A redescoberta de um sociólogo: considerações sobre a correspondência de Émile
Durkheim a Salomon Reinach
Quase cem anos já se passaram desde a morte de Émile Durkheim (1858-1917), mas
esse tempo ainda não foi suficiente para que descobríssemos todos os recônditos
de sua biografia pessoal e intelectual. Nos últimos vinte ou trinta anos foram
descobertos textos de diversas naturezas, que contribuíram para trazer ao
público acadêmico uma ideia mais precisa sobre quem realmente foi Durkheim,
desafiando, assim, a imagem "mitológica" transmitida pelos muitos livros
introdutórios, por manuais e mesmo pela tradição oral.
A oposição entre uma "imagem real" e uma "imagem mitológica" foi proposta por
William Watts Miller1 como uma forma de salientar a diferença existente entre
uma visão sobre Durkheim consagrada a partir do final da década de 1930,
baseada em algumas interpretações teóricas incorretas ou enviesadas e em
informações biográficas inconsistentes, e as novas visões que vêm sendo
lentamente construídas nas últimas décadas, a partir da reconsideração de seus
escritos e da descoberta de novos textos e dados biográficos. Giovanni
Paoletti2 parte de outro argumento, mas também se refere a uma "dupla
identidade" da obra durkheimiana, que recebe um tratamento completamente
diferente nos trabalhos de especialistas, que se atêm às minúcias da obra do
autor e citam especialmente seus artigos e correspondências, e aquela que
aparece nos manuais, a partir de uma leitura que "inevitavelmente é de segunda
ou terceira mão"3.
Na realidade, é possível afirmar que o cenário dos estudos da obra durkheimiana
tem sido marcado por um duplo movimento. De um lado, é possível constatar um
interesse crescente pelo pensamento desse autor, por conceitos, argumentos e
explicações que ficaram escondidos sob o verniz - já bastante desgastado - que
revestia a embalagem com a qual ele foi apresentado durante décadas. Isso
ocorreu justamente porque se começou a perceber que tais elementos não eram
apenas peças que ficariam muito bem no museu das ideias, mas que são centrais
para pensar nosso mundo contemporâneo, restituindo, assim, o sentido mais pleno
do que costumamos entender como um clássico da disciplina: aquele que
desempenhou um papel na constituição de seus fundamentos, mas que também
permanece relevante com o passar do tempo. De outro lado, assistimos à produção
de trabalhos de cunho quase "arqueológico", que se dedicam a recolher indícios
e evidências os mais distintos e que permitem essa reconstituição, a um só
tempo histórica, biográfica e teórica, acima referida.
Ora, não é difícil antecipar que esses dois movimentos não ocorrem de forma
isolada. Aliás, podemos até mesmo afirmar que dificilmente um existiria sem o
outro, ou, pelo menos, que não existiria do mesmo modo ou com a mesma
intensidade. É bastante provável que, se Durkheim tivesse permanecido apenas
como uma figura estática no panteão dos fundadores, não haveria o mesmo
interesse em explorar os detalhes daquele momento histórico que foi o palco
para a criação de sua teoria e para sua atuação como líder de escola, ou em
tentar descobrir todo esse conjunto de documentos e textos inéditos do próprio
autor, que mencionamos logo acima e que agora cabe apresentar em algum detalhe.
Logo após sua morte, no ano de 1917, seus colaboradores mais próximos
dedicaram-se a publicar alguns manuscritos, além de editar em forma de livro
artigos e apresentações publicados pelo autor ainda em vida, mas que eram pouco
conhecidos pelo grande público. As duas décadas que se seguiram representam um
primeiro momento de florescimento do "durkheimianismo", no qual o legado da
"liderança carismática" do velho mestre não deu lugar somente a herdeiros que
operassem segundo o modelo weberiano de dominação tradicional, mas também a um
movimento tanto intenso quanto fragmentário de intelectuais que reivindicavam o
título de fiéis continuadores do pensamento do autor, sendo que cada um deles
privilegiava determinado aspecto particular de sua obra4.
Depois desse período, o legado de Durkheim parece ter entrado em um processo de
lento esmorecimento, embora nunca tenha deixado de se fazer presente nos cursos
de ciências sociais mundo afora. As razões para esse fato são muitas, e vão
desde mudanças no cenário intelectual - em particular o francês e o americano -
até acontecimentos históricos relevantes, como a invasão alemã em Paris durante
a Segunda Guerra. Certamente não temos o objetivo de desenvolver aqui toda essa
intrincada rede de fatores, mas esse último acontecimento merece ser destacado,
na medida em que exerceu um impacto direto sobre esse movimento que estamos
descrevendo aqui.
Segundo o que foi transmitido pelos familiares de Durkheim, em particular por
seu bisneto, Étienne Halphen, em conversas com Steven Lukes5 e William
Pickering, foi durante a Segunda Guerra que o apartamento de sua filha, Marie,
foi invadido por soldados alemães. Sabendo que se tratava de uma família judia,
eles teriam jogado ao vento todos os documentos que até então estavam bem
guardados em uma espécie de sótão, naquele apartamento da avenida d'Orleans, na
qual Durkheim viveu os últimos anos de sua vida e onde escreveu as últimas
cartas a Reinach. Essa mesma informação aparece também durante a entrevista
concedida por Claudette Kennedy, sobrinha-neta de Durkheim, a Pickering em
1992, e que só recentemente veio a público. No trecho transcrito a seguir,
podemos ver que mesmo Émile tendo rompido com a religião judaica, esse fato não
impediu que o judaísmo que sempre marcara a trajetória de sua família
posteriormente marcasse sua história póstuma de modo bastante forte e
definitivo. Segundo Kennedy,
Toda a família[da filha de Durkheim, Marie]passou por maus momentos
[durante a invasão nazista]. Eles conseguiram escapar por muito
pouco. O pai havia sido preso na mesma época que o fora meu primeiro
marido. Mas eles conseguiram evitar que ele fosse deportado. Ele
estava doente. Ele foi para o hospital e conseguiu escapar. Então
todos eles foram, acredito, para algum lugar não muito longe de
Paris. Mas eles fugiram, e foi assim que perderam todos os papéis, as
correspondências6.
Esse fato em si mesmo é investido de grande importância histórica, e já basta
para explicar a dificuldade envolvida na recuperação de detalhes pessoais e
mesmo teóricos da vida do autor. Nem sequer se podia saber com quem ele se
correspondera, quais outros manuscritos havia guardado, quais livros havia
lido. E justamente em virtude desse fato a descoberta de novos documentos
configura-se numa empreitada tão laboriosa, e faz da descoberta de cada novo
material um evento tão singular. E, é preciso ressaltar, essa é a razão pela
qual temos apenas as cartas de Durkheim para Reinach, mas não temos as
respostas de seu interlocutor. Para tentar preencher essa lacuna, procuramos
indicar em notas às cartas qual seria seu possível posicionamento em relação
aos temas mais cruciais, levando em consideração o trabalho de levantamento
teórico e documental realizado por Rafael Faraco Benthien em relação ao
correspondente de Durkheim. Por certo, essa reconstrução não substitui o
próprio documento. Ainda assim, diante da absoluta impossibilidade de se ter
essas respostas, essa reconstrução é de grande valor para que se tenha um
panorama adequado do diálogo entre essas duas importantes figuras do cenário
intelectual francês.
