Doxa e crença entre os antropólogos
Assim como ocorre em outras disciplinas, existem na antropologia interpretações
tidas como evidentes por si mesmas, à maneira de uma doxa jamais questionada.
As visões dominantes a respeito de o Ensaio sobre o dom, de Marcel Mauss (1923-
24), são um exemplo emblemático dessa espécie de senso comum na disciplina.
Desde a década de 1960, antropólogos de diferentes tradições nacionais vêem no
ensaio uma teoria da troca cujo princípio de explicação seria a identificação
entre o espírito do doador e a coisa dada. Essa interpretação terminou por se
impor como uma verdade a respeito do texto de Mauss, conforme atesta sua
consagração, por exemplo, na biografia escrita por Marcel Fournier2 e no
verbete trocadaEncyclopedia of social and cultural anthropology3.
Tal interpretação contrasta fortemente com a dos contemporâneos de Mauss, a
qual retinha do texto suas dimensões relativas ao direito, às obrigações e às
prestações totais. Assim, em uma resenha escrita em 1927 para a Revue
historique du droit français et étranger, Henry Lévy-Bruhl descreveu o Ensaio
sobre o dom (doravante ED) como uma contribuição notável e muito útil para a
história e a pré-história do direito. A história das obrigações, dizia então
Lévy-Bruhl, poderia se beneficiar do estudo das sociedades inferiores4. O tema
do direito também chamou a atenção de Bronislaw Malinowski: em uma carta de
1925, escreveu ter chegado a conclusões muito semelhantes às de Mauss ao
trabalhar sobre problemas relativos ao direito5. A partir dos anos 1960,
contudo, os antropólogos não mais se interessaram pelas análises de Mauss no
que tangia ao direito e às obrigações. Apoiando-se sempre na mesma passagem do
texto referente à etnografia maori , eles passaram a discutir a explicação
mística das trocas no ED. Esse foi um fenômeno próprio apenas ao mundo dos
antropólogos. Com efeito, entre historiadores que se inspiraram em Mauss, como
Moses Finley6 e Paul Veyne7 , bem como entre estudiosos da produção do grupo de
Durkheim, como Paul Vogt8, essa interpretação não foi levada em conta.
Qualquer texto, evidentemente, é passível de uma infinidade de leituras, e
nenhum autor dispõe dos meios necessários para controlar as interpretações que
serão feitas de seus escritos. As vicissitudes de Max Weber em relação às
interpretações correntes de A ética protestante e o espírito' do capitalismo
são um exemplo lapidar. Em 1910, cinco anos após a publicação original do
trabalho, o sociólogo alemão ainda estava empenhado em replicar interpretações
"pouco inteligentes e desonestas", mas não entretinha ilusões a respeito da
eficácia de suas respostas. Weber achava que o público não leria seus
comentários e que críticos como o historiador Felix Rachfahl teriam sempre a
última palavra: "para pessoas que não conhecem bem o assunto", escrevia Weber,
"será difícil crer que um professor universitário de história tenha podido,
sobretudo com tamanha segurança, enganar-se completamente sobre a questão em
debate em conseqüência de uma leitura totalmente superficial e de seu parti
pris fundamental"9.
Desde a publicação, o ED foi objeto de interpretações diversas. Não se trata
aqui de discuti-las, tampouco de tomar uma posição nos debates que elas
suscitaram. Meu interesse incide sobre uma questão precisa: explicar e entender
como uma interpretação, em meio a tantas outras disponíveis no mercado de
idéias, pôde se tornar hegemônica. Para esse tipo de questão não se encontram
respostas prontas nas intenções dos intérpretes. Eles tiveram suas razões ao
propor certa interpretação, e o que estava em jogo nessas razões deve ser
levado em conta e compreendido. Os intérpretes tampouco tiveram controle sobre
os usos de seus escritos, e se suas interpretações de algum modo se impuseram
como dominantes no mercado de idéias foi porque houve quem estivesse disposto a
lhes atribuir crédito. Trata-se, portanto, de examinar como se produzem e
reproduzem tais fenômenos de crença coletiva. O caso do ED será o fio condutor
e o objeto da primeira parte, a mais longa deste artigo. Nela, vou me
concentrar no texto e em sua pré-história, no modo como ele foi recebido e
usado pelos antropólogos, na explicação mística e em seu intérprete;
finalmente, procurarei mostrar como essa interpretação se tornou hegemônica10.
A fim de testar minhas hipóteses a propósito das condições sociais que
favorecem os fenômenos de crença coletiva, na segunda parte vou analisar o caso
de A diary in the strict sense of the term, de Bronislaw Malinowski. Publicado
em 1967, quinze anos depois da morte do autor, esse texto, que Raymond Firth,
em sua introdução, julgava ser tão-somente uma nota de pé de página na história
da antropologia11, tornou-se, a partir dos anos 1970, um argumento poderoso
para legitimar outra modalidade de fazer antropologia, sobretudo entre
antropólogos norte-americanos. A comparação entre os dois casos permitirá, na
conclusão, um exame dos fundamentos do crédito que se atribui a certos
intérpretes, bem como a dinâmica da estruturação e da difusão de uma doxa.
UMA OBRA-PRIMA
O texto em seu contexto
Marcel Mauss publicou o ED aos 46 anos, quando ocupava a cadeira de História
das Religiões dos Povos Primitivos e Não Civilizados da École Pratique des
Hautes Études, em Paris. O texto de 134 páginas e quase quinhentas notas é
composto de uma introdução, três capítulos e uma conclusão em três partes. Os
fatos etnográficos são objeto dos dois primeiros capítulos. No terceiro, Mauss
analisa o direito nas civilizações da Antiguidade. A conclusão se divide em
conclusões morais, conclusões de sociologia econômica e de economia política e
conclusões de sociologia geral e de moral.
O ponto de partida do ED é a constatação de que em numerosas civilizações as
trocas e os contratos se fazem sob a forma de presentes, teoricamente
voluntários, mas na realidade obrigatoriamente dados e retribuídos. Segundo
Mauss ao principiar o texto, o trabalho era parte de um conjunto de estudos
mais vastos dos quais o ED seria tão-somente um fragmento. Havia anos o autor
se interessava pelo "regime do direito contratual e [pelo] sistema das
prestações econômicas entre as diversas seções ou subgrupos de que se compõem
as sociedades ditas primitivas, e também as que poderíamos chamar arcaicas".
Mauss pretendia considerar apenas um traço de todos esses temas: "o caráter
voluntário [ ], aparentemente livre e gratuito, e no entanto obrigatório e
interessado dessas prestações". O autor esclarecia ainda que seu estudo se
deteria em somente um dos princípios que haviam conferido esse aspecto a uma
forma necessária da troca e que o faria por meio de duas indagações: "Qual é a
regra de direito e de interesse que, nas sociedades de tipo atrasado ou
arcaico, faz que o presente recebido seja obrigatoriamente retribuído? Que
força existe na coisa dada que faz que o donatário a retribua?"12 . O objetivo
era duplo: por um lado, chegar a conclusões arqueológicas sobre a natureza das
transações humanas, sobre a moral e a economia dessas transações; por outro,
mostrar como essa moral e essa economia funcionam ainda em nossas sociedades, e
em seguida deduzir conclusões de ordem moral. Seu método consistia em servir-se
da comparação precisa, estudando o assunto em áreas determinadas Polinésia,
Melanésia e Noroeste americano e alguns direitos das civilizações da
Antiguidade.
Estabelecer relação entre os fatos do Noroeste americano, da Polinésia e da
Melanésia e os direitos arcaicos foi produto de um longo caminho percorrido por
Mauss. Era notável seu controle de tudo o que se produzia na França, nos
Estados Unidos, na Inglaterra e na Alemanha sobre o mundo primitivo, como
atestam as setecentas resenhas que escreveu para os catorze primeiros volumes
do Année Sociologique. Foi em 1910, por recomendação de Durkheim, que começou a
se interessar pelos fatos do Noroeste americano, pelo potlatch descrito por
Franz Boas: a destruição ritual das riquezas acumuladas para ofuscar o chefe
rival. A princípio, acreditava que se tratava de uma instituição única no
mundo. Em 1912, no entanto, Mauss tomou conhecimento da etnografia da Melanésia
feita por Seligman e a partir daí identificou alhures a presença de
instituições do tipo potlatch. Então ele já fala em sistemas de prestações
totais, nos quais tudo se troca. Após a Primeira Guerra Mundial, retoma o
estudo dos fatos melanésios. Em 1921, estabelece relação entre as formas de
troca e contrato encontradas no Noroeste americano e na Melanésia, e antigos
direitos indo-europeus. Em 1922, põe-se a organizar as notas de Robert Hertz
(seu colega, morto durante a guerra). É nessas notas que descobre a etnografia
dos Maori feita por Eldson Best, a qual lhe permitiu identificar as três
obrigações: dar, receber e retribuir. Em 1922, Mauss encontra a última peça do
quebra-cabeça em Argonauts of Western Pacific, a monografia de Bronislaw
Malinowski13 sobre a instituição do kula (troca de braceletes e colares) entre
os trobriandeses. Foi graças a esse livro que ele pôde se dar conta de todas as
questões de prestígio e interesse que havia nas trocas14.
O plano do ED é inverso ao caminho percorrido por Mauss. O ensaio começa pelo
estudo dos fatos da Polinésia: as prestações totais não agonísticas. Mauss
analisa o conceito de hau, o espírito do doador que permanece na coisa dada e
que obriga quem a recebeu a retribuí-la. O conceito é tratado por Mauss como
uma das idéias centrais do direito maori. No segundo capítulo, são analisadas
as prestações totais agonísticas, e para isso o autor se vale dos dados
relativos ao kula e ao potlatch. Aqui estão em jogo os conflitos, o lugar na
hierarquia, as ambições de prestígio e poder envolvidas nas trocas. No terceiro
capítulo, Mauss compara as instituições primitivas e os direitos arcaicos de
modo a pôr em evidência a oposição entre sociedades como as nossas, que
distinguem os direitos sobre as coisas dos direitos sobre as pessoas, e as
sociedades primitivas e as civilizações antigas, nas quais essa distinção não é
feita. Em suas conclusões, Mauss consagra a primeira parte a considerações de
ordem moral. Depois de haver sublinhado a permanência do dom, da liberdade e
das obrigações nas nossas sociedades, defende no que é uma intervenção em
debates da época a incorporação da moral do dom ao "nosso" direito. Na
segunda parte da conclusão, Mauss examina as implicações dos fatos estudados
para a análise de fatos econômicos gerais. Trata-se, por um lado, de implodir,
assim como o fez Malinowski, as doutrinas correntes a respeito da economia
"primitiva" e de ir adiante: dissolver e dar outra definição às noções que ele
próprio utilizou (como dom e presente), pois são inexatas. Por outro lado, de
pôr em questão os conceitos do direito e da economia freqüentemente opostos,
tais como liberdade e obrigação, liberalidade e generosidade, luxo e poupança,
interesse e utilidade15. Mauss termina o ensaio com observações de método e
fixando os limites de sua empreitada. Diz que não estava propondo um modelo: o
trabalho era indicativo e estava incompleto; visava à formulação de questões
para historiadores e etnógrafos, assim como a sugestão de objetos de pesquisa;
não pretendia nem resolver um problema, nem fornecer uma resposta definitiva.
