O que é a Multidão? Questões para Michael Hardt e Antonio Negri
Império, de Michael Hardt e Antonio Negri, um dos mais influentes e
controvertidos livros acadêmicos de nosso jovem século, termina com a grande
visão utópica da "multidão contra o Império": o poder constituinte das massas
desejantes contra a nova forma de soberania global sendo forjada sob nossos
próprios olhos. Mas algumas questões ficaram deliberadamente por responder: de
que maneira a multidão constituirá a si mesma como sujeito político? "Não temos
quaisquer modelos a oferecer para esse acontecimento".1 Como eles próprios
dizem noutra entrevista concedida a nós2: "Uma das maiores autocríticas de
nosso livro é que o conceito de multidão permaneceu muito indefinido, poético
demais. Isso se deve em parte ao nosso foco principal sobre o Império e a
dimensão requerida pela análise de sua natureza e suas estruturas. Seja como
for, a multidão é o foco de nosso trabalho atual e esperamos ser capazes de
desenvolver o conceito mais plenamente no futuro". Seu novo livro, Multidão,
assume o desafio de desenvolver o outro lado da "multidão contra o Império",
trazendo o conceito de multidão "da poesia da imaginação para a prosa do
pensamento"3.
Assim como Império, Multidão recobre uma enorme extensão ' dos conflitos
armados dos movimentos contemporâneos de squatter na África do Sul até os
Federalist Papers ' intercalados com passagens líricas que iluminam o texto
principal de maneiras surpreendentes, além de excursos mais longos que
enquadram os assuntos teóricos e práticos levantados pelo livro4. A admirável
ambição, presente em Império, para apresentar novas idéias a um público mais
amplo, continua e é até mesmo radicalizada em Multidão, que procura teorizar
sobre o conceito de multidão ' o qual, como muitos conceitos intuitivamente
simples, vêm a ser mais complicados do que parecem ' através de uma linguagem
livre de jargões, mais acessível a um público não-acadêmico. O conceito de
multidão tem sido extraordinariamente produtivo para nós, e ainda ' nos limites
do conceito, por assim dizer ' apresenta aspectos obscuros e nos deixa
hesitantes em aceitá-lo. Grande parte dessa entrevista impõe, da perspectiva
dessas hesitações e incertezas, a pergunta que Multidão procura responder: o
que é a multidão?
Nicholas Brown e Imre Szeman ' A despeito da opinião que as pessoas em geral
tiveram sobre ele,Império teve um impacto enorme em círculos intelectuais mundo
afora. Existem pontos específicos que os surpreenderam na recepção do livro '
pontos que ajudaram a dar forma a Multidão? Por exemplo, no começo de Multidão
vocês dizem explicitamente que o livro não pretende responder à questão "o que
fazer?" ou estabelecer um mapa específico para uma determinada forma de mudança
política, mas que esse é um livro de filosofia. Também nos parece, ainda que o
livro esteja comprometido com a filosofia, que formalmente ele está aberto para
um público maior e mais amplo que o de Império ' um público não conhecido
exatamente por seu interesse em filosofia!
Michael Hardt e Antonio Negri ' Talvez filosofia não seja o termo apropriado
para esse caso, já que o que escrevemos tem provavelmente pouca relação com a
disciplina contemporânea "filosofia". Até o ponto em que estamos fazendo
filosofia em Multidão, é certamente filosofia num sentido bastante amplo, ou
seja, buscando produzir conceitos adequados para a situação contemporânea e
investigar os valores emergentes do nosso mundo. Mas até mesmo quando se
propõem valores e alternativas, quando se descobrem novos modos de viver, não
se devem esquecer as dimensões materiais da vivência de formas de organização
política e social, com todos os seus desejos e sofrimentos. Talvez Multidão
insista demais na busca dessas dimensões materiais (que apenas parcialmente
encontra). Esse talvez seja um dos aspectos mais positivos do livro (e, ao
mesmo tempo, uma de suas limitações), mas é certamente o espírito que o anima.
Essa pode ser também a questão sobre o que se pode e deve esperar de um livro
político como esse. O que pode fazer um livro político? Ficamos muito
satisfeitos com o fato de tanta gente ter reconhecido e explorado as
implicações políticas de nosso argumento em Império, mas ficamos também
surpreendidos pela freqüência com que as pessoas nos dizem que o livro faz
mais, que ele traça o mapa de um caminho político prático ou proporciona um
programa político concreto. Seria inútil para nós inventar tais projetos
práticos e exigir que eles devessem ser seguidos se o seu potencial ainda não
existe na prática coletiva. Falando de uma maneira geral, nosso trabalho, ao
invés disso, toma os desejos e práticas políticas atualmente existentes como
uma base para formular alternativas potenciais à ordem mundial de hoje. Isso
faz parte do que estamos tentando indicar quando enfatizamos (talvez
erroneamente) a natureza filosófica de nosso livro.
Permitam-nos perguntar, talvez ingenuamente: por que esse projeto é necessário
hoje? No que consiste exatamente esse fato de que a filosofia em sentido amplo
' aquilo que Gilles Deleuze e Félix Guattari descreveram como "a arte de dar
forma, inventar e fabricar conceitos"5 ' pode fazer pelas situações políticas
descritas por vocês ao longo do livro? Na esteira do 11 de setembro, alguns
críticos enfatizaram que devemos fazer uma pausa e produzir uma teoria melhor
(ao invés de abandonar a filosofia pela política, supostamente seu contrário);
isso parece encontrar um eco em sua insistência em fabricar conceitos adequados
para nossa conjuntura histórica antes do lançamento de qualquer programa
político concreto. Ao mesmo tempo, lembramos a avaliação crítica de Perry
Anderson, em
Considerações sobre o marxismo ocidental, sobre a mudança da economia política
e da revolução para as questões de método e o pessimismo. Em que medida
Multidão é um livro de filosofia que ultrapassa a filosofia como sintoma de
estagnação e bloqueio de energias políticas?
