O romance: história e teoria
Existem muitas maneiras de falar sobre a teoria do romance, e a minha
consistirá em colocar três questões: por que os romances são escritos em prosa;
por que tão freqüentemente são histórias de aventuras; e por que houve, ao
longo do século XVIII, uma ascensão do romance na Europa, e não na China. Por
disparatadas que possam parecer, essas questões têm origem em uma mesma idéia,
que orienta a coleção O romance: "alongar, alargar e aprofundar o campo
literário", em outras palavras, torná-lo historicamente mais longo,
geograficamente mais largo e morfologicamente mais profundo do que aqueles
poucos clássicos do realismo europeu ocidental do século xix que têm dominado a
teoria recente do romance (e meus próprios trabalhos)2. O que essas questões
têm em comum, portanto, é que elas todas apontam para processos onipresentes na
história do romance, mas não em sua teoria. Neste artigo, vou refletir sobre
essa discrepância e sugerir algumas alternativas possíveis.
I
Prosa. Hoje em dia, tão ubíqua nos romances que tendemos a esquecer que ela não
era inevitável: romances antigos eram escritos certamente em prosa, mas
Satiriconpor exemplo tem muitas e longas passagens em verso; Genji
monogataritem ainda mais (e de forma crucial, já que centenas de poemas
tankaestilizam a tristeza e a espera ao longo da história); romances medievais
franceses atingiram precocemente um pico prodigioso com Chrétien de Troyes;
metade da velha Arcadiaé composta de éclogas; os romances clássicos chineses
utilizam a poesia de diversas formas... Então por que a prosa prevaleceu, ao
fim, de maneira tão absoluta, e o que isso significou para a forma do romance?
Permitam-me começar pelo lado oposto, pelo verso. verso, versus: há um padrão
que vai e volta. Há uma simetria, e simetria sempre sugere permanência, por
isso monumentos são simétricos. Mas a prosa não é simétrica, e isso
imediatamente cria um sentimento de não-permanência e irreversibilidade. Prosa,
pro-vorsa: olhando adiante (ou defrontando, como na Dea Provorsaromana, deusa
parideira): o texto tem uma orientação, ele aponta para a frente, seu sentido
"depende do que está adiante (o fim de uma sentença; o evento seguinte da
trama)", como notaram Michal Guinsburg e Lorri Nandrea3. "O cavaleiro se
defendia de forma tão valente que seus agressores não puderam prevalecer";
"vamos nos afastar um pouco, para que não me reconheçam"; "Não conheço aquele
cavaleiro, mas ele é tão valente que eu lhe daria com satisfação o meu amor".
Encontrei essas passagens em meia página de Lancelot, facilmente, porque em
construções consecutivas e finais-nas quais o sentido depende a tal ponto do
que está à frente que uma sentença literalmente deságua na que lhe segue-esses
arranjos prospectivos estão por toda parte na prosa e lhes conferem seu
peculiar ritmo narrativo acelerado. E não é que o verso ignore o nexo
consecutivo enquanto a prosa não é nada menos que isso, claro; essas são apenas
suas "linhas de menor resistência", para usar a metáfora de Jakobson; não é uma
questão de essência, mas de relativa freqüência-mas o estilo é semprequestão de
freqüência relativa, e o caráter consecutivo da estrutura é um bom ponto de
partida para uma estilística da prosa.
Há contudo um segundo ponto de partida possível, que conduz não em direção à
narratividade, mas à complexidade. É um ponto de partida bastante utilizado em
estudos de dérimage[adaptação em prosa de obras originalmente em verso], a
prosificação dos romances de cavalaria no século xii que foi um dos momentos de
decisão, por assim dizer, entre o verso e a prosa, e um fato freqüente, na
transferência de um a outro, foi que o número de orações subordinadas
aumentou4. O que faz sentido, pois um verso até certo ponto se basta a si
mesmo, estimulando orações independentes; a prosa é contínua, é antes uma
construção. Creio que não é à toa que o mito da "inspiração" seja tão raramente
evocado no caso da prosa: a inspiração é por demais instantânea para fazer
sentido na prosa, semelhante demais a um dom; e a prosa não é um dom, é
trabalho: "produtividade do espírito", como a chamou Lukács na Teoria do
romance, e é a expressão correta: a subordinação [hypotaxis] é não apenas
trabalhosa-ela exige capacidade de antecipação, memória, adequação dos meios
aos fins-mas também verdadeiramente produtiva: o resultado é mais do que a soma
de suas partes, porque a subordinação estabelece uma hierarquia entre orações,
os sentidos se articulam, vêm à tona aspectos que não existiam antes... É desse
modo que a complexidade surge.
