Teorizando o mundo contemporâneo: Robert Brenner; Giovanni Arrighi; David
Harvey
É amplamente reconhecido que as últimas três décadas marcam uma ruptura
significativa com a ordem social, política, econômica e cultural que
caracterizou os decênios que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Ocorreram
mudanças básicas como o enfraquecimento e a transformação dos Estados de Bem-
Estar Social do capitalismo ocidental, o colapso ou a metamorfose fundamental
dos Estados burocráticos do Leste europeu e o solapamento dos Estados
desenvolvimentistas no que se convencionou chamar de Terceiro Mundo. De modo
geral, as décadas recentes viram o enfraquecimento da soberania econômica
estatal nacional e a emergência e consolidação da ordem global neoliberal. Por
um lado, a vida social, política e cultural tornou-se cada vez mais global; por
outro, tornou-se cada vez mais descentrada e fragmentada.
Essas mudanças ocorreram no contexto de um longo período de estagnação e crise:
desde o começo dos anos 1970, a taxa de crescimento dos salários reais diminuiu
dramaticamente - eles permaneceram geralmente inalterados ó, taxas de lucro
estagnaram e as taxas de produtividade do trabalho baixaram. No entanto, esses
fenômenos da crise não levaram ao ressurgimento dos movimentos da classe
trabalhadora. Ao contrário, as décadas passadas assistiram ao declínio dos
clássicos movimentos de trabalhadores e à emergência dos novos movimentos
sociais, freqüentemente caracterizados por políticas de identidade, incluindo
movimentos nacionalistas, movimentos políticos relacionados à livre orientação
sexual e várias formas de "fundamentalismo" religioso. Um acerto de contas com
as transformações de larga escala das três últimas décadas, então, requer levar
em consideração não apenas o declínio econômico de longo prazo, ocorrido desde
o início da década de 1970, mas também mudanças importantes na vida social e
cultural.
É contra o pano de fundo desta problemática que desejo discutir três trabalhos
muito importantes - de Robert Brenner, Giovanni Arrighi e David Harvey1 - que
tratam das transformações em curso. Este artigo tem a intenção de ser
preliminar. Ele não pretende fornecer uma análise crítica definitiva das obras
desses três autores, mas aborda trabalhos específicos deles em um nível
metateórico, focando nos seus pressupostos teóricos de forma a problematizar a
natureza e as características de uma teoria crítica adequada do capitalismo
atual.
Por que uma teoria do capitalismo, ou melhor, uma teoria do capital? Deixe-me
começar com uma observação que Harvey e outros fizeram em relação ao período de
prosperidade do pós-guerra, entre 1949 e 1973: Estados ocidentais produziram de
maneira similar crescimento econômico estável e elevação dos padrões de vida -
através de uma combinação de Estado de Bem-Estar Social, política econômica
keynesiana e controle das relações salariais - mesmo que partidos políticos
muito diferentes estivessem no poder2. Seria possível acrescentar que em todos
os Estados ocidentais essa síntese do Estado de Bem-Estar Social recuou nos
anos 1970 e 1980 independentemente de que partido estivesse no poder.
Esses desenvolvimentos históricos de larga escala podem ser compreendidos com
referência a um padrão histórico mais abrangente: a ascensão e queda da
organização centrada no Estado da vida econômica e social, da aparente primazia
do político sobre o econômico. O início desse período pode ser localizado,
grosso modo, na Primeira Guerra Mundial e na Revolução Russa; o seu fim pode
ser observado na crise da década de 1970 e na emergência subseqüente da ordem
global neoliberal. Esta trajetória geral foi global. Ela englobou países
capitalistas ocidentais e a União Soviética, assim como terras colonizadas e
países descolonizados. Quando vistos com referência a essa trajetória geral,
diferentes desenvolvimentos aparecem mais como diferentes inflexões de um
padrão comum do que como desenvolvimentos fundamentalmente diferentes. O
caráter geral do padrão histórico de larga escala que estruturou grande parte
do século XX sugere a existência de imperativos estruturais e restrições gerais
que não podem ser adequadamente explicados em termos locais e contingentes.
Então, a consideração do padrão histórico geral que caracteriza o século XX
coloca em questão compreensões pós-estruturalistas da história como um processo
essencialmente contingente. Isto, contudo, não implica necessariamente ignorar
o achado crítico que fundamenta as tentativas de lidar com a história de modo
contingente - em outras palavras, que a história, compreendida como o
desdobramento de uma necessidade imanente, pode ser entendida como expressão de
uma forma de opressão.
Essa forma de opressão é o objeto da teoria crítica do capitalismo de Marx, a
qual está preocupada, em primeiro lugar, em delinear e fundamentar os
imperativos e as restrições que geram a dinâmica histórica e as mudanças
estruturais do mundo moderno. A crítica do capital não nega a existência de
opressão histórica por se focar na contingência. Ao contrário, ela busca
analisar essa opressão social historicamente, desvelando sua base, e aponta
para a possibilidade de sua superação. Em outras palavras, uma teoria crítica
adequada do capital busca elucidar a dinâmica do mundo moderno e o faz a partir
da perspectiva imanente da possibilidade de sua transformação. Essa teoria
crítica do capitalismo, da dinâmica histórica da modernidade, a meu ver, pode
fornecer a melhor base para uma abordagem rigorosa das transformações globais
das três décadas passadas. Ela só pode realizar isto, entretanto, na medida em
que pode lidar adequadamente com as profundas alterações sociais e culturais,
assim como econômicas, das últimas décadas.
Os três autores de que estou tratando buscam compreender essas transformações
recentes com base em uma teoria crítica do capitalismo. Em "The economics of
global turbulence", Robert Brenner reúne muitas evidências (dados sobre
salários reais, taxas de lucro, taxas de produtividade do trabalho e taxas de
crescimento) para demonstrar que a economia mundial está basicamente estagnada
há trinta anos3. Escrevendo no fim dos anos 1990, Brenner argumenta contra a
ilusão, disseminada naquele período (na realidade, uma ilusão capitalista
recorrente), de que o problema dos ciclos econômicos foi solucionado, que os
ciclos foram deixados para trás. Sua principal preocupação não é apenas
explicar o declínio econômico do início dos anos 1970, mas também explicar por
que ele persistiu por tanto tempo. A queda da lucratividade, anunciando o fim
do boom do pós-guerra, começou na metade dos anos 1960, de acordo com Brenner,
e não, como muitos argumentaram, entre 1969 e 19724. Isto, de acordo com
Brenner, contradiz o que ele chama de teorias da "oferta" ["supply-side"
theories], que atribuem o declínio, assim como sua duração, à crescente pressão
sobre os lucros exercida pelos trabalhadores, já que indica que o declínio foi
anterior a essa pressão5. Além disso, abordagens que se focam no trabalho
necessariamente observam a situação específica de cada país. Elas não conseguem
explicar as características mais salientes do declínio do final do século XX:
que o seu começo e suas várias fases foram universais e simultâneas -
englobando economias fracas com fortes movimentos de trabalhadores (Reino
Unido) e economias fortes com fracos movimentos de trabalhadores (Japão) - e
que o declínio durou tanto tempo6. Tomando por base essas considerações,
Brenner argumenta que a explicação do declínio e do fracasso subseqüente das
economias para se adaptarem deve estar situada no nível do sistema
internacional como um todo7. A queda na taxa de lucro não foi resultado de
fatores tecnológicos, de pressões trabalhistas ou de controles políticos, de
acordo com Brenner, mas, mais fundamentalmente, foi resultado da concorrência
no mercado internacional e do desenvolvimento desigual8.
