Teoria Crítica e pesquisa social: da dialética à reconstrução
A última década viu surgir inúmeros debates sobre a atualidade da Teoria
Crítica e o papel atual dessa tradição teórica. Uma das questões mais
importantes refere-se às fundações normativas da crítica - mas também ao lugar
que a ética comunicativa, ou o conceito de reconhecimento, deve ocupar nessa
atualização. Para outros autores, menos preocupados com questões normativas e
mais interessados na "primeira geração" da Teoria Crítica, o papel do
pensamento não identitário de Adorno também ganhou grande relevância. Nesses
debates valiosos, no entanto, uma questão tem sido de certa forma
negligenciada: o lugar da pesquisa social no desenvolvimento efetivo da Teoria
Crítica. Comparada à importância dada à pesquisa social no primeiro projeto da
Teoria Crítica, formulado por Max Horkheimer na década de 1930, e à
centralidade da pesquisa social em todo o desenvolvimento desse grupo de
pensadores, a situação é bastante surpreendente. Com efeito, para muitos dos
tributários da Teoria Crítica contemporânea, é como se a questão da pesquisa
social não fosse prioritária em face da primazia conferida às questões
normativas. O fato de a Teoria Crítica progredir hoje principalmente no campo
da filosofia social e política - e não no da economia, da sociologia ou da
psicanálise, como no passado - é um importante sinal e desempenha um papel
considerável nessa tendência. Para a maioria dos pensadores críticos
contemporâneos, como Axel Honneth, que ainda a considera uma tarefa importante
para a Teoria Crítica, o lugar dado à pesquisa social em suas elaborações
filosóficas não é tão central quanto para seus predecessores no Instituto de
Pesquisa Social. Ainda que seja um defensor da ideia de uma cooperação
necessária entre pesquisa social e filosofia social, Axel Honneth também
salienta as dificuldades reais desse projeto1. De maneira geral, parece que os
desenvolvimentos teóricos recentes dessa tradição intelectual acontecem sem
grande consideração pela pesquisa social - nem pelos "testes" empíricos das
ideias teóricas, tampouco pelo estímulo a novos projetos de pesquisa empírica
no campo da Teoria Crítica. Essa evolução implica uma importante "mudança"
teórica em relação ao antigo programa dialético da Teoria Crítica proposto por
Horkheimer. Pretendo, neste artigo, ressaltar algumas dificuldades atinentes à
articulação produtiva entre teoria e pesquisa - com prejuízo, creio, para
ambas, filosofia e ciências sociais.
As dificuldades atuais para reunir filosofia social e pesquisa social têm
muitas razões - que são complexas e não podem ser tratadas aqui em detalhes -,
para além de questões teóricas "puras". Essas razões residem, por exemplo, na
forma específica como estão organizadas as universidades, no quadro restritivo
da pesquisa científica, que dificilmente admite a cooperação entre filósofos e
pesquisadores empíricos, etc. Sem deixar de lado esses fatores explicativos
importantes, neste artigo pretendo me concentrar nas questões teóricas
concernentes à relação entre pesquisa social e Teoria Crítica. (1) Mais
precisamente, pretendo primeiramente retomar o modelo dialético e materialista
de pesquisa social e teoria crítica desenvolvido por Max Horkheimer no início
da década de 1930, que molda o fundamento de toda a Teoria Crítica. Mostrarei
como Horkheimer veio a conceber a relação dialética entre ciência e filosofia,
almejando com isso ultrapassar, de maneira crítica, suas respectivas "crises".
(2) Em segundo lugar, pretendo ressaltar a "virada reconstrutiva" apresentada
por Jürgen Habermas quarenta anos depois como consequência da discussão crítica
que se seguiu ao seu importante livro Conhecimento e interesse(1968). Após ter
enfatizado os principais aspectos da reconstrução, tentarei mostrar como esta
diz respeito às ciências empíricas e que tipo de relação ela acarreta entre
teoria e pesquisa científica. (3) Como conclusão, gostaria de pôr em questão
tanto as consequências quanto os problemas da reconstrução na relação entre
Teoria Crítica e pesquisa social.
DIALÉTICA
No início da década de 1930, Max Horkheimer publicou vários textos - que
integram hoje em dia o núcleo conceitual da Teoria Crítica - sobre a história
da ciência, bem como sobre a história da filosofia burguesa - ambas teriam
ingressado numa profunda crise2. De acordo com Horkheimer, o projeto científico
do início da era burguesa possibilitou um novo tipo de conhecimento sobre o
mundo exterior3. Dirigido contra as estruturas tradicionais do pensamento
característico de uma sociedade tradicional e feudal, esse projeto produziu um
conhecimento racional sobre o mundo "objetivo" destituído de referências a
elementos religiosos ou mágicos. A ciência trouxe um tipo de relação entre os
sujeitos cognoscentes e o mundo baseada na observação sistemática e na
descrição racional. O pensamento científico significa, aqui, uma ruptura com
visões tradicionais do mundo porque este é concebido não como uma esfera
moldada por forças mágicas, mas como produto de um processo que pode ser
compreendido, explicado e reproduzido por sujeitos humanos. O sujeito
cognoscente torna-se consciente de si mesmo como um ser independente diante de
um mundo "objetivo", que pode ser racionalmente compreendido graças a métodos
sistemáticos de observação4. Desse modo, possibilitou-se um crescente
conhecimento sobre a natureza e o mundo objetivo, bem como sobre novas
possibilidades de controle e dominação da natureza. Essa contínua dissolução da
relação mágica que presidia o mundo encontrou suas mais diferentes expressões
durante o Iluminismo no século xviii atrelada à sua noção de razão.
Na medida em que as práticas científicas permitem o estabelecimento de uma
relação "simétrica" com o mundo exterior, elas contribuem para a emancipação.
Mas, como um meio de dominação do mundo exterior, a ciência tornou-se uma força
de produção que facilmente se integra aos interesses das relações capitalistas
de produção. Horkheimer insiste no fato de que a ciência nunca está livre de
interesses sociais e que o seu desenvolvimento deve ser sempre entendido em
contextos históricos e sociais específicos. A ciência é fundamentalmente social
e condicionada por mudanças sociais. Ao mesmo tempo, a ciência é capaz de
produzir um conhecimento que não pode ser reduzido a contextos históricos e
relações sociais porque tal conhecimento está relacionado com uma verdade
universal - um critério que não pode ser governado por interesses sociais por
causa da sua relação com processos de pesquisa independentes. As condições
sociais e os contextos históricos permitem (ou não) a possibilidade de
relacionar o projeto científico, a racionalidade crescente e o controle por
esta alcançado aos sujeitos humanos. No curso da história, alguns momentos e
situações são mais propícios do que outros para o verdadeiro desenvolvimento do
núcleo do projeto científico. De acordo com Horkheimer, as práticas científicas
têm que se desenvolver sob pressão dos interesses sociais na sociedade
capitalista, de modo que a ciência se desenvolve de uma maneira específica e
problemática. A lacuna entre o sujeito cognoscente e a realidade objetiva surge
no curso do desenvolvimento da ciência, o que possibilita considerar o mundo
objetivo de uma maneira reificada, independentemente dos sujeitos cognoscentes
- o positivismo. Com a ampliação dessa lacuna, o mundo objetivo transforma-se
cada vez mais num "objeto" reificado submetido às forças produtivas das
ciências, estendendo o poder do controle humano e exercendo uma dominação, bem
como uma exploração sistemática, sobre a natureza exterior.
