A recepção de fanon no Brasil e a identidade negra
Frantz Fanon é um nome central nos estudos culturais, pós-coloniais e africano-
americanos, seja nos Estados Unidos, na África ou na Europa. Falamos muitas
vezes de estudos fanonianos, tal o volume de estudos que têm a sua obra como
objeto de reflexão. Meus colegas e alunos negros brasileiros devotam a ele a
mesma admiração, respeito e devoção que seus irmãos de cor africanos e do
hemisfério norte. No entanto, quando busquei material para escrever este
artigo, deparei-me com um silêncio impactante, em revistas culturais ou
acadêmicas, que perdurou até meados da década de 1960.
No Brasil, como em toda a parte, Fanon entrou na cena cultural quando a
violência revolucionária estava na ordem do dia, embora tenha sido lido
timidamente, ombreado por guerrilheiros pensadores como Fidel Castro, Che
Guevara, Camilo Torres; ou por lideranças negras como Stockley Carmichael,
Malcom X e Eldridge Cleaver; ou Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Kwame N'Krumah.
Mas, passada essa fase, seu pensamento, ao contrário do que ocorreu alhures,
não foi objeto da reflexão exegética e crítica por parte de universitários e
acadêmicos brasileiros, estabelecidos em centros de estudos.
OS ANOS 1960 E A EPIDEMIA SARTRE
O pensamento de Fanon chega ao Brasil como chegaram todas as idéias novas - em
livros europeus - e numa época em que o marxismo e o existencialismo disputavam
o proscênio da cena cultural e política brasileira.
Uma leitura atenta das principais revistas culturais brasileiras dos anos 1950
não me rendeu nenhum conhecimento sobre a recepção de Fanon. É como se a
publicação de Peau noir, masques blancs (1952) tivesse passado despercebida. A
Anhembi, de São Paulo, publica, entre 1953 e 1955, todos os estudos de relações
raciais entre brancos e negros em São Paulo, frutos do projeto coordenado por
Roger Bastide e Florestan Fernandes, além de algumas reações a estes estudos. O
próprio Bastide, depois de retornado a Paris, em 1954, escreve regularmente
críticas e comentários a livros que estão sendo lançados na Europa,
principalmente na França; mas não menciona Fanon em sua atividade recensória.
Nada encontramos também na Revista Brasiliense. Clóvis Moura, Florestan
Fernandes e Octávio Ianni escrevem na revista sobre temas negros (revolta dos
malês, relações raciais, poesia), mas sem mencionar o autor martinicano. Sérgio
Milliet, em 1958, faz uma resenha abrangente da poesia negra e, como não podia
deixar de ser, cita os poetas da négritude e Sartre. Apenas.
O Brasil começa a se familiarizar com as idéias de Fanon um pouco antes de sua
morte, mais precisamente durante a estadia de Jean-Paul Sartre e Simone de
Beauvoir no país, entre agosto e setembro de 1960. Sartre e Beauvoir chegam ao
Rio de Janeiro, vindos de Havana, para promover a solidariedade internacional
necessária para sustentar a revolução cubana e a guerra de libertação da
Argélia. Certamente a intelectualidade brasileira, tão próxima do que se
passava em Paris, acompanhava, através de Les Temps Modernes, as posições
anticolonialistas do filósofo. A sua peregrinação à China, a Cuba e ao Brasil
tinha claramente um caráter militante. "O colonialismo é um sistema que nos
infecta com seu racismo", escrevera Sartre, em 1956. A sua militância vai além
das palavras: durante sua estada no Brasil, Sartre passará a responder a um
processo criminal em Paris, junto com outros 121 intelectuais que assumiram
abertamente a cooperação com a Frente Nacional de Libertação da Argélia.
Na década anterior, o jornal negro Quilombo publicara trechos de seu Orfeu
Negro, a mostrar que o "racismo anti-racista" dos negros francófonos encerrava
em si uma nova dialética de libertação. No entanto, não há registro de que
Sartre tenha se encontrado com Abdias do Nascimento ou com qualquer outra
liderança política negra brasileira. Sartre estava entre nós, defendendo as
mesmas posições antiimperialistas dos comunistas e da esquerda católica com
relação a Cuba e à América Latina, à Ásia e à África; e a luta anti-racista e
anticolonial dos africanos começava a ficar mais próxima.
Não tenho informações sobre se Sartre citou Fanon em suas conferências, mas as
idéias do jovem martinicano causavam grande impressão sobre Sartre à época,
como se pode inferir dos diários de Beauvoir. Ao recordar-se de uma visita a um
barracão em Ilhéus, por exemplo, ela nota "os homens de pele e cabelos escuros
nos olhavam, machadinhas em mãos, o ódio nos olhos". A revolução no Terceiro
Mundo, como pensava Fanon, deveria ser obra de camponeses e não desses
trabalhadores das docas que também eles viram em Ilhéus, "musculosos,
saudáveis, que sabiam rir e cantar". "Comparado aos camponeses, o proletariado
se constitui no Brasil uma aristocracia", anotou Beauvoir2. Sartre também
chamou atenção para a segregação que os negros brasileiros sofriam, à medida
que percebia que seus interlocutores eram todos brancos das classes média e
alta:
Jamais vimos nos salões, nas universidades, nem nos auditórios um
rosto chocolate ou café com leite. Sartre fez essa observação em voz
alta durante uma conferência em São Paulo, depois se corrigiu: havia
um negro na sala - um técnico de televisão3.
Evidentemente, Sartre e Beauvoir não encontraram no Brasil quem pensasse que os
negros brasileiros fossem vítimas de racismo; encontraram, ao contrário, o
discurso unânime de que a segregação dos negros era econômica e a luta
libertadora deveria ser de classes. Não pareceram plenamente convencidos, pois,
segundo Beauvoir, "o fato é que todos os descendentes dos escravos continuaram
proletários; e que, nas favelas, os brancos pobres se sentem superiores aos
negros". Talvez. Mas o sucesso de Sartre no Brasil se deveu às suas
conferências sobre o colonialismo e a necessidade histórica das lutas de
independência dos povos do Terceiro Mundo.
