Amores fáceis: romantismo e consumo na modernidade tardia
Es hielo abrasador, es fuego helado,
es herida que duele y no se siente,
es un soñado bien, un mal presente,
es un breve descanso muy cansado
Quevedo, "Soneto amoroso definiendo el amor"
As tensões entre um suposto "amor verdadeiro", movido por ideais nobres e
sentimentos sublimes, e o "amor interesseiro", fundado nas motivações
egoísticas das partes, não são fonte de inspiração apenas dos folhetins
românticos e livros de auto-ajuda. Pelo menos desde as primeiras décadas do
século XX, o tema também é objeto de atenção das ciências sociais. O que as
interessa porém não são os enredos sentimentais nos quais os amantes vivem seus
prazeres, auto-enganos e ilusões, mas as lógicas ou padrões de ação que imperam
ou deveriam imperar nas diferentes esferas sociais. Assim, nas ciências sociais
as fricções entre amor verdadeiro e amor interesseiro tomam a forma de tensões
entre a lógica instrumental que vige na economia ou na política e a natureza
das relações amorosas.
Conforme o grosso da bibliografia especializada, as tensões entre interesses
instrumentais e relações amorosas são levadas ao paroxismo na modernidade
tardia. Trata-se aqui genericamente das sociedades modernas contemporâneas,
marcadas pela compressão sem precedentes do tempo e do espaço, pela
racionalização, impessoalização e desterritorialização das relações sociais e,
do ponto de vista dos indivíduos, por uma radicalização do princípio da auto-
responsabilidade em relação ao próprio presente e ao futuro. Dessa forma, as
comunidades tradicionais a grande família, a localidade de origem etc. se
rarefazem e as referências coletivas modernas a família nuclear, o sindicato,
a nação etc. vêem obliterada sua capacidade de recosturar os laços de
proximidade e solidariedade desfeitos pela modernização.
Nesse contexto o indivíduo se torna ele próprio processador de pressões de
todas as ordens que caem sem anteparos sobre seu colo: espera-se dele não só
desempenho profissional e competência social, mas também um cultivo intelectual
e estético que o destaque em seu grupo social1. É em meio a esses
constrangimentos que se idealizam e se constroem as relações amorosas, e a
questão que se coloca é se de fato é possível conciliar lógicas de ação e
padrões de relação social tão diversos como aqueles que imperam na esfera
íntima e nos sistemas funcionais da modernidade tardia. Pois, enquanto no
mercado prevalecem relações impessoais e instrumentais e o que conta é a
qualificação, o desempenho técnico ou o dinheiro que se tem no bolso,
esperando-se de cada indivíduo disciplina, capacidade de seguir regras
aprendidas e previsibilidade de comportamento, nas relações amorosas, conforme
a idealização romântica, deveria supostamente contar o oposto: a
espontaneidade, a imprevisibilidade, a transgressão de regras e convenções.
Ademais, se no mercado os indivíduos são avaliados segundo critérios
generalizáveis e se tornam, por isso, intercambiáveis, nas relações amorosas o
critério de seleção é subjetivo e inacessível à cognição, o que torna a pessoa
amada única e insubstituível aos olhos do amante.
No debate das ciências sociais essas naturezas distintas do mercado e do amor
foram tradicionalmente vistas como antinômicas e irreconciliáveis. Nessa
discussão confere-se particular atenção à questão da crescente mercantilização
dos contextos em que o amor é vivido e idealizado. O que se questiona é se o
amor romântico, construído na história social moderna como o último refúgio do
aconchego e da espontaneidade, da entrega altruísta e da suspensão das relações
instrumentais, pode subsistir à comercialização capitalista sem medidas nem
fronteiras dos espaços sociais e de lazer nos quais as experiências amorosas
são vivenciadas.
Esse debate prosperou de forma particularmente intensa no interior da teoria
crítica e recentemente vem sendo revivificado no âmbito do intercâmbio entre a
"terceira geração" da Escola de Frankfurt e os estudos culturais. Tal diálogo
se encontra refletido no trabalho da socióloga Eva Illouz, da Universidade de
Jerusalém, acolhido e discutido com entusiasmo entre os teóricos críticos
contemporâneos. Seu livro Consumindo a utopia romântica, de 1997, que analisa
as transformações do amor romântico ao longo do século XX nos Estados Unidos,
foi agraciado pela Associação Americana de Sociologia com o prêmio para
contribuições destacadas e em 2003 teve sua tradução para o alemão publicada
pelo Instituto de Pesquisas Sociais (Institut für Sozialforschung), sendo
prefaciado por seu diretor, Axel Honneth2. O debate com a autora vem tendo
continuidade em seminários e colóquios, e recentemente mereceu um número
especial da revistaWestEnd, o novo periódico do Instituto.
Em linhas gerais, o trabalho da autora busca enfatizar a relação de
complementaridade entre amor romântico e mercado na modernidade tardia. Para
ela, a comercialização dos contextos românticos não causa danos à subjetividade
nem produz patologias sociais. Ao contrário, amor romântico e capitalismo
constituem um par bem resolvido. Segundo a autora, o consumo massivo de rituais
amorosos constitui o núcleo do amor romântico contemporâneo, revigorando tanto
o capitalismo quanto os amantes.
Recorrendo à teoria sistêmica e mais especificamente a trabalho canônico sobre
o tema, o livro Amor como paixão, de Niklas Luhmann3, o presente artigo busca
recuperar as tensões entre o amor romântico e o mercado. Como será detalhado
mais adiante, o que nos interessa no tratamento do amor pela teoria sistêmica
não é a história da constituição da semântica amorosa na Europa, como a
descreve Luhmann, mas um subproduto das investigações do autor, a descrição da
comunicação romântica, recuperada aqui como uma microssociologia da interação
amorosa4. Assim, o artigo busca primeiro abordar conceitualmente diferentes
dimensões do amor romântico. Em seguida reconstrói o debate entre os estudos
culturais e a teoria crítica para finalmente desenvolver o argumento
microssociológico anunciado, de sorte a recolocar e qualificar as fronteiras
entre amor romântico e mercado.