A ciência é influenciada pelo capitalismo; e as tendências que impedem o
progresso científico são cada vez mais importantes nas atuais contradições do
capitalismo. O uso sistemático da ciência tornou-se desproporcional em relação
às necessidades humanas: a sociedade exige um autoconhecimento qualitativo, mas
a ciência oferece apenas uma acumulação quantitativa de especializações
particulares. A ciência está submetida a uma "especialização caótica", em que
cada domínio mantém-se sob a ilusão de um monopólio da verdade. A proliferação
de disciplinas científicas especializadas, explorando em detalhes seu universo
social separado, sem que haja uma comunicação entre elas, impossibilita a
concepção da sociedade como um todo. Essa proliferação da especialização
instrumental parcial a serviço de interesses econômicos não contribui para o
desenvolvimento do conhecimento racional. Isso leva à impossibilidade de se
compreender a sociedade como um todo e oferece uma representação irracional da
realidade. O estado de crise na ciência burguesa acentua a crise na sociedade
através da sua própria organização. E esse estreitamento da racionalidade
científica leva a uma atitude positivista em que a ciência não é capaz de ser
autorreflexiva.
Isso gera um conflito entre a ciência empírica e a filosofia especulativa: o
mundo é visto como "objetivo" e neutro sem estar conectado a um sujeito
cognoscente. Horkheimer critica a atitude positivista, que consiste em
acreditar na neutralidade de uma prática científica que não se baseia no
questionamento filosófico. Além disso, as práticas científicas não são mais
orientadas pelo princípio interno de investigação da verdade universal, mas
pelas demandas sociais e interesses econômicos, o que resulta numa crise
profunda na sua relação com a verdade. Isso contribui para uma crise do projeto
científico moderno e da razão, impossibilitando a autorreflexão racional da
sociedade. Como consequência, sob o regime capitalista, a ciência contribui
para uma cegueira ideológica, reforçando a atitude passiva e contemplativa dos
sujeitos sociais num mundo destituído de qualquer sentido. O fracasso do
projeto científico sob a vigência do regime capitalista contribui para manter
as verdadeiras injustiças sociais e bloqueia as progressivas transformações
sociais.
A filosofia enfrenta uma crise semelhante porque está presa numa metafísica
especulativa sem qualquer cooperação com as ciências empíricas. Horkheimer
retoma uma antiga tradição filosófica (Kant e Hegel são as principais figuras
dessa tradição) que está voltada, sobretudo, para a análise de "toda cultura
material e intelectual da humanidade" (Estado, lei, economia, religião)
relacionada ao contexto da "vida social humana" e que busca interpretar
filosoficamente "as vicissitudes do destino humano - o destino dos humanos não
como indivíduos atomizados, mas como membros de uma comunidade"5. Além do mais,
Horkheimer ressalta que essa tradição filosófica - a filosofia social - voltada
para a "vida social dos humanos" experimenta, no momento atual, grandes
dificuldades e encontra-se em crise. Ela precisa lidar com a "existência e a
validade simultâneas de vários conceitos de realidade" específicos a
"diferentes áreas do conhecimento e esferas da vida"6; no entanto, nenhuma
prioridade entre esses conceitos está objetivamente fundada. De acordo com
Horkheimer, tal dificuldade pode ser "solucionada" apenas na medida em que for
utilizada a "investigação concreta de um objeto"7. Ademais, essa tradição
filosófica está presa numa antiga divisão de trabalho entre a conceitualização
teórica e as ciências empíricas, em particular as ciências sociais. Assim, essa
tradição considera erroneamente que a "sociologia nada tem a dizer sobre o grau
de realidade ou sobre o valor desses fenômenos" e, por outro lado, que as
questões fundamentais da filosofia social podem trazer à baila "posições
cruciais, embora nenhuma verdade generalizadamente válida que possa ser
combinada com investigações amplas e variadas"8. Depois de Horkheimer, o
pensamento filosófico clássico sobre a realização histórica da razão não pode
ser levado adiante na sua forma clássica, deixando de considerar as descobertas
empíricas baseadas na pesquisa científica empírica. Esse ceticismo não diz
respeito apenas à filosofia especulativa burguesa, mas também à filosofia da
história hegeliano-marxista, cuja ligação entre progresso, história e razão é
tida como certa em todos os círculos marxistas: o progresso da razão é
incorporado numa práxis efetiva (de produção) endossada por um sujeito social,
o proletário, que deve realizar os potenciais emancipatórios da razão
incorporada na história. Entretanto, diante da dramática ascensão do nazismo na
Alemanha do fim da década de 1920, esse modelo histórico pareceu, no mínimo,
pouco significativo para explicar a situação daquele momento, e precisou sem
dúvida de uma profunda atualização. A filosofia atingiu seus próprios limites
numa situação dramática, em que outros tipos de conhecimento foram necessários
para estabelecer um diagnóstico adequado do período: a pesquisa social foi um
modo importante para encontrar esse "ajuste".
Horkheimer tenta dar uma resposta para a crise que se reflete tanto na ciência
quanto na filosofia, formulando um programa alternativo e salvando ambas
segundo a forma de uma abordagem dialética e materialista. De um lado, ele
tenta salvar o projeto científico sem abrir mão da pesquisa empírica, a
despeito de sua forte crítica do positivismo. De outro, ele salva a filosofia
ao defender a posição particular desta em relação à ciência9- sobretudo porque
a filosofia admite a perspectiva da totalidade. Entretanto, apenas o "trabalho
que se opera sobre o objeto", baseado em métodos científicos, nos protege de
uma concepção filosófica desvinculada do mundo. Em outras palavras, a filosofia
pode responder à crise da ciência da mesma forma que a ciência pode responder à
crise da filosofia. O programa de pesquisa dialéticaconsegue escapar tanto dos
limites da filosofia especulativa quanto das ciências empíricas especializadas,
buscando preencher a lacuna entre uma construção abstrata e especulativa
desprovida de exploração empírica e uma descrição empírica factual,
autossuficiente e detalhada desprovida de qualquer quadro teórico de síntese10.
Horkheimer enfatiza a ideia de uma "penetração e desenvolvimento contínuo e
dialético da teoria filosófica e da práxis científica especializada"11.
De acordo com Horkheimer, a crise da ciência sob o regime capitalista pode ser
superada graças à concepção materialista de ciência, cujos principais elementos
já haviam moldado as origens do projeto científico. Nas primeiras etapas da
ciência, os métodos sistemáticos de observação desenvolvidos por Copérnico,
Galileu e Newton referem-se a uma concepção materialista do mundo que o
considera como um conjunto de processos mecânicos separados da teologia, o que
pela primeira vez permitiu uma concepção racional do mundo exterior. Nesse
estágio inicial de observação do mundo, considerado como "objeto", a
racionalidade científica ainda não havia atingido o estágio avançado em que os
interesses sociais e processos capitalistas controlam a investigação
científica. O objeto exterior ainda é conhecido de uma maneira não instrumental
que, fundamentalmente, delineia a possibilidade de uma "alteridade" e de uma
relação "simétrica" entre sujeito cognoscente e objeto de conhecimento. Esse
conhecimento materialista não considera o mundo como um "objeto" independente
que leva a uma possível "objetividade": um conhecimento independente de um
espectador passivo e neutro. Esse materialismo científico em estágio inicial
supôs uma dialética entre um sujeito cognoscente e um objeto de conhecimento.
Ele assume que o sujeito de conhecimento sabe claramente quais são os objetivos
de sua atividade de pesquisa, o que implica uma autorreflexão sobre a prática
científica e os interesses que a orientam. Como Horkheimer demonstra em "Teoria
Tradicional e Teoria Crítica" (1937), nessa atividade está presente uma
reflexão sobre os interesses sociais que governam a abordagem científica - cf.
os "interesses das massas para a supressão da injustiça". Em outras palavras,
essa abordagem materialista e dialética difere do positivismo porque ela não
concebe seu "objeto de pesquisa" como algo separado do sujeito cognoscente,
como independente e neutro; e tampouco considera o sujeito cognoscente como
neutro e "passivo": o sujeito tem que tornar explícitos seus próprios
interesses de conhecimento. Em particular, essa filosofia deve tornar claro o
quadro de investigação científica, de modo que os pesquisadores desenvolvam uma
autocompreensão normativa de seu trabalho. Um aspecto essencial dessa
autorreflexão consiste em evitar que o objeto de investigação esteja isolado de
seus contextos sociais e históricos, das práticas e processos sociais em que
ele emergiu e da totalidade social da qual necessariamente faz parte - essa é a
razão pela qual conceitos como totalidade e mediação são centrais no projeto de
pesquisa interdisciplinar conduzido pelo Instituto12.
