Em busca do urbano: marxistas e a cidade de São Paulo nos anos de 1970
No início dos anos 1970, diante do já acelerado processo de modernização e
urbanização na América Latina, alguns intelectuais marxistas latino-americanos
percebem a importância de se iniciar o que poderia vir a ser uma teoria da
urbanização na periferia do capitalismo. Paralelamente à crítica ao pensamento
da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), que deu origem
a novas interpretações sobre dependência e subdesenvolvimento, atraso e
modernização, estes intelectuais passaram a mencionar os paradoxos visíveis nas
cidades em crescimento como exemplos de seus textos e mesmo a dedicar ensaios e
pesquisas sobre o tema.
Neste artigo, verificaremos como se deu essa contribuição pioneira da década de
1970, por meio da produção de alguns intelectuais marxistas agrupados em torno
do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e da FAU-USP (Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo). Influenciados pelo
estruturalismo francês e seus teóricos que interpretaram a questão urbana, em
especial Manuel Castells, os textos desses dois grupos procuraram avaliar como
o subdesenvolvimento gerava uma condição peculiar de reprodução da força de
trabalho, em oposição àquela que ocorria nos Estados de bem-estar social. Como
a reprodução da força de trabalho é um fenômeno que se dá no espaço, sua
condição precarizada gerava reciprocamente uma urbanização sui generis. As
definições de "periferia", "espoliação urbana" e "autoconstrução" da moradia,
como detalharemos adiante, serão fundamentais para aclimatar os conceitos da
sociologia francesa a essa situação particular.
Num quadro de entendimento do espaço urbano que se propunha como "não
dualista", entretanto, veremos como a maioria dessas proposições pioneiras se
consagraram pela elaboração de um modelo justamente dual de interpretação do
crescimento da cidade, apoiado em um instrumental restrito a conceitos da
crítica da economia política, eminentemente não-urbanos. Contudo, as primeiras
pistas de uma teoria crítica do urbano serão descobertas no momento em que a
cidade passa de mero suporte de processos sociais e econômicos para ser
compreendida como parte decisiva da produção e reprodução do capital. Assim,
será retomada e reavaliada a teoria da "renda da terra", em suas articulações
com o Estado e o "capital da construção", e formulada a hipótese de um "padrão
periférico de crescimento da metrópole".
Entretanto, como parece próprio ao debate de idéias no Brasil, novas teorias
substituem as anteriores sem que uma crítica às formulações originais seja de
fato realizada - tanto para indicar o que envelheceu como para preservar o que
ainda tem pertinência. Esse artigo pretende colaborar para que os elos da
formação de nossa tradição crítica não se percam e sejam continuamente
reavaliados.
A CONEXÃO LATINO-AMERICANA: URBANIZAÇÃO E MARGINALIDADE
As iniciativas até então dispersas de interpretação marxista da urbanização
latino-americana, como também de crítica a Cepal, tiveram como ponto de
encontro o Chile, entre 1970 e 1973. Quase todos os seus formuladores estavam
ali na condição de exilados políticos e simpatizantes do governo socialista de
Salvador Allende. A conexão entre eles, ao menos dos que formulavam hipóteses
para a interpretação da urbanização latino-americana, foi feita pelo sociólogo
espanhol Manuel Castells, professor da Universidade de Paris e coordenador do
Centro Interdisciplinar de Desenvolvimento Urbano e Regional de Santiago do
Chile.
Castells foi responsável pela organização do livro Imperialismo e urbanização
na América Latina2, que se tornou um marco para a nascente crítica marxista
sobre a questão urbana. Dos brasileiros que participam do livro, estão quatro
pesquisadores do Cebrap - Paul Singer, Fernando Henrique Cardoso, Lúcio
Kowarick, Cândido Ferreira de Camargo -, além do geógrafo Milton Santos (este,
com texto sobre a urbanização na Venezuela).
Os ensaios do livro procuram respostas alternativas (tanto ao pensamento
liberal como ao pensamento marxista europeu) para explicar o rápido crescimento
urbano latino-americano - ou o chamado "inchaço" urbano. A primeira e principal
delas, apresentada por Manuel Castells e pelo sociólogo peruano Aníbal Quijano,
e já questionada no mesmo livro, por Paul Singer, é fundamentada pelo conceito
de "marginalidade". Para Castells e Quijano, a marginalidade está associada
diretamente à nova fase de dominação imperialista e monopolista na América
Latina, na qual a urbanização acelerada e concentrada não corresponderia a uma
base produtiva equivalente. A industrialização dependente teria baixa
capacidade de absorção dos trabalhadores migrantes, produzindo um descompasso
entre urbanização e proletarização, cujas conseqüências são analisadas pelos
autores. De certo modo, trata-se de uma teoria de classes específica, distinta
da formulação marxista convencional, pois introduz uma estratificação social
nova: "os marginais", migrantes que não encontram trabalho no núcleo
hegemônico. Mais que lúmpen ou exército industrial de reserva, eles
representariam toda uma nova dinâmica social, econômica e espacial - e
constituiriam, para além de uma subclasse, um verdadeiro "pólo" na estrutura
econômica global. O que eles têm em comum é o fato de serem instáveis,
irregulares e precários em comparação com seus equivalentes "integrados", isto
é, não marginais. Ocupam, no mundo do trabalho, posições no setor terciário, em
serviços subalternos e informais. O terciário, desse modo, incharia
desproporcionalmente em relação à indústria, neste caso, de forma regressiva,
diferentemente do crescimento do terciário avançado (ligado ao setor financeiro
e de serviços corporativos) dos países centrais. Na cidade, devido a seu padrão
similar de renda e consumo, os marginalizados tendem a ocupar os mesmos espaços
segregados: as "barriadas" e "favelas" (ainda não havia surgido o conceito de
periferia). Deles emergem formas de organização de vizinhança, como associações
de bairro e movimentos urbanos (ou de "pobladores"). Esta, aliás, era uma das
frentes de luta da esquerda em diversas partes do mundo, inclusive no Chile,
sobretudo pela ação do MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionário) nas favelas
de Santiago.
O "pólo marginal", entretanto, é apresentado pelos autores sempre de forma
ambivalente. De um lado, como fenômeno regressivo - expressão da ausência de um
projeto nacional e da incapacidade do capitalismo na periferia em transformar o
que está à sua volta em mercadoria, expandindo o assalariamento a todos - e, de
outro, por isso mesmo, como fenômeno positivo, com a formação de um pólo
relativamente autônomo e não dominado, capaz de produzir uma cultura (ou
subcultura) própria, "da pobreza", menos dependente do que a proletária em
relação à reprodução da cultura burguesa e, por isso, mais negativa e
potencialmente mais explosiva.
Castells, Quijano e os que adotaram interpretações similares (como Rui Mauro
Marini) foram criticados, mas por motivos opostos: ora como dualistas ora como
funcionalistas. Para ficarmos entre os brasileiros, a crítica de Paul Singer,
por exemplo3, é de que a apresentação de dois pólos, o integrado e o marginal,
acaba reeditando com vocabulário novo as explicações convencionais sobre a
cisão entre arcaico e moderno, rural e urbano etc. Ao mesmo tempo, deixa de
investigar as características do nexo distintivo da nova fase urbana-
industrial: entre a expansão do capital monopolista e o aprofundamento da
dependência. Noutra crítica, de Fernando Henrique Cardoso4, o conceito de pólo
marginal seria, ao contrário, um elemento funcionalista: tido não como setor à
parte, mas como alavanca da própria acumulação capitalista, ao colaborar para
rebaixar permanentemente o custo de reprodução da força de trabalho.
Entretanto, o conceito seria insuficiente como característica distintiva do
processo de acumulação na periferia, pois não abarcaria outras de suas
determinantes, como a taxa de lucro, a competição entre capitalistas, a
renovação tecnológica e outros custos de reposição da força de trabalho.
Não nos cabe seguir adiante na crítica à teoria da marginalidade, mesmo na sua
vertente urbana, como na interpretação de Janice Perlman5. Ou mesmo em seus
desdobramentos inusitados, sendo o principal deles sua incorporação pelo
ideário liberal de apologia do empreendedorismo popular informal, como o
economista peruano Hernando De Soto e, mais institucionalmente, o próprio Banco
Mundial. De algum modo, a teoria da marginalidade havia pressentido que o pólo
informal, que era até então a exceção, estava tornando-se a regra - e o padrão
de crescimento das cidades latino-americanas era a melhor expressão disso. O
Banco Mundial, desde o início dos anos 1970, percebe que a urbanização no
terceiro mundo não seria orientada pelos mesmos planos modernos e leis que
dirigiram a urbanização ocidental, mas por um novo tipo de rebaixamento de
padrões urbanísticos, com sua crescente desregulação para abarcar o setor
informal e ausência de recursos para grandes investimentos em infra-estrutura6.
O que nos interessa no momento é verificar como o debate sobre marginalidade e
seus desdobramentos urbanos estão na origem das formulações, mais ou menos
críticas, que os intelectuais paulistas irão fazer sobre nosso processo de
urbanização. Ele revela desde o princípio o foco que está dirigindo os olhares
para o fenômeno urbano: compreender quem são trabalhadores e migrantes que se
dirigem às cidades em crescimento acelerado, o lugar que nelas ocupam e o papel
econômico e político que cumprem na sociedade. O texto coletivo dos
pesquisadores do Cebrap que faz parte do livro organizado por Castells possui
essa mesma questão de fundo, procurando, entretanto, respostas por meio do
entendimento da categoria social de "morador" ou "cidadão" (em contraste ao
"proletário") e também da cultura de massas (da TV às multidões urbanas), mais
do que na marginalidade. São questões que desenvolverão no livro São Paulo
1975: crescimento e pobreza7, que abordaremos mais adiante.