Dando continuidade a este exame sobre a trajetória dos estudos sobre Durkheim,
o fato mais relevante é que, com todos esses acontecimentos, criou-se uma
espécie de vácuo em torno de sua figura, e, paulatinamente, na ausência de
novas informações, somada às transformações na própria visão das novas gerações
de sociólogos, foi se construindo essa imagem de um Durkheim mitológico, misto
de uma leitura de apenas alguns de seus textos mais conhecidos somada a
interpretações das interpretações e a um conjunto de ideias distorcidas que
foram sendo construídas.
Avançando cerca de três décadas, assistimos ao surgimento de uma tendência de
reaproximação do pensamento do autor, em especial na França, com a contribuição
inestimável de pesquisadores como Philippe Besnard, Jean-Claude Filloux e
Victor Karady; nos Estados Unidos, com a atuação de figuras como Robert Alun
Jones e Jeffrey Alexander; e de forma bastante viva também na Inglaterra, pela
pena de autores como Steven Lukes, Anthony Giddens e William Pickering. Além de
tudo o que de novo foi descoberto e produzido pelo trabalho desses renomados
intelectuais, devemos também sublinhar o esforço de diversos pesquisadores das
mais diferentes áreas que se dedicam a garimpar peças relevantes em meio a
arquivos repletos de papéis de todo tipo, que enfrentam cotidianamente o
desafio de tentar encontrar o novo em meio ao desconhecido, que se esforçam
para recuperar esses fragmentos de história cujos rastros foram perdidos
durante as atrocidades da guerra, ou que apenas ficaram soterrados na memória
de quem viveu a primeira metade do século passado e que ainda tinha, ou tem,
muito para contar.
Embora seja impossível, num espaço tão breve, oferecer um panorama exaustivo
desses trabalhos, talvez seja importante trazer ao leitor ao menos alguns
dentre aqueles mais significativos. Se pudéssemos definir um marco desse novo
rumo que começavam a ter os estudos sobre Durkheim, talvez o mais indicado
fosse apontar a grande biografia pessoal e intelectual escrita por Steven
Lukes, Émile Durkheim - his life and work: a historical and critical studies,
publicada pela primeira vez em 1973, como desdobramento de sua tese de
doutorado7. Pouco depois, na França, Victor Karady edita os três volumes da
coletânea Textes8, que tornaram mais acessível à comunidade internacional uma
quantidade enorme de textos de Durkheim - artigos, cartas, manuscritos -, que
eram ainda inéditos ou que haviam sido publicados em periódicos ou congêneres.
Ainda na França, deve-se destacar os três volumes da Revue Française de
Sociologie organizados por Philippe Besnard9, que foram dedicados a propor
novas interpretações sobre o autor e sobre a escola durkheimiana, e que dão
testemunho do florescimento do durkheimianismo na França em torno da figura de
Besnard, que fundou o Groupe d'Études Durkheimiennes, junto à Maison des
Sciences de L'Homme.
Voltando à Inglaterra, há que se destacar os trabalhos realizados por William
Pickering10, que, além de fundar em 1991 o British Centre for Durkheimian
Studies, contribuiu de forma definitiva para consolidar os estudos sobre
Durkheim naquele país e internacionalmente, dedicando-se a um trabalho de
investigação com o intuito de descobrir o universo de autores e ideias que
circundavam o mundo de Durkheim, chamando a atenção para importantes diálogos
travados pelo autor com grandes personalidades da época.
Nos Estados Unidos, os estudos sobre Durkheim têm assumido grandes proporções,
mobilizando autores das mais diferentes tradições teóricas. Mas talvez seja
possível dizer que, além da atuação de Robert Alun Jones, é Jeffrey Alexander a
figura que mais tem contribuído para trazer à cena o velho sociólogo francês
outrora apresentado pela pena de Parsons, e por esse motivo mesmo condenado ao
esquecimento. O que há de realmente instigante nos trabalhos de Alexander é
menos o esforço histórico ou exegético de reconstruir a posição original de
Durkheim sobre um assunto ou outro, coisa que não se propõe a fazer, e mais a
apropriação absolutamente criativa e original desse autor no interior do debate
sobre os estudos culturalistas11.
Já no que se refere aos documentos descobertos ou publicados mais recentemente,
podemos destacar alguns que exerceram particular impacto. Primeiramente,
podemos apontar a descoberta de Jacqueline Gautherin de um texto que consiste
na transcrição de uma conferência de Durkheim feita aos alunos da École Normale
d'Auteuil, que data provavelmente do ano letivo de 1908-1909 ou 1909-191012.
Depois disso, merece atenção a edição das cartas de Durkheim a seu sobrinho,
Marcel Mauss, realizada por Philippe Besnard e Marcel Fournier13, que
possibilitaram um olhar diferente sobre o autor. Afinal, como afirma Jean-Louis
Fabiani14 ao referir-se a esses documentos, "as correspondências privadas
permitem conhecer de forma nítida alguns juízos bastante vivos que ainda não
haviam sido retraduzidos em função de constrangimentos institucionais".
Outro documento de grande relevância descoberto recentemente é o registro das
aulas que Durkheim ministrou na época em que era professor de filosofia no
Liceu de Sens, apresentadas em um manuscrito com anotações feitas por André
Lalande no ano de 188415. Trata-se de uma descoberta bastante importante, pois
permite ter acesso ao pensamento de Durkheim ainda nos primórdios de sua
trajetória intelectual, revelando, por exemplo, com quais autores e temas o
autor tinha particular familiaridade. Antes da descoberta das cartas de
Durkheim a Reinach, sobre as quais falaremos em maior detalhe na próxima seção,
possivelmente o último achado importante foram os registros da participação de
Durkheim como parecerista do Comité des Travaux Historiques e Scientifiques
(cths), editados e apresentados por Stéphane Baciocchi e Jennifer Mergy16.
Enfim, todos esses novos empreendimentos teóricos e descobertas exerceram um
impacto decisivo sobre o aprofundamento da compreensão do pensamento de
Durkheim, contribuindo para o desabrochar de um interesse renovado por sua
obra.
É realmente possível falar de um Durkheim novo, diferente daquele que se
conhecia há cerca de trinta ou mesmo vinte anos? Seria esse "novo" Durkheim
mais real do que aquele que fez escola, formando gerações de pesquisadores?
Essas são, sem dúvida, questões muito difíceis de responder. Contudo, de uma
coisa podemos ter certeza: essas novas descobertas, a despeito das
interpretações às quais elas possam servir, contribuem enormemente para que se
conheça melhor quem foi essa figura, quem foram seus interlocutores e quais as
questões que ocupavam seus pensamentos - ou ao menos algumas delas. E conhecer
mais é, quase sempre, o primeiro passo para se conhecer melhor, e essa é a
principal razão pela qual trazemos ao leitor brasileiro a tradução das cartas
de Durkheim endereçadas a Salomon Reinach.