O ensaio teve acolhida favorável por parte de antropólogos reconhecidos, como
Malinowski na Inglaterra e Franz Boas nos Estados Unidos, mas foi duramente
criticado por Henri Hubert, amigo e colaborador de Mauss, que, em carta de
1925, apontou especialmente a falta de precisão da noção de prestações sociais
totais16. Em 1926, Malinowski publicou Crime and custom, livro cujo tema é o
direito e a ordem nas sociedades primitivas. Suas questões são muito próximas
àquelas formuladas no ED, ou seja, referem-se às regras do direito que
asseguram o cumprimento das obrigações. Malinowski dedicou a Mauss apenas uma
nota de pé de página para reconhecer que o colega francês tinha razão ao
lembrar que não existiam dons gratuitos17. Em 1929, o ED foi objeto de uma
crítica de Raymond Firth em seu livro sobre a economia dos Maori. Firth, que
estudara economia na Nova Zelândia, fizera o doutorado na Inglaterra sob
orientação de Malinowski. Sua tese apoiava-se na literatura disponível, pois
não havia feito trabalho de campo. A principal crítica ao ED dizia respeito ao
conceito de hau, que, segundo Firth, não se referia ao espírito do doador, mas
ao espírito da coisa18. Como seu estudo era sobre os Maori, Firth se interessou
somente pelas passagens do ED que se ocupavam desse povo da Polinésia e
superestimou a importância dos dados maoris no texto. O autor diz, por exemplo,
que esses dados são centrais para a teoria geral da reciprocidade de Mauss19.
Ora, o vocábulo reciprocidade nem sequer faz parte do léxico do artigo do Année
Sociologique: há referência apenas a dons recíprocos, o que não corresponde ao
conceito de reciprocidade. E autor do ED em parte alguma escreve que está a
elaborar uma teoria da reciprocidade a única teoria mencionada é a das três
obrigações. Mauss não respondeu a Firth. A rigor, deixou de lado o tema das
trocas e do contrato. Seu interesse principal eram os rituais e as
representações religiosas. Em 1930, no memorial escrito por Mauss para o
ingresso no Collège de France, o ED era visto como não mais que um momento em
seu percurso20.
Entre 1930 e 1940, os textos de Mauss e os que escrevera com Hubert circulavam
e eram lidos na Inglaterra nos cursos da London School of Economics (LSE),
principal centro de antropologia da época e nos Estados Unidos nas
universidades de Chicago e Berkeley21. Robert Lowie, professor em Berkeley e
antropólogo de renome, compartilhava o interesse dos colegas de Londres pelos
trabalhos de Mauss e Hubert. Em sua história do pensamento antropológico, são
esses os únicos colaboradores de Durkheim a figurar no capítulo sobre a
sociologia francesa. Lowie via o ED, para o qual já chamara a atenção como uma
contribuição ao estudo da hierarquia, como um exemplo acabado da metodologia de
Durkheim. Além disso, sublinhava o caráter obrigatório do dar e do receber,
assim como a idéia de prestações totais. 22
Os estudiosos que na década de 1930 publicaram sobre o tema da troca não
voltaram a Mauss. Malinowski, por exemplo, retomou a problemática das
obrigações em seu Coral gardens23 sem fazer referência ao ED. O antropólogo
vienense Richard Thurnwald também não o cita, como assinala Juillerat24. De
fato, a problemática não era a mesma: Thurnwald se interroga sobre a origem da
reciprocidade, percebida como relações simétricas, enquanto para o autor do ED
o que importava era identificar a regra de direito e de interesse que faz com
que o presente recebido seja obrigatoriamente retribuído. Além disso, Thurnwald
buscava resposta em mecanismos biopsíquicos, uma espécie de relação causal que
daria calafrios aos discípulos de Durkheim. O que importa destacar é que o ED
não era referência obrigatória à época.
A explicação mística e seu intérprete
Na segunda metade da década de 1940, o ED haveria de ser destacado como uma
descoberta da "idéia fundamental da reciprocidade", no balanço que então fez o
etnólogo Claude Lévi-Strauss da sociologia francesa no século XX25. No final da
década, quando Marcel Mauss já se encontrava doente e afastado das atividades
intelectuais, seu ED foi invocado pelo mesmo autor como um trabalho
"admirável", "clássico" e fonte de inspiração para explicar as trocas
matrimoniais por meio do que Lévi-Strauss denominava princípio de
reciprocidade. Essa referência está inscrita no livro Les Structures
elémentaires de la parenté26, originalmente a tese de doutorado do autor,
elaborada com base em pesquisa em bibliotecas norte-americanas e defendida em
1948 em Paris. O trabalho tinha a ambição de formular uma teoria geral dos
sistemas de parentesco e adotava como método, segundo Lévi-Strauss, uma espécie
de combinação do procedimento de examinar exemplos extraídos de diferentes
contextos, como o havia feito Frazer, com o de limitar-se ao estudo dos fatos
no próprio contexto, ao estilo de Durkheim. Também quanto a essa escolha
metodológica, o autor reivindicava uma inspiração maussiana27. Lévi-Strauss
abre o quinto capítulo, intitulado "O princípio da reciprocidade", com uma
referência às conclusões do ED:
Mauss propôs-se mostrar primeiramente que a troca se apresenta nas
sociedades primitivas menos em forma de transações que de dons
recíprocos, e em seguida que estes dons recíprocos ocupam um espaço
muito mais importante nessas sociedades que na nossa. Finalmente que
esta forma primitiva das trocas não tem somente, nem essencialmente,
caráter econômico, mas coloca-nos em face do que chama, numa
expressão feliz, "um fato social total", isto é, dotado de
significação simultaneamente social e religiosa, mágica e econômica,
utilitária e sentimental, jurídica e moral28.
Lévi-Strauss pára por aí, não retornando mais ao texto de Mauss. Nessa parte do
livro, menciona ainda sociedades em que havia a troca por meio de dons
recíprocos e detém-se no exemplo da Polinésia, nos Maori, referindo-se a Best
(a fonte de Hertz) e ao livro de 1929 de Raymond Firth, mas não à crítica deste
a Mauss. Ao longo do capítulo, o autor formula a tese de que os fenômenos da
troca se inscrevem em um mesmo complexo fundamental da cultura. Mais adiante,
no sétimo capítulo, desenvolve a teoria de que a origem desses fenômenos, assim
como da proibição do incesto, das regras de exogamia e das organizações
dualistas, residiria nas "estruturas fundamentais do espírito humano", cuja
universalidade ele reivindica. Tais estruturas seriam a exigência da regra como
regra; a noção de reciprocidade e o caráter sintético do dom29.
Mauss morreu em 1950. Para homenageá-lo, o sociólogo francês Georges Gurvitch
organizou uma coletânea de textos na qual figurava o ED e convidou Lévi-Strauss
para escrever a introdução. Era a segunda vez que lhe confiava um trabalho: o
primeiro havia sido o balanço referente à sociologia francesa acima mencionado.
Os dois conheciam-se de Nova York. Lá haviam se refugiado durante a Segunda
Guerra Mundial e atuado como professores da Escola Livre de Altos Estudos. Em
1950, ambos reivindicavam a herança maussiana e estavam empenhados em
reabilitar, via Mauss, a Escola Sociólogica francesa no ambiente hostil ao
durkheimianismo do pós-guerra na França30. Em vida, Mauss não publicara nenhum
livro, e seus trabalhos encontravam-se dispersos em periódicos, notadamente no
Année Sociologique. A coletânea se inscrevia, portanto, em um projeto de editar
sua obra.
Lévi-Strauss inicia sua "Introdução" a Sociologie et anthropologie31 com um
elogio a Mauss: diz que poucos pensadores tiveram tamanha repercussão na França
e refere-se aos "ecos duráveis" que sua obra teria alcançado no exterior entre
figuras como Malinowski, Radcliffe-Brown, Firth e Evans-Pritchard, na
Inglaterra; Redfield, Herskowitz e Lloyd Warner, nos Estados Unidos. Na França,
a influência maussiana havia se produzido mais pela via do contato regular ou
ocasional com colegas e discípulos, e, fora da França, mais por meio do acaso
de um encontro ou uma leitura do que diretamente pelos escritos. Com isso,
Lévi-Strauss instituiu o contato pessoal como critério para legitimar a
pretensão a intérprete autorizado: só os que conheceram e escutaram Mauss e
implicitamente ele se considera um deles estavam em condições de avaliar a
fecundidade da obra do autor e fazer um balanço. Em seguida, dá início a seus
comentários.
O pensamento de Mauss é caracterizado como "denso" e "esotérico", "atravessado
de cintilações" e dado a "caminhos tortuosos" que o afastavam do itinerário que
o conduziria ao "núcleo dos problemas". Lévi-Strauss anuncia que vai destacar
na obra alguns "aspectos" e coloca em evidência o caráter precursor dos
escritos de Mauss, desde as primeiras páginas apresentado como uma espécie de
profeta que teria se antecipado a uma série de desenvolvimentos ulteriores da
antropologia. Dentre o conjunto de seis textos reunidos na primeira edição de
Sociologie et anthropologie, Lévi-Strauss detém-se mais longamente no ED:
dedica-lhe 16 das 43 páginas da "Introdução". O trabalho é apresentado como um
texto "capital", o "mais justamente célebre", aquele cuja influência foi mais
profunda32, "um evento decisivo da evolução científica", uma obra-prima. Tantas
honrarias o ED jamais recebera em sua saga, que começara nos anos 1920.
O "aspecto" do ED a ser explorado é a "revolução" que Mauss teria operado.
Segundo Lévi-Strauss, "pela primeira vez na história do pensamento etnológico,
um esforço era feito para transcender a observação empírica e atingir
realidades mais profundas". A "descoberta" atribuída ao autor passa então a ser
louvada: teria aberto novas possibilidades metodológicas, como aquelas
exploradas por Firth com a análise dos "ciclos de reciprocidade" entre os
Tikopia; estaria próxima das descobertas, também metodológicas, feitas por
Troubetzskoy e Jakobson para a lingüística estrutural; sua relevância seria
equivalente à da descoberta da fonologia para a lingüística; o texto teria,
enfim, inaugurado "uma nova era para as ciências sociais", e sua importância
seria comparável àquela da descoberta da análise combinatória para a matemática
moderna. Embora Mauss não houvesse explorado a própria descoberta, sua intuição
estava correta. Como prova, Lévi-Strauss apresenta outra descoberta, mais
recente no domínio do parentesco, de "regras precisas segundo as quais se
constituem, em qualquer tipo de sociedade, ciclos de reciprocidade cujas leis
mecânicas são doravante conhecidas, possibilitando o emprego do raciocínio
dedutivo num domínio que parecia submetido ao arbítrio mais completo"33. Não há
autocitação, mas não é difícil reconhecer nessa passagem a teoria desenvolvida
pelo autor em 1949. Assim, a justeza da reflexão de Mauss estaria no
desenvolvimento que ele, o comentador, teria dado ao seu achado.
