Voto estratégico punitivo: transferência de votos nas eleições presidenciais de
2006
A campanha eleitoral de 2006,na qual oito candidatos concorreram para o cargo
de presidente da República, teve a corrupção como um dos principais temas1. Em
junho de 2005, foi descoberto um complexo esquema de corrupção, em que estavam
envolvidos partidos e líderes da base aliada do governo. Denúncias
comprometedoras emergiram da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos
Correios, na Câmara dos Deputados, segundo as quais Marcos Valério, homem de
negócios do estado de Minas Gerais, teria desembolsado dezenas de milhões de
reais para o pagamento de políticos, dívidas do partido do presidente Lula
(Partido dos Trabalhadores - PT), bem como para o financiamento ilegal de
campanhas eleitorais. As denúncias de corrupção e os trabalhos da CPI tiveram
uma ampla cobertura da mídia, com impactos negativos sobre a avaliação do
governo, o que teria levado alguns analistas a darem como certa a derrota de
Lula nas eleições em 2006. Não foi exatamente isso o que aconteceu. Muito pelo
contrário, Lula quase venceu no primeiro turno, assegurando vitória maiúscula
no segundo.
Em parte, a explicação do sucesso de Lula em 2006 passa pelo fato de o governo
ter sido astuto ao lidar com a crise. Lula pessoalmente afastou-se de todos os
envolvidos, exonerando-os de seus cargos. Além disso, o governo continuou a
investir em sua agenda social, por meio de seu carro-chefe, o Programa Bolsa
Família, e da manutenção da estabilidade econômica. Assim, a popularidade do
presidente aumentou em maio de 20062.
De qualquer forma, em 2006, Lula enfrentou um ambiente eleitoral bastante
distinto do de 2002; bem mais hostil e com forte oposição vinda não só da
direita, mas também de antigos correligionários. Não surpreendentemente Lula
focou sua campanha no sucesso da gestão econômica e da política social,
utilizando o horário eleitoral gratuito na televisão para enfatizar seu
desempenho político nas frentes econômica e social. Essa estratégia mostrou-se
acertada, já que pesquisas de opinião pública apontavam vitória do presidente
no primeiro turno3.
No entanto, em 15 de setembro de 2006, um novo caso de corrupção envolvendo o
partido do presidente veio à tona. Dois homens foram presos em um hotel
portando 1,7 milhões de reais para a compra de um dossiê que, supostamente,
continha acusações contra o candidato ao governo do estado de São Paulo pelo
Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), José Serra. O caso teve ampla
cobertura na mídia e foi usado exaustivamente pela oposição nas duas últimas
semanas da campanha, afetando a imagem do presidente. Mais uma reviravolta: ao
contrário das expectativas e das pesquisas eleitorais, o resultado do primeiro
turno indicou que Lula obteve 49% dos votos, contra 42% de Geraldo Alckmin.
Alckmin saiu-se muito melhor do que qualquer um esperava, e haveria um segundo
turno.
Para muitos, as denúncias de corrupção envolvendo a pessoa do presidente teriam
tido impacto direto sobre o resultado da eleição e continuariam a ter no
segundo turno. Alckmin vinha em uma curva ascendente nas intenções de voto,
ganhando momentume se gabaritando para oferecer uma disputa acirrada no segundo
turno. A oposição acreditou na possibilidade de vitória. Mais uma frustração e
surpresa: no segundo turno, Lula conquistou a reeleição com 61% dos votos
contra 39% de Alckmin, que perdeu votos em 23 dos 27 estados, ao passo que Lula
aumentou sua votação em 11,5 milhões de votos.
Esse cenário eleitoral marcado por mudanças repentinas e surpreendentes, embora
freqüentes, apresenta desafios interessantes para analistas do comportamento
eleitoral. Quais fatores explicariam tais reviravoltas? Por esses motivos, a
análise detalhada das eleições de 2006 cumpre função importante não só por
explicar um evento histórico e interessante em si mesmo, como também para
testar explicações sobre as escolhas eleitorais dos brasileiros derivadas de
debates teóricos clássicos sobre comportamento eleitoral.
Primeiro, por que Lula não ganhou no primeiro turno? Isso se deveu, de fato,
aos escândalos de corrupção? Será que eleitores que votariam em Lula no
primeiro turno deixaram de fazê-lo para puni-lo por seu envolvimento indireto
nos escândalos de corrupção? Se assim foi, esses eleitores, no segundo turno,
voltaram atrás e reverteram seu padrão de apoio, votando então em Lula para
evitar que um candidato menos preferido (Alckmin) ganhasse a eleição?
Para entendermos as escolhas eleitorais que permeiam essas indagações, buscamos
apoio na literatura sobre voto estratégico/sofisticado em eleições, discussão
raramente utilizada para explicar o comportamento eleitoral no Brasil. Nosso
objetivo neste artigo é enfrentar as questões levantadas armados com
pressupostos e hipóteses da teoria sobre voto estratégico e de técnicas de
análise estatística de dados de opinião pública.
Nossa hipótese central é de que estamos diante de um caso interessante de voto
estratégico se nossas interpretações sobre o processo eleitoral brasileiro de
2006 mostrarem-se corretas. Primeiro, eleitores que normalmente votariam em
Lula, e que votaram nele em eleições anteriores, deixaram de fazê-lo no
primeiro turno de 2006 por estarem frustrados com os recorrentes escândalos de
corrupção. Mesmo assim, tais eleitores ainda teriam Lula em uma posição
bastante alta em seu ordenamento de preferências sobre os candidatos. Ou seja,
Lula ainda seria mais bem avaliado por esses eleitores do que seu adversário
direto, Geraldo Alckmin. Assim sendo, e esse é o nos-so segundo argumento,
esses mesmos eleitores votaram em Lula no segundo turno para evitar a vitória
de um candidato ideologicamente mais distante de suas preferências.
Se isso ocorreu, nosso objeto de análise é um padrão de voto sofisticado que
desafia as teorias sobre o tema. O componente estratégico do voto desses
eleitores no primeiro turno é marcado pela punição a um candidato, Lula, em
posição relativamente positiva no ordenamento de preferências do eleitor. Ou
seja, não se deixa de votar no candidato preferido para votar em outro com mais
chances de evitar que o candidato menos preferido ganhe - que é a idéia básica
do modelo de voto estratégico -, mas para punir um candidato afetado
negativamente pela avaliação retrospectiva de sua atuação, principalmente em
uma das dimensões de tal atuação: envolvimento em escândalos de corrupção4.
Além disso, a teoria sobre o tema, como veremos adiante, indica que a
probabilidade de ocorrência de voto estratégico no primeiro turno de eleições
de dois turnos é tida como remota, e no segundo turno ela só ocorreria sob
certas condições. O que encontramos no Brasil, nas eleições de 2006, é a
ocorrência de voto estratégico nos dois turnos da eleição. Dessa forma,
propomos aqui uma contribuição para a teoria sobre voto estratégico
identificando seus condicionantes em um sistema eleitoral de dois turnos, que
estimula o voto sincero - aquele no candidato preferido, independentemente de
quaisquer outras circunstâncias da eleição.