***
A descoberta desse material remete à pesquisa de um dos autores do presente
texto, o historiador Rafael Faraco Benthien. Em seu doutorado17, centrado nas
relações entre helenistas, latinistas e sociólogos durante o período de
institucionalização das ciências sociais na França, ele frequentou arquivos até
então pouco explorados. Assim, em novembro de 2008, enquanto analisava os
dossiês de correspondência do Musée d'Archéologie Nationale, Benthien se
deparou pela primeira vez com uma das cartas, aquela datada de 14 de março de
1902. Pouco mais de um ano depois, graças à sugestão da arqueóloga Anaïs
Boucher e à hospitalidade do sociólogo Guénolé Labey-Guimard, o restante da
documentação foi encontrado na Bibliothèque Méjanes, de Aix-en-Provence, onde
está localizada parte dos arquivos de Salomon Reinach. Note-se ainda que as
cartas remetem ao intervalo entre 1898 e 1913, período que cobre a publicação
da primeira série do Année Sociologique, não tendo sido nenhum trecho alterado
ou suprimido.
Antes de discutirmos o conteúdo e as novidades que as cartas encerram, cumpre
aqui apresentar aos leitores brasileiros Salomon Reinach (1858-1932), um dos
mais ilustres intelectuais da Terceira República francesa. Nascido em Saint-
Germain-en-Laye, nos arredores de Paris, ele teve por pai um banqueiro judeu
bem integrado às elites letradas do Segundo Império. Foi nesse ambiente
econômica e culturalmente privilegiado que ele e seus irmãos, Joseph (1856-
1921) e Théodore (1860-1928), foram criados. Após ter realizado com grande
sucesso seus estudos secundários, acumulando uma série de prêmios nacionais
direcionados aos alunos dos liceus, Salomon ingressou em 1876 na mais
prestigiosa instituição francesa ligada ao estudo das letras e da filosofia, a
École Normale Supérieure, a mesma que Durkheim frequentaria logo depois. No
triênio que aí passou, ele se destacou pela qualidade e pela diversidade de
seus investimentos intelectuais. Não bastasse a obtenção do primeiro lugar no
concurso de agrégation de grammaireem 1879, algo que viabilizava a carreira
ligada à docência e à pesquisa universitárias, Salomon ainda traduziu o Ensaio
sobre o livre-arbítriode Schopenhauer18 e escreveu um manual de filologia19.
Tamanha desenvoltura não passou despercebida. Na sequência, ele obteve do
governo uma bolsa de três anos para tornar-se membro de um dos institutos de
pesquisa avançada que a França mantinha no exterior, a École Française
d'Athènes. Lá, em meio a um ambiente cosmopolita no qual conviviam e competiam
pesquisadores vindos de outros países, em especial alemães e ingleses, Salomon
recebeu a melhor formação disponível à época em arqueologia e epigrafia.
Seguiu-se a Atenas um novo período de escavações, este no norte da África, até
que, em 1886, ele foi nomeado attaché libredo Musée des Antiquités Nationales,
tornando-se mais tarde seu diretor (1902). Note-se ainda sua inserção precoce
em instituições prestigiadas como a Association pour l'Encouragement des Études
Grecques en France, da qual ele se tornou sócio em 1878, e a Académie des
Inscriptions et Belles-Lettres, para a qual foi eleito membro efetivo em 1896.
Tratava-se de um prodígio e, mais, de um polígrafo.
Com efeito, a formação de helenista e os vínculos com instituições dedicadas à
arqueologia não devem obscurecer o fato de Salomon Reinach ter atuado
concomitantemente em várias vanguardas intelectuais. Sua imensa produção de
livros inclui, sem que a lista aqui elaborada seja exaustiva, uma história das
religiões, uma história da filosofia, uma história da arte ocidental, métodos
de aprendizado das línguas grega, latina e francesa, além de uma série de
trabalhos arqueológicos20. Tamanha versatilidade verifica-se também em seus
investimentos junto a periódicos acadêmicos. Ele se fez um colaborador regular,
para ficarmos com os exemplos mais significativos, da Revue des Études
Grecques, da Revue des Études Juifs, da Revue Celtique, de L'Anthropologiee da
Revue Archéologique, da qual se tornou codiretor em 1903. Foi em todas essas
frentes que Salomon atuou como interlocutor e divulgador da produção dos
sociólogos próximos a Durkheim21.
Para além do trabalho intelectual, cumpre também destacar que Salomon Reinach
esteve direta ou indiretamente envolvido com algumas das grandes questões da
vida pública francesa na virada do século XX. Joseph, seu irmão mais velho,
teve uma atuação destacada, primeiro como secretário de Léon Gambetta e,
depois, como principal defensor do capitão Dreyfus. Théodore, o caçula, embora
dedicasse uma parte de seu tempo à docência e à pesquisa, tendo sido diretor da
Revue des Études Grecques(1888-1906) e professor de numismática no Collège de
France (1924-1928), também atuou como deputado associado à esquerda dita
"radical". Salomon, por seu turno, engajou-se publicamente no Caso Dreyfus, foi
um defensor ativo das reformas universitárias e, por fim, esteve ligado ao
financiamento de atividades socialistas. Igualmente nesses casos, manteve
relações com os pesquisadores próximos a L'Année Sociologique22.
A historiografia das ciências sociais, embora tenha percebido com o tempo
certas afinidades eletivas que ligavam os durkheimianos a Salomon Reinach,
falhou ao ignorar a complexidade do personagem. Na primeira grande biografia
dedicada a Durkheim, a de Steven Lukes23, não há sequer uma alusão a ele. Já
Ivan Strenski24 e Marcel Fournier25, mais recentemente, apresentam-no apenas
como um "concorrente" dos durkheimianos no que diz respeito às correntes
modernistas de estudos religiosos.
Além da lacuna informativa, a qual só pode ser sanada por um trabalho contínuo
em arquivos, esse ponto cego na historiografia tem raízes no próprio modo como
se organizam hoje as fronteiras disciplinares e na naturalização desse quadro
pelos pesquisadores. Afinal, o que a formação de um sociólogo tem hoje em comum
com a de um helenista/arqueólogo? Em termos de conteúdo, muito pouco, talvez
nada. Em fins do século XIX, no entanto, as ciências sociais surgiram em um
momento de supremacia institucional dos clássicos greco-latinos. Eles ocupavam
um lugar central não só na formação da esmagadora maioria dos estudantes das
faculdades de letras, como também forneciam um espaço nada desprezível de
atuação profissional. O fato é que Durkheim e os demais membros de L'Année
Sociologiquedividiram os mesmos bancos de liceus e universidades com os
classicistas, concorrendo com eles em todas as etapas da vida profissional
(desde as provas escolares, passando por certificados de estudos superiores,
para enfim chegar às eleições de postos na universidade).