A aceleração da narrativa; a construção da complexidade. Ambas reais e
completamente incongruentes uma em relação à outra. O que a prosa significou
para o romance? Ela permitiu que o romance jogasse em duas mesas completamente
diferentes - popular e erudita-, fazendo dele uma forma adaptável e bem -
sucedida como nenhuma outra. Mas, também, uma forma extremamente polarizada. A
teoria do romance deveria possuir maior profundidade morfológica, dissemos
antes, mas "profundidade"éumaexpressão imprecisa. O que temos aqui são extremos
estilísticos que no curso de dois mil anos não apenas se afastam cada vez mais
um do outro, mas se voltam um contrao outro: o estilo da complexidade, com suas
orações hipotéticas, concessivas e condicionais, fazendo as narrativas
prospectivas parecerem simplórias e plebéias; e formas populares, por sua vez,
mutilando a complexidade sempre que possível - palavra, sentença, parágrafo,
diálogo, por toda parte.
Uma forma dividida entre a narratividade e a complexidade: com a narratividade
dominando sua história, e a complexidade sua teoria. Entendo, é claro, por que
alguém prefere estudar a estrutura de frase em The Ambassadorsdo que a de seu
contemporâneo Dashing diamond Dick. O problema não é o juízo de valor, mas é
que quando um juízo de valor se torna o fundamento de conceitos ele não
determina apenas o que é valorizado ou não, mas o que é pensávelou não, e,
nesse caso, o que se torna impensável é, primeiro, a maior parte de todo o
território do romance e, segundo, sua própria forma: porque a polarização
desaparece se você olhar apenas para um dos extremos, quando na verdade não
deveria, porque é a marca de como o romance participa da desigualdade social, e
a duplica, transformando-a em desigualdade cultural. Uma teoria do romance
deveria levar isso em consideração. Mas, para tanto, precisamos de um novo
ponto de partida.
Veblen "explica a cultura a partir do kitsch, e não o contrário", escreve
Adorno em tom de desaprovação, em Prismas5. Mas é uma idéia tão tentadora.
Tomar o estilo de romances baratos como o objeto básico de estudo e explicar o
de Henry James como um improvável produto marginal: é assim que uma teoria do
romance deveria proceder - porque é assim que a históriaprocedeu. E não ao
contrário.
Olhar para a prosa de baixo... Agora, com bases de dados digitais, isso é fácil
de imaginar: mais alguns anos e seremos capazes de fazer buscas em praticamente
todos os romances já publicados, e procurar padrões entre bilhões de frases.
Pessoalmente, sou fascinado por essa confluência entre o formal e o
quantitativo. Permitam-me oferecer um exemplo: todos os estudiosos da
literatura analisam estruturas estilísticas - estilo livre indireto, o fluxo de
consciência, excesso melodramático, e assim por diante. Mas é surpreendente
quão pouco sabemos de fato sobre a gênese dessas formas. Uma vez que se
encontram ali, sabemos o que fazer; mas como chegaram até lá, para começar?
Como o "pensamento confuso" (Michel vovelle) da mentalité, que é o substrato de
quase tudo que acontece em uma cultura - como a confusão se cristaliza na
elegância do discurso indireto livre? Concretamente: quais são os passos?
Ninguém sabe ao certo. Ao esmiuçar diversas variações, permutações e
aproximações, uma estilística quantitativa de arquivos digitais pode chegar a
algumas respostas. Será difícil, sem dúvida, porque não se pode estudar um
arquivo enorme da mesma maneira que se estuda um texto: textos são concebidos
para "falarem" conosco e, assim, se soubermos escutá-los, sempre acabam por nos
dizer algo; mas arquivos não são mensagens, pensados para se dirigirem a nós,
então não dizem absolutamente nada até que se faça a pergunta certa. E o
problema é que nós estudiosos literários não somos bons nisso: somos treinados
a escutar, não a fazer perguntas, e fazer perguntas é o contráriode ouvir: vira
a crítica de ponta-cabeça e a transforma em uma espécie de experimento.
"Questões dirigidas à natureza" é como os experimentos são freqüentemente
descritos, e o que estou imaginando aqui são questões dirigidas à cultura.
Difícil, mas interessante demais para não tentar.
II
Tudo isso está no futuro. Meu segundo ponto está no passado. Romances são
longos; ou melhor, eles abarcam um espectro amplo de tamanhos-das 20 mil
palavras de Daphnis e Chloeàs 40 mil de Chrétien, 100 mil de Austen, 400 mil de
Dom Quixote, e mais de 800 mil de The story of the stone-e um dia será
interessante analisar as conseqüências desse espectro, mas por ora aceitemos
apenas a simples noção de que são longos. A questão é "como chegaram a ser
desse jeito?", e existem evidentemente diversas respostas mas, se eu tivesse
que escolher apenas um mecanismo, eu diria "aventuras"6. Aventuras expandem os
romances ao abri-los para o mundo: há um pedido de ajuda-e o cavaleiro parte.
Normalmente sem fazer perguntas; e, o que é típico da aventura, o desconhecido
não é uma ameaça, é uma oportunidade, ou mais precisamente: não existe mais a
distinção entre ameaças e oportunidades. "Quem abandona o caminho perigoso pelo
seguro", diz Galessin, um dos cavaleiros da Távola Redonda, "não é um
cavaleiro, é um comerciante": é verdade, o capital não gosta do perigo pelo
perigo, mas um cavaleiro sim. Ele é devedor. Ele não pode armazenar glórias,
deve renová-las o tempo todo, portanto ele precisa do moto-perpétuo da
aventura...
