Um estado para o cosmopolitismo
"Enquanto é claro que a ordem política é uma expressão da ordem
civil, é ao menos igualmente evidente que a própria ordem civil é
apenas a expressão do estado da civilização."
Auguste Comte, Pensées et préceptes
(Comte, 1924, p. 103).
A globalização do mundo é um dado e um fato. A cosmopolitização é um ato e uma
tarefa2. Se o mundo deve ser mais do que um sistema mundial, unificado por um
substrato econômico e tecnológico que atinja o globo, para se tornar um
universo, simbolicamente unificado por uma visão do mundo que coexista com
outras visões do mundo articuladas entre si através de um diálogo intercultural
e de um projeto comum para a humanidade em geral, nós temos que sair do
globalismo rumo ao cosmopolitismo3. O cosmopolitismo pressupõe uma cosmologia,
uma visão englobadora do lugar do gênero humano no universo, e também uma
filosofia da história que delineie uma visão normativa de seu destino e de sua
unidade na diversidade. Em termos mais especulativos, podemos dizer que o
cosmopolitismo representa a verdade da globalização. A cosmopolitização é a
globalização an und für sich [em e para si], para falar como Hegel. É a
resolução dialética da história mundial na qual a globalização se torna
consciente de sua própria alienação em e enquanto sistema mundial
autoperpetuador ("globalização an sich" [em si]) e luta para superar sua crise
numa nova síntese planetária que preserve suas realizações ao dirigi-las para
uma nova direção mais espiritual e mais humana ("globalização für uns" [para
nós]). Como em todas as teorias dialéticas, são o Weltgeist [espírito do mundo]
e a Weltanschauung [visão de mundo] normativa incorporada pelo espírito que
fundamentalmente "direcionam" o curso da história, conduzindo-o e dirigindo-
o adiante em direção à sua verdade final4.
Para a teoria crítica da globalização que analisa a atual conjuntura
geopolítica in weltbürgerlicher Absicht [numa intenção cosmopolita], ou seja, a
partir da perspectiva normativa de uma solidariedade cosmopolita de alcance
mundial, a questão central é como uma ordem mundial justa pode ser estabelecida
e sustentada. Com Paul Ricoeur, mas apurando ligeiramente sua elegante
formulação da eudaemonia, nós podemos descrever a visée de uma ordem mundial
justa enquanto uma boa vida planetária com e para os outros, em instituições
globais justas e num meio ambiente sustentável5. Como sempre, a transição do
normativo para o empírico tem de ser articulada sociologicamente e baseada em
atores coletivos que possam portar o projeto cosmopolita. Para ligar a
filosofia política do cosmopolitismo às abordagens de orientação sociológica da
história global, precisamos de uma "imaginação cosmopolita"6. Em Hegel, o ator
principal que "incorpora" o universal é o Estado. Integrando, prolongando e
superando os conflitos de interesses que dividem a esfera civil (que inclui a
economia ou o "sistema de necessidades"), o Estado é celebrado como o agente da
integração social que unifica a sociedade. Ainda que a glorificação hegeliana
do Estado tenha sido desacreditada pelos horrores do século XX e que, assim,
não seja mais aceitável para nós7, eu penso, todavia, que a reformulação de
Gramsci da Filosofia do direito de Hegel permanece atual e pode iluminar a
conjuntura corrente da política mundial.
Delineando-se a partir da análise de Gramsci da hegemonia e das inter-relações
complexas entre o Estado e a sociedade civil, este artigo explora a tese de que
o Estado ainda é um ator político crucial e que pode, porventura, atuar como um
conversor ou comutador num projeto contra-hegemônico de globalização. Essa tese
é pensada enquanto uma alternativa à hipercrítica do neoliberalismo, que é
corrente na esquerda e se tornou não somente bolorenta e redundante, mas
também, desde a crise financeira, se não já antes, refutada pela história. Ao
invés de uma análise crítica da conjuntura atual, chega-se, tipicamente (em
textos de estudantes, por exemplo), no primeiro parágrafo, a uma denúncia
panfletária do capitalismo global - com os dedos apontados para os usuais
suspeitos (FMI, OMC, Banco Mundial etc.) - e, na conclusão, a uma invocação
altamente ritualista dos movimentos antiglobalização, vistos como um novo
avatar do proletariado. Diante das denúncias grandiloquentes e das
autocelebrações de um "marxismo automático" que tem perdido o contato com a
realidade, este artigo propõe uma alternativa teórica que enfoque as
capacidades transformadoras do Estado dentro da política global.
O artigo está dividido em três partes. Na primeira parte, observo as três
gerações de estudos globais e argumento, com a teoria alemã dos sistemas, que a
globalização não implica o fim do Estado, mas sim o início da época pós-
nacional. Na segunda parte, apresento a política mundial como um sistema
multinível de governança. Numa tentativa de tornar mais dinâmico o relato de
Habermas da constitucionalização do direito internacional, foco o papel dos
movimentos sociais, que fazem com que as questões se movam da camada mais baixa
para a mais alta da política mundial. Finalmente, na última parte, proponho uma
reformulação neogramsciana da teoria do Estado Cosmopolita de Ulrich Beck.
Sugiro que, em aliança com a sociedade civil, o Estado cosmopolita pode mudar o
mundo.
A GLOBALIZAÇÃO DO ESTADO
Para qualquer teoria do presente digna desse nome, o fato da globalização é
como um axioma. Com usual autossegurança, Peter Sloterdijk8 afirma que esse
fato é "o primeiro e único pressuposto" da teoria social e política
contemporânea. Em sua mais concisa definição, a globalização refere-se a uma
sistemática "mudança de escala das sociedades"9. Essa mudança de escala
intervém quando imensos fluxos de capital, bens, serviços, pessoas,
informações, tecnologias, políticas, regulações, ideias, signos e imagens
tornam-se integrados em redes globais que transcendem os Estados-nação. Fluxos
desterritorializados e redes transnacionais são os elementos constitutivos de
qualquer teorização da globalização. Os fluxos desterritorializados referem-se
aos processos dinâmicos de transmissão de informação (num amplo sentido)
através das fronteiras, ao passo que as redes transnacionais se referem à malha
resultante de nódulos e elos que interconectam os fluxos numa estrutura
autorreprodutora que permanece invariável através de suas transformações.
Enquanto tal, a globalização não tem nada de novo. O advento das religiões
mundiais na Era Axial, o colonialismo e a ascensão do sistema-mundo capitalista
no longo século XVI, a invenção do liberalismo e do socialismo no século XVIII
e as duas Guerras Mundiais no século XX são fenômenos globais desde o seu
início. Entretanto, todos os indicadores sugerem que a profundidade, o alcance
e a velocidade das ligações e interconexões através, sobre e abaixo dos
Estados-Nação aumentaram bastante dramaticamente desde a Segunda Guerra Mundial
e que eles desencadearam efeitos sistêmicos de emergência no nível global.
Podemos distinguir convencionalmente duas eras da globalização na civilização
moderna: a primeira, que vai aproximadamente de 1850 a 1914, caracterizada
sobretudo pela integração da finança e do comércio mundial, epitomada pelo
"padrão ouro"; a segunda, que decola do recesso do interbellum e leva, através
da integração dos vários subsistemas, a um sistema mundial emergente10. A
título de dramatização, eu me refiro a esse processo universal de integração
sistêmica como a "globalização da globalização".
Seguindo a teoria alemã dos sistemas, o sistema mundial pode ser compreendido
como o sistema social englobador, que inclui todas as comunicações que podem se
comunicar com cada outra através de meios simbólicos generalizados, formando um
único sistema autorreferencialmente fechado11. A partir do fato de que todas as
comunicações são, por definição, inclusas no sistema mundial, e de que o
sistema mundial inclui nada mais nada menos que comunicações, os luhmannianos
concluem que o sistema mundial, ou a sociedade mundial, como preferem chamá-la,
"é realmente a única sociedade existente na Terra"12.