Foi então que Lévi-Strauss ofereceu uma explicação para o fato de Mauss não ter
explorado sua própria descoberta, comparando o mestre ao profeta Moisés, que
não logrou conduzir seu povo à Terra Prometida. Mauss teria a certeza lógica de
que a troca é um denominador comum de grande número de atividades humanas. A
observação empírica não lhe permitia ver a troca nos fatos, mas tão-somente as
obrigações de dar, receber e retribuir. A "teoria", afirma Lévi-Strauss, exigia
uma estrutura. Não fica claro no entanto de que teoria se trata, nem é possível
localizar no ED uma preocupação dessa natureza. A solução encontrada por Mauss
para o problema que lhe atribui o comentador foi aplicar "uma fonte de energia
que opere sua síntese"34. Segue-se então uma citação do ED: "Pode-se [ ] provar
que nas coisas trocadas [ ] há uma virtude que força as dádivas a circularem, a
serem dadas e retribuídas". O que é suprimido da citação, feita sem referência
às páginas correspondentes, permitiria ao leitor identificar o contexto
original da formulação. Trata-se da conclusão da parte referente ao Noroeste
americano, na qual Mauss analisa o potlatch. Eis a citação completa: "Podemos
ainda levar mais longe a análise e provar que, nas coisas trocadas no potlatch,
há uma virtude que força as dádivas a circularem, a serem dadas e retribuídas".
E prossegue Mauss: "Em primeiro lugar, pelo menos os Kwakiult e os Tsimshian
fazem, entre os diversos tipos de propriedades, a mesma distinção que os
romanos ou os trobriandeses e os samoanos. Para eles [ ]"35. Embora não esteja
em jogo fazer uma exegese do ED, não se pode concluir que Mauss aí estivesse
resolvendo o problema teórico formulado por Lévi-Strauss. Ele está apenas
apresentando uma concepção nativa e relacionando-a com outras concepções
nativas e com as encontradas nos direitos antigos. Prosseguindo com o
raciocínio do comentador: escreve ele em seguida que, como a virtude da coisa
não está na coisa, mas é concebida subjetivamente, ou bem essa virtude não é
outra coisa senão o próprio ato da troca, ou bem é de uma natureza diferente e,
em relação a ela, o ato da troca se torna um fenômeno secundário. O único modo
de escapar ao "problema" teria sido perceber que é a troca que constitui o
fenômeno primitivo, e não as operações discretas nas quais a vida social a
decompõe. Mauss teria procurado restituir o todo com suas partes, porém, como
isso seria impossível, teria então acrescentado uma quantidade suplementar.
Essa quantidade seria o hau. "Não estamos aqui diante de um desses casos (não
tão raros) em que o etnólogo se deixa mistificar pelo nativo?"36 "O hau não é a
razão última da troca: é a forma consciente sob a qual homens de uma sociedade
determinada, em que o problema tinha uma importância particular, conceberam uma
necessidade inconsciente cuja razão está alhures". Também aqui não há nenhuma
citação do ED, nem ao contexto no qual Mauss se referiu ao hau e aos juristas
maoris, tratados por Lévi-Strauss como "sábios". Graças a essa técnica
argumentativa, o hau, que aparecia em Mauss como uma noção central do direito
maori, torna-se, com Lévi-Strauss, a explicação da troca. Foi esse "equívoco"
que impediu que Mauss chegasse à "terra prometida", tal como Moisés. Aqui a
"terra prometida" seria a percepção de que a realidade subjacente' à troca só
pode ser encontrada nas estruturas mentais inconscientes, que podem ser
atingidas através das instituições e sobretudo da língua"37.
Lévi-Strauss tinha 42 anos quando publicou sua "Introdução". Após uma estada
quase ininterrupta de seis anos em Nova York, havia regressado a Paris em fins
de 1947, disposto a iniciar a carreira universitária. Até então, na França, só
tinha sido professor do ensino secundário. Sua iniciação no magistério superior
se dera no Brasil (1935-38), na recém-criada Universidade de São Paulo (USP).
Durante a guerra, Lévi-Strauss voltou a lecionar, desta vez nos Estados Unidos.
Quando lá estava, não lhe faltaram convites para trabalhar em prestigiosas
universidades norte-americanas: recusou todos porque ambicionava exercer sua
profissão na França38. Para um outsider autodidata que vinha da filosofia,
não estudara etnologia e, apesar do campo feito no Brasil e da publicação de
alguns artigos que lhe valeram o reconhecimento como americanista39, era visto
como um antropólogo de gabinete40 , havia, portanto, todo um caminho a
percorrer para inserir-se no establishment científico francês. Por ocasião do
regresso, pede a Georges Davy, colaborador de Mauss e então titular da cátedra
de Sociologia na Sorbonne, que se torne seu orientador, para que possa defender
a tese defendida nos Estados Unidos41. Em 1948, foi nomeado maître de recherche
no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), "um posto de espera"42,
e, em seguida, subdiretor do Musée de l'Homme. No ano seguinte, apoiado pelo
historiador Lucien Febvre, que conhecera em 1935 quando estivera em missão na
USP, passou a dar seminários na École Pratique des Hautes Études (seção VI).
Graças a Georges Dumézil, outro colaborador de Mauss, foi indicado para diretor
de Estudos da École Pratique des Hautes Études (seção V, de Ciências
Religiosas) e assumiu a cátedra de História das Religiões dos Povos Primitivos
e Não Civilizados, que Mauss ocupara entre 1901 e 1940. Em pouco tempo,
portanto, Lévi-Strauss logrou se inserir no mundo universitário francês com o
apoio de pessoas próximas a Mauss, as quais viam nele um herdeiro "natural" do
mestre. Em 1949, apresentou sua candidatura à cadeira de Sociologia Comparada
do Collège de France e não foi aceito. Em 1950 reapresentou-se e foi novamente
derrotado. As duas candidaturas, assim como o sentimento de que após a segunda
derrota sua carreira havia sido liquidada43, constituem forte indício de que
tinha ambições elevadas, de que desejava chegar ao topo da hierarquia de
prestígio, reconhecimento que lhe teria sido assegurado caso houvesse sido
eleito para o Collège de France.
Em virtude do interesse em inserir-se no mundo acadêmico francês, Lévi-Strauss
tinha de inscrever-se na trilha aberta por Mauss, o grande nome da etnologia na
França. Essa era a modalidade apropriada para ser ouvido naquele mundo, ser
reconhecido como par e obter posições nas instituições universitárias44. Nos
escritos de 1946 e 1949, Lévi-Strauss homenageava Mauss e não lhe fazia nenhuma
crítica. Mesmo não compartilhando o ponto de vista de Mauss tanto no que se
refere ao método (valer-se de exemplos retirados de diversas províncias
etnográficas) como no que se relaciona ao tratamento dado às trocas (uma
manifestação de regras do inconsciente, do princípio de reciprocidade) , nosso
personagem fez o que deveria ser feito ao escrever sua obra sobre o parentesco:
apresentou-se como seguidor do mestre. Para avançar na carreira e galgar ao
topo deveria seguir ajustando-se ao modo de funcionamento do mundo acadêmico
francês: era preciso distinguir-se de Mauss, ir além do mestre para lograr
aumentar o valor de seu próprio "nome", que, como o assinala Pierre Bourdieu45,
é o bem mais precioso do mundo acadêmico. Com a sua "Introdução", Lévi-Strauss
novamente fez o que deveria ser feito: consagrou o ED, conferindo-lhe um valor
que até então não lhe tinha sido atribuído, e em seguida apontou o "erro" que
lhe permitia fazer avançar sua própria teoria e com isso superar Mauss. Se
tivesse escolhido inserir-se no mundo acadêmico de outro país, Lévi-Strauss
talvez pudesse ter desenvolvido sua própria teoria e dispensado as reverências
a Mauss e a busca de seus "erros".
A comparação com o caso do antropólogo britânico Edmund Leach pode ser
esclarecedora nesse sentido. Como o colega francês, Leach iniciou a carreira
nos anos 1940. Defendeu a tese de doutorado na London School of Economics, aos
37 anos, em 1946. No ano seguinte foi incorporado à equipe da mesma instituição
como lecturer. Em 1951, escreveu um ensaio sobre parentesco com críticas
devastadoras a Radclife-Brown, Meyer Fortes, Evans-Pritchard e Lévi-Strauss46.
Recebeu por esse ensaio o Curl Prize, concedido pelo Royal Anthropological
Institute e atribuído por um júri do qual participava Meyer Fortes, um de seus
alvos, algo impensável no mundo acadêmico francês. Após esse episódio, Leach
foi convidado a integrar a Faculdade de Antropologia e Arqueologia da
Universidade de Cambridge pelo mesmo Meyer Fortes. Em 1954, publicou uma
monografia sobre os Kachin, na qual não se apoiava na teoria de nenhum colega e
usava seu material para colocar por terra as idéias bem estabelecidas dos
membros do establishment da antropologia social britânica47. Raymond Firth, um
dos autores criticados nesse livro, redigiu o prefácio, o que seria ainda
altamente improvável no universo francês. Ao longo da carreira universitária,
Leach cultivou a representação de si mesmo como "herético" e foi um crítico
implacável das teses dos colegas dos quais discordava. Tornou-se um grande
"nome" da antropologia social britânica, sem precisar render homenagens nem
poupar críticas aos colegas. Foi ainda provost do King's College, na University
of Cambridge, com o apoio de seus pares, e feito Sir do Império Britânico pela
rainha Elizabete II. Se o confronto permanente não lhe prejudicou a carreira,
isso se deve às particularidades do modo de funcionamento do mundo acadêmico
britânico. Leach não esteve sujeito às coerções que se abateram sobre Lévi-
Strauss para lograr construir um "nome" na França48.
A maorisação doED
A crítica de Lévi-Strauss a Mauss não produziu efeitos imediatos: salvo pelos
comentários de filósofos, como Claude Lefort49 e Merleau Ponty50, não seria
exagero dizer que permaneceu ignorada por algum tempo.