...perpétuo, especialmente se há uma fronteira à vista: do outro lado da ponte,
dentro da floresta, montanha acima, através do portão, no mar. As aventuras
criam romances porque os amplificam; são os grandes exploradores do mundo da
ficção: campos de batalha, oceanos, castelos, caminhos subterrâneos, pradarias,
ilhas, cortiços, selvas, galáxias... Praticamente todos os grandes cronótopos
populares surgiram quando as tramas de aventura se mudaram para novas
geografias, e ativaram seu potencial narrativo. Assim como a prosa multiplica
estilos, a aventura multiplica histórias: e a prosa prospectiva é perfeita para
a aventura, sintaxe e trama movendo-se em conjunto. Não estou certo de que
exista um ramo principal na família de formas a que chamamos romance, mas se
há, é esta: seríamos capazes de reconhecer a história do romance sem o
modernismo ou mesmo sem o realismo7; sem aventuras em prosa, não.
Aqui, também, o campo do romance é profundamente polarizado entre aventuras e
vida cotidiana; e aqui, também, a teoria do romance mostrou muito pouco
interesse (com exceção de Bakhtin, e agora de Pavel) pelo lado popular do
campo. Mas não quero reiterar esse aspecto do argumento; em vez disso vou me
voltar à curiosa estreitezaque - apesar de toda sua plasticidade - parece ser
típica de aventuras. Uma estreiteza social, fundamentalmente. A idéia toda foi
"invenção da pequena nobreza de cavaleiros sem vintém", para quem aventureera
uma forma de sobreviver - e, possivelmente, casar com uma herdeira, como diz
Erich Köhler, que foi o grande sociólogo dessa convenção8. Mas se os cavaleiros
necessitam de aventuras, para outras classes sociais a noção permaneceu opaca.
"Eu sou, como podes ver, um cavaleiro à busca daquilo que não posso encontrar",
diz Calogrenante a um camponês no início de Yvain: "E o que você quer
encontrar?". "Aventura, para testar minha coragem e minha força. Agora rogo e
imploro que me sugiras, se sabes, de alguma aventura ou maravilha". "Nada sei
de aventura, e dela nunca ouvi falar" (ii, 356-67). Que resposta; apenas poucos
anos antes, na chanson de geste, a natureza da ação cavaleiresca era clara para
todo mundo; não mais nesse momento. O ethoscavaleiresco tornou-se "absoluto
tanto com referência a seu aperfeiçoamento ideal, como também em realção à
falta de finalidades terrenas e práticas", escreve Auerbach em Mimesis:
"nenhuma função política... nenhuma realidade prática". E ainda assim, continua
Auerbach, esse ethosirreal "conquistou aceitação e validade no mundo real" da
cultura ocidental de forma aparentemente definitiva9. Como isso foi possível?
Para Köhler, a razão está no fato de que a aventura se "estilizou e moralizou"
no ideal mais abrangente-lançado pelas cruzadas, e sublimada pelo Graal - da
"redenção cristã do guerreiro"10. O que parece correto, mas por sua vez suscita
um outro problema: como é que essas coordenadas rigidamente feudais da aventura
puderam não apenas sobreviver na era burguesa, mas também inspirar todos os
seus gêneros mais populares?
III
Antes que eu arrisque uma resposta, algumas reflexões a respeito da terceira
questão, a comparação entre China e Europa. Até meados do século xix, quase ao
fim para ser mais exato, os romances do leste asiático e do oeste europeu se
desenvolveram independentemente um do outro; o que é muito bom, é como um
experimento que a história realizou para nós, a mesma forma em dois...
laboratórios, situação perfeita para a morfologia comparativa, porque nos
permite olhar para traços formais não como dados, como inevitavelmente tendemos
a fazer, mas como escolhas. E escolhas que no fim resultam em estruturas
alternativas. Começando, por exemplo, com o fato de quão freqüentemente os
protagonistas de romances chineses serem, não indivíduos, mas grupos: a unidade
familiar em Jin Ping Meie em A história da pedra(ou Sonho do quarto vermelho),
os fora-da-lei em A margem d'água, os literatos em Os acadêmicos. Títulos já
são uma pista - como ficariam os títulos europeus sem nomes próprios? - mas
aqui, nem ao menos um; e esses não são romances escolhidos aleatoriamente, são
quatro das seis "grandes obras-primas" do cânone chinês, seus títulos (e seus
heróis) importam.