O anti-racismo e o anticolonialismo de Sartre conviveram, no Brasil, com o
republicanismo de sua audiência - a classe média letrada de estudantes,
escritores e intelectuais. O Brasil, para Sartre, não era um simples
transplante europeu como os Estados Unidos; afinal, "todos os [brasileiros] que
encontrei sofrem a influência dos cultos nagô"4. A assimilação e a integração
não pareciam aqui engenhosos discursos de dominação; ao contrário, pareciam ter
amulatado o país, como queria Freyre e também pensava Jorge Amado, seu
anfitrião. Aliás, Sartre e Beauvoir já estavam de há muito familiarizados com
as idéias de ambos. Devemos lembrar que extratos de Cacau haviam sido
publicados em Les Temps Modernes5, assim como uma resenha elogiosa da edição
francesa de Casa-grande e senzala (Pouillon, 1953), e que Quincas Berro D'Água
seria publicado na mesma revista depois de seu retorno a Paris6.
Para compreender a posição de Sartre é preciso lembrar que o mundo do pós-
guerra polarizara-se rapidamente em dois eixos. No primeiro, a contraposição se
dera em torno da descolonização e do racismo, que opunham o Norte ao Sul.
Sartre participara ativamente da construção desse pólo. Escrevera o prefácio da
Anthologie de la nouvelle poésie nègre et malgache de la langue française
(1948, 1949), em que abraçara a negritude, o movimento de afirmação identitária
e de reconstrução cultural, étnica e racial de africanos e afro-caribenhos,
ainda que fazendo uso da velha concepção de racismo como doutrina - a
negritude, segundo ele, seria um racismo anti-racista. Desde os anos 1950,
porém, passara a acolher nas páginas de sua revista uma nova concepção do que
era o racismo no pós-guerra: aquele, que apesar de negado doutrinariamente, era
realizado e vivido nas práticas sociais e políticas de colonizadores e
colonizados. No segundo eixo, a polarização se dera entre os intelectuais que
defendiam a ordem burguesa e liberal, por um lado, e aqueles que se faziam
porta-vozes dos interesses operários e camponeses, a partir do marxismo ou de
outras ideologias. O primeiro eixo é marcado pelas raças e pela descolonização;
o segundo, pela luta de classes e pelo antiimperialismo. Ora, Sartre e Fanon
representavam a fusão do antiimperialismo, do anti-racismo, da descolonização e
das lutas de classes.
No Brasil dos anos 1950 e 1960, entretanto, esses dois eixos não se
encontravam: liberais e marxistas, brancos e negros, igualmente, tinham o mesmo
projeto anti-racista de construção de uma nação mestiça, brasileira e pós-
européia, que ultrapassasse a polaridade entre brancos, de um lado, e negros e
indígenas, de outro. O que os dividia era apenas a defesa da ordem burguesa ou
a aposta na luta de classes. As raças desapareciam, assim, na superexposição
conceitual e política das classes sociais. Passava-se o mesmo em toda a América
Latina, inclusive na Cuba socialista, que Fanon quis conhecer7 e que Sartre
conhecera em 1960.
Não fora Fanon fruto da convergência entre essas duas polarizações. Guerreiro
Ramos, ativista negro e sociólogo, o poderia ter introduzido aos brasileiros de
1960, pois tinha alguma afinidade com o seu pensamento. Não só ele, mas todos
os demais membros do Iseb, como observou Renato Ortiz:
O que chama a atenção nos escritos de Fanon e do Iseb é que ambos se
estruturam a partir dos mesmos conceitos fundamentais: o de alienação
e o de situação colonial. As fontes originárias são também, nos dois
casos, idênticas: Hegel, o jovem Marx, Sartre e Balandier8.
Se Guerreiro não o fez foi porque a desalienação e a descolonização cultural
que buscava não passavam pela luta de classes. Provavelmente conhecia Fanon,
pois era leitor de Présence Africaine9, de Esprit10 e de Les Temps Modernes11,
além de revistas acadêmicas francesas. O fato é que, para articular o seu
libelo contra a colonização cultural dos brasileiros "claros" e "escuros",
Guerreiro bebera em algumas das mesmas fontes que Fanon, mas não em todas. A
mesma inclinação por Hegel e pelo existencialismo, quando somadas a situações
nacionais e projetos pessoais diversos, levara Guerreiro a posições
nacionalistas e populistas12, afastando-o de doutrinas revolucionárias que
pregavam a violência como modo de transformação social ou que defendiam a
manutenção de diferenças culturais entre colonizados e colonizadores13.
Também a imprensa negra paulistana dos anos 1960, formada por homens e mulheres
com situação de classe mais precária que Guerreiro, parecia desconhecer Fanon
em sua campanha de solidariedade aos movimentos de libertação africana,
continuando sintonizada com o discurso da négritude de Senghor e de Sartre dos
anos 1948, a quem citam diretamente14.
FANON E A ESQUERDA REVOLUCIONÁRIA
Certamente, a esquerda brasileira tomou conhecimento de Fanon através do
extrato de Damnés de la terre (1961), publicado em Les Temps Modernes, e do
prefácio de Sartre. Ou seja, o Fanon sartriano de De la violence. Michel Löwy,
por exemplo, se lembra de ter discutido o prefácio de Sartre com seus
companheiros em São Paulo, provavelmente ainda em dezembro de 196115. Há que se
notar dois fatos na informação: primeiro, foi o prefácio de Sartre e não o
artigo ou o livro de Fanon que foi discutido; segundo, a esquerda brasileira
discutia seriamente a violência revolucionária, o que significava que os
autores que escreviam sobre a América Latina, sobre táticas de guerra urbana ou
guerrilha, ou faziam a teoria geral da revolução em sintonia com a filosofia
européia, eram privilegiados na leitura.
O silêncio da esquerda brasileira sobre Fanon precisa ser entendido, ademais,
como discordância política, tantos são os sinais indiretos de sua presença, a
partir de meado dos anos 1960. O que acontece tanto no mundo negro quanto no
branco16. Alguns fatos devem ser listados para que se compreenda como se
estabeleceu essa relação difícil entre Fanon e a esquerda no Brasil. O primeiro
deles é que pouco depois desse primeiro contato sobreveio o golpe militar de
1964, que levou ao exílio um grande número de militantes. O segundo é que
aqueles que acreditavam na violência revolucionária passaram à clandestinidade,
tornando tênues os seus elos com o mundo cultural. O que se lê sobre Fanon,
portanto, nos anos 1960, é muito pouco. A situação começa a mudar apenas quando
as cidades norte-americanas são tomadas pelas chamas das riots negras, e se
sabe que Fanon era lido e discutido febrilmente pelos revolucionários norte-
americanos, como os Panteras Negras.
