância" e lembra que o arbítrio decisório não é tão simples,
devendo o príncipe tomar essa ordem mais ampla de ideias como sua baliza
inspiradora quando a ocasião do "Non" se fizer necessário. O mesmo deve fazer o
reclamante para não esquecer, apesar de seus limites de percepção e seus
motivos de fundo, a questão da justa demanda, que seria uma condição sine qua
non para a ousadia de uma súplica.
Oliveira não traz à cena essa espiral barroca do sermão, mas algo deste "não
sabem o que pedem" e daquela dialética das consequências incertas tem
ressonância na forma como está montado o mosaico das repetições do "Non",
assumido como um dado efetivo da história. Na encenação do episódio de Alcácer-
Quibir, o retrato de Dom Sebastião se compõe como a encarnação absoluta do
orgulho cego, grave pecado capital, uma maldição que as interpretações
messiânicas compensatórias do trauma nacional não conseguiriam redimir. O rei
morto, ícone da soberba, se move como um espectro a povoar pesadelos; está
longe da figura da penitência, do sobrevivente perdido, anônimo, a se
arrepender da insensata empreitada e a expiar a culpa para, confirmando sua
sacra realeza, emergir da névoa como o Salvador da Pátria, redentor de
Portugal.
O caminho das estações de Non, ou a vã glória de mandar, ao compor a figura do
rei, não incorpora até o fim a forma do drama barroco do tirano mártir,
preferindo tomar a longa duração do sebastianismo como um argumento que reforça
o senso de uma irrupção do mal na história portuguesa, ressalvada a dialética
das inversões de sentido que o tempo nos reserva. Neste filme, o cineasta
descarta uma representação mais nuançada da insensatez do soberano, em que o
jovem inexperiente fosse inserido numa cultura religiosa e política que o
induzisse a determinadas posições, o alimentasse de sonhos messiânicos e de
vocação imperial, mesclados com missão evangélica ainda no espírito das
Cruzadas7.
A reiteração do "Non" sugere um caminho inexorável na direção do desastre como
destino associado ao sonho de grandeza, o que define um traço comum com o
movimento em direção da catástrofe, muito próprio ao drama barroco. Mas o
"Non", tal como trabalhado no filme, supõe a transcendência, a história
providencial investida de uma ordem sacramental que dá sentido à débâcle e
promete novos episódios corretores ou não, enquanto o drama barroco, na acepção
de Walter Benjamin (1984), compõe a experiência do desastre dentro de uma
história sem transcendência, uma história natural em que tudo se arruína e
caminha para a morte por um processo imanente. Lugar, portanto, de um abandono
de Deus, não dessa forma de intervenção que o "Non" reiterado sinaliza de modo
tão enfático como um gesto da alçada da providência e, portanto, dotado de
sentidos ainda não revelados, mas que fazem parte do Plano da Salvação. Embora
não explicite, Oliveira parece endossar o diagnóstico do padre que celebrou o
funeral no episódio do século XV, ou outras falas sobre os indevidos sonhos de
grandeza associados a um traço de identidade de vigência secular, embora fora
da igreja e à sombra das árvores africanas tudo se enuncie como especulação
intelectual do professor de História.
Na chave de Oliveira, seria então injusta a demanda portuguesa geradora do
"Non"? Sim, quando se observa que a escala da sua reflexão condensa em Dom
Sebastião a "vã glória de mandar" em seu momento mais obstinado, uma figura que
porta o traço típico das personificações alegóricas, com sua neurose obsessiva,
sua unilateralidade própria ao possesso com quem é impossível negociar8. Em
contrapartida, o filme condensa em Vasco da Gama a figura da dádiva portuguesa,
e faz da homenagem dos deuses aos navegantes, dos idílios na ilha oceânica e do
sorriso da deusa do amor o contraponto solar, sob a chancela de Eros e do
princípio do prazer, ao reino das sombras de Tanatos, que impera na sucessão
dos desastres.