A partir desse esclarecimento necessário tanto sobre o sujeito cognoscente
quanto sobre o objeto do conhecimento - que é a condição para uma teoria
crítica superar o positivismo empírico -, Horkheimer desenvolveu uma estrutura
que liga dialeticamente pesquisa e teoria. O propósito da pesquisa científica é
construir uma "pesquisa concreta" numa constante exploração, confrontando o
quadro teórico com as práticas reais - o que é impossível com base apenas na
filosofia. Nessa investigação, a adequação da construção teórica é posta à
prova através de exames empíricos que lidam com configurações concretas do
objeto: dessa forma, a pesquisa obriga a construção teórica a ser
constantemente redefinida. Ao mesmo tempo, a pesquisa é guiada por
preconcepções teóricas que são esclarecidas à luz de seus interesses de
conhecimento e objetivos emancipatórios. Nesse sentido, Horkheimer concebeu um
entrelaçamento da teoria filosófica com a prática científica especializada: em
primeiro lugar, a teoria deve manter informadas as investigações empíricas em
seu programa de pesquisa e quadro de questionamento; a ligação com a pesquisa
social oferece uma base crítica para sua construção em função da mudança de
processos empíricos. Em segundo, a teoria é constantemente questionada pelo
processo investigativo, de modo a oferecer, progressivamente, uma síntese
teórica que esteja em contato com as evoluções sociais contemporâneas
eficientes. Por fim, a teoria proporciona uma estrutura reflexiva para a
abordagem empírica sem permitir a segmentação do fenômeno social, como o fazem
as ciências empíricas ultraespecializadas, permitindo-nos considerar fenômenos
singulares à luz da sociedade como um todo. De acordo com Horkheimer, a Teoria
Crítica deve substituir a filosofia especulativa tradicional pelo "trabalho
objetivo" de investigação conduzido pelas ciências empíricas. O materialismo
dialético de Horkheimer pretende ir além do sentido tradicional da metafísica,
substituindo o ponto de vista especulativo desta pela prática científica
investigativa autorreflexiva - sem, no entanto, se dissolver em propósitos
científicos.
Essa relação entre reflexão teórica e pesquisa empírica é claramente
influenciada pelo método dialético de pesquisa (Forschung) e apresentação
(Darstellung) desenvolvido por Marx no Capital. Enquanto a pesquisa explora um
objeto real a fim de analisar suas várias formas e desenvolvimentos, a
apresentação desenvolve abstrações conceituais empiricamente enraizadas de modo
a desenvolver progressivamente uma apresentação mais completa desse objeto.
Essa apresentação põe em questão algumas etapas passadas de apresentação - por
exemplo, a economia política burguesa - com vistas a oferecer uma maior
compreensão do objeto13. Em vez de emergir de dados empíricos completamente
"desguarnecidos", a pesquisa sempre se inicia com uma apresentação passada, de
modo a ensejar um processo exploratório que almeja uma apresentação coerente do
objeto. O papel principal dado por Marx à apresentação, como ponto de partida
da pesquisa e como "poder" que se atribui à investigação para reconfigurar
apresentações anteriores, influenciou a crítica de Horkheimer ao empirismo
positivista, na sua defesa de uma filosofia articulada com a pesquisa social. A
pesquisa social promovida no Instituto de Pesquisa Social devia se desenvolver
por meio das técnicas mais atuais de investigação social, ao passo que a
apresentação completa desse trabalho, no quadro de uma nova síntese teórica,
devia ser a tarefa da filosofia social. Desse modo, as apresentações teóricas
são alimentadas pelas pesquisas empíricas de maneira a produzir uma síntese
conceitual atualizada que, simultaneamente, define o quadro de futuras
pesquisas. Entretanto, não se deve compreender essa ideia no sentido
positivista de uma verificação - ou falsificação - de uma hipótese teórica,
pois o que está em jogo é a ideia de uma ampliação da síntese teórica capaz de
torná-la coerente com o seu objeto.
Para Horkheimer, a dialética materialista deve permanecer "aberta", e o núcleo
do método dialético deve residir no reconhecimento dos limites de qualquer
projeto teórico. Em oposição a qualquer construção teórica abstrata, cujos
objetivos pretendem produzir um conhecimento "acabado" sobre o mundo real que
se buscou conceitualizar, a dialética admite seu caráter incompleto e
inacabado. Pois esta considera que a realidade adquire forma sob os contínuos
movimentos da práxis, a qual não pode ser inteiramente apreendida por nenhum
conceito teórico. Uma vez que a situação está em contínua mudança, a teoria
pode "apenas" ser parte de uma conceitualização exploradora que nunca é capaz
de ser completamente bem-sucedida - em outras palavras, as práticas estão
sempre um passo adiante de qualquer esforço de teorização. Uma "dialética
aberta" admite, pois, as persistentes tensões entre teoria e realidade; ela
saúda, por assim dizer, um tipo de "humildade do conhecimento" e a necessidade
de constantemente redefinir-se ao travar contato com o objeto. Diferentemente
do idealismo hegeliano, a dialética renuncia qualquer tipo de identidade
estabelecida entre conceito e objeto, enfatizando a irreduzível tensão entre
eles. Por um lado, o sujeito cognoscente concebe a realidade como um "não ser",
dando abertura para possibilidades (utópicas) que a própria realidade não
contém. Por outro, o objeto investigado resiste a tal pensamento na medida em
que ele obriga a teoria a reajustar-se à realidade prática. Por fim, uma
"dialética aberta" é um processo interminável de desenvolvimento do
conhecimento, num ciclo permanente de redefinição, constantemente buscando
conceitualizar a mudança das práticas na realidade, sem qualquer possibilidade
de se encerrar tal processo.
A dialética da pesquisa e teoria continuou sendo o principal modelo para reunir
filosofia e ciências empíricas na Teoria Crítica até o fim da década de 196014,
incluindo o tempo em que o Instituto (durante exílio) mudou o seu principal
foco teórico. Mas se esse modelo definiu a concepção filosófica geral de
pesquisa social, ele também assumiu diferentes formas ligadas a diferentes
períodos ao longo do desenvolvimento da Teoria Crítica - não apenas por causa
do seu desenvolvimento teórico, mas também pelas condições dramáticas sob as
quais o Instituto teve que sobreviver. Eu não seria capaz de desenvolver esse
ponto aqui; seria necessária outra intervenção voltada apenas para o
esclarecimento dessa ideia. Permitam-me apenas ressaltar a ideia segundo a qual
a dialética da pesquisa e teoria formulada pelo jovem Horkheimer teve a mais
importante influência sobre a Teoria Crítica. Eu gostaria agora de considerar
outro modelo que, em minha opinião, pôs de volta o modelo dialético na Teoria
Crítica.