No volume do Année Sociologique de 1951, Henry Lévy-Bruhl escreveu o "In
memoriam" a Marcel Mauss, citou a publicação do Sociologie et anthropologie,
mas não a "Introdução". O ED foi então mencionado, dentre outros textos
"célebres" do autor, como um trabalho que havia aberto importantes perspectivas
sobre a gênese do direito e da economia política51. No mesmo volume foram
publicados dois artigos referidos a Mauss e ao ED. Um é da autoria de Émile
Benveniste, para quem o grande mérito de Mauss foi ter demonstrado a relação
funcional entre o dom e a troca, e definido, por meio dessa relação, um
conjunto de fenômenos religiosos, econômicos e políticos das sociedades
arcaicas. Ao longo do texto o lingüista procura explorar os elementos que no
vocabulário das línguas indo-européias iluminam a pré-história das noções de
dom e troca52. O segundo artigo, de Louis Gernet, é dedicado ao estudo dos
direitos mediterrâneos da Antiguidade, notadamente das sociedades helênicas.
Também aí se trata de levar adiante as pistas do ED e examinar representações
religiosas e comportamentos nos quais seja possível buscar os antecedentes de
um pensamento jurídico53.
Em 1952, por ocasião de conferência pronunciada em Oxford, onde se encontrava
como professor visitante, o antropólogo francês Louis Dumont ressaltou a
importância da "Introdução" para entender o impacto da obra de Mauss na
antropologia contemporânea54. Não se refere, no entanto, aos supostos "erros"
de Mauss. Dois anos mais tarde, Evans-Pritchard redigiu o "Prefácio" à primeira
tradução inglesa do ED.55 A "Introdução" de Lévi-Strauss aí figura, ao lado do
"In memoriam" de Henry Lévy-Bruhl, como exemplo de análise da contribuição de
Mauss ao pensamento sociológico na França. Também aqui nenhuma palavra sobre os
equívocos contidos no ED. Ainda em 1954, J. P. Johansen publica em Copenhague
um livro sobre os Maori. O ED é citado como um texto que oferece reflexões
finas e indiscutíveis a respeito da troca. O autor, contudo, faz duas
ressalvas: a primeira diz respeito à tradução de um provérbio maori56 e a
segunda ao conceito de hau, que, segundo ele, apresentaria muito mais
dificuldades do que Mauss percebera57. Não há referência a Lévi-Strauss. Cinco
anos mais tarde, Raymond Firth58 reedita seu livro de 1929 sobre a economia
maori e não leva em conta a crítica de Lévi-Straus a Mauss; em 1965 publica
outro livro sobre economia primitiva e volta a comentar o ED: destaca a
contribuição de Mauss para o estudo da natureza vinculante das obrigações nas
trocas primitivas, da coerção social para a retribuição do presente e da
rivalidade envolvida nas transações59. Desta feita, nem sequer se refere ao hau
e não cita a "Introdução" de 1950. Ainda nos anos 1950, Edmund Leach60 escreve
uma resenha da tradução do ED para o inglês. Como acompanhava de perto o
trabalho de Lévi-Strauss, é pouco provável que desconhecesse a "Introdução".
Todavia, não se refere a ela, assim como também não o faz Paul Bohannan em
estudo sobre a troca61.
Nos anos seguintes à publicação da "Introdução", Claude Lévi-Strauss não voltou
a discutir o ED nem os "erros" de Mauss. Publicou trabalhos importantes, como
Tristes trópicos (1954) e Antropologia estrutural (1958), tornou-se referência
no pequeno mundo dos antropólogos, sobretudo dos especialistas em parentesco
que discutiam sua teoria sobre aliança, e passou a ocupar um lugar central na
antropologia francesa62. Sua obra fascinava os filósofos, o que certamente
contribuiu para que também ocupasse lugar central na cena intelectual em seu
país63. Em 1959 foi eleito para o Collège de France. Nas dependências da
instituição criou então o Laboratoire d'Anthropologie Sociale e fundou, em
1961, a revista L'Homme. Tanto o Laboratório como a revista constituíram bases
sólidas para difundir seu ponto de vista a respeito da "boa antropologia", como
Lévi-Strauss chegou a definir o seu estruturalismo64. Sua fama atravessou o
Atlântico: a intelectual nova-iorquina Susan Sontag dedicou-lhe o capítulo de
um de seus livros ("Contra a interpretação"), as revistas especializadas e os
suplementos literários apresentaram artigos que resenhavam sua obra, e editoras
prestigiosas publicaram livros coletivos nos quais antropólogos, filósofos e
críticos lhe prestavam homenagem. Foi nesse novo contexto que sua interpretação
do ED tornou-se referência para os antropólogos e o interesse pelo trabalho de
Mauss ampliou-se de forma notável tanto na França como no mundo anglo-saxão,
sobretudo nas décadas de 1960 e 70, momento do auge do estruturalismo.
No final da década de 1960, Victor Karady editava na França pela Minuit três
volumes de textos de Marcel Mauss. Do outro lado da Mancha, Raymond Firth já
citava o "valioso comentário de Lévi-Strauss" a respeito do trabalho de Mauss e
expressava seu acordo com a crítica ao uso do hau "como explicação da troca"65.
Insistia, no entanto, retomando os argumentos de 1929, em que Mauss havia
errado na interpretação do hau. Em 1970, Marshall Sahlins publica o artigo "The
spirit of the gift: une explication de texte", em uma coletânea em homenagem a
Lévi-Strauss. Inicia o texto com a seguinte afirmação: "o conceito central
doEnsaio sobre o dom é a idéia nativa maori do hau". E acrescenta algumas
linhas adiante: "o hau maori é erigido numa explicação geral". O autor refere-
se a Lévi-Strauss como um dos críticos da interpretação maussiana do hau (os
outros dois sendo Firth e Johansen) e cita a passagem do "erro"66. Sahlins
estivera vinculado ao Laboratório de Antropologia Social entre 1967 e 1969, e
lá apresentara "os resultados de seu trabalho sobre a reciprocidade entre os
Maori e sobre a maneira pela qual Mauss e seus sucessores a haviam
compreendido". A relação estabelecida com Lévi-Strauss naquele período parece
tê-lo marcado decisivamente: "certos princípios do estruturalismo penetraram a
vida intelectual e ao menos a antropologia nunca mais será a mesma", disse ele
em entrevista concedida em 1985 à Magazine Littéraire67.
Ainda em 1970, escrevendo na Man, principal revista britânica de antropologia,
Michel Panoff distingue o ED como "um acontecimento maior na história da teoria
antropológica"68 e cita como evidência a afirmação de Lévi-Strauss, da
"Introdução" de 1950, de que Mauss teria sido um precursores do estruturalismo.
Dois anos mais tarde, a revista L'Arc edita um número dedicado a Mauss contendo
13 textos. O ED aí aparece "unanimemente considerado a obra-prima do autor" e
revelador do princípio oculto da reciprocidade69. A "Introdução" de Lévi-
Strauss já é dada como "clássica"70. Dois dos trabalhos incluídos no volume
correspondem a seminários feitos pelos autores em cursos, nos quais certamente
o ED estava sendo discutido: é o caso do texto de Gasché para um seminário de
J. Derrida na École Normale Supérieure71 e do trabalho do organizador do
volume, Dennis Holler72, para um curso de A. Green. Em livro publicado em 1972,
Pierre Bourdieu cita a "Introdução" de Lévi-Strauss para criticar-lhe a
interpretação a respeito das trocas, especialmente as leis mecânicas que
regeriam o ciclo de reciprocidade, e chamar a atenção para o intervalo entre o
dom e o contradom e a dimensão de incerteza que cerca as transações aspectos
que haveria de explorar posteriormente em sua teoria da prática73. Bourdieu
menciona as reservas de Lévi-Strauss a Mauss74, mas não se posiciona em relação
ao suposto erro do autor do ED. Ainda em 1972, L'Homme publica um longo artigo
de Josselin de Jong sobre Mauss e as origens da antropologia estrutural
holandesa75, cujo ponto de partida é a "Introdução" de 1950. Em 1976, o ED
seria invocado por Parkin como uma das principais referências do conceito de
troca. O texto então é associado ao princípio da reciprocidade, e a Mauss o
autor atribui a percepção de um "sistema de troca cultural, envolvendo
mulheres, bens, serviços e mensagens"76, em uma evidente confusão entre o ED e
os escritos de Lévi-Strauss. Refere-se ainda às críticas a Mauss feitas por
Firth em 1929, as quais, por crer estarem amparadas em "trabalho de campo
intenso", aceita sem reservas.
A partir da década de 1980, o estruturalismo começou a perder força, mas não a
tese de que o ED continha uma explicação mística da troca. Com o tempo, a tese
foi sendo enriquecida com a recuperação das críticas de Firth de 1929 e do
artigo de Sahlins de 1970 transformado em "clássico", e cristalizou-se em uma
espécie de crença coletiva. Tudo o que havia de arbitrário e conjuntural nas
interpretações foi se naturalizando. O texto de Mauss e o hau, os Maori, a
reciprocidade e a teoria da troca tornaram-se então indissociáveis. Assim, por
exemplo, Tambiah refere-se à "formulação mística"77 do ED; Guidieri à "noção de
hau que domina o Ensaio78; Weiner trata o ED como o texto teórico mais famoso e
mais controvertido sobre reciprocidade e só o invoca para reanalisar dados
maoris79; Godelier afirma que não pode deixar de endossar a crítica de Lévi-
Strauss de que o hau, contrariamente ao que pensava Mauss, não pode ser tomado
como a explicação da troca80; Strathern escreve que Mauss havia encontrado
entre os Maori "uma das idéia nativas que procurava"81; Carrier resume assim a
tese ED no verbete troca: "[nas relações de troca] o objeto dado carrega a
identidade do doador, que o donatário adquire com o próprio objeto"82;
Fournier, o biógrafo, escreve que em sua explicação da troca Mauss havia
privilegiado o "poder espiritual das coisas"83. Nos últimos trinta anos, o ED
foi sendo "maorizado", como se tratasse apenas da Polinésia. Tornou-se
reconhecido como "obra-prima", mas marcado indelevelmente por um erro: a
mistificação pelo ponto de vista nativo; passou a ser visto como uma teoria, e
da reciprocidade, noção que nem sequer havia retido a atenção de Mauss naquele
momento; e foi transformado em estudo de economia. Tudo o que nele havia
referente ao direito tema central para Mauss e para o grupo de Durkheim foi
completamente esquecido pelos antropólogos, que se enredaram em querelas sobre
o hau e a explicação da troca84.