Camões é o mediador dessa elegia positiva que encena um episódio de Os
lusíadas, momento singular que contrasta com tudo mais no filme, deixando um
rastro de utopia que repercute até o final. Mas é a palavra de Cabrita que
introduz o episódio, embora o tom geral de seus relatos o revele como um
narrador algo melancólico da poesia épica de Camões. Ele é capaz de conceber a
dádiva e celebrar o poeta em sua sabedoria, mas parece um narrador já cansado
de um percurso de frustrações, mais reticente do que seus inspiradores. Desta
forma, igualmente já não tão convicto quanto o padre jesuíta do século XVII na
força da profecia pela qual o clérigo ajuda o príncipe a conduzir os negócios
do Estado e aponta uma saída nos momentos de desespero. A consciência que
Vieira tinha dos desastres (e o maior deles era então muito mais recente) não
impediu a sua insistência numa interpretação messiânica da história, marcada
por uma teleologia de redenção que, para ser vislumbrada, exigia a cada
conjuntura muita imaginação e brilho para ajustar as vicissitudes do mundo
empírico e os desígnios da providência, que fazem do sim e do não algo
imperscrutável em última instância.
Se o filme recolhe de Vieira a tópica do "Non", a que o cineasta confere uma
vigência regular que não está suposta no sermão da Quaresma, recolherá também a
hipótese de uma superação do interdito que, discretamente, não deixa de estar
em consonância com o tecido das profecias formuladas ou assumidas pelo padre
que insistiu, na contracorrente do século XVII, no advento do Quinto Império.
Não sem antes promover um ajuste no esquema profético-messiânico, deslocando o
protagonismo da história para a figura de D. João iv, pois não era o caso de
endossar o movimento popular de recusa da morte de Dom Sebastião (o que tem lá
sua incidência na forma como Oliveira trata a figura do rei). O importante era
praticar uma hermenêutica capaz de ler os textos sagrados, de forma a ajustar o
mundo da história à teleologia da salvação, pois o plano não se revela senão
gradualmente dentro da sucessão complexa dos fatos, não fora deles. Valem neste
caso as nuances próprias ao intérprete que sabe incorporar os meandros da
história e as vicissitudes políticas dos reinados. Tendo vivido o mundo da
colônia e a efetiva catequese, o complexo contato com o outro, Vieira incorpora
em sua profecia o seu próprio embate com a dominação e mostra uma astúcia
política que definiu um trabalho de conselheiro do príncipe que desagradou a
Inquisição e lhe custou os processos nos quais se defendeu ainda, afirmando a
destinação especial de Portugal como Quinto Império9.
Algo dessa utopia de Vieira repercute na fala de Cabrita, que, mais para o
final de suas preleções, desdobra seu desengano com a conjuntura do século XX,
numa observação regressiva e idealizadora que supõe os bons propósitos
encarnados na utopia do Quinto Império, sugerindo sua maior afinidade com um
plano humanista do que o atual comportamento das potências que "querem
implantar uma espécie de Quinto Império à força". Aqui, ele invoca o sentido
etimológico de "católico" como "universal" e faz recordar de novo o Padre
Vieira e seu imaginado milênio de paz e harmonia com todos os seres humanos
reunidos e convertidos (como?) ao catolicismo sob a égide de Portugal, elidida
aqui a legitimação da violência e da conquista em nome da conversão, posta de
lado qualquer avaliação realista do jogo de poderes nacionais na Europa de
então. Aqui, uma determinada perspectiva histórica é avaliada pelo que diz e
proclama, não pela sua prática, tal como acontecerá em Palavra e utopia, em que
Oliveira vai trabalhar as tensões entre o catequista e as decisões do poder
secular, compondo um retrato notável de Vieira, mas não sem idealizar novamente
o seu humanismo diante da escravidão dos negros africanos10.