RECONSTRUÇÃO
A publicação de Conhecimento e interesse(1968), de Jürgen Habermas, constitui
uma etapa crucial no desenvolvimento da Teoria Crítica e resulta em uma nova
relação entre filosofia e pesquisa científica. Nessa obra, buscou-se conceber
uma alternativa epistemológica ao positivismo e à ascensão das ciências
técnicas, baseando-se na diferenciação de três interesses constitutivos do
conhecimento: um interesse empírico-analítico no controle potencial, um
interesse hermenêutico-histórico na compreensão e um interesse crítico-
emancipatório na liberdade e autonomia. Habermas insistiu nos interesses
emancipatórios específicos das ciências críticas, cujos objetivos são produzir
uma autorreflexão racional dos sujeitos sociais, graças a um tipo de abertura
que foi tornada possível através de métodos científicos baseados na superação
de obstáculos para uma "verdadeira" comunicação.
De fato, a mudança teórica mais importante é introduzida por Habermas como
consequência dos debates e críticas que se seguiram à publicação de seu livro.
Cinco anos depois (1973), no posfácio da nova edição, ele comenta várias
objeções dirigidas ao livro, reconhecendo que ele tinha feito sua pesquisa por
meio da "reconstrução das condições do conhecimento" sem apresentar uma
diferenciação adequada entre autorreflexão e reconstrução. Ele reconhece ter
compreendido, apenas após o livro, que o uso tradicional da reflexão, emergindo
com o idealismo alemão, sobrepôs (e misturou) duas concepções do termo: de um
lado, a reflexão sobre as condições de possibilidade de um sujeito que conhece,
age e fala em geral; e, de outro, a reflexão sobre os limites inconscientes que
restringem um sujeito (coletivo ou individual) no seu processo de formação.
Embora o primeiro tipo de reflexão assuma a forma (a partir de Kant e seus
sucessores) de uma fundação transcendental do conhecimento possível (e da ação
moral), o segundo tipo também adquiriu o sentido de "reconstrução racional das
regras ou sistemas cognitivos"15. Desse modo, Habermas apresentou uma
diferenciação entre uma reflexão transcendental, que busca refletir sobre as
condições subjetivas necessárias com base em um conhecimento, e uma reflexão
não transcendental, cujo objetivo é reconstruir o sistema genérico de regras
que estão na base das competências comuns. Assim, a ideia de regras genéricas
em Chomsky concerne mais às competências verdadeiras de sujeitos empíricos não
individuais do que às condições transcendentais. A reconstrução difere da
reflexão porque se refere a um sujeito empírico anônimo atuante e não a um
sujeito abstrato transcendental16.
Feita a diferenciação entre reflexão e reconstrução, Habermas diferencia as
ciências "críticas" das ciências "reconstrutivas". As ciências críticas (e.
g.psicanálise) dizem respeito à reflexão porque buscam atingir o caráter
reflexivo de um sujeito que não se compreende bem por causa das ilusões, bem
como dos modelos restritivos de percepção e ação que precisam ser descobertos
para libertá-lo deles. Em outras palavras, as ciências críticas contestam a
ideia de um conhecimento considerado deformado ou falso tendo em vista um
"verdadeiro" conhecimento. Em contrapartida, as "ciências reconstrutivas" (como
lógica, linguística, moral e psicologia cognitiva) exploram sistemas usuais de
regras que, como tais, não são postas em questão nas atividades práticas porque
formam implicitamente regras e normas fundamentais de nossas atividades
práticas. Os sistemas linguísticos de regras são, nesse sentido, precondições
implícitas necessárias que possibilitam as discussões racionais. As ciências
genéticas referem-se à reconstrução na medida em que buscam explicar processos
de aprendizado das competências cognitivas, linguísticas e morais com base em
modelos lógicos implícitos.
Para resumir as características mais importantes das "ciências reconstrutivas"
em comparação com as "ciências críticas", Habermas delineia três aspectos que
as diferem entre si. Primeiramente, as bases da reconstrução são práticas
implícitasou esquemas cognitivos, e não experiências inconscientes reveladas na
pseudo-objetividade de um método reflexivo. Em segundo lugar, a reconstrução
considera os sistemas anônimos de regras como uma base geral de referência para
todos os sujeitos, e não como sujeito individual e particular em seu processo
de formação da identidade. Terceiro, a reconstrução explicita os sistemas
intuitivos de conhecimento e de competências sem que isso tenha consequências
práticas, ao passo que a reflexão busca tornar conscientes as estruturas
inconscientes a fim de escapar da falsa consciência. Habermas segue adiante na
sua defesa da reconstrução, considerando que a reflexão por meio das ciências
críticas depende de reconstruções anteriores, e que as ciências críticas
dependem fundamentalmente da reconstrução. Ele observa que é impossível
descrever uma deformação da comunicação sem se referir a condições universais
de uma comunicação bem-sucedida - as condições de possibilidade de um discurso
"normal". Assim, depois de Habermas, um método crítico como a psicanálise deve
necessariamente ter uma "pré-noção" do entendimento comunicativo não deformado
(de um sujeito consigo próprio) de modo a poder compreender as deformações
patológicas.
A reconstrução surge como um método que busca revelar estruturas profundas
vistas como precondições de práticas (linguísticas) de atores sociais. Ela
assinala um conjunto de regras fundamentais que são consideradas como condições
primárias de ações racionais (sentenças linguísticas). Essas estruturas
profundas formam um conhecimento pré-teórico que não é explicitado pelos
sujeitos sociais nas suas atividades cotidianas, mesmo que essas atividades não
sejam possíveis sem a ação baseada nesse conjunto implícito de regras. Um
sujeito que age (usuário da linguagem) pode ser capaz de desenvolver argumentos
coerentes num discurso sem conhecer as regras que ele necessariamente segue
quando realiza esses atos: ele sabe "como" realizar ações sem conhecer as
precondições que possibilitam essas ações. As estruturas profundas devem ser
descobertas para que se possam expor essas precondições relacionadas a um
conhecimento do qual os sujeitos agentes não estão reflexivamente cientes. Em
outras palavras, a reconstrução racional explicita um conhecimento implícito e
transforma o "saber como" em um "saber que". Por causa do seu caráter implícito
e pré-reflexivo, esses sistemas de regras correspondem, de acordo com Habermas,
a uma forma "pura" do conhecimento, permanecendo afastados dos três interesses
do conhecimento considerados em Conhecimento e interesse- e rompe as relações
entre reflexão, razão e emancipação, teoria e prática, etc.
Se a reconstrução expõe o conjunto implícito de conhecimento baseado nas
competências linguísticas e cognitivas, que são conhecidas e utilizadas nas
atividades usuais de sujeitos agentes que não refletem sistematicamente sobre
isso, então ela deve ser acessada por meio de métodos específicos, que diferem
do senso comum. Porque esse conhecimento implícito dos sujeitos agentes não
lhes é diretamente acessível, a sua exposição deve ser realizada por um tipo
específico de investigação. O processo de reconstrução depende de um ponto de
vista teórico afastado do âmbito prático das atividades ordinárias. Esse
procedimento reconstrutivo torna-se possível apenas na medida em que
conseguimos refletir sistematicamente sobre as regras tácitas e o conhecimento
implícito a que nos referimos em nossas práticas cotidianas. Uma abordagem
lógica sistemática - relacionada a "ciências reconstrutivas" - é o único
caminho para descrever esse sistema tácito de conhecimento. Ela deve ser
descoberta através de procedimentos científicos de esclarecimento por conta de
métodos de investigação. Entretanto, esses procedimentos de reconstrução não
podem ser usados como um tipo de objetivação "externa" - como é feito na
atitude positivista das ciências técnicas -porque eles devem adotar o ponto de
vista interno do participante atuante, a fim de conseguir reconstruir
sistematicamente o conjunto de regras que sujeitos atuantes empregam
frequentemente nas suas atividades usuais.