Antes de nos dirigirmos aos trabalhos dos intelectuais do Cebrap, faremos uma
breve incursão pelo que denomino agora de contribuição francesa de Manuel
Castells, para indicar alguns dos conceitos que terão influência nos
desdobramentos da pesquisa urbana paulista dos anos 1970.
A CONEXÃO FRANCESA: A CIDADE COMO REPRODUÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO
Manuel Castells, em A questão urbana8, cuja edição francesa é de 1972, tem a
pretensão de estabelecer uma contribuição pioneira para uma teoria marxista e
científica da urbanização, procurando distinguir-se do ensaísmo mais livre,
espécie de filosofia da urbanização, de Henri Lefebvre em O direito à cidade9.
A interpretação sobre a urbanização dependente na América Latina, reproduzida
também em A questão urbana, cede espaço para uma análise mais ampla do fenômeno
urbano no capitalismo: nas suas dimensões econômicas, políticas e ideológicas
(categorias fundamentais para os estruturalistas). Seu desafio é estabelecer o
marco epistemológico para delimitar o que são os "problemas urbanos", dada a
quase inexistência de textos de Marx sobre o tema. A questão urbana, como
veremos, será apresentada por Castells como o processo mesmo de reprodução
social da força de trabalho. A cidade será analisada como espaço da vida
cotidiana, como esfera de consumo - em distinção aos espaços de produção
propriamente ditos. Nesse caso, o conflito central não é mais entre capital e
trabalho, mas entre trabalhadores (em sua ação coletiva) e o Estado (em sua
ideologia planificadora), na definição do patamar de reprodução social da força
de trabalho ou, noutros termos, do nível de "salário indireto" promovido pelos
serviços públicos.
A filiação estruturalista e mais especificamente althusseriana de Castells é
visível na organização geral do livro e na sua disposição para a construção de
conceitos abstratos de cunho supostamente científico, apesar de temperado de
realidade nos capítulos de pesquisa empírica e histórica. Não é o caso de
avaliarmos como Castells utiliza ou nega alguns dos conceitos de Althusser, mas
nos interessa indicar que o sociólogo espanhol mobiliza a interpretação do
marxismo mais celebrada e debatida naquele momento e que, de certo modo, era
quase inteiramente acatada no Partido Comunista Francês (PCF). O positivismo
estruturalista aflora quando Castells lança mão de inúmeras informações tidas
como objetivas (dados, esquemas e fórmulas matemáticas), diversas delas
apresentadas de forma duvidosa, mas necessárias à formulação de um materialismo
dialético que se quer científico, quase dissociado da realidade concerta. Esta
é apresentada, de forma dissonante, nos capítulos com descrições históricas
mais ricas e contraditórias, tanto das iniciativas normativas dos planejadores
como das ações coletivas dos movimentos urbanos (tema que Castells desenvolverá
em textos posteriores).
A cidade, para Castells, será apresentada como o espaço do "consumo coletivo",
do uso e da vida cotidiana. Diferentemente do consumo individual de
mercadorias, o consumo coletivo se realiza econômica e socialmente não por meio
do mercado, mas do Estado e de suas políticas públicas. Isso porque o consumo
coletivo não tem como ser suprido exclusivamente pelo mercado e exige uma
intervenção estruturalmente necessária do Estado. Este se encarrega da
"produção dos meios essenciais de reprodução da força de trabalho: saúde,
educação, habitação, equipamentos coletivos etc." e, desse modo, "se converte
em verdadeiro planificador do processo geral de consumo: isto está na base da
chamada política urbana"10.
Aqui também se observa a influência de um certo pensamento marxista dominante
no PCF a respeito do estado gaulista e a V República: o Capitalismo Monopolista
de Estado (C.M.E.) - especialmente Paul Boccara, com seu Études sur le
C.M.E.11.
A produção industrial, para Castells, interfere apenas na dinâmica regional,
com suas diferentes estratégias de localização e infra-estrutura. O urbano, por
isso, pode ser compreendido predominantemente como o lugar da "reprodução
social" e não da produção. Essa dicotomia, apresentada de forma explícita por
Castells no capítulo 9, "Os elementos da estrutura urbana", e também em seu
posfácio, oferece, de imediato, diversos paradoxos. Alguns deles podem ser
apontados desde já: a cidade é descrita como mero locus da reprodução da força
de trabalho, objeto de serviços públicos (habitação, transporte, saneamento
etc.) e das ações estatais de integração e repressão, sem apresentar qualquer
interpretação significativa no sentido de compreendê-la como processo e
produto, ou seja, como forma da própria dinâmica de acumulação do capital.
Como afirma Christian Topalov, ao questionar Castells, "não se pode estudar os
usos que se faz da cidade sem estudar também a sua produção, não se pode
considerar separadamente os agentes econômicos privados e a ação pública"12.
Para Gottdiener, Castells não teria produzido uma "teoria do espaço", e a
"dificuldade em avaliar este fato está na infeliz insistência de Castells em
conservar o termo 'urbano' em sua análise e em definir a cidade como uma
unidade espacial de reprodução da força de trabalho" 13.
A questão urbana, para Castells, é, no limite, apenas o produto material (como
qualquer outro) de uma determinada formação social. Neste sentido o espaço
urbano é determinado e reflexo, não constituindo um campo conceitual com alguma
autonomia. O urbano é, assim, imediatamente o consumo coletivo do urbano, não
restando um significado intermediário, mediado, em que o urbano seja ele
próprio produzido e reproduzido. Não são temas para Castells, por exemplo, a
propriedade e a renda da terra, a produção do espaço construído, os promotores
imobiliários e todo o circuito de acumulação de capital que se dá no urbano.
Também não são objetos de análise os capitais envolvidos nos serviços públicos,
as empreiteiras, as empresas produtoras de equipamentos de transportes, de
saneamento etc. De modo mais amplo, não são sequer mencionadas as contradições
entre os capitais que circulam pelo circuito de acumulação urbano e os capitais
em geral, com suas divisões na disputa pela repartição da mais-valia entre
lucro, renda e juros, envolvendo a ação e regulação públicas - com importante
capítulo na produção da cidade.
Do ponto de vista da imagem da cidade e da ideologia urbana, a interpretação de
Castells é igualmente insuficiente. A cidade é delimitada como espaço exclusivo
de consumo coletivo de serviços estatais, e não são avaliadas questões
relativas ao consumo e a cultura de massas, como parte vital da sociedade
administrada. A ideologia urbana no capitalismo é entendida imediatamente como
manifestação do Estado planificador, e não da sociedade de consumo, de sua
indústria cultural e do espetáculo urbano com seus edifícios monumentais e
espaços do poder e do dinheiro. Por isso, a cidade pode ser decomposta de forma
dura e analítica em fórmulas econômicas e tabelas que avaliam seu desempenho
funcional como mera unidade de reprodução da força de trabalho.
No posfácio de 1975, Castells reconhece equívocos e procura se defender de
algumas dessas críticas. Mantém, entretanto, a afirmação de que "o essencial
dos problemas definidos como urbanos está de fato ligado aos processos de
consumo coletivo, ou ao que os marxistas chamam de organização dos meios
coletivos de reprodução da força de trabalho"14. E justifica-se, ainda,
declarando que seu interesse estava em delimitar o que considera um "problema
novo" - o do consumo coletivo - ou um "novo lugar para um problema antigo", o
da sobrevivência dos trabalhadores
A depuração ou simplificação dos problemas urbanos como sendo decorrentes
apenas da ordem de consumo coletivo e do conflito entre trabalhadores e Estado
permite a Castells encontrar saídas igualmente facilitadas para a superação das
contradições, por meio da eleição de novos sujeitos, os movimentos sociais
urbanos - contrariando aqui a ortodoxia comunista. Se Castells foi pioneiro em
captar pesquisas empíricas sobre as organizações de bairro e lhes conferir um
estatuto sociológico de maior peso, terá colaborado também para difundir a
crença positiva nestes atores como agentes fundamentais da transformação
social. Para o marxismo, entretanto, eles permanecem indecifráveis como classe
social, seja como substitutos ou como irmãos pobres do velho proletariado. Por
isso, fechando o argumento, foi preciso também definir um lugar correspondente
no mundo do trabalho para estes "pobladores". Como vimos, na explicação dada
para estes novos sujeitos na América Latina, eles constituem o pólo da
marginalidade.