Grupos, portanto. Extensos; e com sistemas de personagens ainda mais extensos
em seu entorno: críticos chineses identificaram mais de seiscentas personagens
em Os acadêmicos, oitocentas em A margem d'águae no Jin Ping Mei, 975 em A
história da pedra. E como tamanho dificilmente é apenastamanho - uma história
com mil personagens não é apenas uma história com cinqüenta personagens vinte
vezes maior: é uma história diferente - tudo isso acaba por gerar uma estrutura
que é muito pouco semelhante à que estamos acostumados na Europa. Com tantas
variáveis, era de se esperar que fosse mais imprevisível, mas costuma ser o
oposto: um grande esforço para reduzira imprevisibilidade e reequilibrar o
sistema narrativo. vejamos um exemplo tirado de A história da pedra: após
seiscentas ou setecentas páginas, os dois jovens amantes ainda não declarados,
Bao-yu e Dai-yu, têm uma de suas muitas brigas; Dai-yu sai de cena e Bao-yu,
agora só, cai em uma espécie de transe; sua serviçal Aroma chega, e ele, sem
perceber sua presença, em seu estado onírico começa a expressar pela primeira
vez o seu amor por Dai-yu; ele então desperta, vê Aroma, fica perplexo, foge, e
pode-se imaginar todo tipo de conseqüência: Aroma tem dormido há algum tempo
com Bao-yu, e poderia ficar magoada; ou poderia ir atrás de Dai-yu, e dizer a
ela aquilo que Bao-yu acaba de dizer; ou poderia denunciá-la à outra jovem que
está apaixonada por Bao-yu... Muitas maneiras de fazer o episódio gerar
narrativa (afinal, estivemos esperando por essa declaração de amor por centenas
de páginas); e no entanto, o que Aroma pensa imediatamente é "o que ela poderia
fazer para impedir que um escândalo decorresse dessas palavras".
Impedirdesenvolvimentos: essa é a chave. Minimizar a narratividade. A história
da pedraé recorrentemente descrito como Os Buddenbrookschinês, e certamente
ambos são histórias do declínio de uma grande família, mas o romance de Thomas
Mann cobre meio século em quinhentas páginas, e A história da pedrauma dúzia de
anos em duas milpáginas: e não é apenas uma questão de ritmo, aqui (apesar de
obviamente ser também o caso), mas da hierarquia entre sincronia e diacronia: o
romance chinês tem uma dominante "horizontal", onde o que importa mesmo é não o
que está "adiante" de um determinado evento, como na prosa prospectiva, mas o
que está "ao seu lado": todas as vibrações que se propagam ao longo desse
sistema narrativo imenso - e todas as contra-vibrações que tentam estabilizá-
la. Antes, indiquei como a quebra da simetria permitiu à prosa européia
intensificar o efeito de irreversibilidade; a irreversibilidade está presente
em romances chineses, claro, mas em vez de a intensificar eles recorrentemente
tentam contê-la, e assim a simetria readquire sua centralidade: capítulos são
anunciados por coupletsque claramente os dividem em duas partes; muitas
passagens importantes são redigidas na maravilhosamente intitulada "prosa
paralela" ("Todo significado dedicado à busca do prazer; toda manhã uma ocasião
para devaneios despreocupados"); na arquitetura geral do romance existem blocos
de dez, vinte e até cinqüenta capítulos que se espelham uns aos outros através
de centenas de páginas... É de fato uma tradição alternativa.
Alternativa, mas comparável: até o século XVIII, o romance chinês era
provavelmente maior em extensão e superior em qualidade do que qualquer um na
Europa, com a possível exceção da França. "Os chineses têm romances aos
milhares, e já os tinham quando os nossos ancestrais ainda viviam na floresta",
disse Goethe a Eckermann em 1827, no dia em que cunhou o conceito de
Weltliteratur(ao ler um romance chinês). Mas os números estão errados: em 1827
já existiam romances aos milhares na França, ou na inglaterra, ou na Alemanha -
mas não na China. Por quê?
IV
Quando discutimos os destinos de áreas centrais do século XVIII, escreve
Kenneth Pomeranz:
Devemos fazer que nossas comparações... sejam verdadeiramente
recíprocas... isto é, devemos procurar por ausências, acidentes e
obstáculos que desviaram a Inglaterra de um caminho que poderia tê-la
feito mais parecida com o delta do Yang-tsé ou com Gujarat, junto com
o exercício mais usual de procurar por bloqueios que impediram áreas
não-européias de reproduzir caminhos europeus implicitamente
normalizados... devemos conceber ambos os lados da comparação como
"desvios" quando vistos segundo as expectativas do outro, em vez de
deixar sempre um como norma11.
A ascenção européia do romance como desvio do caminho chinês: logo que se
começa a pensar nesses termos, salta aos olhos o quanto o romance foi levado
mais a sério na China do que na Europa. Apesar de todos os ataques dos
literatos confuncianos, no início do século XVII a cultura chinesa já possuía
um cânone do romance; a Europa ainda nem pensava nisso. Para a epopeia ou para
a tragédia já o possuía, ou para a lírica; não para o romance. E o cânone é
apenas a ponta do iceberg: havia na China um imenso investimento de energias
intelectuais na edição, revisão, continuação e especialmente no comentáriode
romances. Esses já eram livros bastante longos, O romance dos três reinos,
seiscentas mil palavras, o comentário de entrelinhas o fazia ter quase um
milhão - mas aumentava tanto "a fruição... do romance", escreve David Rolston,
"que edições sem comentários... saíram de circulação"12.