DIMENSÕES DO AMOR ROMÂNTICO
Não se encontra na bibliografia sociológica contemporânea uma definição
adequada para o amor romântico. Isso se deve em parte ao fato de que a
orientação cognitivo-normativa a preocupação com a racionalidade e a ordem
que predominou nas ciências sociais do pós-guerra relegou o tema das emoções e
do amor a segundo plano. Só mesmo a partir dos anos 1980 é que esse temário é
retomado e reconstruído como questão relevante para a sociologia5. Ainda assim,
quando se trata especificamente do amor, a bibliografia tende a privilegiar
aspectos da história social e da história das idéias.
Isso contrasta com os trabalhos dos fundadores da sociologia, empenhados em não
perder de vista a multidimensionalidade do amor. Assim, Max Weber destaca a
"seriedade mortal do amor sexual", que segundo ele contraria "da forma mais
radical possível" tudo que seja objetivo, racional e generalizável6. De forma
mais ampla e consistente, Georg Simmel buscou estudar o "amor sexual" como
"categoria primária injustificada" que se encarna em formas de construção
histórica e individual variadas7. A partir dessa idéia norteadora, o autor
produz uma vasta gama de estudos sobre o amor e as relações amorosas, os quais
mantiveram sua atualidade através dos tempos8.
Com o intuito de aludir à amplitude analítica inerente ao tema, gostaria de
definir o amor romântico aqui como um modelo histórico-cultural que se desdobra
(pelo menos) em cinco dimensões, como segue.
No campo das emoções, o amor romântico se expressa como "um vínculo com o outro
que não conhece desejo mais ardente que a vontade de conduzir a própria vida no
corpo da pessoa amada", conforme a precisa definição de Dux9. É preciso dizer
que aqui "emoção" não se refere a uma constante pré-cultural ou a uma mera
manifestação neurofisiológica10. Trata-se, ao contrário, de fenômeno situado na
interface entre corpo e cultura, refletindo portanto os legados culturais, as
características de personalidade individuais e os determinantes de um contexto
social específico11.
Como idealização, o amor romântico promete ao indivíduo o reconhecimento pleno
de sua singularidade, incluídas aí todas as dimensões, particularidades e mesmo
idiossincrasias pessoais. Por isso mesmo, o amor romântico reivindica e absorve
as pessoas de forma total, fazendo com que outras referências do entorno social
percam sua importância12. O processo de constituição histórica do ideal
romântico ocidental se encontra bem estudado e documentado na bibliografia13.
Em tais reconstruções o amor romântico aparece como uma síntese dos ideais
espirituais e sensuais de amor, fundindo, por um lado, o amor platônico, a
mística cristã e o amor cortesão e, por outro, a ars erotica, o hedonismo
renascentista e a galanteria14. Nas sociedades contemporâneas, "o ideal
romântico, a despeito de perder sua plausibilidade, mantém uma enorme
importância"15, constituindo ainda matriz de referência relevante para escolhas
e comportamentos individuais.
Como modelo de relação, condensam-se historicamente no amor romântico a unidade
entre paixão sexual e afeição emocional, a unidade de amor e matrimônio e,
freqüentemente, os planos de constituição de uma prole16.
Como prática cultural, o amor romântico corresponde a um repertório de
discursos, ações e rituais mediante os quais as emoções amorosas, observadas as
devidas diferenças culturais, são evocadas, percebidas, transmitidas e
intensificadas17.
No campo das interações sociais, o amor romântico corresponde a uma forma
radicalizada do que Luhmann qualificou como "interpenetração interpessoal": uma
interação que se destaca do mundo social anônimo, levando os amantes a se valer
de modelos de significação e interpretação e de símbolos comunicativos que, de
tão diferenciados, muitas vezes se tornam herméticos a quem esteja fora da
relação18.
DA INCOMPATIBILIDADE À SIMBIOSE
Em sua avaliação do tratamento conferido ao amor pela teoria crítica, Eva
Illouz mostra que os diagnósticos de época desenvolvidos por essa escola
destacam recorrentemente que a proliferação da oferta e do consumo em massa de
rituais amorosos é sintoma das patologias sociais modernas. Do ponto de vista
normativo, afirma a autora, as diferentes gerações da Escola de Frankfurt
buscaram sublinhar a necessidade de manter as relações amorosas protegidas da
lógica econômico-utilitarista.
Formulada com tal nível de generalidade, a interpretação de Illouz efetivamente
resume o tom geral da crítica cultural frankfurtiana em diferentes momentos. Já
em Minima moralia, de 1951, Adorno externa seu ceticismo quanto às
possibilidades do amor no mundo dominado pelo utilitarismo: "Amar significa ser
capaz de não deixar a espontaneidade ser seqüestrada pela pressão onipresente
da intermediação da economia; em tal fidelidade o amor é transmitido em si
próprio"19. Poucos anos depois Marcuse também se voltaria contra o comércio e a
tecnicização das fantasias românticas, que levariam à produção de falsas
necessidades e à obliteração de qualquer possibilidade emancipatória. Para ele,
a mercantilização do amor só poderia produzir cerceamento da liberdade
individual; o grande operador da máquina de produção dos sonhos românticos no
capitalismo não seria Eros, mas Tânatos20.
Diferentemente de Marcuse, Erich Fromm não acreditava haver obstáculos
estruturais intransponíveis para uma relação amorosa "não-patológica" nas
sociedades capitalistas: a "arte de amar" pode ser aprendida por todos os que
busquem estudá-la com engajamento e pertinácia. Não obstante, o diagnóstico do
autor aponta que nas sociedades capitalistas o universo das relações amorosas
foi tomado pelos interesses utilitaristas e mercantis, opostos à lógica do
amor. Nesse sentido, para vivenciar o amor, a "mais profunda e real necessidade
de qualquer ser humano", as pessoas precisariam reconquistar sua autonomia:
Os seres humanos são motivados pelo sugestionamento massificado; seu
objetivo é produzir e consumir cada vez mais como um objetivo em si
mesmo. Todas as atividades são subordinadas a esses objetivos
econômicos, os meios se tornaram fins; o homem é um autômato bem-
vestido e bem-alimentado [...]. Se o ser humano quer ser capaz de
amar, precisa se colocar em primeiro lugar. O aparato econômico deve
servi-lo, e não o contrário21.