Este é o terreno de ambiguidades em que se move o alferes: ao expressar seu
descrédito no falido colonialismo, se move menos no terreno das ideias que
alimentavam a oposição a Salazar e mais num terreno de generalidade humanista
que ora absorve a linguagem do jesuíta, ora assume a pertinência do princípio
do "Non" como ordenador da história portuguesa enquanto perdurar o messianismo
imperial. Por outro lado, o filme compensa suas afinidades barrocas expressas
no título e na forma como desenha a sucessão dos desastres causados pela
vaidade do poder, introduzindo na fala do alferes o senso de um movimento
civilizatório cuja dimensão ascensional marca um projeto universal de criação
de um mundo melhor. Nessas oscilações, pode falar de Viriato do jeito que fala
(condições para entrar na história mundial) e pode insinuar o lado positivo da
presença portuguesa nessa mundialização dos africanos, pois lhes oferece
condições para unificar e constituir uma nação. Como observei, essa dialética
tem algo da Filosofia da História de Hegel, mas sua entonação melancólica
exprime o momento da consciência infeliz do colonialismo português, já
impotente para evitar que a resistência do colonizado faça tal liberação
nacional acontecer; apesar de tudo, Portugal já desgastado sentou à mesa no
momento da partilha da África, no último quarto do século XIX, para reiterar a
sua condição de sócio menor, dar continuidade a seus domínios. Vale, no
entanto, nessa conversa uma hipótese típica de uma Realpolitik que não lhe é
exclusiva e que o século XX conhece bem. Ou seja, a violência colonial tem
duplo sentido (repressão e avanço) como fato consumado que não caberia
rediscutir em chave política ou mesmo ética, dada a suposta ineficácia disso no
presente, capaz apenas de gerar cobranças tanto mais anacrônicas quanto mais
impotente se tornou o centro da empreitada, como de resto é o caso de Portugal
na visão do próprio alferes.
A reflexão de Cabrita, em sua dimensão pragmática, evidencia esta matter-of-
factness que, em sua exposição, não exclui a dimensão mais filosófica que
suscita indagações voltadas para uma esfera inacessível onde estariam
instaladas a "máquina do mundo" e as regras da harmonia universal (neste
particular, ele cita Camões). Ele deixa clara a distinção entre ciência,
tecnologia, progresso material, de um lado, e tais indagações, de outro. O
curso da história sugere um sentido oculto que ele vem evocar na hora do
crepúsculo, quando a sensibilidade calejada pela história reconhece a
complexidade da experiência que ele equaciona em termos da questionável
separação entre o plano da dádiva (conhecimento, legado cultural) e o plano das
conquistas e violência do poder11.
Articulando o discurso de Cabrita e o arranjo da história efetivado pela
montagem de Non, ou a vã glória de mandar, Oliveira se afasta de uma alegoria
barroca de desengano e repetições (a esfera do "Non"), abrindo espaço para a
ideia de progresso e movimento civilizatório sem, no entanto, expulsar a esfera
em que se pode refazer o elo entre os homens e a providência. Seu filme procura
evitar o secularismo que poderia assumir uma revolução contemporânea como
inauguração da idade da razão positiva ou de certezas apoiadas numa visão laica
da história, seja na chave do progresso, seja na da superação da luta de
classes. O cultivo do enigma maior por parte do alferes, trabalhado até seu
último momento, preserva o espaço de ambiguidade desejado, pois ressalta ao
mesmo tempo o hiato e a conexão entre sua experiência de morte (seu delírio e
suas últimas palavras no hospital de Luanda) e a Revolução dos Cravos (o evento
histórico contemporâneo). O seco e estratégico informe sobre a coincidência de
datas trazida pela voz over enuncia o que Cabrita não pode senão ignorar e que
resulta exatamente do que está ausente na discussão ao longo do filme: o
movimento de oposição a Salazar vindo do próprio exército e o debate sobre o
colonialismo tardio.
Tal coincidência entre a morte em cena e a Revolução invisível, fora de cena,
gera novo espaço de relações alegóricas num filme realizado numa conjuntura
histórica em que faz sentido vislumbrar uma superação do círculo do "Non".