A existência de um simples sistema mundial não significa, entretanto, que a
globalização tem de ser analisada en bloc, monoliticamente, como se tudo fosse
determinado, em última instância, por um simples fator, como, por exemplo, a
economia ou a tecnologia. O sistema mundial poderia ser unificado, funcionando
como uma simples unidade em tempo real; porém, como um sistema sistematicamente
integrado - ainda que funcionalmente diferenciado - ele é bastante fragmentado.
Não somente a economia, mas também a ciência, a tecnologia, os sistemas de
saúde, os serviços sociais, o setor militar, os meios de comunicação, o turismo
e, também, os esportes, são hoje em dia sistemas mundiais autopoiéticos
autorreprodutores. Liberados do enraizamento territorial, os sistemas
funcionais se interconectam para formar "sistemas laterais" globais autônomos
que, na ausência de um centro de controle, ninguém dirige13. Assim, do ponto de
vista da teoria dos sistemas, a globalização tem de ser concebida tanto como
uma teoria de um único sistema mundial quanto como uma teoria de subsistemas
globais que são funcionalmente diferenciados.
A emergência dos global studies como um subcampo interdisciplinar altamente
especializado com suas próprias bibliografias é um sinal de maturidade. Dentro
dos estudos globais, três (e, talvez, até quatro) gerações se sucederam num
curto espaço de tempo. A primeira geração de estudiosos enfatizou a dimensão
econômica e analisou a globalização enquanto a radicalização dos processos de
modernização. Como uma sequela do debate sobre o pós-modernismo, o "grande
debate da globalização", que opôs retoricamente "céticos",
"hiperglobalizadores" e "transformalistas"14, desvaneceu e abriu caminho, no
final da década de 1990, a uma análise sóbria e factual. Ela não mais reduz a
globalização a sua dimensão econômica, pois leva também em consideração as suas
dimensões política, jurídica, tecnológica, cultural e subjetiva, na medida em
que tenta integrá-las num modelo mais sistemático e unificado de mudança
social.
Se a segunda geração foi bem-sucedida ao formular uma visão multidimensional da
globalização, ela permaneceu, no entanto, presa a uma concepção relativamente
simplista da relação entre a economia e o Estado. A visão convencional da
globalização reinventou a "tese da convergência" das teorias da modernização e
assumiu que todas as economias chegariam, mais cedo ou mais tarde, a uma versão
comum do capitalismo de mercado. Tomando o neoliberalismo nos seus próprios
termos, ela enfatizou a dominação do mercado, a desregulação da economia e o
enfraquecimento do Estado. Da mesma forma que a primeira geração teve uma visão
monolítica da globalização, a segunda geração teve uma visão monolítica da
economia e pouco considerou as "variedades de capitalismo" existentes15 nos
mundos desenvolvido e em desenvolvimento. Como nas teorias da modernização, de
Parsons a Giddens e Habermas, ela foi generalizada do Ocidente para o resto do
mundo. Tomando o modelo anglo-americano de economia de mercado liberal como
modelo-padrão de desenvolvimento econômico mundial, negligenciou o papel
regulador e coordenador que o Estado cumpre dentro do capitalismo. A despeito
de todas as suas divergências ideológicas, os analistas marxistas e neoliberais
parecem concordar num ponto: a globalização implica o fim da soberania e do
Estado.
A terceira geração dos estudos globais contesta essa interpretação simplista e
reintroduz o Estado como um ator estratégico dentro de um processo
multidimensional de globalização. Propondo uma "agenda pós-neoliberal" de
pesquisa e desenvolvimento, ela busca conceituar e analisar as políticas de
globalização através de uma investigação das relações complexas entre o
mercado, o Estado e a sociedade civil16. De fato, os países emergentes mais
bem-sucedidos (China, Índia, Brasil, entre outros) são os únicos que não
seguiram a agenda do "consenso de Washington", ao passo que aqueles que o
fizeram (EUA, Irlanda e Argentina, por exemplo) foram mais duramente atingidos
pela crise financeira. Como as crises financeiras ainda não terminaram, é ainda
demasiado cedo, sem dúvida, para considerar as análises mais recentes da
globalização como uma quarta geração. A sucessão de crises financeiras num
ritmo rápido (a crise americana do subprime de 2008 e a crise europeia da
dívida de 2010), assim como a reflação do sistema financeiro através de
intervenção estatal massiva (1 trilhão de dólares nos EUA e quase a mesma
quantia na Zona do Euro em 2010), não significou apenas que o neoliberalismo
chegou, finalmente, ao fim. A instabilidade do capitalismo contemporâneo em
todas as suas variantes sugere também que um retorno para uma investigação do
capitalismo tout court é oportuna, embora não tenhamos necessidade de excluir a
hipótese de que a crise está desencadeando uma reorganização do capitalismo. De
modo mais geral, a crise recorrente pode muito bem indicar uma alteração
geopolítica no poder global do "velho mundo" para o "novo mundo". Do ponto de
vista do antigo centro do sistema-mundo, a globalização aparece não tanto como
o amanhecer de uma nova época da civilização quanto como o declínio da velha -
que não é mais a força globalizante principal, mas sim a globalizada. O
declínio relativo do Ocidente é somente o outro lado da ascensão absoluta do
Oriente (China e Índia).
Argumentando com a terceira geração dos estudos globais, pretendo, neste
artigo, contestar a tese do "eclipse" do Estado e sugerir que vias alternativas
de globalização somente são possíveis se e quando a sociedade civil entrar em
aliança com o Estado, usando sua influência em fóruns internacionais para mudar
a agenda global17. Todavia, antes de propor minha tese principal, apresentarei
três argumentos em favor do Estado.
O primeiro argumento vem da sociologia histórica. Embora o Estado tenha
realmente sofrido ataques dos mercados, não se deveria esquecer que o próprio
Estado-Nação é uma invenção relativamente recente. Territorialidade, monopólio
da violência legítima, exércitos permanentes, administração, produção e
execução de leis, fiscalização, estradas, educação, cultura nacional,
pacificação internacional, relações diplomáticas entre estados, passaportes,
todas essas características do Estado espalharam-se pelo mundo só nos últimos
dois ou três séculos. O fato de que hoje há mais Estados do que jamais houve
testemunha a globalização do Estado, não a sua falência. Hoje, mesmo os Estados
autodeclarados islâmicos, como o Irã e a Arábia Saudita, que juram pela ummah,
a comunidade mundial de muçulmanos, institucionalizaram o formato do Estado-
Nação. Se pelo menos os economistas políticos tivessem consultado os sociólogos
historiadores do Estado! Se eles tivessem lido Perry Anderson, Michael Mann ou
mesmo Anthony Giddens, teriam chegado, sem dúvida, a conclusões diferentes18. A
difusão e a institucionalização do Estado-Nação, e não sua falência, aparece
realmente como o fato decisivo da política mundial.
O segundo argumento vem da economia política internacional. Não se deve
esquecer que as condições institucionais para a emergência do livre mercado
são, em última instância, garantidas pelo Estado. Sem Estado, não há livre
mercado. "O mercado é planejado", como disse celebremente Polanyi19, e isso
explica por que o neoliberalismo não é apenas uma ideologia do mercado, mas
também um programa transnacional de governamentalidade que se infiltra no
Estado para liquidar (ou liquidificar) seus aparatos. Desde a Segunda Guerra
Mundial, a economia política internacional é dominada pelos Estados Unidos, um
Estado hegemônico que é liberal em orientação e incentiva o livre mercado.
A "teoria da politeia mundial" [world polity theory] projeta os EUA para o
mundo e universaliza a visão mundial hegemônica. John Meyer20 e seus colegas de
Stanford convidam-nos a imaginar a descoberta de uma sociedade desconhecida
numa ilha desconhecida. O que mudaria posteriormente nessa ilha? Um Estado
democrático emergiria e seria reconhecido por outros Estados, aos habitantes
seria concedida toda uma gama de direitos e, claro, especialistas
internacionais seriam consultores do governo e sugeririam o pacote político
costumeiro para racionalizá-lo. Embora a teoria da politeia mundial não
explicite que a ilha seguiria por linhas neoliberais, podemos, todavia, esperar
que sob o disfarce da globalização a economia nacional seria aberta para o
mundo e liberalizada para assegurar a competição.