A extensa obra de Habermas não resolve a dificuldade da teoria crítica em
apreender analiticamente (vale dizer: fora do registro moral) as relações entre
amor e mercado. A rigor, Habermas pouco se refere ao tema. Nem mesmo o ensaio
em que ele mergulha na obra de George Bataille constitui exceção, já que ali
não se faz qualquer alusão a amor e erotismo22. De todo modo, cumpre ressaltar
que a comunicação amorosa não pode ser plenamente entendida a partir da teoria
da ação comunicativa. Afinal, trata-se iniludivelmente de uma forma de
comunicação afeita ao mundo da vida, mas que não pode ser tratada como uma
forma de comunicação voltada para o entendimento, como se deveria depreender da
teoria. Como se destaca mais adiante, a comunicação romântica não busca
produzir entendimento e acordos: ao contrário, busca enfatizar as diferenças
individuais.
Ainda que Habermas não se ocupe diretamente do problema, a aplicação de sua
teoria à discussão das relações entre mercado e amor confirma o diagnóstico da
primeira geração frankfurtiana. Assim, se partíssemos do modelo de dois níveis
de sociedade postulado por Habermas a esfera dos sistemas e o mundo da vida
seríamos levados a considerar que quando estímulos românticos fabricados com
propósitos comerciais se infiltram na vida cotidiana dos amantes produzir-se-ia
a indesejada colonização do mundo da vida, reafirmando-se assim a contradição
irredutível entre economia e amor.
Buscando promover o diálogo entre os estudos culturais e a tradição crítica,
Eva Illouz recupera as muitas conexões entre o mercado capitalista e o amor
romântico e afirma não haver entre eles contradição, e sim uma perfeita
simbiose23. Essencialmente, a autora argumenta que o amor romântico constitui a
última fonte geradora das utopias de transformação e ruptura da ordem
cotidiana, necessárias à reprodução simbólica e material do capitalismo. Para
ela, amantes se vêem tomados por grande energia criativa e transformadora, de
modo que quem ama se sente como um revolucionário estimulado a transgredir a
normalidade, vivendo com a pessoa amada experiências que escapam ao registro da
ordem estabelecida. No entanto, do ponto de vista político a revolução
promovida pelos amantes é pífia, uma vez que a suposta ruptura com a
normalidade projeta os amantes para dentro do universo de ofertas e
possibilidades do consumo romântico. Dessa forma, a pretendida ruptura com a
ordem experienciada pelos amantes representa uma mera migração entre esferas de
sociabilidade: eles abandonam o cotidiano para penetrar no mundo mágico do
consumo romântico. Ambos os universos, contudo, são subordinados ao regime de
produção e distribuição de bens e serviços próprio ao capitalismo.
A partir de pesquisa histórico-empírica sobre a trajetória do amor romântico
nos Estados Unidos, Illouz identifica pelo menos três grandes interfaces que
assegurariam a convergência entre a produção e circulação de bens e serviços e
o amor romântico na modernidade tardia.
A primeira conexão é estabelecida pela geração e difusão dos significados
culturais associados ao amor romântico. A excitação corporal sentida ao se
atrair por alguém é decodificada como amor a partir dos repertórios culturais
disponíveis, que estão materializados em valores e redes de significações mas
também num acervo material de imagens, produtos, livros, obras de arte etc. É
esse conjunto de referências que permite reconhecer, interpretar e avaliar a
natureza e a intensidade do estímulo sentido. Afinal, há que diferenciar em
cada caso se se trata de um ardor passageiro ou de algo que vai virar a vida
dos amantes pelo avesso. Os acervos culturais servem também para orientar
aquele que ama mediante indicações que lhe permitam interpretar a ação da
pessoa amada, de sorte a saber se o amor é correspondido. Orientam ainda a
própria ação do amante no sentido de que este module seus gestos e palavras de
maneira a fazer o outro compreender-se amado e indique, num código que não faça
desmoronar o momento amoroso, mas que seja claro e inconfundível, qual é a
natureza desse desejo amoroso: se é algo que sugere itinerários de vida comum
ou se apenas promete alguns momentos de prazer.
Se no advento do amor romântico as obras literárias eram responsáveis pela
difusão dos modelos de comunicação e ação para os amantes, na modernidade
tardia tal função é desempenhada, conforme Illouz, pela indústria cultural e
pela publicidade. Para demonstrar seu argumento, a autora primeiramente examina
revistas voltadas para públicos diversos nos Estados Unidos dos anos 1920,
mostrando por meio desse material como a publicidade, os filmes e a indústria
do lazer vão construindo enredos românticos que associam o amor à realização
existencial e ao sucesso pessoal. Já o período contemporâneo é estudado a
partir de entrevistas com pessoas de diferentes estratos sociais, as quais
revelam igualmente que suas próprias definições cognitivas das situações
românticas remetem ao processo de aprendizado por intermédio dos meios de
comunicação de massa.
Entre os entrevistados mais escolarizados a autora registra um certo pudor
crítico na assimilação das imagens românticas divulgadas pelos meios de
comunicação de massa e pelos produtos da indústria cultural. No caso dessas
pessoas, tais imagens se constituem numa espécie de realidade primária que os
amantes imitam de forma consciente e auto-irônica. Lembre-se, como o faz a
própria autora, que essa tendência já havia sido constatada por Umberto Eco ao
dizer que as declarações de amor entre pessoas com algum cultivo intelectual se
transformaram em citações literárias:
A atitude pós-moderna me parece semelhante à do homem que ama uma
mulher inteligente e cultivada e sabe portanto que não pode dizer a
ela: "Eu te amo ardentemente", já que ele sabe que ela sabe (e ela
sabe que ele sabe) que precisamente essas mesmas palavras já foram
escritas, digamos, por Liala24. Há no entanto uma solução. Ele pode
dizer: "Como diria agora Liala, eu te amo ardentemente". Nesse
momento, depois de ter evitado a falsa inocência, depois de ter
expressado que não se pode usar as palavras ingenuamente, ele acaba
dizendo o que queria dizer, ou seja, que a ama, mas que a ama numa
era em que a inocência foi perdida25.