É central à análise de Brenner o argumento geral de que o capital em uma
indústria particular não pode ser facilmente desviado para outra quando grande
parte dele se encontra na forma de capital fixo. Conseqüentemente, nessa
situação, concorrência crescente, resultando em menores taxas de lucro, não
leva ao desvio do capital para outras áreas como prevê a teoria econômica
predominante, mas à superprodução sistêmica. Portanto, o declínio decorrente de
superprodução não resulta na prevista eliminação dos concorrentes menos
eficientes [shakeout], a qual seria então seguida por uma recuperação, mas
resulta, sim, em uma queda de longo prazo da taxa de lucro.
Especificamente, Brenner argumenta que, como resultado da devastação causada
pela Segunda Guerra Mundial, havia basicamente uma única oficina no mundo no
imediato pós-guerra - os Estados Unidos. Nos anos 1960, contudo, os Estados
Unidos passaram a ser desafiados pelas economias da Alemanha e do Japão. Em
decorrência do investimento das empresas americanas em capital fixo - por
exemplo, na indústria automobilística ó, elas continuaram a produzir em seus
níveis anteriores, não obstante os alemães e os japoneses estarem expandindo
sua produção (automobilística). O resultado foi uma superprodução endêmica
global9.
O argumento de Brenner relaciona crises de superprodução no capitalismo com as
contingências da concorrência. Não fossem por essas contingências, as empresas
saberiam quanto elas deveriam investir em capital fixo. Mas elas não têm e não
podem ter esse conhecimento; portanto, elas estarão sujeitas a pressões
imprevisíveis. Devido ao seu investimento em capital fixo, entretanto, elas não
podem se permitir recuar e investir em outro lugar. Em vez disso, elas são
impelidas a lutar por fatias de mercado. Conseqüentemente, os lucros caem.
Empresas tentam contrabalançar esta tendência de queda dos lucros pressionando
o trabalho, destruindo sindicatos e cortando benefícios sociais e
previdenciários10.
A interpretação de Brenner do boom e da queda esclarece com sucesso elementos
importantes do longo declínio, especialmente seu caráter global. Mostra
claramente que o capitalismo constitui uma ordem global - uma ordem, no
entanto, que é disfuncional. Sua interpretação é uma retificação útil do
discurso econômico predominante. Ela demonstra a inadequação da compreensão dos
fluxos de capitais resultantes da concorrência e o caráter ilusório da noção
recorrente de que os ciclos econômicos são uma coisa do passado. A abordagem de
Brenner contradiz também a idéia disseminada de que o longo declínio do final
do século XX emergiu como resultado das - e resposta às - vitórias da classe
trabalhadora entre 1968 e 1972, e fornece uma base para criticar a análise da
Escola da Regulação acerca do declínio do fordismo e da emergência do regime
pós-fordista11.
Apesar do exame aprofundado de Brenner do longo declínio do final do século XX,
ele não aborda adequadamente outras dimensões, importantes, das transformações
das décadas recentes. Nesse sentido, sua abordagem não fornece uma
interpretação adequada da mudança histórica. Sua análise do longo declínio com
referência à concorrência internacional e à superprodução sistêmica ilumina
dimensões importantes dessa crise. No entanto, não há indicação, na
interpretação de Brenner, de uma alteração nas dimensões social, cultural e
política da vida que poderia ser relacionada com os processos econômicos que
ele discute. O foco de Brenner na economia é tal que não se evidencia que o
contexto histórico geral do final do século XX é em alguma medida diferente de
períodos anteriores de declínio e rivalidade intercapitalista. Isto é, Brenner
não tematiza a questão das mudanças históricas qualitativas na sociedade
capitalista. Assim, quando ele critica a Escola da Regulação, ele não fornece
uma abordagem alternativa para uma dimensão central dessa perspectiva teórica -
a preocupação com as mudanças sociais e culturais fundamentais que ocorrem com
a emergência daquilo que os teóricos regulacionistas chamam de novo modo de
regulação.
Entretanto, se uma teoria crítica do capitalismo deve lidar de forma adequada
com as transformações históricas das últimas três décadas, ela não pode
elucidar apenas desenvolvimentos econômicos, compreendidos restritivamente, mas
deve ser capaz de iluminar mudanças na natureza da vida social e cultural
dentro da estrutura do capitalismo. Só assim uma teoria crítica do capitalismo
pode se reivindicar como uma teoria crítica do mundo moderno, isto é, de uma
forma objetiva/subjetiva de vida social historicamente específica, e não uma
teoria de uma organização econômica determinada ó compreendida restritivamente
- da sociedade moderna. Da mesma forma (e isto é crucial), uma teoria crítica
do capitalismo deve ser capaz de elucidar mudanças qualitativas
interdependentes da objetividade e subjetividade sociais, caso pretenda abordar
mudanças culturais de larga escala e movimentos sociais. Só assim ela pode ser,
ao menos potencialmente, uma teoria da possibilidade de superação do
capitalismo.
A questão a esse respeito não é se Brenner, ou qualquer outro teórico, lida de
forma explícita com esses assuntos, mas se a sua abordagem é intrinsecamente
capaz de elucidar transformações históricas da política, da cultura e da
sociedade. Independente de suas forças, a abordagem de Brenner não lida
adequadamente com o desenvolvimento histórico e a estrutura do capitalismo
enquanto uma forma de vida social. Mudanças na cultura e na subjetividade
parecem ser externas a sua perspectiva.
Essas limitações da abordagem de Brenner estão relacionadas a sua compreensão
básica do capitalismo. A questão aqui não é simplesmente sobre alcance
analítico - se uma abordagem crítica do capitalismo deveria abordar apenas
processos econômicos, em vez de também tratar outras dimensões da vida social.