Nem todos os antropólogos que trataram o ED no período compartilharam, no
entanto, a crença coletiva em relação à explicação mística. Se observarmos a
antropologia social britânica, por exemplo, à exceção de Firth, outras figuras
expressivas não a consideraram. Edmund Leach, no livro sobre Lévi-Strauss, nem
sequer inclui a "Introdução" na bibliografia do autor. Para tratar do que chama
de "argumentos" do antropólogo francês sobre a troca, reporta-se ao estudo de
1949 e os trata como se eles se inscrevessem na mesma linha de pensamento de
Mauss e dos funcionalistas britânicos, como Firth85. Evans-Pritchard, que
conhecera pessoalmente Mauss e tinha por ele um grande apreço, distingue o ED
como um dos principais trabalhos do amigo e destaca sua contribuição para a
comparação sistemática da troca de presentes e sua função na articulação da
ordem social. Essas observações estão inseridas na nota que escreveu sobre
Mauss, incluída em livro publicado postumamente86. Ainda Mary Douglas87, em sua
introdução a uma tradução inglesa do ED , explora a dimensão interessada dos
dons e nem sequer faz menção a aspectos místicos. Em trabalho sobre o dom,
Jonathan Parry argumenta, contra Sahlins e Lévi-Strauss, que Mauss não oferece
uma explicação geral a partir de uma ideologia específica [maori], mas que põe
em evidência a indissociabilidade entre pessoas e coisas, presente também nos
direitos antigos88. A importância desse ponto do ED voltaria a ser destacada
pelo mesmo autor em publicação posterior89. E fora da Inglaterra haveria outros
exemplos a mencionar, como Appadurai90 e Ekeh91.
O ETNÓGRAFO DOS ETNÓGRAFOS
Passo agora à análise do caso do Diário no sentido estrito de termo (doravante
simplesmente Diário), de Malinowski, a fim de testar minhas hipóteses. O livro
é composto de duas partes: a primeira apresenta notas escritas entre setembro
de 1914 e agosto de 1915, durante a estada do autor em Mailu; a segunda contém
notas redigidas entre outubro de 1917 e julho de 1918, quando estava nas ilhas
Trobriandesas. Aí se encontra um repertório de angústia, mal-estar no trabalho
de campo, explosões de raiva em relação aos nativos, mas também se vêem notas
de método, comentários sobre colegas, notas teóricas, observações sobre os
nativos que atestam sua amizade por eles , críticas duras a si mesmo e sobre
suas relações com as mulheres, suas fraquezas e seus desejos. Ao registrar suas
reações em um Diário, Malinowski pretendia, e diz isso repetidas vezes, manter
o controle de si. Foi por iniciativa da viúva que o manuscrito polonês foi
traduzido para o inglês e publicado em 1967. Raymond Firth escreveu uma
introdução de oito páginas, na qual adverte os leitores de que se trata de um
"documento humano", destinado a tornar-se apenas uma nota de rodapé na história
da antropologia.
A publicação do Diário foi recebida com indignação pelos ex-alunos de
Malinowski. Em nova introdução para a segunda edição, Raymond Firth confessa
explicitamente o desconforto ao escrever a primeira e revela as reações que
tiveram em privado Hortense Powdermarker, Phyllis Kaberra e Lucy Mair, os quais
lhe reprovaram duramente por haver dado consentimento implícito à publicação,
ao escrever a "Introdução": temiam eles que os já hostis a Malinowski se
servissem do Diário para atacá-lo. Em uma carta endereçada a Firth em maio de
1967, Audrey Richards lhe dizia que Hortense Powdermarker já detectava certa
irritação entre os americanos, especialmente com relação ao emprego do termo
nigger para falar dos nativos, às referências à raiva que Malinowski sentira
por eles e ao tempo passado entre os europeus. Em resenha publicada no jornal
britânico The Guardian, Edmund Leach, que também fora aluno de Malinowski,
condenou a publicação do Diário e enfatizou que a palavra polonesa nigrami não
deveria ter sido traduzida como nigger, erro que levava Malinowski a ser visto
como racista92.
Os receios de Hortense Powdermaker tinham fundamento. Em setembro de 1967, a
New York Review of Books, prestigiosa revista literária norte-americana,
publicou uma resenha devastadora escrita por Clifford Geertz93. O Diário é
apresentado como o derradeiro golpe desferido contra o "mito" Malinowski:
pesquisador que em seu trabalho de campo tinha empatia extraordinária com os
nativos. O método do autor dos Argonautas é questionado: sua conduta no campo,
particularmente as explosões de raiva, revelava falta de empatia; e tal conduta
não fazia jus àquela que o próprio definia como apropriada para um pesquisador.
Geertz não diz, no entanto, onde, em sua obra, Malinowski havia firmado a
empatia como essência de seu método.
No momento em que a resenha fora publicada, Geertz tinha 41 anos e ocupava uma
das cadeiras do Departamento de Antropologia da Universidade de Chicago.
Iniciara os estudos universitários como aluno de letras, seguindo depois o
curso de filosofia. Em 1949, tendo terminado a formação universitária, seguiu
os conselhos de um professor e decidiu estudar antropologia; então foi fazer o
doutorado na Universidade de Harvard, onde Talcott Parsons criara o Department
of Social Relations, empreendimento interdisciplinar que marcaria a sociologia
dos Estados Unidos na década de 1950. Em 1967, Geertz já fizera trabalho de
campo na Indonésia (Bali e Java) e no Marrocos; publicara artigos e livros;
ensinara em Berkeley durante um ano; estivera no Center for Advanced Studies in
the Behavioral Sciences em Palo Alto, onde entrara em contato com alguns
grandes "nomes" das ciências humanas, entre os quais o sociólogo Edward Shills,
o cientista político David Apter, o antropólogo britânico Meyer Fortes e o
lingüista Roman Jakobson. Shills e Apter o convidaram a participar de outro
projeto interdisciplinar na Universidade de Chicago: o Committee for the
Comparative Studies of New Nations, cujo objetivo era estudar as transformações
sociais desencadeadas pelo desmantelamento dos impérios coloniais94.
A resenha de Geertz se inscrevia nas disputas que opunham os antropólogos dos
Estados Unidos a seus colegas na Inglaterra em relação ao modo de fazer
antropologia: privilegiar a cultura que, desde Talcott Parsons, era
compreendida entre os americanos como o universo dos valores e símbolos, ou
privilegiar as relações sociais, como preferiam os antropólogos britânicos.
Desde sua chegada a Chicago, Geertz e David Schneider, bem como outros jovens
antropólogos, dedicavam-se a modificar o ensino de antropologia na
universidade. A pretensão deles era descartar a herança estrutural-
funcionalista e redefinir a antropologia como o estudo da cultura95. Em 1963,
Geertz foi convidado, junto de Marshall Sahlins, Eric Wolf e David Schnneider,
a apresentar o ponto de vista americano em uma reunião da Association of Social
Anthropologists (ASA), que ocorreria na Universidade de Cambridge. Nessa
ocasião, criticou duramente seus colegas europeus, os quais considerava parados
no tempo, incapazes de qualquer renovação teórica. Geertz questionou em
especial o modo como se conduziam os estudos sobre religião, principalmente por
se relacionar a outras dimensões da vida social, e exprimiu seu ponto de vista
segundo o qual a religião deveria ser estudada como uma ideologia96. Na platéia
encontravam-se, entre outros, Edmund Leach, Max Gluckman, Jack Goody, Audrey
Richards, Raymond Firth, Meyer Fortes, todos formados direta ou indiretamente
por Malinowski. Não obstante os conflitos pessoais, todos ali se reconheciam no
método do mestre. Nas notas que fez nessa ocasião, Goody97 registrou suas
reservas em relação a essa nova maneira de fazer antropologia e enfatizou que,
para fazer avançar a teoria, são necessários dados e modelos a fim de analisá-
los, o que correspondia às lições de Malinowski. A publicação do Diário deu a
Geertz a oportunidade de lançar um novo ataque a seus colegas de além-mar ao
desacreditar o homem que havia inventado a antropologia social britânica.
Em 1970, Geertz foi convidado a ser o primeiro professor da School of Social
Sciences, recém-criada na prestigiosa Universidade de Princeton no quadro do
Institute for Advanced Studies. Àquela altura, ele já era um "nome" da
antropologia americana e tinha trunfos importantes: fora aluno de Talcott
Parsons, o que contava no mundo acadêmico americano, como assinala Kuper98,
mesmo em um contexto de declínio do modelo parsoniano; e acumulara capital
social graças à sorte que tivera de estar nos lugares estratégicos no momento
certo, como em Harvard, Palo Alto e Chicago entre as décadas de 1950 e 1960.
Em 1973, Geertz publicou seu manifesto em favor de uma antropologia
interpretativa. O propósito da disciplina, segundo ele, era a interpretação dos
símbolos da "cultura". As relações sociais em nada interessavam. Fazer
antropologia é então definido como fazer etnografia, e esta, por sua vez,
consiste em uma "descrição densa"99. Tal concepção representava uma ruptura,
não assinalada por Geertz, com o ponto de vista de Malinowski, para quem a
etnografia era um método, como fica claro em "Baloma"100 , Argonauts of Western
Pacific e Coral gardens. Em 1983, Geertz voltou a tratar do Diário. O
"problema" do texto, ao contrário do que muitos haviam apontado, não era de
ordem moral, mas epistemológica. O Diário tinha sido para a antropologia o
equivalente à descoberta da estrutura do DNA para a biofísica, pois tornara
inverossímeis as narrativas sobre o modo de trabalho dos antropólogos. "O mito
do pesquisador camaleão, perfeitamente afinado com seu entorno exótico, um
milagre ambulante de empatia, tato, paciência e cosmopolitismo, foi demolido
pelo homem que talvez tenha mais feito para criá-lo"101. Geertz continuava a se
apoiar nos dois supostos da resenha de 1967: o de que o Diário revelava
ausência de empatia, e o de que a empatia constituía o núcleo do método de
Malinowski. O autor formula então a seguinte pergunta: se o conhecimento do
ponto de vista dos nativos não depende da empatia, como então ele seria
possível? A solução seria o estudo das formas simbólicas: as palavras, as
imagens, as instituições e os comportamentos. Os comentários servem de
preâmbulo a uma análise sobre as concepções de pessoa em Bali, Java e no
Marrocos. O modo como as apresenta e as interpreta permite perceber a distância
que o separava do "mito". Para Malinowski, descrever e interpretar crenças eram
tarefas complexas. Como mostra à exaustão nas mais de cem páginas de "Baloma" ,
o problema residia em como identificar as crenças. Para Geertz, tal questão nem
sequer se colocava: ele não explica ao leitor como chegou às crenças nativas,
tampouco leva em conta a diversidade interna e as diferentes competências para
falar sobre as crenças, que tanto preocupavam Malinowski102. A diferença não
residia, portanto, na empatia, jamais invocada por este como recomendação de
método, mas na natureza das questões formuladas. Em Geertz, a questão consistia
em interpretar significados, tarefa que propõe que ser realizada da mesma forma
como se interpreta um texto ou um poema103.
Em 1988, Geertz retorna uma vez mais à publicação de 1967, nos quadros de uma
discussão sobre a credibilidade dos textos dos antropólogos104. Defende então a
tese de que a credibilidade se deve à capacidade de "convencer" que os autores
possuem e de que o convencimento é por eles logrado mediante o recurso a
procedimentos literários, ao estilo e ao fato de terem estado "lá", no campo.