A revista Tempo Brasileiro publica, em 1966, um artigo de Gérard Chaliand, em
que o autor abre uma nota de pé de página para registrar: "apoiando-se nas
análises mais contestáveis de Fanon - aquelas sobre os camponeses africanos.
Ver sobre esse assunto a melhor e, aliás, a única análise marxista consagrada
ao pensamento de Fanon: 'Frantz Fanon et les problèmes de l'indépendance' (La
Pensée, nº 107)"17. Referia-se a Nghe18, um dos grandes adversários de Fanon no
mundo africano.
Os marxistas brasileiros, portanto, seguiam as críticas marxistas - e também
liberais19 - às concepções políticas de Fanon. No Brasil, a esquerda
reverenciava Fanon, mas, se o lia em francês, não o citava; impondo-se um
silêncio obsequioso. O mesmo não se passava com os marxistas da Monthly Review,
cujos artigos eram regularmente traduzidos e publicados por revistas
brasileiras. O motivo da reverência e do silêncio sobre Fanon pode ser buscado,
como já sugeri, na sua centralidade para as lutas que se desenvolviam nos
Estados Unidos daquele tempo. Os rebeldes afro-americanos também se consideram
africanos e sujeitos coloniais, atitude muito bem captada pelas palavras dos
editores da Monthly Review:
Se você ainda não conhece, grave bem o nome de Frantz Fanon que se
tornou talvez o mais respeitado porta-voz dos oprimidos coloniais.
Seu livro Les damnés de la terre acaba de ser publicado sob o título
The wretched of the earth,e o recomendamos enfaticamente20.
Em novembro de 1966, Goldman resenha em cinco páginas Studies in a dying
colonialism, e cunha uma frase lapidar sobre o que significava Fanon para a
rebelião negra daqueles anos:
Fanon é popular porque fala, sobretudo, da própria luta e por dentro
da Revolução, como um participante. Os jovens radicais negros que o
lêem, que internalizam sua visão e respondem com fervor às suas
idéias, são, ademais, pessoas que lutam intensamente contra um
sistema que não têm certeza se podem derrubar. Para Fanon, o
importante é a transformação, a mutação interior que ocorre durante a
luta, o modo como os "condenados da terra" se libertam durante a
confrontação inevitável entre opressores e oprimidos. E há outra
idéia que o médico negro da Martinica, que escreve sobre a Revolução
argelina, sugere a esses jovens radicais: é que o sistema contra o
qual eles lutam é o mesmo contra o qual ele, Fanon, luta, e que ambos
se opõem a um opressor comum em nome de um mesmo ideal21.
Significaria Fanon o mesmo para os negros brasileiros? O certo é que,
finalmente, em 1968, aparece a edição brasileira de Condenados da terra,
rapidamente retirada de circulação pelos órgãos de repressão política, mas não
antes de cair nas mãos de dezenas de militantes. Pensamento explosivo tanto
para a luta de classes quanto para o projeto de democracia racial. Buchanan, na
Revista da Civilização Brasileira, escreve: "Deve-se lembrar que Malcolm X -
que junto com Frantz Fanon, foi a principal inspiração de Carmichael - foi o
único líder negro americano que aplaudiu o assassinato de Kennedy"22.
Na mesma revista, o crítico literário comunista Nelson Werneck Sodré, num
grande balanço dos lançamentos do ano, registra: "O colonialismo, em sua
brutalidade, está espelhado na obra de Frantz Fanon, Os condenados da terra,
que estuda os efeitos da tortura"23. Nesta frase ouve-se o eco das torturas que
a ditadura militar começa a rotinizar, assim como a simpatia por interpretações
semelhantes à de Goldman: "Uma das contribuições mais importantes para o
pensamento social [...] é sua brilhante análise das relações entre desordem
mental e colonialismo, entre desajustamento sexual e repressão política"24.
Psicanalista brilhante e mau político, para uns; ideólogo radical, para outros,
Fanon terá de esperar por uma nova esquerda para ser lido com simpatia. Até
mesmo o líder negro Abdias do Nascimento que, em seus artigos dos anos 1960,
traça influências do movimento negro, analisa a conjuntura internacional,
enfatiza a négritude, a cultura negra, fala do estupro de origem da
miscigenação brasileira, menciona as lutas de libertação na África, o "fermento
do negro norte-americano", mas nada diz sobre Fanon:
Parafraseando Toynbee, e em virtude de certas condições históricas,
um decisivo papel está destinado ao negro dos Estados Unidos num rumo
novo - político e cultural - para os povos de cor de todo o mundo.
Seria, por assim dizer, o recolhimento da herança legada pela atual
geração de grandes negros - Leopold Sédar Senghor, Kwame N'Krumah,
Langston Hughes, Jomo Keniata, Aimé Cesaire, Sekou Touré, Nicolás
Guillén, Peter Abraham, Alioune Diop, Lumumba, James Baldwin, Mário
de Andrade25.
Abdias era muito próximo ao Iseb e a Guerreiro Ramos e ambos nutriam imenso
respeito por Toynbee, algo comum aos isebianos, como nos ensina Vanilda
Paiva26. Frantz Fanon tornar-se-á uma referência importante para Abdias só
depois de 1968, quando provavelmente o líder negro brasileiro é introduzido à
obra de Fanon, largamente traduzida, discutida e comentada nos Estados Unidos,
onde está exilado. Só a partir do Genocídio do negro brasileiro27 Fanon passa a
ser referido nos escritos de Abdias.
O mesmo acontecerá com Octávio Ianni e com muitos intelectuais brasileiros
exilados. O seu Imperialismo y cultura de la violencia en América Latina28 já
absorve a discussão de Fanon e dos marxistas da Montly Review. O mesmo é
verdadeiro para Clóvis Moura29. Ianni, de volta ao Brasil nos anos 1980, e
reintegrado à universidade, fará de Fanon leitura obrigatória em suas classes e
o indicará aos estudantes negros que dele se aproximam30.
