Por dentro do estado de São Paulo
Desde a segunda metade dos anos de 1970, observa-se um movimento de
interiorização da população e da atividade econômica no Estado de São Paulo1.
Nessa década, o Estado convivia com uma única grande conglomeração urbana, a
Região Metropolitana de São Paulo (RMSP). Atualmente duas outras regiões estão
consolidadas - Baixada Santista e Campinas -, sendo que em Sorocaba e São José
dos Campos o processo se encontra em estado avançado. Além disso, outros pólos
econômicos regionais vêm sendo constituídos ao longo dos últimos trinta anos.
Há consenso sobre uma ampla transformação das estruturas de população e de
atividade econômica no território paulista, exigindo do gestor público uma
crescente atenção sobre processos em curso para além daqueles observados na
Região Metropolitana de São Paulo2. Mesmo porque a formação de outras regiões
metropolitanas ao redor daquela que ainda concentra metade da população e da
produção do Estado amplia a integração entre elas, acabando por exigir uma
visão sistêmica das relações existentes e potenciais que elas estabelecem ou
possam estabelecer entre si.
Até pouco tempo, as evidências sobre este processo, oriundas muitas vezes das
demandas por políticas públicas sociais e de infraestrutura, encontravam
razoável dificuldade de avaliação em razão da ausência de informação
atualizada, especialmente sobre as transformações socioeconômicas ocorridas no
Estado. A informação existente encontrava-se restrita à Região Metropolitana,
mesmo porque os maiores problemas econômicos e sociais urbanos do Estado ali se
concentravam, bem como tendiam a apresentar maior potencial de amplificação de
suas conseqüências para o desenvolvimento paulista.
Contudo, a recorrência do processo de interiorização destas últimas décadas foi
exigindo maior atenção para as transformações sociais e econômicas em curso
para além da Região Metropolitana, induzindo mudanças na configuração
institucional do próprio Governo do Estado, que foi obrigado a ampliar funções
que, até então, estavam concentradas na sua grande metrópole. A mudança
significou a necessidade de ter mais informações sobre o interior do Estado,
levando as instituições públicas a iniciar um processo de pesquisa que
permitisse ampliar o conhecimento sobre a diversidade regional por dentro do
Estado de São Paulo.
A Fundação Seade teve um papel determinante nessa iniciativa, formulando
levantamentos estatísticos por estabelecimento e domicílios e disponibilizando
informações mais atualizadas sobre a configuração socioeconômica paulista, o
que permitiu um conhecimento mais profundo do que ocorria no tecido produtivo e
social do Estado. . Recentemente, esta fundação divulgou os resultados da
Pesquisa de Condições de Vida - PCV realizada em 2006, liberando também os
dados sobre produção (valor agregado) dos municípios paulistas em nova base
metodológica.
Isso abriu a possibilidade de análise da transformação socioeconômica no Estado
a partir de informações mais recentes, o que até então estava circunscrito aos
resultados do Censo Demográfico 2000. A Pesquisa sobre Condições de Vida
permitiu, pois, analisar a configuração socioeconômica do Estado no contexto
atual, bem como conhecer o acesso da população aos novos programas sociais,
como o Programa Saúde da Família, e às diversas modalidades dos projetos de
transferência de renda.
Este ensaio pretende explorar a informação propiciada pela PCV com o objetivo
de responder à seguinte questão: Diante das tendências de interiorização
observadas nas últimas décadas, quais seriam hoje as dimensões mais relevantes
que caracterizam ou não a heterogeneidade intra-regional no Estado de São
Paulo?
Inicialmente, uma breve apresentação metodológica da PCV evidenciará o
potencial e os limites metodológicos do levantamento. Em seguida, serão
analisadas algumas informações socioeconômicas do país, com a preocupação de
situar o Estado de São Paulo nas transformações econômicas e sociais recentes.
Por fim, serão exploradas as informações da PCV com foco na configuração
regional presente no Estado, no que diz respeito à dimensão da sua
heterogeneidade econômica e social.
A PESQUISA DE CONDIÇÕES DE VIDA - PCV
A Pesquisa de Condições de Vida foi realizada, pela primeira vez, em 1990 e
depois nos anos de 1994, 1998 e 2006. De acordo com a documentação disponível
para o último levantamento, a Fundação Seade informa que, "com a finalidade de
prover a Casa Civil do governo do Estado de São Paulo e o Projeto Cobertura e
Efetividade dos Programas Focalizados no Estado de São Paulo de informações
qualificadas sobre a cobertura e formas de acesso a programas focalizados,
sobre seu público-alvo e a população atendida, com ênfase na avaliação das
ações sociais implementadas, foi realizada, em 2006, a Pesquisa de Condições de
Vida - PCV por meio de um levantamento domiciliar por amostragem no Estado de
São Paulo em 20 mil domicílios"3. Ainda segundo este documento,
[... ] o escopo temático bastante extenso contemplou: caracterização
dos domicílios e suas condições habitacionais, características da
família e seu patrimônio, acesso a programas de transferência de
renda e outros programas governamentais, características demográficas
dos indivíduos, acesso e utilização de serviços de saúde, situação
educacional, identificação dos portadores de deficiência física e
mental, participação associativa, acesso a Internet, inserção no
mercado de trabalho, benefícios do trabalho e rendimentos. O
levantamento, dada a sua amplitude, permite que analistas e
formuladores de políticas públicas verifiquem a situação
socioeconômica da população paulista, além de observar as
desigualdades entre as várias regiões do Estado.