Malinowski é apresentado como o herói que foi abatido por seu Diário, mas
Geertz não lhe recusa o crédito de ter convencido bem seus leitores a propósito
do kula e lhe confere o epíteto de "etnógrafo dos etnógrafos". Não são levadas
em conta as recomendações metodológicas de Malinowski, como a conduta no
trabalho de campo, o recolhimento de dados, a elaboração de explicações,
quadros e diagramas, a tomada de notas, o teste das hipóteses que se
encontram nos textos de caráter metodológico e no próprio Diário105. Para
Geertz, as atividades do antropólogo em campo não interessam: o que importa é o
modo como narra a experiência. O Diário serve de argumento para evidenciar a
distância entre a experiência subjetiva no campo e os escritos acadêmicos. Se
Malinowski teve êxito ao estabelecer o vínculo entre o trabalho de campo e a
escrita, isso se deve a recursos literários; se os leitores se convencem, isso
não se deve aos "fatos" apresentados.
As escolhas teóricas de Geertz têm relação com a herança parsoniana (a cultura
vista como esfera autônoma) e com a aproximação, nos Estados Unidos, entre a
antropologia, a filosofia e os estudos literários, como mostra Kuper106. Não se
trata aqui de discutir esses escritos, mas de examinar o lugar do Diário neles.
Malinowski foi e continua a ser referência obrigatória na disciplina. A
despeito das críticas às suas supostas "falhas" teóricas e de tudo o que foi
dito sobre o Diário, é um autor incontornável sempre que se trata de ensinar às
novas gerações o ofício de antropólogo; sua monografia sobre o kula é tida como
etnografia exemplar. Mesmo aqueles que desejam fazer uma "revolução" são
constrangidos a prestar-lhe homenagem. É o caso de Geertz, que acreditou
encontrar no texto de 1967 uma espécie de face oculta da etnografia e disso se
serviu para avançar suas proposições sobre o dever ser do ofício de
antropólogo.
Desde a década de 1980, Geertz se tornou um personagem central na antropologia
dos Estados Unidos107: foi reconhecido como o responsável pela renovação da
disciplina108 e como o antropólogo mais influente fora do círculo dos pares109.
Suas proposições relativas à antropologia como interpretação de significados, à
cultura como um texto; suas discussões sobre a escrita e a credibilidade dos
textos antropológicos; sua defesa da ruptura das fronteiras entre a
antropologia, a filosofia e a crítica literária, e sua ênfase na preeminência
da experiência subjetiva do antropólogo no campo tornaram-se fonte de
inspiração para a nova geração de antropólogos norte-americanos, como Marcus,
Cushman, Fischer, Clifford, Ortner e Rosaldo110. Os debates relativos à
natureza da etnografia, inaugurados por Geertz, apaixonam os jovens
praticantes, que dedicam longos textos à exegese do trabalho de campo, à
escrita antropológica e ao caráter experimental da etnografia. Os procedimentos
do antropólogo em campo para constituir seu corpus de análise não são objeto de
debate e passam a ser associados ao "realismo" da antropologia social
britânica, um paradigma que decretam superado. Nesse contexto o Diário de
Malinowski é freqüentemente invocado como um documento que atestaria a
incongruência entre a experiência subjetiva e as exigências de rigor
metodológico e cuja publicação teria desencadeado uma revolução na disciplina.
Nas referências ao Diário, nem sempre Geertz era citado: suas interpretações
sobre o texto e seus veredictos a respeito das implicações para a etnografia já
eram, nos anos 1980, uma doxa entre os antropólogos nos Estados Unidos. Para os
historiadores da antropologia, a etnografia e o Diário se tornaram um problema.
Assim, George Stocking111 propôs-se a historicizar o trabalho de campo de
Bronislaw Malinowski. O Diário foi tomado como fonte, mas o ponto de partida
era a problemática da "empatia", do mito Malinowski, da "desmistificação do
herói" e da experiência no campo, questões caras a Geertz desde 1967.
No resto do mundo anglo-saxão, o Diário não foi tratado do mesmo modo. Assim,
em 1970, Hortense Powdermaker observa que Malinowski jamais afirmara, nem nos
escritos nem nos cursos, ter empatia com os nativos: isso não fazia parte das
recomendações muito precisas que dava a seus alunos que partiam para o
campo112; Adam Kuper, em sua história da antropologia social britânica, volta
ao Diário, mas para evidenciar o modo como Malinowski trabalhava no campo e sua
"enorme criatividade"113; Urry, antropólogo australiano, em sua história da
antropologia britânica, faz referência ao texto de 1967 para assinalar as
recomendações metodológicas do autor114; e, mais recentemente, Michael Young, o
biógrafo, serve-se largamente do texto de 1967 para reconstituir a estada de
Malinowski no campo e estabelecer relação entre os dados do Diário e outras
fontes115. Outros grandes nomes da antropologia norte-americana, como Marshall
Sahlins, Eric Wolf e Sydney Mintz, não se engajaram na nova definição de
antropologia proposta por Geertz, mas foi o ponto de vista do último que
prevaleceu. A associação que estabeleceu entre antropologia, etnografia e
experiência é, em nossos dias, a interpretação hegemônica nos Estados Unidos.
A DOXA
No decorrer da análise, destaquei, por um lado, Lévi-Strauss, porque foi a
partir de seus escritos que se produziu a inflexão na leitura do texto de
Mauss, e, por outro, Clifford Geertz, cujo modo de tratar o Diário foi o que se
impôs como dominante. Para os dois casos foi possível formular hipóteses a
respeito do que poderia estar em jogo em suas interpretações no contexto em que
foram formuladas: para Lévi-Strauss, em um primeiro momento filiar-se a Mauss
para ser aceito por seus pares na França, e dele se distinguir por meio da
indicação do erro para fazer avançar sua própria teoria e sua própria carreira;
para Geertz, em um primeiro momento demolir Malinowski no âmbito da
concorrência com os antropólogos britânicos e depois utilizá-lo para legitimar
uma nova definição do ofício de antropólogo. Uma vez elaboradas, suas
interpretações sobre o ED e o Diário, como quaisquer outras, eram somente novas
mercadorias a circular no mercado das idéias. O crédito atribuído a seus
escritos esteve intimamente relacionado à ascensão de nossos dois personagens
na hierarquia de prestígio dentro e fora do mundo dos antropólogos. Foi o
capital científico, essa "espécie particular do capital simbólico, fundada
sobre o conhecimento e o reconhecimento"116, que lhes proporcionou tanto a
atenção para seus escritos como a crença na justeza de suas interpretações.
No que diz respeito ao ED, os primeiros antropólogos a atribuírem crédito a
Lévi-Strauss foram Raymond Firth e Marshall Sahlins. Não pertenciam à mesma
geração, mas tinham propriedades em comum: ambos trabalhavam sobre temas como a
economia, as trocas e o Pacífico Sul. Além disso, a argumentação da
"Introdução" se apoiava em passagens do ED referentes aos Maori, povo que os
dois tinham estudado. Compreende-se então por que os comentários de Lévi-
Strauss chamaram a atenção deles e por que eles, e não os especialistas de
outras províncias etnográficas, foram os propagadores da interpretação de 1950.
Lévi-Strauss era, desde os anos 1950, um interlocutor privilegiado dos
antropólogos nos debates sobre parentesco, à época tema nobre da disciplina. A
"Introdução" permitiu que os outsiders das disputas sobre aliança e filiação,
como Firth e Sahlins, viessem a também participar das discussões com a obra
daquele que era o farol da disciplina. Firth e Sahlins já tinham então um
"nome", eram antropólogos reconhecidos e professores de dois dos principais
centros de ensino da disciplina: a London School of Economics e a Universidade
de Chicago. O prestígio pessoal e o prestígio das instituições às quais estavam
vinculados garantiram que o aval dado por ambos à interpretação de 1950 tivesse
acolhida favorável.
No caso do Diário, foram os jovens antropólogos, alguns deles ex-alunos de
Geertz, como Sherry Ortner, que levaram adiante a boa-nova do mestre. Desejando
participar da "revolução" simbólica promovida pelo grande "nome" da
antropologia, eles trataram de reproduzir os pontos de vistas de Geertz, dentre
eles o que dizia respeito a Malinowski. À medida que os jovens também passaram
a ocupar posições importantes no mundo universitário norte-americano e a fazer
"nome", lograram obter uma enorme audiência para seus escritos dentro e fora do
país. O declínio da antropologia social britânica e a ascensão da antropologia
cultural norte-americana a partir dos anos 1970117 foram certamente decisivos
para que esses jovens antropólogos se impusessem no campo da antropologia.
Nos dois casos em exame, não houve por parte dos difusores das interpretações a
preocupação de ir nem ao ED nem ao Diário para verificar a pertinência das
interpretações. As palavras de Lévi-Strauss e de Geertz foram tratadas como
palavras autorizadas, como se o prestígio dos dois eminentes antropólogos
constituísse por si uma garantia do fundamento de suas afirmações118. Afinal,
como alertava Max Weber no trecho citado no início deste artigo, seria difícil
"pensar que um professor universitário pudesse se enganar completamente sobre a
questão em debate". A mesma observação vale para os antropólogos que, em
diferentes tradições nacionais, não se indagam sobre a pertinência das
interpretações a respeito de Mauss e Malinowski. Também eles acreditam na
palavra emitida pelos "grandes nomes"; eles crêem.
A dinâmica da instauração de uma doxa é entretida por essa crença e pelo modo
de funcionamento do mundo acadêmico. Nesse mundo, os indivíduos desejam
adquirir um "nome", ser escutados e reconhecidos como membros plenos. A via
clássica e menos arriscada para atingir tal objetivo é aliar-se ao mainstream,
seguir os grandes "nomes". Em antropologia, isso se faz sem muitos problemas:
basta enquadrar-se em um esquema teórico e assinalar a própria singularidade
pelo viés de sua etnografia. Essa abordagem garante, ao mesmo tempo, a escuta
dos crentes ao "grande nome" e o reconhecimento como especialista legitimado
pelo "trabalho de campo" (um "nome"). Tal modo de funcionamento contribui para
que as interpretações daqueles cujo carisma é reconhecido sejam consideradas
evidentes por si mesmas. Mas é possível ir além e tentar compreender a dinâmica
da doxa. A comparação com o fluxo de intrigas (gossip) em Winston Parva,
comunidade estudada por Elias e Scotson119, não nos afastará demasiado do
assunto. Como observam os autores, a participação nas intrigas de admiração
(praise gossip) e nas intrigas de acusação (blame gossip) em relação aos
outsiders garante aos estabelecidos o sentimento de pertencer ao grupo eles
se sentem por isso compelidos a tomar parte no jogo de intrigas: é o preço a
pagar para usufruir dos privilégios do establishment. Um dos elementos
determinantes da intriga é o grau de concorrência para ser escutado. É possível
avançar a hipótese de que a reprodução das interpretações de Lévi-Strauss e de
Geertz faria parte das intrigas de admiração; a associação do ED a "aspectos
místicos" e a associação do Diário à destruição do "mito" e seu método fariam
parte das intrigas de acusação. Valorizar uns e criticar outros era condição
necessária para se fazer entender, ou, como sugere Randall Collins120, para
atrair a atenção e ser aceito como membro pleno de uma comunidade aqui, a
comunidades dos antropólogos. Como em Winston Parva, aqueles que desejavam ser
reconhecidos como membros eram submetidos a coerções; estas, no entanto, não
eram percebidas como tais é o observador quem as vê. Em um mundo como o
acadêmico, no qual se crê na liberdade dos indivíduos e na virtude das idéias,
não surpreende que os indivíduos pensem a reprodução de um ponto de vista
simplesmente como produto da livre escolha intelectual da melhor idéia no
mercado.