Se "Fanon era nome cortado na esquerda" brasileira, nos meados de 1960, como
disse José Maria Pereira, que, vindo dos grupos lisboetas ligados ao MPLA
angolano31, certamente conhecia Fanon em 1962, não o era certamente em toda
esquerda, sobretudo a de inspiração católica. Estes ganhavam influência à
medida que os partidos comunistas eram dizimados pela repressão política e não
repudiavam totalmente a violência revolucionária dos colonizados e o anti-
racismo, aos quais o nome de Fanon estava indissoluvelmente ligado. A revista
Paz e Terra, órgão muito próximo da esquerda católica, publicou, no seu número
7, a tradução de um artigo de Raymond Domergue, que toma justamente Os
condenados da terra como parâmetro para traçar um guia da ação política
católica em face da emergência de lutas revolucionárias no Terceiro Mundo:
Esta longa seqüência de citações [de Fanon] nos parecia necessária
para demonstrar como a violência que se torna uma situação pode de
repente fazer uma irrupção sob forma de violência armada. A violência
revolucionária não é senão uma transposição de uma violência
precedente que tem suas raízes em uma exploração de tipo econômico32.
No exílio chileno desde 1964, foi o pedagogo revolucionário Paulo Freire,
também muito influenciado pelo pensamento existencialista católico e pelo
nacionalismo anticolonialista do Iseb, quem fez a leitura de Fanon mais
absorvedora. Em sua Pedagogia do oprimido, Freire foi, talvez, o primeiro
brasileiro a abraçar as idéias de Fanon. Pelas indicações do próprio Freire,
ele tomou conhecimento do revolucionário martinicano entre 1965 e 1968. É o que
ele insinua em duas passagens de Pedagogia da esperança:
[...] mais tarde, muito mais tarde, li em Sartre (prefácio a Os
condenados da terra,de Frantz Fanon ) como sendo uma das expressões
da "conivência" dos oprimidos com os opressores33.
[...]
Tudo isso os estimulava [os camponeses espanhóis] como a mim me
estimulara a leitura de Fanon e de Memmi, feita quando de minhas
releituras dos originais da Pedagogia.Possivelmente, ao estabelecerem
sua convivência com a Pedagogia do oprimido,em referência à prática
educativa que vinham tendo, devem ter sentido a mesma emoção que me
tomou ao me adentrar nos Condenados da terra e no The colonizer and
the colonized.Essa sensação gostosa que nos assalta quando
confirmamos a razão de ser da segurança em que nos achamos34.
A última passagem sugere que a leitura de Condenados se deu quando o manuscrito
de Pedagogia já estava pronto, pois Freire fala em "minhas releituras dos
originais". Como o manuscrito é de 1968 e a primeira edição de 1970, essa é uma
interpretação plausível. Mas, ao mesmo tempo, Freire dá indicações de que leu
Fanon na edição mexicana de 1965. O certo, portanto, é que ele toma
conhecimento de Fanon entre 1965 e 1970, um período de radical mudança na sua
teorização:
Absorvido pelo trabalho prático desde a criação do seu método,
restara a Freire pouco tempo para o trabalho teórico, e quando a
queda do governo Goulart o obriga a parar, ele precisa recuperar o
seu ponto de partida em 1959. Estamos, efetivamente, diante de "um
atraso relativo da teoria". Freire não pudera ainda digerir as novas
influências e incorporar teoricamente novas posições; por isso, sua
consciência teórica já não dava conta de toda a sua prática e ele
carecia, naquele momento, de instrumentos teóricos e metodológicos
que possibilitassem uma reinterpretação da realidade e uma revisão
profunda do seu discurso pedagógico. Um esforço mais conseqüente
nesta direção ele o fará mais tarde e Pedagogia do oprimido é o seu
resultado35.
Seja como for, os intelectuais brasileiros disponíveis para receber a
influência revolucionária e radical de Fanon se encontram, depois de 1964,
livres de fidelidades partidárias e descolados de correntes filosóficas bem
estabelecidas.
Outro receptor notável foi Glauber Rocha. Alguns, como Ismail Xavier, chegaram
mesmo a ver influência direta de Fanon nos escritos do jovem Glauber:
É notável, em Glauber, o sentimento da geopolítica (de que o cinema é
um dos vetores) como eixo de um confronto no qual o oprimido só se
torna visível (e eventual sujeito no processo) pela violência.
Apoiado em Frantz Fanon, ele explícita tal sentimento em "Por uma
estética da fome", acentuando a demarcação dos lugares e o conflito
estrutural que deriva da barreira econômico-social, cultural e
psicológica que separa o universo da fome do mundo desenvolvido36.
Xavier faz a conexão entre Fanon e Glauber a partir do seguinte trecho:
Do cinema novo: uma estética da violência antes de ser primitiva é
revolucionária, eis aí o ponto inicial para que o colonizador
compreenda a existência do colonizado; somente conscientizando sua
possibilidade única, a violência, o colonizador pode compreender,
pelo horror, a força da cultura que ele explora. Enquanto não ergue
as armas, o colonizado é um escravo: foi preciso um primeiro policial
morto para que o francês percebesse um argelino37.
Mas Glauber, ele mesmo, não se lembra de ter lido Fanon por essa época. O mais
provável é que tenha lido Sartre, pois ele diz em outro texto:
Foi na época de JK, inda na Bahia, que ouvi falar em nacionalismo
anti/Ufânico. Entrando jovem no ltamaraty, Arnaldo Carrilho levou a
Paixão do cinema novo pros Festivais Internacionais /era o que Brazyl
precisava pra se descolonizar culturalmente no mundo. Dialeticamente
uma prioridade era o desenvolvimento dos mercados internos (economia
/cultura) mas antes de chegar às minhas mãos por indicação do
teatrólogo Antônio Pedro Os condenados da terra,de Frantz Fanon, já o
sopro de Jorjamado nos lançava, antes do Modernismo pra romper as
cadeias da submissão ideológica, núcleo do complexo de inferioridade
colonial, nostro câncer, principal arma dos invasores38.
Ao que parece, Glauber toma conhecimento de Fanon apenas em 1968, pela edição
brasileira de Os condenados da terra. Mas Ismail Xavier tem razão: em Glauber,
Fanon parece viver inteiro e não pela metade, ser um pensamento e não apenas um
nome. A tese de Xavier é corroborada por Mendonça39.
Não deixa de ser revelador que os intelectuais inicialmente receptivos às
idéias de Fanon nem mesmo citem o Pele negra, máscaras brancas. Freire e
Glauber são iconoclastas à procura de uma nova linguagem, de um modo novo e
terceiro-mundista de fazer cinema ou educar.