Apesar de o levantamento não permitir uma análise dos resultados no âmbito
municipal, ele possibilita uma desagregação respeitável da informação com a
seguinte configuração: Região Metropolitana de São Paulo, Região Metropolitana
da Baixada Santista, Região Administrativa de Campinas, Região Administrativa
de Sorocaba, Região Administrativa de São José dos Campos, Região
Administrativa de Registro, Aglomerado Central Norte (composto pelas regiões
administrativas Central de Bauru, Ribeirão Preto e Franca) e Aglomerado
Noroeste (composto pelas regiões administrativas de Barretos, São José do Rio
Preto, Araçatuba, Marília e Presidente Prudente) (ver Figura_1).

O desenho amostral adotado permite uma clara identificação das regiões
metropolitanas atuais e daquelas em processo de formação, bem como da Região
Administrativa de Registro, em razão de seu isolamento em relação às demais
regiões administrativas agrupadas nos conglomerados Centro-Norte e Noroeste.
Segundo estimativa da Fundação Seade, as regiões metropolitanas atuais e
aquelas em formação respondiam, em 2005, por aproximadamente 77% da população
do Estado de São Paulo (Tabela_1). Apesar do processo de interiorização
observado nas últimas décadas, as três regiões concentravam um pouco mais de ¾
da população paulista, isto é, três de cada quatro paulistas continuam a
residir nas regiões que foram base do processo de industrialização do Estado
entre 1930 e 1980.
A pesquisa possibilita a construção de um quadro analítico abrangente da atual
configuração socioeconômica do Estado de São Paulo. Os principais temas
abordados são: condições habitacionais, inserção no mercado de trabalho,
migração, renda, acesso a serviços de saúde, situação educacional e acesso a
programas sociais de transferência de renda.
Não seria possível no âmbito deste artigo explorar todo o potencial da PCV, o
que requereria o envolvimento de pesquisadores com o propósito de realizar uma
análise de natureza transversal. Aqui serão considerados alguns aspectos ou
questões considerados mais relevantes para uma primeira abordagem sobre as
dimensões da heterogeneidade socioeconômica predominante no Estado.
EVOLUÇÃO E ESTRUTURA DO PRODUTO INTERNO BRUTO DO ESTADO DE SÃO PAULO
A recuperação da economia entre 2003 e 2008 tem produzido impactos limitados,
mas positivos do ponto de vista social. O incremento da atividade econômica tem
sido acompanhado por uma recuperação ponderável do mercado de trabalho, em
especial de seu segmento formal. Além disso, as políticas públicas de salário
mínimo e de transferência de renda têm permitido uma recuperação relativamente
mais acentuada dos baixos rendimentos, determinando uma redução da desigualdade
de renda4.
Os efeitos positivos da recuperação econômica e das políticas sociais para a
reconstituição do nível de emprego e para a elevação da renda real da população
mais pobre possibilitaram somente a redução da tensão social decorrente dos
efeitos perversos do longo período de ausência de crescimento. Apesar de uma
queda respeitável, o desemprego mantinha ainda no final de 2008 um elevado
nível e estava associado a um grau de informalidade significativo. A
recuperação econômica parece não ter sido capaz de alterar o quadro social de
ponderável precariedade de ocupação e renda, bem como de acesso aos bens
públicos.
A modificação dessa configuração social depende tanto da continuidade da
expansão econômica, que deverá ser atenuada ou contida em 2009 e 2010, como do
curso das políticas públicas existentes de natureza econômica ou social. A
conjunção entre crescimento e políticas públicas tem maior expressão no Estado
de São Paulo seja em razão do grau de complexidade de sua estrutura produtiva,
seja devido à capacidade financeira e gerencial potencial do Estado em adotar
políticas públicas orientadas para o desenvolvimento econômico e social
paulista.
O crescimento econômico não é condição suficiente para modificar a atual
configuração social no Estado, porém é inegável a importância de seus efeitos
potenciais e positivos sobre o mercado de trabalho e a capacidade de
financiamento das políticas públicas. Analisando o comportamento recente do
produto interno bruto do Estado de São Paulo, entre 2002 e 2005, nota-se um
desempenho médio de 3% ao ano (a. a.) para um crescimento da população de 1,
5%, aproximadamente. Considerando o crescimento populacional mais baixo do
Estado, evidenciase prontamente que mesmo um crescimento limitado, da ordem de
3% a. a., tem a capacidade de provocar o aumento da renda per capita.
O comportamento do PIB estadual ao longo da década foi marcado pelo desempenho
positivo da maioria dos setores, com exceção da agropecuária5. Em razão da
crescente integração entre a atividade agrícola e a industrial, caracterizada
pelos complexos agroindustriais, é provável que parte do desempenho agrícola
tenha sido apropriada pela atividade industrial, explicando o comportamento
desfavorável do setor como um todo.
Se, em termos gerais, o Estado de São Paulo tem se aproveitado da recuperação
econômica entre 2004 e 2008, podendo ou devendo mesmo se constituir em centro
propulsor desse movimento, observa-se uma evolução bastante diferenciada do
produto quando consideradas as regiões definidas pela PCV. O desempenho mais
expressivo ocorreu nas regiões de São Paulo, Sorocaba e Campinas, espaço que
vem progressivamente configurando uma provável macrorregião. Em seguida,
aparece a Baixada Santista, com concentração na atividade portuária e no
complexo petroquímico e siderúrgico de Cubatão, e do Aglomerado Central-Norte,
com ampla presença dos complexos sucroalcooleiro e de suco de laranja6.
Outras três regiões aparecem em situação mais desfavorável. A Região de
Registro, apesar de ter apresentado um resultado positivo, ficou muito abaixo
de outras que tiveram desempenho reduzido em seu PIB. Sendo a região menos
desenvolvida do Estado, com uma economia centrada na pequena agricultura de
baixa produtividade, ela apresenta maiores dificuldades para alcançar um
desempenho econômico mais expressivo. Restrições ambientais decorrentes da
topografia e das áreas de preservação impedem uma transformação significativa
da base produtiva local.
