O mercado de trabalho antes de 1930: emprego e "desemprego" na cidade de São
Paulo
O objetivo deste artigo é apresentar o lugar, o período, com quem e como se
estruturou o primeiro núcleo de mercado de trabalho não-abortado no Brasil. Os
dados utilizados referem-se, em grande medida, ao Recenseamento Geral de 1920.
A cidade de São Paulo chegara a um razoável grau de estruturação do mercado de
trabalho no período pré-1930, se comparada ao restante do país, o que, em
grande medida, se devia à posição estratégica ocupada por esta capital no
sistema econômico regional e nacional. Ainda que tal fato possa ser visto como
um avanço em termos socioeconômicos, optamos por realçar o outro lado da
questão: algumas das características desse mercado de trabalho que figurarão no
período posterior como a marca de nosso subdesenvolvimento baixos salários,
insegurança ocupacional e magnitude expressiva do setor não-organizado ,
apesar do elevado crescimento econômico e da expansão do emprego formal, já
despontam, em São Paulo, no período anterior a 1930.
Antes de especificarmos as características da formação desse mercado de
trabalho pioneiro, vale apontar, de forma esquemática, as diferenças de São
Paulo com relação ao restante do país. Ao se iniciar o último quartel do século
XIX, o trabalho "livre" no Brasil ocupava tão-somente alguns espaços abertos
pelos mercados de trabalhos fragmentados e regionais das cidades, destacando-se
os imigrantes assalariados em setores específicos, nas regiões mais dinâmicas;
ou se encontrava vinculado ao regime de pequena propriedade rural no extremo
sul do país, também sob predomínio da mão-de-obra estrangeira. No mais,
processava-se a incorporação de ex-escravos e trabalhadores livres pobres nas
áreas rurais em regiões estagnadas e sem terras disponíveis, como no Nordeste,
nos marcos de uma ordem social repressora e autoritária2, onde o salário era
quando muito a máscara sob a qual se afirmava a imposição do quase-empregador
soberano, em virtude do caráter avassalador das relações não-capitalistas.
Em São Paulo, o espraiamento da elástica oferta de mão-de-obra do campo para o
núcleo urbano, sediado na capital paulista, junto à expansão e diversificação
da atividade industrial, permitiria a emergência do primeiro locus não-abortado
de transação de força de trabalho do país, que, além de se caracterizar pela
diferenciação social das atividades e por uma escala mínima de níveis
salariais, internalizou de forma peculiar os mecanismos de uma economia de
mercado capitalista. Começavam então a se destacar as silhuetas do patrão e do
trabalhador assalariado3 no bojo do primeiro surto industrial, ainda no século
XIX. Ou melhor, em São Paulo, os móveis dos agentes econômicos já se pautavam
pelos padrões típicos do empresário e do trabalhador livre da civilização
capitalista.4
Em 1907, a capital paulista contaria com 14.614 operários (10% do Brasil), para
chegar a um montante quase quatro vezes superior em 1920: 54.935 operários
industriais, que representavam então 20% do operariado industrial do país. Os
operários assalariados da indústria respondiam por 27% da ocupação em São
Paulo, um índice quase dez vezes superior ao verificado para o conjunto do país
(Tabela_2). No caso dos assalariados totais (indústria mais transportes,
finanças e setor público), a sua participação na ocupação paulistana seria de
40%, contra 8% para a média nacional (Tabela_2). Ressalte-se que o
assalariamento industrial representava dois terços do total de assalariados em
São Paulo, contra um terço para o conjunto do país. Se, no Brasil, o operariado
ainda se mostrava essencialmente composto por trabalhadores do setor de
serviços públicos, financeiros e de infra-estrutura5, na quase-metrópole
paulistana os estabelecimentos industriais já concentravam a maior parte desses
trabalhadores. Se agregarmos aos estabelecimentos industriais os trabalhadores
ocupados nas pequenas empresas e oficinas artesanais, contabilizados pelo Censo
Demográfico de 1920, chegamos a um total de 100.388 trabalhadores paulistanos
no setor manufatureiro/industrial, o que corresponde a 49,3% dos empregos
existentes na cidade.
Conclui-se, portanto, que mais de 50% dos empregos "industriais" da capital
paulista eram compostos de operários assalariados, enquanto o restante dessa
mão-de-obra estava inserida em oficinas e atividades artesanais do chamado
setor não-organizado.6
O contraponto com o Distrito Federal revela tendências profundamente diversas:
a despeito de a então capital do país possuir uma mão-de-obra manufatureira/
industrial 54% superior à paulistana, a participação desse setor no total da
população ocupada apresentava-se inferior, ao redor de 32%. Ou seja, São Paulo
despontava como metrópole industrial, enquanto a capital brasileira poderia ser
descrita como uma metrópole de serviços com base industrial estabilizada.
Oliveira Vianna7 percebeu as diferenças entre ambas as trajetórias: enquanto
São Paulo caminhava para uma "evolução supercapitalista da sua estrutura", no
sentido da concentração industrial, o Distrito Federal cresceria de forma menos
dinâmica, ancorado na reprodução extensiva da pequena burguesia industrial e
das classes médias, estas em grande parte dependentes do aparelho estatal.
A participação conjunta das duas cidades no emprego manufatureiro/industrial
situava-se pouco acima de 20% em 1920, ao passo que se considerarmos apenas os
operários assalariados na indústria, este percentual sobe para cerca de 40%. Ou
seja, no restante do Brasil, predominantemente rural, o trabalho assalariado
ainda era fenômeno marginal, estando os trabalhadores submetidos a várias
modalidades de subordinação indireta ao capital.
Mas voltemos a São Paulo. Com quem foi preenchido o mercado de trabalho urbano
paulistano já em rápida ascensão na virada do século? Basicamente com os
imigrantes, provenientes das fazendas de café e atraídos pelas maiores
possibilidades de ganho na quase-metrópole ou ainda por meio da entrada
expressiva de estrangeiros espontâneos durante a primeira década do século XX8.
Os imigrantes representavam, em 18939, 68% dos trabalhadores ocupados na cidade
de São Paulo, contra 49,5% em 192010. Totalizavam, nesse último ano, 100.821
trabalhadores, com destaque para o setor primário (agricultura, criação e
minas), no qual 62,5% dos empregos eram ocupados pelos imigrantes, e para o
setor manufatureiro/industrial, especialmente nos segmentos de metalurgia
(52,2% do total), produtos químicos (53,4% do total), alimentação (69,9% do
total) e edificação (64,3% do total). No setor de serviços, predominavam os
estrangeiros nos segmentos de transportes e comércio, em que respondiam,
respectivamente, por 62,7% e 63,6% do total dos trabalhadores ocupados.