Que Salomon Reinach, cuja formação era a de helenista e arqueólogo, tivesse
interesse na produção dos sociólogos e aceitasse dialogar com eles, isso é
absolutamente compreensível dentro da lógica daquele sistema educacional. A
recíproca também é verdadeira. Eis aí a maior contribuição das cartas
reproduzidas na sequência. Elas nos mostram como Durkheim, no papel de chefe de
escola ou de amigo, intervém nas esferas dos helenistas e dos latinistas.
Assim, por exemplo, ele sonda Salomon Reinach acerca da candidatura de Marcel
Mauss ao Collège de France, agradece sua disposição em apresentar o Année
Sociologiquepara um prêmio dentro da Académie des Inscriptions et Belles
Lettres, discute estratégias para a efetivação de Henri Hubert junto ao Musée
des Antiquités Nationales e, por fim, pede conselhos acerca dos prêmios aos
quais o filósofo Georges Rodier, um amigo seu, desejava candidatar-se. Há
também uma longa carta na qual Durkheim apresenta seus pontos de vista quanto
ao tabu de sangue. O patrão da "escola sociológica francesa" aparece, em suma,
como alguém antenado à lógica dos espaços dominados por outros especialistas,
buscando atuar neles tanto institucionalmente, defendendo os seus, quanto
cientificamente, promovendo aí pontos de vista sociológicos.
Para além dessas novidades, as cartas apresentam testemunhos diretos de fatos
já conhecidos. Elas nos mostram os pontos de encontro dos engajamentos de
Durkheim e de Reinach por ocasião do Caso Dreyfus, ilustrando como as ideias
circulavam e eram discutidas entre os partidários do capitão. Além disso,
permitem compreender melhor os pontos de acordo e divergência entre os dois
homens no que diz respeito ao estudo dos fenômenos mágico-religiosos.
Acreditamos que, na prática do cientista social, um documento como esse,
marginal diante da "grande teoria" encerrada nos textos clássicos, pode ter um
efeito libertador. Com efeito, na contramão daqueles que, em uma chave
puramente escolástica, criticam ou elogiam Durkheim ignorando as condições
sociais de sua produção intelectual, essas cartas mostram uma ciência em ação,
tanto em sua lógica institucional quanto em sua lógica propriamente epistêmica.
Pode-se ignorar que essas duas lógicas se tocam? Eis aí, portanto, um Durkheim
mais verdadeiro, porque mais marcado por vicissitudes humanas.
***
Pensando em armar o leitor quanto às discussões subentendidas nos documentos
reproduzidos a seguir, trataremos agora de temas mais pontuais. O primeiro diz
respeito ao totemismo. Ao menos em quatro cartas (25 de abril de 1899, 14 de
março de 1902, 22 de dezembro de 1902 e 16 de outubro de 1912), tal fenômeno
esteve direta ou indiretamente em pauta, o que requer ponderações.
Tematizado pela primeira vez por Mac Lennan em 1869, o totemismo se tornou, na
década de 1880, uma das pedras angulares da ciência das religiões, em especial
a partir dos trabalhos de Robertson Smith e James Frazer26. Em etnografias ou
estudos comparativos de maior fôlego, esses e outros autores anglo-saxões
haviam constatado a existência de um pacto quase universal - posto que
observável naquele momento nas Américas, na África e na Oceania - entre homens
organizados em clãs e espécies de animais, de vegetais e de objetos
inorgânicos, então convencionalmente chamados totens. Dois princípios
combinados estruturavam tal relação. Em primeiro lugar, estava a percepção, de
fundo religioso, de uma ancestralidade partilhada. Os membros de um clã
acreditavam descender de um mesmo totem, o que os tornava parentes entre si.
Isso explicaria, a reboque, a exogamia (membros de um mesmo grupo não se casam
mutuamente). Além do mais, a relação com o totem suporia uma série de
interdições rituais: os seres/objetos que encarnam o princípio totêmico só
poderiam ser tocados ou mortos excepcionalmente.
Mas se a "escola antropológica", como era conhecido esse movimento encabeçado
por Frazer e Smith, via no totemismo um fenômeno social, posto que ele tinha
por finalidade dar feição às relações entre os homens e seus clãs, sua origem
foi identificada alhures. Com efeito, tais autores a buscaram na
universalização da subjetividade humana. Supunha-se então que, a partir da
experiência do sonho, os homens primitivos projetavam para o mundo exterior a
lógica que presidia o funcionamento de sua alma, de sua psique. O universo
surgia então como um espaço povoado por espíritos. Falava-se, para nomear tal
teoria, de animismo. Devido à universalidade com que o totemismo parecia
imperar entre os "selvagens", ele passou a ser visto como a religião primitiva
por excelência, anterior à domesticação de animais e à agricultura. Tal
religião se caracterizaria por ser o primeiro sistema, ainda bastante
simplista, de explicação do mundo a partir do enlaçamento de uma série de
relações de causa e efeito. De quebra, posto que a subjetividade humana deve
por princípio ser única e sempre a mesma, o totemismo serviria como medida para
isolar e medir os graus da evolução humana.
Nos últimos anos do século XIX, justo quando Reinach e Durkheim iniciaram a
correspondência aqui apresentada, houve um intenso movimento de revisão dessa
teoria. Seu principal combustível veio com a publicação da etnografia das
tribos da Austrália Central por Spencer e Gillen27. Explorando os inóspitos
territórios do deserto australiano, ainda pouco marcados pelo contato com
europeus, esses autores forneceram a primeira descrição minuciosa dos ritos e
dos mitos aborígines, com ênfase para a tribo Arunta. Contrariando o que havia
sido observado antes, eles julgaram encontrar aí um totemismo que ignorava a
divisão tribal em clãs. Ou seja, os grupos totêmicos entre os Arunta eram
endogâmicos. Os totens, por sua vez, seriam emblemas ou da tribo inteira, ou de
certas associações religiosas que funcionariam de modo independente dos grupos
domésticos. Além do mais, as interdições relativas ao toque e à morte do totem
eram aí muito mais flexíveis do que antes se imaginava. Diante dessas
constatações, o que restava da universalidade antes conferida ao totemismo?
O primeiro a reagir foi o próprio Frazer. Em um ensaio publicado no calor dos
acontecimentos, "Observations on Central Australia totemism"28, ele sacrificou
tudo o que se relacionava aos fins sociais do totemismo, mantendo intacta sua
origem psicológica. Reconhecendo nos isolados Arunta um exemplo particularmente
primitivo e bem conservado do referido fenômeno, Frazer afirmou que a exogamia
entre os membros de um clã e os tabus de toda sorte ligados ao totem deveriam
ser excluídos da definição do totemismo. Restava assim o respeito supersticioso
associado a uma classe de materiais, à qual o selvagem acreditava estar ligado.
O motor do totemismo continuava sendo a projeção da consciência do nativo para
o exterior. Reduzido a isso, contudo, ele se tornava um desdobramento do que
Frazer entendia ser a magia simpática, essa operação mental capaz de inferir
uma relação onde, a princípio, ela não existe.