"O romance precisa menos de... comentários do que outros gêneros", escreve Watt
em A ascensão doromance13, e no caso da Europa ele está certo. Mas os romances
chineses precisavam deles, porque eram considerados uma arte. Desde pelo menos
o Jin Ping Mei, por volta de 1600, "o xiaushuochinês sofreu uma... extensa
virada estética", escreve Ming Dong Gu: "uma imitação e competição auto-
consciente com os gêneros literários dominantes... uma poetização"14.
Deveríamos procurar por ausências que desviaram o romance europeu do caminho
chinês... e aqui está um: a virada estética do romance europeu ocorreu no fim
do século xix, com um atraso de quase trezentos anos15. Por quê?
V
Para Pomeranz, uma razão para a grande divergência foi que na Europa do século
XVIII"as rodas da moda estavam girando mais rápido"16, estimulando o consumo, e
pelo consumo a economia como um todo; enquanto na China, depois da consolidação
da dinastia Qing, o consumo "enquanto motor da mudança" ficou suspenso por mais
de um século, não chegando a disparar aquela "revolução do consumo" a respeito
da qual escreveram McKendrick, Brewer e Plumb. Revolução é uma grande palavra e
muitos questionaram a extensão do consumo antes de meados do século XIX; ainda
assim, ninguém de fato duvida que as "coisas supérfluas", para usar uma
expressão chinesa, se multiplicaram durante o século XVIII, da decoração de
interiores a espelhos, relógios, porcelanas, prataria, jóias-e concertos,
passeios e livros. "Em qualquer análise do lazer", escreve Plumb, "seria
bastante errado não colocar as preocupações culturais em primeiro plano"17.
Então: o que o "nascimento de uma sociedade de consumo" representou para o
romance europeu?
Em primeiro lugar, um salto quantitativo gigantesco. Entre a primeira e a
última década do século, a quantidade de títulos novos aumentou sete vezes na
França (ainda que, nos anos de 1790, os franceses tivessem mais o que fazer do
que escrever romances); quatorze vezes na inglaterra; e cerca de trinta vezes
nos territórios germânicos. igualmente, pelo fim do século XVIII as tiragens se
tornaram um pouco maiores, especialmente no caso de reimpressões; muitos
romances que não estão incluídos nas bibliografias usuais foram publicados em
revistas (algumas das quais com grande público leitor); o fortalecimento de
laços de família encorajou a leitura doméstica em voz alta (fornecendo o campo
de treinamento para a vocação do Dr. Bowdler); finalmente, e mais importante, a
difusão de bibliotecas circulantes fez os romances se difundirem de forma muito
mais eficiente do que antes, conduzindo por fim à imposição do formato em três
volumes tanto a escritores como a editores, a fim de permitir o empréstimo
simultâneo a três leitores. Por difícil que seja quantificar esses diversos
fatores, se todos eles combinados tiverem feito a circulação de romances
aumentar entre duas a quatro vezes (uma estimativa conservadora), então a
presença de romances na Europa ocidental teria crescido entre trinta e sessenta
vezes ao longo do século XVIII. Para McKendrick, o fato de que o consumo de chá
cresceu quinze vezes no espaço de cem anos é uma grande história de sucesso da
revolução no consumo. O de romances cresceu ainda mais do que o de chá.
Por quê? A resposta costumava ser "porque cresceu o número de leitores". Mas o
consenso atual-que é escorregadio, como tudo relacionado com a alfabetização,
mas que tem permanecido estável até agora-é que entre 1700 e 1800, a quantidade
de leitores dobrou; um pouco menos do que isso na França, um pouco mais na
inglaterra, mas esse é o horizonte. Dobrou; não multiplicou por cinqüenta. Mas
eles passaram a ler de maneira diferente: leitura "extensiva", como a chamou
Rolf Engelsing: lendo muito mais do que antes, avidamente, às vezes de maneira
apaixonada, mas é provável que também, na maioria das vezes, superficial e
rapidamente, até mesmo de forma um pouco errática; muito diferente da leitura e
releitura "intensivas" dos mesmos (e poucos) livros-em geral, livros de
devoção-que haviam sido a norma até então18. E a tese de Engelsing tem sido
freqüentemente criticada, mas com os romances se multiplicando muito mais
rapidamente do que os leitores, e os leitores se comportando como o famoso John
Latimes, de Warwick, que de meados de janeiro a meados de fevereiro de 1771
tomou emprestado um volume por dia da biblioteca de Clay19, é difícil imaginar
como o processo todo poderia ter funcionado sem um grande aumento da, digamos,
distração.