Gráfico_1
No que diz respeito ao Aglomerado Nordeste, a região continua tendo uma
importante referência de sua economia na atividade agrícola, ainda com uma
razoável produção agropecuária e de alimentos para o mercado interno. O perfil
da atividade produtiva da região vem se transformando progressivamente, com a
expansão da fronteira da cana-de-açúcar. O processo encontra-se em franca
consolidação, devendo levar a mudanças importantes na estrutura produtiva, bem
como na estrutura social prevalecente na região.
A Região de São José dos Campos é caracterizada por um grande contraste entre a
existência de um pólo industrial dominado por grandes empresas nacionais e
internacionais e uma agricultura de menor produtividade e em grande medida
voltada para o consumo local. O desempenho econômico desfavorável da região
deve estar relacionado com o baixo impacto da recuperação econômica, induzida
pelo mercado externo, tanto para as atividades industriais7, mais voltadas para
o mercado interno, como para as atividades agrícolas, não associadas à
exportação.
Os dados de valor adicionados mostram que a Região Metropolitana de São Paulo e
aquelas situadas em seu entorno respondiam, em 2005, por cerca de 80% do
Produto Interno Bruto do Estado. Apesar da tendência de descentralização da
atividade econômica no território estadual, nota-se ainda uma elevada
concentração do PIB nas regiões que tradicionalmente centralizaram o
desenvolvimento do Estado ao longo do século XX, especialmente na metrópole
paulistana, que continua a responder por mais de 50% a atividade do Estado.
Apesar das discrepâncias de estruturas produtivas e de desempenho observadas,
não se pode afirmar que haja desequilíbrio entre as distribuições do produto e
de população entre regiões do Estado (ver Gráfico_2). Participações próximas de
produto e população são encontradas para as demais regiões. A avaliação das
tendências e da composição do PIB paulista indica que o crescimento recente foi
distribuído por todo território do Estado segundo a estrutura populacional
prevalecente, sinalizando uma razoável integração de seu tecido produtivo.
Do ponto de vista econômico, duas regiões demandam maior atenção da política
pública em razão do processo de transformação em curso, no caso do aglomerado
Nordeste, ou de particularidades produtivas, como observado para a Região de
Registro.
A DINÂMICA DEMOGRÁFICA RECENTE
Segundo a Fundação Seade, a população do Estado de São Paulo, em 2007, era
próxima a 40 milhões de pessoas, sendo que 47% residiam na Região
Metropolitana. Mesmo considerando o processo de desconcentração econômica e
populacional, já mencionado anteriormente, é inegável que a principal região
metropolitana paulista deve requerer boa parte dos resultados do desempenho
econômico do Estado por conta de sua dimensão populacional. O mesmo argumento
vale para a distribuição das ações das políticas públicas sociais. A redução
das necessidades de recursos produtivos e de política sociais pela Região
Metropolitana somente poderá ocorrer no longo prazo.
Em suma, é preciso reconhecer que, ao menos considerando a tendência atual, a
Região Metropolitana de São Paulo perderá participação na distribuição
populacional do Estado nas próximas décadas. Se, no curto prazo, ela continua a
demandar parcela dominante dos resultados do crescimento e dos recursos
públicos disponíveis, percebe-se que, em prazo mais longo, tal demanda será
decrescente devido ao fato de seu crescimento populacional apresentar a mais
baixa taxa entre as diversas regiões consideradas pela PCV. É preciso
ressaltar, entretanto, um padrão demográfico de baixo crescimento para o Estado
como um todo. Nas regiões com taxas mais elevadas - Baixada Santista e Sorocaba
-, o incremento populacional encontra-se próximo de 2% a. a, patamar pouco
superior àquele considerado como de reprodução da população residente.
As baixas taxas de crescimento populacional nas diversas regiões do Estado
sinalizam que o processo migratório parece ter deixado de ter influência
relevante para a dinâmica demográfica paulista. Se do ponto de vista da
estrutura populacional atual a parcela total de população migrante apresenta
uma dimensão respeitável, nota-se que a migração recente não apresenta uma
participação substantiva. Segundo os resultados da PCV, 46% da população
residente declarou ser migrante, tanto as pessoas que nasceram ou moraram em
outros Estados como aquelas que declararam tal situação em relação a municípios
do próprio Estado de São Paulo.
Analisando a parcela de migrantes com residência de até três anos no Estado,
percebe-se que ela representava, em 2006, 4, 7% da população total. É
importante observar que, como apontam outros estudos, essa participação não se
traduz em um movimento cumulativo, devido à importância do retorno para a
população com mais tempo de migração8.
O aspecto mais relevante a ser apontado é o fato de a migração recente não ser
predominantemente de baixa renda, o que contradiz a visão comum e
preconceituosa do processo migratório associado a trabalhadores de baixa
qualificação (Tabela_2). A exceção é a Região Central Norte, onde migrantes
recentes responderam por 12, 7% dos membros do primeiro decil (extrato) de
renda familiar. Considerando-se a Região Metropolitana, nota-se que a
participação da migração recente não se diferencia substancialmente entre o 1º
e o 10º decil de renda familiar per capita.
Os resultados evidenciam uma menor importância da migração para a dinâmica
populacional do Estado, e indicam que este movimento hoje é bem mais complexo
do que no passado, quando a migração se concentrava em populações de baixa
remuneração e qualificação.
Ainda explorando os dados sobre a dinâmica demográfica recente, o baixo
crescimento indica a consolidação de um progressivo envelhecimento da estrutura
populacional do Estado de São Paulo9, com implicações tanto para a evolução do
mercado de trabalho, como para a demanda de políticas sociais mais orientadas
para a população adulta e de idade mais avançada.