A segunda interseção entre mercado e amor identificada por Illouz encontra-se
no desenvolvimento, ao longo do século XX, de um cenário público para o
desenrolar do enredo amoroso. Nos Estados Unidos isso se dá a partir da
instituição do "dating", o encontro a dois que liberta o amor da esfera
sufocante da família para permitir que o par apaixonado possa vivenciar suas
emoções românticas nos novos espaços comerciais de lazer: o escurinho do
cinema, o bar, o jantar à luz de velas etc. Mais contemporaneamente vão sendo
incorporados ao cotidiano dos amantes novos roteiros e cenários para seus
enredos amorosos: o passeio de carro, a viagem à praia e até o giro pela
Europa. Registre-se que não apenas os jovens casais apaixonados se valem dos
espaços e enredos românticos para desfrutar os momentos a dois em seus
primeiros encontros: também os casais maduros, envolvidos em relações
duradouras, recorrem à indústria de rituais românticos, buscando operar o
milagre de reacender as fantasias amorosas arrefecidas pelos rigores da
cotidianidade conjugal26.
Para caracterizar as situações carregadas de emoção romântica, Illouz recorre à
antropologia da religião de Victor Turner, e mais especificamente à sua
descrição de rituais religiosos que culminam num estado liminar. Segundo a
autora, também o amor romântico apresenta seus rituais liminares, nos quais se
rompem as ordens e hierarquias cotidianas e os amantes, por meio do consumo de
mercadorias e serviços etiquetados como românticos, se vêem transportados a um
mundo fantástico, no interior do qual os aborrecimentos mundanos, as próprias
fragilidades e, com alguma sorte, até mesmo os caprichos mais infames da pessoa
amada são temporariamente suspensos. A relação entre o amor romântico e o
mercado de bens e serviços para os amantes adquire assim um desenho paradoxal,
mas não contraditório: para "escapar" da normalidade enfadonha os amantes
recorrem, em seus rituais românticos, àquilo que fazem todos os dias nas
sociedades capitalistas, ou seja, consomem bens e serviços, reconciliando o
ideal romântico marcado pelo desejo de transcendência com a trivialidade das
transações comerciais:
A noção de ritual é o elo entre os bens e símbolos comercializados em
massa e as sensações subjetivas de prazer, criatividade, liberdade e
distanciamento do comércio de mercadorias. Isso implica, por sua vez,
que não há uma dicotomia simples entre o universo das relações
intersubjetivas e a esfera do consumo, visto que os significados que
sustentam o "mundo da vida" do amor romântico são produzidos dentro e
não fora do sistema capitalista27.
A terceira interface entre o cálculo econômico e o amor romântico identificada
por Illouz situa-se no âmbito das escolhas amorosas. A despeito das fábulas
sobre o amor que ultrapassa todas as fronteiras sociais e físicas, as
estatísticas mostram, conforme a autora, que possuir capitais culturais
equivalentes é condição sine qua non para o vínculo amoroso. Contrariando sua
própria auto-representação, o amor romântico é, portanto, socialmente
endogâmico28.
Estudos como o de Illouz, ao buscar elencar e interpretar as práticas culturais
associadas ao amor romântico, podem efetivamente renovar a reflexão da teoria
crítica sobre o tema, conforme aposta a autora29, uma vez que reconciliam a
reflexão intelectual e a crítica cultural com as experiências concretas dos
atores. Não obstante, falta à análise da autora algo caro à sociologia pelo
menos desde Weber: considerar adequadamente os sentidos construídos e
atribuídos pelos próprios amantes à interação amorosa. Com efeito, a análise de
Illouz, extremamente útil para a descrição da dimensão institucional do amor na
contemporaneidade (os objetos e rituais que envolve), perde de vista, contudo,
aquilo que diferencia as relações amorosas das demais interações sociais, que é
justamente a atribuição pelos atores de um sentido único, particular, mítico ao
amor. Ao se limitar a uma perspectiva externa à relação amorosa e definir o
amor como uma prática cultural, a autora acaba tomando o amor por seus rituais,
não levando em conta o modo como esses rituais e objetos são integrados à
relação amorosa. Ou seja: o mercado de fato oferece os bens que propiciam a
vivência do amor romântico e pode até mesmo ter ajudado a projetar o amor
romântico como forma moderna de experimentação do sagrado, como sugere Illouz;
não obstante, enquanto espaço de construção de sentidos compartilhados o
universo a dois permanece resistente ao mercado.
Primeiramente, o mercado não pode gerar a energia amorosa. Dito de forma
trivial, o mercado efetivamente coloca à disposição dos amantes uma ampla gama
de produtos que podem facilitar e intensificar a interação amorosa, mas não tem
o poder de despertar o amor no coração dos amantes. Vale o paralelo com a
religião: o impulso último para o encantamento do ritual amoroso não é dado
pela presença dos objetos e contextos que o circundam, mas pela convicção,
similar àquela do religioso que acredita numa força metafísica superior, de que
o amor existe e está sendo partilhado pelo par amoroso. Um agnóstico não se
sentirá próximo de Deus nem mesmo no mais rico e expressivo dos templos.
A outra fronteira entre o amor e o mercado é o uso simbólico distintivo que os
amantes fazem dos produtos associados ao amor romântico, pois a maneira de
significar os rituais é sempre particular e mesmo idiossincrática em cada
relação amorosa. Compare-se, por exemplo, duas relações que sejam muito
semelhantes do ponto de vista ritualístico: dois casais distintos que
freqüentem lugares semelhantes e se presenteiem com os mesmos agrados
estabelecerão relações que para cada qual sempre serão distintas, pois o
sentido atribuído à relação pelo par que ama é sempre próprio, exclusivo.
A seguir busca-se detalhar teoricamente essa objeção à perspectiva de Illouz,
formulada até aqui de forma muito genérica.
O CÓDIGO DO AMOR
O diagnóstico levado a efeito no âmbito da teoria sistêmica aponta para uma
correlação positiva entre a multiplicação das relações anônimas e a
intensificação das relações pessoais e íntimas nas sociedades complexas. Isso
se explica pelo aprofundamento dos processos de diferenciação funcional que
levam as sociedades, segundo Luhmann, a "regular melhor as interdependências
entre relações sociais de natureza diversa, filtrando mais adequadamente as
interferências"30. Tal diferenciação representa uma proteção das relações
íntimas, que assim se tornam menos vulneráveis às influências da tradição e de
outros sistemas funcionais. Os indivíduos, por sua vez, já não estão mais
ancorados num único lugar da topografia social: eles se tornam socialmente
desenraizados e ocupam diferentes papéis nos distintos subsistemas sociais,
originando-se daí a ampla diversidade das combinações que conformam as
características individuais. Nesse contexto, o amor moderno se desenvolve como
código de comunicação capaz de mediar o intercâmbio entre duas pessoas muito
exclusivas e que manipulam dois mundos de significados singulares, recortados
de maneira extremamente individualizada. É por isso que nas sociedades
complexas o amor é tão difícil, ou tão improvável ainda que recorrente "uma
improbabilidade bem normal", como formulou Luhmann.
