Notas para entender a realidade mexicana
A imagem que os meios de comunicação de massa apresentam do México, para o
exterior e para o interior do país, é a de uma sociedade em crise e em franco
processo de deterioração.
A crise social tem como indicador mais perceptível e divulgado a violência do
crime organizado, seja internamente (luta entre diferentes cartéis ou
organizações), seja nos confrontos com as instituições do Estado (forças
armadas e polícia), seja, ainda, na violência contra a sociedade, que acomete
especialmente jornalistas e vítimas inocentes dos conflitos armados. A
violência cada vez mais intensa1, brutal e sangrenta gera a impressão de que o
Estado é incapaz de conter e punir os culpados. Afirma-se, inclusive, que o
Estado mexicano seria um Estado falido.
À imagem da violência acrescenta-se ainda outro elemento, também muito
noticiado, menos conjuntural e mais permanente: a migração ilegal de mexicanos
para os Estados Unidos. Calcula-se que cerca de 400 mil migrantes cruzam a
fronteira anualmente, em busca da oportunidade de trabalho que não encontram no
México ou para reunir-se com seus familiares já radicados nos Estados Unidos.
Sem dúvida, isso é um indicador da falta de dinamismo do mercado de trabalho
interno, que encontra sua solução parcial no trânsito migratório. Sem essa
válvula de escape, a miséria, o desemprego e a informalidade no México seriam
muito maiores, e os conflitos sociais a eles associados ainda mais intensos2.
Estes dois temas também constituem os pontos críticos das relações entre o
México e os Estados Unidos. Felizmente, há um espírito de cooperação entre os
governos, mas a questão não deixa de ser um fator de tensão política e
diplomática, especialmente com os setores conservadores do país do norte.
A crise possui também uma expressão econômica, talvez menos divulgada, mas
igualmente grave. A última demonstração disso foi a recessão enfrentada pela
economia mexicana em 2009, a maior entre os países da América Latina (com queda
de 6, 5% no PIB). No entanto, o problema é maior, como demonstra o fraco
crescimento econômico dos últimos trinta anos (média anual de 2% de crescimento
do PIB)3. Paradoxalmente, a crise contrasta com a estabilidade macroeconômica
que o país manteve na última década.
Por fim, outra imagem da realidade mexicana que preocupa os observadores é o
espectro de uma espécie de fracasso do regime democrático, fracasso que se
expressa no "inevitável" retorno do Partido Revolucionário Institucional (PRI)
à presidência4. Não há como deixar de pensar que isso significa a volta do
velho autoritarismo, sobretudo porque, nos últimos anos, o PRI não se
reformulou, persistindo com os mesmos dirigentes do período autoritário, com
suas velhas ideias e hábitos.
Como explicar essa situação? Como entender que, embora outros países da região
tenham desenvolvimento econômico e social muito significativos (como o Brasil e
o Chile, mas também o Peru ou a Colômbia), o México esteja vivenciando,
aparentemente, uma dinâmica muito diferente? Como explicar a fragilidade da
democracia mexicana?
Neste breve ensaio, pretendo apenas assinalar alguns elementos que possam
ajudar a compreensão, de maneira geral, do que está ocorrendo.
Para se compreender a realidade mexicana, é necessário levar em consideração
dois grandes processos. Em primeiro lugar, a mudança na economia mexicana, que
passou do modelo de desenvolvimento voltado para dentro (por meio da
substituição de importações) a uma economia mundial aberta, com ênfase no
mercado mundial. O segundo processo são as transformações do sistema político,
a crise do velho sistema autoritário centrado no presidencialismo, no
nacionalismo revolucionário, e a criação de uma democracia eleitoral, com
importantes modificações nas instituições políticas. Estes processos, que
constituíram dois círculos viciosos, dificultam a solução da violência gerada
pelo crime organizado e pelas migrações ilegais, assim como por toda a dinâmica
do país.
Parto da hipótese de que os processos se deram por decisões governamentais que
geraram verdadeiros círculos viciosos e introduziram a sociedade mexicana em um
movimento de franca decadência. Isso implica que havia alternativas, mediante
outras decisões; não houve, nem há , nada predeterminado.
Na próxima seção, apresentarei uma descrição da violência associada ao crime
organizado e recordarei os fatores básicos do fenômeno migratório. Em seguida,
abordarei o processo que desembocou no círculo vicioso da economia mexicana.
Prosseguirei tratando das mudanças no sistema político e seu desdobramento na
frágil democracia eleitoral. Por fim, algumas conclusões.
A CRISE SOCIAL
A atividade mais divulgada do crime organizado é o narcotráfico, mas não é a
única - a ele, unem-se o tráfico de armas5 e o tráfico de pessoas, tanto o
relativo à migração para os Estados Unidos, como o tráfico ligado à
prostituição nacional e internacional. A isso somam-se, ainda, o sequestro de
pessoas para a exigência de resgates, o roubo de veículos e sua venda,
inclusive em solo estrangeiro, o roubo em grande escala de combustíveis da
empresa Pemex6 etc.
No caso do narcotráfico, seu início remonta aos anos da Segunda Guerra Mundial,
quando se cultivou maconha no estado de Sinaloa (sede do cartel mais poderoso)
para consumo do exército norte-americano em combate. A presença dos grupos que
cultivavam e comercializavam as drogas não se interrompeu; pelo contrário,
tornou-se cada vez mais complexa à medida que o consumo na sociedade norte-
americana aumentou e que o cultivo em outros países da América do Sul requeria,
para que a droga chegasse aos Estados Unidos, a intermediação de organizações
mexicanas. Assim, os cartéis da droga fortaleceram-se e internacionalizaram-se,
enquanto os volumes de drogas e de dinheiro cresceram exponencialmente.
Durante muitos anos, as organizações criminosas mantiveram-se na obscuridade -
embora se soubesse de sua existência e de suas relações com os governos locais
e até com o governo nacional. Seu aparecimento no espaço público na última
década deveu-se a muitos fatores, mas cabe assinalar os seguintes como os mais
relevantes: (1) as organi-zações criminosas7 tinham territórios bem definidos e
havia um acordo de não interferir nas áreas controladas por outro cartel. Esse
acordo foi rompido quando certas rotas de tráfego foram fechadas por
intervenção do Estado, obrigando as organizações a entrar em territórios já
ocupados. Em alguns casos houve alianças, em outros, guerra. (2) O consumo de
narcóticos no país aumentou, formando-se um mercado interno que era abastecido
por intrincadas redes de narcotraficantes até a chegada ao consumidor final.