A DIVERSIDADE SOCIOECONÔMICA A PARTIR DA ÓTICA DA RENDA FAMILIAR
A análise aqui empreendida tem a renda familiar como referência básica para a
elaboração de indicadores socioeconômicos ou de acesso a políticas públicas,
uma vez que ela expressa a estratificação social existente.
Os estratos de renda (decis) foram calculados para o total das famílias do
Estado de São Paulo, e não para cada uma das regiões adotadas pela PCV. Por
exemplo, a maior ou a menor concentração de população nos decis inferiores em
determinada região, em comparação com o que foi observado para o conjunto do
Estado, indica que ela apresenta perfil relativamente mais desfavorável. Esse
procedimento permite revelar a situação socioeconômica de cada região em
relação à média do Estado.
Todos os indicadores de mercado de trabalho ou de acesso aos bens ou às
políticas públicas foram elaborados considerando os decis de renda familiar. A
adoção desta referência básica para tabulação de resultados impôs que se
considerasse somente a parcela da população com rendimento familiar diferente
de zero.
Segundo a PCV, 84% das famílias declararam ter renda diferente de zero em 2006.
Observou-se que a maior porcentagem de famílias com declaração de renda estava
no Aglomerado Central Norte (89%) e a menor na Região de São José dos Campos
(75%). Estes resultados mostram que ao menos ¾ das famílias declararam renda
diferente de zero, parcela suficiente para dar representatividade aos
indicadores elaborados e analisados ao longo deste ensaio. Tal critério
equivale a uma estimativa de 10, 4 milhões de famílias para o conjunto do
Estado, segundo a PCV.
Consideradas as distribuições em cada uma das regiões, constatase que a Região
Metropolitana é a que apresenta a maior parcela de famílias com renda mais
elevada, ao passo que a Região de Registro apresenta a parcela mais
significativa de famílias com baixa renda. Contudo, não se pode dizer que haja
diferenças relevantes entre as distribuições no sentido de apontar perfis
substantivamente diferentes de distribuição das famílias. De acordo com os
resultados apresentados na Tabela_4, metade das famílias paulistas possuía uma
renda total de até R$ 1.000,00. É inegável o baixo padrão de renda dominante no
Estado como um todo, independentemente da região.
Dando seguimento ao estudo, para avaliar o acesso às políticas sociais por
parte da população paulista é importante que se analise também o potencial das
famílias para o mercado de trabalho e a inserção de seus membros..
Os dados da PCV (Tabela_3) mostram que as taxas médias de participação
econômica das diversas regiões estão entre 50% e 60%. Nos extremos temos as
regiões de Registro (47%) e de São Paulo (62%). O indicador médio reflete o
patamar encontrado nos estratos inferiores, salvo o primeiro decil. Para este,
são observadas taxas de participação bastante baixas, em torno de 30% em certas
regiões.
Este dado aponta para uma inserção potencial elevada no mercado de trabalho na
maioria das regiões e decis, havendo déficit de participação econômica apenas
no primeiro decil, segundo a renda familiar. Isso indica, ademais, que o perfil
desfavorável de renda não se encontra associado à reduzida participação da
população no mercado de trabalho, mas é resultado da renda auferida na
atividade econômica exercida ou da situação de desemprego.
Temos nesse sentido uma primeira sinalização de que, ao menos no Estado de São
Paulo, a melhoria das condições de vida, condicionada ao padrão de renda
auferido, tem no comportamento do mercado de trabalho um determinante altamente
relevante. Afinal, se os dados comprovam uma inserção potencial favorável e um
padrão de renda desfavorável, o favorecimento das condições de inserção tende a
ser central para uma provável mudança do padrão de renda da população do
Estado. É necessário, pois, analisar o perfil atual da inserção da população no
mercado de trabalho.
A situação de desemprego é a primeira dimensão que merece ser explorada, por
dois motivos. O primeiro decorre do fato de que quase não há dados sobre
desemprego para além da Região Metropolitana. A PCV, ao adotar a perspectiva
metodologia da pesquisa de emprego e desemprego, propicia alguma sinalização
nesse sentido. O segundo diz respeito ao fato de que o desemprego impede a
possibilidade de acesso a qualquer tipo de renda no mercado de trabalho.
Feitas estas observações gerais, merecem destaque os resultados da PVC quanto à
situação de elevado desemprego no Estado como um todo (Tabela_4). Os resultados
mostram um desemprego total 10 de 16% para o conjunto do Estado, sendo que o
Aglomerado Central Norte apresentava a menor taxa (11, 7%) e a Região de
Registro a maior (22, 9%). A situação de desemprego na região com a posição
mais favorável atingiu uma de cada dez pessoas economicamente ativas.
Conseqüentemente, o problema de emprego é parte recorrente do mercado de
trabalho paulista, não importando a região considerada. Isto é, não se trata de
um problema circunscrito à Região Metropolitana.
Como esperado, em um mercado de trabalho predominado pelo baixo rendimento, o
quadro social apresenta-se mais delicado para as famílias dos estratos
inferiores. No primeiro decil, o desemprego tende a atingir uma de cada duas
pessoas ativas e no segundo, aproximadamente, três de cada dez. É inegável que
o desemprego se constitui em um problema relevante para explicar a precariedade
de renda nas diversas regiões do Estado de São Paulo, não podendo ser associado
a uma região específica. Sobretudo quando o relacionamos com o rendimento
familiar, desvinculando-o da dimensão individual que normalmente caracteriza a
taxa de desemprego na forma clássica de sua utilização.
Cabe ainda apontar que a configuração do desemprego é claramente predominada
pela situação de "desemprego aberto", que responde por 2/3 do desemprego total
nas diversas regiões, o que denota a generalização desse problema no território
paulista.