Mas nem todas as economias capitalistas são "economias de mercado liberal" que
se fiam numa "mão invisível" para coordenar o empenho dos atores principais.
Pesquisa comparativa recente sobre o capitalismo demonstrou que, mesmo em
países desenvolvidos, como Alemanha e Japão, há um modelo alternativo em que os
empenhos não são coordenados pelo mercado, mas sim por arranjos
neocorporativos, nos quais o papel do Estado é o de facilitador e regulador
para a realização de decisões consensuais nos principais setores da economia21.
O sucesso de "economias de mercado coordenado" sugere que a existência de um
Estado forte pode muito bem ser uma vantagem comparativa numa economia
globalizada. A ascensão dos Tigres Asiáticos é um caso interessante que
desmente a tese do eclipse do Estado. Ao invés de serem enfraquecidos pelo
mercado, os "Estados desenvolvimentistas" intervieram ativamente no setor
produtivo da economia para torná-lo mais competitivo, implementar mudanças
estruturais e garantir um crescimento econômico estável22. Para os Tigres
Asiáticos, a economia de mercado não é um fim em si mesmo, mas somente um meio
para um maior desenvolvimento. O caso da China vai na mesma direção, mas é mais
enigmático. O Estado encoraja a propriedade privada e implementa reformas de
mercado, mas, paradoxalmente, esta parece ser parte de uma estratégia
nacionalista que usa o mercado para reforçar o poder do Estado.
Meu último argumento reconecta a terceira geração dos estudos globais à
conjuntura histórica e interpreta o fim do neoliberalismo como um sinal dos
tempos. Mudanças de perspectivas teóricas são expressões de mudanças reais no
Estado. Se o Estado fez seu retorno nas agendas de pesquisa, isso poderia ser
porque, no mínimo, o neoliberalismo já teria atingido o seu esgotamento. Duas
ondas de neoliberalismo (o thatcherismo e o reaganismo na década de 1980,
seguido pelo Consenso de Washington na década seguinte) pilharam o mundo,
especialmente o Terceiro Mundo, onde dois terços da população vivem na pobreza.
A implementação, pelo FMI, de um "receituário econômico" engatilhou uma
sequência de crises das economias nacionais na Ásia e na América Latina.
Agitações globais e uma guerra minaram ainda mais o neoliberalismo, tanto como
ideologia quanto como política. A concentração massiva de "complexos
industriais militares" nos EUA (e alhures) confirma, de uma maneira mais
perversa, o atual embaralhamento entre Estado e mercados. Por último, mas não
menos importante, a crise financeira e a intervenção massiva dos Estados para
estabilizar os mercados globais botaram abaixo a ortodoxia neoliberal com uma
desforra, embora não possamos desconsiderar que o novo fiscalismo na Zona do
Euro e na Inglaterra está desmantelando o Estado de Bem-Estar em tempo recorde
e sem a ideologia do livre mercado.
A globalização não implica o fim do Estado, mas, de acordo com o espírito
cosmopolita, penso que ela enfraquece a nação e pode, dessa forma, ser um
primeiro passo em direção à emergência de genuínos Estados pós-nacionais.
Invocando, mais uma vez, a teoria dos sistemas, que permite analisar de forma
diferente a globalização, podemos observar uma desconexão entre os processos
sociais e políticos. Ao passo que os sistemas sociais e subsistemas, como a
economia, a ciência, a religião, o direito e a educação, são funcionalmente
diferenciados, o sistema político é ainda predominantemente estruturado através
de diferenciação segmental e opera numa base territorial nacional23.
Diferentemente dos sistemas sociais funcionalmente diferenciados, os sistemas
segmentares têm um centro claro e alto que "dirige" o sistema social como um
todo. A organização segmentar do sistema político dentro de uma sociedade
mundial funcionalmente diferenciada significa que um sistema político é
circundado em seu ambiente por subsistemas políticos segmentados. Dentro da
sociedade mundial, o sistema político organiza suas operações usando a
distinção entre assuntos internos/ nacionais e externos/ transnacionais, com o
resultado de que todos os assuntos políticos (incluindo a política da economia,
da ciência, do direito, etc.) são automaticamente referidos ao Estado, a fim de
serem processados por seus aparatos especializados.
Do ponto de vista do subsistema político, a globalização significa, primeiro e
principalmente, a desnacionalização do Estado24. A desnacionalização
reconfigura o Estado dentro de um ambiente transnacional e força-o a governar
para além do nível nacional. Enfraquecendo o hífen do Estado-Nação, a
globalização desliga e desconecta a nação do Estado. Essa desconexão não deve
ser entendida como um jogo de soma zero, por meio do qual os níveis nacional e
transnacional são vistos como mutuamente exclusivos. Ao contrário, nacional e
transnacional estão enganchados, enredados e são mutuamente constitutivos. Para
reproduzir ou transformar o Estado, as redes transnacionais têm de trabalhar
com o Estado e através dele, da mesma maneira que o Estado tem de trabalhar com
as redes e através delas, a fim de reproduzi-las ou transformá-las. De forma
mais positiva, a desconexão da nação e do Estado nos abre a possibilidade de
uma refutação prática das teses neorrealistas, classicamente formuladas por
Morgenthau, de que "na política, a nação, e não a humanidade, é o fato
último"25. Com a desconstrução do hífen do "Estado-Nação", um genuíno
reempoderamento do Estado numa ordem cosmopolita pode ser vislumbrado. Quando a
tensão entre o universalismo do Estado constitucional e o particularismo da
nação é relaxada em proveito do primeiro, o Estado pode verdadeiramente tornar-
se um "Estado cosmopolita" e perseguir o seu papel além de suas fronteiras,
como é presumivelmente o caso da União Europeia, e sem estar preso pelas
limitações do imaginário social de um laço primordial entre o Estado e seus
súditos26.
GOVERNANÇA GLOBAL SEM GOVERNO MUNDIAL
Até muito recentemente, o "diplomata" e o "soldado" eram os únicos atores
reconhecidos nas relações internacionais27. Embora o campo das relações
internacionais permaneça seduzido como sempre por uma perspectiva realista que
somente reconhece Estados soberanos competindo como atores, muitos
pesquisadores aceitam agora o argumento de Rosenau28 de que o mundo deixou
definitivamente para trás o sistema westphaliano, teorizado por Grotius e
baseado na soberania do Estado e no direito internacional, e entrou no estágio
da "política pós-internacional", em que múltiplos atores estatais e não
estatais em diferentes níveis (da ONU ou da Cruz Vermelha às empresas jurídicas
internacionais e à ramificação local da Anistia Internacional) estabelecem a
agenda política, fazem o direito e solucionam os dilemas da ação coletiva. A
"governança global", para usar um termo consagrado, deve ser compreendida como
uma rede multinível complexa ou como uma "miscelânea [salmagundi] de linhas de
poderes governamentais múltiplas, altamente móveis e intersectadas"29. Ela é um
sistema fragmentado de instituições subestatais, estatais e supraestatais
enganchadas e sobrepostas e de processos multidimensionais que interagem e têm
efeitos políticos e sociais em escala global.
A sociedade mundial pode, contudo, ser mais bem descrita como um sistema de
três camadas de governança.
Na ausência de um governo mundial, encontramos no mais alto nível do sistema
mundial uma única organização: a Organização das Nações Unidas. A ONU não é um
Estado, mas um ator supranacional composto de todos os Estados existentes do
mundo e por eles autorizado para intervir em assuntos bem definidos de
interesse global, sobretudo a guerra, a paz e os direitos humanos.