Outro encaminhamento à questão foi dado por Émile Durkheim. Já no primeiro
volume de L'Année Sociologique, antes mesmo da publicação do livro de Spencer e
Gillen, ele havia tratado das trocas matrimoniais entre clãs características do
totemismo, pautadas pela regra da exogamia, como duplamente sociais, em suas
finalidades, mas também em suas origens29. O tabu do incesto, que Durkheim
associou então ao tabu do sangue, estaria estribado em crenças sistematizadas a
partir da organização das sociedades. Como o totem era, nos casos analisados, a
medida do grau de consanguinidade simbólica que ligava os indivíduos de um clã,
era ele que orientava as trocas matrimoniais, separando o sagrado e o profano.
Por conseguinte, Durkheim não estava em condições de eleger o totemismo como
fruto do primeiro contato da psique humana com o mundo exterior. Trata-se
apenas de um tipo de religião, a mais simples conhecida, vinculada a sociedades
organizadas em clãs exogâmicos30. O mesmo raciocínio aparece em textos que
Durkheim publicou na sequência. Quatro anos mais tarde, ele atacou o
esvaziamento dos elementos sociais do totemismo por Frazer31. Discutindo em
minúcias o caso dos Arunta, viu em suas instituições vestígios do totemismo
clássico. Para Durkheim, ao contrário do que afirmava seu colega britânico, o
fato de essa tribo estar relativamente isolada dos europeus não era indício de
seu primitivismo. Afinal, não existiria apenas uma evolução possível, e os
Arunta apresentariam, pela complexidade de suas instituições quando
contrastadas às das tribos vizinhas, provas de que sua organização nem sempre
foi a que naquele instante se observava. Na impossibilidade de obter evidências
históricas, Durkheim propôs um modelo lógico, pautado na transformação de clãs
matrilineares exogâmicos em grupos totêmicos patrilineares predominantemente
endogâmicos. Em De quelques formes primitives de classification, redigido com
Mauss um ano depois, o mesmo raciocínio voltou a ser explicitado32. Partindo de
exemplos retirados de sociedades à base de clãs totêmicos, as mais simples
conhecidas na época, eles afirmaram que os conceitos com os quais entendemos e
ordenamos o mundo não teriam origem na subjetividade humana, como acreditaria
um kantiano, mas na própria organização da sociedade. Ou seja, a classificação
das coisas seguiria o mesmo padrão da classificação dos homens. O totemismo,
por conseguinte, não só derivaria de certa organização social, como também
daria a essa organização instrumentos - conceituais, rituais e mitológicos -
necessários à sua perpetuação.
E quanto à Reinach, onde situá-lo nesse debate? Ora, sem sacrificar a
finalidade social do totemismo, como Frazer, nem atrelar sua origem a um
princípio sociológico, como Durkheim, ele se esforçou por sustentar,
devidamente atualizada, a teoria clássica do totemismo. Desse modo, Reinach
entendia o totemismo, que ele associava a um estágio primitivo da evolução
humana, como um "sistema particular de tabus" que se impõe à coletividade, mas
que se constitui a partir das superstições do selvagem. Os tabus essenciais
derivariam aqui do culto religioso a um ser específico, o totem, junto ao qual
se projetava o princípio vital que o primitivo sentia em si mesmo. Isso
explicaria porque, em situações ordinárias, era interdito tocá-lo ou o matar33.
E quanto à exogamia? Reinach imputava a ela, e essa era uma das críticas
dirigidas a Durkheim, uma origem outra. Tratava-se, nesse caso, da projeção do
mesmo princípio vital ao sangue, o que imporia à sociedade a necessidade de
prevenir que tal substância fosse exposta ou desperdiçada34. Ocorre apenas que
esses tabus não eram incompatíveis. Uma vez que a crença que os sustenta, a das
"almas exteriores", correspondia a estágios similares da evolução das
sociedades, era natural que esses tabus viessem a se combinar.
Mas o interesse maior de Reinach no totemismo residia em seu potencial
comparatista. Tendo por fundamento a universalidade da psique humana, esse
fenômeno forneceria a chave para compreender o desenvolvimento de civilizações
cujas origens se perderam35. Nos textos em que desenvolveu o tema, foi-nos
possível isolar a proposição de duas variantes evolutivas complementares. Em
uma delas, graças ao advento da agricultura, o culto do totem seria
paulatinamente substituído pelo de uma divindade agrária. Nesse cenário, os
antigos totens, objetos tradicionais de adoração, teriam seus emblemas
associados e absorvidos pelo novo deus36. Uma segunda explicação remeteria ao
desenvolvimento da mitologia. Com a decadência dos totens, associada à
domesticação das espécies animais e vegetais cultuadas, seus antigos atributos
passariam a ser rateados entre divindades detentoras de personalidades37.
O diálogo dos durkheimianos com Reinach quanto ao totemismo passava, portanto,
por duas diferenças essenciais. Em termos epistemológicos, os sociólogos se
negavam a reconhecer como válida a explicação de fundo psicológico proposta por
Reinach. Nas cartas que se seguem, a relativização que Durkheim propõe do tabu
do sangue (carta de 25 de abril de 1899) e a observação sobre as diferenças
entre suas concepções de religião (carta de 16 de outubro de 1912) são mais bem
compreendidas à luz dessa discordância. Além disso, em termos metodológicos,
mudava-se o escopo comparativo. Para os pesquisadores próximos a Durkheim, o
totemismo não poderia ser encarado como um fenômeno geral, característico de
uma fase primitiva da evolução da mente humana. Antes, como já dito, ele
deveria ser considerado algo típico de sociedades orientadas por clãs
exogâmicos. Além do próprio Durkheim, Mauss e Hubert recusaram-se a considerar
como indícios ou sobrevivências do totemismo os cultos de animais ou plantas
nos contextos semítico, indo-europeu e egípcio38. Os princípios que aí regiam a
organização das relações matrimoniais e a divisão de trabalho religioso não
eram similares ao que se via na Austrália e na América do Norte. Respostas
tinham de ser buscadas em outro lugar39. Isso não impediu, contudo, trocas
positivas entre Reinach e os durkheimianos quanto às consequências sociais do
totemismo (cf. a carta de 14 de março de 1902, relativa às classes
matrimoniais).
Tais críticas não deixaram de suscitar reações por parte de Reinach. Em uma
conferência pronunciada em Cambridge, Reinach identificou na "escola francesa"
chefiada por Durkheim a última fase da evolução das ciências da religião40. Ao
fazê-lo, ele elogiou a disposição dos sociólogos em revisar os pressupostos das
teorias de Frazer e Smith. Ainda assim, a seus olhos, o exercício de
desconstrução não parecia acompanhado de um esforço de síntese. Sobravam
críticas, mas faltavam dogmas e explicações dos fenômenos. Nesse sentido, sua
teoria apresentava duas vantagens significativas: simplicidade e generalidade.