Ao longo deste texto, procurei indicar a existência de antropólogos que, no
período estudado, trataram diferentemente o ED e o Diário e nem sequer levaram
em conta as interpretações de Lévi-Strauss e Geertz. Esses casos levantam uma
nova gama de questões como a do alcance das redes de intrigas e a das outras
modalidades de constituir um "nome" (como a heresia) , que vão além dos
objetivos deste trabalho. Tentei aqui simplesmente tornar inteligíveis os
fundamentos das crenças coletivas em uma certa interpretação e a dinâmica de
uma doxa. Para isso, levei em conta o lugar das ambições pessoais na produção
dos veredictos sobre os autores, as relações entre carisma e crença e os
efeitos das coerções sofridas para ser escutado dimensões freqüentemente
negligenciadas nas análises encantadas da repercussão das obras. Não era o caso
de questionar as obras ou a importância das contribuições de Lévi-Strauss,
Geertz ou outros personagens aqui invocados à teoria antropológica, mas de
compreender o ponto de vista deles e sua influência. Desenvolvi minha análise
com base nos casos do ED e do Diário e poderia proceder a partir de diversos
outros que apresentam características semelhantes com o propósito de oferecer
pistas para a análise da "força" das idéias.
[1] Uma versão preliminar deste texto foi apresentada em um seminário de
pesquisa no Centre de Sociologie Européenne, em novembro de 2005 em Paris; no
colóquio Rapports ambivalents entre sciences sociales européennes et
américaines, em fevereiro de 2006 em Liège (Bélgica), e em aula inaugural
ministrada no programa de pós-graduação em antropologia social da Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp), em março de 2006. Agradeço aos colegas
presentes nos três eventos pelos comentários e pelas críticas, assim como a
Federico Neiburg e Miguel Palmeira pela leitura cuidadosa desta versão
ampliada.
[2] Marcel Mauss. Paris: Fayard, 1994.
[3] James Carrier. "Exchange". In: A. Barnard e J. Spencer. Encyclopedia of
social and cultural anthropology. Londres/Nova York: Routledge, 1997 [ 1996].
[4] Ver Marcel Fournier, Marcel Mauss, p. 521.
[5] Ver p. 524.
[6] The word of Odysseus. Nova York: Viking Press, 1954.
[7] Le Pain et le cirque. Sociologie historique d'un pluralisme politique.
Paris: Editions du Seuil, 1976.
[8] "Obligation and right: The Durkheimians and the sociology of law". In:
Phillipe Besnard (org.). The sociological domain and the founding of French
school. Cambridge/ Paris: Cambridge University Press/ Éditions de la Maison des
Sciences de l'Homme, 1983.
[9] "Réponse finale aux critiques". In: Sociologie des religions. Paris: PUF,
1996 [1910], p. 445.
[10] Para a primeira parte, retomei e remanejei uma análise precedente sobre o
ED. Ver o artigo "As vicissitudes do Ensaio sobre o dom'", publicado em Mana.
Estudos de Antropologia Social, 5(2), 1999.
[11] "Introduction". In: B. Malinowski. A diary in the strict sense of the
term. Stanford: Stanford University Press, 1989 [1967], p. XVIII.
[12] "Essai sur le don. Forme et raison de l'échange dans les sociétés
archaïques". Sociologie et Anthropologie. Paris: PUF 1991 [1923-24], pp. 147 e
148.
[13] Argonauts of Western Pacific. Londres/ Nova York: G. Routledge & Sons
Ltd./ E.P. Dutton & Co.
[14] Para esta reconstituição do percurso rumo ao ED, apoiei-me nos programas
de curso de Mauss, em suas conferências e nas notas que redigiu no período. Ver
Marcel Mauss. Oeuvres 3. Cohésion sociale et divisions de la sociologie. Paris:
Minuit,1969, vol. III, pp. 34-77.
[15] "Essai sur le don", pp. 266 e 267.
[16] Marcel Fournier. Marcel Mauss, pp. 524-5.
[17] Crime and custom in savage society. Londres: Routledge & Kegan Paul,
Ltd., 1970 [1926], p. 41.
[18] Economics of the New Zealand Maori. Wellington, Nova Zelândia: R.E. Owen.
Government Printer, 1959 [1929].
[19] Ver p. 421.
[20] Marcel Mauss, "L'oeuvre de Marcel Mauss par lui-même", Revue Française de
Sociologie, XX(1), janeiro-março.
[21] Vejam-se a esse respeito os programas de curso da LSE (The calendar of the
LSE. 1937-38; 1938-39; 1947-48); Firth ("An appraisal of modern social
anthropology". Annual Review of Anthropology, vol. 4, 1975, p. 2) e Fournier (Marcel Mauss, pp. 634-5).
[22] Histoire de l'ethnologie classique. Paris: Payot, 1971 [ 1937] e Traité de sociologie primitive. Paris: Payot, 1969 [1936], pp.
193-6.
[23] Coral gardens and their magic. Londres: George Allen & Unwin Ltd.,
1935.
[24] "Richard Thurnwald et la Mélanesie. Réciprocités, hiérarchies,
évolutions". Gradhiva: Revue d'Histoire et d'Archives de l'Anthropologie, n.
14, 1993.
[25] "La sociologie française". In: Gurvitch, G. (org.). La sociologie au XXe
siècle. Paris: PUF, 1947, p.20.
[26] Paris: Mouton, 1967 [1949], p. 61.
[27] Ver pp. XI-XII.
[28] Ver p. 61.
[29] Ver p. 99.
[30] Sobre a reivindicação da herança maussiana, ver Karady ("Présentation".
In: Marcel Mauss. Oeuvres. 1. Les Fonctions sociales du sacré. Paris: Les
Éditions de Minuit, 1968, pp. I-VI), e Fournier (Marcel Mauss,
pp. 760-6). É Karady quem chama a atenção para o fato de que a preocupação em
reabilitar a Escola via Mauss teria funcionado como critério na seleção dos
textos incluídos na coletânea. Assim, só foram escolhidos textos da
"maturidade" de Mauss e deixados de lado outros mais conformes à ortodoxia
durkheimiana, provavelmente para tornar o ensinamento da escola mais aceitável
ao gosto da época (p. V).
[31] Claude Lévi-Strauss. "Introduction à l'oeuvre de Marcel Mauss". In :
Marcel Mauss. Sociologie et anthropologie. Paris: PUF 1991 [1950].
[32] Claude Lévi-Strauss. "Introduction à l'oeuvre de Marcel Mauss", p. XXIV.
[33] Ver pp. XXXIII-XXXVI.
[34] Ver p. XXXVIII.
[35] Os negritos correspondem às supressões. Ver Marcel Mauss, "Essai sur le
don", p. 214.
[36] Ver p. XXXVIII.
[37] Ver p. XXXIX.
[38] Annie Cohen-Solal. "Claude Lévi-Strauss aux Etats-Unis: Des portes donnant
accès à d'autres mondes et à tous les temps". Critique, LV, 1999, p. 25.
[39] F. Peixoto. "Lévi-Strauss no Brasil: A formação do etnólogo". Mana:
Estudos de Antropologia Social, vol. 4, n. 1., 1988, pp. 81-7.
[40] F. Héritier. "La Citadelle imprenable". Critique, T.LV., n.620-621, 1999,
p.63.
[41] Claude Lévi-Strauss e Didier Eribon. De près et de loin, p. 76.
[42] Ver p. 80.
[43] Em entrevista concedida vinte anos após o episódio, Lévi-Strauss refere-se
a este sentimento (C. Clément e D. A. Grisoni. "Lévi-Strauss: autoportrait".
Magazine Littéraire, n.58, nov. 1971, p. 24).
[44] Como observa Bertholet, o fato de ocupar um lugar na antropologia
americana conferia-lhe prestígio e um peso considerável na França, mas não lhe
assegurava posição institucional. Para tanto, Lévi-Strauss precisava "se situar
na tradição etnológica francesa". "É por isso que ele acrescenta às referências
americanas uma série de nomes franceses. Marcel Mauss, claro." (D. Bertholet.
Claude Lévi-Strauss. Paris: Plon, 2003, p. 173. )
[45] Homo academicus. Paris: Les Editions de Minuit, 1984.
[46] "The structural implications of matrilineal cross-cousin marriage".
Journal of the Royal Anthropological Institute, n. 81, 1951.
[47] Political systems of highland Burma. Boston: Beacon Press, 1967 [1954].
[48] As referências a Leach se apóiam em trabalho anterior (L. Sigaud,
"Apresentação". In: E. Leach. Sistemas políticos da Alta Birmânia. São Paulo:
Edusp, 1996), no qual analisei a sua posição singular no campo
da antropologia social britânica.
[49] Claude Lefort. "A troca e a luta dos homens". In: Escobar, C. H.: O método
estruturalista. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1967 [1951], pp. 64-79
[ STANDARDIZEDENDPARAG]
[50] Maurice Merleau-Ponty. "De Mauss à Lévi-Strauss". Signes. Paris:
Gallimard, 1960, pp. 143-57.
[51] "In memoriam. Marcel Mauss". Année Sociologique. Troisième Série (1948-
49), 1951.
[52] "Don et échange dans le vocabulaire indo-européen". Année Sociologique.
Troisième Série (1948-49), 1951, pp. 7 e 8.
[53] "Droit et predroit en Grèce Ancienne". Droit et Institution en Grèce
Ancienne. Paris: Flammarion, 1982 [1951], pp. 11-2.
[54] "Une science en devenir". L'Arc, n. 48, 1972 [1952], p. 8.
[55] E. Evans-Pritchard. "Introduction à L'Essai sur le don'", L'Arc, n. 48,
1972 [ 1954].
[56] The Maori and his religion in its non-ritualistic aspects. Copenhague:
Ejnar Munksgaard, 1954, p. 115, nota 75.
[57] Ver pp. 117-9.
[58] Economics of the New Zealand Maori.
[59] Primitive Polynesian Economy. Londres: Routledge & Keagan Paul, 1965
[1939], pp. 331-2.
[60] "Review of M. Mauss The Gift". Man, 55 (30), 1955.