Já os trabalhadores brasileiros destacavam-se no setor de serviços,
concentrando-se nas atividades de correios, telégrafos e telefones, dos quais
participavam com 85,5% do total de empregos, na força pública (90,7% do total),
administração pública (78,2% do total), profissões liberais (70,8% do total) e
serviços domésticos (63,1% do total). Nos segmentos industriais, possuíam papel
de destaque os naturais do Brasil nas indústrias de couros, cerâmica, vestuário
e de luxo (tipografia, joalheria, ourivesaria e instrumentos musicais). A
grande participação dos brasileiros nos serviços domésticos totalizando cerca
de 10 mil trabalhadores e quase 10% do total de ocupados nacionais em São Paulo
é um bom indicador tanto do excedente de força de trabalho como da
concentração de renda. Em termos relativos, São Paulo possuía 4,3% dos
trabalhadores domésticos do país, contra os 2,5% da sua participação na PEA
nacional (Tabela_2).
Merece destaque a presença relativa na capital paulista tanto do setor mais
dinâmico da estrutura de emprego operários assalariados da indústria como
daquele mais fragilmente integrado, os empregados domésticos. Esses dois elos
compunham, de fato, a especificidade da estrutura social paulistana.
No início da segunda década do século XX, emergia um mercado de trabalho ainda
indiferenciado no centro dinâmico paulistano. Percebia-se, com efeito, uma
diferenciação técnica para os trabalhadores qualificados da construção civil,
das oficinas gráficas, metalúrgicas (os ferramenteiros, moldadores e
fundidores), das fábricas de vidro e têxteis (tecelões e controladores de
produção), como também era o caso do pessoal do acabamento na indústria de
móveis11, mas ainda assim o segmento de trabalhadores não-especializados
despontava como predominante. Tratava-se de uma massa urbana não plenamente
convertida à disciplina do trabalho.
A rápida montagem da estrutura industrial indicava um mercado de trabalho muito
pequeno em relação à população ativa urbana. Nesse contexto, a especialização
do posto de trabalho mostrava-se restrita às atividades de natureza artesanal.
Como resultado, percebia-se uma transformação apenas parcial da mão-de-obra no
sentido do assalariamento e uma mobilidade permanente do excedente de mão-de-
obra não incorporado ao setor capitalista12.
Não se havia logrado passar da condição proletária, de quase exclusão do corpo
social, para uma condição operária, caracterizada pela integração na
subordinação13. Essa precariedade, contudo, não se devia a um suposto
acanhamento do capitalismo no centro dinâmico; ao contrário, desnudava um traço
da sua pujança, qual seja, o da multiplicação da população para o capital. O
assalariamento, apesar de sua precariedade, assumia o caráter de privilégio
econômico e social14. E o exército industrial de reserva, de tão extenso,
perdia capacidade explicativa como conceito.
Vale ressaltar que a relação entre o mercado de trabalho paulistano e as
regiões agrícolas do seu entorno, no período pré-1930, afigurava-se especial. O
mercado de trabalho urbano mantinha-se permanentemente irrigado de novos
contingentes de mão-de-obra, tanto nos momentos de alta como de crise do café.
Ou seja, previamente à arrancada industrial de 1905, o município de São Paulo
já dispunha de um volumoso exército de reserva15 para a expansão do capital.
Tal fato pode ser verificado quando calculamos a taxa da "população sem
trabalho"16 para a capital paulista em 1920, que atingia 15,2% da PEA,
totalizando cerca de 37 mil pessoas contra uma taxa nacional de 4,4%. O
dinamismo da oferta era de tal ordem em São Paulo que a taxa dos "sem-trabalho"
já superava a verificada no Distrito Federal, de cerca de 7%, ainda que os
valores em termos absolutos fossem muito próximos nas duas cidades (Tabela_1).
Cumpre enfatizar que esta "taxa de população sem trabalho" não pode ser
encarada como uma taxa de desemprego propriamente dita, pois o assalariamento
ainda não havia se generalizado. Entre o emprego assalariado e o não-emprego,
proliferavam várias modalidades intermediárias de inserção. A título de
analogia, pode-se dizer que a "desocupação", quando muito, assumia aqui a forma
guardadas as devidas proporções do que hoje se classifica como desemprego
oculto. Depreende-se ainda que a taxa da população sem trabalho dos imigrantes
era idêntica à dos brasileiros na capital paulista, indicando que as
possibilidades de ascensão social via emprego assalariado ou autônomo ainda
que não desprezíveis se apresentavam restritas. Como se tratava de um mercado
de trabalho "apertado" e de elevada rotatividade, ainda que em expansão, "a
falta de trabalho" poderia incidir sobre o trabalhador recém-chegado do campo,
o trabalhador urbano pouco especializado e até mesmo sobre o artesão em
processo de desclassificação social. De fato, em alguns bairros da cidade, os
italianos se encontravam apinhados em cortiços ao lado dos antigos escravos
marginalizados.17
Outro indício de forte pressão da oferta de trabalho nesse espaço urbano pode
ser encontrado na elevada taxa de participação paulistana 60,7% para os
brasileiros e 62,4% para os imigrantes bastante acima do verificado para o
conjunto do Brasil (53,1%), segundo os dados do Censo de 1920.
Se não podemos chamar de desempregados os trabalhadores potenciais em excesso,
não se pode negar a sua contribuição para a compressão salarial, ainda que essa
relação não se manifeste de forma plena e direta. Nesse mercado de trabalho
embrionário, diante da ausência de fatores compensadores, e prevalecendo um
expressivo excedente estrutural da oferta, a taxa de salários tendia, por um
lado, a se situar nos níveis inferiores do espectro de possibilidades definidas
pela acumulação de capital. Por outro lado, esse excedente se refletia sobre a
taxa de rotatividade e o nível de dispersão salarial, exponenciando-os ao
máximo. Verificava-se ainda uma extrema fluidez da oferta de trabalho: a
exclusão temporária do mercado podia subitamente se converter em participação,
ocasionando alterações bruscas na disponibilidade de mão-de-obra em virtude da
assimilação dos inativos.
De fato, o excedente era vasto segundo qualquer critério de aferição. Em 1914,
ano recessivo, o jornal Fanfulla descreve a situação dos "desempregados", que,
de acordo com diversas fontes da época, oscilavam de 10 a 25 mil pessoas18.
Nesse ano, teriam retornado ao campo vários tecelões, mecânicos, chapeleiros,
alfaiates, pedreiros e vendedores ambulantes, os quais não conseguiam preservar
sua posição no mercado de trabalho.