Ou seja, trata-se de um tipo de voto estratégico ainda não explorado pela
literatura: o eleitor deixa de votar em um de seus candidatos preferidos para
puni-lo. No primeiro turno, isso representou deixar de votar em Lula e votar em
qualquer um dos outros três candidatos, mas principalmente um ideologicamente
mais próximo a Lula. Não é um voto sincero, pois não se vota no candidato
preferido, mas um voto que obriga haver segundo turno. O resultado, portanto,
do voto estratégico punitivo no primeiro turno é o candidato mais bem colocado
nas pesquisas deixar de ser eleito, forçando, então, um segundo turno. Esse
resultado é distinto do que ocorreria se houvesse voto sincero: vitória de Lula
já no primeiro turno. Chamaremos esse padrão de escolha de voto estratégico
punitivoe testaremos sua adequação na explicação dos resultados de primeiro e
segundo turnos nas eleições presidenciais brasileiras de 2006. Para tanto
analisaremos os padrões de migração de voto entre um turno e outro dessas
eleições.
Entender a migração de votos entre os candidatos, assim como o perfil dos
eleitores que mudaram seus votos entre os dois turnos, ajudará a esclarecer por
que um eleitor deixou de votar em Lula e escolheu outro candidato no primeiro
turno. Também ajuda a compreender por que Lula recuperou esses votos no segundo
turno. Afinal, pretendemos mostrar por que Lula não ganhou no primeiro turno e
excedeu as expectativas no segundo. Para isso, precisamos voltar nossa atenção
para a questão do voto sincero ou estratégico/sofisticado nas eleições de 2006
e seus motivos5.
O trabalho está organizado da seguinte forma. Primeiramente faz-se uma breve
exposição dos conceitos referentes ao voto estratégico e à coordenação
eleitoral. Em seguida, procede-se a uma análise do perfil dos eleitores que
transferiram seus votos entre diferentes candidatos6, do primeiro para o
segundo turno, com relação a: preferência e rejeição partidárias, nível de
acompanhamento da campanha eleitoral, identificação ideológica, voto para
presidente no primeiro turno da eleição em 2002, avaliação do governo e
importância de temas nas eleições de 2006, em especial da corrupção vis-à-
visoutras questões. Segue-se, então, uma análise de regressão multivariada que
testa as possíveis explicações para a mudança no voto entre o primeiro e
segundo turnos. Ou seja, o que, de fato, analisamos neste artigo são as
explicações para os padrões de mudança de voto do eleitor brasileiro entre o
primeiro e o segundo turnos das eleições de 2006. São utilizados os dados do
Estudo Eleitoral Brasileiro (Eseb) de 2006. Por fim, apresentamos nossas
conclusões gerais.
CONSIDERAÇÕES SOBRE O VOTO ESTRATÉGICO
Em suas discussões sobre a lógica básica do voto, Anthony Downs descreve os
princípios básicos do voto estratégico, sobretudo em sistemas multipartidários.
De acordo com o autor, o eleitor racional pode, às vezes, votar em um partido
que não seja aquele de sua preferência, para evitar a vitória de um candidato
ainda mais abaixo em seu ordenamento de preferências. Quanto à lógica desse
voto, chamado de estratégico, diz:
Um eleitor racional primeiro decide qual partido ele crê que lhe
trará maior benefício; então ele tenta estimar se esse partido tem
qualquer chance de ganhar. [...] Então, mesmo que prefira o partido
A, ele estará "desperdiçando" seu voto em A se esse não tiver nenhuma
chance de vencer porque muitos poucos outros eleitores o preferem a B
ou a C. A escolha relevante, neste caso, é entre B e C. Como o voto
em A não é útil no processo real de seleção, votar nele é
irracional7.
Por outro lado, segundo Downs,na ausência de informações sobre o voto dos
demais eleitores, o eleitor racional sempre vota no partido que prefere ou
quando as informações que possui o levam a crer que seu partido favorito tem
chance razoável de vencer. Tal voto pode ser descrito como sincero.
Assim, o voto sincerodescreve a ação em que o eleitor deposita seu voto no
candidato de sua preferência, independentemente de outras considerações. O
eleitor não está preocupado com o ordenamento das preferências dos outros
eleitores para definir seu voto. O voto estratégico, por outro lado, implica
uma avaliação por parte do eleitor de como seu voto influenciará o resultado do
pleito eleitoral. O objetivo é evitar o chamado wasted vote8 [voto
desperdiçado] ou seja, votar no candidato que não apresenta chances razoáveis
de vencer a eleição. Implica votar em um candidato ou partido que seja o
segundo em sua preferência, em vez de votar no candidato ou partido preferido,
motivado pela percepção de que o segundo possui mais chances de vencer do que o
primeiro na escala de preferências9 (1996, p.40). Na linguagem cotidiana, esse
tipo de comportamento ficou conhecido como voto útil, o que é propiciado pela
ampla divulgação de pesquisas de opinião pública que apontam a intenção de voto
para os distintos candidatos, permitindo estimar a chance de vitória de cada
um.
Mas o voto estratégico não é decorrente apenas da informação sobre a
probabilidade de vitória de todos os candidatos, mas também da intensidade de
preferências acerca dos candidatos. A propensão a votar estrategicamente é
maior quanto menor for a diferença na intensidade de preferência da primeira
opção sobre a segunda e quanto maior for a intensidade de preferência pela
segunda opção em face do candidato menos preferido com chances de vitória.
Do mesmo modo, a propensão ao voto estratégico é maior quanto maior for a
diferença entre as chances percebidas de vitória da primeira ou segunda escolha
e maior a proximidade da disputa entre a segunda e a terceira opções10. Em
suma, diferença na intensidade de preferência entre primeira opção e segunda e
estimativa das chances de vitória de cada competidor são centrais para se votar
estrategicamente.
Reconhecemos que esses não são cálculos fáceis de serem realizados. Portanto,
alguns eleitores, os mais atentos à política e mais sofisticados, para usar
jargão da área, têm maiores chances de realizar esse tipo de voto. Não
obstante, em eleições presidenciais, baseadas em ampla cobertura jornalística e
divulgação de informações, é crível pensar que eleitores possam aventar sobre
as chances de vitória de cada candidato e que consigam posicionar os candidatos
em uma escala de preferências que vai de apoio a rejeição.
Além disso, o voto estratégico também é influenciado pelo desenho
institucional, que pode facilitar ou dificultar sua ocorrência. Sistemas de
dois turnos, conhecidos como ballotage, não criam incentivos para
comportamentos estratégicos dos eleitores, pois o primeiro turno,
principalmente, permite a escolha entre vários candidatos, facilitando uma
decisão sincera. Assim, há que se discutir mais detalhadamente quando um voto
estratégico poderia ocorrer em sistemas de ballotage.
VOTO ESTRATÉGICO E ELEIÇÃO EM DOIS TURNOS
Há um debate na literatura sobre se o sistema de dois turnos desencoraja o voto
estratégico. Nesse sistema, quando um candidato não atinge a maioria dos votos
na eleição, são convocadas novas eleições entre os candidatos mais votados, que
podem ser dois ou mais, para facilitar a obtenção da maioria dos votos por um
dos candidatos. No Brasil, o sistema de ballotageé usado nas eleições para
cargos executivos nos níveis federal, estadual e municipal para municípios com
mais de 200 mil habitantes. Se nenhum candidato alcançar a maioria dos votos
válidos no primeiro turno das eleições, os dois mais votados disputam uma
segunda rodada de eleições11.