O que nos interessa nesta recapitulação dos argumentos de Castells para o
tópico seguinte deste artigo é que parte das incongruências e lacunas da sua
interpretação irão repercutir e se reproduzir na produção marxista paulista
sobre a questão urbana nos anos seguintes.15
DESDOBRAMENTOS PAULISTAS 1: CEBRAP
O Cebrap, que congregava intelectuais de esquerda que permaneceram no Brasil
durante grande parte do regime militar e realizavam pesquisas pioneiras em
diversos campos das ciências humanas, foi também o lugar de onde foi enunciada
a primeira tentativa marxista de explicação do fenômeno da urbanização
acelerada da maior cidade da América do Sul, São Paulo. As iniciativas do
Cebrap parecem ter partido quase simultaneamente de três "narradores"
diferentes, que apresentaremos na seguinte ordem: 1) o economista Paul Singer,
que lançou em 1973 o livro Economia política da urbanização16 e depois
participou do grupo que se propunha a discutir o tema "crescimento e pobreza";
2) o economista e sociólogo Francisco de Oliveira17, que apresentou questões
relativas à urbanização em "Crítica à razão dualista", de 1972, desenvolvendo o
tema no texto "O Estado e o urbano", de 1982; 3) e, por fim, o grupo que
oficialmente desenvolvia a pesquisa sobre cidade, cultura de massas e
movimentos populares urbanos, coordenado pelos sociólogos Lúcio Kowarick,
Vinicius Caldeira Brant e Cândido Procópio de Camargo, e que redigiu o livro
São Paulo 1975: crescimento e pobreza.
A influência da sociologia francesa e mais especificamente a recepção das
idéias de Manuel Castells sobre essa produção, apesar de significativa, não
ocorreu de forma direta e imediata, mas por um contexto comum de produção e
debates que consolidavam algumas idéias-força aceitas como verdadeiras (as
interpretações em voga). Desse modo, o que discutiremos a seguir está no campo
das similaridades e das deduções comuns realizadas pelos autores, sem a
preocupação de fazer uma genealogia ou filiação sistemática das idéias.
No caso de Paul Singer, por exemplo, sua participação inicial no debate ocorre
por meio de pesquisas sobre demografia e migrações. Ele acompanha o percurso do
migrante até a cidade e passa, então, a investigar as características da
economia urbana. Como já mencionamos, em Imperialismo e urbanização na América
Latina, Singer critica os argumentos de Castells e Quijano, questionando sua
premissa da oposição entre pólo marginal e setor moderno, integrado sob
controle dos monopólios. Segundo ele, a divisão da economia em dois setores não
pode ser entendida de forma estanque e dualista, "pelo contrário, a expansão do
setor monopolístico cria, direta ou indiretamente, condições para a
multiplicação de atividades competitivas inegavelmente prósperas, onde a
acumulação do capital se processa mediante a exploração extensiva de
trabalhadores pouco qualificados"18, como na construção civil, na agricultura,
no comércio, serviços pessoais e certas indústrias (como a de roupas e
alimentos). Para Singer, nenhuma dessas atividades é organizada
monopolisticamente e tampouco apresenta marcas de "marginalização". Além disso,
"uma parte do excedente produzido na economia não-monopólica é transferida ao
setor monopolista, o que lhe confere um caráter extremamente dinâmico"19. O que
é aparentemente marginal se mostra totalmente inclusivo. Como veremos, este é o
mesmo argumento de Francisco de Oliveira, que o desenvolverá de forma mais
abrangente.
O capítulo de Economia política da urbanização que mais contribui para as
indagações desse trabalho é "Urbanização e desenvolvimento: o caso de São
Paulo", no qual Singer apresenta sua interpretação para o processo de
urbanização na periferia do capitalismo. Apesar de mais uma vez contrapor-se a
Castells, apresentado como "representante de esquerda da crítica antiurbana" -
que "procura atribuir à anarquia da produção, própria do capitalismo, o
crescimento desmesurado das grandes cidades"20 -, Singer expõe, ao fim,
argumentos similares ao do sociólogo espanhol. A urbanização é descrita como um
processo de "ampla mobilização do exército industrial de reserva"21, retomando
o conceito marxista para evitar a noção dualista de "marginalizados", o que não
o impede de apresentá-la novamente como processo reflexo da industrialização,
sem dinâmica própria.
Singer, ao tentar investigar novos problemas de aglomeração e concentração de
capitais, permanece, contudo, preso à constatação quase banal das vantagens
econômicas gerais, com afirmações como, por exemplo, "a capital paulista já
possuía o maior parque industrial do país [...] graças ao café"22. Faltam ao
autor as perguntas, aparentemente elementares, mas decisivas, já feitas por
Caio Prado Jr. em seu conhecido ensaio sobre a capital paulista23: mas por que
a concentração urbano-industrial se deu em São Paulo? Quais as características
históricas e geográficas que lhe permitiram isso? Suas conclusões permanecem no
nível das estratégias de alocação de recursos: a irracionalidade da cidade é,
por extensão, a mesma dos capitais em geral. Os contrastes que as cidades e, em
especial São Paulo, apresentam, são exemplares de "contradições do sistema que,
para desenvolver as forças produtivas, vai sempre suscitando novos
problemas"24. As falhas da cidade, desse modo, são as mesmas do mercado e
exigem a intervenção estatal, de preferência com planos de desenvolvimento
regional que permitam o fluxo de capitais alcançar as áreas mais atrasadas e
que concentram potenciais migrantes.
A análise da economia urbana de Paul Singer é, ao fim, o da economia sem o
urbano. Prevalecem categorias analíticas da economia política que seguem
desligadas da conformação espacial em sentido forte, apresentada sempre como
reflexa. Como veremos, esta é uma característica de quase toda produção dos
intelectuais do Cebrap.
Francisco de Oliveira, o segundo "narrador" aqui abordado, irá dedicar um texto
de fôlego para a compreensão da questão urbana apenas no início dos anos 1980,
"O Estado e o urbano no Brasil", mas já utiliza exemplos de fenômenos urbanos
em seu conhecido ensaio "Crítica à razão dualista", de 1972. Neste texto, o
urbano aparece ao representar externalidades que incidem sobre o custo de
reprodução da força de trabalho e sobre o cálculo do salário mínimo (ou
"salário de reprodução").
O argumento mais original de Francisco de Oliveira consiste em apresentar a
cidade como o melhor exemplo da "manutenção, ampliação e combinação do padrão
'primitivo' com novas relações de produção"25. Assim, é ela própria a "unidade
dos contrários", em sua materialidade mais concreta e visível. Os serviços
urbanos na periferia do capitalismo, essenciais na composição do custo de
reprodução da força de trabalho, não são providos em sua totalidade pelo Estado
na forma de salário indireto, como descreve Castells para os países centrais,
mas, ao contrário, dependem de "uma estranha forma de 'economia de
subsistência' urbana, forçando para baixo os salários reais"26. Essa
incapacidade de prover os serviços é decorrente de "uma ausência de acumulação
prévia que financiasse sua implantação"27. Por isso, lança-se mão de um
crescimento urbano horizontal, extensivo, de baixíssimos coeficientes de
capitalização, sustentado pela abundância de mão-de-obra, "cuja forma aparente
é o caos das cidades"28.
A autoconstrução da casa em mutirão pelos trabalhadores é apresentada por
Francisco de Oliveira como principal exemplo de serviço urbano baseado em
economia de subsistência que colabora para a expansão capitalista moderna29.
Apoiado nesse tipo de consumo coletivo que se autoprovê em vez de ser provido
pelo Estado, o salário real não chega mais a cobrir os custos de reprodução da
força de trabalho. Ocorre assim uma espécie de "urbanização da reprodução
social", no sentido de sua dependência crescente dos serviços urbanos - como
afirma mais adiante: "à medida que a urbanização avança, à medida que as novas
leis de mercado se impõem, o custo de reprodução da força de trabalho urbana
passa a ter componentes cada vez mais urbanos"30.
Francisco de Oliveira apresenta, desse modo, uma explicação mais ampla e
sistemática para descrever a economia subdesenvolvida e sua industrialização-
urbanização. Evidencia como o que é aparentemente marginal colabora de fato
para a acumulação moderna. Nesse sentido, trata-se de um avanço evidente em
relação aos dualismos tanto da Cepal quanto dos "marginalistas". Entretanto,
Oliveira foi criticado por recair no exato contrário, no sentido de compreender
a relação atraso/moderno em termos mecânicos e puramente funcionalistas31. Sem
enveredarmos por esse caminho, o que nos importa aqui é que o espaço urbano é
ainda apenas a "unidade de reprodução da força de trabalho". Ele aparece
novamente como mera expressão ou receptáculo de paradoxos da economia
industrial subdesenvolvida e da unidade de contrários que lhe é própria, não
constituindo um campo conceitual com categorias mais específicas.
Dez anos depois, tendo sido professor da FAU-USP por breve período32, Francisco
de Oliveira empreende então uma crítica dirigida ao fenômeno urbano
propriamente dito, em "O Estado e o urbano no Brasil". Por uma questão
cronológica, voltaremos a esse texto depois de passarmos pelo importante
trabalho sobre São Paulo produzido pela equipe de pesquisadores do Cebrap.
O terceiro "narrador" da questão urbana é coletivo, um grupo de pesquisadores
que desde o início da década de 1970 passa a investigar de modo mais
sistemático as condições de vida na região metropolitana de São Paulo,
culminando no livro Crescimento e pobreza. Seu primeiro texto, "O
desenvolvimento de São Paulo: cultura e participação", de autoria de Lucio
Kowarick, Candido Ferreira de Camargo e Fernando Henrique Cardoso, publicado em
Imperialismo e urbanização na América Latina33, é dedicado ao entendimento da
nova "cultura urbana" em um continente em urbanização acelerada.