Manoel de Oliveira, no entanto, não quer assumir o esquema teleológico de uma
salvação por demais messiânica, que poderia desfazer seu teorema que se move na
zona cinzenta entre a noção de progresso (na acepção moderna, secularizada) e a
constante admissão do enigma de que o próprio "Non" faz parte como força
efetiva na história, valendo aí como algo mais do que um jogo retórico para
avivar a reflexão. Cabrita e Oliveira, leitores de Vieira, revolvem o terreno
dos sermões do padre como um mar de fertilidade e ensinamentos, complexidade e
inteligência, mas seria demais assumir até o fim a lógica de suas profecias que
encaminham uma certeza da salvação.
A MORTE DO ALFERES CABRITA
A data de 25 de abril se enuncia a partir do dispositivo da burocracia médica
cuja notação precisa do registro de óbito está nas antípodas do misterioso
desaparecimento do rei, opondo os tempos favoráveis à criação do mito, aos
tempos modernos dessa morte atestada e explicada na linguagem científica no
espaço insípido das paredes brancas, dos aventais, dos instrumentos médicos, em
tudo distante da iconografia heroica que, apesar de tudo, cerca a figura de Dom
Sebastião. Este, no entanto, retorna à cena, emergindo do nevoeiro, mas não nos
termos da profecia, inserido que está no espaço onírico da agonia do alferes,
momento dramático em que se dá o confronto alegórico entre o soldado homem
comum do século XX e o rei desaparecido que, por séculos, assombrou toda uma
cultura. As estações da Paixão alcançam seu último estágio e devem, portanto,
dotar esse cidadão comum de uma certa aura, para que seu encontro imaginário
com o rei represente um confronto de épocas. No momento em que o médico escreve
e a voz anuncia a data, a morte de Cabrita recolhe o sopro dos séculos como,
simbolicamente, o último português a morrer dentro do círculo que se inaugurou
em 1578 e parece se fechar em 1974, ano do fato paradigmático, ausente na cena,
que põe fim ao sonho de império.
No jogo de espelhos entre o século XVI e o XX, é como se o alferes estivesse a
recolher em sua agonia toda a carga de desastres simbolizada no corpo do rei,
num lance sacrificial que, na recapitulação, vale como um ritual de expiação do
passado que demanda a paixão do virtuoso, este que discretamente tem a ver com
o futuro talvez promissor, mas não terá lugar nele. A simetria parece querer
selar o lado vampiro e, ao mesmo tempo, a exaustão desse mito pela continuidade
do sangramento no plano da imagem. O espectro, de início, porta a altivez de
quem não admite a derrota, segura firme a espada que, em 1578, o fidalgo
(também interpretado por Luís Miguel Cintra) conseguiu reter nas mãos por uma
tonicidade residual, já sem efeito prático, no seu corpo alquebrado a exibir a
cabeça baixa, o olhar baço e já tomado pela derrota. Aproximando-se da câmera,
Dom Sebastião exibe um olhar que solicita o contracampo, assinala o contato com
o mundo imediato sem a cegueira das cenas de batalha. O olhar direto ressalta o
mesmo ar imberbe que, no entanto, se mostra agora disposto a um cara a cara,
hora da verdade, que se define no embate com o alferes, com a câmera e com o
espectador dentro do espaço do delírio. O rei exibe a espada invertida
(derrotada, desarmada?), que termina por formar uma cruz, e dessa cruz-espada
(síntese de seu desígnio teológico-guerreiro) escoa o sangue. Sugestão
simbólica de dano consumado por séculos (irremediável, irredimível), mas também
de seu esgotamento.
O traço de união que atravessa o tempo se faz claro na passagem da ponta da
espada para o hospital, onde depois veremos o sangue a pingar na bolsa do
aparelho de transfusão, e daí para o corpo do alferes, para ser expelido em sua
hemoptise terminal12.