Analisando agora a situação de ocupação, dois indicadores serão considerados:
ataxa deformalização, isto é, a porcentagem de ocupados com contribuição para a
previdência social, e a taxa de assalariamento, indicador da importância do
trabalho assalariado nos mercados regionais de trabalho. A maior densidade
desses indicadores pode ser tomada como expressão de maior complexidade da
estrutura produtiva11.
No conjunto do Estado de São Paulo, 2/3 dos ocupados contribuía para a
previdência social, sendo que a situação mais favorável era encontrada no
Aglomerado Central Norte (71, 8%) e a mais desvantajosa na Região de Registro
(57, 1%).
O grau de formalização do mercado estadual de trabalho variava com a renda
familiar, porém ele era relativamente baixo mesmo para os decis superiores da
distribuição (Tabela_5). Os indicadores segundo região mostram que, mesmo
nestes estratos, a formalização não superava 70% da população ocupada. Isto é,
três de cada dez ocupados em famílias de renda mais alta não contribuíam para a
previdência social no Estado mais desenvolvido do país. Ademais, esta situação
ocorre na principal região metropolitana brasileira, indicando que a
formalidade dos contratos de trabalho, assalariado ou não, se constitui em um
problema estrutural do mercado de trabalho brasileiro, independentemente do
grau de desenvolvimento regional alcançado.
O quadro de formalização limitada encontrado entre as famílias de renda mais
elevada torna compreensível a situação de maior debilidade do indicador entre
as famílias de baixa renda, especialmente no primeiro decil. Compreensível
porque as ocupações mais precárias e com vínculos bastante instáveis têm alta
concentração entre a população mais pobre, uma vez que a própria característica
da relação de trabalho destas ocupações tende a apresentar baixíssimo grau de
contribuição para a previdência social. Portanto, se o reduzido grau de
formalização observado nos primeiros decis tende a refletir a precariedade da
relação de trabalho dominante na base da estrutura ocupacional, tem-se que nos
decis superiores ele deve expressar um modelo de regulação pública das relações
e do contrato de trabalho incapaz de ordenar o mercado de trabalho do Estado.
Afinal, qual a razão de ocupados mais bem situados socialmente não realizar a
contribuição para a previdência social que não seja derivada de uma decisão
voluntária e que tenha baixo risco de ser punida pela política pública12?
Quando considerada a taxa de assalariamento, percebe-se que, em média, 2/3 dos
ocupados de cada região encontram-se vinculados a uma relação de trabalho
subordinada. Em comparação com os países desenvolvidos, onde esta taxa supera
75% dos mercados nacionais de trabalho, pode-se considerar que o assalariamento
tem uma dimensão mais limitada no mercado de trabalho paulista, apesar de
dominante. Quando analisada a taxa de assalariamento segundo renda familiar,
percebe-se que o indicador apresenta uma baixa intensidade no primeiro decil,
sendo, ao menos, de 50% a partir do segundo decil.
Apesar de seu nível relativamente limitado, pode-se argumentar que o
assalariamento é a relação de trabalho de referência no Estado de São Paulo, e,
portanto, indica a inserção econômica das famílias, independentemente da renda
por elas auferida (Tabela_6). Assim, problemas de dinâmica econômica que venham
afetar negativamente o nível de assalariamento tendem a amplificar os problemas
de desemprego, pois 2/3 das ocupações paulistas advêm da relação de trabalho
subordinada.
Nesse sentido, incrementos de renda familiar estão diretamente relacionados com
a dinâmica do segmento assalariado do mercado de trabalho e, portanto, dependem
do desempenho global da economia em todas as regiões do Estado.
O ACESSO A BENS PÚBLICOS E À POLÍTICA SOCIAL SOB A ÓTICA DA RENDA FAMILIAR
Explorados a características básicas de inserção econômica da população do
Estado de São Paulo e suas implicações para a renda familiar, é fundamental
agora avaliar o acesso a bens públicos e às políticas sociais. Tal acesso
amplia o consumo, ou o bem-estar, para além do padrão potencial propiciado pela
renda auferida no mercado de trabalho.
Como para a maioria da população não é possível auferir uma remuneração
mediante o exercício do trabalho que viabilize um padrão de vida adequado, seja
devido à baixa remuneração associada à precariedade das ocupações, seja por
causa do elevado nível de desemprego, o acesso a bens públicos e à política
social passa a ser um meio crucial para o padrão de consumo das famílias.
Entre as formas de acesso existentes para a população brasileira, o Programa
Bolsa Família é o que apresenta maior visibilidade. A dimensão desse programa e
o envolvimento das instituições públicas em sua execução permitiram que, em um
curto espaço de tempo, ele alcançasse 12 milhões de famílias pobres para o
conjunto do país.
Segundo a PVC, 999 mil famílias tinham acesso ao Programa Bolsa Família em 2006
(Tabela_7). Em termos médios, oito de cada dez famílias paulistas recebiam o
benefício do programa. A maior incidência ocorreu na Região de Registro, onde
17, 8% das famílias eram beneficiárias do programa.
Analisando a distribuição das famílias segundo a renda, verificou-se que 50%
pertenciam até o 3º decil, isto é, possuíam uma renda familiar média de R$ 660,
00, aproximadamente dois salários mínimos. Considerando o tamanho médio das
famílias, pode-se afirmar que as pertencentes até o 3º decil tinham uma renda
per capita próxima à renda de acesso ao programa, ½ salário mínimo.
Entretanto, surpreendeu o fato de uma parcela considerável de famílias
pertencentes a estratos mais elevados de renda, ter acesso a este benefício,
mas não cabe aqui discutir especificamente esta questão.
O ponto a ser realçado neste ensaio diz respeito à contribuição do programa de
transferência de renda para as famílias (Tabela_8). Focando a análise nas
famílias pertencentes até o 3º decil, nota-se uma contribuição mais expressiva
do benefício para as pertencentes ao primeiro decil, da ordem de 20%. Esta
contribuição, segundo a PCV, apresentou valores mais elevados nas regiões
metropolitanas de São Paulo e da Baixada Santista.