O conceito de "cultura urbana" é entendido como um dos padrões culturais da
"civilização industrial de modo amplo" e está associado tanto às formas de
estratificação social como de massificação. O ensaio abre um amplo leque de
questões importantes sobre o fenômeno urbano, apesar de pouco desenvolvê-las: a
relação entre desejo de propriedade e mobilidade (oposição entre imobilidade do
domicílio e mobilidade do emprego), a especulação imobiliária, a contradição
entre capital imobiliário e capital industrial, os diferentes agentes privados,
os governos, os usuários e suas organizações, as carências de equipamentos
urbanos, os desejos dos moradores, a influência da televisão etc.
O esforço teórico mais consistente, entretanto, está em interpretar as relações
antitéticas entre a nova cultura de massas (que implica numa participação
passiva, isto é, não-participação) e a formação de uma ativa cultura política
urbana. Os autores estão interessados em avaliar como em uma sociedade urbano-
industrial se forma (ou não) o cidadão - indivíduo "para quem a cidade, além de
objeto de consumo é também centro da vida pública e política, assim como
expressão simbólica de um conjunto de valores, de uma cultura"34. Nesse
sentido, a cidade volta a ser compreendida como a dimensão possível da própria
política, ou seja, como polis. O que os pesquisadores do Cebrap verificam
preliminarmente, e lançam uma hipótese nesse sentido, é que a reivindicação
cidadã por serviços urbanos começa a transformar o morador em um "tipo especial
de habitante", um cidadão em formação. Reconhecem, contudo, que essa modalidade
de "participação", de horizonte imediato, difere em muito da forma clássica de
"cultura cívica" e de "opinião pública".
Entretanto, não deixam de reiterar a mesma crença que Castells, e grande parte
dos demais autores de Imperialismo e urbanização da América Latina, segundo a
qual organizações de novo tipo, eminentemente territoriais, emergirão quase que
de forma salvadora, restituindo a substância política perdida da cidade. E,
surpreendentemente, sua reivindicação será, antes de tudo, a defesa da própria
cidade. Trata-se do "surgimento de um habitante mais exigente a respeito de sua
cidade"35 e de uma cultura política que nasce da reivindicação do ambiente
urbano enquanto "uso, desfrute dos serviços e rede de relações e participação".
A cidade enquanto consumo coletivo é apresentada, ao fim, como inusitada
antítese da própria exploração e alienação fabril: "ao contrário da produção
que consome o homem, a cidade é um grande objeto de consumo para o homem. Nela
tudo que existe é para ser consumido, de uma árvore, um produto alimentício até
uma obra de arte"36.
Essa afirmação desajeitada reitera a idéia-força de que a cidade é
imediatamente mero objeto de consumo (neste caso, nem mesmo coletivo) e
obscurece, evidentemente, o seu entendimento. O que move, de fato, os
pesquisadores do Cebrap é o desejo de compreender quem é o novo morador das
cidades (migrante, em geral) e como ele pode tornar-se cidadão ativo, para além
das formas de associação convencionais (partidos e sindicatos). Nesse sentido,
o fato urbano interessa aos autores apenas na medida em que a cidade constitui-
se como sistema de informações e objetos a disposição do seu morador, ou cujo
acesso lhe é negado.
A encomenda estatal da pesquisa, entretanto, dirige as conclusões do artigo
para uma proposição institucional, com a definição de linhas de ação para o
poder público - paradoxalmente, em pleno regime militar, que ceifava a
participação popular conclamada pelos próprios autores. Neste ponto, o texto
pende para a esquizofrenia, propondo o "espetáculo urbano", o embelezamento da
cidade e a ampliação de serviços e amenidades de lazer pelo poder público.
No texto subseqüente, encomendado desta vez pela Comissão de Justiça e Paz da
Arquidiocese de São Paulo, opositora do regime, e apresentado pelo bispo
progressista D. Paulo Evaristo Arns, a perspectiva antiestatal será então
reforçada a favor da emergência da "sociedade civil". A equipe que comporá a
pesquisa de São Paulo 1975: Crescimento e pobreza é ampliada37.
Este livro tornou-se um marco para os estudos urbanos marxistas no Brasil.
Entretanto, como veremos, sua contribuição para constituir um campo com
categorias próprias para o fenômeno urbano é ainda limitada.
O ponto de partida é a interpretação do paradoxo entre crescimento econômico
acelerado e aumento das situações de pobreza na maior cidade do país. Tal
situação não é uma anomalia, mas própria do nosso capitalismo: problemas do
subdesenvolvimento não desaparecem automaticamente com o crescimento econômico,
afirmam os autores. Por isso, crescimento e pobreza devem ser entendidos como
fenômenos desiguais e combinados, ao contrário do que deduz a teoria da
"marginalidade", ao descrever a pobreza urbana como manifestação paralela ao
processo de acumulação.
A imensa desigualdade urbana e social que se vê em São Paulo, afirmam, é
decorrente da distribuição desigual, entre as classes, das riquezas socialmente
produzidas. O espaço urbano é apresentado como o melhor retrato que expressa
essa condição mais geral da economia e da sociedade. A lógica espacial é
enunciada em todo o livro novamente como reflexa (ou mera concretude) da lógica
econômica (abstrata), não compreendendo uma dinâmica própria (mas evidentemente
associada) do espaço urbano.
O capítulo "A lógica da desordem", o mais urbano do livro, investiga como a
aparência desordenada do crescimento metropolitano encobre a organização da
sociedade e sua lógica. A cidade, mais uma vez, é apresentada como uma unidade
de reprodução da força de trabalho e espaço de consumo. Este, ao menos,
definido de forma mais elaborada do que por Castells, em três categorias:
consumo individual de bens; consumo coletivo de serviços, mas sob pagamento
individual (tarifas); e consumo coletivo de infra-estruturas cujo custo recai
sobre a coletividade. Infelizmente o texto não aprofunda uma análise da cidade
sob essas categorias em sua dinâmica articulada, passando diretamente para o
problema específico da habitação. ("Um falso problema", como afirmará Gabriel
Bolaffi.)
A questão da moradia ganha importância na medida em que a cidade é descrita
como locus da reprodução da força de trabalho. Os pesquisadores periodizam três
fases da provisão habitacional, mas que de fato se resumem a duas: uma inicial
baseada no fornecimento da moradia pelas empresas (as vilas operárias),
reduzindo as despesas arcadas diretamente pelos trabalhadores, mas debitando-as
no seu salário; e uma fase posterior, na qual a aceleração do fluxo migratório
e a formação de um excedente de mão-de-obra torna desnecessária a fixação do
trabalhador à empresa, que passa a transferir a responsabilidade de provisão da
moradia e serviços urbanos para o próprio trabalhador e para o Estado.
É assim que surge o problema da "periferia": aglomerados, clandestinos ou não,
carentes de infra-estrutura, onde vai residir a mão-de-obra necessária para o
crescimento da produção. A periferia, como lugar físico, é apresentada, por
fim, como única categoria propriamente urbana do livro, e mesmo assim sob a
forma descritiva em vez de analítica. Ela é a decorrência espacial do
"espraiamento horizontal" da cidade (sem que este seja de fato explicado) e do
"paradoxo da mobilidade". Segundo os autores, baseados em dados do Dieese, em
1958 o gasto em transporte representava 2,9% do salário e, em 1970, pulou para
11,5%, fenômeno que é resultante de uma urbanização baseada na casa própria (em
vez do aluguel), que tende a fixar o trabalhador no bairro, no mesmo momento em
que ocorre a intensificação da mobilidade do emprego. Ou seja, a transformação
do trabalhador em pequeno proprietário tornou-se fonte adicional de
dificuldades de vida.
A cidade promove, assim, a "dilapidação da força de trabalho" (por meio de
jornadas de trabalho prolongadas e intensas e espinhosas condições urbanas de
existência), dada a vasta reserva de mão de obra e a ausência de uma sólida
organização sindical. Tema que será depois desenvolvido por Lúcio Kowarick sob
a denominação "espoliação urbana". De outro lado, a cidade concentra o "mercado
de ilusões" do mundo da publicidade, das vitrines, da televisão e sua promessa
de felicidade pela atmosfera de consumismo e da "pseudo-abundância" - uma
máquina de produzir conformismo. Aqui, novamente os pesquisadores do Cebrap
estão interessados em compreender a cultura urbana de massas e suas
conseqüências.
Os autores acreditam, por fim, reiterando a mesma posição do artigo anterior e
de Manuel Castells, que a emergência de movimentos sociais urbanos, existentes
de forma embrionária na condição de Sociedades de Amigos de Bairros, poderá
transformar essa situação. Trata-se da emergência do povo na cena política, com
feição "autonomista" (não tutelada) e "territorial". Essa pode ser uma
alternativa de organização importante visto que o nível de participação em
sindicatos é baixo (5%) em função do quadro institucional mais amplo que
restringe a liberdade de organização no espaço de trabalho. Grande parte da
população, não podendo contar com canais reivindicativos e institucionais
eficazes, enfrenta os problemas cotidianos por meio de uma teia de relações
informais e de laços pessoais, de amizade, compadrio e conterraneidade que
definem formas de solidariedade e ajuda mútua, que podem ser reforçados por
organizações de bairro. É assim que as associações comunitárias passam a ser
descritas como parte fundamental do percurso de uma democratização substantiva,
que passará pela multiplicação das organizações populares e pelo seu
robustecimento, potencializando as malhas de solidariedade orgânica em uma
verdadeira rede de organização autônoma da população.