Quando Pele negra, máscaras brancas é publicado no Brasil já estamos em 1983. É
a editora Fator, especialista em obras psicanalíticas, quem o faz. Ademais,
apesar de a edição ter sido impressa no Rio de Janeiro, a Fator estava sediada
em Salvador, onde também o Movimento Negro Unificado editava o seu jornal de
circulação nacional. Haverá aí, certamente, alguma confluência entre o
interesse editorial por uma obra muito influenciada pela psicanálise e o
interesse comercial em abastecer o novo mercado criado por um segmento de
classe média com consciência racial, já que Fanon passara a ser leitura de
formação. Diz-nos Florentina Souza:
o periódico Nego,boletim do MNU-Ba, no seu número 1, publica
sugestões de leitura que passam por Obras escolhidas de Amílcar
Cabral, África - literatura, arte e cultura, organizado por Manoel
Ferreira e, no número 3, o livro Pele negra, máscaras brancas,de
Fanon [...]40.
OS JOVENS ESTUDANTES NEGROS DOS ANOS 1970 E 1980
A influência de Sartre, e da sua leitura de Fanon, foi duradoura entre negros e
brancos. Ainda em 1978, o editor-chefe do jornal Versus, da Convergência
Socialista, cujos militantes negros foram muito ativos na fundação do Movimento
Unificado Contra a Discriminação Racial, que precedeu o MNU, ainda buscava em
Sartre, no seu prefácio a Os condenados da terra, a imagem para expressar o que
se viveu naquela noite, nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo:
Certa vez Sartre escreveu sobre a questão negra. Ali, ele falava uma
coisa inesquecível, e que eu vou citar de memória... "O que vocês
esperavam ouvir quando estas bocas negras se vissem livres das
mordaças? Que gritassem frases doces, amenas?" Será que estas
"mordaças" estão sendo arrancadas no Brasil? Sim, então. Foi o que
vimos em São Paulo, numa noite histórica. Bocas negras gritando
contra a injustiça e a opressão. Punhos erguidos, no lusco-fusco
daquele momento em que, numa grande cidade, os homens cansados vão
para casa. Não se ouviram frases amenas - e é bom que tenha sido
assim. À humilhação de séculos, só o duro estômago do povo poderia
resistir41.
Do mesmo modo, a seção "Afro-latino-América" do Versus é lançada, em 1978, com
a manchete "Nem almas brancas, nem máscaras negras", que faz trocadilho com o
título de Fanon, mas busca referências cognitivas outras, comezinhas, como o
"preto de alma branca"; ou tradicionais, como a observação de Nelson Rodrigues
- "branco pintado, eis o negro do teatro nacional" - algumas vezes lembrada por
Abdias do Nascimento42.
Mais ainda. A Afro-Latino-América desconhecerá Os condenados da terra,
publicado em 1968, no Brasil, ou a Pele negra, máscaras brancas ó que circulava
entre alguns militantes negros desde meados dos anos 1970 em fotocópia da
edição portuguesa da editora Paisagem, do Porto - para republicar, em seu
número 18, de 1978, extratos do Orfeu negro, antecedido da seguinte
advertência:
Dentro do atual contexto político, onde o Partido Socialista
apresenta-se como alternativa mais conseqüente para a atuação das
camadas marginalizadas da sociedade brasileira, Jean-Paul Sartre
pensa a atuação do negro socialista. Discute a necessidade de não
perder de vista as suas condições objetivas de negro e trabalhador.
No entanto, foram os jovens estudantes negros dos anos 1970 e 1980 que, no
Brasil, leram e viveram Fanon, de corpo e alma, fazendo dele um instrumento de
consciência de raça e de resistência à opressão, ideólogo da completa revolução
na democracia racial brasileira. As referências a esse fato pululam na
literatura. Vou seguir apenas algumas pistas.
Na pesquisa que Alberti e Pereira43 coordenam no Cpdoc sobre o movimento negro
brasileiro contemporâneo, oito militantes citam espontaneamente Fanon, ao falar
de sua formação: Amauri Mendes Pereira, Gilberto Roque Nunes Leal, Hédio Silva
Júnior, José Maria Nunes Pereira, Luiz Silva (Cuti), Mílton Barbosa, Regina
Lucia dos Santos e Yedo Ferreira. Em pesquisa semelhante, conduzida por Márcia
Contins44, seis militantes citam também Fanon.
Michael Hanchard registra, a partir de entrevistas com esses militantes, que
Membros do Black Soul do Rio de Janeiro e São Paulo - cujas
atividades, entre outras, incluíam distribuir cópias do Poder
negro,de Stokely Carmichael, e de Os condenados da terra,de Frantz
Fanon, para discussão em grupo - eram (mal)identificados pelas elites
civis e militares como participantes de uma conspiração. Dada a
natureza do regime ditatorial, a vigilância policial exercida sobre o
Black Soul e o movimento negro em geral durante esse período não está
documentada. Entretanto, um alto oficial do Serviço Nacional de
Informações, o poderoso braço da inteligência do Estado, confirmou-me
em entrevista pessoal que vários ativistas negros foram monitorados
de perto nos anos 1970 porque se acreditava que faziam parte da
engrenagem da conspiração comunista45.
Treze anos depois de publicado o livro de Hanchard, quando os arquivos da
polícia política (Deops) já estavam abertos aos pesquisadores, Karin Kosling
pôde documentar a repressão ao MNU: "Em relatório da Divisão de Informações do
Deops sobre ato público organizado pelo MNU, em 7/7/1980, Milton Barbosa,
importante militante do MNU, citou Fanon para criticar o imperialismo"46.
Analisando a documentação policial e depoimento de militantes da época47,
Kosling não tem dúvidas em listar as principais influências intelectuais dos
jovens rebeldes negros: "Autores como Fernandes, ao lado de Eldridge Cleaver e
Frantz Fanon, entre outros, introduziam a questão da luta de classes nos
debates do MNU"48.
Florentina de Souza, olhando dois importante jornais negros, concorda no que
diz respeito a Fanon:
É marcante a influência que os escritores negros no Brasil receberam
das literaturas africanas escritas em língua portuguesa que chegavam
ao Brasil por meio de jornais, revistas e livros, ou ainda a
influência das traduções de Fanon e de textos de Garvey e DuBois que
circulavam no movimento negro no Brasil desde a década de trinta49.