Vamos chamar assim, porque, ainda que Engelsing nunca mencione Benjamin, a
leitura extensiva parece muito com uma versão precoce daquela "percepção em
estado de distração" descrita ao fim de "A obra de arte na era de sua
reprodutibilidade técnica". Distração naquele ensaio é Zerstreuung -
despreocupação e entretenimento: a combinação perfeita para a leitura de
romances-e para Benjamin é a atitude que se torna necessária naqueles "pontos
de guinada histórica" quando as "tarefas" diante do "aparato perceptivo humano"
são tão desafiadoras que não podem ser "dominadas" por meio da atenção
concentrada20: e a distração surge como a melhor forma de lidar com a nova
situação - de ficar a par daquelas "rodas da moda cada vez mais rápidas" que
ampliaram o mercado do romance de forma tão dramática21.
O que o nascimento de uma sociedade de consumo significou para o romance
europeu? Mais romances e menos atenção. Romances baratos, não Henry James,
dando o tom da nova forma de ler. Jan Fergus, que sabe mais do que todo mundo
sobre registros de bibliotecas circulantes, chama de leitura "incoerente":
tomar de empréstimo o segundo volume das Viagens de Gullivermas não o primeiro,
ou o quarto, de cinco, de The Fool of Quality. E Fergus então celebra isso como
a "forma de ação do leitor, seu poder de escolha"22 - mas, francamente, a
escolha aqui parece ser, abrir mão de toda consistência, para estar sempre de
alguma forma em contato com aquilo que o mercado tem a oferecer. Deixar a
televisão ligada o dia todo, e assistir de tempos em tempos - isso não é forma
de ação.
VI
Por que não houve um desenvolvimento do romance chinês no século XVIII - nem
virada estética européia? As respostas espelham uma na outra: levar o romance a
sério como objeto estético desacelerou o consumo - enquanto um mercado mais
ágil para romances desencorajou a concentração estética. "Ao ler o primeiro
capítulo, o bom leitor já dirigiu seu olhar ao último", diz um comentário ao
Jin Ping Mei(que tem duas mil páginas); "ao ler o último capítulo, ele já está
lembrando do primeiro"23. É assim a leitura intensiva: a única leitura
verdadeira é a releitura, ou mesmo "uma sériede releituras", como parecem
pressupor vários comentadores. "Se você não faz uso de seu lápis, não dá para
considerar realmente como leitura", disse certa vez Mao. Estudo; não o consumo
de um volume por dia. Na Europa, só o modernismo fez as pessoas estudarem
romances. Tivessem elas lido com lápis e comentário no século XVIII, não teria
havido o desenvolvimento do romance europeu.
VIII
Tipicamente, as grandes teorias do romance têm sido teorias da modernidade, e
minha insistência com o mercado é uma versão particularmente brutal delas. Mas
com uma complicação, sugerida por outro programa de pesquisa com o qual estou
presentemente envolvido, sobre a figura do burguês, no curso do qual fui
freqüentemente surpreendido por o quão limitadaparece ter sido a difusão de
valores burgueses. O capitalismo se espalhou por toda parte, sem dúvida, mas os
valores que-segundo Marx, Weber, Simmel, Sombart, Freud, Schumpeter,
Hirschmann...-lhe são supostamente mais congruentes não, e isso me fez olhar
para o romance com um olhar diferente: não mais como a forma "natural" da
modernidade burguesa, mas como aquela por meio da qual o imaginário pré-moderno
continua presente no mundo capitalista. Daí as aventuras. O antípoda do
espírito do capitalismo moderno, segundo A ética protestante; um tapa na cara
do realismo, como Auerbach viu de forma tão clara em Mimesis. O que faz a
aventura no mundo moderno? Margaret Cohen, de quem aprendi muito sobre o
assunto, a vê como um tropo de expansão: o capitalismo na ofensiva, planetário,
cruzando oceanos. Acho que ela está certa, e acrescentaria apenas que a razão
pela qual a aventura funciona tão bem nesse contexto é que ela é muito boa para
imaginar a guerra. Apaixonada pela força física, à qual fornece justificativa
moral na forma da salvação dos fracos de toda forma de abuso, a aventura é a
combinação perfeita de poder e dever para acompanhar as expansões do
capitalismo. É por isso que o guerreiro cristão de Köhler não apenas sobreviveu
em nossa cultura - em romances; filmes; videogames - não apenas sobreviveu, mas
sobrepuja qualquer figura burguesa comparável. Schumpeter colocou de forma crua
e clara: "A classe burguesa... precisa de um senhor"24.
Precisa de um senhor-para ajudar a exercer a dominação. Ao encontrar distorção
após distorção de valores burgueses centrais, minha primeira reação foi sempre
pensar na perda de identidade de classe que isso implicava; o que é verdade,
mas, de outro ponto de vista, completamente irrelevante, porque a hegemonia não
exige pureza - exige plasticidade, camuflagem, cumplicidade entre o velho e o
novo. Sob essa outra constelação, o romance volta a ser central para a nossa
compreensão da modernidade: não apesar, mas por causade seus traços pré-
modernos, que não são resíduos arcaicos, mas articulações funcionais de
necessidades ideológicas. Decifrar os estratos geológicos de consenso no mundo
capitalista - aí está um desafio que vale a pena, para a história e a teoria do
romance.
FRANCO MORETTI é o organizador da coletânea O romance(CosacNaify, 2009).