Para se distanciarem dos que apostam numa solução via Estado (de cima para
baixo), que desqualificam como "burocratismo" ou "elitismo", os autores
concluem declarando que suas propostas não são compatíveis "com a noção de que
uma ordem igualitária possa ser imposta" - marcando diferença também com o
socialismo real. Segundo eles, ela precisa ser formulada de baixo para cima, de
modo que "os diversos grupos populares, através de suas organizações e
expressando suas diferenças, participem da construção de uma nova organização
social", baseada em "amplas liberdades populares"38. Aqui está enunciado um
princípio central do "programa democrático-popular" que irá mobilizar o MDB
naqueles anos e a fundação do PT no final da década.
Em seu livro de 197939, Lucio Kowarick passa a formular uma categoria
propriamente urbana, "a espoliação", para definir o que fora descrito em
Crescimento e pobreza. A "espoliação urbana" pretende qualificar, como conceito
imanente do processo de urbanização em nosso país, a expulsão dos pobres para
as periferias, decorrente da combinação de crescimento e pauperização. Apesar
de ainda manter um certo raciocínio de mão única ao reconhecer na cidade um
mera concretude da ordem socioeconômica40, o termo espoliação pretende avançar
para a dimensão propriamente urbana dessa relação entre desigualdade espacial e
modelo de crescimento-pauperização. Na definição de Kowarick, espoliação urbana
é "o somatório de extorsões que se operam através da inexistência ou
precariedade de serviços de consumo coletivo, apresentados como socialmente
necessários em relação aos níveis de subsistência, e que agudizam ainda mais a
dilapidação realizada no âmbito das relações de trabalho"41. Não por acaso
Kowarick retoma e desenvolve as observações de Francisco de Oliveira sobre a
autoconstrução da moradia pelos trabalhadores e suas conseqüências para a
economia em geral, embora permaneça aquém do que já estava sendo debatido na
FAU, como veremos. O autor é também um dos primeiros em São Paulo a esboçar uma
interpretação da favela, olhando-a como fenômeno que exige palavras novas,
seguindo, em parte, a interpretação da favela carioca de Janice Perlman e Lícia
Valladares.
O interesse das formulações de Kowarick e de seu conceito de "espoliação
urbana" está em caracterizar justamente a inviabilidade das formas de consumo
coletivo na periferia do capitalismo, comparativamente às políticas públicas
dos Estados de bem-estar social. O urbano, aqui, é a negação da reprodução da
força de trabalho em patamares aceitáveis, é, pois, sua dilapidação permanente
de forma espoliativa. Nesse sentido, Kowarick é, sem dúvida, quem mais bem
aclimata a formulação da cidade como unidade de reprodução social e de consumo
coletivo para a nossa situação histórica, invertendo seu sinal. O papel do
Estado, pela presença ou pela oportuna ausência, segue, contudo, fundamental
nesse processo. Nesse momento, Francisco de Oliveira também tinha reduzido a
equação fundamental a "o Estado e o urbano", ou, o urbano só existe,
conceitualmente, se entendido pelo prisma do Estado.
Em "O Estado e o urbano no Brasil", publicado em 1982, Francisco de Oliveira
tem o mérito de realizar uma importante interpretação histórica, desde o
período colonial, em busca do "sentido" de nossa urbanização. Desde o princípio
nossas cidades assumem as atribuições de hospedeiras dos aparelhos estatais de
controle (inicialmente, das relações colônia-metrópole) e de pólos de ligação
com a circulação internacional de mercadorias. Com a industrialização, a partir
do final do século XIX, será definido um novo padrão de urbanização que,
aparentemente, ocorre em ritmo muito superior ao da própria industrialização.
Isso porque "a industrialização brasileira trouxe dentro de si, de uma só vez,
de uma pancada, todo um exército industrial de reserva vindo dos campos para
dentro das cidades"42. O Estado participa dessa nova situação como regulador
das relações capital-trabalho, ou seja, ele fixa o preço da força de trabalho
que está se instalando nas cidades.
O novo urbano é, assim, o mercado de trabalho, ou o "mercado de força de
trabalho"43. Mas é mais que isso, pois o Estado não apenas regula a relação
salarial como assume parcelas do custo de reprodução da força de trabalho -
grande parte em intervenções urbanas que representam um "salário indireto"
(moradia, transporte, saneamento, lazer) 44 - fenômeno que se deu sobretudo nos
Estados de bem-estar social, dado o peso político da classe trabalhadora. No
Brasil, foi diferente, pois, justamente o encarecimento da força de trabalho
nos países centrais impulsionou um movimento do capital internacional pela
industrialização com baixos salários na periferia, onde o Estado não assumiu a
mesma parcela do custo de reprodução do trabalho, transferindo-a para formas de
economia de subsistência, como já explicara no texto de 1972, glosado por
diversos outros autores.
A novidade no argumento de Oliveira não está em reeditar a leitura do urbano
como acampamento de reprodução/dilapidação da força de trabalho, mas em
perceber que a industrialização monopolista na periferia, baseada nas empresas
multinacionais e estatais produziu, a partir dos anos 1950, uma nova camada
social eminentemente urbana: as "classes médias". Elas representam o chamado
trabalho improdutivo (ou trabalho intelectual), nos setores de gerência,
comunicações, serviços, finanças e circulação de mercadorias. Essa mudança na
"estrutura de classes"tem importantes conseqüências para a "estrutura urbana" e
o paralelismo entre ambas é assim reiterado: "as cidades são por excelência a
expressão urbana dessa nova estrutura de classes"45. A ação do Estado, do ponto
de vista da sua relação com o urbano, passa a ser determinada pelas demandas
das classes médias, e não dos trabalhadores, dada a falta de voz das classes
populares. O Estado irá arbitrar a distribuição do excedente social favorecendo
os setores médios, que constituem a base ideológica de sustentação do regime e
da modernização conservadora.
Oliveira, entretanto, ao fim não avalia como é o urbano que nasce desse novo
padrão de classes, suas características físicas e sua dinâmica de produção e
reprodução. Ele acaba por resumir o urbano a palco do conflito entre Estado e
trabalhadores, ou, ainda, entre Estado e "sociedade civil", adotando o termo em
sentido gramsciano. Diante dessa oposição e do ponto de vista das condições de
vida, Oliveira argumenta que já não faz muita diferença a origem social e a
posição dos indivíduos na estrutura produtiva (ou seja, a condição de classe),
pois, em última instância, todos habitam na cidade espaços contíguos e, por
isso, estariam unificados em suas demandas46. Ora, a conclusão do texto,
inesperadamente sumária à luz dos problemas colocados no decorrer do próprio
ensaio, retorna ao entendimento limitado de que o conflito urbano se dá
privilegiadamente na disputa pela direção do aparelho do Estado, e propõe uma
aliança cidadã entre trabalhadores e classes médias - o que irá em parte se
consumar na própria ascensão do PT em São Paulo.
O saldo de dez anos de produção dos intelectuais marxistas do Cebrap sobre o
urbano é, no mínimo, controverso. Em primeiro lugar, é possível distinguir
algumas linhas comuns, mas não afirmar que a produção de crítica urbana no
Cebrap, com seus diferentes "narradores", constitua um bloco único. De modo
geral os textos colaboram para o entendimento de algumas das articulações entre
urbanização e industrialização na periferia do capitalismo. Indicam também a
importância de se compreender a emergência, numa sociedade de massas, de um
novo sujeito histórico (ou de uma nova dimensão da classe trabalhadora), o
migrante-morador-cidadão, com suas formas próprias de organização e ação
política. Este é um tema também desenvolvido noutras pesquisas do Cebrap, como
a que resultou no livro São Paulo: o povo em movimento47, de Vinícius Caldeira
Brant e Paul Singer.
Por sua vez, os limites dessa produção crítica pioneira decorrem, sobretudo, da
descrição unidimensional do espaço urbano como manifestação direta da economia
e da política, sem entendimento de suas dinâmicas e categorias próprias. A
cidade é imediatamente a economia urbana, imediatamente o consumo coletivo, ou
imediatamente o mercado de trabalho, ou ainda imediatamente as classes médias
ou o Estado, e assim não adquire estatuto interpretativo. Aparece quase sempre
de forma rebaixada, na condição de "objeto" de consumo coletivo, "palco" da
política ou "suporte" da industrialização. Quase nada é investigado sobre a
produção da própria cidade, seu significado mais amplo como centralidade e
expressão material do poder e da riqueza, sobre sua forma arquitetônica e o
trabalho na construção, sobre a propriedade privada e a renda da terra, sobre a
estrutura concentrada e o crescimento disperso, sobre os circuitos de
acumulação imobiliária e sua relação com o capital em geral, sobre a lógica de
investimentos privados e públicos, a localização das infra-estruturas, as
formas de ação urbana do Estado na repartição da riqueza social etc. Trata-se
de um urbano reflexo e descarnado, apresentado muitas vezes como mera
ilustração da crítica sociológica ou da racionalidade econômica.
DESDOBRAMENTOS PAULISTAS 2: FAU-USP
O livro-síntese da contribuição marxista da FAU-USP para o entendimento do
fenômeno urbano nos anos 1970 é organizado por Ermínia Maricato: A produção da
casa (e da cidade) no Brasil industrial48, com textos de 1975 a 1979. A
proximidade de temas e certa filiação com o Cebrap são evidentes, inclusive
pela participação de Paul Singer, com um artigo, e de Francisco de Oliveira, no
prefácio. A escolha dos dois não é casual, pois a Crítica à razão dualista e A
economia política da urbanização eram dos textos mais lidos e debatidos
naqueles anos entre os arquitetos de esquerda, como primeiras interpretações
marxistas do urbano no Brasil.