Chegamos agora ao "como", ou seja, às peculiaridades do mercado de trabalho
paulistano no período pré-1930, marcado pelo contínuo excedente da oferta, alta
instabilidade do emprego e flexibilidade dos salários, ausência de legislação
trabalhista e uso indiscriminado de mulheres e crianças, perfazendo extensas
jornadas. Tais características encaixam-se na condição proletária, tal como
definida por Robert Castel: remuneração próxima de uma renda mínima, que
assegura quando muito a reprodução do trabalhador e de sua família; ausência de
garantias legais na situação de trabalho, regida pelo contrato de locação de
serviços; caráter lábil da relação do trabalhador com a empresa; e a mudança
freqüente de ocupação, desempenhando o trabalhador atividades de caráter
eventual e ficando "desempregado" alguns dias da semana ou durante períodos
mais ou menos longos19.
O excedente estrutural de força de trabalho explica apenas em parte a
instabilidade do emprego e a flexibilidade salarial. Nas primeiras décadas do
século XX, a indústria paulistana ainda apresentava-se atomizada em
estabelecimentos artesanais, pouco articulados, dependendo diretamente dos
produtos fornecidos pelo exterior. Enfim, armara-se uma estrutura industrial
especialmente fluida, sem dinâmica própria, mais justaposta que organicamente
integrada20. Nesse contexto, a demanda de trabalho era pouco sensível aos
ciclos econômicos, ao menos se comparada a uma economia industrial consolidada.
Como boa parte das pequenas e médias empresas, predominantes até os anos 1920,
produzia sob encomenda, instaurava-se um regime de extrema flexibilidade
ocupacional em termos de número de trabalhadores e de horas trabalhadas. Diante
das crises conjunturais, quando se contava com estoques expressivos, prevalecia
uma completa indiferença com respeito à retenção de força de trabalho. Cortava-
se o número de dias de trabalho e de tarefas, barateando o salário efetivamente
pago, até que o fechamento da empresa levasse à demissão como última
alternativa21. Não destoavam desse quadro geral nem mesmo os setores
industriais que abrigavam o núcleo duro do operariado emergente têxtil,
alimentação e vestuário , os quais empregavam cerca de 70% do total de
operários industriais em estabelecimentos com mais de oito empregados no estado
de São Paulo22.
Quanto à elite da classe trabalhadora, em virtude do alto grau de
especialização e da característica dos empreendimentos geridos por pequenos
empreiteiros que dependiam da rápida entrega das obras contratadas , esta era
composta por trabalhadores da construção civil: pedreiros, marmoreiros e
pintores, preferencialmente italianos23. Possuíam, via de regra, salários mais
altos e maior poder organizativo, além de se beneficiarem de uma demanda de
trabalho geralmente crescente. Eis um dos poucos espaços preservados da
irregularidade ocupacional. A criação de um "mercado de trabalho interno"24
nesses segmentos, nos quais predominavam os estrangeiros, fez com que os
trabalhadores da construção civil obtivessem, já em 1907, a jornada de oito
horas25.
Ao contrário, no setor têxtil, caracterizado pela maior freqüência de greves
as quais, até 1917, em sua grande maioria, fracassaram, culminando com a
demissão em massa dos ativistas , o recrutamento da mão-de-obra se dava num
amplo "mercado de trabalho externo", preenchido pelo exército de reserva
disponível, composto de mulheres e crianças. Aqui, a instabilidade e a
irregularidade predominavam, pouco se diferenciando esse segmento de
trabalhadores assalariados da legião de trabalhadores autônomos regulares dos
serviços e do comércio, os quais por sua vez mal se apartavam dos autônomos
essencialmente irregulares26.
Portanto, por sobre as eventuais fronteiras, predominava uma fluidez
acachapante. Guardadas as enormes diferenças sociais e econômicas, e o próprio
nível de estruturação do mercado de trabalho, esse quadro guarda alguma
semelhança com o da cidade de São Paulo dos anos 1990, quando três quartos dos
indivíduos economicamente ativos mudaram de situação no mercado de trabalho,
incluindo tanto a mobilidade nos limites do mercado de trabalho (entre ocupação
e desemprego) quanto aquela que extravasa os mesmos (entre situações de
atividade e inatividade)27. Não se trata de uma volta ao passado, mas da
retomada das transições entre situações do trabalho sem padrão definido, tal
como se mostrava corriqueiro no mercado de trabalho paulistano antes de sua
plena, mas frágil estruturação.
Analisemos com mais detalhe agora os segmentos ocupacionais do mercado de
trabalho paulistano, com base nos dados de 1920. O emprego público já abarcava
cerca de 5% da força de trabalho total, se considerarmos apenas a administração
e a força públicas. Ressalte-se que os trabalhadores da força pública eram, em
grande medida, homens mal-pagos, com uma grande concentração de nacionais. As
ocupações que exigiam formação técnica/superior e nas quais os profissionais
liberais tinham um papel de destaque médicos, advogados e professores, dentre
outros perfaziam um percentual de 7% da estrutura ocupacional. Tal parcela da
classe média mostrava-se inicialmente menos permeável à entrada dos imigrantes,
que representavam apenas 27,2% desses postos de trabalho.
Aos poucos, contudo, os imigrantes também predominariam em ocupações como
médicos, advogados, engenheiros, arquitetos e professores28. Além disso, havia
os trabalhadores do comércio "organizado" que assumindo-se a sua participação
em 55% do total do setor, tal como na indústria perfaziam 8% dos ocupados.
Nesse caso, percebe-se uma participação expressiva dos imigrantes, de cerca de
60% do total.
E, por último, os trabalhadores a maioria dos quais assalariados que
estavam empregados nas atividades de transportes, correios, telégrafos e
telefones e serviços financeiros, com cerca de 8% do total.
Em outras palavras, somando-se os grupos ocupacionais do setor de serviços
anteriormente descritos, estima-se que 28% da população ocupada estivesse
alocada em empregos relacionados à circulação do capital, à montagem do
aparelho do Estado, à infra-estrutura urbana ou à prestação de serviços
pessoais qualificados. Em suma, funcionários públicos, profissionais liberais,
assalariados fora da indústria e no comércio organizado. Essa "classe média"
originara-se da conjunção de três processos inter-relacionados imigração,
urbanização e burocratização. Ressalte-se que, no momento da constituição desse
mercado de trabalho, verificava-se ainda uma indistinção entre algumas frações
da classe média e o proletariado urbano29, especialmente no caso da baixa
classe média, composta pelos funcionários públicos, trabalhadores do comércio e
dos transportes.