No nível intermediário, encontramos uma confusão transnacional de redes
governamentais e não governamentais de todos os tipos que participam da
política pública global. Composto de corpos intergovernamentais, atores
corporativos, organizações não governamentais, redes de ativistas e comunidades
epistêmicas, a governança global é um sistema complexo de múltiplos níveis,
camadas e atores. De acordo com Anne-Marie Slaughter30, o Estado unitário deu
lugar, num nível intermediário, ao "Estado desagregado", no qual uma miríade de
funcionários públicos nacionais, burocratas, tecnocratas, especialistas e
juízes buscam regular questões técnicas globais referentes ao comércio, às
comunicações, à saúde, à segurança e à poluição, dentre outras, compartilhando
informações, harmonizando regras e coordenando políticas. Esses corpos
intermediários não são necessariamente despóticos, mas, na medida em que são
tecnocráticos e lidam com questões políticas, carecem de legitimidade
democrática.
Olhando os processos de produção legal, Gunther Teubner31 observou a emergência
de uma ordem legal global insulada do Estado. "A globalização da lei cria uma
multiplicidade de processos de produção legal descentrados em vários setores da
sociedade civil, independentemente dos Estados-Nação. A padronização técnica, a
produção profissional de normas, os direitos humanos, a regulação
intraorganizacional em empresas multinacionais, contratando arbitragem e outras
instituições da lex mercatoria, são formas de produção legal por 'governos
privados' que apareceram numa escala global massiva."
Por fim, no nível mais baixo, encontramos os Estados-Nação do mundo, com seus
parlamentos, ministérios e outros aparatos legais, que executam a política
doméstica, administram o território nacional e defendem seus interesses contra
outros Estados. No contexto global, o nível mais baixo do Estado-Nação pode
perder algo de sua capacidade regulatória para os níveis mais altos de
governança; todavia, ele permanece o único ator democraticamente legitimado e
legalmente autorizado por seu eleitorado para governar. A questão agora é se a
democracia pode ser estendida do nível do Estado para o nível das relações
internacionais. O projeto cosmopolita32 confirma enfaticamente essa
possibilidade e afirma que a democracia necessita ser realizada como uma forma
de governança global em três diferentes níveis interconectados: dentro dos
Estados, entre os Estados e no nível mundial.
Em uma ambiciosa tentativa de atualizar o projeto kantiano para uma
confederação de Estados republicanos, Jürgen Habermas33 apresentou recentemente
um esboço de uma constituição cosmopolita que transforma a lei internacional de
um direito dos Estados para um direito dos indivíduos34. Ele esboça sua visão
da governança de uma sociedade mundial sem governo mundial em um sistema de
três camadas com múltiplos atores, para os quais aloca diferentes funções.
No mais alto nível da organização mundial, a onu deveria limitar-se
essencialmente a duas funções vitais bem determinadas, as quais deveria
realizar imparcialmente e, sobretudo, efetivamente. Essas duas funções são a
salvaguarda da paz internacional e a aplicação dos direitos humanos, se
necessário contra "Estados delinquentes", através de intervenções humanitárias.
Embora eu concorde com o intento de Habermas, penso, entretanto, que a ONU
também deveria ser autorizada a lidar com questões morais que devem ser
reguladas em nome da humanidade como tal. Boaventura de Sousa Santos35reagrupa
essas questões sob o título de ius humanitatis, o qual toma o próprio globo
como o objeto de sua regulação. Penso não somente na erradicação da fome e da
pobreza extrema, como estabelecido nas Metas de Desenvolvimento do Milênio, mas
também no mordomeio [stewardship] da natureza e na preservação dos recursos
naturais que são propriedade comum da espécie humana, como a água e a energia.
A solução dessas questões colide com dois princípios fundamentais do paradigma
dominante do direito: a propriedade, sobre a qual o sistema capitalista mundial
se baseia, e a soberania, sobre a qual o sistema intraestatal se funda.
Estimando que essas questões são demasiado políticas para serem
satisfatoriamente resolvidas por unanimidade, Habermas as relega à segunda fila
do sistema mundial. Composta de uma junção emaranhada de agências
governamentais e não governamentais, essa selva impenetrável de acrônimos
soluciona não apenas problemas técnicos, mas também problemas políticos que
confundem a divisão entre política internacional e doméstica. Essas questões
"intermésticas" [intermestic issues] são as questões globais da ordem do dia
que exigem regulação e uma legislação no nível transnacional: acima de tudo, as
questões econômicas de redistribuição social e de re-regulação do mercado
(política econômica e financeira), mas, também, desafios técnico-científicos da
sociedade de risco (políticas ecológica e energética). Demasiado importantes
para serem deixadas para burocratas e tecnocratas, essas questões necessitam da
legitimidade de políticos democraticamente eleitos para serem resolvidas de
maneira bem-sucedida. O problema, entretanto, é que a democracia é apenas
efetiva no âmbito nacional, e até agora nem atores coletivos nem fóruns
institucionais existem para lidar apropriadamente com essas questões de
"política doméstica mundial" [Weltinnenpolitik]. Pensando a respeito da União
Europeia, Habermas estima que esses atores globais têm de ser constituídos em
nível regional enquanto uma federação cosmopolita de Estados-Nação. Isso nos
leva para o terceiro nível do Estado-Nação: "Se os Estados-Nação querem atuar
no papel de portadores coletivos de política doméstica no nível global e obter
a capacidade de ação de atores globais, realizando, dessa forma, a legitimação
democrática pelos resultados de acordos transnacionais, eles devem crescer além
de meras formas intergovernamentais de cooperação"36.
A proposta de Habermas é interessante, mas é demasiado estática em minha
opinião. Ela falha ao especificar as inter-relações entre o Estado, a sociedade
civil e o mercado, e não tem suficientemente em conta o papel que os movimentos
sociais transnacionais e as redes de advocacia desempenham na governança
global. Estudos recentes em relações internacionais têm destacado os caminhos
nos quais atores não estatais podem mudar os interesses e as identidades dos
Estados e das organizações internacionais37. Usando a lingua franca dos
direitos humanos (em sentido amplo, compreendendo não apenas direitos políticos
e civis, mas também direitos sociais, econômicos, culturais e ecológicos), os
movimentos sociais "enquadram" [frame] questões como questões globais, exercem
pressão normativa sobre os Estados-Nação, e os persuadem a endossar
publicamente suas posições em fóruns internacionais e a trazer as questões que
eles defendem para a agenda internacional.
A influência das redes transnacionais sobre os Estados-Nação é particularmente
útil quando os movimentos locais são confrontados com Estados não democráticos,
repressivos ou de alguma forma não responsivos. Quando um Estado é
relativamente imune à pressão local direta, e ativistas ligados a outros
lugares têm melhor acesso aos seus próprios governos ou às organizações
internacionais, eles podem engatilhar um "efeito bumerangue, que dobra a
indiferença e a repressão em torno do Estado local para pôr pressão estrangeira
sobre as elites políticas locais"38. Dentro de uma sociedade global de
múltiplas camadas e níveis, os movimentos sociais têm de intervir em todos os
níveis ao mesmo tempo39.
A externalização da disputa doméstica e a formação de coalizões transnacionais
duráveis que possam pressionar os Estados e as organizações internacionais são
os mais fortes sinais de que uma fusão de políticas nacionais, internacionais e
transnacionais tem tomado lugar. Quando a coordenação das ações coletivas
ocorre em níveis diferentes de onde começaram, uma "mudança de escala" vem à
tona40. Retornando a Habermas, quero frisar que os movimentos sociais bem-
sucedidos fazem as questões se "moverem" de baixo da sociedade civil, via a
camada média do Estado, para o alto da ONU, e daí, via uma cascata de
organizações e associações intermediárias, de volta para os núcleos de base. Ao
introduzirmos os movimentos sociais como "motores" e "agitadores" das questões
políticas, tentamos pôr em movimento a divisão tripartite de Habermas e
dinamizamos sua visão da política mundial.