Derramado nas várias instâncias do "Non", esse sangue se identifica com o
destino nacional trabalhado em cada momento do passado através de
personificações, figuras que condensaram situações, portadoras das noções
nucleares que marcam a difícil superação de um traço de identidade que o filme
desenha e redesenha, mas que por fim questiona, ao figurar a passagem do
domínio da vaidade, vontade de poder obstinada e arrogância, para o domínio da
lealdade, da sensatez e do diálogo encarnado em Cabrita. Nesse esquema bem
afinado à alegoria tipológica do cristianismo, Cabrita é o anti-Dom Sebastião
que encara o seu par antitético e recolhe no seu corpo a violência sobre a qual
ele próprio discorreu ao longo do filme13.
Nessa conexão entre tipo e antitipo, Oliveira separa o que no drama barroco se
encarna na mesma figura, o tirano mártir. Aqui, há o tirano (no século XVI) e
há o mártir (no século XX), figura que, dada a enorme diferença de conjuntura,
se faz expiatória na superação do legado do "Non". Ao promover essa separação,
o cineasta retira Cabrita do círculo da culpa e, pela forma como compõe o
esquema tipológico, ajusta o que acontece com o protagonista a um motivo
reiterado em seu cinema: a associação do valor e da virtude maior à figura da
renúncia destituída de poder.
Há uma continuidade nesse jogo de valores invertidos que insere Cabrita na
série dos mortos que encarnam o padecimento da história. Mas há
descontinuidade, estranhamento, porque são formas muito distintas de morrer que
opõem dois tempos: (1) o da morte paradoxal, porque ao mesmo tempo heroica e
vexaminosa, foco de uma elaboração imaginária secular porque, além de tudo,
invisível, não documentada; e (2) o da morte administrada desse cidadão, que,
em si destituída de ressonâncias messiânicas, se projeta em outra esfera e
ganha sentido como ocorrência que, embora fora do centro, vem participar da
constelação definidora do sentido da data. Se algo "faz época" no dia 25 de
abril, está a ocorrer longe desta cena em que ele cospe sangue na cama de um
hospital, mas a anunciada coincidência o integra no movimento geral como
representante das virtudes e valores sacrificados por um processo no qual a sua
morte assinala o enterro das obsessões nacionais associadas ao "Non".
Tal processo, o próprio alferes o comentou num retrospecto que começou em clima
mais sereno, embora já melancólico, e que foi sendo invadido pelo desconforto
que se pode entender tanto como leve premonição quanto como impulso reflexivo
inibidor da ação, como se ele estivesse, ao narrar a história, vivendo uma
viagem interior que se desdobrasse em angústias e interrogações incompatíveis
com a urgência do combate, e que terão o seu papel quando a sua insistência em
olhar para o africano que baleou o torna vulnerável, tendo consequências
fatais. A agonia no hospital prolonga a sua indagação pela verdade inacessível,
lance final da dúvida que sublinha a sua oposição ao dogmatismo do rei cego
pela fé obstinada e pelo afã de glória.
A sequência final, seja no espaço realista do hospital, seja na imagem onírica,
completa o desfile dos rostos fixos, em silêncio, que marcou todo o filme, e
chegamos ao ponto-limite da expressão do horror diante da violência da
história: o primeiro plano do soldado ferido com o rosto todo enfaixado, cuja
imagem se reduz a um olho enorme visto em primeiro plano, a recolher toda a
força do estranho familiar, do sinistro, de muitas imagens de Luis Buñuel. A
cena privilegia o drama, a intensidade, não se impondo aí aquele quadro de
inspiração iconográfica que cerca os rostos mais expressivos observados na
recapitulação dos desastres da realeza. É notável essa depuração realista da
imagem, agora despida dos valores pictóricos que marcaram os flashbacks. Na
morte branca do hospital, essa incrível singularidade do olhar condensa o
trauma e vale como um fragmento de teatro da crueldade a comentar os séculos e
a reforçar a advertência do alegorista.