Outros 27% dos trabalhadores ocupados, como vimos, eram operários assalariados
da indústria, a base dos que possuíam uma classificação ocupacional, ainda que
não tivessem qualquer tipo de proteção do seu emprego.
Encontramos, desta forma, um núcleo de 55% do total de trabalhadores ocupados
conformado pelos assalariados privados da indústria e dos serviços de produção,
do setor público, profissionais liberais ou como autônomos regulares do
comércio (gráfico 1). Um núcleo diga-se de passagem ainda pouco
diferenciado, sem posições sociais plenamente estabilizadas e geralmente
marcado pela precariedade do emprego; os demais 45% dos ocupados compunham o
núcleo fluido30 e viviam num estado de desclassificação ocupacional permanente,
configurando o que Sylvio Floreal chamou, em 1925, de "formidável choldra
anônima e circulante"31.
Se somarmos uma parte desse núcleo fluido descontando metade do universo do
segmento não-organizado de trabalhadores industriais, já que alguns artesãos,
especialmente dos setores menos mecanizados, possuíam uma inserção social menos
precária à população sem trabalho, chegamos a uma aproximação da dimensão do
exército industrial de reserva, equivalente a 105 mil pessoas, perfazendo 43,9%
da PEA.
Lembremos ainda que a população sem trabalho representava 35% desse excedente
estrutural de força de trabalho, enquanto os demais 65% seriam preenchidos
pelos trabalhadores mais instáveis do núcleo fluido, geralmente não-
assalariados. Gestava-se, assim, na São Paulo pré-1930, o embrião do futuro
"sub-proletariado moderno"32, já que apenas parcela desses trabalhadores se
incorporaria aos segmentos assalariados no período pós-1930, pautado pela
dinâmica da industrialização.
Nessa São Paulo em processo de estruturação de um mercado de trabalho genuíno,
o setor de serviços já aparecia marcado pela heterogeneidade. De um lado, as
atividades relacionadas à expansão do capital (grande comércio, transportes,
utilidade pública e setor financeiro) e ao consumo das elites; de outro, um
aglomerado de trabalhadores marcados pela experiência cumulativa da
improvisação e pela desclassificação profissional, vinculados ao pequeno
artesanato e ao comércio ambulante de gêneros de consumo. Transformavam-se em
verdadeiros andarilhos em busca de trabalho, mantendo-se em constante movimento
do campo para a cidade e vice-versa33.
Verificava-se nesses segmentos de trabalhadores um deslocamento ocupacional
constante. Verdadeiros faz-tudo, especialmente os italianos de baixa renda,
desdobravam-se em artesãos, mecânicos, alfaiates, dentre outras atividades.
Acumulavam empregos, estendendo o quanto possível a jornada de trabalho, como
no seguinte exemplo mencionado por Carlo Castaldi34: um fruteiro que revendia
pelas ruas e também acendia e apagava lampiões. Depois passara a operador de
máquina, enquanto recebia os aluguéis dos proprietários de casas na rua do
Gasômetro. Também os portugueses vivenciaram esse cotidiano de improvisação,
destacando-se os serralheiros, empalhadores de móveis e os trabalhadores
envolvidos numa infinidade de ofícios itinerantes de manutenção e conserto,
além dos fruteiros e verdureiras presentes no comércio ambulante35.
Em síntese, a assiduidade não havia se introjetado como valor. Dinheiro e
segurança eram apenas dois fatores dentre uma série ampla de incentivos que
regulavam a vida social desses trabalhadores. Um relato de 1914 descreve essa
realidade: "fica-se admirado com a facilidade com que o mesmo operário muda de
profissão, sendo sucessivamente pedreiro, carpinteiro, marceneiro, mecânico,
não importa este ou aquele ofício"36. Portanto, a não-especialização afigurava-
se corriqueira. Eram leiteiros e verdureiros empurrando suas carrocinhas,
vendedores de gelo, ovos, fruteiros, peixeiros, caixeiros dos armazéns em busca
de encomendas, amoladores de faca, zangões, carteiros, garrafeiros,
tintureiros, lenheiros, empalhadores, baleiros, mascates com seus baús de
miudezas a tiracolo e mais vendedores de castanha assada ao forno, amendoim,
perus e frangos e de balaios e cestos de vime37, espremidos entre os seus
fornecedores e o baixo nível de renda dos consumidores. De 1915 em diante
apareceram os fotógrafos, os camelôs, os vendedores de bilhetes, ao passo que a
legião de engraxates foi aos poucos se encolhendo38.
Alguns destes trabalhadores eram explorados pelo capital comercial, por meio de
laços de subcontratação, enquanto outros atuavam livres dessa exploração, o que
não lhes assegurava melhores condições de vida ou trabalho. Enfim, vicejava uma
"classe urbana dependente"39, vivendo na insegurança econômica constante e sem
pauta comum de reivindicações. Tratava-se tipicamente de um subproletariado,
pois o que os definia não era a posição diferencial na estrutura social como
classe40, mas antes uma situação de alijamento.
Outros conseguiram se fixar como trabalhadores autônomos regulares não
subordinados ao capital ou até como pequenos empregadores, transmitindo seu
ofício para os filhos, como marceneiros, carpinteiros, tanoeiros, padeiros,
alfaiates, sopradores de vidro e vendedores de sapatos, ferragens, alimentos e
tecidos41. Conformariam um subgrupo da pequena burguesia, separando-se
gradativamente do proletariado. Como no caso dos portugueses que do comércio
ambulante ou das feiras livres ascenderam à posição de atacadistas, ou das
donas de pensão também geralmente de origem lusa42. Apesar dessa profusão de
pequenos profissionais autônomos havia também os vidraceiros, gravadores de
placas, fazedores de luvas ou chapéus, confeccionadores de arreios , a sua
inserção na hierarquia social era variada, dependendo o seu nível de renda e a
sua estabilidade no "emprego" de um conjunto de fatores, tais como o perfil da
demanda, o grau de especialização, a independência com relação ao capital
comercial, o tamanho da freguesia e do "estabelecimento" e o nível de mudança
tecnológica observado no ofício43.
A eventualidade grassava, interiorizando-se a insegurança ocupacional.