Nesse tipo de sistema, as eleições são divididas em turnos, nos quais as elites
políticas disputam o primeiro turno com o objetivo de terminarem nas primeiras
posições para se qualificarem a disputar o segundo turno, em que a eleição, de
fato, é decidida. Eleições de dois turnos, assim, aumentam a probabilidade de
existência de múltiplos partidos, enquanto em um sistema de maioria simples,
com um turno apenas, a disputa deve ser dominada por um número menor de
partidos. Ou seja, eleições em dois turnos reduzem os incentivos para se votar
estrategicamente, promovendo em conseqüência uma expansão do número de
candidatos e partidos e menor coordenação entre partidos para formarem
coligações12. Assim, segundo essa visão, as eleições presidenciais brasileiras
apresentariam baixa probabilidade de voto estratégico no primeiro turno.
Por outro lado, Gary Cox afirma que em um sistema de dois turnos o voto
estratégico pode exercer papel similar ao exercido em um sistema de maioria
simples: limitar o número de candidatos viáveis. Embora o voto estratégico no
primeiro turno de uma eleição seja incomum, há ocasiões em que isso pode
ocorrer13. Eleitores podem promover uma deserção estratégica em relação a
candidatos sem chances de vencer de modo a assegurar a passagem de um par de
candidatos considerados melhores para competirem pela vitória no segundo turno.
Isso levaria a um enxugamento do número de competidores. Portanto, há
evidências tanto para um lado como para outro sobre o impacto que o sistema de
ballotagetem no voto estratégico.
A questão pode ser encarada como um desafio de se definir teoricamente quais
eleitores estariam potencialmente dispostos a votar estrategicamente, já no
primeiro turno da eleição. Cabe lembrar, como argumenta Rodriguez-Zepeda14, que
o voto estratégico é mais provável quando o vencedor de Condorcet15 e o
candidato com a maior intenção de voto não sejam a mesma pessoa. Isto é,
haveria voto estratégico se o candidato A ganhasse a maioria dos votos no
cômputo total das intenções de voto, mas perdesse para outro candidato quando
apenas os dois fossem comparados. Isso indica que um dos candidatos é o
preferido sob certas condições, mas não quando se leva em consideração o
contexto geral da eleição.
Nas eleições de 2006, Lula aparece tanto como o vencedor de Condorcet quanto
como o ganhador da maioria simples dos votos. Ele ganhou de todos os candidatos
individualmente e de forma combinada. Logo, não haveria razões para se esperar
por voto estratégico com base na abordagem de Rodriguez-Zepeda.
VOTO ESTRATÉGICO PUNITIVO
Contudo, cabe especular sobre outra forma de voto estratégico, aquele que visa
punir certo candidato, mesmo ele estando no topo das preferências do eleitor.
Denominamos esse padrão de voto estratégico punitivo. Tal situação é ainda mais
complexa do que a do voto estratégico no sentido a ele atribuído por Downs,
Perez-Liñan, Cox e Rodriguez-Zepeda, embora esteja ainda baseada nos princípios
básicos desse tipo de voto: ordenamento de preferências, intensidade de
preferências e cálculo da probabilidade de vitória. Mas, acrescenta outra
dimensão, qual seja, a punição de um candidato bem colocado no ordenamento de
preferências. Há um outro condicionante fundamental para esse tipo de voto: ele
ocorre apenas em eleições de dois turnos. O eleitor, portanto, sente-se mais à
vontade de votar contra um de seus candidatos preferidos no primeiro turno por
que com isso ainda conta com o segundo turno para evitar que o candidato menos
preferido vença as eleições.
Devido à sua sofisticação, nossa expectativa é que o número absoluto de
eleitores que votam dessa forma seja reduzido. Contudo, em eleições apertadas,
nas quais a diferença de votos que define uma vitória ou derrota no primeiro
turno é pequena, esse grupo de eleitores pode ser decisivo. Com efeito, isso
foi decisivo para o resultado do primeiro turno das eleições em 2006,
sacramentando a necessidade de um segundo turno e impondo uma derrota
temporária a Lula16.
A lógica desse tipo de voto baseia-se no pressuposto de que há pessoas
indispostas a ver o líder vencer a eleição no primeiro turno, resultando,
portanto, em incentivos para votar estrategicamente em outro candidato,mesmo
sendo o líder um dos candidatos preferidos desse eleitor. Ou seja, no caso
concreto do Brasil, apesar de Lula ter altos índices de simpatia de eleitores
de esquerda, estes se mostravam indecisos, ambivalentes, quanto a ele por conta
dos escândalos de corrupção. Esses eleitores, que em outras eleições haviam
votado em Lula, decidiram puni-lo em 2006 votando em outro candidato próximo no
espectro ideológico, mesmo sem chances de este vir a ganhar uma posição no
segundo turno. O objetivo claro desse voto é forçar o segundo turno e não
necessariamente dar a vitória a um outro candidato que seja tido como mais
preferido. Não se trata de um voto sincero no padrão clássico da definição,
mas, tampouco, é um voto estratégico clássico, segundo as definições discutidas
anteriormente.
A novidade é a punição. Isso também ocorre porque há a previsão de segundo
turno, e porque a derrota do candidato preferido no primeiro turno não
acarretará a vitória do menos preferido. Portanto, o eleitor que se engaja em
um voto retrospectivo punitivo o faz com baixa margem de risco de gerar um
resultado final indesejável17.
Esse tipo de voto, portanto, é bastante particular e ainda não foi discutido
teórica nem empiricamente. O trabalho de Balbachevsky e Holzhacker apresenta
proposta similar, ao enfocar o voto por oposição em sua discussão sobre as
dimensões de racionalidade estratégica do eleitor. Segundo as autoras, no voto
por oposição, em contraposição a votos por identidade e por expectativa de
desempenho,"o eleitor valoriza mais a derrota de algum adversário ou o combate
a algum mal"18. Essa proposta não se diferencia muito do cálculo eleitoral de
oposição, proposto por Susan Stokes19, quando sempre se vota contra o político
no governo e a favor da oposição.
De qualquer forma, essas abordagens, apesar de muito interessantes, não apontam
para a sutileza do tipo de voto estratégico que ocorreu nas eleições de 2006.
Portanto, o conceito de voto estratégico punitivo aqui proposto comporta
situações em que pode ocorrer um comportamento eleitoral estratégico no
primeiro turno de eleições em sistemas de ballotage.
Para tanto, investigamos os padrões de transferência de voto para Lula no
segundo turno. Fizemos uma análise do perfil daqueles que transferiram seus
votos entre candidatos do primeiro para o segundo turno e analisamos se a
transferência de votos segue a lógica da expectativa de ocorrência de voto
estratégico20. Assim, foi preciso verificar quais os atributos dos eleitores de
Heloísa Helena, Cristovam Buarque e, até mesmo, Geraldo Alckmin no primeiro
turno que decidiram votar em Lula no segundo turno. Acreditamos que dessa forma
pudemos desvendar indiretamente os motivos pelos quais alguns eleitores votaram
de forma sofisticada no primeiro turno. Desenvolvemos, portanto, um modelo de
explicação da transferência de voto baseado em hipóteses derivadas da discussão
teórica proposta.