Esses mercados também passaram a ser áreas de disputa por parte das
organizações. (3) A cumplicidade entre as organizações e os governantes, a
polícia e o poder Judiciário foram crescendo e ameaçando a autonomia do Estado,
em especial em alguns estados da República e em determinados municípios em que
o controle do crime organizado era intolerável. As disputas entre os cartéis
envolviam funcionários do governo, dividindo-os e enfrentando-os. No final do
século passado e nos primeiros anos do atual, a presença e a atividade do
narcotráfico e das organizações criminosas tornou-se inaceitável para o governo
federal.
Em consequência disso, o governo do presidente Felipe Calderón (2006-2012)
declarou guerra ao crime organizado, e, com isso, a violência entre os cartéis
e entre estes e as forças do Estado aumentou. A partir dessa decisão, iniciou-
se um círculo perverso envolvendo ataques mais intensos do governo contra os
cartéis, com confiscos de drogas e com líderes de alto e médio escalão sendo
afetados e mortos, gerando intensificação da violência, maior divisão dos
cartéis, expansão territorial, mais investidas por parte do governo etc.
Segundo interpretações oficiais, o ataque às organizações iniciado neste
mandato presidencial acarretou o enfraquecimento de alguns cartéis; em certos
locais, abriu espaço para que facções internas lutassem abertamente pelo
controle da organização, assim como outros cartéis tentaram, com êxito variado,
aumentar seu controle sobre as zonas enfraquecidas. A luta tornou-se
encarniçada, e a violência, cada vez mais brutal: corpos com terríveis marcas
de tortura, cadáveres esquartejados ou pendurados em pontes, cabeças degoladas
e deixadas em locais estratégicos para serem vistas e servir de exemplo e aviso
aos rivais. Recentemente, carros-bomba foram explodidos, dando início a táticas
terroristas.
A ação do crime organizado vai-se ampliando diante da fragilidade das
instituições responsáveis pela justiça (a probabilidade de que um delinquente
seja apanhado é muito baixa), ao que se acrescentam a impunidade, a corrupção e
a incompetência das polícias, especialmente das estaduais e municipais.
Os confrontos com as forças federais em zonas urbanas aumentam o número de
vítimas inocentes, de civis atingidos por disparos de ambas as partes8. Também
aumentaram as denúncias de maus-tratos ou abusos, incluindo crimes cometidos
por membros das forças armadas, provocando enfrentamentos com as instituições
envolvidas com a defesa dos direitos humanos, que questionam o foro militar
para o julgamento dos delitos cometidos por seus membros9.
Nesse processo, os cartéis conquistam maior visibilidade, e sua presença
estende-se a mais regiões da República, o que significa que há mais violência
no país como um todo. A população torna-se desconfiada e temerosa, e o
sentimento subjetivo de insegurança acentua-se, independentemente dos índices
constatados10. Na opinião dos cidadãos, a insegurança surge como o principal
problema do país.
Os crimes cometidos pelo narcotráfico e pelo tráfico de armas competem à alçada
federal, razão pela qual os estados não intervêm na questão. Não obstante, as
organizações criminosas corrompem as polícias estaduais e municipais para que
protejam suas atividades, e nelas infiltram-se para anular suas estratégias.
Essa situação complica ainda mais a luta, e diminui a eficiência das forças
federais. As mudanças necessárias não foram aprovadas pelo Congresso, e os
governadores e prefeitos opõem-se à existência de uma polícia nacional ou, ao
menos, de polícias únicas em cada estado. Há acusações de que alguns
governadores e prefeitos abdicaram da luta, e afirma-se que outros se aliaram
aos criminosos.
Para concluir esta breve exposição, destaco três implicações do crime
organizado relacionadas com aspectos econômicos, políticos e sociais. Em
primeiro lugar, embora não exista uma estimativa do volume de dinheiro do crime
organizado que entra e sai do país, não há dúvida de que se trata de grande
quantidade e de que, se pensarmos que ao menos uma parte desse dinheiro é
"lavado" no México e circula no mercado interno de bens e capitais, seu impacto
na economia deve ser considerável. Pode-se aventar a hipótese de que os
recursos do narcotráfico tenham possibilitado ao menos um pouco mais de
dinamismo à economia mexicana. Em sentido contrário, deve-se considerar que os
gastos do Estado para combater as organizações criminosas aumentaram11, e,
apesar do apoio dos Estados Unidos ao Plano Mérida, tais gastos têm um impacto
negativo sobre a capacidade do governo de dispor do orçamento público e atender
a outras necessidades nacionais, como políticas de desenvolvimento, de
infraestrutura ou gastos sociais. A luta contra o narcotráfico também afeta as
instituições financeiras, pois, nas estratégias para combater a "lavagem" de
dinheiro, impõem-se às instituições bancárias restrições no manejo de divisas e
transações em efetivo.
Em segundo lugar, os vínculos das organizações criminosas com a política também
são de vários tipos e têm diversas consequências. A mais óbvia é a corrupção
exercida sobre os funcionários públicos, limitando sua autonomia. Nos anos
recentes, aumentaram as suspeitas de que o narcotráfico financie campanhas
políticas de alguns partidos ou candidatos, imponha nomes para cargos públicos
eletivos, assassine candidatos que não lhes sejam favoráveis ou que estejam
comprometidos com organizações rivais. Isso, sem dúvida alguma, afeta o
funcionamento da democracia eleitoral. Do mesmo modo, sua intromissão e seus
efeitos também são muito significativos na administração pública. É cada vez
mais evidente que o crime organizado controla os presídios, de onde os "capos"
detidos operam, redefinindo o funcionamento dos centros de readaptação e
estendendo seu controle sobre todas as ramificações do crime representadas
pelos detentos nesses locais12. Há também indícios de que controlem vários
municípios nos estados em que sua presença é mais relevante.