Operários, trabalhadores domésticos, além dos próprios autônomos,
complementavam sua renda vendendo roupas e alimentos, prestando serviços a
domicílio e consertando o que aparecesse pela frente44. As costureiras
abundavam: as máquinas de costura não faltavam nas casas de gente pobre45,
pequeno "capital" a gerar um minguado fluxo de renda. O ideal de ascensão
social das meninas pobres era se transformar numa "costureira chique"46. Os
trabalhos temporários se disseminavam também na figura das lavadeiras,
engomadeiras, meninas vendedoras de doces e meninos engraxates. O trabalhador
comportava-se mais como consumidor especialmente nesse estágio em que havia
poucas variações na situação de classe operária , buscando se libertar do
baixo nível do salário, da miséria e da degradação social, por meio de fontes
complementares de renda, assalariadas ou não. Identificavam-se material e
moralmente com a economia de consumo47, o que contribuía para atenuar as
contradições de classe.
Nessa época, porém, o trabalho autônomo já não podia ser pensado fora de uma
relação determinante pautada pela equação capital/força de trabalho48, pois, em
última instância, dependia da renda gerada nesse circuito. E mais, o
crescimento horizontalizado desse amplo setor de serviços, vinculado à
"economia de subsistência urbana", adequava-se à expansão do setor capitalista
e ampliava a sua taxa de acumulação, ao invés de se opor a ela.49
Era também corriqueiro o trabalho domiciliar reinventando-se assim o sistema
putting-out no espaço urbano , em que os quartos alugados se transformavam em
oficinas e a remuneração se dava por empreitada, como nos segmentos de produção
de lingerie, telas, chinelos e tecidos para bordados50. Procedia-se então a uma
brutal interpenetração entre a esfera pública e a privada. Não faz sentido,
todavia, caracterizar o trabalho temporário ou domiciliar como componente de um
"setor informal", já que não havia distinção expressiva com relação às
condições de trabalho e de reprodução social do também inexistente "setor
formal". A maioria daquelas atividades estava subordinada ao movimento do
capital de forma direta ou indireta e não se diferenciava essencialmente da
rotina na fábrica.
Adicionalmente, a qualificação não se apresentava como diferencial para a
seleção da oferta de trabalho, pois a própria indústria se incumbia do preparo
de boa parte da mão-de-obra51. A vantagem dos imigrantes estava propriamente no
fato de que o meio social estava mais "preparado" para recebê-los52, pois por
preconceitos sociais e raciais descartavam-se os ex-escravos e os trabalhadores
nacionais. Além disso, o tipo de estrutura familiar do imigrante permitia uma
retribuição múltipla e coletiva, por meio da elevação da taxa de atividade ao
máximo limite possível. Ainda que os estrangeiros possuíssem um maior nível de
alfabetização na capital paulista, as habilidades do trabalho não giravam em
torno da instrução53. Tratava-se mais de uma questão de demanda que de oferta.
Os empregadores "preferiam" porque podiam optar trabalhadores brancos,
pobres, pouco exigentes e cuja família também fizesse parte da população
economicamente ativa. Nesse sentido, cabe ressaltar que quase a metade dos
trabalhadores empregados em trinta tecelagens da metrópole paulistana no ano de
1912 não sabia ler nem escrever54.
Paralelamente, o processo de metropolização de São Paulo, simultâneo à
estruturação paulatina do mercado de trabalho urbano, trazia uma realidade de
estranhamento, reposicionamento e reajustamento ao novo meio social. Os
extremos da escala social se distanciavam, ao passo que a cidade-fluxo
paulatinamente cuidava de embaçar os mecanismos tradicionais de status55. A
inserção dos imigrantes na pequena indústria e no pequeno comércio, assim como
nas ocupações das classes médias profissionais, acabaria por desalojar parte da
pequena burguesia nacional. Daí os ataques nacionalistas, que transformavam
"galegos", "carcamanos" e "polacos" em adjetivos pejorativos56. De fato, os
imigrantes aproveitaram-se das novas possibilidades oferecidas pela quase-
metrópole, passando por um verdadeiro processo de desdobramento social. Além de
uma classe média de base rural no interior, preencheram as novas funções de
operários, capitalistas e da nova classe média tipicamente urbana57.
Quanto aos antigos "caipiras" migrados do campo, estes buscaram se enquadrar
nas atividades vinculadas à expansão dos pequenos serviços e vendas, as quais
apareciam, no entanto, cada vez mais controladas, de um lado, pelos
"chacareiros", muitos dos quais portugueses; e de outro, pelos açambarcadores.
Já os ex-escravos tinham de se virar, muitas vezes "criando" as suas próprias
ocupações, como carregadores, limpadores de quintal, carpidores de ruas,
lavadores de automóveis, engraxates, além dos tradicionais serviços
domésticos58.
Neste sentido, a concorrência por um lugar ocupacional mostrava-se longe de ser
perfeita. Antes pelo contrário, os grupos sociais carregavam consigo atributos,
predisposições e origens que os diferenciavam. Porém, a cidade, e o mercado de
trabalho, não era de negros, brancos ou mestiços; nem de estrangeiros ou
brasileiros59. Era de todos e de ninguém, porém mais de uns do que de outros.
Tratava-se, em suma, de um mercado de trabalho igualmente distante das
situações extremas de leilão e de regulamentação estrita de preços e profissões
a partir de convenções coletivas ou da ingerência do Estado. A inexistência de
direitos trabalhistas nesse mercado de trabalho em processo de fazimento
indicava tão-somente um falso liberalismo. Isso porque uma poderosa
"interferência externa" assegurava a fixação dos salários pelos empregadores, a
partir das hierarquias sociais estabelecidas. Ou seja, pagava-se não tanto
pelas tarefas exercidas, mas de acordo com a idade e o sexo para uma mesma
unidade de trabalho60. A lei era ditada e aplicada pelo capitalista, que
ordenava o mundo do trabalho, fixando os critérios de remuneração e os
regulamentos internos sobre as condições de trabalho. Para além da existência
de uma oferta de trabalho abundante e de critérios sociais rígidos e
arbitrários de remuneração, a definição dos níveis salariais dependeria, em
última instância, do grau e força da organização sindical, da composição
orgânica do capital e do ritmo de expansão da acumulação.
Ora, os sindicatos possuíam uma situação tão instável como a indústria e o
mercado de trabalho que os haviam engendrado. Segundo Antonio Piccarolo,
"surgiam como cogumelos depois da chuva abundante, para cair depois no mais
completo esquecimento"61. Nos setores nos quais os sindicatos mostravam-se mais
débeis e o trabalho menos especializado, mecanismos coercitivos como a
intimidação pessoal e as "listas negras" tornavam os salários contratuais quase
fictícios. Além disso, a mecanização barateava a mão-de-obra, tornando possível
o uso da mão-de-obra feminina e infantil. Para os empregadores, a fórmula para
o aumento da produtividade até os anos 1930 se resumia na mecanização somada a
um controle rígido da força de trabalho.