MODELANDO A TRANSFERÊNCIA DE VOTO NO BRASIL
Na análise que segue usamos algumas variáveis para tentar identificar padrões
no comportamento de eleitores que transferiram seus votos entre o primeiro e o
segundo turno da eleição,favorecendo a Lula no resultado final do pleito.
Assim, esperamos poder chegar a conclusões sobre voto estratégico e a
transferência de voto.
A hipótese central é de que os fatores que ajudaram a compreender a
transferência de votos entre candidatos no primeiro e segundo turnos dizem
respeito à corrupção, à avaliação do desempenho do governo Lula e ao voto no
pleito anterior, em 2002. Os eleitores de Heloísa Helena no primeiro turno, que
transferiram votos para Lula no segundo, eram antigos eleitores de Lula
(votaram nele em 2002) e estavam desapontados com o envolvimento do governo em
escândalos de corrupção, mas aprovavam o desempenho do governo em questões
econômicas e sociais. Em outras palavras, tratava-se de eleitores ambíguos, ex-
lulistas, que agora se sentiam incertos quanto a apoiá-lo por terem sofrido
alguma decepção com o governo. Eles então decidiram não votar em Lula no
primeiro turno, punindo-o, mas se voltaram para ele no segundo, no sentido de
evitar um "mal" maior - a vitória de Geraldo Alckmin. Dessa forma, os eleitores
de Heloísa Helena que votaram em Lula no segundo turno agiram com base em um
cálculo estratégico punitivo.
Construímos esse argumento vislumbrando também outras possíveis explicações
para a transferência de voto, como fragilidade da identificação partidária,
força da rejeição a partidos políticos, freqüência de acompanhamento da
seleições e ideologia. Na verdade, essas variáveis também são importantes para
explicar o comportamento estratégico do eleitor. Por exemplo, acompanhar
eleições é um componente teórico relevante na discussão sobre voto sofisticado,
já que o cálculo das chances de vitória dos diferentes candidatos é decisivo
para se votar estrategicamente.
Vale destacar que esse modelo explicativo não está voltado para uma porcentagem
alta de eleitores. Estamos aqui explicando o voto de uma parte reduzida do
eleitorado brasileiro, em torno de 4% dos eleitores que, na amostra do Eseb-
2006, mudaram de voto entre um dos três candidatos derrotados (Helena, Buarque
e Alckmin) para Lula no segundo turno. Contudo, essa pequena margem de
eleitores mostrou-se decisiva para a ocorrência do segundo turno e para
assegurar a vitória de Lula no turno final da eleição.
PERFIL DA TRANSFERÊNCIA DE VOTOS
Os dados mostram que o eleitor que transfere o seu voto não possui uma forte
identificação partidária21. Os dados da Tabela_1 apontam um baixo nível de
identificação partidária em relação a todos os partidos presentes no sistema
partidário brasileiro. Entre os cinco partidos citados, dois são os principais
na corrida presidencial, PT e PSDB. O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL)
aparece juntamente com os demais, ganhando destaque em razão da entrada de
Heloísa Helena na disputa para presidente. Quando avaliamos não só a
identificação partidária entre os eleitores que mudaram de voto, mas a
população como um todo, fica claro que o percentual de eleitores que expressam
preferência partidária, em torno de 30% (273 entrevistados) do todo (1.000
entrevistados) é baixo, em congruência com trabalhos anteriores que analisam
essa variável usando outros bancos de dados22.
Fica claro também, na Tabela_1, uma grande diferença na composição da
preferência partidária quando se compara o eleitorado como um todo com aqueles
que transferiram seus votos. Os dados, indicando maior preferência pelo PT,
seguido por PMDB e PSDB, mais uma vez, coadunam com os achados de trabalhos
empíricos anteriores. David Samuels23, usando dados do Estudo Eleitoral
Brasileiro de 2002, encontra índice de identificação partidária para o PT muito
similar aos dados do Eseb-2006.
É interessante perceber que a probabilidade de mudança entre petistas é mais
baixa do que nos demais partidos e que ela é alta no caso do PSOL. Novamente,
isso dá indícios de que os eleitores de Heloísa Helena foram os mais inclinados
a mudar de posição entre os dois turnos da eleição. Também fica claro que os
eleitores do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que compunha a base de apoio
do governo federal em 2006, não votaram em Lula no primeiro turno, mas
transferiram seu apoio no segundo. Embora não tão díspare em comparação com o
total do eleitorado, também há uma sobre-representação de eleitores do PMDB e
do PSDB entre os que mudaram de voto entre Alckmin e Lula, o que indica a
fragilidade desses vínculos partidários. Naquela ocasião, nenhum desses
partidos estava formalmente aliado a Lula e um deles, o PSDB, tinha candidato
próprio!24.
Outra variável importante a ser destacada é a rejeição partidária. Mesmo sem
ter preferência por um partido, um eleitor pode ter rejeição por um (ou mais)
deles. Tal avaliação pode ser feita tomando-se por base posicionamentos
ideológicos ou avaliações retrospectivas negativas com relação a candidatos,
entre outros25. Os dados da Tabela_2 mostram um elevado nível de rejeição
partidária entre os eleitores que transferiram seus votos, principalmente entre
os que migraram de Heloísa Helena para Lula e de Alckmin para Lula.
Os dados mostram, entre os eleitores de Heloísa Helena que transferiram votos,
um alto grau de rejeição aos partidos situados ao centro e à direita do
espectro político brasileiro, notadamente ao Partido da Frente Liberal (PFL),
ao PSDB, ao Partido Liberal (PL) e ao Partido de Reedificação da Ordem Nacional
(PRONA). PT, Partido Verde (PV) e PSOL são os partidos com menor rejeição entre
os eleitores de Heloísa Helena. Não obstante, é interessante notar que mesmo
com uma rejeição mais alta ao PT do que o total do eleitorado, o eleitor de
Heloísa Helena, ainda assim, votou em Lula no segundo turno. Aqui podemos
perceber um certo tipo de voto em Lula que é independente de seu partido.
Entre os eleitores de Alckmin que transferiram seus votos, observa-se uma baixa
rejeição ao PT (20%), sendo as mais altas junto ao PFL, ao Partido Popular
Socialista (PPS) e ao PRONA. Ou seja, o eleitor de Alckmin que mudou de voto
entre os dois turnos, passando a apoiar Lula, já não tinha altos índices de
rejeição ao PT.
Assim, podemos concluir que eleitores que transferiram seus votos entre os dois
turnos da eleição são bem menos partidarizados do que os demais eleitores e têm
rejeição a partidos mais alta do que o restante do eleitorado. Além disso, esse
grupo de eleitores não apresenta altos graus de rejeição, um sentimento
bastante forte, a nenhum partido em particular, principalmente quando comparado
com o eleitorado como um todo.