Em terceiro lugar, no plano da sociedade, o narcotráfico criou novas
realidades. O crime organizado ligou-se a certos grupos sociais, especialmente
jovens que estão a seu serviço. Nas localidades onde a organização opera, tais
grupos encarregam-se de garantir a segurança e de promover melhorias materiais.
A existência prévia de gangues facilitou a simbiose. Entretanto, a mudança mais
impressionante, e talvez mais relevante, é seu impacto na cultura dos
mexicanos.
No ambiente de desesperança em que vive a maioria dos jovens, as organizações
criminosas oferecem empregos certamente ilegais, mas bem-remunerados,
envolvendo tanto as tarefas próprias do narcotráfico oudo tráfico de armascomo
também atividades de "sicários" ou"soldados" das organizações no embate com
cartéis rivais e com as forças oficiais. O imenso número de vítimas nesses
confrontos mostra que a expectativa de vida de quem se filia é muito curta. No
entanto, para eles, como se diz, "mais vale ser rei por um dia do que um
coitado por toda a vida"; preferem desfrutar dos prazeres oferecidos pelo
dinheiro, ainda que por um período breve, do que viver uma vida cheia de
privações.
Nessa vida acelerada, os jovens envolvidos renunciam não somente a uma
existência longa, mas também, segundo eles próprios, à salvação no outro mundo.
Estão convencidos de que sua vida nesta terra os conduzirá ao inferno, e que
ali se encontrarão novamente com seus carrascos ou torturadores, pois a luta e
o ódio entre as facções não termina nesta vida13. A religiosidade dos
envolvidos no narcotráfico não se esgota nos ritos e símbolos do catolicismo,
pois criaram-se novos santos que são considerados seus protetores. O caso mais
conhecido é o de Jesús Malverde, no estado de Sinaloa, ou o da Santa Morte
(embora esta tenha uma freguesia mais ampla, socialmente falando). Sua
religiosidade adquire uma característica peculiar, também alternativa, com
santos próprios para os "defender"14.
Junto com a experiência social do narcotráfico, desenvolveu-se uma rica cultura
de canções e cantigas de "corridos", narrando sobretudo a vida dos grandes
capos e sua relação com a sociedade, apresentando-os como se fossem uma nova
versão dos bandidos generosos que roubam para entregar ao povo. A música
chamada "grupera", que é basicamente um corrido do norte, é um dos gêneros mais
populares no país, e o que possui mais conteúdos do narcotráfico. Muitas das
canções fazem apologia do narcotráfico e da violência. A cultura "narco" também
tem sua expressão na literatura; o número de romances já é vasto, e alguns
deles têm boa qualidade15. Em torno do narcotráfico há uma cultura dos
oprimidos que se torna um canal de expressão da insatisfação da população.
Este processo cultural criou os elementos para novas identidades entre os
jovens, não somente os que estão diretamente envolvidos, mas também aqueles que
residem nas áreas marginalizadas, onde proliferam os chamados "ni-ni" (ou seja,
"nem-nem", jovens que "nemestudam, nemtrabalham")16. O que a economia legal não
pode oferecer é propiciado pela atividade criminosa.
Em resumo, a violência do crime organizado tem relativa autonomia, não sendo
produto da pobreza ou da desigualdade, e está muito relacionada com a dinâmica
dos mercados mundiais de drogas e do contrabando. Não obstante, sua presença no
país tem efeitos muito importantes em todos os âmbitos.
A MIGRAÇÃO INTERNACIONAL
A emigração de mexicanos para os Estados Unidos é um fenômeno antigo: o fluxo
existe desde a formação da nação norte-americana, no final do século XVIII, e
da formação da nação mexicana, no princípio do século XIX. Este processo
tornou-se visível durante a recessão de 1929 a 1932, quando os Estados Unidos
deportaram mais de 250 mil mexicanos e inclusive norte-americanos de
ascendência mexicana. Durante a Segunda Guerra Mundial, criou-se o programa
"Braceros", que permitiu a entrada temporária de mexicanos para ocuparem-se de
atividades agropecuárias e, em menor medida, fabris. O programa terminou em
1962. Mesmo durante a vigência do programa, muitos imigrantes não regressaram,
permanecendo nos Estados Unidos de maneira ilegal.
A partir de então, a migração ilegal não parou de crescer, e o número de
cidades ou regiões nas quais se radicam os mexicanos ilegais ampliou-se. Em
1986, promulgou-se nos Estados Unidos o Immigration Reform and Control Act, que
anistiou os imigrantes ilegais; a esta lei recorreram mais de 2, 3 milhões de
mexicanos. Dessa data em diante, o número de imigrantes voltou a crescer, e
atualmente discute-se a necessidade de realizar uma nova reforma das leis de
imigração para solucionar o problema da população ilegal. Calcula-se que a
população ilegal de origem mexicana chegue a 7, 5 milhões de pessoas17.
O principal motivo de migração é a falta de empregos no México e a busca do
chamado "sonho americano". Contudo, o problema é mais complexo, uma vez que
existem grandes comunidades de migrantes nacionais em cidades ou municípios dos
Estados Unidos. Muitas comunidades e, naturalmente, famílias têm uma realidade
e uma vida binacionais. O fluxo organiza-se com base nessas comunidades, e a
migração também responde a interesses de reunificação familiar, de "passar para
o outro lado" para estudar etc.
Fora do âmbito diplomático ou da relação bilateral com os Estados Unidos, a
migração tem enorme relevância para o México. O país depende do dinheiro que os
migrantes enviam a seus familiares. O montante de 77, 2 bilhões de dólares18
representa a segunda maior fonte de divisas depois dos ingressos relativos ao
petróleo, tendo superado os rendimentos provenientes do turismo. Ainda assim,
perante a falta de dinamismo do mercado de trabalho interno, os fluxos
migratórios aliviam a pressão por empregos. Embora tal pressão esteja ainda
longe de resolver-se inteiramente, o número de emigrantes representa mais da
metade dos empregos criados anualmente no México19.
A emigração também está associada a graves problemas sociais, especialmente no
campo. A saída em massa de homens das comunidades rurais altera as estruturas
familiares, sobrecarregando as mulheres no cuidado da família e também no
trabalho agrícola. Essas famílias dependem das remessas para sobreviver, além
dos auxílios oferecidos pelo governo por meio de diversos programas sociais. O
drama daqueles que ficam costuma ser terrível.