O resultado coletivo do livro representa um avanço em relação à produção do
Cebrap, pois a cidade aparece, enfim, como objeto de crítica imanente. De um
lado, os conceitos de "periferia", "espoliação" e "autoconstrução" são
desenvolvidos e aprofundados nos textos de Ermínia Maricato, Raquel Rolnik e
Nabil Bonduki. De outro, Rodrigo Lefévre e Paul Singer inauguram a pesquisa
sobre renda da terra e negócios imobiliários, procurando estabelecer categorias
marxistas próprias para o entendimento do urbano. Por fim, o Estado deixa de
ser entendido de forma abstrata como regulador do custo da força de trabalho
para ser objeto de uma análise detida de Gabriel Bolaffi de como atuou
especificamente na formulação e na implementação do BNH, dando carne e conteúdo
à perspectiva crítica do Cebrap. Como veremos, este livro leva até as últimas
conseqüências a perspectiva sociológica cebrapiana-marxista de interpretação do
urbano e supera seus limites, antecipando e indicando uma renovação de temas e
métodos para a pesquisa urbana nos anos 1980 e 1990.
Ao reconhecer o avanço e a originalidade do livro, Francisco de Oliveira, em
seu prefácio, afirma que "a novidade está em fazer-se um esforço para pensar um
campo teórico especificamente urbano, a partir do urbano mesmo"49. Isso não
quer dizer "construir um estatuto teórico próprio para o urbano" separado do
movimento geral do capital, mas, ao contrário, "procurar determinar
concretamente esse urbano"50. Oliveira reconhece que o grupo da FAU inova na
tentativa de estudar a renda fundiária como fundamento de uma atividade
produtiva e associar a especulação à produção real, colaborando para o
conhecimento do espaço urbano segundo categorias que lhe são próprias. Assim,
resume Oliveira, o urbano passa a ser compreendido não apenas como "lócus, mas
como forma da expansão capitalista"51.
Um grupo de professores da FAU estava lendo, naqueles anos, o terceiro livro de
O capital - que discute as formas heterodoxas de produção do valor por meio da
renda e dos juros - e começa também a descobrir novos autores, como Henri
Lefebvre, David Harvey e Marino Folin, além da nova sociologia urbana francesa
(Lojkine, Topalov, Ascher e Lipietz) que ampliavam o horizonte da crítica
marxista para além do esquema de Castells. O livro representa essa transição,
apesar de não completá-la integralmente, formulando uma alternativa mais
acabada.
Os textos de Ermínia Maricato, professora da FAU52, e de Raquel Rolnik e Nabil
Bonduki, estudantes da pós-graduação e orientandos de Bolaffi, trazem uma série
de informações de suas pesquisas de campo (devedoras da investigação pioneira
de Carlos Lemos e Maria Ruth Sampaio) que delimitam com mais precisão os
conceitos de "periferia" e "autoconstrução". Talvez ambos os textos sejam a
melhor formulação, até aquele momento, da situação de moradia da classe
trabalhadora na cidade de São Paulo. Como os colegas do Cebrap, escapam da
armadilha da marginalidade e caracterizam os nexos que articulam a expansão
urbana baseada na "solidariedade forçada" dos trabalhadores com os ganhos que
os diversos capitais assim obtêm (não apenas o capital industrial como também o
"capital fundiário"). A autoconstrução, por exemplo, é não só apresentada na
fórmula da reprodução social da força de trabalho (como não-mercadoria que
abriga a baixo custo a mercadoria força de trabalho e permite conseqüentemente
a redução dos salários), como também é considerada, por outro lado, como
mercadoria planejada para extrair uma renda de aluguel, e estreitamente ligada
à especulação imobiliária e aos agentes que ganham com esse tipo de expansão
urbana. Ou seja, a autoconstrução é reinserida no urbano e no mercado (mesmo
que ilegal ou informal).
Apesar disso, estes são os textos que mais devem à sociologia francesa e ao
entendimento do urbano nos termos de Castells e do Cebrap. Aqui, mais uma vez,
a cidade é sobretudo uma unidade de consumo coletivo, ou de sua impossibilidade
na periferia do capitalismo. Como as categorias estão aqui bem caracterizadas
pela pesquisa empírica, elas atingem seu limite analítico, cuja superação
passaria a ser procurada no campo da política, mais que no da teoria. Não por
acaso, Ermínia, Nabil e Raquel irão constituir um núcleo de urbanistas dentro
do PT.
Os três outros textos que compõem o livro, mesmo não estando em diálogo direto
com os já mencionados, apresentam novos nexos entre o capital imobiliário, o
Estado e a propriedade do solo. Os textos de Paul Singer e Rodrigo Lefèvre
formam um par, descrevendo a lógica dos "negócios imobiliários" e investigando
a articulação entre a propriedade fundiária e o capital da construção53 - e
descrevendo, pela primeira vez sob ângulo marxista, a lógica dos "negócios
imobiliários". Singer, embora na condição de cebrapiano, entra neste contexto
como professor e economista marxista lido e respeitado na FAU e para o qual
fora solicitado apresentar um quadro didático a respeito da teoria da renda da
terra. Desta vez Singer investiga a economia urbana nela mesma, avançando em
relação a seus textos anteriores.
Explica, de forma didática, a qualidade e a diferença da renda e da propriedade
privada da terra em relação à propriedade privada dos meios de produção na
criação do valor. A propriedade privada da terra não apenas é distinta do
capital produtivo, mas também um ônus para o lucro industrial, um resquício
arcaico em que o proprietário de terra abocanha uma fatia da mais-valia
socialmente produzida. Como afirma Singer: "se a propriedade privada dos meios
de produção fosse abolida, o capitalismo desapareceria. Mas, se a propriedade
do solo fosse socializada, desapareceria a dedução do lucro representada pela
renda da terra,e o capitalismo não só continuaria existindo, mas inclusive se
fortaleceria, pois o lucro assim incrementado intensificaria a acumulação de
capital"54. A conclusão é, contudo, parcial, pois associa a terra urbana apenas
à figura do proprietário enquanto indivíduo parasitário, não percebendo que já
se constituíra, inclusive no Brasil, todo um circuito de acumulação imobiliária
na produção do espaço.
Apesar de considerar a renda da terra um fenômeno extemporâneo, Singer passa
então a qualificar suas modalidades, tema que Marx não desenvolvera para o
contexto urbano. Segundo Singer, o que define a quantidade de renda extraída de
cada pedaço de terra numa cidade é a disputa por sua localização (em função dos
serviços, das infra-estruturas e da qualidade de determinados bairros) e o
direito que é reservado à propriedade privada de cobrar pelo acesso à sua
utilização. As estratégias de empresas e habitantes para extrair renda, acesso
e localização são similares, mas de naturezas distintas, explica. No caso das
empresas, trata-se de uma renda derivada do lucro, tendo em vista ganhos de
localização. No caso dos habitantes, a renda depende das necessidades (reais e
da fantasia) de cada um e da própria promoção imobiliária. São temas que Singer
apresenta a partir da descrição inicial: a estruturação da cidade, a criação de
novas centralidades, as estratégias de renovação urbana, a substituição de
classes sociais no espaço urbano, a desvalorização simbólica de edifícios e
bairros, o desejo de exclusividade das elites, a expansão da franja urbana e
seus mecanismos de especulação, as formas de ação dos empreendedores procurando
antecipar ou influir na localização dos investimentos públicos e na legislação
de uso do solo. Enfim, trata-se de uma abertura conceitual importante. Mesmo
que todos esses assuntos sejam ainda tratados de forma preliminar, está ali
desenhado um excelente mapa de categorias para o estudo das questões urbanas,
de seus processos e conflitos intrínsecos.
Rodrigo Lefèvre, professor da FAU, que também estava às voltas com o terceiro
livro de O capital, procura dados reais para a interpretação do padrão de
decisões dos negócios imobiliários. Ele analisa diversos empreendimentos em São
Paulo e no Rio de Janeiro e nota que os ganhos adicionais dos empreendedores
são derivados quase que exclusivamente da renda fundiária, e não da construção.
No caso de São Paulo, os maiores ganhos foram extraídos proporcionalmente dos
terrenos com piores localizações e baixos preços. Por sua vez, o custo do metro
quadrado construído, sem o terreno, era idêntico e variava apenas de acordo com
o padrão de acabamento.
Para amparar suas descobertas, Rodrigo utiliza o conceito de "terra-capital" e
de espaço físico da cidade como capital fixo, ambos formulados no início dos
anos 1970 por Marino Folin.55 O consumo da cidade passa a ser entendido, nesse
sentido, como consumo de uma mercadoria especial que também é produzida e que
pode ser decomposta em vários tipos de capitais, agentes e ganhos. A cidade
deixa de ser um ente provedor fetichizado, que se embaralha com a noção do
próprio Estado, para ser apresentada segundo a dinâmica de produção e consumo
que lhe é própria e que, sem dúvida, permanece articulada à reprodução do
capital em geral.