[1] Originalmente publicado em New Left Review, 52, julho-agosto de 2008.
[2] Este artigo foi apresentado na conferência "Teorias do romance", organizada
pelo projeto O romance, na Universidade Brown, no outono de 2007. Com exceção
de algumas passagens, expandidas à luz da discussão que se seguiu, deixei o
texto mais ou menos como estava, adicionando apenas algumas notas. Sou muito
grato a Nancy Armstrong, que me convenceu a escrever este artigo; e a D. A.
Miller e William Warner, com quem o discuti longamente. A frase de O romanceé
retirada do breve prefácio ("Sobre O romance") que pode ser encontrado em ambos
os volumes da edição americana (The novel. Volume 1: History, Geography and
Culture. Volume 2: Forms and Themes. Princeton/Oxford: Princeton University
Press, 2006).
[3] Ginsburg, M. e Nandrea, L. "A prosa do mundo". In: Moretti, Franco (org. ).
The novel, vol. 2, Princeton/ Oxford: Princeton University Press, 2006, p. 245. A respeito deste tópico, aprendi bastante também com o artigo
de Hanson, Kristin. e Kiparsky, Paul. "The nature of verse and its consequences
for the mixed form". In: Harris, Joseph. e Reichl, Karl (orgs. ). Prosimetrum.
Cross-cultural perspectives on narrative in prose and verse. Cambridge: Brewer,
1997.
[4] Ver, por exemplo, Godzich, W. e Kittay, J. The emergence of prose. An essay
in prosaic. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1987, pp. 34ss.
[5] [ed. bras. ] Adorno, Theodor W. "O ataque de Veblen à cultura'. Prismas.
São Paulo: Ática, 1997, p. 75.
[6] Se eu tivesse que escolher um único mecanismo... E se eu pudesse escolher
dois: aventuras-e amor. Um mecanismo para expandir a história, e um para mantê-
la unida: uma conjunção que é especialmente clara nos romances antigos, nos
quais o amor é a única fonte de permanência em um mundo onde tudo o mais é
jogado aos quatro ventos pela sorte, e age, portanto, como uma figura para os
laços sociais em geral: a união livremente escolhida pela qual, em antítese às
aventuras despoticamente impostas por Tuche, um organismo maior pode ser
vislumbrado. Mas esse equilíbrio entre amor e aventura se rompe nos romances de
cavalaria, na medida em que cavaleiros errantes passam a procurarativamente por
aventuras (a Busca), e novas figuras para o contrato social emergem (a corte, a
Távola Redonda, o Santo Graal). Nessa nova situação, o amor se torna
funcionalmente subordinado à aventura-e o tema do adultério, que surge
imediatamente, é a um só tempo o sintoma dessa força criadora de vínculos e
dessa nova posição problemática. Essa redistribuição de tarefas narrativas, da
qual o amor nunca se recuperou completamente, é a razão pela qual decidi
enfocar exclusivamente as aventuras; além disso, o amor tem sido reconhecido
pela teoria do romance, há muito tempo (especialmente na tradição inglesa), e
eu queria redirecionar nossa atenção para aquele fenômeno histórico mais amplo.
[7] O modernismo (isto é: a hoste de experimentos centrífugos-Stein, Kafka,
Joyce, Pilniak, de Chirico, Platonov...-arriscados nos anos próximos à Primeira
Guerra Mundial), assim esperamos, desempenhará um papel maior do que o realismo
em qualquer teoria do romance futura, uma vez que um conjunto de extremos
incompatíveis deveria ser capaz de revelar algo único a respeito de o que a
forma pode-e não pode-fazer. Até agora, no entanto, não tem sido esse o caso.
[8] Köhler, E. "Il sistema sociologico del romanzo francese medievale".
Medioevo Romanzo, vol. 3, 1976, pp. 321-44.
[9] Auerbach, Erich. Mimesis.São Paulo: Perspectiva, 1998, pp. 116-17. A respeito, conferir também Köhler, Erich. "Quelques observations de
ordre historico-sociologique sur les rapports entre la chanson de geste e le
roman courtois". Chanson de geste und höfischer Roman. Heidelberg: Carl Winter,
1963, passim.
[10] Köhler, "Quelques observations...", op. cit. , p. 326.
[11] Pomeranz, Kenneth. The great divergence. China, Europe, and the making of
the modern world economy. New Jersey: Princeton University Press, 2000, pp. 7-
8.
[12] Roston, David L. Traditional chinese fiction and fiction commentary.
Reading and writing between the lines. Stanford: Stanford University Press,
1997, p. 4.
[13] Watt, Ian. The rise of the novel. Berkeley: University of California
Press, 1957, p. 30 [ ed. bras. : A ascensão do romance. São
Paulo: Companhia das Letras: 1990] .
[14] Gu, Ming Dong. Chinese theories of fiction. A non-western narrative
system. Albany: State University of New York Press, 2006, p. 71.