No outro extremo da estrutura social, a emigração de pessoas com alta
escolaridade cria um problema na oferta interna de profissionais, que já é
baixa.
Os mexicanos ou norte-americanos de origem mexicana que vivem nos Estados
Unidos pressionam constantemente para que lhes seja concedida a cidadania
mexicana, pois querem ter o direito de voto e de participar da política
nacional. Estão conscientes da importância de suas remessas e de seus
interesses, e além disso exigem que o Estado mexicano intervenha com mais vigor
na defesa de seus direitos perante as autoridades norte-americanas.
Por fim, não posso deixar de assinalar que os emigrantes, as comunidades
mexicanas nos Estados Unidos, contribuem para criar novas culturas, como no
caso do narcotráfico. Há a criação de uma cultura dos méxico-norte-americanos
(o caso mais conhecido foi o movimento "Chicano"). É uma cultura que une e
recria a realidade binacional. O fenômeno da migração está presente em nosso
cotidiano.
O CÍRCULO VICIOSO DA ECONOMIA
A transformação da economia levou a uma péssima inserção no mercado
internacional e, paralelamente, ao abandono do mercado interno, gerando um
círculo vicioso.
Para compreender o processo, devemos retroceder a 1970, quando se dá a mudança
na economia mundial, com a crise do Estado keynesiano e o desenvolvimento do
neoliberalismo. Nos primeiros mandatos presidenciais já inseridos na crise
(1970-1982), desenvolveu-se uma política voltada para o passado, baseada na
maior intervenção do Estado, inspirada no modelo populista do cardenismo dos
anos de 1930. O resultado desses dois sexênios foram as crises de 1976 e 1982,
crises fiscais do Estado, crises do balanço de pagamentos e inflação alta. Por
fim, o período de extremo nacionalismo e terceiro-mundismo terminou por deixar
nas mãos do FMI as decisões centrais da economia mexicana.
A partir da crise econômica de 1982, as autoridades decidiram que a economia
deveria integrar-se ao mercado mundial, privilegiando o setor manufatureiro
"maquilador"*, especialmente o automotivo e o eletroeletrônico, ligado ao
mercado norte-americano. Isto foi reforçado normativamente com o Tratado de
Livre Comércio da América do Norte (Nafta), de 1994. Em conformidade com a
decisão de privilegiar a via maquiladora, e em comunhão com o Consenso de
Washington, destruiu-se a indústria existente (certamente ineficiente e
protegida), que servia ao mercado interno, que passou a ser abastecido pelas
importações.
A nova forma de integração ao mercado mundial teve consequências de enorme
importância para a sociedade mexicana. A decisão de converter a indústria em
indústria maquiladorapara o mercado norte-americano fomentou a industrialização
das cidades da fronteira com o país vizinho, como Tijuana, Mexicali, Ciudad
Juárez, Nuevo Laredo, Matamoros etc., enquanto as antigas zonas industriais
situadas no centro do país sofreram processos de desindustrialização, de
desemprego e, sobretudo, de crescimento acelerado do setor informal do mercado
de trabalho. O sul do país, sempre marcado pelo subdesenvolvimento, permaneceu
igual.
As mudanças na distribuição geográfica das empresas foram acompanhadas por
movimentos migratórios da população. As cidades da região norte sofreram
processos de imigração de trabalhadores, que buscavam emprego nas maquiladoras,
o que era reforçado pelos antigos processos de migrantes rumo aos Estados
Unidos. Quando os migrantes não conseguiam cruzar para o outro lado, ou quando
eram deportados, ficavam na zona fronteiriça. Diante da absoluta falta de
políticas urbanas e de desenvolvimento social, as cidades tiveramum crescimento
desordenado, gerando grandes áreas marginais e de miséria.
Além disso, a política maquiladora exigia, como fator central para atrair
investimentos de empresas estrangeiras, salários e impostos baixos. O modelo é
incapaz de dinamizar o mercado interno; pelo contrário, tende a deprimi-lo.
As áreas rurais do país sofreram um processo similar. Algumas, com as melhores
terras e a melhor infraestrutura, orientaram-se para a exportação de produtos
como verduras, legumes e frutas, enquanto o restante produzia seus produtos
tradicionais, como milho e feijão, em propriedades minifundiárias (de menos de
cinco hectares) com taxas de produtividade muito baixas. A dependência
alimentar do país aumentou. O abastecimento passou a depender cada vez mais das
importações, especialmente de grãos, com exceção do milho branco.
Paradoxalmente, no novo modelo persistiu uma certa rigidez relativa a aspectos
do modelo anterior. As grandes empresas estatais produtoras de energia, como a
Pemex (petróleo) e a Comisión Federal de Electricidad (CFE) mantiveram seu
monopólio e sua organização interna corporativa. Esses monopólios impõem aos
consumidores custos altos e baixa qualidade de produtos e serviços.
Juntamente com os monopólios estatais, cujos sindicatos funcionam como enclaves
de poder, poderes fáticos, mantiveram-se velhos monopólios privados e criaram-
se novos em áreas tão suscetíveis como as televisões, em que funciona um
duopólio, com predomínio da empresa Televisa, a telefonia fixa e móvel, com
predomínio das empresas Telmex e Telcel, a produção de cimento, com
preponderância da Cemex, a produção industrial de alimentos, como Gruma, Bimbo
etc. Esses monopólios ou oligopólios, com forte presença no mercado
internacional, também funcionam como poderes de fato, impõem altos custos aos
consumidores esão fatores de resistência àmudança do modelo econômico.
Mais uma vez, paradoxalmente, os monopólios privados e estatais funcionam como
freios para a mudança em sentido contrário. Enquanto os primeiros lutam pelo
mercado, os segundos lutam pelo Estado. Nada se move!
Também no setor financeiro há mudanças importantes. O sistema bancário foi
nacionalizado em 1982, e depois privatizado nos anos subsequentes, sendo por
fim desnacionalizado nos últimos anos da década de 1990 e nos primeiros anos do
século XXI. Atualmente, os quatro bancos mais importantes são estrangeiros e
controlam mais de dois terços de todo o sistema. Até o momento, o setor não
funcionou como um facilitador do crédito para impulsionar a produção interna.