Na falta de uma teoria alternativa, Reinach entendia por bem que se deveria
generalizar o fenômeno do totemismo, supondo-o universal. Ele estava ciente,
porém, de que se tratava de uma hipótese que mereceria constantes revisões. O
importante, a seus olhos, era que ela parecia funcionar onde quer que fosse
aplicada41.
***
O segundo tema que se faz presente na correspondência entre os autores, e cuja
compreensão demanda um maior esclarecimento, diz respeito a uma questão de
natureza mais política do que propriamente teórica, que se fez muito presente
na vida dos dois autores, e que revela uma faceta de Durkheim pouco conhecida
do grande público. Trata-se do que se costumou chamar de Caso Dreyfus, que é o
assunto principal das cartas de 15 de junho de 1898 e de 8 de fevereiro de
1899. Para entendermos o significado dessa discussão, e para que se compreenda
o impacto desse caso na obra durkheimiana, é preciso, primeiramente, tecer
algumas considerações que permitam caracterizar esse episódio da história
francesa e o lugar que ele ocupou no cenário político e intelectual da Terceira
República.
O fato principal que constitui o "pano de fundo" é, no plano macro, a formação
da Tríplice Aliança, que congregava a Alemanha, a Itália e o Império Austro-
Húngaro numa coalizão hostil à França. É preciso lembrar que a Terceira
República se constituíra havia pouco, e sua instituição se deu justamente após
a derrota da França pela Alemanha (janeiro de 1871) e o episódio da Comuna de
Paris (maio de 1871). O exército francês então chamou para si a
responsabilidade de restaurar a paz, combatendo os insurgentes e proclamando
uma nova república42. Assim, temos um cenário no qual os vizinhos alemães eram
tidos como o grande inimigo, e o exército não era apenas aquele que deveria
proteger as fronteiras do país, mas era, ao mesmo tempo, o guardião dos valores
republicanos.
Pode-se imaginar, portanto, os sentimentos de revolta despertados pela
descoberta de uma traição cometida por um membro do alto escalão do exército, a
quem o povo, de certo modo, confiava os destinos de seu país. Pois foi
exatamente isso o que aconteceu. Em 26 de setembro de 1884 o serviço de
inteligência do governo francês interceptou uma mensagem, não assinada, enviada
ao oficial alemão Maximilian von Schwartzkopfen, revelando importantes segredos
de estado. Diante da impossibilidade de se determinar com precisão a autoria do
documento, que ficou conhecido como "le bordereu", foi feita uma triagem de
possíveis suspeitos que poderiam se enquadrar no perfil, e, em seguida, foi
feito um teste grafológico. Embora os testes não tenham sido definitivos,
apontando como suspeitos mais de um indivíduo, a condenação recaiu sobre o
então capitão Alfred Dreyfus, membro do Estado-Maior e, motivo central de sua
má sorte, judeu. A literatura especializada nesse tema concorda em afirmar que
esse fato, o de Dreyfus ser judeu e oriundo daquela região da França que foi
anexada pela Alemanha, a Alsácia, teria sido o motivo principal de sua acusação
e condenação. Dreyfus afirmou sua inocência em todos os momentos, mas isso
nunca foi levado em consideração.
Essa acusação de traição logo adquiriu vastas proporções e indignou a opinião
pública, engendrando uma campanha por parte da imprensa e de diversos setores
da sociedade. Ainda naquele mesmo ano, no dia 3 de novembro, decide-se pela
instauração de uma corte marcial, que ocorre logo no mês seguinte, entre 19 e
22 de novembro. Durante o julgamento, surge um documento chamado de Dossiê
Secreto, que supostamente comprovaria reiteradas traições de Dreyfus e ao qual
nem sequer seu advogado teve acesso. Como resultado, o capitão judeu é julgado
culpado e condenado ao degredo na Ilha do Diabo, na Guiana Francesa, onde viveu
em situação de absoluto isolamento a partir de 1895. Até esse momento, ninguém,
além dos militares envolvidos no julgamento, tinha qualquer consciência das
arbitrariedades cometidas, e esse teria permanecido apenas mais um caso de
traição devidamente punido se não fossem algumas reviravoltas que aconteceram
em 1896 e que culminaram no ano de 1898, dando sequência aos fatos que
posteriormente levaram à revisão do processo.
O ponto de partida dessa reviravolta foi a descoberta feita por um novo membro
do Estado-Maior, Georges Picquart. Ao consultar o dossiê do Caso Dreyfus, ele
percebeu que a letra dobordereu pertencia a outro alto oficial do exército,
Ferdinand Walsin-Esterhazy. Após uma primeira tentativa de pedir a reabertura
do caso, Picquart foi afastado e, mais adiante, condenado em corte marcial. A
essa altura a esposa de Dreyfus, Lucie, solicitou que o dossiê secreto fosse
divulgado e, em contrapartida, novos documentos falsos foram produzidos para
provar definitivamente a culpabilidade do réu. Esses documentos foram chamados
de "faux Henry", por terem sido produzidos sob as ordens do comandante Henry.
Foi nesse momento em que surgiam novas evidências e contestações de todo lado
que o Caso Dreyfus atinge seu auge, dividindo a sociedade francesa entre
aqueles que apoiavam a causa da revisão do processo e aqueles que, preocupados
em preservar o exército e, por extensão, a nação, simplesmente não tinham
interesse em que se reconhecesse qualquer erro. Nesse ínterim novas evidências
apontaram Esterhazy como sendo o verdadeiro traidor, mas este foi rapidamente
julgado e absolvido. Só tempos mais tarde sua culpabilidade foi provada. Mas,
naquele momento, entre 1897 e 1899, a imprensa tomava posições nítidas como
dreyfusardou anti-dreyfusard. O mesmo em relação aos intelectuais de diferentes
áreas e instituições, e talvez o mais famoso dentre eles tenha sido Émile Zola,
com o artigo Lettre au Président de la République, que ficou mais conhecido
como J'accuse. Outra figura importante nesse momento foi o irmão de Salomon
Reinach, Joseph Reinach, que atuava como político e redigiu uma série de
artigos em defesa da revisão do processo.
É nesse contexto que devemos compreender o sentido das duas cartas de Durkheim
que apresentamos em anexo a este artigo. Naquela do dia 18 de junho, quando a
situação era mais tensa no cenário nacional, Durkheim compartilha com Reinach
as últimas informações que recebera dos bastidores envolvendo a questão. Vemos
o interesse desses homens e de várias outras figuras empenhadas em desmentir os
falsos documentos e as manobras de certos escalões do governo para manter as
coisas como estavam. E isso é algo de realmente importante que nos é trazido
com essas cartas, o envolvimento real, cotidiano, direto, com os detalhes
daquela situação, um interesse bastante concreto e militante, e não apenas um
envolvimento distante. Naquele momento, declarar-se dreyfusard ou anti-
dreyfusard aparecia como uma questão verdadeiramente moral, que condensava toda
uma visão de mundo, todo um conjunto de ideais que eram subentendidos na defesa
ou na recusa de uma revisão do processo. Em relação a isso é particularmente
sintomática a afirmação que Durkheim faz em relação à posição do célebre
historiador Camille Jullian. Ele diz a Reinach que não é necessário convencê-lo
da inocência de Dreyfus, pois, segundo Durkheim, ele estaria certo de que essa
era a sua convicção. O que era motivo de preocupação, no entanto, era o fato de
ele não ter conseguido "fazê-lo compreender que era seu dever afirmar seu
sentimento".