[15] A divergência entre os dois modelos é bem ilustrada pelo papel
desempenhado por Dom Quixotee Jin Ping Mei-dois romances que foram escritos no
mesmo ano, e que são freqüentemente comparados entre si (mais por sinólogos do
que por hispanistas, deve ser dito)-em suas respectivas tradições: por ao menos
dois séculos, se não mais, a influência do Jin Ping Meina teoria e prática do
romance na China foi incomparavelmente maior do que a de Dom Quixotena Europa.
Um afastamento parecido de trajetórias ocorre no final do século XVII , quando
o pico da virada estética chinesa (A história da pedra) poderia ter encontrado
seu par em uma geração de poetas-romancistas alemães incrivelmente talentosos
(Goethe, Hölderlin, Novalis, Schlegel, Von Arnim, Brentano)-não fosse apenas o
fato de terem sido completamente ignorados pelos leitores europeus (com exceção
de Goethe, claro; mas mesmo Goethe manteve a primeira versão, "poética", de Os
anos de aprendizagem de Wilheim Meisterem uma gaveta, como se pressentisse que
não era um livro adequado para a época). Incidentalmente, que o Jin Ping
Meitenha sido celebrado como a obra de arte que transformaria o romance chinês
é um outro exemplo impressionante da diferença entre as duas tradições: que a
cultura européia pudesse produzir-e apreciar!-um corpuserótico tão explícito
como o chinês é inimaginável.
[16] Pomeranz, op. cit. , p. 161.
[17] Plumb, J. H. "Thecommercialization of leisure in eighteenth-century
England". In: McKendrick, Neil. , Brewer, John. , Plumb, J. H. The birth of a
consumer society. The commercialization of Eighteenth-Century England.
Bloomington: Indiana University Press, 1982, pp. 265-66.
[18] Engelsing, Rolf. Der Bürger als Lesser. Lesergeschichte in Deutschland
1500-1800. Stuttgart: Kohlhammer, 1974, especialmente pp. 182ss.
[19] Fergus, Jan. Provincial readers in Eighteenth-Century England. Oxford:
Oxford University Press, 2006, p. 113.
[20] Benjamin, Walter. "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica"
(1935). In: Magia e técnica, arte e política-vol. I. São Paulo: Brasiliense,
1996. A passagem reaparece praticamente inalterada na
terceira versão do ensaio (1939).
[21] Como espero que esteja claro, meu enfoque em consumo, moda e distração não
tem a intenção de apagar o capitalismo da história literária, mas especificar
quais de seus aspectos desempenharam um papel causal mais direto no
desenvolvimento do romance. Inquestionavelmente, a expansão capitalista como o
tal criou algumas pré-condições gerais cruciais: uma população maior e mais
alfabetizada; maior renda "gastável"; e mais tempo livre (para alguns). Mas
desde que a quantidade de títulos aumentou quatro vezes mais rápido do que
materiais impressos em geral durante o século XVIII(mesmo incluindo a enxurrada
de panfletos no fim do século: ver Raven, James. The business of books.
booksellers and the english book trade 1450-1850. New Haven: Yale Universitiy
Press, 2007, p. 8), devemos explicar também essa taxa de
crescimento distinta: e aquela peculiar expansão da mentalidade de consumo
incorporada pela distração e pela moda (e que parece desempenhar um papel menor
para o caso dos dramas, da poesia, e a maioria dos outros tipos de produção
cultural), parece ser a melhor explicação que temos até o momento. Que o
consumo desempenhe um papel tão amplo na história do romance depende, por sua
vez, do fato de que a suspeita em relação à leitura por prazer estava começando
a desaparecer, junto com a idéia de Constant de "liberdade dos modernos" como
"o gozo seguro de prazeres privados" (Constant, Benjamin. Political writings.
Cambridge: Cambridge University Press, 2007, p. 317). O
prazer, aliás, é outro ponto cego da teoria do romance: apesar de "sabermos",
mais ou menos, que o romance era desde o início uma forma de "leitura leve"
(Hågg, Thomas. "orality, literacy, and the 'readership' of the early greek
novel". In: Eriksen, R. (org. ). Contexts of pre-novel narrative. Berlim/Nova
York: Mouton de Gruyter, 1994, p. 51), ainda pressupomos em
nossas pesquisas que a leitura por prazer é basicamente o mesmo que a leitura
por "razões sérias religiosas, econômicas, ou sociais" (Hunter, J. Paul. Before
novels. the cultural contexts of eighteenth century english fiction, Nova York/
Londres: WW Norton & Company, 1990, p. 84: um dos poucos a colocar o
problema de forma interessante). Este é ainda um outro tema a
respeito do qual os estudos históricos específicos estão bem adiante da
reflexão teórica: o aumento dramático do campo do romance na Antigüidade
Clássica, por exemplo, não teria sido possível sem uma guinada em direção a
formas de escrita populares, leves e até mesmo vulgares.
[22] Fergus, op. cit. , pp. 108-17.
[23] Rolston, op. cit. , p. 126.
[24] Schumpeter, Joseph A. Capitalism, socialism and democracy[1942]. Nova
York: Harper, 1975, p. 138.