A questão é se as categorias básicas dessa perspectiva podem relacionar
intrinsecamente diferentes dimensões da vida enquanto aspectos interdependentes
de uma forma determinada de vida social. O ponto de partida analítico de
Brenner é uma ênfase marxista tradicional na natureza não planejada, não
coordenada e competitiva da produção capitalista12. Isto é, no núcleo de sua
análise do longo declínio estão as noções de desenvolvimento desigual e
concorrência. Essas noções definem o capitalismo na abordagem de Brenner e
implicitamente apontam para o planejamento racional como a característica mais
saliente do mundo pós-capitalista. O foco de tal crítica do capitalismo, em
outras palavras, é essencialmente o modo de distribuição. Temas como a forma da
produção, do trabalho e, mais fundamentalmente, da mediação social são externas
a sua estrutura teórica. Noções tais como concorrência e desenvolvimento
desigual, junto com categorias centrais à análise de Brenner, como lucro,
capital fixo e circulante, contudo, são categorias econômicas; isto é, são
categorias da superfície que não apreendem de forma adequada a natureza
fundamental e a dinâmica histórica do capitalismo enquanto uma forma de vida
social historicamente específica.
Neste ensaio, posso apenas mencionar o significado teórico da distinção entre
superfície e estrutura profunda (que marca a distinção entre economia política
crítica e crítica da economia política) e por que faria sentido rediscutir a
categoria valor. Neste ponto, simplesmente desejo notar que caracterizar uma
noção tal qual desenvolvimento desigual como uma noção da superfície não
significa que ela seja ilusória, mas significa, em vez disso, que ela não
apreende o que é mais essencial ao capitalismo.
Caracterizar noções tais como concorrência e desenvolvimento desigual e
categorias tais como lucro como fenômenos superficiais expressa uma posição que
considera categorias tais como mercadoria, valor e capital como aquelas da
estrutura profunda. Brenner, contudo, rejeita as últimas categorias,
caracterizando abordagens baseadas nelas como "marxismo fundamentalista"13.
Diferenças em relação à teoria do valor muitas vezes expressam diferentes
compreensões das categorias. Por exemplo, valor foi usualmente interpretado
como uma categoria econômica, uma categoria da distribuição que fundamenta os
preços, demonstra a exploração (a categoria de mais-valia) e explica o caráter
propenso à crise do capitalismo (como resultado da crescente composição
orgânica do capital). O significado do valor, compreendido dessa maneira, foi
colocado em questão freqüentemente com base em argumentos que afirmam que
preços, exploração e crises podem ser explicados sem se referir a essa
categoria.
Proponho uma outra compreensão da categoria de valor de Marx. Ela não é
simplesmente um refinamento dessa categoria tal qual foi desenvolvida por Smith
e Ricardo. Em vez disso, é uma categoria que pretende apreender formas
abstratas determinadas de mediação social, riqueza social e temporalidade que
estruturam a produção, a distribuição, o consumo e, de maneira geral, a vida
social na sociedade capitalista. A dimensão temporal de categorias da estrutura
profunda fundamenta a dinâmica do capitalismo; ela ajuda a explicar, em termos
historicamente específicos, a existência de uma dinâmica histórica que
caracteriza o capitalismo. Aquelas categorias, então, buscam apreender os
contornos gerais dessa dinâmica enquanto indicam que uma dinâmica histórica
imanente não caracteriza histórias e sociedades humanas per se. Além disso, as
categorias valor e capital não são meramente econômicas e não são sequer
categorias unicamente da objetividade social - mas categorias que são, ao mesmo
tempo, sociais e culturais. Por fim, a dinâmica baseada no valor é tal que o
valor torna-se progressivamente menos adequado para a realidade que produz.
Isto é, a dinâmica cria as condições de possibilidade objetivas e subjetivas de
uma ordem social para além do capitalismo14. (Começarei a aprofundar a
elaboração dessas afirmações quando for discutir adiante a noção de queda da
taxa de lucro, como compreendida por Brenner e por Arrighi.) Longe de serem
categorias da vida econômica e social em geral, as que estão na base da crítica
à economia política pretendem apreender o núcleo essencial de uma forma
historicamente determinada de vida social - o capitalismo - de maneira a
indicar seu caráter historicamente específico e possivelmente transitório. A
abolição daquilo que as categorias pretendem apreender levaria à abolição do
capitalismo.
Encarregar-se dessa problemática fundamental requer interrogar a natureza da
temporalidade no capitalismo, um assunto que não posso elaborar longamente
neste ensaio. Desejo, no entanto, prosseguir essas considerações tendo como
referência O longo século XX, de Arrighi. Arrighi está entre os teóricos que
conceituam o período desde 1973 como o de mudança qualitativa, cujo traço
predominante ele caracteriza em termos de "financeirização" do capital15.
Argumentando contra posições como a de Hilferding, de que a importância
ampliada do capital financeiro marca um estágio inteiramente novo de
desenvolvimento capitalista, Arrighi afirma que a primazia da financeirização é
um fenômeno recorrente, uma fase de ciclos maiores de desenvolvimento
capitalista que começaram na Europa do fim da Idade Média e início da Era
Moderna16.
O estudo de Arrighi da crise do final do século XX está inscrito em uma
estrutura teórica mais ampla - uma análise das "estruturas e processos do
sistema capitalista mundial como um todo, em diferentes etapas de seu
desenvolvimento"17. Esta análise, por sua vez, é profundamente influenciada
pela ambiciosa tentativa de Arrighi de pensar em conjunto o que Charles Tilly
caracterizou como "os dois grandes processos interdependentes da era [moderna]:
a criação de um sistema de Estados nacionais e a formação de um sistema
capitalista mundial"18. A fim de relacionar esses dois sistemas internacionais,
Arrighi recorreu às teorias de Fernand Braudel e Karl Polanyi. Ele adota a
compreensão de Braudel do capitalismo como uma das camadas de uma estrutura de
três patamares. Haveria uma camada inferior que Braudel chama de "vida
material" - a camada da não-economia que nunca pode ser influenciada pelo
capitalismo ó, uma camada intermediária da economia de mercado e uma camada
superior do "antimercado", a zona dos predadores gigantes. Para Braudel, esse
nível superior é o verdadeiro locus do capitalismo19. Com base na análise de
Braudel, Arrighi defende que, historicamente, o desenvolvimento capitalista não
foi apenas o resultado não-intencional de inúmeras ações realizadas por
indivíduos e pelas múltiplas comunidades da economia mundial, mas que as
"expansões e reestruturações da economia capitalista mundial têm ocorrido sob a
liderança de determinadas comunidades e blocos de agentes governamentais e
empresariais"20. Isto é, Arrighi busca relacionar o sistema estatal e o
capitalismo tendo por base o descasamento realizado por Braudel entre a
atividade econômica cotidiana e a camada superior dos grupos economicamente
poderosos.