HEGEMONIA E O ESTADO COSMOPOLITA
Para teorizar as relações dinâmicas entre o Estado, a sociedade civil e o
mercado, buscarei inspiração, num primeiro momento, na filosofia da práxis de
Antonio Gramsci e, então, num segundo momento, sairei da companhia do
prisioneiro italiano para me unir à sociologia cosmopolita de Ulrich Beck.
Defenderei a tese geral de que um Estado cosmopolita pode entrar em aliança com
a sociedade civil e atuar como um conversor num projeto contra-hegemônico de
globalização. Como dizem Cardoso e Faletto41: "O Estado é o carrefour por onde
passa a história contemporânea".
De uma perspectiva gramsciana, a globalização é para ser concebida como uma
totalidade dinâmica de relações de força emaranhadas em diferentes níveis42.
Esses níveis compreendem as relações internacionais entre os Estados (relações
de dependência e de soberania dos Estados nos sistemas geopolíticos), as
relações objetivas nas sociedades (relações de produção e o grau de
desenvolvimento das forças produtivas nas formações sociais que definem uma
civilização) e, finalmente, as relações de força política situadas no Estado
(relações de hegemonia, isto é, o complexo de relações de dominação e de
liderança intelectual-moral entre o Estado e a sociedade civil).
Com o filósofo da práxis, eu parto da suposição de que "a situação
internacional deve ser considerada em seu aspecto nacional"43. Considerar a
situação internacional em seu aspecto nacional significa empregar um zoom sobre
o Estado a fim de analisar as relações de força e hegemonia no complexo Estado/
sociedade civil. O Estado é o lugar onde a hegemonia é construída e
consolidada. Seguramente, o ponto de chegada é o internacionalismo, mas, como o
Estado é considerado um ponto crucial de transição que deve ser empenhado para
uma ordem mundial cosmopolita, o ponto de partida é o Estado.
Se o mundo está para se mover do globalismo para o cosmopolitismo, as
representações simbólicas de mundo devem ser articuladas e alianças
transformadoras devem ser formadas com o intuito de contestar a representação
do mundo como um sistema mundial (e não como um universo, isto é, como uma
unidade na diversidade). A globalização é um jogo "metapolítico" por hegemonia,
e, como tal, é uma luta por corações e mentes baseada numa visão ético-política
do mundo ("a boa vida planetária com e para os outros em instituições globais
justas e num ambiente sustentável"). Diferentemente da dominação, a hegemonia é
a forma de poder "suave" ou "simbólico", que é baseada não apenas em coerção,
mas também em consentimento44. Como forma de constituição do mundo baseado em
classe, que é fundada em última instância nas relações de produção, a hegemonia
estrutura, imediatamente, a forma do Estado e, também, mediatamente, a forma da
ordem mundial. De acordo com Gramsci, o Estado deve ser concebido como algo
"integral"45. Ele inclui não somente o aparato estatal, mas também as
associações da sociedade civil. Isso é evidente na famosa fórmula dos Cadernos
do cárcere: "Estado = sociedade política + sociedade civil"46. Em última
instância, a luta por hegemonia é uma luta pelo Estado em sua relação com a
sociedade civil. Dependendo das relações sociais entre as diferentes frações de
classe, o Estado toma uma forma definida. Diferentes constelações são
possíveis, no entanto, quando uma classe estabelece sua hegemonia sobre outras
classes, um "bloco histórico" (blocco storico) é constituído. O último conceito
refere-se à constelação histórica contingente que funde os elementos
econômicos, culturais e políticos da sociedade numa aliança ou coalizão
política, "trazendo não somente um uníssono dos propósitos políticos e
econômicos, mas também a unidade intelectual e moral [...] num 'plano
universal'"47.
Se a abordagem neogramsciana das relações internacionais nos ensina que "a
tarefa de mudar a ordem mundial se inicia com o longo e laborioso esforço para
construir novos blocos históricos dentro das fronteiras nacionais"48, a
perspectiva cosmopolita em sociologia estende essa visão e insiste que o Estado
deve abrir-se às demandas da sociedade civil e tornar-se um "Estado-
transnacional", que persegue suas políticas na cooperação com outros Estados em
nível regional. Com Ulrich Beck49, podemos, um tanto esquematicamente, conceber
a política mundial como um "metajogo", no qual três atores rivalizam pelo
poder: a economia global, o Estado e a sociedade civil transnacional.
Dependendo da forma do Estado, que é determinada pelo campo mais amplo das
relações sociais nas quais está incorporada, duas constelações podem ser
distinguidas: uma hegemônica e outra contra-hegemônica. Ou a economia global
captura o Estado transformando-o a partir de dentro para seus próprios
propósitos ou, alternativamente, a sociedade civil global entra em aliança com
o Estado persuadindo-o a mudar suas políticas de modo a se tornar um Estado
cosmopolita.
Vejamos como isso funciona na grande teoria cosmopolita da "política doméstica
global" de Beck50. A economia global não é nem ilegal, nem legítima, mas
"translegal". O capital transnacional atua como um ator global que possui e
exerce poder político, não diretamente, mas indiretamente, ameaçando os
governos nacionais de retirar seus negócios caso eles não satisfaçam suas
demandas por flexibilidade e rentabilidade. Atuando como um tipo de partido
político transnacional, ele é capaz de impor sua própria visão hegemônica do
mundo como um mercado desregulado e de perseguir suas próprias políticas
antidemocráticas atravessando os limites nacionais, e minando, nesse processo,
o Estado de Bem-Estar.
Alerta às tendências imperiais do mercado, à mudança climática iminente e ao
desempoderamento do Estado, a sociedade civil reage, com um clamor orquestrado,
por justiça global. Impulsionada pela percepção de que os riscos globais
ameaçam todas as sociedades, se não a própria sobrevivência da humanidade, a
sociedade civil combate a despolitização do Estado com uma chamada para a ação.
Uma esfera pública transnacional emerge, de acordo com Beck, como uma feliz,
ainda que largamente não intencional, consequência de riscos econômicos globais
(pobreza extrema, desigualdade crescente e crises financeiras), de ameaças
ecológicas (aquecimento global e perdas de biodiversidade e de ecossistemas) e
riscos políticos (guerra, terrorismo e "Estados trapaceiros")51. É a "lei das
consequências duplas: a sociedade mundial de risco engendra consequências de
primeira ordem - riscos calculáveis e incertezas que são difíceis de serem
calculadas - que, então, criam esferas públicas que transcendem as
fronteiras"52.
Ao passo que o capital transnacional tem o poder, mas não a legitimidade, de
mudar o mundo, a sociedade civil tem o suporte da opinião pública, mas não o
poder para efetuar mudanças. Eis o paradoxo do poder e da legitimidade:
movimentos sociais transnacionais, ONGs e redes de ativistas que advogam os
direitos humanos representam a humanidade e falam em seu nome, mas, quando
criticam as falhas do Estado e do mercado que levam aos riscos globais, são
autodesignados e não eleitos. "[Eles] são", como Brunkhorst53 diz, "eleitos por
ninguém e representam o 'povo' global apenas contrafactualmente e
advocaticiamente".
Para superar a tensão entre, por um lado, a autoautorização e a deslegitimação
dos Estados e dos atores econômicos globais e, por outro lado, a
autolegitimação de suas práticas advocatícias, a sociedade civil tem de entrar
numa aliança com o Estado. É somente quando este se abre para as demandas da
sociedade e se globaliza a partir de dentro, que seu poder pode ser combinado
com a legitimidade da sociedade civil numa "política doméstica global" efetiva
que enfrente a hegemonia corrente. "A fim de obter capacidade transnacional
para a ação, tanto quanto novas fontes de legitimidade global e poder, o Estado
tem que se abrir para uma fusão com a sociedade civil global."54 O Estado que
incorpora as demandas da sociedade civil e que se liga com outros Estados para
solucionar os problemas globais da ordem do dia é chamado de "Estado
cosmopolita"55.