Bem, esta é provavelmente a primeira vez que nosso trabalho é associado ao
pessimismo! E, de maneira geral, esse tipo de trabalho filosófico não nos
parece envolver pessimismo ' nem otimismo. Ele certamente implica encarar sem
ilusões as formas de poder, exploração e opressão contemporâneas, mas também
implica a criação de conceitos que possam considerar o potencial efetivo dos
desenvolvimentos e libertações alternativos.
Pode-se entender o que estamos fazendo nesses dois livros como o começo de uma
enciclopédia para o século 21. E é claro que não somos os únicos que embarcaram
nesse projeto. É sobretudo um amplo esforço coletivo para inventar (e
reinventar) conceitos adequados às necessidades do pensamento político
contemporâneo. E também, é claro, de desmistificar conceitos que obscurecem a
realidade. Tentem pensar numa lista deles: biopolítica e biopoder, o comum,
comunicação, comunismo, poder constituinte, democracia, diferença, decisão,
dependência e interdependência econômicas, Império, êxodo, amigo/inimigo,
governo, hibridez, migração, miscigenação, modernidade/pós-modernidade/"outras"
modernidades, representação, revolução, e a lista poderia continuar... Talvez
quando considerado assim, nosso trabalho realmente pertença à tradição
filosófica do Iluminismo, à espera de um movimento real que poderia se ligar a
esse trabalho filosófico, à espera de uma nova prática que se casaria com esse
novo léxico.
Mas isso não é tudo e nos devolve à avaliação de Perry Anderson citada por
vocês. Certamente não pensamos que hoje deve haver um afastamento da prática em
direção à teoria ou da economia política e da revolução em direção a questões
de método. A investigação deve avançar em ambos os campos, simultaneamente. E
seria um erro assumir nesse caminho uma divisória entre teoria e prática. Os
movimentos sociais de hoje ' contra a guerra, sobre as condições de trabalho,
imigração, o desenvolvimento, desigualdades de gênero e como muitos outros
assuntos ' não estão simplesmente dedicados à prática. Há um nível elevado de
teorizações que se dão no dia-a-dia nos movimentos, e freqüentemente
trabalhando com conceitos iguais ou comparáveis aos que estamos explorando.
Assim, finalmente, para voltar à sua questão inicial: esse tipo de filosofia é
necessário hoje porque precisamos de um novo vocabulário e de enquadramentos
conceituais novos para entender o mundo contemporâneo e as possibilidades que
ele nos proporciona. E parece-nos que esse tipo de engajamento filosófico ou de
renovação conceitual está em curso muito mais abrangentemente do que se pode
imaginar.
Vocês afirmam explicitamente que a tarefa primordial de Multidão é
reconceitualizar o conceito de democracia, e um dos aspectos mais poderosos de
seu trabalho é a preeminência dada à possibilidade de democracia numa escala
global. Vocês compreeendem a questão da democracia à luz das limitações
profundas que se impuseram ao conceito desde sua formulação contemporânea nos
finais do século xviii (quando as possibilidades presentes napolisgrega foram
redimensionadas para a escala do Estado-nação), mas também referindo-se ao que
vocês vêem como a abertura potencial hoje disponível para a atualização da
"democracia real do governo de todos para todos, baseado em relações de
igualdade e liberdade" (p.67).
Há particularmente dois limites conceituais e materiais que precisam ser
ultrapassados antes que o governo de todos para todos possa vir a existir:
primeiro, a associação de democracia com representação, que tem sido
fundamental tanto para as várias formas de republicanismo como também para as
de socialismo; segundo, o conceito de soberania, que restringe o processo de
decisão a uma unidade (de qualquer modo constituída) ao invés de a uma
pluralidade da multidão. Vocês podem falar sobre cada um desses limites e sobre
a possibilidade de democracia que existe no outro lado de cada um deles?
Vocês estão certos ao dizer que representação e soberania constituem os dois
obstáculos centrais ou pontos de conflito para qualquer inovação teórica ou
experimentação prática preocupada com a renovação da democracia. No caso da
soberania, a tarefa é relativamente clara: destruir de uma vez por todas o
elemento transcendente (ou, pior, o elemento místico) no qual se apóiam a idéia
da política em todas as suas formas e a idéia de governo em sua articulação com
o domínio do capitalismo tardio. Já o conceito de representação coloca-nos um
desafio mais complexo. Certamente as formas operacionais predominantes de
representação hoje em dia, especialmente os arranjos eleitorais correntes, são
extremamente limitadas. Mas isso não deve nos levar a buscar a abolição
imediata de todas as formas de representação ' ou até, em termos práticos,
exigir que os esquemas representativos existentes estejam inteiramente de
acordo com suas promessas. Somente poderíamos caminhar para além da
representação, se isso for um projeto factível, ao fazer pressão nas formas
existentes e experimentando novas formas de representação.