Ele reforça essa abordagem apropriando-se da crítica de Karl Polanyi à idéia,
do século XIX, de uma economia auto-regulada. Para Polanyi, esta auto-regulação
dependia da transformação de todos os elementos da indústria em mercadorias,
incluindo a terra, o trabalho e o dinheiro. A natureza mercantil dos últimos
três, entretanto, é completamente fictícia, de acordo com Polanyi. Um sistema
baseado em tal ficção é tremendamente desagregador para a sociedade. Ele gera,
por conseguinte, um contra-movimento para restringir suas operações. Isso
implica que, para o capitalismo funcionar no longo prazo, os mecanismos de
mercado devem ser social e politicamente controlados21.
Com base na sua apropriação de Braudel e Polanyi, Arrighi delineia o
desenvolvimento do sistema capitalista mundial em termos de quatro ciclos
sistêmicos de acumulação, cada um dominado por um Estado capitalista hegemônico
- um ciclo genovês, do século XV até o começo do século XVII; um ciclo
holandês, do fim do século XVI estendendo-se pela maior parte do século XVIII;
um ciclo britânico do final do século XVIII até o começo do século XX; e um
ciclo americano, que começou no final do século XIX. Cada um desses ciclos
refere-se aos processos do sistema capitalista mundial como um todo, de acordo
com Arrighi. Ele enfoca as estratégias e estruturas dos agentes governamentais
e empresariais de cada um desses Estados porque argumenta que elas tiveram uma
bem-sucedida centralidade na formação desses estágios22.
Cada ciclo, de acordo com Arrighi, é caracterizado pelas mesmas fases, uma
inicial de expansão financeira, passando por uma fase de expansão material,
seguida de outra de expansão financeira. A financeirização desempenha um papel
crucial na sucessão de um hegemon por outro, de acordo com Arrighi. Conforme
ele a descreve, a trajetória ascendente de cada hegemon é baseada na expansão
da produção e do comércio. Em um ponto de cada ciclo, contudo, uma "crise
sinalizadora" ocorre como resultado da sobreacumulação de capital. Outro Estado
fornece então um meio para dar vazão a esse capital acumulado. Neste esquema, a
crescente financeirização requer a transferência de capital do hegemon atual
para um novo hegemon ascendente23. Esse padrão de desenvolvimento não é,
entretanto, completamente cíclico. Ele tem direcionalidade. Cada novo ciclo é
mais curto que o precedente; cada novo hegemon é maior, mais complexo e mais
poderoso. Cada hegemon consegue internalizar custos que seu antecessor não
internalizava. A Holanda internalizou custos de produção, o Reino Unido também
internalizou custos de produção e os Estados Unidos adicionaram a
internalização de custos de transação24. Estabelecendo este padrão, Arrighi
argumenta então que a fase atual de financeirização é sinal do declínio da
hegemonia americana, o começo do fim do quarto ciclo.
O padrão de desenvolvimento que Arrighi delineia é muito elegante e
freqüentemente esclarecedor. No entanto, há aspectos problemáticos da sua
interpretação que, a meu ver, indicam seus limites. Assim, por exemplo, quando
Arrighi volta-se a desenvolvimentos mais contemporâneos, sua interpretação da
ascensão e queda da hegemonia dos Estados Unidos desde 1939 é muito mais
eclética do que se poderia esperar a partir da sua descrição dos ciclos mais
longos de desenvolvimento capitalista. Ao discutir a crise da década de 1970,
ele se refere a uma concorrência crescente, em escala internacional, ao
crescimento dos salários reais, entre 1968 e 1972, que ultrapassou o aumento da
produtividade, assim como à decisão de formuladores de política americanos, no
fim dos anos 1970, de formar uma aliança com as altas finanças privadas a fim
de disciplinar o que foi considerado como ameaças do Terceiro Mundo após a
descolonização.
É muito difícil compreender como essa interpretação encaixa-se na estrutura
teórica de desenvolvimento cíclico que Arrighi apresenta. Embora ele
caracterize o ciclo americano como anômalo, ele não explica o seu caráter
anômalo. Por conseguinte, existe uma lacuna entre sua interpretação eclética da
década de 1970 e sua estrutura teórica mais ampla, o que sugere que o padrão de
desenvolvimento que ele delineia é essencialmente descritivo. Ele não
apresenta, de fato, uma análise acerca do que move o padrão de desenvolvimento
que ele descreve.
Este tema emerge também, implicitamente, quando Arrighi discute o declínio da
hegemonia americana. Ele argumenta que tal declínio pode levar à ascensão de um
império verdadeiramente global, baseado na superioridade da força do ocidente,
a uma economia de mercado mundial sem um hegemon, centrada no Leste asiático,
ou ao caos sistemático. As duas primeiras possibilidades são pós-capitalistas,
de acordo com Arrighi. Elas assinalariam o fim do capitalismo25.
Esta é uma afirmação notável porque ela esclarece que Arrighi considera a
essência do capitalismo um sistema mundial organizado por um hegemon
capitalista. Essa posição problemática tem suas raízes na apropriação que
Arrighi realiza da distinção de Braudel entre economia de mercado e
capitalismo. O último, de acordo com Braudel, não pode ser explicado tendo como
base relações de mercado contínuas, na medida em que uma economia de mercado
mundial precedeu o capitalismo. O que gerou este foi a fusão do capital com o
Estado, que foi exclusiva do Ocidente26. Os limites desta tentativa de
distinguir mercados e capitalismo colocando os Estados no centro da análise
tornam-se manifestos, entretanto, nas reflexões de Arrighi sobre a fase
corrente de declínio da hegemonia americana. Independente de quão importantes
os Estados podem ter sido para o desenvolvimento do capitalismo, definir o
capitalismo essencialmente com referência ao Estado torna-se uma camisa-de-
força conceitual quando Arrighi tenta analisar o mundo contemporâneo.
Nem Braudel nem Arrighi parecem tomar conhecimento da maneira muito diferente
pela qual Marx e Weber distinguem o capitalismo moderno dos mercados e do
comércio, tal qual eles podem existir em outras formas de sociedade. Apesar de
todas as suas diferenças, Marx e Weber enxergam o capitalismo moderno como
específico porque ele é baseado em um processo contínuo e infinito de
acumulação, um processo que não pode ser fundamentado no comércio ou no Estado
e, na realidade, transforma ambos. No trabalho de Marx, a dinâmica histórica do
capitalismo é sua característica mais saliente. Ela requer contínuas
transformações da vida social, que são conduzidas, por sua vez, pelo núcleo
essencial do capitalismo, um núcleo que é tanto imutável quanto, ainda,
produtor de mudanças. A categoria capital, de Marx, busca apreender este núcleo
e a dinâmica que ele gera.