Centrando o foco em Cabrita e seu destino em terras africanas, o cineasta
mantém seu critério de não encenar os momentos jubilosos, sempre objeto de uma
evocação indireta, como aconteceu lá no caso do momento da fundação de
Portugal. Com isso, a montagem, embora reafirme a conexão entre o passado
marcado pela repetição do desastre e o presente que prenuncia a superação do
"Non", não traz ao primeiro plano a ação efetiva de transformação em curso no
tempo presente. Exaltar a ação histórica dos líderes vitoriosos seria fazer de
abril de 1974 um momento de preenchimento integral da ideia de redenção,
projetando sobre o conteúdo das ideias e da vontade dos capitães uma dimensão
transcendente que estaria explicitada na alegoria. A Revolução deve guardar um
quê de fato contingente - aconteceu! -, sem que seu conteúdo específico seja
definido, endossado ou posto em debate (este se reserva ao campo extrafilme).
A condição off-screen da Revolução é o canal da afirmação-indagação desejada,
pois a justaposição som-imagem que enuncia a coincidência lhe confere - pela
ausência - um poder estruturante que não vem da tradução do termo final da
teleologia em imagens. Deve-se à posição terminal do dia 25 de abril no traçado
do filme, que anuncia apenas o fato Revolução e, sobre ele, guarda silêncio
estratégico14.
As vicissitudes da atualidade, o que estava acontecendo no mundo e em Portugal
enquanto Cabrita e seus companheiros lutavam em terras africanas, se esboçou
como motivo de conversa entre os soldados no início do filme, mas logo se
dissolveu nos saltos para o passado que o próprio alferes liderou, para expor o
longo percurso que termina por inserir a sua morte no esquema figural de Non,
ou a vã glória de mandar. Dada a sua contradição de professor que não adere ao
colonialismo mas aceita cumprir seu dever militar, é sintomático esse
deslocamento da conversa que retira da pauta as questões mais urgentes do seu
presente.
A regra do jogo é manter uma exposição de mentalidades, colocar o problema nos
termos da identidade nacional, e assim delimitar a discussão concreta de cada
episódio histórico evocado. A composição em mosaico privilegia determinados
cotejos, envolvendo peças que podem estar, em princípio, distantes. O afresco
histórico desenha cada momento em grandes linhas, concentrado que está num dado
de psicologia social que toma como motivo central o sonho imperial e, portanto,
deve encaminhar seu desfecho na consumação-esgotamento simbólico desse sonho, o
que faz pela oposição entre o tipo Dom Sebastião e seu antitipo Cabrita. A
opção de fazer ausente tudo o que se refira à história do colonialismo na
África se completa com esse silêncio diante do processo de gestação da
Revolução dos Cravos. É importante não fazer de Cabrita um militante, um porta-
voz que faria de suas preleções um convite a um posicionamento político diante
de questões específicas dentro daquela conjuntura.
Esta última, cada espectador na plateia traz consigo, garantindo que a recepção
ao filme seja pautada pelos desdobramentos da Revolução dos Cravos, assim como
o próprio filme o foi em grande parte. A reflexão sobre mentalidades que ele
traz não teria lugar, em 1989, não fora a Revolução e seu particular
desdobramento, quando, após os primeiros anos de conflito em torno da direção
social e política da Revolução, prevaleceu a vertente que definiu os passos que
levaram à integração de Portugal na Comunidade Europeia em 1985. Esses
movimentos já estavam consolidados quando Oliveira finalmente realizou este
projeto, que começou a elaborar logo em 1974, segundo observou em entrevistas.
O filme se insere na conjuntura de 1989 como exercício de um humanismo
desconfiado do poder, mas pouco afeito à análise concreta de suas condições, à
vontade num mundo laicizado mas sem perder sua ancoragem na tradição religiosa.
A forma como a equação de Non, ou a vã glória de mandar se fecha, ou se reabre,
renova o diálogo com Vieira na recusa do desastre como um eterno destino, mas o
faz de modo irônico, pois o lance final marca um afastamento, uma inversão
diante do excesso das peças oratórias. É um golpe de mestre no plano retórico,
mais afinado à reticência do alferes Cabrita, uma comunhão com o protagonista
que, no entanto, não desautoriza acenos de esperança ligados ao sentimento de
que algo teve fim e que algo de melhor se inaugura.