A relação com a história, sob esse ponto de vista, é dupla. Há caminhos nos
quais os desafios e possibilidades de nossa era são novos, mas temos muito a
ganhar ao reconhecer certas continuidades com o passado. Por exemplo, não se
apressem em colocar o republicanismo como um todo no campo da soberania e da
representação. Thomas Jefferson, no final de sua vida, após seu mandato
presidencial, tentou esclarecer como o termo "republicanismo" deveria ser
utilizado. Nos primeiros tempos dos Estados Unidos, existiam muitos e vagos
usos do conceito: "consideramos que tudo o que não seja monarquia é
republicano".6 Agora, eis uma tentativa de Jefferson de definir com mais
precisão. "Se eu atribuísse a esse termo uma idéia precisa e definitiva, diria
pura e simplesmente que ele significa um governo dos próprios cidadãos, em
massa, agindo direta e pessoalmente, de acordo com regras estabelecidas pela
maioria; e que qualquer outro governo é mais ou menos republicano na proporção
em que possui em sua composição mais ou menos desse ingrediente de ação direta
dos cidadãos" (p. 1392). Jefferson tentava se opôr às distantes e controladas
formas de representação previstas pela Constituição e pelos Federalistas com
algum tipo de ação e participação diretas dos cidadãos. Com isso não queremos
dizer que podemos encontrar as respostas no passado, mas reconhecer que nossa
continuidade em relação a determinadas tradições pode ajudar a encontrar o
caminho correto.
As respostas efetivas, é claro, somente virão com a prática. A crise
generalizada da representação coloca no centro da agenda política a necessidade
de experimentar novas formas de representação e formas não-representativas de
organização democrática. Um dos aspectos da nossa tarefa teórica é acompanhar
essas experimentações à medida que surgem.
EmImpério, a potência responsável por essas experimentações, teorizada como "a
multidão contra o Império", ficou, como vocês mesmos reconhecem, ainda muito
vaga conceitualmente. Para nós, o conceito de multidão é ao mesmo tempo o
grande atrativo de Império e também seu maior problema. Por isso encaramos
Multidão com tanta expectativa. Nas primeiras páginas do prefácio, vocês
colocam em primeiro plano o que consideramos a principal contradição do
conceito de multidão. De um lado, podemos notar o "projeto da multidão", a
construção de uma vida em comum, numa democracia global. Por outro lado, "a
multidão não pode jamais ser reduzida a uma unidade". Mas acontece que um
projeto é necessariamente tal unidade! Como resolver essa contradição? Podemos
pensar em várias soluções insatisfatórias, desde a idéia segundo a qual o
desejo progressivo da multidão é uma média estatística de todos os desejos
contraditórios entre si, até o simples postulado a priori de uma vontade
universal em direção à democracia. Já outra solução parece mais defensável
conceitualmente: a unidade de um projeto deve ser, por assim dizer, "imposta a
partir de dentro" da própria multidão. Mas quem a imporá, a não ser uma
vanguarda de intelectuais e ativistas? Contudo, o vanguardismo político é tido
por vocês como um elemento conservador especialmente nocivo e anacrônico.
O assunto é uma versão da velha questão da "unidade entre teoria e prática",
que perdeu muito do seu significado. Mas o problema que subsiste é real.
Estamos pensando especificamente num ensaio de Lukács, pouco lido hoje em dia,
que tem o proibitivo e enferrujado título "Para uma metodologia do problema da
organização". Ele argumenta que tal projeto social ' digamos, a democracia
global ' é abstrato a ponto de não significar nada, a menos que seja mediado
por uma organização social. "Aspire à paz mundial", como uma frase de pára-
choque de caminhão, literalmente não quer dizer nada, mas todos podemos
concordar em "paz", aqui, precisamente porque não sabemos o que ela significa.
Qualquer mobilização social efetiva que tiver a paz mundial como alvo ao mesmo
tempo concretizará a "paz" e irá de encontro a todo tipo de
oposição."Democracia" é outra dessas abstrações, e começamos realmente a
desistir da idéia de que a democracia como projeto político pode ser salva na
sua concretização atual, nos vários métodos coercitivos e sedutores pelos quais
as políticas de privatização e do laissez-faire estão estabelecidos pelo mundo.
Por outro lado, um aspecto atraente deMultidão é a concepção de democracia
solidamente ancorada na insistência de uma expansão do que é comum a todos. Tal
como a entendemos, a multidão exerce a função de organização social mediadora
entre aquele conceito ainda por demais abstrato (democracia global) e a prática
política. O modo de organização endógeno da multidão é a rede distribuída: se
não estivermos simplificando demais, o modelo é mais ou menos o de alianças
espontâneas e temporárias coordenando agendas diferentes, sem um comando
central. Hoje, certamente, esse modo de organização é efetivo, ao menos quando
se trata de mobilizar demonstrações de massa contra os abusos da ordem
contemporânea. Mas o modo de organização que caracteriza "a multidão contra"
seria adequado à construção de um projeto político positivo, "a multidão a
favor de"? Porque é possível identificar atores globais a favor de, digamos,
encorajar o estripação do sindicalismo e ao mesmo tempo a exploração impensada
dos recursos naturais no Terceiro Mundo, grupos como, por exemplo, o FMI.
Organizações de direitos indígenas, centrais sindicais e desenvolvimentistas
podem juntos se organizar para protestar contra o FMI. Mas isso não significa
que seus interesses sejam semelhantes, que possam sobreviver a uma série de
concessões táticas, ou que poderiam estar de acordo quanto a um programa
político concreto e positivo em direção à democracia global.
Deixem-nos elaborar a questão da unidade de modo diferente. Um aspecto da
reinvenção atual da democracia é a necessidade de destruir a separação entre a
sociedade civil e o Estado ou, para dizê-lo em termos diferentes, a separação
entre o social e o político. Esse é um projeto de longo prazo da tradição
marxista, freqüentemente expresso na própria obra de Marx. Hoje, contudo,
parece finalmente existir as condições para destruir essa separação. As
condições estão dadas pela própria natureza da crise contemporânea. De fato, a
passagem à pós-modernidade política e o reconhecimento prático do biopoder e da
biopolítica têm um papel-chave para ir além da separação burguesa entre social
e político. Por um lado, o capital contemporâneo precisa seguir esse processo
porque, na sua forma de biopoder, precisa explorar o social diretamente através
do poder político. Por outro, o processo de formação da multidão está
profundamente envolvido com a destruição dessa separação. Mas esse
estreitamento pode acontecer de várias maneiras e isso não resulta
necessariamente numa unidade. Na verdade, para a multidão não é essencial que
isso resulte numa unidade.