Apesar da maior incidência do benefício nos estratos inferiores, o resultado da
PCV revela que, em todas as regiões, as famílias pobres com acesso ao benefício
têm no mercado de trabalho a referência decisiva para a formação de sua renda e
de seu poder de compra. Mesmo no primeiro decil, aproximadamente 75% da renda
familiar precisa ser atingida no mercado de trabalho, mesmo que seja na
previdência social, cujo acesso se encontra condicionado a uma inserção
econômica anterior.
Este resultado evidencia, ademais, o limite de um programa de transferência de
renda em um Estado como o de São Paulo, onde predomina a monetização do consumo
e das relações de trabalho. Limite que foi observado, então, nas diversas
regiões consideradas pela PCV.
Mostraremos agora os resultados da pesquisa em relação a outros programas de
transferência de renda, ligados à saúde, à educação, à habitação e ao
saneamento. Qual programa social seria determinante para a caracterização das
condições de vida da população?
O primeiro indicador a ser analisado diz respeito à política de atendimento à
saúde. De acordo com a PCV, 75% das famílias paulistas declarou ter um posto de
saúde em seu bairro de domicílio, sendo que esse dado aparece de modo um pouco
superior entre as famílias de mais baixa renda.
Apesar de uma cobertura razoavelmente elevada da política de saúde para o
conjunto do Estado, diferenças significativas são encontradas quando se analisa
o indicador segundo as regiões da PCV (Tabela_9). Nas regiões de Sorocaba e
Registro constata-se que 1/3 das famílias do primeiro decil declarou não ter
posto de saúde no bairro de residência. Os resultados apontam discrepâncias
razoáveis de cobertura entre as regiões, fato que sugere certa desigualdade de
acesso ao atendimento primário de saúde, apesar de esta situação não estar
relacionada com o nível de renda familiar. Ao contrário, os dados da pesquisa
evidenciam uma menor cobertura justamente nos decis superiores, indicando que a
política de saúde no Estado não é um instrumento de ampliação da desigualdade
social existente.
Se do ponto de vista de acesso a um posto de saúde observa-se uma situação de
diferenciação considerável, evidencia-se, por outro lado, uma cobertura
adequada do Programa Saúde da Família (Tabela_10). Em média, as famílias
paulistas recebem sete visitas por ano, sendo que esse atendimento médio pouco
varia quando considerado o rendimento familiar. Ademais, quando consideradas as
regiões, nota-se que a de Registro apresenta um indicador médio mais baixo que,
porém, deve ser considerado satisfatório.
Quanto à cobertura da rede pública e privada de ensino fundamental, os
resultados revelam algo semelhante ao encontrado para a política de saúde.
Apesar de elevada, a cobertura mostra-se limitada. De 10 a 23% das famílias de
baixa renda não possuíam escola de ensino fundamental em seus bairros, quando
consideradas as regiões (Tabela_11).
A PCV não permite desagregar o indicador no interior de cada uma das regiões, o
que seria adequado para identificar as áreas de cobertura da política de ensino
fundamental. Contudo, ela permite analisar a cobertura da política por regiões
segundo a situação de vulnerabilidade do domicílio a partir da área de sua
localização (Gráfico_3). Nesse sentido, os resultados apontam não haver maior
discrepância entre as áreas, com exceção da Região de Registro. Assim, os dados
sugerem que a limitação da cobertura parece derivar de uma restrição associada
à localização das escolas, ou seja, a ausência de escolas independe da
fragilidade da situação social mais geral das famílias residentes em
determinadas áreas.
Se do ponto de vista de acesso aos equipamentos de saúde e de educação não
foram encontradas maiores discrepâncias entre as regiões, considerada a
distribuição das famílias segundo seu nível de renda, contata-se uma situação
significativamente diferente quando se analisam as condições de habitação e
saneamento. A desigualdade de acesso a estes bens é substantiva.
A pesquisa revelou que, em 2006, 6, 8% das famílias paulistas residiam em
favela, sendo que esta proporção era mais elevada entre aquelas com baixo nível
de renda. Comparando as distribuições entre as regiões, nota-se a existência de
duas regiões com uma parcela expressivamente mais elevadas de famílias
residentes em favelas: as regiões metropolitanas de São Paulo e da Baixa
Santista (Tabela_12). Uma de cada dez famílias dessas regiões encontrava-se
nesta situação, sendo que, ao menos, uma de cada cinco famílias de baixa renda,
considerados os dois primeiros decis.
A densidade da habitação em favelas é maior nas regiões de maior porte, visto
que o custo da terra e dos aluguéis serem mais elevados e, em conseqüência,
alimentarem uma ocupação desordenada de novas áreas urbanas por meio da criação
de favelas. As regiões com menor densidade populacional, como as do Aglomerado
Noroeste e de Registro, são as que apresentam menor incidência de famílias com
residência em favela.
O aspecto complementar que merece ser destacado é a falta de associação entre
residência em favela e localização habitacional em zona de enchente. A Região
da Baixada Santista é a única com indicador elevado nesse sentido.
De acordo com a PCV, 4, 5% das famílias paulistas residem em áreas sujeitas a
enchentes, sendo que as regiões da Baixa Santista e de Registro são as que
apresentam indicadores mais elevados, especialmente entre a população de baixa
renda (Tabela_13). Na primeira das regiões, três de cada dez famílias de baixa
renda residem em áreas sujeitas a enchentes.
Quanto à Região de Registro, a maior exposição de domicílios em relação a
riscos de enchentes está associada a particularidades de seu território, que
encontra baixa densidade de ocupação e elevada presença de população com
atividade agrícola em área montanhosa. É interessante, inclusive, observar que,
como também ocorre na Baixa da Santista, parte dos domicílios nesta situação
pertence a famílias situadas nos decis superiores.