Essa ideia de ser um "dever" assumir a posição de dreyfusard denota muito bem a
extensão assumida pelo affaire. Na verdade, o que lemos nas cartas pode ser
entendido como algo revelador de sua adesão militante como defensor de Dreyfus,
que teve como ponto alto a publicação de um importante artigo que recebeu o
nome deL'individualisme et les intellectuels43.
Nesse seu artigo-manifesto, o autor apresenta seu posicionamento em relação à
questão, tomando como ponto de partida um artigo publicado por Ferdinand
Brunetière naquele mesmo ano, que redimensionou o sentido geral da disputa.
Segundo Durkheim, com o artigo publicado por Brunetière44, a questão em torno
da inocência ou não do capitão Dreyfus deixara de ser uma questão da veracidade
dos fatos. Passara a ser uma questão em torno de princípios, portanto, ele
decide aceitar esse debate sobre os princípios, "deixando de lado o affaire em
si mesmo e os tristes espetáculos dos quais fomos testemunhas" 45. É assim que
o texto sobre sua posição em favor da revisão do processo do capitão Dreyfus e
de sua libertação dá ensejo a uma discussão sobre os princípios que constituem
o "individualismo"46.
É por isso, por esse tipo de debate e de posicionamento incitado na sociedade
francesa, que esse Caso dquiriu tanta relevância. Quanto ao destino do capitão
Dreyfus, foi apenas em 1906 que conseguiu que sua inocência fosse reconhecida
em julgamento, sendo-lhe concedida a reabilitação como membro do exército
francês.
As mudanças ocorridas no seio da vida social, intelectual e política que
fizeram com que a história de Dreyfus tivesse esse desfecho são de diferentes
ordens. E se talvez seja impossível dizer ao certo quais foram todas as razões
que concorreram para isso, ao menos é plausível afirmar que a mobilização
ocorrida no seio da sociedade francesa teve um impacto importante. É exatamente
esse movimento que podemos ver nas cartas que agora trazemos ao público
brasileiro, e que permitem compreender de um modo um pouco diferente a vida, as
ideias e as ações dessas figuras que, com frequência, aprendemos a ver como
intelectuais distantes do mundo, preocupados apenas em fazer a sua ciência no
silêncio de seu gabinete.
* * *
A transcrição original e a edição crítica das cartas foram realizadas por
Rafael Faraco Benthien. Nesse processo, indicou-se uma palavra esquecida por
Durkheim por [palavra] e uma data reconstituída por [data]. Raquel Weiss
responsabilizou-se pela tradução das cartas para o português.
Grande parte das referências bibliográficas fornecidas em nota provém dos
trabalhos de Christophe Charle, em especialLes professeurs de la Faculté de
Lettres de Paris (2 vols.) e Les professeurs du Collège de France (com E.
Telkès).
RAQUEL ANDRADE WEISS é doutora em Filosofia pela USP e professora adjunta do
Departamento de Sociologia da UFRGS.
RAFAEL FARACO BENTHIEN é doutor em História Social pela USP e pós-doutorando
vinculado ao Departamento de Sociologia da mesma instituição (bolsista Fapesp).
[1] Miller, William Watts. "Investigando o projeto de Durkheim para a
constituição de uma Ciência Social". In: Massella, A. e outros. Durkheim: 150
anos. São Paulo: Argvmentvn, 2009, pp. 39-68.
[2] Paoletti, Giovanni. "Les études sur Durkheim en France". L'Année
Sociologique, 49, 1999, pp. 29-31.
[3] Idem, p. 31.
[4] Cf. Heilbron, Johan. "Les métamorphoses du durkheimisme, 1920-1940". Revue
Française de Sociologie, 36, nº 2.
[5] Lukes, S. Émile Durkheim: an intellectual biography. Oxford: tese de
doutorado, Oxford University, 1968.
[6] Kennedy, C. "Personal recollections of Durkheim, Mauss, the family and
others". Durkheimian Studies, vol. 16, 2010, p. 51.
[7] Lukes, op. cit.
[8] Karady, V. (ed.). Émile Durkheim: textes. Paris: Minuit, 1975. (3 vols. )
[9] Giovanni Paoletti afirma que o "marco" do ressurgimento dos estudos
durkheimianos na França foi a publicação da edição especial da Revue Française
de Sociologie de 1976, que teve como título "A propos de Durkheim" (cf.
Paoletti , op. cit., p. 31). A posição de Besnard foi firmada nos seguintes
textos de apresentação: "Avertissement". Revue Française de Sociologie, 17(2),
1976, p. 155; "Présentation". Revue Française de Sociologie,
20(1), 1979, pp. 3-6.
[10] Os trabalhos mais significativos desse autor, que contemplam livros
individuais e organização de coletâneas editadas com outros autores, são os
seguintes: Debating Durkheim. Londres: Routledge, 1994;
Durkheim: essays on morals and education. Londres: Routledge, 1979; Durkheim's Sociology of Religion. Londres: Routledge, 1984; Durkheim today. Nova York: Berghahn Books, 2002;
Suffering and evil. Oxford: Berghahn Books, 2008.
[11] Referimo-nos aos seguintes livros de Alexander: Durkheimian sociology.
Cambridge: Cambridge University Press, 1988; Structure and
meaning. Nova York: Columbia University Press, 1989. Ainda no
que se refere à contribuição de Alexander, cumpre destacar o volume organizado
com P. Smith, The Cambridge companion to Durkheim. Cambridge: Cambridge
University Press, 2008.
[12] Para maiores detalhes sobre o contexto da descoberta e sobre seu
significado, veja-se Gautherin, J. "Durkheim à Auteuil". Revue Française de
Sociologie, 33(4), 1992, pp. 625-639, e Weiss, R.
"Apresentação: O ensino da moral na escola primária". Novos Estudos Cebrap, nº
78, jul. 2007, pp. 59-61.
[13] Durkheim, É. Lettres à Marcel Mauss. Paris: PUF, 1998.
[14] Fabiani, J.-L. "Clore enfin l'ére des généralités". In: Durkheim, É.
L'évaluation en comité. Editado por Baciocchi, S. e Mergy, J. Nova York:
Berghahn Books, 2003, p. 151.
[15] Durkheim, É. Cours de philosophie fait au Lycée de Sens en 1883-1884.
Documento Numérico (versão html) realizado por Robert A. Jones, 2004.
[16] Durkheim, L'évaluation en comité, op. cit.