A multidão está engajada na produção de diferenças, invenções e modos de vida.
Deve, assim, ocasionar uma explosão de singularidades. Essas singularidades são
conectadas e coordenadas de acordo com um processo constitutivo sempre
reiterado e aberto. Seria um contra-senso exigir que a multidão se torne a
"sociedade civil". Mas seria igualmente ridículo exigir que forme um partido ou
qualquer estrutura fixa de organização. A multidão é a forma ininterrupta de
relação aberta que as singularidades põem em movimento.
Será que esse projeto é de fato uma enorme abstração? Não parece que seja, ao
menos até o ponto em que um esquema imaginário racional não é abstrato quando
responde à crise do sistema de autoridade vigente. O desejo vai naturalmente
aonde está o perigo; a imaginação vai naturalmente ao âmago da crise. A
imaginação da multidão predispõe as subjetividades para uma ação comum diante
da crise.
Mas o comum não é unidade, nem quando envolve resistência contra o inimigo, nem
quando implica a construção coletiva de terreno para a existência da polis ' em
resumo, nem quando é "multidão contra", nem quando é "multidão a favor".
"Multidão contra" significa resistência a forças que não desejam o comum, que o
bloqueiam e o dissolvem, que o separam e se reapropriam dele privadamente.
"Multidão a favor", pelo contrário, significa afirmação do comum em sua
diversidade e em cada uma de suas expressões criativas. Se chamarmos isso de
unidade, teremos de fazê-lo como unidade paradoxal, composta unicamente por
diferenças. Mas essa formulação tende a reduzir e negar diferenças. Eis porque
preferimos conceitos como multiplicidade e singularidade.
O que vocês dizem sobre a unidade imposta a partir de dentro da multidão
aproxima-se do que diríamos, mas continuamos convencidos de que unidade é um
conceito errado. Quem já viveu experiências de luta política e períodos de
êxodo sabe que as articulações entre o "contra" e o "a favor", constitutiva e
ontologicamente reais e positivas, são criadas de dentro do próprio movimento.
Até mesmo a vanguarda leninista (ou a imaginada por Lukács) não vem de fora,
mas sobretudo de dentro do próprio movimento.
Por que unidade? Vocês parecem pensar que o único caminho para as forças de
resistência desafiarem os poderes dominantes é se unir, mesmo que essa
unificação contrarie nossos desejos de democracia, liberdade e singularidade. É
uma concessão, vocês parecem dizer, que lamentavelmente devemos aceitar em face
das duras realidades do poder. Não estamos convencidos disso. De fato, mesmo
que se aceite por um momento pensar apenas em termos de efetividade e suspender
todos os desejos políticos, não acreditamos que a unidade seja a chave.
Pensemos apenas em termos das atuais lutas políticas concretas de resistência.
Seriam realmente mais efetivas se estivessem unificadas? O poder de algumas
delas não está diretamente ligado à diversidade interna e suas expressões de
liberdade? Pelo conteúdo, aquilo que o conceito de multidão indica (e vemos
isso emergir em movimentos por toda a parte) é uma organização social definida
pela capacidade de agir em conjunto sem qualquer unificação.
Que papel o isomorfismo ' entre, digamos, essa capacidade da multidão de agir
em conjunto sem unificação e a "constituição mista" do próprio Império '
desempenha emMultidão? Estamos pensando, novamente, na figura da rede, que é
simultaneamente uma descrição da forma material assumida pelo poder global
contemporâneo, a forma necessária de insurgências contra esse poder e também
modelo de uma vida comum formada entre singularidades. Outro isomorfismo pode
ser visto no próprio conceito de multidão, que encontra paralelo no "enorme
poder de abstração" do mundo das finanças, embora vocês acrescentem igualmente
que a expressão da riqueza social "é distorcida pela propriedade privada e pelo
controle nas mãos de poucos". Como devemos relacionar esses isomorfismos à
compreensão das condições históricas da possibilidade de expressão do potencial
democrático desde sempre presentes na multidão? E como relacioná-los ao
enquadramento da estratégia política contemporânea, às ações que pretendem
tornar efetivo o potencial latente da multidão?
Vocês estão certos em enfatizar os isomorfismos presentes em nosso livro.