Por fim, Gabriel Bolaffi, sociólogo e professor da FAU, apresenta o texto mais
inovador e programático do livro. Ele formula uma hipótese interpretativa da
urbanização periférica a partir dos resultados de sua pesquisa sobre o Plano
Nacional de Habitação em "Habitação e urbanismo: o problema e o falso
problema"56. Em sua análise do BNH, Bolaffi consegue articular a crítica a
estratégias de poder, de acumulação econômica e cooptação ideológica a uma
hipótese sobre a lógica de produção e crescimento das nossas cidades e ainda
apresenta um breve programa de reforma urbana. Ele evita tomar o problema da
habitação isoladamente (o que seria "o falso problema") para entendê-lo
associado à formação do capitalismo nacional e à estratégia de aceleração
econômica tomada pelos militares. Em vez de uma estratégia keynesiana de
estímulo ao ciclo de crescimento, o que Bolaffi descreve é uma "cadeia de
negociatas inescrupulosas", de privatização de ganhos e socialização de perdas.
Segundo ele, ao transferir para a iniciativa privada todas as decisões sobre a
localização e a construção das habitações que financia, o Estado permitiu a
utilização de "terrenos inadequados e mal localizados", a construção de
"edificações imprestáveis" e, por fim, "a venda da casa a quem não pode pagá-
la"57. O que aparece como uma irracionalidade urbana e social flagrante (um
verdadeiro "processo industrial de favelamento", afirma Bolaffi) é, ao mesmo
tempo, um mecanismo de acumulação e de concentração de renda sem paralelos,
"irmão siamês do crescimento da indústria automobilística"58.
O ponto alto do argumento de Bolaffi é apresentar as ações do BNH não como
desvio de rota, mas como regra da própria dinâmica urbana, que ele passa a
denominar "padrão periférico de crescimento da metrópole", tomando São Paulo
como seu exemplo mais predatório. A possibilidade de definir um "padrão"
estimula Bolaffi a procurar uma explicação abrangente do processo de
urbanização, não restrita ao problema da moradia operária. Ele supera o
conceito de periferia como lugar físico e como pólo dual para caracterizar um
movimento próprio do crescimento das cidades.
Em breves linhas, seu argumento consiste em reconhecer a dominância do rentismo
fundiário na constituição da forma urbana - esta a explicação para nossa
"lógica da desordem". No Brasil, a propriedade imobiliária adquire um estatuto
privilegiado como reserva patrimonial, uma vez que é pouco taxada e regulada,
além de superprotegida jurídica e ideologicamente (é o "santuário da
especulação", ironiza). O solo urbano transformado em reserva de valor em vez
de fator de produção não cumpre sua função primeira, ao mesmo tempo em que a
demanda por entesouramento retira porções consideráveis do solo urbanizado do
mercado, o que eleva o preço da terra e estimula o espraiamento da cidade (com
a transformação da terra rural em urbana), numa espiral especulativa sem
controle. Esse processo de valorização também está associado aos movimentos
reais da economia e aos investimentos públicos, que colaboram para a ampliação
dos ganhos rentistas e a privatização da riqueza socialmente produzida,
enquanto transferem para a população as deseconomias provocadas pelo padrão
ineficiente e patrimonialista de crescimento urbano.
A "cidade cresce, consumindo-se", afirma Bolaffi, o que significa que o urbano
não se consolida como cidade íntegra, pois a expansão sobre novas áreas ocorre
simultaneamente à deterioração das antigas. Assim, o padrão periférico-
especulativo está por todos os lados e não apenas na "periferia geométrica".
Mas, justamente porque a cidade ao crescer, consome-se, o rentismo encontra
limites, perdendo a velocidade na medida em que as deseconomias sociais
aumentam a ponto de anular os ganhos privados. Daí que, diante da tendência a
uma queda da renda, o planejamento volta a ser necessário como instrumento
capaz de evitar a inviabilização completa da cidade e de seu sistema de
valorização patrimonial.
As conclusões de Bolaffi conduzem-no a formular um pequeno programa de reforma
urbana (cujo debate iniciara no país pouco antes do golpe militar), em que o
núcleo está em definir uma política fundiária que permita efetivamente a
taxação e o controle do solo como forma de reversão da sua lógica dissociada do
valor de uso. No caso da terra e imóveis ociosos, o aumento de impostos
desestimula sua retenção improdutiva e reduz o seu preço, ampliando a oferta. O
problema da habitação deve, assim, ser recolocado não como um problema de
construção, mas de acesso à terra urbana. Para que este acesso se dê de forma
mais racional e igualitária, é necessário planejamento urbano, majoração de
impostos e um banco público de terras e imóveis, permitindo meios adequados de
controle do crescimento e da especulação. O estado, como grande produtor de
valorização imobiliária, seja por meio da regulação seja por meio do
investimento, deveria ainda capturar as rendas fundiárias derivadas dessas
ações para estabelecer um padrão de urbanização mais homogêneo e democrático.
Trata-se aqui de um programa reformista similar aos do Welfare europeu, mas
que, inusitadamente, Bolaffi acredita ser implementável naqueles anos de
modernização predatória sob regime militar. Ele só será posto em prática (de
forma muito parcial e sem capacidade de reversão estrutural) com a
redemocratização, mais de uma década depois.
COMENTÁRIOS FINAIS
O percurso que fizemos pretendeu avaliar, mesmo que limitadamente, algumas das
influências da sociologia urbana francesa, em especial de Manuel Castells, na
produção pioneira de intelectuais marxistas que procuraram descrever os
paradoxos do crescimento de São Paulo e da urbanização periférica. De certo
modo, para não deixarmos de arriscar uma interpretação, é possível afirmar que
houve uma opção política por essa abordagem. Não havia ainda, é fato, um campo
teórico claramente constituído com categorias próprias para a compreensão do
fenômeno urbano, e a escolha em privilegiar o entendimento da cidade pelo lado
do consumo coletivo, da reprodução da classe trabalhadora, da cultura de massas
e da ação do Estado expressava a disposição em caracterizar a emergência de um
novo sujeito político (o cidadão organizado em associações territoriais e
movimentos urbanos) e de propor políticas públicas mais democráticas, prevendo
o fim do regime militar. Ou seja, tratava-se, em geral, de pesquisas
comprometidas em orientar a ação institucional ou das organizações da sociedade
civil - em suma, pesquisas interessadas na superação prática do atraso e da
desigualdade.
Essa disposição positiva (quem poderia criticá-la?) para a transformação da
realidade levou a um caminho teórico de menor resistência e complexidade, cuja
trilha já era indicada por Castells desde os primeiros contatos com os
pesquisadores do Cebrap no Chile e na França: estudar a cidade como espaço de
consumo e de luta social por fundos públicos para políticas que garantam a
sobrevivência dos trabalhadores em níveis adequados. Isso criou, em
contrapartida, um ponto cego: não se interpretava a produção da cidade pelo
ângulo da acumulação e da ação dos diferentes agentes que se apropriavam dela
como renda e capital.
Os poucos conceitos especificamente urbanos elaborados nas pesquisas daquela
década eram, em sua maioria, unidimensionais e estáticos. À periferia não se
contrapunha a noção de centralidade, ao de autoconstrução, o da própria
(indústria da) construção, ao da espoliação, o de renda da terra, e assim por
diante. Ou seja, os conceitos não entravam em movimento, dialeticamente. Esse
travamento da teoria dirigia os olhares para a crença de que, já que os
conceitos não estavam em movimento, com o perdão do trocadilho, o povo (ou o
Estado democrático) iria entrar em movimento.
A saída do impasse teórico deu-se ou pela reformulação da própria teoria - o
que começa a ocorrer com o livro organizado por Ermínia Maricato, no qual o
urbano é, enfim, enunciado como objeto da crítica imanente -, ou pela
expectativa de que as precárias condições de vida a que estava submetida a
população urbana iriam, por elas mesmas ou ainda associadas a um novo tipo de
planejamento estatal, estimular uma verdadeira reforma social. Em resumo, é
como se os impasses e limites da teoria pedissem uma saída programática
Essa interpretação do urbano, apesar de tudo e por isso mesmo, tornou-se
hegemônica não só na academia como também, progressivamente, nos movimentos
sociais e nos órgãos públicos, ocupados por administrações progressistas nos
anos 1980. Ela representava, afinal, uma crença na possibilidade de um
capitalismo socialmente reformado, assim que restituídos os direitos
democráticos. Nesses anos e nos seguintes, grande parte dos nossos autores
ocupará cargos públicos e atribuições partidárias ou administrativas - e o
"encontro" com o urbano se dará sobretudo por meio das novas demandas de sua
gestão.
O programa sensato de reformas traçado por Bolaffi e que foi similar ao
defendido pelas forças de esquerda que começavam a administrar cidades acha-se
até hoje pouquíssimo implementado, apesar de alguns avanços institucionais. O
fato é que o padrão de crescimento patrimonialista e desigualitário de nossas
cidades e, por extensão, do país, não encontra adversários capazes lhe fazer
frente. A impossibilidade de realizar um programa mais do que razoável para
melhorar nossas cidades talvez seja uma evidência da hipótese de Florestan
Fernandes, compartilhada por parte dos socialistas, de que não existem no
Brasil as condições estruturais e dinâmicas para uma "revolução dentro da
ordem".
[1] Agradeço aos comentários e sugestões dos professores Paulo César Xavier
Pereira, Ermínia Maricato e do saudoso orientador Jorge Oseki (in memoriam).