Isso significa que a reconstrução deve expor não um conjunto de ilusões de um
sujeito passivo, mas as competências práticas dos sujeitos atuantes envolvidos
em atividades usuais que podem ser consideradas como partilhadas em comum. De
acordo com Habermas, qualquer sujeito atuante "possui" necessariamente
competências práticas, pois estas são condições de uma socialização normal numa
sociedade humana. Em outras palavras, a "reconstrução racional" concebida por
Habermas não deve revelar um conjunto de conhecimentos intuitivos válidos sob
certas circunstâncias limitadas, mas um sistema de competências universalmente
válidas, tidas como precondição fundamental das práticas humanas - cf. o
programa de pragmáticas universais. (Essa é a razão pela qual o método de
reconstrução foi, sobretudo, aplicado na teoria das competências
comunicativas). Por fim, se a reconstrução expõe as competências fundamentais,
ela também diz respeito ao modo como essas competências foram desenvolvidas ao
longo do tempo (desenvolvimento lógico).
A reconstrução rejeita a perspectiva científica exterior de objetivação
"técnica" e adota o ponto de vista "interno" do participante, explicitando os
sistemas implícitos de regras. Ademais, ela deve necessariamente ir além da
perspectiva do sujeito atuante para poder explicitar o sistema de regras deste.
A despeito de sua forte crítica ao positivismo, o método de reconstrução de
Habermas não abre mão da ciência, uma vez que ele reorganiza a relação da
ciência com a filosofia. A reconstrução não segue paradigmas interpretativos
como a hermenêutica e a rejeição desta à explicação, pois a reconstrução tem
por objetivo a articulação de métodos descritivos, interpretativos e
explicativos num mesmo quadro teórico. De acordo com Habermas, a reconstrução
está enraizada em um pluralismo metodológicoe teórico para o qual a variedade
de abordagens teóricas e metodológicas conferidas aos fenômenos sociais torna
impossível restringir a sua própria perspectiva a apenas uma disciplina17. Pelo
contrário, a reconstrução deve integrar e articular várias perspectivas
metodológicas (participante/observador) e diferentes atitudes pragmáticas de
pesquisa (hermenêutica, crítica e analítica)18. Esse pluralismo teórico e
metodológico permite evitar a divisão do trabalho que levou a uma lacuna
terrível entre disciplinas normativas, como a que existe entre filosofia moral
e ciências empíricas.
Essa é a razão pela qual o método reconstrutivo reconfigura profundamente a
relação entre ciências empíricas e filosofia na Teoria Crítica. No posfácio
mencionado anteriormente de Conhecimento e interesse, Habermas foi um pouco
longe, a ponto de imaginar que as ciências reconstrutivas deveriam
progressivamente substituir a filosofia moral transcendental. A filosofia pode
encontrar uma base sólida através das ciências reconstrutivas, de modo a
referir-se a normas pré-reflexivas fundamentais que governam as práticas (da
discussão racional) e a inferir regras universais da ética comunicativa a
partir desses sistemas implícitos de regras. Desse modo, a filosofia moral
continua sob a dependência das ciências reconstrutivas19: ela depende do
conhecimento sistemático desenvolvido por essas ciências para estar baseada nas
normas de entendimento mútuo entre sujeitos atuantes em um sistema prático de
regras. Referindo-se às importantes descobertas das pesquisas científicas
reconstrutivas, Habermas lança sua hipótese teórica sobre a relação íntima
entre práticas comunicativas e entendimento mútuo. Ao fazê-lo, a pragmática
universal do entendimento comunicativo como base do seu discurso ético
desenvolveu-se graças a essas ciências reconstrutivas.
Dessa forma, a filosofia precisa alcançar sua fundação nos resultados
provisórios das pesquisas científicas, resultados esses que podem sempre ser
confrontados e modificados por novas investigações empíricas. As hipóteses
produzidas num determinado contexto são sempre falíveis e abertas a novos
testes empíricos que levam à sua confirmação ou invalidação. Uma vez que
Habermas não quer desenvolver uma análise transcendental baseada em meras
intuições, mas sim em análises "quase transcendentais" baseadas em evidências
empíricas atinentes à racionalidade prática firmada no uso corrente da
linguagem, os dados empíricos obtidos pelas ciências reconstrutivas são de
primeira importância. Enquanto a filosofia transcendental clássica (Kant)
pretende revelar as condições de possibilidade do entendimento racional com
base na pura introspecção, Habermas considera que essa racionalidade prática só
pode ser descoberta pela análise empírica. Uma vez que esta sempre depende das
pesquisas concretas, a "reconstrução racional" mantém um caráter hipotético.
Habermas afirma que a confirmação dessas hipóteses depende da verificação
indireta por parte das ciências empíricas e que a sua validade é parcialmente
determinada pela maneira como elas funcionam junto a uma variedade de outras
teorias através de uma cooperação produtiva. Como consequência, ele precisa
considerar que sua hipótese fundamental sobre o vínculo íntimo entre
comunicação linguística e entendimento mútuo - que é o centro da teoria
normativa de Habermas - pode ser submetida a novas investigações empíricas que
têm o "poder" de questionar tal hipótese fundamental. Enquanto nenhuma outra
pesquisa contradisser essa pressuposição baseada em investigações anteriores
feitas pelas ciências reconstrutivas, a Teoria Crítica pode seguir em frente
referindo-se normativamente a esses sistemas práticos de regra20. Essa é a
razão pela qual Habermas (nas décadas de 1970 e 1980) frequentemente descreveu
seu projeto filosófico como um programa de pesquisa em aberto, em que os
resultados obtidos têm um status hipotético e os vários elementos constitutivos
da teoria são sucessivamente postos em questão. Em contrapartida, a síntese
normativa e teórica baseada em reconstruções anteriores é o ponto de partida de
novas investigações, de modo a formular novos projetos de pesquisa que
investiguem essas hipóteses. Assim, essa articulação entre filosofia e ciência,
concebida ao longo do programa metodológico de reconstrução é a "salvação" da
investigação científica empírica que não abre mão do ponto de vista filosófico:
reconstruções anteriores são, em princípio, integradas num quadro teórico e
normativo e testadas novamente como novas "contribuições" para futuras
pesquisas.
A "virada reconstrutiva" introduzida por Habermas no início da década de 1970
teve uma influência central sobre o desenvolvimento da Teoria Crítica. Desde
essa "virada" metodológica, as mais importantes inovações teóricas assumiram-na
como uma fundação e precondição metodológicas21. Os desenvolvimentos
subsequentes da teoria normativa da comunicação de Habermas, bem como a sua
última teoria do direito, baseiam-se nessa metodologia - cf. a reconstrução
histórica do direito em Entre fatos e normas(1996). Isso também ocorre em
vários desenvolvimentos filosóficos "pós-habermasianos", por exemplo, na teoria
do reconhecimento de Honneth, que oferece hoje em dia uma atualização
promissora da Teoria Crítica. O conjunto do empreendimento de Honneth é baseado
na metodologia da reconstrução22, ainda que dê forte ênfase a motivos
hegelianos - comparado com Habermas, cujo "interlocutor filosófico" sempre foi
Kant. Seja na forma de uma "reconstrução normativa" (Honneth), seja na de uma
"reconstrução racional" (Habermas), a reconstrução se tornou ométodo da Teoria
Crítica desde a "virada reconstrutiva". Como já foi dito, a reconstrução também
transformou as articulações entre filosofia e ciência, entre teoria e pesquisa,
entre fundação normativa e investigação científica, quando comparadas com o
modelo dialético do primeiro Horkheimer. Meu ponto é que a relação entre teoria
e pesquisa na Teoria Crítica se tornou mais complicada desde a "virada
reconstrutiva" - tratarei agora desse ponto.