Poderia ser útil pensá-los, em primeiro lugar, em relação aos isomorfismos da
obra de Foucault, especialmente na fase da "arqueologia". Segundo ele, o
isomorfismo ajuda a reconhecer a coerência e a consistência nos diferentes
setores de uma época específica ou de uma dada formação social. As rupturas
entre os períodos são mais claramente marcadas pela troca por uma nova figura
isomórfica. Entretanto, em Foucault, o que essa análise não ilumina são as
diferenças entre estratégias de poder e as de resistência. Em outras palavras,
olhando estritamente para essas relações isomórficas, poder e resistência têm a
mesma forma e podem aparecer indistintamente. E isso também é verdade em
relação a nosso trabalho, como vocês já apontaram. Contudo, toda essa análise
dos isomorfismos é limitada a uma perspectiva descritiva. Isomorfismos são
procedimentos descritivos no sentido de que guardam relação com uma determinada
"forma de exposição". Esse panorama muda completamente quando trocamos o ponto
de vista descritivo pelo ontológico. Do ponto de vista ontológico, cada um
desses procedimentos descritivos é dirigido por um motor fundamental, que
poderíamos chamar, dependendo do caso, tanto o motor do trabalho vivo quanto o
da "marcha da liberdade". Quando adotamos o ponto de vista da dinâmica do
trabalho vivo, podemos ver como a rede de lutas precede as formas da norma
capitalista, das transformações tecnológicas às mudanças na jornada de trabalho
e até mesmo às formas do mundo das finanças ' em outras palavras, por toda a
parte em que estão constituídas as formas coletivas da gestão do capital. A
construção de um horizonte democrático da multidão exige a quebra da solidez e
da reiterada afirmação ou reconstrução do modelo abstrato e geral da rede
produtiva e financeira do capital. Essa é, em primeiro lugar, uma ruptura
ontológica, uma espécie de vôo, um movimento além, um êxodo, ou realmente uma
decisão que marca a irreparabilidade do ponto de vista do capital. Isso não
significa que as instituições capitalistas não podem ou não devem ser usadas
para fins revolucionários. É sobretudo uma questão de encontrar na rede os
pontos de intervenção privilegiados e, por conseguinte, de ruptura. Quando a
multidão consegue agir em relação a esses pontos, não apenas propõe um tipo de
isomorfismo invertido (na linha da dialética negativa), mas sobretudo exerce a
força da produção imaterial, cognitiva e afetiva, de acordo com o desígnio
requerido pela construção do comum, que está implícito nessa produção.
Falando então da dialética: o que há de errado com ela? Fizemos essa questão
antes a vocês de diferentes formas. Para nós, muitos dos seus mais profundos
insights são profundamente dialéticos ' até mesmo no sentido clássico ' e no
entanto a dialética é tratada como um anátema, tanto emMultidãoquanto
emImpério. É claro que há muita coisa em Hegel que precisa ser descartada, como
acontece com qualquer filósofo que continue vital. Não se engole integralmente
até mesmo Espinosa. E como em outros filósofos, há apropriações vulgares
embaraçosas, até mesmo algumas historicamente poderosas, que precisam ser
desacreditadas. Mas como vocês bem sabem, hoje existe um repensar importante de
Hegel que considera muitos dos estereótipos hegelianos ' teleológico,
eurocêntrico, panlogicista..., os suspeitos de sempre ' simplesmente
irrelevantes em relação ao que há de mais importante em Hegel. A certa altura,
vocês apontam para o debate entre Butler, Laclau e Zizek como uma evidência de
que mesmo argumentos em torno da dialética são inúteis e chatos. Mas Zizek '
sejam quais forem os méritos da sua tentativa recente de revelar um Deleuze
completamente hegeliano ' venceu sem grande esforço esse debate!
Não discordamos de que Zizek venceu a troca de idéias, como vocês dizem, mas
isso não torna esses argumentos sobre a dialética mais úteis ou interessantes
para nós próprios. Vale a pena repetir que se por dialética vocês entendem
simplesmente enfatizar a trama das relações da realidade material (à la Bertell
Ollman), então não temos argumentos contrários. Mas se vocês, ao invés disso,
entendem por dialética um movimento teleológico capaz apenas de reconhecer
diferenças como contradições e, a partir daí, recuperar toda diferença numa
unidade final ' e é assim que entendemos Hegel ' então temos realmente um
problema. O que está em evidência no contexto de nossa conversa é o conceito da
multiplicidade em si, o qual achamos que é recusado pela dialética hegeliana.
Vocês estão certos, contudo, de que é possível flexibilizar nossa compreensão
dessas figuras históricas. Podemos ser rígidos em nossa oposição à teleologia,
ao eurocentrismo e a outros aspectos apontados por vocês, e ao mesmo tempo
abertos a novas interpretações de Hegel (de qualquer modo, a tentativa de Zizek
talvez não fosse descobrir um Deleuze hegeliano, mas sobretudo trazer à luz
aspectos deleuzianos de Hegel, o que poderia, é claro, nos tornar mais
simpáticos à empreitada).
Como sugere a dicotomia de vocês, há um interessante terreno comum aqui. Mas,
por enquanto, gostaríamos de sugerir uma versão hegeliana de uma passagem que
consideramos central em seu trabalho: o momento em que a multidão "surge como
sujeito e declara que um outro mundo é possível'". Não estariam vocês propondo
a transição explosiva de uma "multidão em si" para uma "multidão para si"? A
dificuldade apresentada por vocês é como tal transição é possível sem a unidade
imposta por uma regra soberana ou algo parecido (digamos, disciplina
partidária). A analogia que vocês fazem com a neurociência é poderosa. O
cérebro não tem um comando central; ele "decide" sem que seja uma unidade real.
O que parece e é sentido em nosso dia-a dia como uma decisão subjetiva é na
verdade o resultado de inúmeros processos paralelos sem qualquer centro
determinado. A consciência é, na frase memorável de Tor Norretranders, não mais
que uma "ilusão do usuário", uma heurística conveniente.7 Isso tudo parece
razoável e até mesmo óbvio, mas falta levar em consideração a "realidade da
aparência". Sim, a consciência pode ser somente aparência, mera ilusão de um
comando central, mas o que não se perguntou foi exatamente o que acontece se a
ilusão for eliminada. Parece que a ilusão é em si mesma uma parte vital ' e,
desse modo, real ' do funcionamento real dos processos que ela mascara.
Podemos então devolver a analogia ao terreno da subjetividade política? A
ilusão de unidade transcendental é essencial para o funcionamento de
multiplicidade imanente real? É possível que a estrutura da soberania (ou algo
parecido) seja de fato necessária à construção de um sujeito político, uma
ficção que seja todavia essencial à operação de fato do poder constituinte?
A questão é muito sutil e propõe um compromisso interessante entre
reconhecimento teórico (da multiplicidade) e necessidade política (de unidade).