Na comunicação amorosa o que conta não são os temas sobre os quais se conversa,
mas a "consideração comum dos mesmos aspectos", já que é dessa maneira que se
forma a esfera íntima, diferenciada do "mundo constituído anonimamente"31. Por
isso, comunicação aqui não se confunde com o treino verbal-racional, tal como
exercitado, por exemplo, nas terapias de casal (às quais Luhmann sempre se
refere com desprezo irônico). O umbral da improbabilidade de uma comunicação
íntima entre dois indivíduos fortemente diferenciados é em geral superado por
formas de comunicação não-discursivas, entre as quais se destacam a troca de
olhares, o toque corporal e os diálogos que renunciam a qualquer tipo de
mensagem objetivável:
Amantes podem conversar infinitamente sem se dizerem nada. Ou seja,
não são necessários ação comunicativa, perguntas ou pedidos do amado
para que o amante se sintonize com ele; a vivência do amado deve
desencadear a ação do amante sem mediações32.
Esse código amoroso não representa para Luhmann, obviamente, uma dádiva divina
ou habilidade antropológica inata: ele é o resultado da diferenciação funcional
que leva historicamente ao desenvolvimento da paixão como um medium de
comunicação especializado. Assim como todos os demais subsistemas da sociedade
são regidos por um código binário por exemplo, legal/ilegal para o sistema
jurídico ou falso/verdadeiro para a ciência , também o subsistema íntimo é
regulado por uma codificação diádica: pessoal/impessoal. A existência da
comunicação pessoal aqui mais especificamente amorosa define as fronteiras
simbólicas que separam ou diferenciam os amantes de todo o resto do mundo: na
medida em que se comunicam pessoalmente, os amantes constituem um universo
simbólico próprio, distinto do entorno anônimo, impessoal. A constituição
exclusivamente simbólico-expressiva do código amoroso o torna fortemente
vinculante, já que ele só diz respeito àqueles que se amam, e ao mesmo tempo
muito frágil, pois qualquer pequeno mal-entendido pode produzir grandes
tremores no subsistema íntimo.
O código do amor penetra uma relação particular de forma contingente; a
presença do código é percebida pelos amantes como algo necessário, mas não
provocado. Trata-se portanto para expressá-lo com o lirismo de Octavio Paz
"da aceitação voluntária de uma inevitabilidade"33. Segundo Luhmann, o caráter
do amor como um código comunicativo que serve à confirmação das diferenças das
pessoas individuais em suas relações singulares exclui a possibilidade da ação
orientada tanto pela expectativa de reciprocidade quanto pelo proveito próprio.
Assim, o duplo jogo do agir orientado pela vivência do parceiro desmobiliza, na
interação amorosa, todas as fontes de motivação para a ação que não as do agir
associado ao universo da pessoa amada. Não se pode querer amar agindo, já que o
código de comunicação envolvido dita outra regra: viva suas diferenças e
oriente seu agir na vivência da pessoa amada. Ipsis verbis:
O amor seria entendido de maneira inteiramente equivocada se se
tentasse defini-lo como a reciprocidade de ações voltadas para a
satisfação mútua ou como disposição de satisfazer os desejos do
outro. O amor marca primeiro o vivenciar da vivência, e com isso
modifica o mundo como horizonte da ação e da vivência. O amor é a
internalização da referência de mundo subjetivamente organizada de
outrem; dessa forma, o amor empresta uma força de persuasão especial
àquilo que o outro vivencia ou poderia vivenciar nas coisas e nos
acontecimentos. Só num segundo momento o amor motiva o agir. Não
contam aqui os efeitos concretos de tal ação, a qual é definida e
buscada a partir de seu significado simbólico para exprimir o amor
como a materialização do caráter especial daquele mundo que se sabe,
juntamente com os amantes (e ninguém mais), tratar-se de um mundo do
gosto comum, da história comum, do desvio comum, dos temas
discutidos, dos resultados analisados. O que conclama à ação não é o
proveito esperado, mas a não-naturalidade de uma concepção de mundo
que está inteiramente afinada com a individualidade de uma pessoa e
só existe em tal forma. Se se trata aqui de "dar", o que o amor diz
é: faculte ao outro a possibilidade de dar algo sendo assim como ele
é34.
Da idéia de que a interação amorosa corresponde a uma forma de comunicação
exclusiva entre indivíduos fortemente diferenciados depreendem-se objeções
importantes às teses de Illouz sobre as relações entre mercado e amor
romântico. A rigor, pode-se ratificar as constatações da autora de que a
indústria cultural fornece o repertório de modelos para as práticas amorosas na
modernidade tardia, de que a indústria de entretenimento provê os bens e
serviços necessários aos rituais românticos e de que os amantes buscam seus
amados entre pessoas de sua classe social. De fato, é inegável que filmes ou
outros artefatos carregados de aura romântica contribuem para o desenvolvimento
da liturgia amorosa. Não obstante, o que define a relação amorosa como tal não
é o consumo desses rituais, mas o (improvável) estabelecimento de uma
comunicação pessoal que sublinhe e confirme as diferenças individuais. É a
existência dessa forma particular de comunicação o código do amor que
define a conformação do mundo especial dos amantes, no qual os rituais e
adereços românticos adquirem sentido efetivo, concretizando sua vocação
amorosa. É a ativação desse código especial, e não o preço do item escolhido no
cardápio, que diferencia aquele casal que no restaurante francês, à luz de
velas, vive seus estados amorosos liminares daquele outro casal presente no
mesmo restaurante sob a mesma penumbra mas que não se ama, apenas se entretém.