A literatura normalmente espera um voto mais sofisticado proveniente de
eleitores com melhor nível educacional e que acompanham mais as campanhas,
sobretudo as pesquisas de opinião26. A fim de avaliar essa hipótese, serão
analisados os níveis de acompanhamento às campanhas eleitorais dos eleitores
que transferiram seus votos em comparação ao total da amostra do Eseb-2006.
Somando-se as respostas para os níveis de acompanhamento "intenso" e "mais ou
menos intenso", verifica-se que os eleitores de Heloísa Helena e de Alckmin que
migraram seus votos apresentam um nível moderadamente elevado de atenção à
campanha (de 45,4% e 52%, respectivamente), muito semelhantes ao total do
eleitorado. Contudo, quando desagregamos essas categorias, os eleitores de
Heloísa Helena que transferiram seus votos para Lula acompanharam a campanha de
forma mais intensa do que os demais, 22,7% nessa categoria, e que os de Alckmin
também, concentrando-se na categoria "mais ou menos intenso" (45,4%). Entre os
eleitores de Alckmin, essa é a principal categoria de resposta. Assim,
eleitores que transferiram seus votos estavam mais atentos às eleições,
principalmente os de Alckmin.
Tabela_3
Mais adiante, discutiremos também como a atenção à campanha pode elevar o
impacto que as estratégias de propaganda eleitoral dos candidatos têm no voto.
Assim, é importante frisar que o acompanhamento atento da campanha, além de
requisito para um voto estratégico, é também determinante quando há
disparidades claras entre a condução das campanhas pelos distintos candidatos.
A campanha de Alckmin entre o primeiro e segundo turnos da eleição cometeu
equívocos que lhe custaram caro. Assim, essa explicação é alternativa ao voto
estratégico, embora baseada em uma variável que também é central para votos
mais sofisticados (não-sinceros).
Mesmo correndo o risco de gerar interpretações ambíguas, que levam a
explicações distintas do voto, tal variável não pode ser descartada. Estudos
sobre a desigualdade na informação e na participação eleitoral no Brasil
mostram que há vieses na distribuição da informação política27 (CASTRO, 1992).
Concordamos com uma corrente crescente na literatura sobre comportamento
eleitoral que afirma que o mínimo de informações necessárias para se tomar
decisões eleitorais não está prontamente disponível a todos os eleitores,
tampouco igualmente distribuído pela sociedade. Hiatos informacionais podem
explicar, possivelmente, o voto no presidente Lula apesar das denúncias de
corrupção28. Entretanto, o nível de acompanhamento à eleição per senão explica
completamente o voto estratégico punitivo. Diferenças mais significativas entre
o eleitorado que transferiu seus votos e os demais precisam ser encontradas em
outras variáveis.
Nossa próxima variável também é central em estudos sobre comportamento
eleitoral. Os dados referentes à identificação ideológica foram obtidos por
intermédio do autoposicionamento dos entrevistados numa escala esquerda/direita
de 0 a 10. Uma situação mais à esquerda apresenta localização mais próxima de
zero na escala, e a posição mais à direita, mais próxima de dez. Apesar das
críticas ao autoposicionamento ideológico, e de não haver uma classificação
objetiva29, entende-se que seu emprego, mesmo que limitado, dizalgo sobre
aideologiadoeleitor e sobre arelaçãodeste com o voto.
Os dados da Tabela_4 mostram que a maioria dos eleitores que migraram seus
votos para outros candidatos não se posicionou na escala esquerda/direita.
Entre os que se identificaram, pouco mais de um quinto dos eleitores de Heloísa
Helena e Alckmin se classificaram como de esquerda e direita, respectivamente.
No geral, os resultados apontam para a seguinte tendência: eleitores de Heloísa
Helena que transferiram seus votos para Lula estão situados mais ao centro e à
esquerda do espectro político, enquanto os eleitores de Alckmin se situam mais
ao centro e à direita.
Uma análise comparativa com os níveis de identificação ideológica aferidos no
Eseb-2002 e Eseb-2006 mostra que o eleitorado de Heloísa Helena que migrou seus
votos não está mais à esquerda do que o total do eleitorado em 2002, mas está
em 2006. Do mesmo modo, o eleitorado de Alckmin que migrou para Lula não esteve
mais à direita do que o restante do eleitorado. Assim, esperamos algum efeito
dessa variável na mudança entre Heloísa Helena e Lula, mas não entre Alckmin e
Lula.
Por outro lado, nota-se em 2006 um aumento do número de eleitores que não
apresentam identificação ideológica. Como interpretação desses dados, Carreirão
afirma que o lapso entre 2002 e 2006 representou um "período de diluição das
preferências ideológicas entre os partidos, na percepção de boa parte do
eleitorado brasileiro"30. Tal diluição, por sua vez, teria afetado a relevância
de variáveis ideológicas e partidárias no comportamento dos eleitores,
incluindo sua decisão de voto. Os dados deste trabalho corroboram os achados de
Carreirão. O número de eleitores que migraram seus votos e não apresentam
identificação ideológica é tão elevado quanto o apresentado em 2006 (41,8%) e
bem diferente do de 2002.
Uma de nossas principais variáveis, o voto para presidente no pleito anterior
(2002) ajuda a definir melhor o perfil dos eleitores que transferiram seus
votos. De acordo com os dados da Tabela_5, observa-se que a maior parte dos
eleitores de Heloísa Helena (mais de 75%) havia votado em Lula nas eleições
presidenciais de 2002. Embora não nos mesmos patamares de Heloísa Helena, 47%
dos eleitores de Alckmin no primeiro turno, que mudaram seus votos para Lula,
haviam votado em Lula em 2002. Tais dados mostram que Lula não representou uma
escolha casual e estranha para estes eleitores, mas sim uma escolha que tomou
como precedente o passado. Os dados levam a crer que os eleitores de Heloísa
Helena e Alckmin que votaram em Lula tinham este como sua segunda preferência
ao voto para presidente em 2006, ante os percentuais apresentados.
Os eleitores que migraram para Lula teriam votado no presente tomando como
referencial o desempenho desse candidato no exercício do mandato, ou seja, seu
voto teria sido retrospectivo? Voto retrospectivo baseia-se na idéia de que o
eleitor analisa o desempenho passado de um governo e assume que tais tendências
irão persistir no futuro se o governo permanecer no poder. O eleitor deriva uma
opinião (ou intenção de voto) sobre o governo baseado numa expectativa de
tendência. A lógica de tal voto baseia-se no pressuposto de que um mau
desempenho no cargo prenuncia ao eleitor a continuidade de tal postura,
levando-o a votar contra o governo. Ao contrário, se o eleitor observa um bom
desempenho, isso vaticina a continuidade dessa boa atuação, e o resultado é
apoio ao governo ou seu candidato. Segundo a visão teórica aqui considerada31,
essa é a lógica básica do voto retrospectivo. Desse modo, os eleitores
estabelecem um padrão, observam seu bem-estar ao fim de um período
governamental e decidem por reeleger ou não o titular do cargo.
Dados referentes à avaliação do governo permitem a elaboração de algumas
considerações sobre o voto retrospectivo nas eleições de 2006. Segundo os dados
da Tabela_6, a maior parte dos eleitores de Heloísa Helena e Alckmin que
migraram seus votos possui uma avaliação bastante positiva do governo Lula.