Apesar disso, não estamos convencidos da necessidade de um sujeito político
unitário. Talvez o advento do "para si" da multidão seja apenas a explosão
definitiva da unidade ontológica que todos os conceitos do político ' conceitos
de autoridade, soberania e de sujeito ' tentavam expressar.
Parece-nos, hoje, que importa menos procurar o tipo de garantia fornecida pela
unidade, e até mesmo pela aparência dela, do que enfatizar os riscos, as
incertezas e as possibilidades da atual situação. Nesse período de transição,
equilibrados como estamos no limite mais distante da modernidade, poderíamos
pensar novamente nos tipos de criatividade que caracterizaram em seu nascimento
o humanismo florentino. No início, o ser estava dado (num sentido neoplatônico)
entre o nada e o desejo, e ele emerge na descoberta do novo. É um caminho
difícil por uma floresta escura, não uma rodovia bem iluminada. Mais uma vez os
conceitos foucaultianos parecem adequados: genealogia e dispositif, episteme e
produção de si são ferramentas de trabalho nesse contexto de incertezas. E o
que nos orienta através de tudo isso, parece-nos, é o desejo.
Existem dois conceitos reciprocamente ligados, apresentados de início
emImpério, que desempenham papel importante na discussão da guerra e da
democracia emMultidão: biopolítica e trabalho imaterial. Vocês argumentam
convincentemente que o trabalho imaterial e afetivo se tornou hegemônico ' não
porque muitas pessoas são pagas para produzir afetos mas porque, como o
trabalho fabril antes dele (que nunca eclipsou o trabalho agrícola em termos
numéricos), impôs uma tendência sobre todas as outras formas de trabalho. Essa
tendência exige delas que "se informatizem, tornem-se inteligentes, tornem-se
comunicativas, tornem-se afetivas". Como o termo "imaterial" pode dar a
entender que o trabalho perdeu suas características materiais, vocês propõem
essa nova tendência como "trabalho biopolítico... trabalho que cria não apenas
bens materiais mas também relacionamentos e ultimamente até a própria vida
social". Não poderíamos descrever toda forma de trabalho como igualmente
produtora de relacionamentos e da vida social? Seria equivocado ver o trabalho
' todas as formas de trabalho ' como necessariamente afetivo, até um grau que
não pode ser ignorado e que torna difícil estabelecer tais distinções? A
biopolítica refere-se em parte à perda de foco das distinções tradicionais
entre o econômico, o político, o cultural e o social. Mas será que essas
distinções não eram apenas conceituais e que, na prática, esses campos sempre
estiveram indistintos?
Sim, o trabalho sempre produziu bens imateriais. Em Petrônio, pode-se ler como
os escravos produziram bens afetivos. E os escribas medievais cristãos e
islâmicos eram tão alienados no trabalho de copiar quanto os trabalhadores da
informação e do computador. Mesmo as massas de trabalhadores das indústrias do
aço e automobilística, que apoiaram a organização coordenada do trabalho
industrial, criaram comunidades tanto no processo produtivo quanto nas greves:
afetos e inteligência produtiva caminharam juntos com a faina diária do
processo produtivo. Entretanto, o que é diferente hoje, na era da produção
biopolítica, é que a invenção intelectual e/ou afetiva se tornou a fonte
principal de valor e riqueza na sociedade. Ou seja, algo que sempre existiu,
assumiu hoje posição dominante.
O interessante é que tanto vocês quanto nós estamos inclinados a redistribuir
os papéis históricos a partir de nosso atual ponto de vista ' algo parecido ao
que Marx disse na introdução aos Grundrisse: a anatomia do homem tem a chave
para a anatomia do macaco. Precisamente por causa do domínio da produção
imaterial, a tendência hoje é ver isso de modo mais claro. Justamente porque
esse trabalho imaterial produz relacionamentos e a vida social de maneira
direta, podemos ver, com clareza inédita, que o alvo do capital é realmente a
produção de relações sociais. A produção de mercadorias materiais ' como
geladeiras, carros e soja ' são na verdade apenas estágios intermediários no
processo produtivo. Os objetos reais são as relações sociais que essas
mercadorias materiais criam ou facilitam. Do ponto de vista de uma economia
dominada pela produção imaterial, podemos ver isso com nitidez. Olhando
retrospectivamente, podemos reorientar nossa história na direção desse
reconhecimento.
EmMultidão, é surpreendente a distinção entre sua relação com Marx e sua
relação com o marxismo. Sob certos aspectos, seu excurso sobre o método de Marx
é uma defesa de seu próprio método contra os marxistas "ortodoxos" ' diríamos,
aqueles que, contra o espírito das análises do próprio Marx, recusam-se a
historicizar Marx. Vocês apontam vários procedimentos análogos entre seu
próprio trabalho e o de Marx, cada qual levando-os a conclusões diferentes de
uma linha marxiana "ortodoxa", mas não obstante ainda visível, de forma mais ou
menos incipiente, nos próprios escritos de Marx.
Um paralelo importante não mencionado por vocês é o da coincidência da forma de
trabalho hegemônica com a forma de exploração hegemônica em Marx. Na análise
clássica marxista, o proletariado ao mesmo tempo produz a ordem industrial e
tem o máximo a ganhar ao ir para além dele. Agora, enquanto o trabalho
imaterial se espalha e em algumas circunstâncias é até bem remunerado, vocês
argumentam que os pobres ' através de migrações, invenção lingüística, modos de
sociabilidade, saberes tradicionais, etc. ' produzem muito de nossa vida em
comum. De fato, "os pobres corporificam a condição ontológica da própria vida
produtiva". Como em Marx, a forma hegemônica de exploração e a forma hegemônica
de trabalho coincidem. Por que não dar um passo adiante e chamar os pobres de
classe revolucionária? Por que não dizer que o problema é a transformação de
massas despossuídas, ainda uma classe "em si" ' "os sujeitos monetários sem
dinheiro" de Robert Kurz, pessoas incluídas no capitalismo mas absolutamente
sem capital ' em uma classe "para si"? Por que o problema é transformar a
multidão num sujeito político ao invés de transformar os pobres("e seus
aliados", como se costumava dizer)num sujeito político?