O verdadeiro Estado cosmopolita pode atuar como um conversor na política global
e contribuir para a emergência de bloco histórico contra-hegemônico no nível
transnacional. As estratégias dos movimentos sociais são de duas frentes. Por
um lado, eles utilizam os canais usuais de política doméstica, na esperança de
influenciar as posições dos governos nacionais, mudando, dessa forma, o balanço
do poder nos organismos internacionais. Por outro, buscam reconhecimento formal
pelo Estado enquanto representantes da sociedade civil nos fóruns
internacionais. Como membros consultivos de delegações nacionais em encontros
internacionais, entram no emaranhado das organizações governamentais e não
governamentais, democratizando, assim, os circuitos de governança global. De
toda forma, para mudar o mundo, os movimentos sociais não podem limitar as suas
ações à rejeição por atacado, a partir de fora, do sistema existente. Adotando
a estratégia do "entrismo radical" (Trotsky), eles têm de envolvê-lo a partir
de dentro e preparar a si mesmos pela "longa marcha através das instituições"
(Dutschke). Todo o ponto do transformismo radical é desconstruir as oposições
binárias e tornar as alianças alternativas possíveis. Não vejo nenhuma razão
para que alianças entre sociedade civil e mercados globais devam ser excluídas
a priori. Por que nós deveríamos assumir que as corporações transnacionais não
podem ser moralizadas e que elas permanecem, por definição, impenetráveis aos
direitos humanos? Por que nós deveríamos presumir que as organizações
multilaterais, como o FMI e a OMC, são homogêneas e não podem ser reformadas a
partir de dentro por economistas heterodoxos?
O Estado cosmopolita transcende a si mesmo enquanto Estado-Nação e usa seu
poder no nível transnacional para ganhar de novo o que perdeu do poder no
processo de globalização. Problemas globais não podem mais ser solucionados no
nível nacional, mas somente no nível transnacional, através de cooperação com
outros Estados, tanto quanto com a multiplicidade de atores governamentais e
não governamentais da governança global. Exagerando um pouco, podemos dizer que
"o Estado [cosmopolita] é o mais recente movimento social"56.
As políticas ecológicas da Holanda nos anos 1980 são um bom exemplo de como o
Estado pode usar seu poder para sua própria vantagem no nível transnacional,
por meio da cooperação com outros Estados ou com movimentos sociais, visando
confrontar os problemas da sociedade de risco. Questões ecológicas são
altamente políticas, mas também altamente complexas e técnicas, e requerem
conhecimento especializado. Nas sociedades de risco, o conhecimento
especializado é altamente controverso. Cada perícia parece chamar em seguida
uma contraperícia. Como resultado, a ciência torna-se altamente reflexiva e se
abre para questões vindas do mundo da vida. Quando isso ocorre, a sociedade
civil pode influenciar intracientificamente e insinuar suas visões numa
comunidade epistêmica de especialistas, que, por sua vez, podem "influenciar
governos nacionais e organizações internacionais ao ocupar nichos nos
organismos consultivos e regulatórios"57.
Isso é precisamente o que acontece na Holanda58. Sensíveis às demandas de uma
população ecologicamente preocupada, os membros da comunidade epistêmica têm
identificado as questões para os tomadores de decisão nacionais e estes, por
sua vez, têm influenciado os interesses e os comportamentos dos outros Estados
membros da União Europeia, induzindo ao comportamento estatal convergente e
fomentando a coordenação política regional. Ao pôr agressivamente as questões
ecológicas na agenda da UE e de outras organizações internacionais, ela tem
direcionado seus interesses nacionais para um nível mais elevado,
transcendendo, dessa forma, a oposição entre política doméstica e política
externa. Esse exemplo ilustra que a política transnacional não deve ser
concebida como um jogo de soma zero, em que os Estados-Nação estão fadados a
perder, pois, ao contrário disso, os Estados que cooperam com a sociedade civil
e com outros Estados podem ganhar força e tornar-se atores globais que fazem
uma diferença. A sinergia Estado-Sociedade civil empodera tanto os atores
estatais quanto os civis. A nova aliança entre atores civis e estatais não é
mera fantasia. "A possibilidade de que o aparato estatal possa forjar novas
alianças com atores civis nas primeiras décadas do novo milênio é, como Peter
Evans59 diz, não menos implausível do que as alianças que foram realmente
forjadas entre organizações trabalhistas e o Estado, durante as primeiras
décadas do século XX."
FRÉDÉRIC VANDENBERGHE é professor de sociologia do Instituto de Estudos Sociais
e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
[1] Este artigo é uma resposta atrasada a uma conversa com Jürgen Habermas,
durante um jantar, na Universidade de Yale, em 2005. Eu gostaria de agradecer a
Seyla Benhabib, Tom McCarthy, Fuyuki Kurasawa, Gerard Delanty, Helmut Willke,
Renato Boschi e Jayme Marques-Pereira pelos comentários e sugestões. Apresentei
o texto no Sociofilo - o núcleo de pesquisa que dirijo no Instituto de Estudos
Sociais e Políticos da UERJ - em outubro de 2010 e também no Cridis, na
Universidade de Louvain, Bélgica, em fevereiro de 2011. Em ambas as ocasiões,
recebi muitas sugestões, algumas das quais consegui integrar a este artigo.
Agradeço a George Gomes Coutinho por sua generosa proposta de traduzir o texto
e a André Magnelli por revisar a tradução.
[2] Devo a distinção entre "globalização" e "mundialização" (ou
cosmopolitização) às reflexões sistemáticas de Michel Freitag (in L'impasse de
la globalisation. Une histoire sociologique et philosophique du capitalisme.
Montréal: Ecosociété, 2008, parte 4) sobre a crise da globalizaç ão. Ao passo que a globalização se refere à integração sistêmica da
vida social e sua subordinação à lógica abstrata do capitalismo financeiro e do
desenvolvimento tecnológico, a mundialização se refere ao processo de
unificação simbólica por meio do qual as sociedades e as civilizações mundiais
se abrem uma a outra através de um diálogo e buscam, por meio da construção de
um mundo comum, resolver os problemas que a globalização põe para a humanidade.
[3] Muito antes da globalização se tornar o clichê do dia, Luhmann havia
teorizado a emergência de uma "sociedade mundial" sem representação de sua
unidade como e no sistema [as and in the system] e sem integração política e
normativa (Luhmann, N. "Die Weltgesellschaft". In Soziologische Aufklårung 2.
Aufsåtze aur Theorie der Gesellschaft. Opladen: Westdeutscher Verlag, 1975, pp.
51-71). Numa série de ensaios sociológicos ambiciosos, Rudolf
Stichweh (Die Weltgesellschaft. Soziologische Analysen. Frankfurt/ M.:
Suhrkamp, 2000), que sucedeu Luhmann em Bielefeld e que é
agora professor em Luzern, tem sistematicamente construído o conceito de
"sociedade mundial", visto como o sistema englobador que compreende todas as
comunicações e nada mais do que comunicações.
[4] Desnecessário dizer que não há nenhuma garantia metafísica. A história pode
terminar muito bem "com um estrondo e um sussurro", como disse T.S. Eliot. Até
quando pode o desenvolvimento sustentável ser sustentado, afinal de contas?
Através de um processo complexo de subdesenvolvimento humano e
sobredesenvolvimento tecnocapitalista, o planeta está agora, lenta mas
seguramente, alcançando seus limites ecológicos e demográficos. Ainda existirá
humanidade por volta de 50, 100, 250, 500, mil ou 5 mil anos contados a partir
de agora? Para uma tentativa de resposta, ver meu livro sobre o pós-humanismo e
o biocapitalismo (Vandenberghe, F. Complexités du posthumanisme. Trois études
dialectiques sur la sociologie de Bruno Latour. Paris: L'Harmattan, 2006, pp.
7-150).
[5] A formulação original de Ricoeur (Soi-même comme un autre. Paris: Seuil,
1990, p. 202) é a seguinte: "A boa vida com e para os outros
em instituições justas".