Lendo alguns depoimentos de militantes negros dos anos 1970, tenho a impressão
de que a recepção de Fanon não foi diferente no Brasil daquela que Goldman
registrou nos Estados Unidos. Amauri de Souza, importante quadro do MNU no Rio
de Janeiro, nos diz:
Quando eu comecei a ler Alma no exílio,que foi a experiência do
Cleaver, que era uma das principais lideranças dos Panteras Negras, e
logo depois entrei no Fanon, li os dois ao mesmo tempo... Foi uma
loucura! Aquilo era demais! Fanon era a crucialidade, a violência
como a parteira da História. Preconizava a violência do colonizador,
o ódio... O Fanon era um pouco mais para mim do que era Che Guevara,
porque o Che era um revolucionário que tinha morrido, portanto
perdeu, e foi aqui na América e não era negro. O Fanon era negro. Foi
uma proximidade maior que eu tive com ele. E era terrível... O Fanon
não foi morto na luta, eles ganharam, fizeram a revolução... E na
minha cabeça, aquilo me apaixonou50.
Mas a primeira reflexão mais sistemática (e talvez única) sobre o pensamento de
Fanon feita por intelectuais negros numa revista acadêmica brasileira aconteceu
apenas em 1981 e foi assinada por um coletivo, Grupo de Estudos sobre o
Pensamento Político Africano (GEPPF), o que denota tratar-se de um meio caminho
entre reflexão acadêmica e reflexão política. O grupo era formado por
ativistas, estudantes e professores do Centro de Estudos Afro-Asiáticos, da
Universidade Cândido Mendes, dirigido por José Maria Nunes Pereira. Esse artigo
demonstra a consolidação da preocupação com o racismo, como questão importante
e autônoma, na nova esquerda marxista em formação:
Fica claro [com a leitura de Fanon] que o racismo é conseqüência de
uma situação de dominação socioeconômica, mas que possui mecanismos
próprios, de ordem psicológica, que concedem a ele certa autonomia.
Contudo, a referida situação continua alimentando e alimentando-se do
racismo. Isto não se aplica apenas ao fato colonial, mas também ao
neocolonial e às sociedades capitalistas com apreciável contingente
de mão-de-obra de antigas colônias. No primeiro caso, como vimos, a
função fundamental do racismo é a legitimação da ocupação e
exploração diretas. Na situação neocolonial, o preconceito racial é
utilizado com os mesmos objetivos, com as necessárias adaptações
decorrentes de nova realidade. Ele é um auxiliar dos mecanismos de
subordinação neocolonial51.
Parece claro que continua havendo restrições a Fanon como estrategista
político, principalmente à sua crença na potencialidade revolucionária do
campesinato:
Ele [Fanon] não faz uma verdadeira análise de classe da sociedade
colonial. Existem referências a classes ou camadas. O proletariado, o
lúmpen-proletariado e o campesinato merecem-lhe certa atenção e uma
caracterização deficiente. Referências existem à burguesia e às
elites locais, possivelmente integradas por elementos da burguesia. A
sua análise privilegia a polarização cidade-campo52.
Se o grupo critica a posição excessivamente classista e economicista da
esquerda tradicional, para quem o movimento negro ainda representava um perigo
sério de divisão das camadas exploradas, também se põe à distância daqueles, no
movimento negro, que se afastam da matriz marxista:
Cremos que a posição dos que procuram minimizar a questão racial
diluindo-a pura e simplesmente na social, assim como os que postulam
a independência absoluta das organizações anti-racistas (e sua
partidarização) relativamente ao resto da sociedade, dificultam,
ainda que involuntariamente, a morte da ideologia da "democracia
racial"53.
A RECEPÇÃO ACADÊMICA
Gordon, Sharpley-Whiting e White54 caracterizam o desenvolvimento dos estudos
sobre Fanon em quatro fases. A primeira fase foi marcada pela literatura
revolucionária dos anos 1960, que no Brasil, como vimos, encontrou acolhida nas
idéias de Glauber, sobre o cinema-novo, e de Paulo Freire, sobre a pedagogia
dos oprimidos. A segunda fase, que eles chamam de biográfica, não teve
representantes no Brasil e passou praticamente em branco. Não apenas não há
biografia de Fanon escrita por autor brasileiro como, até hoje, não há uma só
biografia de Fanon editada no Brasil. Temos apenas breves notas biográficas55.
A terceira fase, que marca o interesse da teoria política por Fanon passaria
também quase em branco não fosse o fato de Renate Zahar56 ter sido leitura de
referência do Grupo de Estudos do Pensamento Político Africano. Cabe mencionar
também o já citado livro de Ianni sobre o imperialismo. Mas Fanon continua
apenas uma referência, sem que tais estudos tivessem gerado reflexões
brasileiras de maior originalidade ou envergadura sobre seu pensamento
político. A quarta e última fase, a dos estudos pós-coloniais, é praticamente
ainda nova no Brasil, e chega apenas através dos comentários de Bahba, Gilroy,
Gates Jr. ou de comentaristas brasileiros aos pós-colonialistas, como Sérgio
Costa e Olívia da Cunha57.
No Brasil, ao contrário dos Estados Unidos, a mobilização negra dos anos 1970
não gerou a entrada massiva de negros nas universidades, e a criação dos Neab
(Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros) é relativamente recente no país. A
Associação Brasileira de Pesquisadores Negros data apenas do ano 2000.
Os estudos fanonianos no Brasil não se constituíram realmente em campo com
alguma autonomia, e as referências a Fanon, além de esparsas, parecem seguir
diferentes linhas. Uma rápida busca em bancos de dados sobre dissertações e
teses universitárias mostra que Fanon é lido nas universidades brasileiras
principalmente nos cursos de pós-graduação em literatura, em comunicação e
artes, em psicologia social, e em ciências sociais. Quando os debates que
animaram os anos 1960 e 1970 são revisitados, sua obra volta a despertar
interesse.
No entanto, apenas três autores brasileiros dedicaram artigos ou parte de
capítulos de livros à discussão de Fanon. Renato Ortiz tem, sem dúvida, a
reflexão mais profunda e refinada de Fanon58. Estudioso do mundo intelectual
francês do pós-guerra, Ortiz preparou para a editora Abril, que publicava,
então, uma coleção de divulgação científica chamada Grandes Cientistas Sociais,
um volume sobre Fanon. Esse volume nunca chegou a ser publicado, mas Ortiz
retoma, anos depois, os originais da sua "Apresentação" para publicá-la como
artigo na revista Idéias, do Departamento de Sociologia da Unicamp. É Ortiz
quem retraça a formação do pensamento de Fanon de acordo com três movimentos
intelectuais centrais ao mundo intelectual do pós-guerra na França - a
releitura de Hegel, o debate entre marxistas e existencialistas, e, finalmente,
a négritude. Silencia, contudo, sobre a formação psicanalítica de Fanon. A
preocupação explícita de Ortiz é com a teorização fanoniana do racismo e da
nação. Tempos depois, Ortiz59 revisita Fanon, agora em conexão com seu estudo
sobre o pensamento do Iseb, e descobre as raízes semelhantes do
anticolonialismo cultural dos pensadores isebianos - Hegel, Sartre e Balandier.