No tratamento de Arrighi dos ciclos do capitalismo, a categoria capital
permanece fundamentalmente subteorizada. Conseqüentemente, sua abordagem exclui
qualquer análise acerca do que constitui o caráter específico do capitalismo,
sua dinâmica histórica. Em vez disso, como sua concepção do fim do capitalismo
indica, Arrighi funde esta dinâmica com a ascensão e queda de hegemons. Sua
abordagem substitui a análise do que fundamenta a dinâmica por uma descrição de
um padrão e o faz de maneira a também excluir considerações sobre as contínuas
estruturações e reestruturações do trabalho e, de maneira geral, da vida social
no capitalismo.
Embora, então, as teorias de Braudel e Polanyi fornecem a Arrighi uma estrutura
teórica para pensar em conjunto o desenvolvimento do sistema estatal e o do
capitalismo mundial, elas também levam a problemas teóricos sérios. A divisão
tripartite, realizada por Braudel, da sociedade moderna em camadas de vida
material, economia de mercado e capitalismo não permite considerar a relação
das formas cotidianas de vida social com o capitalismo, enquanto a insistência
de Polanyi no caráter fictício do trabalho, da terra e do dinheiro como
mercadorias obscurece a análise de Marx da mercadoria enquanto forma das
relações sociais. Nesta estrutura teórica, nada é "naturalmente" uma
mercadoria. De forma recíproca, não existe razão ontológica que possa servir de
base para distinguir mercadorias "reais" e "fictícias". Nem Braudel nem Polanyi
permitem uma concepção adequada de capital e, pois, da natureza da dinâmica
intrínseca da sociedade capitalista, assim como da possibilidade de sua
superação.
Essas considerações críticas são reforçadas quando observamos mais de perto o
tratamento realizado por Arrighi da crise dos anos 1970. Ao abordar essa crise,
ele recorreu à noção de que, no capitalismo, há uma tendência à queda da taxa
de lucro. Como Brenner, Arrighi baseia essa tendência na concorrência.
O teorema da queda tendencial da taxa de lucro foi várias vezes identificado
com Marx. Ele foi comumente compreendido como a tentativa de Marx de demonstrar
a natureza propensa à crise e os limites do capitalismo. Este teorema, contudo,
não foi desenvolvido originariamente por Marx, mas por economistas políticos
tais como Adam Smith, Thomas Malthus e David Ricardo. De fato Marx aborda este
teorema da economia política clássica. Longe de prever uma queda inexorável da
taxa de lucro, entretanto, ele trata este teorema como uma tendência
superficial, a qual, portanto, é sujeita a muitos fatores e tendências
compensatórias27. Na medida em que a taxa de lucro efetivamente cai, de acordo
com Marx, ela o faz como uma manifestação econômica superficial de um
desenvolvimento histórico mais fundamental, a tendência de a composição
orgânica do capital - isto é, a razão entre capital constante (máquinas,
matérias-primas etc.) e capital variável (trabalho assalariado) - crescer.
A idéia de uma diminuição do capital variável em relação ao capital constante é
central para compreender a força da teoria do valor em Marx. Marx argumenta,
como é amplamente sabido, que o valor é constituído apenas pelo gasto
socialmente necessário de tempo de trabalho humano direto. Ao contrário de Adam
Smith, contudo, Marx não considera o valor uma forma trans-histórica de
riqueza, mas uma forma de riqueza historicamente específica ao capitalismo. A
distinção que ele faz entre a produção de valor e a de valor de uso não devem
ser compreendidas trans-historicamente e ontologicamente, mas como
constitutivas da crescente contradição do capitalismo entre a produção do valor
como elemento estrutural definidor do capitalismo e a enorme capacidade de
produção de valor de uso gerada pelo capitalismo. O potencial inscrito nessa
contradição do capitalismo aponta para uma possível transformação fundamental
da natureza e da distribuição social do trabalho. A realização dessa
possibilidade, entretanto, é constantemente restringida pela reprodução
sistêmica de trabalho determinado pelo valor, apesar de esse trabalho tornar-se
crescentemente anacrônico em termos do potencial produtivo do todo.
A mudança na composição do capital, portanto, não é importante na crítica de
Marx principalmente por fornecer uma melhor explicação para a queda tendencial
da taxa de lucro, fundamentando assim de forma mais sólida um teorema da
economia política clássica. Ao invés disso, ela é importante em primeiro lugar
porque, abaixo do nível superficial dos preços e dos lucros, expressa a
transformação do trabalho e da produção que eventualmente aponta para a
possibilidade de uma sociedade pós-capitalista. Longe de ser primordialmente um
meio de explicar as crises, então, o teorema da queda tendencial da taxa de
lucro, como retrabalhado por Marx, expressa, de forma indireta, um processo de
contínua estruturação e reestruturação da vida social, um processo marcado por
uma crescente distância entre a estruturação atual do trabalho e da vida social
e a maneira em que eles poderiam ser estruturados na ausência do capital. Marx
transforma um teorema da economia política - o qual muitos tomaram como uma
indicação dos limites econômicos do capital ó em uma expressão superficial de
uma dinâmica histórica mais fundamental. A força da sua crítica é menos
"provar" o colapso econômico inevitável do capitalismo do que desvelar uma
crescente disparidade entre o que é e o que poderia ser, uma disparidade que
constitui as condições de possibilidade objetivas/subjetivas de uma ordenação
diferente da vida social. A idéia de tal disparidade enquanto uma disparidade
vivida permitiria uma investigação da gênese histórica das sensibilidades, das
necessidades e dos imaginários que vai além de considerações de distribuição ou
interesses materiais diretos. Em outras palavras, a contradição crescente do
capitalismo compreendida dessa maneira (de forma não economicista) gera a
possibilidade de um futuro qualitativamente diferente como uma dimensão
imanente do presente.
Esse nível de consideração, contudo, está ausente em Arrighi, assim como em
Brenner. Então, as categorias que são essenciais para a crítica de Marx -
valor, mercadoria, capital - estão também basicamente ausentes ou são
implicitamente compreendidas em termos econômicos restritivos. Assim, por
exemplo, quando Brenner aborda o tratamento de Marx da queda tendencial da taxa
de lucro, ele afirma que, de acordo com Marx, o crescimento da composição
orgânica de capital leva a um aumento da razão produto/trabalho, que é
insuficiente para contrabalançar a queda paralela na razão produto/capital, que
ela também produz. Portanto, a taxa de lucro cai porque a produtividade global
deverá cair28. Esta interpretação funde completamente valor e valor de uso em
Marx, obscurecendo a afirmação de Marx de que um aumento na produtividade pode
levar a uma diminuição na mais-valia. Isto, contudo, significa, mais
fundamentalmente, que ela não reconhece a análise do valor de Marx como uma
análise de uma forma de riqueza e vida social historicamente específica,
possivelmente transitória. Por conseguinte, a trajetória histórica do
capitalismo na direção de uma possível transformação qualitativa, como
analisada por Marx, reduz-se a uma análise econômica das crises.