Mesmo a endogamia social constatada por Illouz ganha outra significância quando
analisada sob a ótica da interação amorosa como comunicação voltada para a
afirmação de diferenças. Em vez de simplesmente representar ação instrumental
orientada para a manutenção do status quo, ela pode ser expressão das
diferenciações que a semântica amorosa assume nos diversos estratos sociais
fato amplamente confirmado pela investigação empírica de Illouz35.
Antes de passar às conclusões, devo um esclarecimento mais efetivo sobre a
maneira como é aqui apropriada a interpretação do amor pela teoria sistêmica.
Como já se advertiu, o que nos interessa não é a história social do amor na
Europa como tal, mas a descrição da forma como os amantes se comunicam numa
interação social singular. A evolução da semântica amorosa, como a define
Luhmann, é perpassada por um historicismo que reduz seu sentido teórico,
transformando-a num discurso eurocêntrico, cego aos entrelaçamentos da
modernidade nas várias regiões do mundo36. Explico-me.
O livro Amor como paixão é parte de um programa de pesquisa em que Luhmann
explora as transformações das semânticas político-históricas ao longo da
transição européia para a modernidade, entendendo-se "semântica" não apenas
como um conjunto de símbolos, mas como o contexto social no qual os símbolos
ganham sentido. Visto dessa maneira, o desenvolvimento da semântica amorosa
resulta da diferenciação dos sistemas funcionais e envolve complexos processos
de transmissão cultural por meio da produção e recepção literária que, na forma
descrita, são próprios e exclusivos de sociedades européias ocidentais. Ou
seja, quem leva às últimas conseqüências a história de evolução da semântica
amorosa descrita por Luhmann vê-se obrigado a conceder à Europa Ocidental a
precedência no desenvolvimento da semântica "moderna" do amor, considerando as
demais regiões do mundo aprendizes de uma arte inventada pelos europeus.
Essa perspectiva contraria diversas comparações interculturais37, cabendo
destaque aqui ao trabalho de Charles Lindholm38, que encontrou em muitas
sociedades não-ocidentais formas de amor-paixão muito semelhantes ao amor
romântico. Diferentemente de Luhmann, Lindholm associa o anseio por uma
interação que absorva as pessoas em sua integralidade não à diferenciação
funcional, mas àquilo que ele denomina "sociedades líquidas", entre as quais se
contam as sociedades complexas contemporâneas mas também sociedades de
caçadores e coletores. O traço comum entre essas "sociedades líquidas" está
assente no individualismo da luta pela sobrevivência. Isto é: nessas sociedades
as pessoas se sentem existencialmente vulneráveis, já que faltam "grupos ou
laços primários" capazes de prover o senso de solidariedade e identidade. Para
o autor, é essa insegurança ontológica que promove a busca por um amor
intensivo e abrasador, capaz de dar algum sentido, mesmo que provisório e
temporário, às suas existências.
Não se trata aqui, é óbvio, de subscrever apressadamente a hipótese de
Lindholm. Seus achados, porém, servem de advertência metodológica contra um
tipo de sociologia evolucionista que a partir da história social do amor na
Europa erige pretensões de validade teórica de alcance geral39. É por essa
razão que se recupera aqui a descrição da interação amorosa proposta por
Luhmann e ao mesmo tempo se recusa as conseqüências macrossociológicas de sua
teoria. Ademais, uma reconstrução eurocêntrica da história do amor moderno,
como faz Luhmann, eclipsa desenvolvimentos que são cruciais. Com efeito, em
poucos outros campos a história moderna parece ter fundido e entrelaçado de
forma tão definitiva as diferentes regiões do mundo quanto na construção do
amor romântico. Com a mesma avidez com que os estratos privilegiados mundo
afora consumiam e imitavam a literatura romântica produzida na Europa ao longo
dos séculos XVIII e XIX, o romantismo europeu se apropriava das imagens, lendas
e fantasias amorosas das diversas partes do mundo e que chegavam à Europa por
meio dos relatos de viagem e das experiências coloniais40. Hoje, o sucesso
global de produtos como o cinema "Bollywood" da Índia ou as telenovelas latino-
americanas mostra que os ideais de amor romântico não são difundidos de forma
centrífuga, a partir da Europa, mas de maneira descentrada. Mesmo que tais
produções retomem enredos e formatos próprios ao romantismo clássico, também
difundem modelos de relações de gênero ou de corporalidade que nada têm a ver
com as representações "ocidentais".
CONCLUSÃO
Retomo nessa nota conclusiva as cinco dimensões do amor romântico anteriormente
destacadas, compreendendo os campos das emoções, dos ideais e das práticas
culturais e suas expressões como modelo de relação e forma de interação.
Estudos empíricos mostram que o anseio por uma relação amorosa que envolva
plenamente os amantes continua sendo uma aspiração generalizada nas sociedades
modernas. Assim, na modernidade tardia o amor romântico segue desempenhando
papel central como ideal amoroso e desencadeador das emoções correspondentes.
No entanto, esse desejo de intensidade coexiste com mudanças importantes no
padrão romântico da relação a dois. Talvez Honneth tenha razão quando constata
certa redução de expectativas quanto às relações amorosas. Segundo ele, estas
estariam passando de "relação a dois a uma parceria de objetivos"41. Isso pode
significar a médio prazo a consolidação daquilo que Burkart chama de relação
"pós-romântica"42.
De todo modo, parecem persistir paralelamente dois modelos culturais: o ideal
da comunidade a dois acima de tudo e de todos, em geral prevalecente nas
primeiras fases do relacionamento ou nos momentos apaixonados das relações
duradouras, e um certo pragmatismo amoroso. Enquanto o primeiro modelo é
orientado pelos ideais do amor romântico, o pragmatismo se apóia em valores
como a igualdade, o entendimento dialógico e a realização pessoal dos
parceiros.
Como prática cultural, o amor romântico está incorporado num amplo leque de
produtos, objetos, locais e rituais. Assim, nas sociedades contemporâneas a
economia está presente em diversas esferas do amor, oferecendo produtos
culturais que marcam os ideais e sentimentos amorosos, além de contextos para a
vivência dos rituais românticos. Nem mesmo em seus momentos pragmáticos o
relacionamento se livra da presença do mercado, que com seus manuais,
terapeutas e gestores de crises familiares ensina os termos de uma convivência
justa. Só mesmo em uma de suas dimensões o amor romântico parece refratário ao
mercado: a de interação mediada por um código especial. Para que se configure a
relação romântica é necessária a criação de um âmbito de comunicação
(improvável) que destaque e aparte os amantes do entorno social. A presença
desse código de comunicação especial distingue consumidores de amantes que
utilizam rituais e produtos sob o signo do amor. Nesse sentido simbólico-
expressivo, a obliteração das fronteiras entre mercado e interação amorosa
significaria o fim do amor romântico.