Deixa escapar, todavia, a grande influência da fenomenologia de origem católica
sobre os principais membros do Iseb.
Cabaço e Chaves, na esteira do 11 de setembro, relêem Fanon para retomarem os
pontos-chave de seu anticolonialismo e da sua justificativa da violência
revolucionária. Relembrando os debates dos anos 1960, escrevem:
[Fanon] abalou a "boa consciência" das metrópoles ocidentais
afirmando que "um país colonial é um país racista" e assustou os
círculos colonialistas denunciando a violência do sistema e
explicando que "o homem colonizado liberta-se em e pela violência";
escandalizou uma certa esquerda intelectual pondo em causa
instrumentos teóricos da ortodoxia marxista; provocou a indignação
dos partidos operários ocidentais ao afirmar que "a história das
guerras de libertação é a história da não verificação da tese" da
comunidade de interesses entres classe operária da metrópole e o povo
colonizado; coerente com sua convicção, acusou a não-violência e o
neutralismo de serem formas de cumplicidade passiva com a exploração
dos colonizados ou de "desorientação" das elites dos povos
subjugados60.
Mais recentemente, o pensamento de Fanon passa a ser discutido nas
universidades brasileiras na confluência entre os estudos de gênero e de raça;
e uma cuidadosa tradução de Pele negra, máscaras brancas, com prefácio de Lewis
Gordon, acaba de ser lançada pela Editora da UFBA. Em resumo, Fanon entrou
definitivamente no rol de autores clássicos, aqueles que servem de referência
obrigatória para o estudo de alguns fenômenos do mundo moderno, entre eles,
principalmente, o racismo e a violência política. Consolidou-se, do mesmo modo,
no panteão dos heróis africano-americanos, tornando-se leitura obrigatória para
ativistas ou cidadãos negros brasileiros. O fato, no entanto, é que ainda
estamos engatinhando nas investigações sobre Fanon. Minha sugestão é de que
isso se deve, mesmo que parcialmente, à pouca presença de negros nas
universidades brasileiras e à conseqüente escassez de reflexão teórica sobre as
identidades raciais. Se eu estiver certo, portanto, a entrada gradual, mas
constante, de negros nas nossas universidades de pesquisa poderá abrir, quem
sabe, uma larga avenida para os estudos fanonianos.
[1] Versão anterior deste texto foi apresentada no colóquio "Penser aujourd'hui
à partir de Frantz Fanon", Universités Paris 1, Paris 7, Paris 8, Unesco,
Fondation Frantz Fanon; Paris, 31 novembro e 1 dezembro de 2007. São muitas as
pessoas que me ajudaram a colher informações sobre Fanon no Brasil; algumas
delas estão citadas no texto, outras não. Entre estas, lembro-me de algumas e
nomeio-as ao tempo em que peço desculpas a quem esqueci: Andrew Kirkendall,
Carlos Nelson Coutinho, Helena Hirata, Ismail Xavier, Joelzito de Araujo, José
Maria Nunes Pereira, Júlio César Tavares, Mariza Correa, Nadya Araujo
Guimarães, Paulo Farias, Renato da Silveira.
[2] Beauvoir, Simone. La force des choses. Paris: Gallimard, 1963, p. 549.
[3] Ibidem, p. 561.
[4] Ibidem.
[5] Amado, Jorge. "Cacao". Les Temps Modernes, n° 104/105, juin-août 1954.
[6] Idem. "Les trois morts de Quinquin-la-flotte". Les Temps Modernes, nº 178,
fev. 1961, pp. 868-915.
[7] Gordon, Lewis, Sharpley-Whiting, T. Denean e White, Renée T. (eds.). Fanon:
a critical reader. Oxford: Blackwell, 1996, p. 4.
[8] Ortiz, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo:
Brasiliense, 1998, p. 51.
[9] Fanon, Frantz. "Racisme et culture". Présence Africaine, 2éme série, nos
VIII-IX-X, juin-nov. 1956, pp. 122-131; idem. "Fondement
réciproque de la culture nationale et des luttes de libération". Présence
Africaine, 2éme série, nos XXIV-XXV, fev.-mai 1959, pp. 82-89.
[10] Idem. "L'Expérience vécu du noir". Esprit, nº 179, mai. 1951, pp. 657-679. Idem. "Le syndrome nord-africain". Esprit nº 187, fév. 1952,
pp. 237-284. Idem. "Antillais et Africains". Esprit. nº 223,
fév. 1955, pp. 261-299.
[11] Idem. "La minorité européenne d'Algérie en l'An V de la Révolution". Les
Temps Modernes, nº 159-160, 1959, pp. 1841-1867; idem. "De la
violence". Les Temps Modernes, nº 181, 1961, pp. 1453-1493.
[12] Paiva, Vanilda P. Paulo Freire e o nacionalismo-desenvolvimentista. Rio de
Janeiro/Fortaleza: Civilização Brasileira/Edições UFC, 1980.
[13] Em A redução sociológica, de 1958, Guerreiro cita
explicitamente Aimé Césaire (Discours sur le colonialisme, Paris: Présence
Africaine, 1955), Cheik Anta Diop (Nations nègres et culture.
Paris: Présence Africaine, 1954) e Sartre ("Le colonialisme est um systè me". Les Temps Modernes, nº 126, 1956) em francê s, mas não se refere a Fanon. Na segunda edição, de 1965, Guerreiro
acrescenta a essas leituras Balandier (Sociologie actuelle de l'Afrique noire.
Dynamique des changements sociaux en Afrique centrale. Paris: PUF, 1955) e
continua sem se referir a Fanon.
[14] Ver a coleção do Niger, jornal dirigido por José Assis Barbosa e José
Correia Leite, em São Paulo, 1960. Coleção Mirian Ferrara, IEB-USP.
[15] Informação de Michel Löwy ao autor, em dezembro de 2007. Löwy sai do
Brasil em agosto de 1961 e volta em dezembro do mesmo ano por dois ou três
meses, provavelmente trazendo uma cópia do Damnés de la Terre, recém-lançado em
Paris.