[61] "Some principles of exchange and investment among the Tiv". American
Anthropologist, 57 (1), pp. 60-70, 1955.
[62] Claude Lévi-Strauss. The formative years. Cambridge, Cambridge University
Press, 2003, p. 175.
[63] Muito já foi escrito sobre a preeminência de Lévi-Strauss naquele período
e o fascínio dos filósofos por seu estruturalismo. Ver a respeito Pierre
Bourdieu e Jean-Claude Passeron ("Sociology and philosophy in France since
1945: death and resurrection of a philosophy without subject", Social Reasearch
XXXIV(1), 1967), D. Bertholet (Claude Lévi-Strauss, pp. 179-
242) e F. Keck (Claude Lévi-Strauss, une introduction. Paris: La Découverte,
2005).
[64] D. Bertholet. Claude Lévi-Strauss, p. 325.
[65] "Themes in economic anthropology. A general comment". In: R. Firth (org.).
Themes in economic anthropology. Londres: Tavistock Publications,1970 [1967],
pp. 24 e 25.
[66] Marshall Sahlins. "The spirit of the gift: une explication de texte". In:
Pouillon, J. e Maranda, P. (orgs.). Échanges et communications. Melanges
offerts à Claude Lévi-Strauss à l'occasion de son anniversaire. Paris: Mouton,
1970. pp. 1001-2.
[67] D. Bertholet. Claude Lévi-Strauss, p. 325.
[68] "Marcel Mauss's The Gift revisited". Man, vol. 5, n. 1, 1970, p.60.
[69] Claude Dubar. "Retour aux textes". L'Arc, n. 48, 1972, p.25.
[70] G. Condominas. "Marcel Mauss et l'homme de terrain". L'Arc, n. 48, 1972,
p. 4.
[71] R. Gasché. "L'Échange héliocentrique". L'Arc, n. 48, 1972, p. 84.
[72] D. Holler. "Malaise dans la sociologie", L'Arc, n.48 1972, p. 61.
[73] Pierre Bourdieu. Le Sens pratique. Paris: Éditions de Minuit,1980, pp.
167-89.
[74] Esquisse d'une théorie de la pratique. Genebra/ Paris: Librairie Droz,
1972, p. 222.
[75] P. E. Josselin de Jong. "Marcel Mauss et les origines de l'anthropologie
structurale hollandaise". L'Homme, 12(4), 1972, pp. 62-84.
[76] David Parkin. "Exchanging words". In: Kapferer, B. (org.). Transaction and
meaning. Direction in the anthropology of exchange and symbolic behaviour.
Filadélfia: Institute for the Study of Human Issues, 1976, p. 163.
[77] The Budhist saints of he forest and the cult of amulets. A study in
charisma, hagiography, sectarianism, and millennial Budhism. Cambridge:
Cambridge University Press, 1993 [1984], p. 340.
[78] L'Abondance des pauvres. Paris: Editions du Seuil, 1984, p. 33.
[79] Inalienable possessions. The Paradox of keeping-while-giving. Berkeley:
University of California Press, 1992, pp. 44-65.
[80] L'énigme du don. Paris: Fayard, 1996, p. 32.
[81] "Negative strategies in Melanesia". In: Fardon, R. (org.). Localizing
strategies. Regional traditions of ethnographic writing. Edimburgo/ Washington:
Scottish Academic Press/ Smithsonian Institution Press, 1990, p. 204.
[82] "Exchange", p. 219.
[83] Marcel Mauss, p. 520.
[84] O artigo de Alain Testart ("Uncertainties of the obligation to
reciprocate'". In: W. James e N. J. Allen (orgs.). Marcel Mauss. A centenary
tribute. Nova York/ Oxford: Berghahn Books, 1998, pp. 97-110) a respeito da obrigação de retribuir é um exemplo eloqüente da amnésia
dos antropólogos. Em nenhuma passagem do texto o autor trata essa obrigação
como própria do direito primitivo. Uma abordagem distinta da teoria da
obrigação em Mauss pode ser encontrada no trabalho de um sociólogo como Vogt
("Obligation and right").
[85] Lévi-Strauss. 4a ed. Londres: Fontana Press, 1996 [1970], p. 121.
[86] E. Evans-Pritchard. History of anthropological thought. Londres/ Boston:
Faber and Faber, 1981, pp. 191-2.
[87] "Il n'y a pas de don gratuit. Introduction à l'édition anglaise de l'Essai
sur le don de Marcel Mauss". La Révue Mauss, nº 4, 2o semestre de 1989.
[88] "The gift, the Indian gift and the Indian gift'". Man, (N. S.) 21, 1986,
pp. 453-73.
[89] J. Parry e M. Bloch. Money and the morality of exchange. Cambridge:
Cambridge University Press, 1995 [1989], pp. 5 e 11.
[90] A. Appadurai. The social life of things. Commodities in cultural
perspective. Cambridge/ Nova York/ Port Chester/ Melbourne/ Sydney: Cambridge
University Press, 1990 [1986].
[91] Peter Ekeh. Social exchange theory. The two traditions. Londres: Heinemann
Educational Books, 1974.
[92] Ver R. Firth, "Second introduction". In: B. Malinowski. A diary in the
strict sense of the term. Stanford: Stanford University Press, 1989 [1967].
[93] "Under the mosquito net", New York Review of Books, vol. 9, nº 4, set.
1967.
[94] Para os dados biográficos de Geertz, usei Handler ("An interview with
Clifford Geertz". Current Anthropology, 32 (5), 1991, p. 607), Geertz (After the fact. Two countries, four decades, one
anthropologist. Cambridge (Mass.) : Harvard University Press, 1995) e Kuper (Culture. The anthropologists' account. Cambridge (Mass.) /
Londres: Harvard University Press, 1999).
[95] R. Handler. "An interview with Clifford Geertz", p. 607, e David
Schneider, Schneider on Schneider. The Conversionof the Jews and other
Anthropological Stories. Durham e Londres, Duke University Press, 1995, pp.
174-191.
[96] Geertz desenvolveu essas idéias no artigo "Religion as a cultural system".
In: M. Banton (org.). Anthropological approaches to the study of religion.
Londres: Tavistock Publications, 1973 [1966], pp. 1-46.
[97] The expansive moment. Cambridge: Cambridge University Press,1995, pp. 146-
8.
[98] A. Kuper. Culture.
[99] The interpretation of cultures. Basic Books, 1973, pp. 5-6.
[100] "Baloma, The Spirits of the Dead in the Trobriand Islands", Magic,
Science and Religion. Garden City, Nova York: Doubleday Anchor Books, 1955
[1916].
[101] Local knowledge. Further essays in interpretive anthropology. NovaYork:
Basic Books, 1983, pp. 56-7.
[102] Enquanto Malinowski considerava que o domínio da língua era condição
necessária para compreender o ponto de vista nativo, Geertz não se preocupava
com isso: analisou a noção de pessoa entre os balineses sem conhecer a língua
deles. Quando Handler lhe indagou, na entrevista publicada em 1991, se o
trabalho de campo em Bali havia implicado o aprendizado da língua, respondeu:
"Não, jamais aprendi bem o balinês".
[103] C. Geertz, Local knowledge, p. 70.
[104] C. Geertz, Works and Lives. The Anthropologist as Author. Stanford:
Stanford University Press, 1988.
[105] Em artigo sobre a importância dos procedimentos burocráticos nas
etnografias de alguns antropólogos, Kenneth Dauber ("Bureaucratizing the
etnographer's magic". Current Anthropology, 36 (1), 1995, pp. 75-95) analisa o caso de Malinowski e chama a atenção para a preocupação com
os registros precisos, valendo-se para tanto também do Diário.
[106] A. Kuper. Culture.
[107] Ver A. Kuper, Culture, p. 118, e "Alternative histories of British social
anthropology", p. 61 (Social Anthropology, 13(1), 2005).
[108] Sherry Ortner (org.). The fate of Culture'. Geertz and beyond. Berkeley/
Londres: University of California Press, 1999, pp. 1-13.
[109] W. H. Sewell Jr. "Geertz, cultural history : From synchrony to
transformation". In: Sherry Ortner (org.). The fate of Culture', p. 35.
[110] George Marcus e Dick Cushman. "Etnographies as texts". Annual Review of
Anthropology, n. 11, 1982, pp. 25-69; George Marcus and
Michael M. J. Fischer (orgs.). Anthropology as cultural critique. An
experimental moment in the human sciences. Chicago/ Londres: The University of
Chicago Press, 1986;. James Clifford e George Marcus. Writing
culture. The poetics and politics of ethnography. Berkeley (LA)/ Londres: 1986; James Clifford. The predicament of culture. Cambridge (Mass.)/
Londres: Harvard Univesity Press, 1988; Sherry Ortner (org.).
The fate of Culture', 1999; R. Rosaldo. Culture and truth.
The remaking of social analysis. Boston, 1999. Encontra-se uma
análise fina da importância de Geertz como fonte de inspiração para a nova
geração em Kuper (Culture, pp. 201-25).
[111] "The ethnographer's magic". In: The ethnographer's magic and other essays
in the history of social anthropology. Chicago: The University of Wisconsin
Press, 1983, pp. 12-59.
[112] "Further reflections on Lesu and Malinowski's Diary". Oceania, vol. 40,
1970, pp. 346-7.
[113] Antropólogos e antropologia. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora,
1978 [1973].
[114] J. Urry. Before social anthropology: Essays on the history of British
social anthropology. Chur (Suíça): Harwood Academic Press, 1993.
[115] Malinowski. Odyssey of an anthropologist: 1884-1920. New Haven/ Londres:
Yale University Press, 2004.
[116] Science de la science et réflexivité. Paris: Éditions Raison d'Agir,
2001, p. 70.
[117] A. Kuper. "Alternative histories of British social anthropology".
[118] O modo como Lévi-Strauss e Geertz lidaram com os textos de Mauss e
Malinowski foi semelhante. Nos dois casos não há referência às páginas para o
leitor conferir o que está sendo dito. Ambos os intérpretes consideram que os
textos em questão desencadearam verdadeiras revoluções na disciplina. Assim, o
ED teria aberto "uma nova era para as ciências sociais" e sua importância para
a antropologia seria equivalente àquela da descoberta da análise combinatória
para a matemática moderna. Para Geertz, o Diário seria o equivalente em
antropologia à descoberta do DNA. Haveria aproximações a serem feitas entre
esse modo de proceder e aquele corrente entre profetas e mágicos, mas não há
espaço aqui neste artigo para explorar esses pontos.
[119] Norbert Elias e John L. Scotson. The established and the outsiders. A
sociological enquiry into community problems. Londres/ Nova Delhi: Thousand
Oaks/ Sage Publications, 1994 [1965].
[120] The sociology of philosophies. A global theory of intellectual change.
Cambridge (Mass.)/ Londres: The Belknap Press of Harvard University Press,
1988, pp. 38-9.