Comparando os indicadores de habitação em favelas e em área com risco de
enchente, percebe-se a não convergência entre eles, indicando que o combate aos
problemas não decorrem de um único instrumento de política pública.
O último indicador a ser explorado neste ensaio é o acesso à rede geral de
esgotamento sanitário. A pesquisa indicou que 92% das famílias residem em
domicílios conectados à rede geral. Apesar da significância desse indicador,
observam-se situações menos favoráveis nas regiões de São Paulo, Baixada
Santista e Registro, sobretudo entre as famílias de baixa renda. Na Região de
Registro, somente 60% das famílias de baixa renda, considerados os dois
primeiro decis, residiam em domicílios conectados à rede geral.
Os resultados relativos à habitação adequada e de saneamento básico mostram a
precariedade de acesso a essas políticas públicas, evidenciando, ademais, sua
centralidade para uma estratégia de desenvolvimento social do Estado (Tabela
14). Afinal, é inegável que os benefícios de programas de atendimento à saúde e
de educação tendem a ser menores se mantidas as atuais condições de habitação
da população de baixa renda.
OBSERVAÇÕES FINAIS
A disponibilidade de dados recentes para o Estado de São Paulo estimulou em
grande medida a realização desta iniciativa. É óbvio que as inquietações sobre
as transformações socioeconômicas recentes na sociedade paulista também
alimentaram a realização deste estudo.
Duas vantagens relativas às condições econômicas atuais devem ser ressaltadas
para a qualidade da análise apreendida. A primeira diz respeito à baixa
inflação que favorece a informação sobre renda, possibilitando que os
resultados da PVC estejam nada ou pouco imunes a mudanças bruscas de preços
relativos que possam comprometer a declaração de renda pelas famílias. A
segunda refere-se à tendência de recuperação econômica no período de 2004 a
2008, que permitiu a recomposição do nível de emprego no mercado de trabalho
brasileiro, em especial o paulista, e que deve ter favorecido a coleta de
informação sobre a situação ocupacional da população. Por fim, a PCV constitui-
se em uma fonte de informação de grande interesse para a construção de
conhecimento da configuração socioeconômica paulista no contexto atual. Este
ensaio explorou parcialmente seu potencial estatístico. A análise mostrou
condições razoavelmente homogêneas em termos de dinâmica populacional, inserção
econômica e acesso a bens e à política pública no território paulista.
A distribuição do produto coincide com aquela da população nas diversas regiões
consideradas pela PCV. Ademais, os resultados mostraram convergência das
regiões quanto à inserção econômica da população, evidenciando um quadro
bastante homogêneo em termos de desemprego e precariedade da situação
ocupacional, medida pelo indicador de formalidade.
Ao focar a inserção econômica da população percebe-se a dominância dos setores
econômicos pertencentes à atividade não-agrícola, apesar de certas regiões
terem certa expressão em termos de ocupação e produto do setor agrícola. Em uma
visão mais geral, é patente a ampla dominância das atividades não-agrícolas no
território paulista e a dependência que a população dela possui para viabilizar
sua inserção produtiva.
A análise desta inserção mostra um perfil de acentuada precariedade e de
desemprego em todas as regiões do Estado, juntamente com uma configuração de
renda bastante desfavorável. Assim, observa-se que o potencial produtivo da
população é limitado e fonte de um padrão fundado na baixa renda.
Os programas de transferência de renda não parecem ser suficientes para
modificar a reiteração da baixa renda para a maioria da população. Apesar de
atenuarem a precariedade de renda das famílias pertencentes aos estratos
inferiores, eles não são capazes de alterarem o quadro estruturalmente
insatisfatório em que elas se encontram. Os dados da PCV apontam claramente
que, considerado o grau de desenvolvimento da sociedade urbano-industrial
paulista, a inserção produtiva se constitui na fonte predominante de renda das
famílias, mesmo em uma região menos desenvolvida como a de Registro.
O quadro socioeconômico do Estado foi ampliado com a análise de acesso às
políticas públicas de saúde e educação, apresentando uma cobertura abrangente
da população sem que haja diferenças significativas quando considerada a renda
familiar. Contudo, nota-se ainda a existência de uma parcela de famílias que
residem em bairros sem postos de saúde e escolas de ensino fundamental.
A razoável homogeneidade dos perfis socioeconômicos é rompida quando se analisa
os indicadores de habitação e saneamento. Nas regiões metropolitanas de São
Paulo e da Baixada Santista, a situação de residência em favela é mais
expressiva. Quando se considera o risco de enchentes para os domicílios, nota-
se que as regiões da Baixada Santista e Registro apresentam maior incidência.
Esta situação de heterogeneidade observada para a condição habitacional é
reiterada quando se avalia o acesso a saneamento básico. Além de uma cobertura
limitada, nota-se também uma diferenciação importante entre as regiões.
Pode-se afirmar que os resultados da PCV indicam que modificações na situação
socioeconômica do Estado de São Paulo, na próxima década, dependem
estreitamente de um crescimento sustentado, em conjunção com a continuidade das
políticas sociais, que favoreça a estruturação do mercado de trabalho com a
redução da precariedade ocupacional e com a elevação dos níveis e melhoria da
distribuição de renda. Esse processo é decisivo para viabilizar um padrão
adequado de renda por meio da inserção produtiva, bem como para ampliar o
financiamento estadual das políticas sociais. Tal necessidade não se restringe
à Região Metropolitana de São Paulo, mas estende-se a todo o território
estadual.