[16] Em entrevista a Verena Alberti e Amilcar Pereira (19/12/2006), José Maria
Nunes Pereira, que dirigiu o Centro de Estudos Asiáticos da Cândido Mendes,
entre 1973 e 1986, comenta: "Fanon era nome cortado na esquerda".
[17] Chaliand, Gérard. "Problemas do nacionalismo angolano". Tempo Brasileiro,
nº 6, 1966, pp. 77-98.
[18] Ver Nghe, Nguyen. "Frantz Fanon et les problèmes de l'indépendance". La
Pensée. nº 107, 1963, pp. 23-36.
[19] Arendt, Hannah. On violence. Nova York: Harcourt, Brace & World, 1970.
[20] Monthly Review, nº 17, v. 1, June 1965 (contracapa).
[21] Goldman, Lawrence. "Fanon and black radicalism". Monthly Review, v. 18, nº
5, nov. 1966, p. 58.
[22] Buchanan, Thomas G. "Revolta Colonial". Revista da Civilização Brasileira,
nos 19-20, 1968, p. 34.
[23] Sodré, Nelson W. "O momento literário". Revista da Civilização Brasileira,
nos 21-22, 1968, p. 198.
[24] Goldman, op. cit., p. 55.
[25] Nascimento, Abdias. "O teatro negro no Brasil: uma experiência sócio-
racial". Revista da Civilização Brasileira, Caderno Especial 2, 1968, p. 206.
[26] "Aliás, era comum entre os isebianos, influenciados pela leitura de
Toynbee, a referência aos países subdesenvolvidos como 'proletariado externo'
do mundo ocidental". Paiva, Vanilda P. op. cit., p. 159.
[27] Nascimento, Abdias. O Genocídio do negro brasileiro. São Paulo: Paz e
Terra, 1978.
[28] Ianni, Octávio. Imperialismo y cultura de la violencia en América Latina.
Cidade doMéxico: Siglo XXI, 1970.
[29] Moura, Clóvis. Dialética radical do Brasil. São Paulo, Editora Anita,
1994.
[30] Informação pessoal que me foi passada por Valter Silvério, professor da
UFSCar e ex-aluno de Ianni.
[31] Alberti, Verena e Pereira, Amílcar Araújo. "Entrevista com José Maria
Nunes Pereira". Estudos Históricos, nº 39, 2007.
[32] Domergue, Raymond. "Reflexões sobre a violência". Paz e Terra, nº 7, 1968,
p. 51.
[33] Freire, Paulo. Pedagogia da esperança. São Paulo: Paz e Terra, 1992, p.
19.
[34] Ibidem, p. 141.
[35] Paiva, Vanilda P. op. cit., p. 141.
[36] Xavier, Ismail. "Prefácio". In: Rocha, Glauber. Revolução do Cinema Novo.
São Paulo: CosacNaify, 2004, p. 21.
[37] Rocha, Glauber. "Uma estética da fome". Revista da Civilização Brasileira,
nº 3, 1965, p. 169.
[38] Rocha, Glauber. Revolução do cinema novo. São Paulo: CosacNaify, 2004, p.
455.
[39] Mendonça, Mary E. Ramalho de. História e cinema: cinemanovismo e violência
na América Latina (décadas de 1960 e 1970). 2 vol. São Paulo: livre- docência,
ECA-USP, 1995.
[40] Souza, F. Afro-descendência em Cadernos Negros e Jornal do MNU. Belo
Horizonte: Autêntica, 2005, p. 163.
[41] Faerman, Marcos. "Histórias". Versus, nº 23, jul.-ago. 1978, p. 1.
[42] Nascimento, A. "Carta a Dakar". Tempo Brasileiro, nos 9-10, 1996, pp. 97-
106.
[43] Alberti e Pereira, op. cit.
[44] Contins, Márcia. Lideranças negras. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2005.
[45] Hanchard, Michael. Orpheus and power: The movimento negro of Rio de
Janeiro and São Paulo, Brazil, 1945-1988. Princeton: Princeton University
Press, 1994, p. 116.
[46] "Dossiê 50-Z-130- 3773". Deops/ SP, Daesp, apud Kosling, Karin. As lutas
anti-racistas de afro-descendentes sob vigilância do Deops/SP (1964-1983). São
Paulo: dissertação de mestrado, História Social, FFLCH-USP, 2007, p. 161.
[47] Félix, J. Chic Show e Zimbabwe e a construção da identidade nos bailes
black paulistanos. São Paulo: dissertação de mestrado, FFLCH-USP, 2000, pp. 40-
41.
[48] Kosling, op. cit., p. 161.
[49] Souza, op. cit., p. 162.
[50] "Entrevista". In: Alberti e Pereira, op. cit., fita 2 - lados A e B.
[51] Grupo de Estudos sobre o Pensamento Político Africano. "Notas sobre o
pensamento de Frantz Fanon". Estudos Afro-Asiáticos, Rio de Janeiro, nº 5,
1981, p. 22.
[52] Ibidem, p. 15.
[53] Ibidem, p. 25.
[54] Gordon, Sharpley-Whiting e White, op. cit.
[55] Ortiz, Renato. "Frantz Fanon: Um itinerário político e intelectual".
Revista Idéias, Campinas, v. 2, nº 1, 1995; Cabaço, José Luís
e Chaves, Rita de Cássia Natal. "Frantz Fanon : colonialismo, violência e
identidade cultural". In: Abdala Júnior, Benjamin. Margens da cultura:
mestiçagem, hibridismo & outras misturas. São Paulo: Boitempo, 2004, pp.
67-86.
[56] Zahar, Renate. "Frantz Fanon: colonialism and alienation". Monthly Review
Press, Nova York, 1974.
[57] Costa, Sérgio. Dois atlânticos: teoria social, anti-racismo,
cosmopolitismo. Belo Horizonte: EdUFMG, 2006; e Cunha, Olivia
M. G. da. "Reflexões sobre biopoder e pós-colonialismo: relendo Fanon e
Foucault". Mana, vol. 8, nº 1, 2002, pp. 149-163.
[58] Ortiz, Renato."Frantz Fanon: Um Itinerário Político e Intelectual", op.
cit; idem, Cultura brasileira e identidade nacional.
[59] Idem, Cultura brasileira e identidade nacional, op. cit.
[60] Cabaço e Chaves, op. cit, p. 69.