Arrighi, por sua vez, argumenta que o que ele chama de "a versão de Marx da
'lei' da queda tendencial da taxa de lucro" era idêntico à tese de Adam Smith
em relação à taxa de lucro. Tanto Ricardo quanto Marx aceitaram integralmente a
tese de Smith, de acordo com Arrighi. A única diferença foi que Marx criticou a
versão de Smith da "lei" como demasiado pessimista em relação ao potencial de
longo prazo do capitalismo para promover o desenvolvimento das forças
produtivas da sociedade29. Essa equiparação de Smith e Marx, contudo, significa
que Arrighi também funde a economia política à sua crítica, isto é, uma
compreensão trans-histórica do valor enquanto riqueza com uma compreensão do
valor enquanto uma forma de riqueza historicamente específica ao capitalismo.
A abordagem de Arrighi introduz de forma efetiva uma dimensão muito importante
à análise do capitalismo - a do Estado, ou melhor, do sistema estatal. Ela o
faz, entretanto, em detrimento das dimensões centrais de uma teoria crítica do
capitalismo que aponte para a possibilidade de uma outra forma de vida. O
próprio Arrighi nota que o seu livro tem um enfoque estreito, excluindo a
consideração de assuntos como a luta de classes30. Mas a estreiteza à qual ele
se refere não é meramente empírica. Dada a estrutura teórica do livro, mesmo se
Arrighi introduzisse tais assuntos, ele não poderia tratá-los de forma
coerentemente relacionada com sua abordagem.
Não está em questão se Arrighi ou Brenner são fiéis a um dogma revelado
("fundamentalista"), mas se as suas abordagens são inteiramente adequadas ao
objeto de suas investigações - a dinâmica do capitalismo contemporâneo. As
considerações que delineei buscam esclarecer a diferença entre tais
perspectivas de economia política crítica, focadas em temas econômicos, e o
projeto da crítica à economia política.
David Harvey em A condição pós-moderna também enfatiza a predominância da
financeirização ao discutir o período desde 197331. O tratamento de Harvey da
financeirização, entretanto, é menos centrado no Estado do que o de Arrighi, o
qual é ligado à questão dos hegemons ascendentes e declinantes. De fato, Harvey
enfatiza que, no mundo contemporâneo, o capital não tem locus ou posição
determinada, mas é difuso e global32. Como resultado da concorrência universal
por capitais, diferenças marginais nas taxas de lucro tornam-se cada vez mais
importantes, com conseqüências significativas para os níveis salariais em
países metropolitanos, para a extensão global desigual do trabalho assalariado
e para a direção e volume dos fluxos de capitais globais. Esses fluxos, de
acordo com Harvey, executam uma forma de disciplina que é muito mais difusa e
eficaz que quaisquer instituições governamentais podem ser33.
Ao contrário de Arrighi e Brenner, Harvey recorreu a uma teoria do capital para
elucidar o que ele considera uma mudança abissal na cultura assim como nas
práticas político-econômicas34. Ele tenta lidar com o período desde 1973 não
apenas em termos político-econômicos, mas também em termos de uma configuração
alterada da vida. Além disso, ao fazê-lo tendo por referência uma teoria do
capital, com suas distinções entre superfície e estrutura profunda e entre
valorização e processos de trabalho, Harvey é capaz de se contrapor
criticamente a abordagens pós-industriais, argumentando que o que elas
compreendem como uma nova época é apenas um elemento de uma dinâmica mais
complexa de restrição, continuidade e mudança. Assim, por exemplo, ao
considerar a transformação do capitalismo nas décadas recentes, Harvey enfoca
as demandas de valorização mediando a produção, ao invés de enfocar a natureza
dos processos de trabalho de maneira não mediada. Então, ele caracteriza as
mais novas configurações do capitalismo em termos de "acumulação flexível", em
vez de utilizar o termo mais orientado aos processos de trabalho,
"especialização flexível"35. Dessa maneira, Harvey é capaz de mostrar que esta
última fase de desenvolvimento capitalista gera todo um conjunto de práticas
produtivas - do ressurgimento da superexploração do trabalho [sweatshops] até a
robótica - que na superfície parecem antagônicas e que não podem ser
adequadamente apreendidas por teorias pós-industriais com o seu foco unilateral
nos processos de trabalho. Esta abordagem distingue a teoria crítica do
capitalismo de qualquer teoria do desenvolvimento tecnológico linear e,
decerto, de qualquer teoria do determinismo tecnológico.
Da mesma maneira, focando-se no capital, Harvey é capaz de mostrar que esta
nova fase do capitalismo acarreta uma dialética complexa de descentralização e
centralização, heterogeneidade e homogeneidade. Nesta base, Harvey realiza uma
crítica severa às abordagens pós-modernas que hipostasiam um lado desta
dialética, confundindo, por isso, desenvolvimentos em curso com uma ruptura
libertária em relação ao passado. Por compreenderem criticamente a ordem
existente apenas em termos de centralização e homogeneidade, tais abordagens
celebram a descentralização e a heterogeneidade também geradas pelo capitalismo
contemporâneo. Longe de serem críticas, abordagens pós-modernas, de acordo com
Harvey, são expressões de uma nova configuração do capital que elas não
apreendem. Dessa maneira, elas servem para velar e defender o capital em sua
mais nova manifestação36.
Buscando relacionar mudanças culturais pós-modernas a uma nova configuração do
capital, Harvey vai além das posições que compreendem o capitalismo apenas em
termos econômicos. Sua abordagem da relação entre cultura e capitalismo também
vai além da teoria da regulação, que busca de fato tomar conhecimento da
cultura como um momento constitutivo de uma dada etapa do capitalismo, mas o
faz, ao assumir uma relação completamente contingente entre cultura e
capitalismo, na base de uma compreensão da cultura que é essencialmente vazia.
Enquanto a última abordagem fornece uma análise funcionalista da relação entre
as formas culturais e qualquer configuração de larga escala do capitalismo,
Harvey busca relacioná-las intrinsecamente37.
A abordagem de Harvey suscita de forma explícita a questão da dinâmica
histórica. O seu argumento de que as décadas passadas assistiram à emergência
de uma nova configuração do capitalismo lembra-nos de que essa emergência
envolve um processo de mudança (uma nova configuração) e de continuidade
(capitalismo). Ao distinguir as formas superficiais das formas básicas do
capitalismo, ele também indica que o que permanece inalterado é um elemento
central do capitalismo.
Essas considerações ajudam a esclarecer alguns elementos do capitalismo e a
significância da análise do capital. Vista de maneira retrospectiva, a
dominação do capital existiu em várias configurações históricas, desde formas
mais mercantis até formas liberais do século XIX, estatais do século XX e,
agora, formas globais neoliberais. Essas configurações cambiantes indicam que o
capitalismo não pode ser identificado completamente com nenhuma das suas
configurações. Ao mesmo tempo, referir-se a essas várias configurações como
formas do capitalismo implica que um núcleo característico - o capital - é a
base de todas elas.