Para Sabine
[1] Beck, Ulrich e Beck-Gernsheim, Elizabeth. Das ganz normale Chaos der Liebe.
Frankfurt/M.: Suhrkamp, 1990; Featherstone, Mike. "Love and
eroticism: an introduction". Theory, Culture & Society, vol. 15, no 3-4,
1998; Leis, Héctor e Costa, Sérgio. "Dormindo com uma
desconhecida". In: Avritzer, Leonardo e Domingues, José Maurício (orgs.).
Teoria social e modernidade no Brasil. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2000.
[2] Illouz, Eva. Consuming the romantic utopia. Berkeley: University of
California Press, 1997; Der Konsum der Romantik. Frankfurt/M:
Campus, 2003.
[3] Luhmann, Niklas.Liebe als Passion. Zur Codierung von Intimitåt. Frankfurt/
M.: Suhrkamp, 1994 [1982].
[4] Pode causar estranhamento o fato de que a contribuição sistêmica,
estereotipada por muitos como um modo "frio" e duro de descrever o social, dado
o alto nível de abstração e formalização, seja escolhida aqui para recuperar a
singularidade das relações amorosas. A sensibilidade da teoria sistêmica para
com o amor decorre do esforço de distinguir o sistema íntimo dos demais
sistemas, o que obriga a atenção às idiossincrasias do código amoroso. Além
disso, o próprio estilo de autores como Luhmann impõe uma tal precisão na
descrição do código amoroso que a semântica utilizada, expressiva em seu
hermetismo, desperta no leitor um sentimento muito semelhante àquele provocado
pela lírica romântica, qual seja, a emoção cúmplice de estar sendo flagrado em
seus sentimentos mais recônditos.
[5] Cf. Flam, Helena. Soziologie der Emotionen. Konstanz: UVK, 2002.
[6] Weber, Max. Gesammelte Aufsåtze zur Religionssoziologie, vol. 1. Tübingen:
Mohr, 1972 [1917].
[7] Simmel, Georg. Schriften zur Philosophie und Soziologie der Geschlechter.
Berlim: Wagenbach, 1983 [1911]. Ver Nord, Ilona.
Individualitåt, Geschlechterverhåltnisse und Liebe. Gütersloh: Kaiser, 2001.
[8] Para exemplificar a extensão do interesse de Simmel pelas práticas
culturais do amor, vale recordar seu arguto ensaio sobre a coqueteria. No
estudo, a partir da formulação de Platão de que o amor consiste num jogo entre
ter e não ter, Simmel constata que "característico da coqueteria, em sua forma
mais banal, é o olhar de soslaio, com a cabeça meio tombada. Nesse olhar
repousa um retirar-se, associado porém a um entregar-se fugaz [...] que no
entanto se nega simbolicamente, ao mesmo tempo e na outra direção com a cabeça
e o corpo. Esse olhar não pode durar psicologicamente mais que poucos segundos,
de tal sorte que em sua entrega a sua recusa já esteja pré-formada como algo
inevitável. Esse olhar tem aquela atração do mistério, do furtivo que não pode
existir duradouramente. Por isso, nele se misturam inseparavelmente o sim e o
não. O pleno olhar face a face, por mais penetrante e ávido que seja, não tem
precisamente esse específico traço coquete. Na classe superior, o efeito
coquete do balançar e girar está nos quadris: o andar rebolado'. Não só porque
esse andar [...] acentua visualmente as partes do corpo sexualmente
estimulantes, persistindo ao mesmo tempo a distância e a reserva, mas também
porque sensualiza a entrega e a retirada na rítmica lúdica da alternância
ininterrupta" (ibidem, p. 82). Essa e todas as versões para o português de
citações do alemão, inglês e espanhol são traduções livres do autor.
[9] Dux, Günther. "Liebe". In: Wulf, Christoph (org.). Vom Menschen. Handbuch
Historische Anthropologie. Weinhein/Basiléia: Beltz, 1997, p. 847.
[10] Vale registrar a importante mudança histórica na "reputação" das emoções
amorosas. Nas sociedades contemporâneas é visão corrente que o amor está
associado a um impulso criativo único e intenso, sobretudo nas fases mais
intensas de sua manifestação. Quem melhor sintetizou essa visão foi o
jornalista e sociólogo Francesco Alberoni, que, dialogando com Freud, descarta
a associação entre amor romântico e regressão, afirmando que não existe
qualquer evidência de que nos enamoramos de alguém que recorda a mãe na
primeira infância (Alberoni, Francesco. O mistério do enamoramento. Lisboa:
Bertrand, 2003, p. 14). Tal visão contrasta com a
interpretação médica do começo do século XX, como indica uma tese de doutorado
apresentada em 1908 em Porto Alegre: "A paixão é uma obsessão e representa, por
isso, no conceito dos maiores psicólogos, um estigma da degeneração nervosa
hereditária. [...] É comum iniciarem-se as crises por uma opressão pré-cordial,
ligeira dispnéia, taquicardia ou movimentos acelerados do coração [...]. Uma
superexcitação momentânea ou descargas nervosas repetidas trazem [...] um leve
tremor generalizado, quebram o ritmo respiratório ora em excursões torácicas de
largos haustos, ora num respirar superficial e sutil [...]. [Os] apaixonados de
amor [...] não ignoram os inconvenientes e o absurdo de tal paixão; mas
sacrificam por ela [...] seus deveres, suas obrigações, sua riqueza e até a
vida." (Porto, Leopoldo P. Da intoxicação pelo amor. 4a ed. Pelotas: Echenique,
1923 [1908], p. 23).
[11] Cf. Gerhards, Jürgen. Soziologie der Emotionen. Fragestellungen,
Systematik, Perspektiven. Munique: Juventa, 1988.
[12] Cf. Lenz, Karl. "Romantische Liebe. Ende eines Beziehungsideals?". In:
Hahn, Kornelia e Burkart, Günter (orgs.). Liebe am Ende des 20. Jahrhunderts.