Em síntese, num cenário socioeconômico de frágil organização sindical e
caracterizado por estabelecimentos instáveis, mão-de-obra heterogênea,
predominantemente jovem, excedente elástico de mão-de-obra e manutenção de
laços patriarcais , tornava-se quase impossível regular os níveis de salários
e assegurar um mínimo de estabilidade no emprego. Os contratos eram verbais,
não havia férias, licença-gestante, auxílio-doença, descanso remunerado,
limitação da jornada de trabalho ou indenização por dispensa. Como não dispunha
de regime de aposentadoria, o trabalhador deveria recorrer a uma poupança
voluntária se quisesse se precaver dos infortúnios trazidos pela inatividade
inesperada e pela velhice, ou então se curvar à mendicância e aos asilos. A
intensidade do trabalho gerava trabalhadores desgastados rapidamente "velhos"
sem relação direta com a idade biológica.
Não existiam saídas jurídicas para a cobrança de salários atrasados ou para o
questionamento das multas por falta de assiduidade, pontualidade e outros
motivos. Muitas vezes os salários eram manipulados, pois o pagamento por peça
apresentava-se usual: podia-se assim elevar a renda nominal, porém acrescendo a
produção mínima e o grau de intensificação do trabalho. Por outro lado, os
prêmios estabeleciam uma concorrência entre os trabalhadores e definiam um novo
padrão de conduta e disciplinamento do trabalho62. Havia ainda tentativas de se
abater o montante do capital variável por meio da construção de vilas
operárias, onde os aluguéis eram cobrados a preços reduzidos em relação aos de
mercado, desenvolvendo novas relações de dependência pessoal e não propriamente
contratuais. Ou então as concessões sob a forma de armazéns, escolas, creches,
farmácias e restaurantes, e até mesmo de igrejas e campos de esporte para os
trabalhadores63, ofuscando a relação contratual implícita e instaurando a idéia
de uma suposta comunidade entre capital e trabalho.
Os estabelecimentos de operações industriais estavam permeados de paternalismo
por todos os lados. Uma das maiores indústrias de Jaffet, em São Paulo, por
exemplo, pagava os seus operários com vales a serem descontados nos armazéns de
seus parentes64. Assim se explica também a tentativa de estímulo à pequena
lavoura em algumas vilas operárias, reinventando os padrões não-capitalistas do
regime de colonato na cidade, em troca de uma redução da renda monetária. Outro
mecanismo de transplante do colonato para a cidade pode ser encontrado na
utilização da família como unidade de trabalho, reduzindo-se por meio dessa
estratégia o salário individual e aumentando o mais-trabalho per capita.
Por essa razão fica difícil encarar as atividades femininas como o trabalho
de agulha ou as atividades domésticas em geral como meras alternativas ou
opções de vida e sobrevivência65. Funcionavam como exigência imposta pelo
capital, que remunerava salários abaixo do nível de subsistência para os
operários masculinos. Na realidade, a renda das mulheres e crianças funcionava
como uma espécie de "renda complementar do trabalho assalariado"66. Na prática,
a família viabilizava a proletarização do trabalho para o capital.
O trabalho de mulheres e crianças era corriqueiro, não contando com legislação
específica. As mulheres representavam 25% dos postos de trabalho paulistanos em
1920. Possuíam um papel de destaque na indústria e nas atividades artesanais,
especialmente no caso dos segmentos têxtil, de couros e vestuário, nos quais
respondiam por 58,3%, 78,2% e 60,8%, respectivamente, do total de empregos. No
setor de serviços, se considerarmos apenas a capital paulista, as mulheres
representavam 46,2% da mão-de-obra empregada nas atividades de correios,
telégrafos e telefones; 39% no caso das profissões liberais no magistério,
esse percentual chegava a 75% , enquanto, nos serviços domésticos, essa
participação era de 82,2% dos ocupados. Em São Paulo, o trabalho doméstico
respondia por um quarto das ocupações femininas em 1920.
As crianças e os jovens com menos de 20 anos representavam 23,6% dos empregos
em São Paulo, destacando-se nos mesmos setores que a mão-de-obra feminina, os
quais exigiam uma maior intensidade do trabalho e menor especialização da mão-
de-obra. Mesmo em segmentos do setor de serviços como transportes, comércio e
iluminação, a participação dos menores de 20 anos situava-se em 51%67. Podiam
ser encontradas crianças nas fábricas e oficinas desde os cinco anos de idade,
atuando no ramo têxtil, nas indústrias gráficas, como vendedores de jornais e
numa ampla variedade de serviços domésticos, sob a justificativa de que
precisavam "adquirir hábitos de trabalho"68. Já a taxa de população sem
trabalho dos jovens e crianças (menores de 20 anos) chegava a 19,1% em 1920, na
capital paulista, indicando o papel inquestionável destes segmentos
populacionais para a criação de um excedente estrutural de força de trabalho.
Em síntese, o mercado de trabalho brasileiro, no seu posto mais avançado,
caracterizava-se, no período pré-1930, pela extrema flexibilidade da mão-de-
obra, ausência de obrigações contratuais por parte dos empregadores e por uma
elasticidade da oferta impressionante. Os salários não eram de equilíbrio, mas
definidos pela força do empregador, dependendo também do tipo de especialização
exigido, da existência de ação sindical e do grau de avanço tecnológico. O
paternalismo e as relações não-capitalistas abundavam. O Estado que parecia
se situar fora das relações de trabalho entrava em cena nos momentos de força
organizativa da classe operária. Aliás, estivera presente desde o início do
processo, quando a subvenção aos imigrantes criara as condições para a
inundação do mercado de trabalho, para além das suas necessidades imediatas.
Outra seria a história do trabalho na São Paulo do pós-1930. O dinamismo
industrial e a regulação das relações de trabalho, ao menos do núcleo duro do
operariado, transformariam esta cidade na grande metrópole industrial do mundo
em desenvolvimento. Em 1970, um em cada quatro operários industriais do país
trabalhariam na cidade de São Paulo, totalizando cerca de 640 mil
trabalhadores69 montante quase doze vezes superior ao verificado em 1920.
Mas, sub-repticiamente, uma história paralela continuaria se fazendo sentir. A
"nacionalização" do mercado de trabalho engendrada por meio da produção de
uma mão-de-obra nacional via migrações internas, mas também pela sua reprodução
interna, parcialmente regulada pelo Estado relegaria aos nordestinos o papel
estrutural desempenhado por muitos dos imigrantes e ex-escravos de ontem.