Isto, contudo, sugere que o núcleo do capitalismo produz suas várias
configurações históricas. Embora uma discussão completa do tema do caráter
historicamente dinâmico do capitalismo não seja possível no espaço deste
ensaio38, deve ser notado que se trata de uma dialética complexa de mudança e
reprodução, pela qual os elementos centrais do capitalismo produzem mudança e,
ao mesmo tempo, reproduzem-se. Essa dinâmica dialética é baseada na distinção
entre superfície e estrutura profunda no capitalismo e torna acessível a
possibilidade de um futuro para além do capital, mesmo ao reproduzir o núcleo
básico do presente e, por meio disso, obstruir a realização do futuro.
A abordagem que estou delineando, então, não pressupõe a existência de uma
dinâmica histórica, como característica da vida social humana, mas analisa a
forma de dominação social intrínseca à sociedade moderna capitalista como
produtora de uma dinâmica histórica. Isto é, ela baseia essa dinâmica nas
formas sociais historicamente específicas que estão no coração do capitalismo -
como a mercadoria e o capital. Ao basear a dinâmica histórica da sociedade
moderna capitalista em formas sociais historicamente específicas, esta
abordagem busca superar a oposição entre uma noção de uma lógica da história
trans-histórica e seu complemento relacionado ó, uma noção trans-histórica do
acaso histórico. Eu argumentaria que tal abordagem dialética não-linear permite
uma teoria do desenvolvimento capitalista mais sofisticada do que aquelas que
permanecem dentro da estrutura teórica da oposição tradicional, dualista,
essencialmente metafísica, entre determinismo e contingência.
A abordagem de Harvey indica esses temas. Porém, sua elaboração sobre o núcleo
do capitalismo é tal que aspectos importantes de uma teoria crítica do capital
permanecem excluídos ou, no mínimo, pouco desenvolvidos. Para Harvey, há três
elementos centrais do capitalismo: ele é orientado para o crescimento, é
baseado na exploração de trabalho vivo na produção e é necessariamente dinâmico
do ponto de vista tecnológico e organizacional. Esses três fatores centrais
são, entretanto, inconsistentes. Conseqüentemente, o desenvolvimento
capitalista é caracterizado por uma tendência à sobreacumulação, que o torna
propenso à crise. Historicamente, então, o problema do capitalismo tem sido a
administração da sobreacumulação39. Com base nessa análise, Harvey passa então
a analisar a transição do fordismo ao pós-fordismo40.
Esta compreensão do núcleo do capitalismo permite a Harvey distinguir estrutura
profunda e superfície, a partir do que ele formula sua crítica às abordagens
pós-modernas, e analisar restrições e imperativos que caracterizaram o
desenvolvimento do capitalismo de um modo de regulação a outro. No entanto, seu
foco no caráter propenso à crise do capitalismo não aborda a distância
crescente entre a forma que a vida social tem sob o capitalismo e a forma que
poderia ter, não fosse o capitalismo. Uma abordagem que problematizasse mais
explicitamente a categoria capital, e a colocasse em seu centro, poderia se
focar com mais rigor nessa distância.
A diferença entre as duas abordagens torna-se clara quanto ao tema da relação
entre as formas de subjetividade e objetividade no capitalismo. Harvey trata
concepções cambiantes de espaço e tempo, por exemplo, como reações a mudanças
do capitalismo. O capitalismo realiza o que Harvey denomina compressões espaço-
temporais. Elas alteram as experiências que as pessoas têm do espaço e do
tempo, as quais são expressas culturalmente e sobre as quais se reflete
teoricamente41. Por mais esclarecedora que possa ser a análise de Harvey, sua
ênfase na experiência como mediadora entre capitalismo e cultura permanece
basicamente extrínseca às formas sociais expressas pelas categorias marxianas.
De tal maneira, falta a ela a dimensão epistemológica/subjetiva daquelas
categorias, a qual permite a elas abordar uma quantidade maior de assuntos
concernentes a formas de conhecimento e subjetividade. Por exemplo, a abordagem
categorial pode abordar outras teorias da economia ou da história como
expressões equívocas enraizadas como possibilidades nas próprias formas
sociais. Tal abordagem não pretende apenas explicar percepções e teorias sobre
o mundo, tais como aquelas de Smith, Ricardo ou Hegel, como não sendo
inteiramente adequadas aos seus objetos42; ela também busca fundamentar a
própria possibilidade da crítica. A última é evidentemente relacionada à
questão da criação histórica pelo capitalismo de necessidades e sensibilidades
que apontam para além do capitalismo. Tal abordagem categorial trata, então,
formas de subjetividade como intrínsecas às próprias categorias.
As diferenças entre essas duas abordagens tornam-se mais evidentes quando se
considera a discussão de Harvey acerca de pós-modernismo e capitalismo. Quando
ele relaciona os dois, trata implicitamente o capitalismo como unidimensional.
Harvey não trata, em outras palavras, o capital como algo que aponta para além
de si próprio mesmo ao se reconstituir. Isto é, ele não questiona se o pós-
modernismo também tem um momento emancipatório, mesmo se muito diferente
daqueles expressos por auto-compreensões pós-modernas. Dentro da estrutura
teórica que estou delineando, o pós-modernismo poderia ser compreendido como um
tipo de póscapitalismo prematuro, que indica possibilidades geradas, mas não
realizadas, no capitalismo. Ao mesmo tempo, pelo fato de o pós-modernismo não
compreender o seu contexto, ele pode servir como uma ideologia de legitimação à
nova configuração do capitalismo, da qual é parte.
Isto leva a um tema mais geral com o qual teorias críticas do capitalismo têm
de lidar. Em uma transição global anterior do capitalismo, os marxistas
freqüentemente opuseram o planejamento racional geral à irracionalidade
anárquica do mercado. Em vez de necessariamente apontar para além do
capitalismo, contudo, tais críticas no mais das vezes ajudaram a legitimar o
subseqüente capitalismo centrado no Estado. Da mesma maneira, a hipostasia
contemporânea da diferença, da heterogeneidade e do hibridismo não aponta
necessariamente para além do capitalismo, mas pode servir de véu e legitimar
uma nova forma global que combina descentralização e heterogeneidade da
produção e do consumo com crescente centralização do controle e homogeneidade
estrutural.