[6] Delanty, G. The Cosmopolitan Imagination. The Renewal of Critical Social
Theory. Cambridge: Cambridge University Press, 2009.
[7] Honneth, A. Leiden an Unbestimmtheit. Eine Reaktualisierung der Hegelschen
Rechtsphilosophie. Stuttgart: Reklam, 2001, pp. 1-17.
[8] Sloterdijk, P. Im Weltinnenraum des Kapitals. Für eine philosophische
Theorie der Globalisierung. Frankfurt/ M.: Suhrkamp, 2006, p. 219.
[9] Bayart, J. F. Le gouvernement du monde. Une critique politique de la
globalisation. Paris: Fayard, 2004, p. 13.
[10] O fato de que os níveis de investimento e comércio estrangeiros tenham
sido levemente mais elevados em 1914 do que hoje não desmente necessariamente a
tese dos efeitos emergentes no nível global. As cifras que Hirst e Thompson
(Globalization in Question. Cambridge: Polity Press, 1996) citam nã o permitem concluir que nada mudou. O que tem se modificado é a
estrutura do sistema enquanto tal.
[11] Luhmann, N. Die Gesellschaft der Gesellschaft. Frankfurt/ M.: Suhrkamp,
1998.
[12] Stichwech, op. cit., contracapa. A abordagem sistêmica da sociedade
mundial ou do sistema mundial não deve ser confundida com a teoria mais recente
do sistema-mundo de Immanuel Wallerstein. Para distinguir a primeira da última,
grafo sistema mundial para uma e sistema-mundo para outra. O sistema mundial
inclui nada mais nada menos que comunicações. Consequentemente, ele exclui
seres humanos, animais e tudo o que não é comunicação - embora esses possam
entrar no sistema como uma comunicação a respeito de humanos, animais e tudo o
que é excluído do sistema.
[13] Willke, H. Atopia. Studien zur atopischen Gesellschaft. Frankfurt/ M.:
Suhrkamp, 2001.
[14] Held, D. et al. Global Transformations. Cambridge: Polity Press, 1999.
[15] Hall, P. e Soskice, D. "An Introduction to Varieties of Capitalism". In
Hall, P. e Soskice, D. (orgs.). Varieties of Capitalism: The Institutional
Foundations of Comparative Advantage. Oxford: Oxford University Press, 2001,
pp. 1-70.
[16] Ver Diniz, E. e Boschi, R. A difícil rota do desenvolvimento. Empresários
e a agenda pós-neoliberal. Belo Horizonte: UFMG, 2007, e
Boschi, R. (org.). Variedades de capitalismo. Política e desenvolvimento na
América Latina. Belo Horizonte: UFMG, 2011.
[17] Na sociologia, o papel do Estado na globalização é uma questão
controversa. Enquanto pessimistas argumentam que o poder do Estado é
inversamente proporcional ao poder do mercado, otimistas olham para o Estado na
esperança de que ele possa regular a economia. Revisando a literatura, Raewyn
Connell (Southern Theory. The Global Dynamics of Knowledge in Social Science.
Crows Nest: Allen and Unwin, 2007, pp. 58-59) lista as diversas posiç ões no campo - variando desde o preto ao relativamente rosado: "Bauman
aceita a tese dos Estados em declínio, incapazes de regular uma economia
internacional que está agora efetivamente fora de controle. Arrighi sugere que
muitos Estados no sistema mundial nunca tiveram muito poder, sendo essa a visão
geral na análise do sistema-mundo. Therborn pensa que os Estados são ainda
poderosos na maior parte do mundo, e Guillén concorda, enfatizando que eles
podem escolher diferentes vias de desenvolvimento. Evans considera o destino do
Estado contingente, enquanto Mann enfatiza a diversidade das formas de poder.
Para Sklair, a economia internacional cresceu em importância com o Estado-
Nação, mas não há nada fragmentado quanto a isso. Robinson concorda e vê o
poder empresarial materializado num Estado transnacional. Meyer nega que exista
tal coisa. Sassen vê o poder empresarial refletido em alguma
desterritorialização da soberania. Mesmo concordando que a economia esteja se
movendo fora de controle, Giddens e Beck são otimistas quanto ao poder do
Estado para controlar eventos - caso a vontade estatal seja fortalecida por uma
dose extra de democracia e sociedade civil. Albrow vê um Estado global já
emergindo, não do capital, mas das atividades dos cidadãos orientados pelos
interesses comuns na sociedade mundial". Minha posição está mais alinhada com
os últimos autores, considerando o Estado um ator estratégico na transição de
um mundo global para um mundo cosmopolita.
[18] Ver Anderson, P. Lineages of the Absolute State. Londres: NLB, 1974; Mann, M. The Sources of Social Power. vol. 2: The Rise of
Classes and Nation-States, 1760-1914. Cambridge: Cambridge University Press,
1993; e Giddens, A. A Critique of Historical Materialism.
vol. 2: The Nation-State and Violence. Cambridge: Polity Press, 1985.
[19] Polanyi, M. The Great Transition. The Political and Economic Origins of
Our Time. Boston: Beacon Press, 1957, p. 136.
[20] Meyer, J. et al. "World Society and the Nation-State". American Journal of
Sociology, 103, 1997, pp. 144-81.
[21] Ver Hall, P. e Soskice, D, op. cit. Diferentemente da antiga abordagem
neocorporativista da economia política comparativa, que colocou em primeiro
plano o papel dos sindicatos na estabilização do Estado de Bem-Estar (Esping-
Andersen, G. The Three Worlds of Western Capitalism. Cambridge: Polity Press,
1990), a abordagem da variedade de capitalismo (Hall e
Soskice, op. cit.) não trouxe tanto o Estado para o centro da análise, mas sim
a empresa, analisando a variedade das relações que ela estabelece com o Estado
e sugerindo que o Estado de Bem-Estar seja, de fato, construído pelos
empregadores.
[22] Castells, M. End of Millenium. Oxford: Blackwell, 1998, pp. 243-309.
[23] Luhmann, N. Die Gesellschaft der Gesellschaft, op. cit., p. 166.
[24] Zürn, M. Regieren jenseits des Nationalstaates. Frankfurt/ M.: Suhrkamp,
1998.
[25] Apud McGrew, A. (org.). The Transformation of Democracy? Globalization and
Territorial Democracy. Cambridge: Polity Press, 1997, p. 16.
[26] A defesa de Habermas (Eine Art Schadensabwicklung. Kleine politische
Schriften VI. Frankfurt/ M.: Suhrkamp, 1987, pp. 159-79) de uma identidade pó s-nacional não funciona muito bem num contexto pós-colonial.
Na medida em que o colonialismo foi desovado pelos nacionalismos das potências
europeias, ele vem após o nacionalismo, mas, para as colônias que se libertaram
do jugo colonial através das lutas pela independência, o nacionalismo vem após
o colonialismo.
[27] Aron, R. Paix et guerre entre les nations. Paris: Calmann-Levy, 1962, p.
18.
[28] Rosenau, J. Turbulence in World Politics. A Theory of Change and
Continuity. Princeton: Princeton University Press, 1990.
[29] Keane, J. Global Civil Society? Cambridge: Cambridge University Press,
2003, p. 98.
[30] Slaughter, A.-M. A New World Order. Princeton: Princeton University Press,
2004.
[31] Teubner, G. "Local Regimes of Global Non-State Actors". In Teubner, G.
(org.). Global Law Without a State. Aldershot: Dartmouth, 1997, p. xiii.
[32] Ver Archibugi, D. (org.). Debating Cosmopolitics. Londres: Verso, 2003, e Brown, G. e Held, D. (orgs.) The Cosmopolitanism Reader.
Cambridge: Polity Press, 2010.
[33] Ver Der Gespaltene Westen. Frankfurt/ M.: Suhrkamp, 2004, pp. 113-93, e Zwischen Naturalismus und Religion. Philosophische
Aufsåtze. Frankfurt/ M.: Suhrkamp, 2005, pp. 324-65.