Entre os eleitores de Heloísa Helena no primeiro turno a avaliação é mais
expressiva, chegando a mais de dois terços do total (68,1%). Entre os eleitores
de Alckmin no primeiro turno que migraram seus votos, a avaliação positiva
também é significativa, da ordem de 60%.
A avaliação do governo Lula entre os eleitores que migraram seus votos do
primeiro para o segundo turno situa-se muito próxima da avaliação que o total
dos eleitores tem do presidente. Pouco mais de três quartos dos eleitores
(76,1%) têm uma avaliação positiva do governo Lula (considerando muito bom ou
bom). Cabe registrar, no entanto, que os eleitores que transferiram seus votos
têm uma avaliação ligeiramente mais crítica do governo. De acordo com os dados
da Tabela_6, a avaliação negativa, no total da amostra (ruim ou péssima), chega
a 23,7%, enquanto no que se refere aos eleitores de Heloísa Helena e Alckmin,
as mesmas taxas são de 27,2% e 26,6%.
Nossa última variável é central para entender o voto retrospectivo punitivo. Em
combinação com a variável que indica o voto em 2002, a percepção sobre
corrupção como um problema nacional explica a punição a Lula no primeiro turno
e a transferência de voto para ele no segundo. Considerando a importância que
os casos de corrupção ganharam na mídia desde 2005 e durante a campanha
presidencial de 2006, cabe indagar qual a visão que os eleitores tiveram a
respeito da corrupção, ou melhor, qual a importância dada à corrupção em
relação a outros temas durante a campanha. Rennó mostra que a corrupção teve
impacto nas eleições de 2006, envolvendo não apenas o escândalo do "mensalão",
como também outros casos, como o de Roberto Jefferson e seus nomeados nos
Correios, a queda de José Dirceu de sua posição no Executivo, bem como
denúncias de superfaturamento de ambulâncias em um esquema de alocação de
emendas parlamentares32. Logo, a análise da importância do tema "corrupção"
entre os eleitores levará em consideração uma dimensão mais ampla, não estando
apenas circunscrita aos eventos que envolveram diretamente o Partido dos
Trabalhadores.
De acordo com os dados da Tabela_7, observa-se que a corrupção foi um tema
importante entre os eleitores que transferiram seus votos. Mais de um terço dos
eleitores de Heloísa Helena no primeiro turno considerou a corrupção como o
tema prioritário. A corrupção também foi considerada como tema prioritário para
40% dos eleitores de Alckmin que migraram para Lula.
Comparando os dados dos eleitores que transferiram os votos do primeiro para o
segundo turno e o total dos eleitores, verifica-se que aqueles que transferiram
seus votos têm a corrupção como tema prioritário em maior número do que o total
de eleitores.
Com base na análise das variáveis consideradas no levantamento, pode-se ter uma
noção melhor quanto ao perfil dos eleitores que transferiram seus votos nas
eleições presidenciais de 2006. Esses eleitores, em geral, possuem baixos
níveis de identificação ideológica, mas altos níveis de rejeição partidária
(comuma rejeiçãomaior ou menorparacertos partidos, dependendo do candidato em
que o eleitor vota). O nível de acompanhamento da campanha eleitoral é maior
entre eleitores que transferiram votos, principalmente os de Alckmin, em
comparação com o restante do eleitorado. Já os eleitores de Heloísa Helena têm
identificação ideológica à esquerda com maior freqüência que os demais
eleitores, enquanto os de Alckmin um pouco mais à direita. Em sua maioria, os
eleitores que transferiram seus votos entre os dois turnos da eleição votaram
em Lula para presidente em 2002 e têm uma avaliação positiva do seu governo,
além de apresentarem maior atenção em relação ao tema corrupção, que o
eleitorado em geral. Assim, esperamos que essas três variáveis sejam centrais
para explicar a transferência de voto.
Por fim, uma última variável não tratada neste estudo, mas que tem grande peso
no voto em Lula é ser beneficiário do Programa Bolsa Família33. Políticas
públicas desse porte teriam tido um efeito nas eleições de 2006, não só na
"distribuição geoespacial" do voto34, como também nas intenções de voto no
âmbito individual35.
No entanto, não incorporamos o Bolsa Família ao modelo de explicação do voto
pelo fato de o Eseb-2006 possuir apenas uma pergunta em que esse programa
poderia ser citado36. O percentual de respostas que consideram o Bolsa Família
como um tema importante da campanha chega a apenas 1,8%, juntamente com os
programas Bolsa Escola e Fome Zero. Essa variável, da forma como está medida
aqui, não mensura exposição ao Bolsa Família, conforme mensurado por Lício,
Rennó e Castro37, o que inviabiliza controlar aqui seu efeito no voto. Assim,
não dispomos de variáveis que nos permitam aferir corretamente o impacto do
Bolsa Família sobre o voto.
Mas, mais importante do que isso, o Programa Bolsa Família teve um impacto
relevante no voto entre eleitores que foram seus beneficiários, e, não
necessariamente entre todos os eleitores. Assim, o Bolsa Família, por si só,
não explica a eleição de Lula ou o voto em Lula. Acreditamos também que o apoio
ao programa não é capaz de explicar o voto estratégico punitivo, nosso objeto
teórico de estudo, e a transferência de votos entre os turnos da eleição, nosso
objeto empírico. Nosso modelo teórico está baseado em outros fatores, como
visão sobre corrupção, voto em eleições anteriores e avaliação geral do
governo.
DETERMINANTES DA TRANSFERÊNCIA DE VOTOS
Os dados mostrados anteriormente dão uma noção mais nítida quanto ao perfil dos
eleitores que transferiram seus votos entre os dois turnos das eleições de
2006. Todavia, não se pode, com base nesses dados, indicar detalhadamente o
impacto das variáveis, testadas conjuntamente, sobre a transferência de votos.
A seguir, procura-se sanar essa carência por meio de uma análise de regressão
multivariada. Obviamente que também assim não se tem antecedência temporal
clara entre variável independente e dependente, o que é necessário para a
realização de inferências causais. Contudo, podemos afirmar a direção da
causalidade com base na teoria. É razoável tomar como pressuposto que mudar de
voto em 2006 não antecede ou explica visões sobre os problemas nacionais, de
onde derivamos nossa variável que mede o impacto da corrupção, nem avaliação do
governo e muito menos voto em 2002. Assim, podemos supor que o modelo testado
não sofre claramente de um problema de endogeneidade, no qual a variável
dependente explica os resultados das variáveis independentes.
Nessa análise,verifica-se o efeito de certas variáveis sobre a decisão de
transferência de votos de Heloísa Helena para Lula e de Alckmin para Lula,tais
como, ideologia, voto em 2002, identificação partidária, nível de sofisticação
política, percepção sobre corrupção e economia, entre outros38. Usamos uma
função de ligação probite para estimação dos coeficientes pelos quais as
variáveis dependentes adquirem dois valores:1 para os que mudaram de voto
(Helena-Lula e Alckmin-Lula), e zero para os que não mudaram de voto. Assim,
analisamos os fatores que diferenciam os eleitores que transferiram seus votos
entre o primeiro e o segundo turnos e os demais. Valores negativos nos
coeficientes indicam redução na propensão de transferir o voto.