Cada uma dessas posições, entretanto, também teve um momento emancipatório. A
tarefa difícil é separar conceitualmente a dimensão emancipatória das
possibilidades criadas pelo capitalismo das formas não-emancipatórias ou
antiemancipatórias em que elas foram geradas. Uma teoria crítica do capitalismo
deveria ser capaz de elucidar como formas de incompreensão abordagens que
confundem uma dimensão da vida social gerada pelo capitalismo com o todo. Ao
obscurecer o núcleo básico do capitalismo como uma forma de vida social, tais
abordagens são apenas aparentemente emancipatórias. Suas orientações críticas
acabam promovendo e legitimando a dominação do capital em novas formas, como o
capitalismo centrado no Estado e o capitalismo pós-moderno. Isto não significa
que o potencial emancipatório da coordenação social geral ou do reconhecimento
da diferença deva ser desconsiderado. Mas esse potencial só pode ser realizado
quando for associado com a superação histórica do capital, o núcleo da nossa
forma de vida social.
Apesar de todas as suas vantagens, as abordagens distintas formuladas por
Brenner, Arrighi e Harvey não são bem-sucedidas em elucidar por completo o
núcleo histórico do capital de uma maneira que aponte para a possibilidade de
sua superação histórica. Entretanto, sem uma análise do capital que não se
restrinja ao modo de distribuição, mas que possa, no entanto, abordar os
impulsos emancipatórios expressos pelo marxismo tradicional, por um lado, e
pelo pós-modernismo, por outro, nossas concepções de emancipação continuaram a
oscilar entre uma homogeneização geral (realizada ou pelo mercado ou pelo
Estado) e um particularismo, uma oscilação que replica as próprias formas
dualistas da mercadoria e do capital.
[*] Tradução de Fernando Rugitsky. O artigo foi publicado em: Albritton,
Robert, Jessop, Robert e Westra, Richard (eds.), Political Economy and Global
Capitalism: The 21st century, Present and Future. Anthem Press, 2007.
[1] Brenner, Robert. "The economics of global turbulence: a special report on
the world economy, 1950-98". New Left Review, no 229, mai.-jun. 1998; Arrighi, Giovanni. The long Twentieth Century: money, power, and the
origins of our times. Londres/ Nova York: Verso, 1994 [ tradução brasileira: O longo século XX: dinheiro, poder e as origens
do nosso tempo. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro/ São Paulo: Contraponto/
Unesp, 1996] ; David Harvey. The conditions of postmodernity:
an enquiry into the origins of cultural change. Oxford Blackwell, 1989
[ tradução brasileira: A condição pós-moderna: uma pesquisa
sobre as origens da mudança cultural. 9ª. ed. Trad. Adail Sobral e Maria E.
Gonçalves. São Paulo: Loyola, 2000] .
[2] Ver Harvey, op. cit., p. 135 [trad. brasileira: p. 131. Daqui em diante as
referências de páginas entre colchetes serão das traduções brasileiras citadas
(N. T.)].
[3] Brenner, op. cit., pp. 1-7.
[4] Ibidem, p. 36.
[5] Ibidem, pp. 8, 18.
[6] Ibidem, pp. 18-24.
[7] Ibidem, pp. 23 e ss.
[8] Ibidem, pp. 8-11.
[9] Ibidem, pp. 91 e ss.
[10] Ibidem, pp. 27 e ss.
[11] Brenner caracteriza a Escola da Regulação como "malthusianismo de
esquerda", que situa a origem da lucratividade decrescente da economia na queda
do dinamismo produtivo do paradigma tecnológico fordista. Ver Brenner, Robert.
"Reply to critics". Comparative Studies of South Asia, Africa, and the Middle
East, vol. XIX, no 2, 1999, p. 62.
[12] Brenner, "The economics of global turbulence", op. cit., p. 8.
[13] Ibidem, p. 11.
[14] Para uma elaboração mais extensa desses argumentos, ver Postone, Moishe.
Time, labor, and social domination. Cambridge / Nova York: Cambridge University
Press, 2003.
[15] Arrighi, op. cit., p. xi [p. ix].
[16] Ibidem.
[17] Ibidem, p. xi [p. xi].
[18] Tilly, Charles. Big structures, large processes, huge comparisons. Nova
York: Russell Sage, 1984, p. 147, apud Arrighi, op. cit., p. xi [p. ix].
[19] Arrighi, op. cit., p. 10 [p. 10].
[20] Ibidem, p. 9 [p. 10].
[21] Ibidem, pp. 255-258 [pp. 263-266].
[22] Ibidem, pp. xi, 6 [pp. xi, 6].
[23] Ibidem, pp. x, 5-6, 214-238 [pp. 5-6, 218-245].
[24] Ibidem, pp. 214-238 [pp. 218-245].
[25] Ibidem, pp. 23, 355-356 [pp. 23, 370-371].
[26] Ibidem, pp. 10-11 [pp. 10-11].
[27] Marx, K. Capital, vol. III. Trad. D. Fernbach. Harmondsworth: Penguin
Books, 1981, pp. 317-375 [ trad. brasileira: O capital:
crítica da economia política, vol. III, t. 1. Trad. Regis Barbosa e Flávio R.
Kothe. São Paulo: Abril Cultural, 1983 (Os economistas), pp. 161-200] .
[28] Brenner, "The economics of global turbulence", op. cit., p. 11.
[29] Arrighi, op. cit., pp. 222-223 [p. 227].
[30] Ibidem, p. xii [p. xii].
[31] Harvey, op. cit., pp. 160 e ss. [pp. 152 e ss.]. Como um aparte, deve ser
notado que tanto Harvey como Arrighi têm uma crítica das finanças que não é
romântica nem reacionária. Ambos tratam as finanças como produto do capital,
não como algo separável da e imposto à produção capitalista.
[32] Ibidem, p. 163 [pp. 154-155].
[33] Ibidem, pp. 164-165 [pp. 156-157].
[34] Ibidem, p. vii [p. 7].
[35] Ibidem, pp. 124, 147, 186 e ss. [pp. 119, 140, 174 e ss.]. Para a noção de
"especialização flexível", ver Piore, Michael e Sabel, Charles. The second
industrial divide. Nova York: Basic Books, 1984.
[36] Harvey, op. cit., pp. vii, 39 e ss., 113 e ss., 336 e ss., 350 e ss. [pp.
7, 45 e ss., 109 e ss., 301 e ss., 315 e ss.].
[37] Ibidem, pp. 201 e ss. [pp. 187 e ss.].
[38] Para uma discussão mais completa, ver Postone, op. cit.
[39] Harvey, op. cit., pp. 180-183 [pp. 169-172].
[40] Ibidem, pp. 184 e ss. [pp. 173 e ss.].
[41] Ibidem, pp. viii, 201-325 [pp. 9, 185-289].
[42] Esta abordagem não é limitada à análise de teorias, mas também serve como
ponto de partida para uma análise de visões de mundo ou ideologias
disseminadas. Poderia, por exemplo, começar a relacionar a crescente
fragmentação global da sociedade capitalista em setores pós-industriais e
setores cada vez mais marginalizados com a ascensão, por um lado, de políticas
de identidade dentro de uma moldura pós-moderna e, por outro, de várias formas
de "fundamentalismo".