CONCLUSÃO: CONSEQUÊNCIAS E LIMITES DA RECONSTRUÇÃO
A dialética horkeimiana da teoria e pesquisa, estabelecida no início da década
de 1930, almejava a investigação sobre as condições sociais e históricas,
admitindo a realização (ou não) de uma práxis emancipatória pré-teórica,
especialmente no despertar para os vários obstáculos contrários a essas
práticas. Graças aos métodos empíricos das ciências sociais, esse programa de
pesquisa deveria investigar as razões pelas quais a hipótese filosófica dada
por uma filosofia da história, que pressupõe a realização efetiva da razão, não
se mostra confirmada pelas evidências empíricas. A pesquisa social serve nesse
caso mais como um meio de tornar conhecidos os obstáculos de emancipação do que
as disciplinas que visam fundar pressuposições normativamente filosóficas sobre
práticas usuais. No começo da década de 1930, o quadro normativo da Teoria
Crítica era, de certa forma, tido por certo; não valia a pena questioná-lo: ele
se referia à extensão histórica de uma práxis ancorada num processo de forças
produtivas. Em contrapartida, a pesquisa social tem uma "função" diferente no
"paradigma" metodológico da reconstrução, uma vez que as ciências empíricas
prestam-se, acima de tudo, à tarefa de fundação normativa em diferentes
contextos, em que as normas da crítica não podem ser realmente garantidas ou
distribuídas conforme o quadro total de uma filosofia "positiva" da história.
As ciências reconstrutivas oferecem, sobretudo, o conhecimento metodológico
necessário sobre os sistemas de regras implícitas de um entendimento mútuo,
admitindo uma fundação prática e empiricamente eficiente - quase transcendental
- da moral que deve estabelecer, normativamente, a Teoria Crítica. Essas regras
em que estão baseadas as práticas implícitas do entendimento mútuo oferecem uma
fundação normativa do modelo habermasiano de comunicação - e desempenham a
mesma "função" teórica que a práxis emancipatória produtiva no modelo dialético
de Horkheimer.
Em ambos os casos, um nível prático fundamental, em que estão baseadas as
atividades dos sujeitos atuantes, é, simultaneamente, eficaz nas relações
sociais e prejudicado pelas tendências sociais. Para Horkheimer, essa prática
não pode ser completamente realizada nas condições efetivas, uma vez impedida
por vários obstáculos (irracionalismo, ideologia, autoridade, etc.) e
sistematicamente prejudicada na sociedade capitalista. A ideia de que essas
práticas podem ser prejudicadas por certas tendências "falsas" e específicas é
parte de uma análise maior das evoluções sociais e políticas de uma era.
Diferentemente de Horkheimer, que sem dúvida vinculou o desenvolvimento da
Teoria Crítica à pesquisa social, Habermas não foi verdadeiramente bem-sucedido
na formulação de um conjunto de hipóteses teóricas que orientassem um programa
sistêmico de investigações empíricas - o posfácio de Teoria da ação
comunicativaé uma exceção, embora nunca tenha resultado num plano investigativo
eficaz.
Se a ideia de patologias sociais do período tivesse sido formulada na forma de
uma hipótese, visando assim orientar as investigações sociais empíricas, as
ciências sociais teriam conseguido outro lugar na sua construção teórica, no
sentido de um estudo sistemático das possibilidades sociais eficazes de
práticas comunicativas. O que foi de algum modo negligenciado pelo método de
reconstrução é a ideia de investigar sistematicamente as condições sociais de
realizaçãodessas práticas emancipatórias, incluindo o estudo de vários de seus
obstáculos (sociais, econômicos, institucionais, etc.). O uso das ciências
reconstrutivas para a fundação normativa da crítica, mais do que o estudo
sistemático de vários obstáculos e dificuldades sociais que impedem as práticas
emancipatórias, tende a privilegiar uma perspectiva "otimista". Nesse sentido,
o potencial de realização efetiva dessas práticas é idealizado; e as tendências
empíricas negativas que as impedem são neutralizadas. As críticas bem
conhecidas e recorrentes ao "otimismo" geral da filosofia moral de Habermas,
idealizando o alcance do entendimento mútuo em verdadeiras comunicações
linguísticas, podem ser entendidas à luz desse privilégio metodológico.
Ao longo do modelo dialético de teoria e pesquisa, os processos exploratórios
de investigação desempenharam um papel importante na formação da síntese
teórica. A investigação social teve consequências importantes sobre os tipos de
diagnósticos formulados na síntese teórica da Teoria Crítica. Na condição de
"apresentação" provisória, a teoria deve ser constantemente redefinida pelos
processos de investigação. Em contrapartida, a reconstrução supõe uma relação
entre teoria e pesquisa que se desenvolve em favor da primeira: a construção
teórica está à procura de um conjunto de descrições empíricas fornecidas pelas
ciências reconstrutivas de modo a formular uma síntese filosófica normativa e
descritiva. A abordagem filosófica busca descrições fornecidas pelas ciências
empíricas que são, sobretudo, adequadas ao seu projeto23 - o que é reforçado
pela divisão de trabalho entre teoria normativa e pesquisa empírica
(contrariamente ao programa interdisciplinar proposto por Horkheimer, as
pessoas que realizam a pesquisa não são as mesmas que estão produzindo a
síntese teórica). Ainda que a ciência empírica desempenhe um papel importante
na concepção de Habermas sobre a Teoria Crítica, por causa da fundação
normativa da filosofia moral nas práticas efetivas, a pesquisa social não tem o
mesmo "poder restritivo" que o modelo dialético de teoria e pesquisa24. Como
consequência, em vez de uma "verdadeira" dialética da teoria e pesquisa, a
reconstrução introduz outro tipo de relação entre ambas, em que o "poder" de
investigar é mais ou menos dissolvido em favor da construção filosófica.
Embora as grandes dificuldades de juntar numa única estrutura teórica as
questões normativas tratadas pela filosofia moral e social, de um lado, e as
pesquisas sociais realizadas pelas ciências empíricas, de outro, não resultem
somente das simples questões teóricas discutidas acima - em razão das
restrições institucionais e acadêmicas que atualmente organizam as pesquisas
sociais -, certas concepções específicas podem contribuir mais do que outras
para esse fenômeno. Uma dessas dificuldades reside na situação teórica da
filosofia normativa, de um lado, e na das ciências sociais, de outro. Desde a
"mudança de paradigma" na filosofia política (encorajada por John Rawls no seu
Teoria da justiça), que passou a lidar com meras questões normativas sem
referência a práticas efetivas descritas pelas ciências sociais (mudança essa
que também in fluenciou o desenvolvimento da Teoria Crítica), ficou cada vez
mais difícil conceber e defender uma dialética da teoria e pesquisa. Além
disso, a ultraespecialização das ciências sociais empíricas e a sua completa
rejeição de temas normativos, bem como das abordagens filosóficas, dificultam
ainda mais essa cooperação25. Tendo em mente as várias dimensões dessa
situação, eu gostaria de delinear outras possíveis direções da Teoria Crítica,
a fim de conceber uma dialética da teoria e pesquisa. Como vimos, a
reconstrução levanta alguns problemas sobre a articulação entre pesquisa e
teoria, mas eu imagino que seria possível modificar o modelo de reconstrução,
possibilitando uma reconexão com alguns elementos importantes do modelo
dialético segundo o "paradigma da reconstrução"26.
Em primeiro lugar, parece-me que as ciências empíricas e a pesquisa social não
deveriam servir apenas como base para a fundação normativa da Teoria Crítica,
buscando não só explicitar - de modo sistemático - práticas emancipatórias em
nossas atividades atuais, mas também investigar sistematicamente as condições
sociais, econômicas, institucionais e políticas de realização eficazes dessas
práticas. Como vimos, se a Teoria Crítica considera que as práticas em que a
sua fundação normativa está baseada são eficazes na realidade social, ela
também considera que as mesmas práticas são sistematicamente prejudicadas sob
condições patológicas que precisariam ser criticamente representadas. Como
resultado dessa perspectiva, um dos objetivos da pesquisa social deveria ser
investigar mais sistematicamente o modo como as deformações dessas práticas
estão emergindo, aumentando e se reproduzindo, e quais as configurações
institucionais específicas que as reforçam. Para evitar o problema discutido
anteriormente sobre a "idealização" da reconstrução, essa perspectiva deveria
evitar o "exagero moral" que tende a negligenciar aquilo que "resiste" ou
"impede" a realização ou o desenvolvimento dessas práticas.