[17] Benthien, R. F. Interdisciplinaridades: latinistas, helenistas e
sociólogos em revistas. São Paulo: tese de doutorado, Universidade de São
Paulo, 2011.
[18] Schopenhauer, A. Essai sur le libre arbitre. Trad. Salomon Reinach. Paris:
Germer Baillière, 1877.
[19] Reinach, S. Manuel de Philologie Classique. T. I. Paris: Hachette,1880.
[20] Cf., respectivamente, os seguintes trabalhos de Reinach: Orpheus. Paris:
Picard, 1909a; Lettres à Zoé sur l'histoire des philosophes. Paris: Hachette,
1926; Apollo. Paris: Hachette, 1904; Eulalie. Paris: Hachette, 1911; Cornélie.
Paris: Hachette, 1912; Sidonie. Paris: Hachette, 1913; Esquisses
archéologiques. Paris: Leroux, 1888; L'histoire du travail en Gaule. Paris:
Leroux, 1890.
[21] Para além dos textos mencionados nas cartas, veja-se: Revue Archéologique,
jan.-jun. 1909, pp. 191-2; jan.-jun. 1910, pp. 206-7 e 452; jul.-dez. 1912, p.
182; jan.-jun. 1913, pp. 264-5 e 448; jul.-dez. 1913, p. 153.
Reinach publicou também aí três necrológios de sociólogos: jan.-jun. 1915, p.
333 (Robert Hertz); jan.-jun. 1917, p. 458 (Durkheim); jul.-dez 1927, pp. 176-
8 (Hubert).
[22] Hubert discute também com Reinach questões relativas ao Caso Dreyfus nas
cartas conservadas na Bibliothèque Méjanes (veja-se, entre outras, a de 25 de
janeiro de 1899, na caixa nº 84). Mauss, por seu turno, escreve a Reinach para
tratar do financiamento de atividades ligadas aos socialistas (caixa nº 105).
[23] Lukes, S. Émile Durkheim; his life and work, a historical and critical
study. Nova York: Harper & Row, 1972.
[24] Strenski, I. Durkheim and the jews of France. Chicago: University of
Chicago Press, 1997.
[25] Fournier, M. Émile Durkheim: 1858-1917. Paris: Fayard, 2007.
[26] Cf. Frazer, J. Totemism. Edimburgo: A. & C. Black, 1887, e Smith, R.
Lectures on the religion of semites. Edimburgo: A. Black, 1889. Uma história
recente do debate clássico sobre o totemismo pode ser encontrada em Rosa, F.
L'âge d'or du totémisme. Paris: CNRS, 2003.
[27] Spencer, W. e Gillen, F. J. The native tribes of Central Australia.
Londres: McMillan, 1899.
[28] Frazer, J. "Observations on Central Australia totemism", Journal of the
Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland, nova série, vol.
1, nºs 3 e 4, 1899, pp. 281-7.
[29] Durkheim, É. "La prohibition de l'inceste et ses origines". L'Année
Sociologique, I, 1898, pp. 1-70.
[30] É verdade que ele julgava plausível que o clã exogâmico fosse a primeira
forma de organização familiar. Tratava-se, porém, de uma hipótese "por demais
dialética", a qual reclamava contínuos testes. Cf. ibidem, pp. 9-11.
[31] Durkheim É. "Sur Le totémisme", L'Année Sociologique, vol. 5, 1902, PP.
82-121.
[32] Durkheim, É. e Mauss, M. "De quelques formes primitives de
classification".L'Année Sociologique, vol. I, VI, 1903, p. 1-72.
[33] Cf. Reinach, S. Cultes, mythes et religions. Editado por H. Duchêne.
Paris: Robert Laffont, 2009, pp. 54-68 e 651-5.
[34] Ibidem, pp. 83-93.
[35] Ele deixa isso explícito ao resenhar um texto de Durkheim: "Ao fim e ao
cabo, os Arunta e outros Black fellows são pouco interessantes enquanto
selvagens; o que nos leva a eles, o que nos permite encontrar proveito em seu
estudo, é que eles nos oferecem a imagem do que puderam ser os ancestrais dos
Gregos, dos Celtas e dos Povos Germânicos, etc., em uma época não esclarecida
pela história" (ibidem, p. 81, tradução nossa, itálico no original).
[36] Essa é, por exemplo, a explicação proposta no caso de Orfeu, que Reinach
acreditava originário do culto totêmico da raposa praticado por algum clã
trácio (ibidem, pp. 527-54).
[37] Ibid., p. 54-68.
[38] Veja-se Mauss, M. "Sur le totemisme". L'Année Sociologique, vol. 8, 1905,
pp. 235-8. Quanto às reações de Hubert, remetemos a Benthien,
op. cit., pp. 268-82.
[39] O desenvolvimento por Georges Dumézil do modelo trifuncional para o
registro indo-europeu veio suprir essa lacuna entre os herdeiros dos
durkheimianos. Cf. Allen, N. J. Categories and classifications. Nova York:
Berghahn Books, 2000, pp. 39-60.
[40] Reinach, S. Cultes, mythes et religions, op. cit., pp. 13-32.
[41] Reinach se defende, por exemplo, em uma resenha do livro de Mauss e
Hubert, Mélanges d'histoire des religions. Em suas palavras: "Os srs. H[ubert]
e M[auss] bem querem convir que 'acrescentei muitos bons exemplos de mitos
sacrificiais' e fazem alusões a minhas memórias sobre Orfeu, Hipólita, Acteon e
Faeton. 'Mas', acrescentam eles, 'todo animal sacrificado não é um totem. Para
que exista um totem é preciso que exista um clã. Mas nós esperamos ainda que o
sr. R[einach] nos demonstre a existência de clãs aos quais teriam pertencido os
referidos totens'. Esses senhores esperarão por um longo tempo. Mas esperarei
talvez ainda mais que eles deem dos mitos em questão uma explicação diferente
da minha e que seja coerente" (Reinach, S. "H. Hubert et M. Mauss. Mélanges
d'histoire des Religions". Revue Archéologique, quarta série, vol. 13, jan.-
jun. 1909, pp. 191-2).
[42] Note-se que a proclamação da Terceira República por militares foi, de
início, uma solução de compromisso. Foi apenas no final da década de 1870,
diante dos impasses dos monarquistas, que os republicanos tornaram-se maioria
no legislativo (Cf. Boujou, P.-M. e Dubois, H. La Troisième Republique. Paris:
puf, 1967).
[43] Durkheim, É. "L'individualisme et les intellectuels". Revue Bleue, vol.
10, ano 35, 1898, pp. 7-13.
[44] Brunetière, F. "Après le procès". Revue des Deux Mondes, 15, mar. 1898.
[45] Durkheim, "L'individualisme...", op. cit., p. 4.
[46] Para uma análise mais detalhada do sentido geral da ideia de
individualismo no contexto geral da teoria moral de Durkheim, veja-se: Weiss,
R. Émile Durkheim e a fundamentação social da moralidade. São Paulo: tese de
doutorado, Universidade de São Paulo, 2011.