A lúcida recusa de imagens épicas deixa claro que o presente não é a promessa
de consumação dos tempos, utopia realizada. O cineasta confia na montagem do
seu desfecho como a melhor forma de resolver o problema (enorme problema) de
como representar o lance final de uma figuração providencial da história tão
peculiar como a sua. À pergunta "como terminar?", ele respondeu com a dose de
incompletude apta a sugerir que o desafio maior se põe quando o passado parece
ter dado o seu último suspiro.
Reafirmação do valor da dádiva ou evocação de uma inocência perdida?
1 Johnson, Randal."Manoel de Oliveira and the ethics of representation". In:
Ferreira, Carolin Overhoff (org.). Londres: Wallflower Press, 2008; Johnson, Randal. "Oliveira político". In: Cruz, Jorge, Mendonça,
Leandro, Monteiro, Paulo Filipe e Queiroz, André (orgs.) Aspectos do cinema
português. Rio de Janeiro: Uerj, 2009, pp. 23-48.
2 Ferreira, Carolin Overhoff. "Os descobrimentos do paradoxo: a expansão
europeia nos filmes de Manoel de Oliveira". In: Junqueira, Renata Soares
(org.). Manoel de Oliveira: uma presença - estudos de literatura e cinema. São
Paulo: Perspectiva, 2008, pp. 117-145.
3 Desta abertura, há um leque de leituras que alia a questão do tempo
(natureza, história) com a pluralidade de acepções da árvore como símbolo. Ver
Alvarez, José Maurício Saldanha. "Sempre fere é sempre ferro - o Non de Manoel
de Oliveira: uma fábula cinematográfica". In: Cruz, Jorge, Mendonça, Leandro,
Monteiro, Paulo Filipe e Queiroz, André (orgs.). Aspectos do cinema português.
Rio de Janeiro: Uerj, pp. 49-85, 2009; De Baecque, Antoine.
"L'arbre de l'histoire". In: L'histoire-caméra. Paris: Gallimard, pp. 12-14,
2008; e Predal, René. "Non, ou la vaine gloire de commander:
requiem pour un roi fou". In: Manoel de Oliveira, le texte et l'image. L'avant-
scène - cinéma, jan.-fev. 2009, pp. 478-79.
4 Colocar a questão nesta escala, escolhendo como data pivô 1578, se ajusta ao
descarte de nuances nesse processo de declínio, notadamente seus efeitos na
dominação colonial que persistiu e transformou a navegação, de aventura e
descoberta, em transporte de mercadoria humana submetida a condições
inimagináveis. São séculos de hegemonia portuguesa no litoral africano e na
condução do tráfego de escravos. Operação fundamental do seu sistema colonial,
algo que se manteve mesmo sob o domínio espanhol (1580-1640), em relações de
poder efetivo mais negociadas do que permite ver o desenho em grandes linhas.
Ver Alencastro, Luiz Felipe de. O trato dos viventes: formação do Brasil no
Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
5 Ver Hegel, Wilhelm Friedrich. Filosofia de la historia. Barcelona: Ediciones
Zeus, pp. 79-102, 1970. Cabrita não chega a enunciar a ideia
de uma astúcia da razão na história, que se vale de paixões e atropelos para
assegurar o avanço da humanidade, mas preserva um senso de progresso que não é
laico, burguês, e antes aponta para um sentido mais ambíguo que bem pode se
ajustar a uma visão providencial da história, nos moldes de Hegel.
6 A fonte para a leitura dos sermões aqui assumida é Pécora, Alcir (org.).
Sermões: Padre Antônio Vieira. São Paulo: Hedra, 2000.