Cabe destacar que, nos serviços públicos como educação e saúde, manteve-se, de
um lado, a antiga estrutura corporativa, o que reproduz os velhos vícios e a
falta de qualidade, e, de outro lado, privilegiou-se a participação crescente
do capital privado, nacional e internacional, na educação superior, assim como
na administração das aposentadorias.
A nova configuração da economia mexicana tornou-se extremamente dependente da
economia dos Estados Unidos e muito sensível a suas crises, como se evidenciou
com a crise do ano de 2009, quando a economia mexicana sofreu a queda mais
brutal (uma queda de 6, 5% no PIB), e também se manifesta na recuperação lenta,
já que depende do crescimento do mercado norte-americano, especialmente do
automotivo.
O modelo maquilador de incorporação ao mercado mundial aprofundou as
desigualdades sociais e aumentou a pobreza, que o Estado tenta atenuar mediante
uma política social assistencialista. A existência de uma população excluída,
sem oportunidades de trabalho formal e sem perspectivas de futuro é uma base
social na qual as organizações criminosas souberam penetrar e que souberam
utilizar. Por outro lado, a massa marginal é um campo de cultivo para o
clientelismo político, de que os partidos (especialmente o PRI e o PRD) tiram
proveito. Nessa realidade, a migração para os Estados Unidos é sempre uma
saída.
Um modelo econômico tão deficiente só se tornou possível em virtude da
existência da renda proveniente da indústria petrolífera. No final da década de
1970, entrou em produção a imensa jazida de petróleo Cantarell, que elevou a
produção até 2, 8 milhões de barris por dia e que é responsável por um terço
dos ingressos fiscais do governo20.
AS MUDANÇAS NOS SISTEMAS POLÍTICOS
Para compreender as mudanças no sistema político é necessário, ainda que de
maneira breve, mencionar algumas características do antigo regime, pois sua
influência na crise atual é notória.
São quatro as características básicas do antigo regime que nos interessa
ressaltar. Duas delas são muito comuns a todos os regimes do país desde que se
tornou uma nação independente, e as outras são específicas do regime
corporativo autoritário pós-revolucionário.
A primeira refere-se à realidade da existência de um Estado de Direito fraco,
que não se cumpre na prática. As normas que articulam a ordem social e política
são distintas das estabelecidas no direito formal - são sua exceção.
Institucionalmente, isso se traduz numa justiça frágil e ineficaz, na
impunidade dos criminosos e na indefensabilidade dos cidadãos.
A segunda característica é a existência de uma administração pública
profundamente ineficiente, muito distante da ideia weberiana da racionalidade
administrativa que caracteriza as burocracias modernas. A burocracia pública é
corrupta, opaca e abusa constantemente do poder.
A terceira é o presidencialismo autoritário, que subordina o parlamento e o
poder Judiciário, assim como os demais poderes situados nos estados e
municípios. É uma ditadura institucional.
A quarta característica é a existência de um sistema partidário estabelecido
com um partido quase único. Realizavam-se eleições periódicas, respeitando-se
os calendários firmados nas leis, mas cujo fim não era eleger os governantes (o
escolhido em seu interior ganharia com certeza quase absoluta), e sim
reproduzir ritualmente o regime. Esse sistema articulava-se com a sociedade por
meio do corporativismo que controlava as bases dos trabalhadores da indústria
ou dos serviços públicos e privados, dos camponeses e proprietários de terras,
e também dos empresários. Nesse sistema, a luta política dava-se no interior do
partido oficial, dentro do qual se expressava a pluralidade das forças
políticas reconhecidas.
No final dos anos de 1960, mais especificamente a partir de 1968, o regime
corporativo autoritário entrou em crise e iniciou-se o processo de mudança. As
reformas limitaram-se basicamente ao âmbito eleitoral, buscando-se incluir
novos setores dentro de regras mais democráticas.
A mudança política teve início timidamente, com a reforma eleitoral no governo
de Echeverría (1973), chamada de abertura democrática, que se limitou a ampliar
o número de deputados dos partidos (de vinte, conforme estabelecia a lei de
1964, para vinte e cinco), que conferiam à oposição tolerada acesso ao
Congresso. Sem dúvida, tal reforma foi muito pequena para solucionar o
descontentamento em relação ao sistema.
No governo seguinte, de José López Portillo (1976-1982), devido à crise de
1976, houve um aumento dos movimentos sociais e surgiram movimentos
guerrilheiros; as forças de esquerda lutavam de fora do sistema e causavam
ingovernabilidade. A reforma eleitoral de 1977 procurou incorporar os novos
setores, e para isso abriu o espaço eleitoral para partidos previamente
proibidos: o Partido Comunista do México (PCM), o Partido Revolucionário dos
Trabalhadores (PRT), o Partido Mexicano dos Trabalhadores (PMT), de esquerda, e
o Partido Sinarquista (PS), de direita. Além disso, ampliou as candidaturas
plurinominais, com o que se garantiu a participação dos mesmos partidos na
Câmara dos Deputados, conferindo uma nova configuração à classe política. A
reforma permitiu a pluralidade e a possibilidade de alternância partidária nos
poderes executivos e legislativos na federação e, nos estados e municípios,
abriu novos espaços para o jogo democrático, mudando suas regras.
O governo, no entanto, através do PRI, mantinha o controle do processo
eleitoral e tinha a última palavra sobre a legalidade e a validade dos
resultados. Além disso, na Câmara dos Deputados, garantia-se a maioria absoluta
para a primeira maior minoria, com a chamada "cláusula de governabilidade".
Muitos autores consideram que essa reforma, apesar de suas limitações, deu
início à transição rumo à democracia eleitoral.
Após a fraude eleitoral que impediu que Cuauhtémoc Cárdenas, candidato de uma
ampla coalizão de partidos e movimentos de esquerda, chegasse à presidência,
deu-se a reforma eleitoral de 1989-1990. Com ela, o governo perdeu o controle
sobre a qualificação dos resultados. Afirmou-se que os órgãos encarregados de
realizar as eleições e decidir sobre sua validade haviam-se "cidadanizado", que
os partidos e o governo ficavam de fora do controle e da sanção dos processos
eleitorais. Logo veríamos que este não era o caso.