Exército de reserva abundante, vida fora do assalariamento, paternalismo
congênito e fraqueza sindical, esses fatores possibilitariam a emergência de um
subproletariado amplo e não-residual, que conformaria o traço distintivo do
capitalismo brasileiro, mesmo, e talvez até principalmente, no seu núcleo
dinâmico.
[1] Este artigo é uma versão resumida de parte do capítulo 3 da tese de
doutoramento do autor, defendida no Instituto de Economia da Unicamp, em
dezembro de 2003, com o título A formação do mercado de trabalho no Brasil: da
escravidão ao assalariamento.
[2] Velho, Otávio Guilherme. Capitalismo autoritário e campesinato. São Paulo:
Difel, 1976, pp. 118-119, e Ribeiro, Darcy. O povo brasileiro:
a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, pp.
300-302.
[3] Simão, Azis. Sindicato e Estado: suas relações na formação do proletariado
de São Paulo. São Paulo: Dominus, 1966, p. 9.
[4] Fernandes, Florestan. A integração do negro da sociedade de classes. São
Paulo: Ática, 1978, vol. 1, p. 19.
[5] Singer, Paul. A formação da classe operária. São Paulo: Atual, 1994, p. 67.
[6] Utilizamos metodologia de Paulo Renato Souza (Empregos, salários e pobreza.
São Paulo: Hucitec, 1980, pp. 25-28). O autor estima a
participação das atividades não-organizadas pela diferença entre os censos
demográficos e econômicos.
[7] Vianna, Oliveira. História social da economia capitalista no Brasil. Belo
Horizonte: Itatiaia, 1988, vol. 1, pp. 233-235.
[8] Graham, Douglas. "Migração estrangeira e a questão da oferta de mão-de-obra
no crescimento econômico brasileiro". Estudos econômicos, vol. 3, no 1, São
Paulo, abr. 1973, p. 44.
[9] Censo de 1893, apud Fausto, Bóris. Trabalho urbano e conflito social (1890-
1920). São Paulo: Difel, 1976, p. 30. No Censo realizado na
cidade de São Paulo, em 1893, verifica-se que 85,5% dos artesãos eram
estrangeiros (Cf. Maram, Sheldon. Anarquistas, imigrantes e o movimento
operário brasileiro, 1890-1920. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 15).
[10] Essa queda do percentual de imigrantes nas primeiras décadas do século XX
oculta o fato de que parte expressiva dos brasileiros ocupados eram filhos de
estrangeiros.
[11] Paoli, Maria Célia. Trabalho e conflito na era do Estado: direitos
sociais, cidadania e leis do trabalho no Brasil: de 1930 a 1950. Londres: tese
de doutoramento, London University, 1984, pp. 54, 57-58. Nesse
período, alguns sapateiros, pintores, pedreiros, ourives, relojoeiros e
alfaiates ainda possuíam os próprios instrumentos de produção, porém haviam
perdido a autonomia sobre a elaboração do produto, aparecendo como
"subordinados direta e formalmente ao capital".
[12] Baltar, Paulo Eduardo de Andrade. Salários e preços: esboço de uma
abordagem teórica. Campinas: Instituto de Economia/Unicamp, 2003, pp. 186-187.
[13] Castel, Robert. As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário.
Petrópolis: Vozes, 1998, pp. 415-416.
[14] Fernandes, F. Sociedade de classes e subdesenvolvimento. Rio de Janeiro:
Zahar Editores, 1975, p. 36.
[15] Partimos da concepção de que o exército de reserva compõe o segmento ou a
"franja" da superpopulação relativa diretamente mobilizável pelo capital
(Souza, Paulo Renato Costa. Salário e emprego em economias atrasadas. Campinas:
Instituto de Economia, 1999, pp. 94-96).
[16] Tal conceito é utilizado por Maria Alice Rosa Ribeiro em "O mercado de
trabalho na cidade de São Paulo nos anos vinte" (In: Silva, Sérgio e
Szmrecsányi,Tamás (orgs.). História econômica da Primeira República, São Paulo:
Edusp, 2002, pp. 359-360). No presente trabalho, definimos
como "população sem trabalho" aqueles trabalhadores enquadrados pelo Censo de
1920 nas "atividades mal definidas". Trata-se de um contingente da PEA que
disponibiliza a sua força de trabalho e não possui ocupação definida, oscilando
entre o não-emprego e o emprego residual. Tal opção metodológica justifica-se
quando se analisam as instruções para o preenchimento do referido censo:
"declarar bem explicitamente o ofício, a ocupação ou o meio de vida, embora
esteja eventualmente desempregado na ocasião de preencher a lista"
(Recenseamento Geral de 1920. Rio de Janeiro: Diretoria Geral de Estatística,
Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, 1926, vol. 1, Anexos, p. 127).
Já as pessoas que aparecem sob o critério de "profissão não-declarada e sem
profissão" foram aqui consideradas inativas e retiradas da PEA. Os problemas
subsistem devido a dificuldades metodológicas do próprio Censo, mas também
porque no mercado de trabalho em análise as fronteiras entre ocupação,
desemprego e inatividade tendem a ser infinitamente fluidas.
[17] Carelli, Mario. Carcamanos e comendadores, os italianos de São Paulo: da
realidade à ficção (1919-1930). São Paulo: Ática, 1985, p. 36.
[18] Vangelista, Chiara. Os braços da lavoura: imigrantes e caipiras na
formação do mercado de trabalho paulista (1850-1930). São Paulo: Hucitec, 1991,
p. 263.
[19] Castel, op. cit., p. 419.
[20] Simão, op. cit., pp. 17 e 36.
[21] Pinto, Maria Inez Machado Borges. Cotidiano e sobrevivência: a vida do
trabalhador pobre na cidade de São Paulo. São Paulo: tese de doutorado,
Departamento de História, FFLCH-USP, 1984, pp. 61-66.
[22] Dados do Censo de 1920 para o estado de São Paulo (Apud Simão, op. cit.,
p. 47).
[23] Os italianos representavam 4/5 dos ocupados na construção civil (ibidem,
p. 34).
[24] Trata-se aqui do uso de dois conceitos (mercado de trabalho interno e
externo) da economia institucionalista norte-americana, elaborados para o
período pós-Segunda Guerra Mundial nos Estados Unidos. A utilização desses
conceitos na realidade brasileira das primeiras décadas do século XX nos
auxilia a elucidar a natureza desse mercado de trabalho emergente e
fragmentado, em que o "mercado externo" respondia por quase a totalidade da
mão-de-obra, inclusive no dinâmico setor têxtil, e o "mercado interno" era
composto por algumas categorias de trabalhadores qualificados em oficinas de
base artesanal. Sobre os conceitos utilizados, ver Dunlop, John. "Organizations
and human resources: internal and external markets". In: Kerr, Clark e
Staudohar, Paul (orgs.). Labor economics and industrial relations: market and
institutions. Cambridge: Harvard University Press 1994, pp. 378-380 e 391-392.