Em segundo lugar, essa proposta está próxima do programa de pesquisa sobre
patologias sociais do presente que Habermas propôs como conclusão de Teoria da
ação comunicativa(1981). O ponto, porém, é conseguir reunir, numa íntima
relação, o método reconstrutivo e o diagnóstico do presente. Desenvolver tal
diagnóstico significa investigar as tendências atuais nos termos da possível
realização de potenciais emancipatórios baseados em práticas eficazes. Os
arranjos sociais, econômicos e políticos devem ser considerados pela pesquisa
social sob a perspectiva de suas possibilidades para incentivar ou prejudicar
tais práticas emancipatórias. Significa, portanto, fazer uma "cartografia"
política, social e econômica do presente e das diferentes "forças" sociais
permitindo - ou não - tais potenciais emancipatórios. Se o método de
reconstrução estivesse mais envolvido com esses diagnósticos históricos e
políticos, ele seria capaz de resgatar alguns elementos importantes do modelo
dialético.
Por fim, essas propostas só podem ser cumpridas se a relação entre teoria e
pesquisa se realiza de uma maneira dialética. A pesquisa deve sempre ter um
"poder restritivo" de redefinir construções teóricas e oferecer possibilidades
para novos diagnósticos. Em outras palavras, o processo de investigação
específico da ciência social deve ter um forte "poder negativo" sobre a teoria
para também reforçar as possibilidades práticas da sua realização na história.
Olivier Voirol é professor da Universidade de Lausanne e pesquisador do
Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt.
[*] Gostaria de expressar meus agradecimentos a Adrian Gurza Lavalle pelos
preciosos comentários sobre meu artigo apresentado no Colóquio de Teoria
Crítica de São Paulo (Cebrap, 35 de outubro de 2011).
[1] Ver Honneth, Axel. "Vom schwierigen Geschåft der Traditions bewahrung. Zur
Zukunft des Instituts für Sozialforschung". In: Boll, M. e Gross, R. H.
(orgs.). Die Frankfurter Schule und Frankfurt. Eine Rückkehr nach Deutschland.
Göttingen: Wallstein, 2009, pp. 288-97.
[2] Horkheimer, Max. Critical theory: selected essays. Nova York: Continuum,
1972. A concepção inicial que Horkheimer teve daTeoria
Crítica foi amplamente discutida por muitos autores. Para uma apresentação
sistemática, ver, por exemplo: Dubiel, Helmut. Wissenschaftsorganisation und
politische Erfahrung: Studien zur frühen Kritischen Theorie.Frankfurt:
Suhrkamp, 1978; Held, David, "Horkheimer'sformulation of
critical theory". In: Introduction to Critical Theory. From Horkheimer to
Habermas. Berkeley/Los Angeles: University of California Press, 1980, pp. 174-
99; Brandt, Gerhard. "Max Horkheimer und das Projekt einer
materialistischen Gesellschaftstheorie". In: Schmidt, A. (ed.). Max Horkheimer
heute: Werk und Wirkung. Frankfurt: Fischer, 1986; Asbach,
Olaf. Kritische Gesellschaftstheorie und historische Praxis. Entwicklungen der
Kritischen Theorie bei Max Horkheimer 1930-1943. Frankfurt: Peter Lang, 1997; mais recentemente: Abro-meit, John. Max Horkheimer and the
foundations of the Frankfurt School.Cambridge University Press, 2011. Para uma apresentação crítica, ver Honneth, Axel. "Horkheimers
ursprüngliche Idee. Das soziologische DefizitderKritischenTheorie". In: Kritik
der Macht. Reflexionsstufen einer kritischen Gesellschaftstheorie. Frankfurt:
Suhrkamp, 1986, pp. 12-42.
[3] Horkheimer, Max, especialmente "Notes on science and the crisis", in:
Horkheimer, op. cit. , pp. 3-10.
[4] Essas ideias sobre a oposição sujeito/objeto, primeiramente formuladas no
início da década de 1930, são posteriormente desenvolvidas na Dialética do
esclarecimento. Adorno ofereceu uma formulação final no seu (último) texto
sobre epistemologia, "Subjectand object"(1969), in: Arato, AndreweGebhardt,
Eike (eds.). The essential Frankfurt School reader. Nova York: Continuum, 1978,
pp. 497-511.
[5] Horkheimer, Max. "The present situation of social philosophy andthetaskofan
Institute for Social Research". In: Between philosophy and social sciences:
selected early writings. Cambridge: The MIT Press, 1995, p. 1.
[6] Ibidem, p. 8.
[7] Ibidem.
[8] Ibidem.
[9] Especialmente sobre esse ponto, ver seu texto (posterior), "The social
function of philosophy" (1939), in: Horkheimer, Critical theory: selected
essays, op. cit.
[10] Habermas insiste na dimensão "pós-metafísica" desse projeto: ver Habermas,
Jürgen. "Remarks on the development of Horkheirmer's work". In: Benhabib, S. ,
Bonß, W. e McCole, J. (eds.). On Max Horkheimer. New perspectives. Cambridge:
The MIT Press, 1993, pp. 49-66.
[11] Horkheimer, "The present situation...", op. cit. , p. 9. A questão sobre a
relação entre filosofia e ciências sociais no programa inicial de Horkheimer
foi discutida por muitos autores. Ver, por exemplo: Söllner, Alfons. Geschichte
und Herrschaft. Eine kritische Studie zum Verhåltnis von Philosophie und
Sozialwissenschaft in der Kritischen Theorie 1929-1942.Frankfurt: Suhrkamp,
1979; McCarthy, Thomas. "The idea of a Critical Theory and
its relation to philosophy". In: Benhabib, Bonß e McCole (eds.), On Max
Horkheimer..., op. cit. , pp. 127-52; Brunkhorst, Hauke. "Dialectical
positivism of happiness: Horkheimer's materialist deconstruction of
philosophy". In: Benhabib, BonßeMcCo-le(eds.), On Max Horkheimer..., op. cit. ,
pp. 67-98.
[12] O tema do materialismo interdisciplinar é central, mas não tenho como
desenvolvê-lo aqui. Sobre esse ponto, ver: Jay, Martin. "Max Horkheimer and the
retreat from hegelian marxism". In: Marxism and totality. University of
California Press, 1984, pp. 196-219; Bonß, Wolfgang. "The
Program of Interdisciplinary Research and the beginnings of Critical Theory".
In: Benhabib, Bonß e McCole (eds.), On Max Horkheimer..., op. cit. , pp. 99-
126; Bonß, Wolfgang eSchindler, Norbert. "Kritische Theorie als
interdisziplinårer Materia-lismus". In: Honnet, A. e Bonß, W. Sozialforschung
als Kritik. Frankfurt/M. : Suhrkamp, 1982, pp. 31-66; Voirol,
Olivier. «Matérialisme interdisciplinaireet critiquedelaculture». In: Noppen,
Pierre-François, Macdonald, Iain e Raulet, Gérard (dirs.). Les normes et le
possible: héritage et perspectives de l'École de Francfort.Paris: Éditions dela
msh, 2012.
[13] Ver Ollman, Bertell. Dance of the dialectic. Steps in Marx's method.
Urbana/Chicago: University of Illinois Press, 2003, pp. 127-54.