[34] Para uma discussão da "constitucionalização do direito internacional", ver
a edição especial de Constellations, 2008, 15, 4.
[35] In Toward a New Common Sense. Law, Science and Politics in the
Paradigmatic Transition. Londres: Routledge, 1995, pp. 365-73.
[36] Habermas, Zwischen Naturalismus und Religion..., op. cit., p. 338.
[37] Risse, T. Ropp, S. e Sikkink, K. (orgs.). The Power of Human Rights.
International Norms and Domestic Change. Cambridge: Cambridge University Press,
1999.
[38] Keck, M. e Sikkink, K. Activists Beyond Borders. Advocacy Networks in
International Politics. Ithaca: Cornell University Press, 1998, p. 200.
[39] Para ilustrar a complexidade da ação coletiva "glocal" e a multiplicidade
de mecanismos que devem ser ativados dentro, sobre, através e abaixo do Estado,
Alison Brysk (in Globalization and Human Rights. Berkeley: University of
California Press, 2002, pp. 253-54) dá o exemplo da aplicação
de leis trabalhistas numa indústria têxtil de propriedade taiwanesa (Chentex),
localizada na zona de livre-comércio de Las Mercedes, em Nicarágua. Os
ativistas fizeram lobbies em três Estados: no governo taiwanês, nas agências
estatais nicaraguenses e no congresso dos EUA, porque o exército estadunidense
é o maior comprador estrangeiro de vestuários. Acima do Estado, a campanha
apelou para organizações internacionais como a OIT (Organização Internacional
do Trabalho) e a OEA (Organização dos Estados Americanos). Cruzando os Estados,
em virtude do fato de o proprietário taiwanês ter um ponto de revenda em Los
Angeles, os sindicados estadunidenses apresentaram uma ação coletiva feita em
favor dos trabalhadores nicaraguenses por meio do U.S. Alien Tort Act (ATCA).
Abaixo do Estado, os ativistas também organizaram pressões dos consumidores
sobre o principal comprador da Chentex, a cadeia de lojas de departamentos
Kohl. Por fim, as redes transnacionais ajudaram a catalisar a formação e a
coordenação do comitê regional para sindicatos maquila, com representantes de
toda a América Central e do Caribe.
[40] Tarrow, S. The new Transnational Activism. Cambridge: Cambridge University
Press, 2005, p. 32.
[41] Cardoso, F. H. e Faletto, E. Dependência e desenvolvimento na América
Latina. Ensaio de interpretação sociológica. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2004, p. 208.
[42] Gramsci, A. Selections from the Prison Notebooks. Londres: Lawrence and
Wishardt, 1971, pp. 175-85, 240-41.
[43] Ibidem, p. 240.
[44] Gramsci era um revolucionário e marxista. Quando fala sobre a hegemonia da
classe trabalhadora, ele não está pensando na sociedade como um todo, mas sim
na aliança do proletariado com outros grupos explorados, sobretudo o
campesinato, numa luta comum contra a opressão do capital. Em sua inigualável
reconstrução de Gramsci, Perry Anderson (Lineages of the Absolutist State.
Londres: Verso, 1977) torna bastante claro que o proletariado usa forç a contra a burguesia ("ditadura do proletariado sobre a burguesia") e
recorre ao consenso com as classes aliadas ("hegemonia do proletariado sobre o
campesinato"). Aqui eu tomo a liberdade não somente de fazer abstração da
violência e dissolver a força em consenso, mas também de generalizar a noção de
hegemonia para além do Estado-Nação e substituir o proletariado pelos novos
movimentos sociais.
[45] Em Gramsci, há uma tendência constante de generalizar os conceitos e de
impelir em direção a um conceito integral de Homem, de cultura, de intelectual
e, sim, também, de Estado. A fórmula do Estado integral inova em relação tanto
a Marx quanto a Hegel. Ao invés de conceituar a sociedade como uma divisão
tripartite entre família, sociedade civil e Estado, como em Hegel, Gramsci
inclui tanto a família quanto a sociedade política na sociedade civil, e a
sociedade civil no Estado. Diferentemente de Marx ou Hegel, ele não incluiu,
entretanto, a economia na sociedade civil, mas concebe o controle da economia
como o que está fundamentalmente em jogo na luta hegemônica pelo controle do
Estado.
[46] Gramsci, A. Selections from the Prison Notebooks, op. cit., p. 263.
[47] Ibidem, p. 181-82.
[48] Cox, R. "Gramsci, Hegemony and International Relations: An Essay in
Method". Millenium, 12, 2, 1983, p. 164.
[49] Beck, U. Macht und Gegenmacht im globalen Zeitalter. Neue Weltpolitische
Ökonomie. Frankfurt/ M.: Suhrkamp, 2002.
[50] Ver Beck, U. Macht und Gegenmacht im globalen Zeitalter..., op. cit., pp.
95-184, e Beck, U. e Grande, E. Das kosmopolitische Europa. Frankfurt/ M.:
Suhrkamp, 2004, pp. 207-57.
[51] Atualizando e alargando seu antigo relato da sociedade de risco, Ulrich
Beck (2007, pp. 37-39, 355-61, passim) discerne trê s tipos de
perigos da sociedade mundial de risco: mudança climática (riscos ecológicos),
terrorismo e proliferação nuclear (riscos políticos) e crises financeiras
(riscos econômicos). Sua teoria da modernização reflexiva integra não somente a
teoria da sociedade de risco, mas também a da individualização e da
globalização, num único quadro conceitual (cf. Vandenberghe, 2001).
[52] Beck, U. Macht und Gegenmacht im globalen Zeitalter..., op. cit., p. 56.
[53] Brunkhorst, H. Solidaritåt. Von der Bürgergesellschaft zum globalen
Rechtsgenossenschaft. Frankfurt/ M.: Suhrkamp, 2002, p. 213.
[54] Beck, U. Macht und Gegenmacht im globalen Zeitalter..., op. cit., p. 255.
[55] Beck insiste que a sociedade civil pode transformar o Estado, mas
negligencia o impacto do Estado sobre a sociedade civil. Se ele tivesse
analisado o papel do Estado e, mais particularmente, dos Estados estrangeiros e
das ajudas para o desenvolvimento sobre os núcleos de base (como os OBCS ou as
organizações baseadas na comunidade) em países em desenvolvimento, talvez teria
sido capaz de explicar a onda massiva de "ONGuização" da ação social, que tem
ocorrido nos últimos vinte anos. Embora os observadores da sociedade civil
tenham notado o fato de que falar a respeito de ONGs suplantou progressivamente
os movimentos sociais nos anos 1990, eles foram incapazes de explicá-lo.
Parece-me que as organizações doadoras internacionais (que são parcialmente
patrocinadas pela ajuda de desenvolvimento advinda dos governos dos países da
OCDE) são simplesmente a mais importante razão para a tradução de movimentos
sociais em ONGs.
[56] Santos, B. de Sousa. Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação
social. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 111.
[57] Haas, P. "Introduction: Epistemic Communities and International Policy
Coordination". International Organization, 46, 1, 1992, p. 30.
[58] Meu relato da política ecológica da Holanda é baseado na abordagem das
comunidades epistêmicas de Peter Haas ("Introduction: Epistemic Communities and
International Policy Coordination". International Organization, 46, 1, 1992), mas a politiza significativamente ao injetar uma boa dose de
reflexividade na ciência e ao abri-la às pressões da sociedade civil. Haas está
atento, principalmente, à influência política que uma comunidade epistêmica
pode ter sobre os realizadores de política coletiva nos níveis nacional e
internacional, mas deixa de analisar a influência política que a sociedade
civil pode ter sobre a ciência.
[59] Evans, P. "The Eclipse of the State? Reflections on Stateness in the Era
of Globalization". World Politics, 50, 1, 1997, p. 86.