[25] Dependendo da empresa, também conseguiram a jornada de oito horas os
sapateiros, os trabalhadores em madeira, os gráficos, as costureiras,
chapeleiros e marmoristas (Paoli, op. cit., p. 52).
[26] A metodologia elaborada por José Reginaldo Prandi para a Salvador dos anos
1970 diferencia autônomos "regulares" de "irregulares". Segundo Prandi, o
autônomo regular dispõe de um capital mínimo e de algumas habilidades
especiais. Já o irregular, depende quase exclusivamente da força física e da
"disposição para realizar pequenas e diversificadas tarefas de baixa ou nula
qualificação ocupacional" (Prandi, José Reginaldo. "Trabalhadores por conta
própria em Salvador". In: Souza, Guaraci de e Faria, Vilmar (orgs.). Bahia de
todos os pobres. Petrópolis: Vozes, 1980, pp. 129-130.
[27] Guimarães, Nadya Araújo. "Trabalho em transição: uma comparação entre São
Paulo, Paris e Tóquio". Novos Estudos, no 76, nov. 2006, pp. 164-165, 176-177.
[28] Carelli, op. cit., p. 48.
[29] Pinheiro, Paulo Sérgio. "Classes médias urbanas: formação, natureza,
intervenção na vida política". In: Fausto, Bóris (org.). História geral da
civilização brasileira. São Paulo: Difel, 1977, t. 3, vol. 2, 1977, pp. 12-14.
[30] Nesse grupo, encontravam-se os trabalhadores domésticos, os autônomos
irregulares do comércio e do setor serviços, os quase-assalariados de pequenas
empresas e parcela dos "artesãos" do setor não-organizado da indústria, os
quais se diferenciavam do restante pelo seu maior nível de especialização e
maior poder de barganha perante o "empregador".
[31] Floreal, Sylvio. Ronda da meia-noite. São Paulo: Paz e Terra, 2003, p. 21.
[32] Singer, op. cit., 1994, p. 69.
[33] Pinto, op. cit., pp. 32-33.
[34] Castaldi, Carlo. "O ajustamento do imigrante à comunidade paulistana:
estudo de um grupo de imigrantes italianos e de seus descendentes". In:
Hutchinson, Bertram (org.). Mobilidade e trabalho: um estudo na cidade de São
Paulo. Rio de Janeiro: Inep/ Ministério da Educação e Cultura, 1960, p. 305.
[35] Matos, Maria Izilda Santos de. Cotidiano e cultura: história, cidade e
trabalho. Bauru: Edusc, 2002, pp. 75-80.
[36] Beiguelman, Paula. Os companheiros de São Paulo: ontem e hoje. São Paulo:
Cortez, 2002, p. 95.
[37] Americano, Jorge. São Paulo naquele tempo (1895-1915). São Paulo: Saraiva,
1957, pp. 111-122.
[38] Idem. São Paulo nesse tempo (1915-1935). São Paulo: Saraiva, 1957, pp.
133, 148-150.
[39] Fernandes, F. Sociedade de classes e subdesenvolvimento, op. cit., p. 65.
[40] Bourdieu, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo:
Perspectiva, 1981, p. 7.
[41] Hahner, June. Pobreza e política: os pobres urbanos no Brasil (1870/1920).
Brasília: EdUnb, 1989, p. 199.
[42] Matos, op. cit., pp. 77-78, 83.
[43] Em alguns ramos de produção, em que se destacavam trabalhadores
qualificados como chapeleiros, charuteiros e tipógrafos, a sua demanda de
trabalho estava inversamente relacionada à tecnologia (Ver Hahner, op. cit., p.
200).
[44] Pinto, op. cit., pp. 58 e 83.
[45] Americano, J. São Paulo naquele tempo (1895-1915), op. cit., p. 64.
[46] Freyre, Gilberto. Ordem e progresso. Rio de Janeiro: Record, 2000, p. 288.
[47] Fernandes, F. Sociedade de classes e subdesenvolvimento, op. cit., p. 38.
[48] Prandi, op. cit., p. 139.
[49] Oliveira, Francisco de. A economia brasileira: crítica à razão dualista.
Petrópolis: Vozes, 1987, pp. 24, 34-35.
[50] Hahner, op. cit., p. 203.
[51] Simão, op. cit., p. 31.
[52] Maram, op. cit., p. 15.
[53] Nesse sentido, ver argumentação de George Reid Andrews em Negros e brancos
em São Paulo (1888-1988). Bauru: Edusc, 1998, p. 122.
[54] Hahner, op. cit., p. 208.
[55] Morse, Richard. Formação histórica de São Paulo: de comunidade à
metrópole. São Paulo: Difel, 1970, pp. 265, 273, 290-291.
[56] Matos, op. cit., p. 49.
[57] Castaldi, op. cit., p. 358.
[58] Andrews, op. cit., pp. 113-115.
[59] Sevcenko, Nicolau. Orfeu extático na metrópole: São Paulo, sociedade e
cultura nos frementes anos 20. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 31.
[60] Simão, op. cit., p. 69. Na indústria têxtil, por exemplo, para um mesmo
serviço, o salário da trabalhadora representava 64% do recebido pelo homem
adulto, enquanto o das crianças não chegava a 39% desse valor (Ribeiro, op.
cit., p. 365).
[61] Apud Rodrigues, José Albertino. Sindicato e desenvolvimento no Brasil. São
Paulo: Difel, 1968, p. 30.
[62] Rago, Margareth. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar, Brasil
1890-1930. São Paulo: Paz e Terra, 1997, pp. 25-26.
[63] Hahner, op. cit., p. 211.
[64] Carone, Edgar. A República Velha (instituições e classes sociais). São
Paulo: Difel, 1972, p. 194.
[65] Ver este argumento em Matos, op. cit., pp. 54 e 82.
[66] Offe, Claus. O capitalismo desorganizado. São Paulo: Brasiliense, 1994, p.
48. Ver também Beiguelman, op. cit., pp. 81 e 121. A autora relata como um dos argumentos dos industriais contra a
limitação do trabalho infantil e feminino estava na sua "conseqüência fatal",
relacionada ao "desequilíbrio da economia doméstica".
[67] Dados do Recenseamento Operário da capital paulista, de 1923, apud
Vangelista, op. cit., pp. 251-252.
[68] SDTS/PMSP.