7 Para o drama barroco, ver Benjamin, Walter. Origem do drama barroco alemão.
Tradução, apresentação e notas de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense,
1984. Para o quadro específico em que se inserem a vida e a
morte de Dom Sebastião, a teologia política, a sacralização da realeza e seus
desdobramentos, ver Hermann, Jacqueline. No reino do desejado: a construção do
sebastianismo em Portugal, séculos XVI e XVII. São Paulo: Companhia das Letras,
1998.
8 Sobre a relação entre a alegoria e a figura obstinada, como que possuída por
uma força alheia, ver Fletcher, Angus. Allegory: the theory of a symbolic mode.
Ithaca: Cornell University Press, 1970, pp. 25-69.
9 Sobre a forma das profecias de Vieira e sua interpretação da história, ver
Lopes, Marco Antônio. "Padre Antônio Vieira: uma leitura simbólica da história
universal". Revista do Centro de Estudos Portugueses, 30/43, pp. 159-83, 2010.
10 Luiz Felipe de Alencastro (op. cit.) lembra a diferença entre a oposição de
Vieira à escravidão dos indígenas e a sua anuência mais do que pragmática à
escravidão dos africanos. E cita passagem do "Sermão xiv" da edição dos
Sermões, com prefácio e revisão de Padre Gonçalo Alves (Porto, 1993, vol.4,
pp.733-69): "Oh se a gente preta tirada das brenhas de sua Etiópia, e passada
ao Brasil, conhecera bem quanto deve a Deus, e a Sua Santíssima Mãe por esse
que pode parecer desterro, cativeiro ou desgraça, e não é senão milagre, e
grande milagre!".
11 Randal Johnson (op. cit.) ressalta a peculiar postura de Oliveira como
humanista que se movimenta entre os polos laico e religioso em sua visão da
conduta humana e em sua própria ética como cineasta.
12 Em sua acepção geral, esta conexão entre o passado e o presente mediada pelo
sangue já foi apontada, sendo um ponto reiterado de atenção da crítica. Cf.
Ferreira (op. cit.) e Alvarez, José Maurício Saldanha. "Sempre fere é sempre
ferro - o Non de Manoel de Oliveira: uma fábula cinematográfica". In: Cruz,
Jorge, Mendonça, Leandro, Monteiro, Paulo Filipe e Queiroz André (orgs.).
Aspectos do cinema português. Rio de Janeiro: Uerj, pp. 49-85, 2009, e Filizola, Anamaria. "Fantasias sebásticas de Manoel de Oliveira".
In: Junqueira, Renata Soares (org.). Manoel de Oliveira: uma presença - estudos
de literatura e cinema. São Paulo: Perspectiva, pp. 147-64,2010. O dado novo em minha leitura é a presença do esquema tipológico da
alegoria cristã e sua centralidade para a visão da história e do presente
exposta no filme.
13 Sobre este esquema tipológico e a alegoria cristã, ver Auerbach,
Erich.Figura. Paris: Belin, 1993.
14 Vale aqui a referência a Intolerance/Intolerância (1916), de D.W. Griffith,
filme canônico na recapitulação histórica em larga escala, composta como um
mosaico que articula diferentes épocas e inaugura este esquema tipológico
cristão na composição da alegoria. Lá, a dialética de continuidades e
descontinuidades, dos tipos e antitipos que se enfrentam em diferentes épocas,
define a presença de um determinado princípio de repetição - o da intolerância
ao longo da história. Este engendra a sucessão de desastres até que o final
traga a superação do paradigma e afirme, com toda ênfase, uma teleologia da
salvação da humanidade, que tem um fundo nacionalista de exaltação do lugar
onde se criam as condições para tal superação: os Estados Unidos. É nítida a
diferença entre o que chamei de discrição irônica de Oliveira, que faz pensar,
que convida a preencher o vazio ao não tornar imagem o capítulo que daria
conteúdo ao telos, e o teor mais enfático da teleologia da história afirmada em
Griffith. Há muito que comentar desta relação, no plano estético (cinema tardo
moderno versus cinema mudo), e na consideração da enorme distância entre a
potência e o cinema emergentes em 1916 e a situação de Portugal em 1990.