A análise dos dados da Tabela_8 indica que a transferência de votos entre
Heloísa Helena e Lula foi definida pelo padrão de voto em 2002,pela visão sobre
a corrupção como principal problema do país e pelo grau de instrução. Ou seja,
os eleitores que transferiram seus votos de Heloísa Helena, no primeiro turno,
para Lula, no segundo turno, eram antigos eleitores de Lula em 2002, que
passaram a ver a corrupção como o principal problema do país durante o primeiro
mandato de Lula, e com alto grau de instrução. Já a probabilidade de migrar
para Lula diminui se o eleitor pensa que a economia era o principal problema do
país. Portanto, o eleitor de Heloísa Helena, antigo apoiador de Lula, frustrado
com os escândalos de corrupção, com alto grau de instrução,o que se relaciona
com capacidade de aferir a probabilidade de vitória dos distintos candidatos,
abandonou Lula no primeiro turno, punindo-o, mas no momento decisivo da eleição
retornou a ele. Esse perfil se enquadra perfeitamente no de um voto estratégico
punitivo:estratégico porque se baseia nas chances de vitória dos candidatos e
nas preferências dos eleitores, mas que pune a um candidato entre os
preferidos, em vez de evitar a vitória de um candidato menos preferido. Assim,
corroboramos nossa hipótese principal, assim como trabalhos anteriores que
apontaram a centralidade da corrupção nas eleições de 200639.
Já a transferência de voto de Alckmin para Lula é afetada por apenas duas
variáveis. Identificação partidária é uma bastante óbvia, indicando que
eleitores que não mudaram de voto são mais partidários. Mas, o ponto
interessante aqui é o impacto da variável "Acompanhou a Campanha", que indica o
grau de atenção do eleitor ao processo eleitoral. Quem acompanhou a campanha de
perto, tendeu a mudar de posição entre Alckmin e Lula entre o primeiro e
segundo turnos da eleição. Como essa variável foi a única a influenciar a
mudança de voto de Alckmin para Lula, não sendo acompanhada do conjunto
encontrado na mudança entre Heloísa Helena e Lula, não podemos afirmar que a
transferência de voto, nesse caso, se deu por algum mecanismo punitivo.
Embora o efeito dessa variável seja sutil e apenas levemente significativo,em
termos estatísticos, ele dá indícios de que as estratégias de campanha dos dois
candidatos pode ter influenciado a mudança de preferências de Alckmin para
Lula. A campanha de Alckmin deve ter errado mais, principalmente entre o
primeiro e segundo turnos, na divulgação de sua mensagem e na apresentação do
candidato, o que pode ter aumentado a frustração com Alckmin e a conseqüente
tendência de apoio a Lula. O caso, já clássico, da ambivalência de Alckmin
diante da questão das privatizações, em resposta às acusações e às criticas da
campanha de Lula acerca da administração do PSDB em relação a esse tema, pode
explicar a mudança de voto entre Alckmin e Lula. Ou seja, a condução errada da
campanha de Alckmin entre o primeiro e segundo turnos, passando para a
defensiva em um tema que dominou o debate eleitoral, perdendo assim, a posição
de ataque sobre a questão da corrupção, explica por que alguns de seus
eleitores mudaram de voto para Lula no segundo turno. Contudo, é bom deixar
claro que esse não é necessariamente um caso de voto estratégico, mas de voto
baseado na avaliação da campanha dos candidatos. O que mais se aproxima da
idéia de voto estratégico punitivo proposta aqui são os eleitores de Heloísa
Helena que passaram a votar em Lula no segundo turno.
CONCLUSÃO
Com base nos dados obtidos, pode-se dizer que, no geral, corroboramos nossa
hipótese central de que uma parcela pequena, mas relevante, do eleitorado
brasileiro, usou um tipo de voto estratégico diferenciado para a definição de
suas escolhas eleitorais no pleito de 2006. Nesse novo tipo de escolha
eleitoral, a valorização da derrota de um candidato passa a ser central, mas
apenas no primeiro turno. Em outras palavras, esse tipo de voto estratégico
pode ocorrer em sistemas eleitorais de tipo ballotage, com dois turnos, mas são
improváveis em disputas de turno único. Assim, apresentamos aqui um tipo de
voto estratégico, não sincero, que se aplica a eleições em que votos
sofisticados são tidos como pouco prováveis.
Os eleitores de Heloísa Helena encaixam-se perfeitamente nesse perfil: eram
antigos apoiadores de Lula, frustrados com o envolvimento de seu governo em
escândalos de corrupção e que decidiram puni-lo no primeiro turno. Contudo, no
segundo, ao se verem forçados a praticar um voto útil, levaram em consideração
outros atributos do desempenho do governo para voltar a apoiar Lula.
Dessa forma, o presente trabalho procurou mostrar o impacto da transferência de
votos sobre o resultado final das eleições presidenciais de 2006. Utilizando
dados do Eseb-2006, pôde-se conceber um perfil detalhado dos eleitores que
transferiram seus votos, bem como o impacto de certas variáveis sobre a
transferência de votos em um modelo multivariado.
Verificou-se que o percentual de eleitores suscetíveis ao voto estratégico era
muito pequeno (4,3%), o que está em consonância com os achados da literatura
sobre o tema. Contudo, esse número reduzido de eleitores, em boa parte
apresentando um padrão de votação que pode ser classificado como de voto
estratégico punitivo, representou a diferença de uma vitória no primeiro turno
para o candidato Luis Inácio Lula da Silva. Assim, a transferência de votos e o
componente estratégico do voto de certos eleitores, tanto no primeiro turno
como no segundo, foi fundamental para se entender o resultado do pleito,
mostrando com maior clareza a importância de certas variáveis no cálculo
eleitoral empreendido pelo eleitor em sua decisão de voto.
LUCIO R. RENNÓ é PhD em Ciência Política pela Universidade de Pittsburgh,
Estados Unidos e professor adjunto do Centro de Pesquisa e Pós Graduação sobre
as Américas - Ceppac - da Universidade de Brasília.
BRUNO HOEPERS é graduado em Ciência Política pela Universidade de Brasília e
doutorando do departamento de Ciência Política da Universidade de Pittsburgh,
Estados Unidos.
[*] Agradecemos ao parecerista anônimo e editor da revista por comentários e
sugestões assim como a Acir dos Santos Almeida. Os erros e as inconsistências
remanescentes são de nossa responsabilidade.
[1] Rennó, Lúcio R. "Escândalos e voto: as eleições presidenciais brasileiras
de 2006". Opinião Pública, 2007, vol. 13, nº 2, pp. 260-282.
[2] Nicolau, Jairo. "The presidential and congressional elections in Brazil,
October 2006". Electoral Studies, 2008, vol. 27, pp. 170-175.
[3] Pesquisa divulgada pelo Ibope em 16 de setembro de 2006 mostrava Lula com
55% das intenções de votos válidos, contra 32% de Geraldo Alckmin, candidato
oposicionista pelo PSDB.