Em primeiro lugar, os pobres não podem constituir uma classe. A pobreza é um
limite-ideal, embora os pobres em si sejam uma realidade material ' mesmo
quando demandam por esmolas como simples massa numérica, eles participam na
dimensão coletiva da atividade humana e seus modos de vida. Os pobres nos
ajudam a compreender o poder do que é comum. Um de nossos pontos polêmicos
sobre os pobres (e vocês parecem ter aceitado isso) é que não devemos realmente
considerar os pobres como excluídos, igualmente porque a atividade dos pobres é
socialmente produtiva e porque quando o desejo dos pobres (ou sua indignação ou
ódio, como diria Espinosa) se torna concreto, então ele está incluído,
constituindo um objeto de desejo coletivo. Mas nada disso faz dos pobres uma
classe em separado.
O mais importante, contudo, é que não aceitamos a noção segundo a qual um
reconhecimento analítico do domínio de uma forma de trabalho na economia
deveria implicar o domínio daquela classe na luta política. Por essa razão,
quando dizemos que hoje o trabalho imaterial se tornou dominante sobre outras
formas de trabalho, isso não significa para nós que os produtores imateriais
devem ter o privilégio de exercer um papel dominante nas lutas políticas.
Pensem em todas as tragédias a que essa lógica levou no passado: colocando a
prioridade política dos trabalhadores industriais por sobre os camponeses,
assalariados homens sobre o trabalho doméstico feminino e assim por diante.
Nossas noções dos pobres e do que é comum nos levam a, pelo contrário, uma
concepção expansiva e aberta do proletariado.
Gostaríamos de fazer uma pergunta que vocês devem estar cansados de ouvir, mas
talvez possamos fazê-la de um modo diferente. Mais uma vez, estamos
inteiramente persuadidos por suas conclusões a respeito da constituição mista
do Império e a base necessariamente supra-nacional para resistir a ele. Ao
mesmo tempo, muitos de nossos colegas do hemisfério sul insistem que o tema
principal para a esquerda deve ser a auto-determinação nacional. E eles tocaram
no ponto. Em muitos países do terceiro mundo cujas economias são determinadas
em grande parte por outras nações, por instituições internacionais, por grandes
corporações e pelos mercados financeiros sobre os quais elas têm pouco
controle, até mesmo a questão de um programa político progressista moderado
torna-se inseparavelmente associada à questão da auto-determinação nacional.
Pensem nos despejos vergonhosos dossquattersfeitos pelo governo sul-africano em
nome do interesse do capital estrangeiro pela garantia dos direitos de
propriedade, ou a tentativa de chantagem que os mercados financeiros fizeram ao
eleitorado brasileiro. É claro que a questão da auto-determinação é facilmente
desviada para objetivos nacionalistas estreitos, e é claro que à soberania
global emergente do Império não se pode opor exitosamente uma insistência
reacionária na soberania nacional. Ao mesmo tempo, em grande parte do mundo
parece que a questão nacional é não só ainda importante mas permanece
fundamental. Assim, vocês acham que a resistência ao Império pode ter uma base
nacional e outra supra-nacional? Ou essas duas perspectivas são em última
instância incompatíveis e antagônicas? A antiga posição é naturalmente a mais
atraente, mas existem razões para ser cético em relação a ela.
Essa é uma questão importante e não estamos certos de que possa ser respondida
de maneira genérica. Como vocês sugerem, as lutas políticas nacionais e supra-
nacionais não se excluem entre si necessariamente. Por exemplo, no excurso
sobre a geopolítica, tentamos apontar caminhos pelos quais os esforços
internacionais de nações subordinadas podem efetivamente bloquear ou se pôr
contra algumas políticas do capitalismo global e suas instituições. Em outras
palavras, está claro que um único país, como por exemplo a Argentina, não pode
desafiar exitosamente as políticas do fmi ou da omc, mas que junto a uma
coalizão de países nos quais se inclui talvez o Brasil, a China, a Índia e a
África do Sul, uma operação como essa poderia ser exitosa, pelo menos até certo
ponto. O colapso dos encontros de Cancun promovidos pela omc é um desses
exemplos. Talvez possamos pensar nisso como uma troca da teoria da dependência
(que poderia implicar uma estratégia de auto-determinação nacional) para uma
teoria da interdependência, confiando nessa coalizão de poderes nacionais.
É claro que devemos ter em mente que todas essas noções de alianças
estratégicas com o que chamamos de aristocracias do Império (incluindo esses
governos nacionais subordinados) são apenas provisórias. É importante para a
multidão se engajar com elas mas também é importante nunca conceder seu destino
a elas.
Em Multidão, vocês novamente empregam inserções em itálico e partes que são
descritas como excursos. EmImpério, as inserções significam uma homenagem ao
uso que Espinosa faz dos escólios na Ética, e são espaços que se abrem para
maneiras diferentes de interação com as idéias do livro. As inserções
emMultidãotêm a mesma função formal? E o que dizer dos três excursos que tratam
de questões de método, organização e estratégia?