O presidencialismo chegou ao fim na eleição de 1997, quando o PRI perdeu a
maioria absoluta na Câmara dos Deputados e o presidente viu-se obrigado a
negociar com a oposição as leis e as reformas necessárias em seu governo.
Passou-se, repentinamente, de uma presidência onipotente a um sistema
presidencial com um Executivo fraco. O Legislativo e a federação ganharam
poder21.
No mandato do presidente Zedillo (1994-2000), mediante uma reforma
constitucional, fortaleceu-se o poder Judiciário, restabelecendo o equilíbrio
de poderes no Estado. Finalmente, no ano de 2000, deu-se a alternância no
partido ganhador da eleição presidencial, quando o PAN desbancou o PRI.
Sem dúvida, esses foram avanços muito importantes no sistema político mexicano.
Todavia, o autoritarismo não foi de todo eliminado, e ameaça retornar.
A democracia eleitoral no México enfrenta três problemas. O primeiro é que foi
conquistada tarde, quando o regime democrático já não era capaz de representar
a nova sociedade, fragmentada numa realidade multicultural, especialmente no
aspecto étnico, mas também em minorias diferenciadas por sua preferência
sexual. O segundo diz respeito ao fato de haver, entre os atores políticos
dessa democracia eleitoral, alguns que não possuem vocação e compromisso
democráticos. Trata-se de um conjunto de atores (democratas e autoritários) que
se agrupa num estamento gerador de enorme burocratização do processo e elevação
dos custos em níveis insustentáveis para a sociedade. O terceiro problema é que
a cultura política continua caracterizando-se por uma ambiguidade, qual seja, a
aceitação contraditória da democracia como o melhor regime e, ao mesmo tempo, a
opinião de que os líderes duros e decididos (preferência por líderes
autoritários) podem representar uma possível saída para os problemas do país.
Mas, além disso, existe, no processo de mudança política, uma continuidade que
ameaça o regime democrático. Refiro-me ao fato de que o PRI nunca deixou de ser
o partido com o maior número de governadores, nunca deixou de controlar o maior
número de cargos legislativos e de ter o maior número de prefeituras. É verdade
que o partido perdeu a presidência e, em várias eleições, perdeu a maioria no
Senado e na Câmara dos Deputados, mas se manteve como a força política mais
relevante. Ainda assim, graças a seu passado corporativo e de partido único,
conserva o maior aparato partidário do país e mantém o controle da maioria dos
sindicatos das grandes empresas estatais e da maioria das organizações
camponesas e de produtores rurais. Em virtude de sua força, foi capaz de evitar
o desmantelamento de partes importantes do regime autoritário, especialmente o
corporativismo. Também conseguiu anular a cidadanização das instituições
encarregadas dos processos eleitorais, transformando os cidadãos representantes
em quotas controladas pelos partidos. Para isso, contou com o apoio dos
legisladores do PAN.
Deve-se considerar que o PRI perdeu a presidência e a maioria das câmaras para
líderes carismáticos, populistas: a presidência, em 2000, para Vicente Fox, de
direita, e, em 2006, para Andrés Manuel López Obrador, de esquerda.
Em eleições nas quais não intervêm fatores extraordinários (líderes
carismáticos ou eventos traumáticos como o caso de Sonora22) é muito difícil
superar o PRI, como evidenciou-se nas eleições de 2009, quando este partido
ganhou quase todos os postos executivos em disputa (alguns dos quais estavam em
poder do PAN, como San Luis Potosí e Querétaro) e voltou a ter a maioria
absoluta na Câmara dos Deputados. Depois dessas eleições, começou-se a falar do
iminente retorno do PRI à presidência da República23.
Nas eleições realizadas este ano, em junho de 2010, o PRI ameaçava ganhar todos
os pleitos mais uma vez, mas um fenômeno novo ocorreu. O PRI não conseguiu esse
feito em virtude da aliança entre o PAN, partido de direita, com os partidos de
esquerda PRD, Partido Convergência e Partido do Trabalho (PT), uma aliança
claramente "antipriista", realizada com o fim de "nivelar" a disputa. Com isso,
esses partidos conseguiram derrotar o velho PRI em três de seus mais
tradicionais redutos (Oaxaca, Sinaloa e Puebla), e estiveram muito perto de
fazê -lo também em Durango e Hidalgo.
Essas eleições mudaram o significado da disputa política. De um lado, houve, ao
que parece, um retorno à situação autoritária em que a meta dos partidos de
oposição era remover o PRI do poder para abrir espaço para a democracia; de
outro, fez-se a aliança para impedir a restauração do autoritarismo. Contudo,
há uma diferença substancial; naquela época, a democratização era uma bandeira
moderna e progressista que unificava a oposição, ao passo que hoje a aliança,
mesmo que pretenda manter o jogo democrático, anula um de seus fatores
essenciais, ou seja, a pluralidade de alternativas de governo, de projetos
políticos24. Em todo caso, o prenunciado retorno do PRI diluiu-se nessa disputa
democrática.
À margem dos processos eleitorais, é importante assinalar que o domínio dos
priistas permitiu-lhes configurar - ou, melhor dizendo, ampliar-
aclassepolítica. Paraisso, incorporaramospolíticosdospartidos de oposição,
formando uma espécie de estamento com interesses próprios. Apesar de suas
óbvias diferenças ideológicas, agrupam-se em torno de uma série de interesses
comuns centrados em recompensas por sua participação. Os partidos de oposição
desenvolvem-se a partir da mesma cepa priista - em boa parte, ajudaram a
configurar os novos partidos de esquerda: PRD, Convergência, Partido Nova
Aliança (Panal). Além disso, os dissidentes internos do PRI muito
frequentemente proporcionaram à oposição candidatos vencedores.
Essa classe política estruturou-se como um estamento com interesses que a
diferenciam da sociedade, e como tal dotou-se de enormes recursos públicos para
sua manutenção e reprodução, com remunerações e contribuições inacreditáveis,
que o situa na elite da sociedade, representando o canal de mobilidade social
mais significativo e com poder cada vez maior para decidir seu próprio futuro e
o de suas organizações. As tentativas de estabelecer árbitros e tribunais
independentes foram superadas por negociações e alianças que fizeram com que
aqueles passassem a ser controlados pelos próprios partidos ou, até mesmo, por
líderes do estamento. Na última reforma, obtiveram o monopólio da representação
política, deixando à margem o restante da sociedade25.