[*] Este ensaio é parte do projeto "Regiões metropolitanas e pólos econômicos
do Estado de São Paulo: desigualdades e indicadores para as políticas sociais",
financiado pela Finep. Agradeço os valiosos comentários e contribuições do
parecerista. Com o objetivo de não carregar ainda mais o ensaio com tabelas e
gráficos, alguns deles foram suprimidos. As tabulações adicionais estão à
disposição do leitor quando solicitados via e-mail.
[1] Sobre o processo de interiorização, ver Machado Bógus, L e Baeninger. R.
Redesenhando o espaço no interior paulista: desconcentração e expansão urbana.
São Paulo: Fundação Seade, 1995; Oliveira, A. "Conhecendo o
interior paulista, o papel do espaço na dinâmica do mercado de trabalho". São
Paulo em Perspectiva, vol. 20, nº 4, 2006.
[2] Ver a esse respeito Cano, W. e outros. Economia paulista: dinâmica sócio-
econômica entre 1980 e 2005. São Paulo: Alínea, 2007.
[3] "Pesquisa de condições de vida". Documentação da Base de Dados. São Paulo:
Fundação Seade, 2007.
[4] Deve-se considerar com cuidado a redução da desigualdade de renda, pois ela
ocorre entre a população com renda proveniente do trabalho ou da proteção
social. Nada se sabe muito a respeito da distribuição de renda entre as
diversas formas de rendimento do trabalho, da proteção social e da propriedade
de ativos de capital. Sobre os limites da análise da distribuição de renda, ver
Dedecca, C. "A redução da desigualdade no Brasil, uma estratégia complexa". In:
Paes de Barros, R., Foguel, M. e Ulyssea, G. Desigualdade de renda no Brasil:
uma análise da queda recente. Brasília: Ipea, 2007, vol. 1, e
Salm, C. "Sobre a recente queda da desigualdade de renda no Brasil: uma leitura
crítica". In: Paes de Barros, R., Foguel, M. e Ulyssea, G., op. cit.
[5] Para o período entre 2002 e 2005, a evolução do valor adicionado setorial
foi a seguinte: -0, 1% a. a. para a agropecuária, 3. 2% para a indústria de
transformação, 3, 0% para os serviços privados e 2, 8% para a administração
pública.
[6] Sobre a configuração econômica e da rede urbana do Estado de São Paulo, ver
Ipea/IBGE/Nesur/IE/Unicamp. Caracterização e tendências da rede urbana no
Brasil. Campinas: IE/Unicamp, 1999, pp. 182-242. Sobre a configuração da
atividade agrícola, ver Belik, W., Bolliger. F. e Graziano da Silva, J.
"Agroindústria paulista: heterogeneidade e reestruturação". São Paulo em
Perspectiva, vol. 13, nº 1-2, 1999. Para uma abordagem setorial da trajetória
econômica recente do Estado, ver Cano, W. e outros, op. cit.
[7] A grande exceção na base industrial de São José dos Campos é a Embraer.
Tanto o complexo automotivo, como o eletrônico ou de bens intermediários
voltam-se, preferencialmente, para o mercado interno.
[8] Sobre o tema da interiorização e os processos migratórios, ver Baeninger,
R. "Interiorização da migração em São Paulo: novas territorialidades e novos
desafios teóricos". Anais do XIV Encontro Nacional de Estudos Populacionais,
Caxambu: Abep, 2004.
[9] Ver "Cenários futuros da população paulista", <http://www.seade.gov.br/
produtos/projpop/pdfs/projpop_cenarios_futuros.pdf>, acessado em maio de 2008.
[10] O desemprego mensurado pela PCV incorpora duas situações básicas:
desemprego aberto - indivíduos que se encontram numa situação involuntária de
não-trabalho, por falta de oportunidade; procuraram trabalho de maneira efetiva
nos trinta dias anteriores ao da entrevista e não trabalharam nos últimos sete
dias; desemprego oculto - indivíduos que realizam trabalhos precários - com
remuneração ocasional de auto-ocupação ou trabalho não-remunerado em ajuda a
negócios de parentes - e procuraram substituir esse tipo de atividade nos
trinta dias anteriores ao da entrevista ou não tiveram êxito em até doze meses
antes; inclui também as pessoas que não possuem trabalho nem o procuraram nos
trinta dias anteriores ao da entrevista por desestímulos do mercado de trabalho
ou por circunstâncias fortuitas, mas apresentaram procura efetiva nos últimos
doze meses (Seade, 2007).
[11] Desmentindo a tese amplamente propalada durante o processo de
reorganização das economias capitalistas avançadas a partir da década de 1970,
o trabalho assalariado tem ampliado sua participação nos mercados nacionais.
Dados compilados pela Organização de Cooperação para o Desenvolvimento
Econômico mostram que as economias com maior grau de desenvolvimento ampliaram
a participação do assalariamento em seus mercados de trabalho, que atualmente
supera 80% do total de ocupados. O aspecto delicado desse movimento foi a
redução acentuada do emprego por tempo indeterminado e a conseqüente ampliação
das formas de emprego de duração limitada e em tempo parcial. Ver OECD.
Employment Outlook. Paris: OECD, 2007.
[12] No Brasil, inexiste punição para a não contribuição da previdência social.
O ocupado que não contribui somente não terá acesso ao beneficio de
aposentadoria ou pensão. Trata-se de uma situação anômala, dentro do marco
regulatório das sociedades capitalistas modernas, em que a não contribuição é
punida de modo equivalente àquela feita em relação ao não pagamento do imposto
de renda. A situação dos Estados Unidos constitui um exemplo relevante, por ser
um país onde a regulação pública do contrato de trabalho ou de prestação de
serviço é considerada a mais reduzida entre aquelas adotadas nos países
desenvolvidos. As únicas duas obrigações que devem ser cumpridas,
nacionalmente, pelo contrato de trabalho ou de prestação de serviços são o
recolhimento do imposto de renda e a contribuição obrigatória para a
previdência social.