As inserções em Multidão realmente têm a mesma função, novamente como o escólio
para Espinosa, de interromper a discussão e se aproximar do assunto por outra
perspectiva. Cada inserção realiza isso de modo diferente. Durante a composição
de Multidão, pensamos em criar uma função sistemática para as inserções. Uma de
nossas idéias (mas agora mais com Marx em mente do que com Espinosa) era ter
algumas inserções que atacariam as "sagradas famílias" ' ou seja, preconceitos
comuns do pensamento ' e outras que apresentariam "Comunas de Paris" ' ou seja,
momentos históricos de inovações na luta revolucionária. A inserção de
Huntington poderia ser um exemplo da primeira e as inserções da Rebelião de
Shay, Berlim, Seattle e os White Overalls, exemplos da segunda. Mas nunca
conseguimos realizar isso de modo sistemático.
Já os excursos são diferentes. Pensamos neles como suplementos que coordenam e
aprofundam a discussão política. Ocorreu-nos também, enquanto escrevíamos, que
faria sentido ler simplesmente os três excursos conjuntamente: método,
organização e geopolítica. Eles dariam uma visão do projeto político como um
todo.
Admiramos o comedimento utilizado por vocês ao trazer o 11 de Setembro e a
Guerra em curso no Iraque para a análise dos desafios em face da constituição
de uma democracia global. Vocês não se intimidam em falar sobre esses
acontecimentos, mas eles não dominam a análise: são parte de uma narrativa
maior sobre a biopolítica e o biopoder ' certamente parte da história da
política contemporânea, mas não o acontecimento único e dominante ou o assunto
que deve desempenhar um papel decisivo na estratégia ou na teoria política.
Alguns de nossos colegas citaram o 11 de Setembro e a inflexão do poder
nacional americano como provas positivas contra a explicação da "constituição
mista" da soberania contemporânea pressuposta porImpério. Isso nos parece
claramente um equívoco ' um tipo de tendência a enfatizar excessivamente o
presente, que atropela o que é necessariamente uma análise de longo prazo. Ao
comporMultidão, quanta atenção foi dedicada ao modo pelo qual vocês incluiriam
os problemas levantados pelo 11 de Setembro?
Vocês estão certos quando dizem que tentamos analisar o 11 de Setembro e a
Guerra do Iraque não como rupturas de época mas como sintomas terríveis e
horrendos de um acontecimento que já ocorreu. Como vocês mesmos dizem, é mais
útil enxergá-los no contexto de uma análise histórica mais ampla. Antes mesmo
de setembro de 2001 havíamos começado o capítulo da guerra civil global e da
questão da violência. Assim, para nós, talvez, tudo isso só reforçou o que já
vínhamos pensando.
Gostaríamos de finalizar tal comoMultidão: com o amor. O amor já aparece nos
interstícios deImpério(relacionado, por exemplo, às formas diferentes de amor
identificadas por Espinosa), e recentemente o amor militante do apóstolo Paulo
se tornou uma pedra de toque de um tipo de versão esquerdista, oficialmente
ateísta, do cristianismo. Qual a importância do amor para a política
contemporânea ' e para a democracia que está para vir?
Essa é uma intuição que ainda não desenvolvemos completamente. Seria possível
articular uma série de terrenos que o tema do amor pode abrir no campo da
ciência política: amor como livre expressão dos corpos, como inteligência
somada ao afeto, como geração contra a corrupção. Mas há um peso cultural que
dificulta o desenvolvimento de uma concepção política do amor. Precisamos
livrar o conceito dos limites do casal romântico e despojá-lo de
sentimentalismo. Precisamos de uma concepção inteiramente materialista do amor,
ou de uma concepção verdadeiramente ontológica: o amor como poder da
constituição da existência.
Sim, como vocês mesmos sugerem, o Cristianismo (bem como o Judaísmo e
provavelmente também as outras religiões) realmente oferece uma concepção
política do amor. Pensamos em nossa própria concepção de amor como uma
concepção primordialmente espinosana, mas vocês sabem, é claro, o quão
profundamente enraizado ele está nas tradições cristãs e judaicas. O amor, para
Espinosa, está baseado num reconhecimento duplo: reconhecimento do outro como
diferente e reconhecimento de que a relação com esse outro aumenta nosso
próprio poder. Assim, para Espinosa, o amor é o aumento de nosso próprio poder
acompanhado do reconhecimento de uma causa externa. Notem que isso não é uma
noção de amor na qual toda a diferença se perde ao abraçar uma unidade que
amarra seus movimentos ' uma noção comum para a maior parte dos teólogos
cristãos. Não. Esse é um amor baseado na multiplicidade. E isso é exatamente
como concebemos a multidão: singularidade somada a cooperação, reconhecimento
da diferença e do benefício de uma relação comum. É nesse sentido que dizemos
que o projeto da multidão é um projeto do amor.
Tradução do inglês de Milton Ohata
[1] Michael Hardt e Antonio Negri. Empire, Cambridge: Harvard, p. 41.
[ Há edição brasileira: Império, Rio de
Janeiro,Record,2005,7ed.]
[2] The Global Coliseum: on Empire, Cultural Studies,16 2,março de 2002,
177-192.
[3] G.W.F.Hegel.Lectures on Fine Art, vol. 1.Oxford:Clarendon,1975,p.89.
[4] Michael Hardt e Antonio Negri. Multitude: War and Democracy in the Age of
Empire, New York: Penguin, 2004. [ tradução brasileira:
Multidão, Rio de Janeiro,Record,2005]
[5] Gilles Deleuze e Félix Guattari. What is Philosophy, tradução de Hugh
Tombinson e Graham Burchell,Nova York: Columbia University Press, 1994,p.2.
[6] Thomas Jefferson.Writings,Nova York:Library of America,1984,p.1.396.
[7] Tor Norretranders. The User Illusion: Cutting Consciousness Down to
Size,Nova York: Viking,1998.