O sistema de partidos é fechado, com três partidos competitivos (PRI, PAN e
PRD) e outros quatro partidos dependentes de alianças com os primeiros para
sobreviver (Convergência, PT, Panal e PV). As candidaturas independentes estão
proibidas. Os partidos registrados têm o monopólio da propaganda política nos
meios de comunicação de massa. As barreiras para a entrada são consideráveis;
depende da vontade dos partidos atualmente existentes.
A classe política, que funciona como um estamento separado da sociedade,
legislou para outorgar-se uma série de privilégios, garantiu financiamento
excessivo para o funcionamento dos partidos e para a propaganda nas eleições,
fixou remunerações muito altas para legisladores e funcionários que ofendem a
população, concedeu regalias injustificáveis. Esses privilégios que isolam o
estamento da sociedade são, ao mesmo tempo, o cimento de sua união. A disputa
pelo poder do Estado é feroz, mas, apesar de tudo, procuram preservar seu
estamento26.
Nas últimas eleições, ficou claro que a disputa entre as partes (os partidos)
do estamento afastam-se das regras democráticas, buscando a vitória a qualquer
custo. Em tais pleitos, prevaleceu a chamada guerra suja, a interferência
indisfarçada por parte dos governantes, o uso do dinheiro público para apoiar
seus candidatos, o clientelismo político, mostrando de maneira clara a
existência de atores autoritá -rios, que não estão dispostos a respeitar as
regras da democracia. Deve-se acrescentar a isso a ação criminosa dos cartéis,
que assassinaram um candidato a governador a poucos dias da eleição e
intimidaram candidatos no município para que desistissem de concorrer etc.
Esse estamento político assemelha-se à classe política que estava incrustada no
interior do PRI durante o regime autoritário. Agora não existe o presidente em
suas funções de árbitro, mas há uma autorregulação, difícil e conflituosa, na
qual o limite dos enfrentamentos é a sobrevivência do estamento.
CONCLUSÃO
Eu dizia, no começo destas observações, que há quatro dimensões do antigo
regime autoritário que devem ser consideradas para se entender a realidade
mexicana. A fragilidade do Estado de Direito, uma administração pública
ineficiente e corrupta, o presidencialismo onipotente e o sistema de partido
único corporativo. Pois bem: os dois últimos estão superados, ao menos
parcialmente - desde 1997, o presidencialismo está cada vez mais restrito, e o
sistema de partido único terminou; a institucionalidade corporativa, embora
conserve alguns de seus traços importantes, sobretudo em organizações sindicais
e camponesas, está muito longe de ser o sistema que articulava a maioria dos
setores da sociedade. É verdade que tanto o predomínio de um partido, incluindo
o retorno a um regime mais autoritário, como um novo fortalecimento da
instituição presidencial estão entre as possibilidades futuras; todavia, a
incipiente vida democrática eleva-se como uma barreira difícil de superar.
Por outro lado, as duas primeiras dimensões continuam presentes. A despeito da
reforma do poder Judiciário e do bom desempenho da Suprema Corte de Justiça, o
Estado de Direito permanece muito frágil. O mesmo acontece acerca da
administração pública federal e, mais ainda, da estadual e da municipal. Não
obstante, aqui nos deparamos com um paradoxo: a violência brutal desencadeada
pelo crime organizado trouxe à luz essas profundas deficiências e está
provocando a reação da população, atemorizada e decepcionada - especialmente os
setores médios e altos -, da sociedade civil organizada, que exige, talvez mais
do que nunca, que se fortaleça o Estado de Direito, que as instituições de
justiça sejam eficientes e cumpram sua função de proteger os cidadãos, garantam
a segurança da população e punam os criminosos. A frase de um pai que perdeu a
vida de um filho sequestrado pode resumir esse clamor: "Se no são capazes,
renunciem".
A sociedade civil também espera ansiosamente por uma administração pública
racional. Progrediu-se no que se refere à transparência, à prestação de contas,
tanto horizontal comoverticalmente, devido à proliferação de observatórios
cidadãos de múltiplas ramificações da administração governamental. A crítica
aos poderes estabelecidos é constante e aguda. A democracia, o poder do voto, o
voto de castigo, por assim dizer, estão obrigando os políticos a serem mais
prudentes, a abusarem menos. Terão de ser mais eficientes se quiserem manter-se
no poder.
Mas continua travando o desenvolvimento do país a oposição entre uma visão
nacionalista revolucionária, estatista e populista, que insiste em preservar o
velho modelo resultante da revolução de 1910-1917, e a perspectiva daqueles que
lutam pelo livre funcionamento do mercado, os neoliberais. Vale lembrar a
presença nestes setores de atores poderosos, como, de um lado, grandes
sindicatos e os partidos políticos PRI e PRD, que defendem o nacionalismo
contra poderosos empresários que, de outro lado, também se constituem em
poderes fáticos, o PAN e parte dos líderes do PRI.
Essa oposição está incrustada nos interesses da classe política, que privilegia
a sobrevivência do estamento e dos interesses particulares em detrimento da
luta democrática para definir o projeto escolhido pela sociedade.
Enquanto não for superada a inserção no mercado mundial por meio do modelo
maquilador, incapaz de dinamizar o mercado interno e causador de desigualdade e
miséria, no qual os velhos poderes fáticos continuam anulando os canais de
mobilidade, especialmente a educação, persistirá a desesperança da população e
a incapacidade de visualizar um futuro minimamente promissor.
Por fim, as dimensões da crise, a violência gerada pelo crime organizado e a
migração indocumentada muito dificilmente serão superadas, ou ao menos
atenuadas, enquanto os processos da economia e da política não forem
adequadamente reconduzidos.
VÍCTOR MANUEL DURAND PONTE é pesquisador emérito do Instituto de Pesquisas
Sociais da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam).
[*] As "maquiladoras" são empresas estabelecidas em locais com mão de obra
barata e facilidades tributárias, que trazem insumos (matérias-primas,
componentes etc.) do exterior para fabricar mercadorias em condições mais
vantajosas e, posteriormente, exportá-las [N. da T.].
[1] Nos últimos quatro anos, houve 28 mil assassinatos atribuíveis ao crime
organizado. El Universal, 3 ago. 2010.