[4] Rennó (op. cit.) define avaliação retrospectiva multidimensional como voto
baseado não apenas em avaliações do desempenho do candidato à reeleição em
assuntos econômicos, mas envolvendo a atuação do governante em outras frentes,
como questões relacionadas com a corrupção.
[5] Discutiremos esses conceitos em maior detalhe adiante.
[6] Os candidatos considerados neste trabalho são Luiz Inácio Lula da Silva
(PT), Geraldo Alckmin (PSDB), Cristovam Buarque (PDT) e Heloísa Helena (PSOL).
Os dois primeiros são comumente chamados, ao longo do trabalho, de "Lula" e
"Alckmin".
[7] Downs, Anthony. Uma teoria econômica da democracia. São Paulo: Edusp, 1999,
p. 69.
[8] Abramson, Paul R. e outros. "Strategic abandonment or sincerely second
best? The 1999 Israeli Prime Ministerial Election". The Journal of Politics,
2004, vol. 66, n° 3, pp. 706-728.
[9] Blais, A. e Nadeau, R. "Measuring strategic voting: a two-step procedure".
Electoral Studies, 1996, vol. 15, nº 1, pp. 39-52.
[10] Blais e Nadeau, op. cit., p. 40.
[11] O sistema de ballotageé também usado na França para eleições executivas,
legislativas e dos cantões. Ou seja, o sistema de dois turnos não é usado
apenas em eleições para o executivo.
[12] Pérez-Linãn, Aníbal. "Evaluating presidential runoff elections". Electoral
Studies, 2006, vol. 25, pp. 129-46.
[13] Cox, Gary W. Making votes count: strategic coordination in the world's
electoral systems. Cambridge: Cambridge University Press, 1997.
[14] Rodriguez-Zepeda, Juan. "The determinants of strategic voting in the 2002
presidential elections of Brazil". Trabalho apresentado em Southern Political
Science Association, New Orleans, 2008. Disponível em <http://
www.allacademic.com/meta/p208490_index.html>, acessado em 12/09/2008.
[15] Dizemos que uma alternativa é um vencedor de Condorcet se ela ganha de
todas as outras alternativas numa votação majoritária.
[16] Acreditamos que a repetição da conjunção de condições ocorridas em 2006
seja bastante improvável no futuro próximo, pois exige um candidato à
reeleição, escândalos de corrupção e disparidades ideológicas claras entre os
candidatos que passam ao segundo turno. Assim, é importante frisar que essa
proposta teórica possivelmente tem alcance limitado para generalizações, embora
possa ser adaptada nesse sentido, mas é importante para se entender o ocorrido
no pleito em discussão.
[17] Não acreditamos ser necessário aqui estipular como pressuposto da
explicação que o eleitor espera uma mudança de comportamento do candidato ao
puni-lo, deixando de votar nele. A punição pode ser apenas uma sinalização de
que se está atento e insatisfeito com ações ocorridas, e que elas são
suficientes para levar a votar em outro candidato, gerando assim a necessidade
de um segundo turno. Mas, também é óbvio que os custos de se disputar um
segundo turno, para um candidato que lidera pesquisas e tem a expectativa de
ganhar no primeiro, já é uma punição significativa no que tange a gastos tanto
financeiros como emocionais e, inclusive, de reputação.
[18] Balbachevsky, Elizabeth e Holzacker, Denilde Oliveira. "Identidade,
oposição e pragmatismo: o conteúdo estratégico da decisão eleitoral em 13 anos
de eleições". Opinião Pública, 2004, vol. 10, nº 2, pp. 242-53.
[19] Stokes, Susan. Public support for market reforms in new democracies.
Cambridge: Cambridge University Press, 2001.
[20] Essa é uma forma nova de se aferir voto estratégico em eleições com
múltiplos partidos. Para outras formas de se medir e avaliar voto estratégico,
ver Alvarez, Michael e Nagler, Jonathan. "A new approach for modeling strategic
voting in multiparty systems". British Journal of Political Science, 2000, vol.
30, pp. 57-75; Blais e Nadeau, op. cit.
[21] Retiramos da análise os eleitores de Cristovam que mudaram de voto porque
o número de entrevistados nessas categorias era muito baixo. Seguiremos essa
lógica na análise multivariada que se segue.
[22] Carreirão, Yan de Souza e Kinzo, Maria D'Alva G. "Partidos políticos,
preferência partidária e decisão eleitoral no Brasil (1989/2002)". Dados, 2004,
vol. 47, nº 1, pp. 131-168.
[23] Samuels, David. "As bases do petismo".Opinião Pública, 2004, vol. 10, nº
2, pp. 221-241.
[24] O PMDB passou a compor a coligação de governo no segundo mandato de Lula.
[25] Carreirão e Kinzo, op. cit., p.156.
[26] Felsenthal, Dan S. e Brichta, Avraham. "Sincere and strategic voters: an
Israeli study". Political Behavior, 1985, vol. 7, nº 4, pp. 311-24.
[27] Castro, M. M. M. . "Sujeito e estrutura no comportamento eleitoral".
Revista Brasileira de Ciências Sociais, 1992, vol. 20, pp. 7-19.
[28] Hunter, W. e Power, T. J. "Rewarding Lula: Executive Power, social policy,
and the Brazilian elections of 2006". Latin American Politics &
Society,2007, vol. 49, nº 1, pp. 1-30.
[29] Almeida, Alberto C. "À esquerda dos números, à direita dos fatos".
Inteligência - Insight, 2001, vol. 15, pp. 112-28, p. 117.
[30] Carreirão, Yan de Souza. "Identificação ideológica, partidos e voto na
eleição presidencial de 2006". Opinião Pública,2007, vol. 13, nº 2, pp. 307-
339, p. 308.
[31] Stokes, op. cit.
[32] Rennó, op. cit., p. 262.
[33] Hunter e Power, op. cit.; Nicolau, J. e Peixoto, V. "Uma disputa em três
tempos: uma análise das bases municipais das eleições presidenciais de 2006".
Trabalho apresentado no XXXI Encontro Anual da Anpocs, Caxambu, 2007.
Disponível em http://jaironicolau.iuperj.br/artigos/
NICOLAU%20&%20PEIXOTO%20ANPOCS2007%20ST%2024%20PARTIDOS%20E%20SISTEMAS%20PARTIDA%C2%A6%C3%BCRIOS.pdf,
acessado em 27/07/2008.
[34] Soares, G. A. D. e Terron, S. L. "Dois Lulas: a geografia eleitoral da
reeleição: explorando conceitos, métodos e técnicas de análise geoespacial".
Opinião Pública, 2008, vol. 14, nº 2, pp. 269-301.
[35] Lício, Elaine, Rennó, Lucio e Castro, Henrique. "Bolsa Família e voto nas
eleições presidenciais de 2006: em busca do elo perdido". Opinião Pública,
2009, vol.15, nº 1, pp. 31-54.
[36] Eseb1: Qual assunto o(a) sr.(a) considera que foi o mais importante nesta
eleição?
[37] Lício, Rennó e Castro, op. cit.
[38] O número de votos em Cristovam Buarque foi muito pequeno, proibindo
análises multivariadas.
[39] Rennó, op. cit.