[2] Castells, Manuel (org.). Imperialismo y urbanizacion en América Latina.
Barcelona: Gustavo Gili, 1973.
[3] Singer, Paul. "Urbanización, dependencia y marginalidad en América Latina".
In: Castells, op. cit., em especial pp. 304-312.
[4] Cardoso, F. H. "A dependência revisitada". As idéias e seu lugar.
Petrópolis: Vozes, 1993, p. 113.
[5] Perlman, Janice. O mito da marginalidade: favelas e política no Rio de
Janeiro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
[6] Sobre isso, ver Arantes, Pedro Fiori. As políticas urbanas do Banco Mundial
e do BID para as cidades latino-americanas. São Paulo: dissertação de mestrado,
FAU-USP, 2004.
[7] Kowarick, Lúcio, Brant, Vinicius Caldeira e Camargo, Cândido Procópio de
(orgs.). São Paulo 1975: crescimento e pobreza. São Paulo: Loyola, 1975.
[8] Castells. Question urbaine. Paris: Maspero, 1972 (tradução para o português
pela Paz e Terra, 2000).
[9] Lefebvre, Henri. Le droit à la ville. Paris: Anthropos, 1968.
[10] Castells apud Bettin, Gianfranco. "Manuel Castells: La estructura urbana
entre instituiciones y movimientos urbanos". Los sociólogos de la ciudad.
Barcelona: Gustavo Gili, 1982, p. 153.
[11] Boccara, Paul. Études sur le C.M.E., sa crise et son issue. Paris:
Editions Sociales, 1966. Teoria que pode ser resumida em 5
pontos: 1) financiamento do tipo público da acumulação e da produção privadas;
2) financiamento de tipo público ou coletivo de certos consumos e serviços; 3)
antecipação sobre os lucros e intervenções nos circuitos financeiros; 4)
programação pública e planos; 5) papel e importância das exportações de
capitais públicos (apud Vallier, Jacques. Le parti communiste français et le
capitalisme d'État. Paris: Maspero, 1975, p. 26).
[12] Topalov, Christian. "Fazer a história da pesquisa urbana: a experiência
francesa desde 1965". Espaço & Debates, n. 23, 1988, p. 12.
[13] Gottdiener, Mark. "Paradigmas flutuantes: o debate sobre a teoria do
espaço". A produção social do espaço urbano. São Paulo: Edusp, 1993, p. 124.
[14] Castells. La cuestión urbana. México: Siglo Veintiuno, 1978, p. 483.
[15] Na França, evidentemente, o debate marxista sobre a cidade continua por
meio de publicações que passam a questionar e procurar superar o trabalho de
Castells. Em 1974, Henri Lefebvre lança La production de l'espace (Paris:
Anthropos) e Christian Topalov, Les promoteurs immobiliers (Paris: Mouton). Em
1975, François Ascher apresenta Urbanisme et politique (Paris: Éditions
Sociales). Em 1977, Lojkine publica Marxisme, l'etat et la question urbaine
(Paris: Puf) e Alain Lipietz, Le capital et son espace (Paris: Maspero). Para
uma avaliação desse debate, ver Topalov. "Fazer a história da pesquisa urbana",
op. cit.
[16] Singer, Paul. Economia política da urbanização. São Paulo: Brasiliense,
1973.
[17] Oliveira, Francisco de. "Crítica à razão dualista". In: Crítica à razão
dualista/O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003. Publicado originalmente em
Estudos Cebrap, n.2, 1972.
[18] Singer, "Urbanización, dependencia y marginalidad en América Latina", op.
cit., p. 288.
[19] Ibidem, p. 292.
[20] Singer, Economia política da urbanização, op. cit., p. 119.
[21] Ibidem, p. 123.
[22] Ibidem, p. 124.
[23] Prado Jr., Caio. A cidade de São Paulo, geografia e história. São Paulo:
Brasiliense, 1983[1935] .
[24] Singer, Economia política da urbanização, op. cit., p. 133.
[25] Oliveira, op. cit., p. 46.
[26] Ibidem, p. 46.
[27] Ibidem, p. 55.
[28] Ibidem, p. 59.
[29] Ibidem, p. 59. Esse é também o argumento de Sérgio Ferro, em texto de
1969, "A casa popular", republicado com o título "A produção da casa no Brasil"
em Arantes. Arquitetura e trabalho livre. São Paulo, Cosac Naify, 2006.
[30] Ibidem, p. 84.
[31] Cardoso, op. cit., p. 113.
[32] Sua efetivação na faculdade foi barrada pelo regime por meio de uma
inusitada reprovação em seu exame médico.
[33] Trata-se originalmente de um capítulo da pesquisa "Recursos humanos na
Grande São Paulo", solicitada pela Prefeitura de São Paulo ao Cebrap.
[34] Kowarick, Camargo e Cardoso. "O desenvolvimento de São Paulo: cultura e
participação". In: Castells, Imperialismo y urbanización en America Latina, op.
cit., p. 227.
[35] Ibidem, p. 240.
[36] Ibidem, p. 240.
[37] Participaram da elaboração do livro, além dos três autores já citados,
Vinícus Caldeira Brant, José Álvaro Moisés, Maria Hermínia Tavares, Paul Singer
e Frederico Mazzucchelli.
[38] Kowarick, Brant e Camargo (orgs.), São Paulo 1975: crescimento e pobreza,
op. cit., p. 155.
[39] Kowarick. A espoliação urbana. São Paulo: Paz e Terra, 1979.
[40] Como nas frases: "a periferia como fórmula de reproduzir na cidade a força
de trabalho é conseqüência direta do tipo de desenvolvimento econômico", ou "O
Estado, para viabilizar semelhante modelo de ordem social, só pode assumir
feições nitidamente autoritárias e repressoras".
[41] Kowarick, op. cit., p. 62.
[42] Oliveira. "O Estado e o urbano no Brasil". Revista Espaço & Debates,
n. 6, 1982, p. 43.
[43] Ibidem, p. 45.
[44] Em interpretação posterior, Francisco de Oliveira irá definir essa ação
provedora do Estado, que colabora para desmercantilizar a mercadoria força de
trabalho, como "direitos do antivalor" (em oposição à lógica do valor, que a
mercantiliza). A sua forma mais acabada teria se dado nos países eurpeus que
constituíram um verdadeiro "modo social-democrata de produção". No texto de
1982, sem adotar o termo, o autor já apresenta a cidade como manifestação
concreta dos direitos do antivalor (ou, no nosso caso, da sua negação). Ver Os
direitos do antivalor. Petrópolis: Vozes, 1998.
[45] Ibidem, p. 50.
[46] Ibidem, p. 53.
[47] Brant e Singer (orgs.). São Paulo: o povo em movimento. Petrópolis: Vozes,
1980.
[48] Maricato, Ermínia (org.). A produção da casa (e da cidade) no Brasil
industrial. Petrópolis: Vozes, 1979.
[49] Ibidem, p. 13
[50] Ibidem, p. 14.
[51] Ibidem, p.16.
[52] Como professora, Ermínia levava os alunos de primeiro ano a conhecer as
periferias da cidade e a projetar naquelas condições, atividade da qual
participava Rodrigo Lefévre, entre outros professores. Alguns anos antes,
Ermínia realizara a pesquisa sobre "A penetração dos bens modernos na habitação
proletária" e o filme "Fim-de-semana", documentário sobre a autoconstrução de
um bairro por seus moradores, a parte "oculta" do processo desigual e combinado
de modernização brasileira, que era exibido em suas atividades de militância
junto a grupos organizados.
[53] A crítica ao "capital da construção" não é plenamente desenvolvida em
nenhum texto do livro, mas estava presente na produção marxista da FAU-USP,
sobretudo por influência de Sérgio Ferro, ex-professor da faculdade e exilado
na França desde 1972, que já tratara do assunto em seus cursos nos anos de 1960
e em publicação do GFAU ("A casa popular", de 1969). Da França ele envia para a
Revista Almanaque, de 1976, seu famoso ensaio "O canteiro e o desenho", lançado
em livro em 1979. Além dele destaca-se um grupo de professores marxistas da
FAU-USP que iniciam suas pesquisas sobre o capital da construção nos anos de
1970, concluindo-as no início da década seguinte: Yvonne Mautner (A cria
rebelde, de 1981), Jorge Oseki (Arquitetura em construção, de 1983), Ermínia
Maricato (Indústria da construção e política habitacional, de 1984) e Paulo
César Xavier Pereira (Espaço, técnica e construção, de 1984). Uma avaliação da
produção crítica deste grupo e de seus desdobramentos teóricos e políticos
ainda está por se realizar.
[54] Maricato, A produção da casa (e da cidade) no Brasil industrial, op. cit.,
p. 22.
[55] Folin, Marino. La ciudad del capital y otros escritos. México: GG, 1977.
[56] O texto fora originalmente publicado em Ensaios de Opinião, nº 2-1, de
1976, e sua pesquisa mais ampla em Cadernos Cebrap, nº 27, de 1977, com o
título "A casa das ilusões: aspectos sócio-econômicos do Plano Nacional de
Habitação".
[57] In: Maricato, A produção da casa (e da cidade) no Brasil industrial, op.
cit., p. 54. Qualquer semelhança com o atual pacote habitacional do governo
Lula não é mera coincidência.
[58] Ibidem, p. 55.