[14] Há muitas interpretações conflitantes da história da Teoria Crítica
relacionadas a esse ponto: Helmut Dubiel afirma que esse modelo já tinha sido
abandonado em 1937 (Dubiel, op. cit.); Axel Honneth considera que a íntima
relação entre filosofia e pesquisa social desapareceu após a virada ocasionada
pela Dialética do esclarecimento(ver Honneth, Axel. Critique of
power.Cambridge: The MIT Press, 1988); Alex Demirovi'c
enfatiza a ideia de que essa dialética ainda estava presente na pesquisa
empírica do Instituto, quando de seu retorno para a Alemanha e até a morte de
Adorno em 1969 (Demirovi'c, Alex. Der non konformistische Intellektuelle.
Frankfurt: Suhrkamp, 1999).
[15] Cf. Conhecimento e interesse, posfácio, 1973.
[16] Para algumas prolongadas discussões sobre o modelo de reconstrução de
Habermas, ver: McCarthy, Thomas. Ideals and illusions. Deconstruction and
reconstruction in Critical Theory. Cambridge: The MIT Press, 1993; Outhwaite, William. "Rekonstruktion und methodologischer Dualismus".
In: Müller-Doohm, Stefan (ed.). Das Interesse der Vernunft. Rückblicke auf das
Werk von Jürgen Habermas seit "Erkenntnis und Interesse". Frankfurt: Suhrkamp,
2000, pp. 218-41; Garz, Detlef. "Kritik, Hermeneutik,
Rekonstruktion. Über den Stellenwert der Methode bei Jürgen Habermas". In:
Müller-Doohm, Stefan(ed.). op. cit. , pp. 201-17; Pedersen, Jørgen. "Habermas'
method: rational reconstruction". Philosophy of the Social Sciences, 38, 4,
2008, pp. 457-85.
[17] Eu não teria como discutir aqui as difíceis questões concernentes ao
modelo dualista concebido por Habermas das sociedades modernas (sistema/mundo
da vida) nem as implicações desse modelo no dualismo metodológico, articulando
uma microteoria da racionalidade relacionada a práticas comunicativas como base
da integração social (perspectiva metodológica do participante) e uma
macroteoria de integração sistemática em mecanismos tais como mercado e poder
estatal (perspectiva metodológica do observador). Sobre essa questão, ver
particularmente Outhwaite, op. cit.
[18] Habermas, Jürgen. Between facts and norms. Cambridge: The MIT Press, 1996,
pp. 6-7.
[19] Para uma discussão crítica sobre essa relação, ver Alford, Fred C. "Is
Jürgen Habermas' reconstructive science really science?". Theory and Society,
14, 1985, pp. 321-40; para argumentos em defesa do
transcendentalismo: Kuhlmann, Wolfgang. "Philosophie und rekonstruktive
Wissenschaft. Bemerkungen zu Jürgen Habermas' Theorie deskommunikativen
Handelns". Zeitschrift für philosophische Forschung, 40, 2, 1986, pp. 224-34.
[20]"O que eu aceito como crítica antifundacionista de todo a prioricontundente
e de reivindicações transcendentalistas não veta, entretanto, as tentativas de
colocar as reconstruções racionais de competências supostamente básicas no
banco dos réus nem detestá-las indiretamente empregando-as como contribuições
nas teorias empíricas" (Habermas, J. "Interpretive social science vs.
hermeneuticism". In: Haan, N. e outros (eds.). Social science as moral inquiry.
Nova York: Columbia University Press, 1983, p. 261).
[21] Demodo mais preciso, a reconstrução surge como uma "alternativa teórica"
durante um período crucial no desenvolvimento do trabalho de Habermas (que se
seguiu à publicação de Conhecimento e interesse, no final da década de 1960 e
início da de 1970), situado no cruzamento de três "confrontações" teóricas.
Primeiramente, durante a disputa positivista nas ciências sociais e após ele (e
Adorno) discutirem criticamente a ascensão do tecnocratismo na pesquisa social:
a investigação social é utilizada para desenvolver estratégias aperfeiçoáveis
de resolução de problemas segundo um modelo que torna o papel do cientista
social semelhante ao do engenheiro, escolhendo solução técnicas aperfeiçoáveis
para questões de projeto que são, na realidade, problemas práticos. Em segundo
lugar, as ciências sociais interpretativas aparecem numa primeira fase como um
bom substitutivo do tecnocratismo por causa da importância que elas dão ao
diálogo entre investigador e "outros"e do papel central atribuído à comunicação
simbolicamente estruturada (cf. odebate Habermas/ Gadamer). Apesar das várias
convergências com a hermenêutica, Habermas não concordou com Gadamer sobre
várias questões - a sua exclusiva atenção ao "texto escrito", a ausência de
considerações sobre as de formações da comunicação, bem como a ausência de
crítica - e afastou-se da hermenêutica. Em terceiro lugar, Habermas afastou-se
da ideia de uma autor reflexão crítica baseada no modelo de crítica ideológica,
em favor de uma "crítica reconstrutiva".
[22] Ver Honneth, Axel. "Rekonstruktive Gesellchaftskritik unter genealogischem
Vorbehalt. Zur Idee der 'Kritik' in der Frankfurter Schule". Deutsche
Zeitschrift für Philosophie, 5, 48, 2000, pp. 729-37; Voirol,
Olivier. "Axel Honnethet la sociologie. Reconnaissanceet Théorie critiqueà
l'épreuve de la recherche sociale". In: Caillé, Alain (ed.). La quête de
reconnaissance. Nouveau phénomène social total. Paris: La Découverte, 2007, pp.
243-68; as diferenças entre a ideia de reconstrução normativa
de Honneth e a de reconstrução racional de Habermas foi discutida por
Celikates, Robin. Kritik als Praxis. Frankfurt: Campus, 2009, esp. parte3.
[23] Uma crítica semelhante foi formulada por Fred C. Afford, op. cit.
[24] Se a concepção de Habermas sobre os objetivos da investigação social não
se concentra, primeiramente, nos desenvolvimentos das patologias sociais, isso
ocorre para dar início a processos públicos de deliberação e verificação
prática, bem como para promover as condições de comunicação democrática que
permitam a adequada autor reflexão de todos aqueles que são afetados (ver
Bohman, 2000): o"poder restritivo" surge das verificações práticas dos
resultados da investigação, em um processo público de deliberação.
[25] O modelo metodológico de Habermas pode ser considerado central para a
Teoria Crítica atual, mas podemos ser menos "entusiastas" do que muitos autores
que o consideram uma "superação" definitiva do modelo dialético de Horkheimer
(ver, por exemplo, Baynes, Kenneth. "Rational reconstruction and social
criticism: Habermas's model of interpretive social science in hermeneutics in
ethics and social theory". Philosophical forum, 21, 1-2, 1989, pp. 122-45; Dryzek, John S. "Critical theory as a research program". In:
White, S. K. (ed.). The Cambridge companion to Habermas. Nova York: Cambridge
University Press, 1995, pp. 97-123; Bohman, James.
"Participants, observers and critics: practical knowledge, social perspectives,
and criticalpluralism". In: Rehg, William e Bohman, James(ed.). Pluralism and
the pragmatic turn. The transformation of Critical Theory. Cambridge: The MIT
Press, 2001, pp. 87-114).
[26] Algumas interpretação recentes do programa inicial de Horkheimer estão
abrindo novas perspectivas, ver: Kavoulakos, Konstantinos, "From Habermas to
Horkheimer's EarlyWork: Directions fora Materialist Reconstruction of
Communicative Critical Theory", in Telos,2005, p. 39-62;
Berendzen, J. C. , "Suffering and theory: Max Horkheimer's early essays and
contemporary moral philosophy", in Philosophy & Social Criticism,36, 9,
2010, pp. 1019-1037; Abromeit, John, Max Horkheimer and the
Foundations of the Frankfurt School, Cambridge University Press, 2011.