[2] Estima-se que, em 2010, trabalhavam nos Estados Unidos 8, 6 milhões de
mexicanos. Este País, nº 230, 2010, Foro Indicadores, Escenario Macroeconómico,
p. 46.
[3] A falta de dinamismo se expressa na queda do PIB por habitante nos anos
recentes: de 141, 1 dólares por habitante em 2007, passou a 135, 4 em 2010.
Este País, op cit.
[4] Esta imagem se fortaleceu após os triunfos do PRI nas eleições de 2009, nas
quais conquistou maioria na Câmara dos Deputados e quase todos postos de
governo que estavam em disputa, inclusive em alguns redutos do Partido Ação
Nacional (PAN) e do Partido da Revolução Democrática (PRD).
[5] Nos últimos quatro anos, foram apreendidas 84 mil armas do crime
organizado. Reforma, 4 ago. 2010, p. 6.
[6] "Combatir el robo en Pemex llevará tiempo: Kessel". El Universal, 3 ago.
2010.
[7] Os cartéis mais importantes são: Sinaloa, Golfo, Juárez, Zetas, Tijuana,
Pacífico Sur, La Barbi e Milenio.
[8] Segundo as cifras oficiais, nos últimos quatro anos houve em média um
enfrentamento por dia entre organizações do crime organizado e forças federais
em espaços públicos, ruas ou estradas. Reforma, 4 ago. 2010.
[9] Como é óbvio, parte dessas denúncias é realizada pelas organizações
criminosas, dificultando o papel da justiça.
[10] Estudos mostram que a violência no México, medida em termos de
assassinatos por cada 100 mil habitantes, está diminuindo, e que a violência
atribuída ao crime organizado cresce em lugares e regiões específicos. Ver
Gonzalvo, Fernando Escalante e Guerrero, Eduardo. "La violencia 1990-2009".
Nexos, nº 381, 2009, pp. 25-42.
[11] O gasto com segurança por parte do governo federal aumentou em 25% ao ano
na última década; em 2009, elevou-se a 4, 3 bilhões de dólares.
[12] Está provado que, a partir dos presídios, funcionam verdadeiras indústrias
de extorsão por telefone, assim como de sequestros. Recentemente, descobriu-se
que, de dentro de um Centro de Readaptação Social (Cereso), era controlado um
grupo de "sicários" que, à noite, saíam para executar grupos de pessoas,
utilizando armas dos guardas, veículos oficiais e contando com a permissão das
autoridades do presídio.
[13] Um sicário que descreve o ato de torturar um rival narra que este, apesar
do sofrimento de ter a pele arrancada, profere a ameaça de que em breve se
encontrarão no inferno. Ver Ruvalcaba, Héctor. "Ciudad Juárez: la vida breve".
Nexos, nº 390, 2010, pp 28-35.
[14] Degetau, Jorge. "Credos: Malverde y la Santa Muerte". Este País, nº 229,
2010, pp. 30-33.
[15] Pode-se mencionar, como exemplos, os romances Balas de plata, de Élmer
Mendoza (México, Tusquest, 2008), ou La reina del Sur, de Arturo Pérez Reverte
(México, Alfaguara, 2002).
[16] Segundo cifras oficiais, há cerca de 7 milhões de jovens nesta situação.
"Investiga Procuraduría General de la República (PGR) Cereso de Gómez
Palacios". El Siglo de Torreón, 24 jul. 2010.
[17] Flores, Ricardo Iglesias. "Migración: promesas pospuestas, realidades
lacerantes". Este País, nº 221, 2009, p. 18.
[18] Cámara de Diputados, LXI legislatura em <htpp://www.Diputados.gob.mx/
cedia/sia/se-1555-22-10.pdf> .
[19] Em 2007, criaram-se 403 mil empregos no setor formal; em 2008, apenas 48
mil; em 2009, perderam-se 771 mil, e, este ano, até o momento, criaram-se 556
mil empregos formais. Este País, op cit.
[20] A produção de Cantarell começou a cair a partir de 2004, obrigando a Pemex
a explorar novas alternativas. Cantarell produziu, em 2007, 1, 5 milhões de
barris por dia. Ver <http://www.pemex.com/index>.
[21] Uma mostra dessa fragilidade foi a incapacidade do presidente Zedillo de
aprovar a reforma fiscal perante a oposição no Congresso. Essa incapacidade foi
uma constante até agora.
[22] Pouco antes das eleições, houve um incêndio em uma creche do IMSS, onde
muitos bebês morrerram e outros sofreram queimaduras. O governador teve um
péssimo desempenho e isso custou a eleição ao PRI.
[23] Obviamente, tiveram influência nas eleições a crise econômica e o aumento
da violência do crime organizado, assim como os maus governos do PAN e as
divisões no interior do partido; entretanto, o peso do maquinário priista foi
muito evidente, e ficou claro que este partido soube canalizar o
descontentamento em seu favor.
[24] Nas alianças está embutida a oposição entre o nacionalismo revolucionário
da esquerda e o neoliberalismo do PAN. Na prática legislativa, o nacionalismo
revolucionário uniu a esquerda com o PRI, seu verdadeiro depositário: como, por
exemplo, em sua renúncia a abrir a Petróleos Mexicanos ao capital privado. Já
vimos essa oposição entre os grandes monopólios públicos e privados.
[25] Uma mostra do cinismo e da mediocridade da classe política foi coligida
por Mauricio Merino no lamentável comentário de uma deputada: "Há pouco tempo,
após uma acirrada discussão sobre os despropósitos cometidos pelo legislativo
federal, uma deputada espetou-me com uma tese de sociologia política que me
conge-lou: 'Não se engane -disse-me ela - nossa classe política não é senão uma
amostra representativa de nossa sociedade. Isso é o que a democracia garante'
". Merino, Mauricio. "Mañana empieza el año horrible". El Universal, 31 dez.
2008.
[26] Nas eleições de 2009, deu-se um movimento espontâneo pelo voto nulo para
manifestar o repúdio dos eleitores pela classe política. Alcançou 6% do total
de eleitores que votaram. Para análise do significado disso, ver: "Encuesta
nacional sobre el sentir ciudadano". Este País, nº 222, 2009, pp. 10-17.