Opladen: Leske + Budrich, 1998.
[13] Ver Elias, Norbert. Die höfische Gesellschaft. Untersuchungen zur
Soziologie des Königtums und der höfischen Aristokratie, Frankfurt/M.:
Suhrkamp, 2002 [1969]; Burkart, Günter. "Auf dem Weg zu einer
Soziologie der Liebe". In: Hahn e Burkart (orgs.), op. cit.; Costa, Jurandir F.
"Utopia sexual, utopia amorosa". In: Cardoso, Irene e Silveira, Paulo (orgs.).
Utopia e mal-estar na cultura: perspectivas psicanalíticas. São Paulo: Hucitec,
1997.
[14] Para uma reconstrução a partir de Max Scheler, ver Vandenberghe, Frédéric.
Knowing what we love: notes towards a historical epistemology of love. Paper
apresentado no XXIX Encontro Anual da Anpocs, Caxambu, 2005.
[15] Gerhards, Jürgen e Schmidt, Bernd. Intime Kommunikation. Eine empirische
Studie über Wege der Annåherung und Hindernisse für "safer sex". Baden Baden:
Nomos, 1992, p. 20.
[16] Cf. Lenz, op. cit. Como ideal que encontra formas de materialização
culturalmente diversas, o amor romântico naturalmente comporta variações, como
a dissociação com a dimensão da procriação verificada, por exemplo, entre
casais homossexuais ou que renunciem deliberadamente aos filhos. No plano das
instituições, contudo, ainda prevalece a idéia de que afeição, sexualidade e
procriação devem andar juntas, criando dificuldades diversas para quem queira
escapar do modelo de amor heterossexual e voltado para a geração de filhos.
Para uma discussão sobre a situação nos Estados Unidos, ver Josephson, Jyl.
"Citizenship, same-sex marriage, and feminist critique on marriage".
Perspectives on Politics, vol. 3, no 1, 2005.
[17] Para o caso brasileiro, ver Heilborn, Maria Luiza. Dois é par. Rio de
Janeiro: Garamond, 2004.
[18] Luhmann, op. cit.
[19] Adorno, Theodor W. Minima moralia. Reflexionen aus dem beschådigten Leben.
Frankfurt/M.: Suhrkamp, 1951, p. 29.
[20] Marcuse, Herbert. Eros and civilization: a philosophical inquiry into
Freud. Boston: Beacon Press, 1955.
[21] Fromm, Erich. Die Kunst der Liebe. 60a ed. Stuttgart: Ullstein, 2003
[1956], p. 150.
[22] Habermas, Jürgen. Der philosophische Diskurs der Moderne. Zwölf
Vorlesungen. Frankfurt/M.: Suhrkamp, 1985.
[23] Illouz, Eva. Consuming the romantic utopia, op. cit.; "The lost innocence
of love: romance as a postmodern condition". Theory, Culture & Society,
vol. 15, no 3-4, 1998; "Vermarktung der Liebe.
Bedeutungswandel der Liebe im Kapitalismus". WestEnd, vol. 2, no 1, 2005.
[24] Pseudônimo da escritora italiana Amaliana Cambiasi Negretti (1897-1995),
autora de inúmeros romances sentimentais [N.E.].
[25] Eco, Umberto. Nachschrift zum Name der Rose. Munique: Carl Hanser, 1984,
p. 78.
[26] Nem sempre as férias a dois representam um bálsamo para as utopias
amorosas. O excesso de expectativas depositadas no período e o convívio
intensificado durante os dias de "descanso" também produzem conseqüências
inversas: na Alemanha e na Itália, por exemplo, um terço das separações ocorre
imediatamente após as férias. Isso explica a multiplicação da literatura de
auto-ajuda dedicada ao tema "férias e crises conjugais", a qual fornece regras
práticas de conduta voltadas a evitar que o maior tempo disponível para a
relação não evidencie a fragilidade dos laços afetivos que unem o casal (cf.
http://www.psychotherapie.de/report/2000/08/00080801.htm. Acesso em 30 de
outubro de 2005).
[27] Illouz, Consuming the romantic utopia, op. cit., p. 150, grifo meu.
[28] Uma valiosa contribuição sobre o modo como idealização romântica e
pragmatismo se combinam no discurso de amantes é fornecida por Linda-Anne
Rebhun em seu estudo sobre concepções de amor em Caruaru (The heart is unknown
country: love in the changing economy of Northeast Brazil. Stanford: Stanford
University Press, 1999). As mulheres de estratos pobres entrevistadas, ao mesmo
tempo que condenavam os "parceiros safados", que não se atêm às regras do
romance, e se referiam ao "lóvi" ou "amor de novela" como momentos de enlevo
romântico, divertiam-se repetindo o provérbio: "Pai pobre é destino, marido
pobre é burrice". A partir de chave analítica distinta e pesquisando o contexto
alemão, Jutta Almendiger e colaboradores ("Eigenes Geld ' gemeinsames Leben.
Zur Bedeutung von Geld in modernen Paarbeziehungen". In: Beck, Ulrich e Lau,
Christoph (org.). Entgrenzung und Entscheidung. Frankfurt/M.: Suhrkamp, 2004) mostram a articulação entre racionalidades diversas no âmbito
da vida íntima. Para os autores, os imperativos de não-violação das fantasias
românticas e de administração do cotidiano da família, incluindo o orçamento
doméstico, implicam negociações diárias que envolvem a busca de eficiência na
gestão financeira e a preservação da "economia sentimental" do casal.
[29] Illouz, "Vermarktung der Liebe", op. cit.
[30] Luhmann, op. cit., p. 13.
[31] Ibidem, p. 25.
[32] Ibidem, p. 19.
[33] Paz, Octavio. La llama doble. 7a ed. Barcelona: Seix Barral, 2004 [1993].
[34] Ibidem, p. 29-30
[35] A autora constata, em linhas gerais, que os entrevistados da classe baixa
privilegiam rituais e bens (suvenires, cartões etc.) criados explicitamente
para transmitir a afeição romântica, enquanto os das classes média e alta
recusam o consumismo explícito, preferindo bens e rituais que possam ser
associados a "valores antiinstitucionais como espontaneidade, informalidade e
autenticidade" (Illouz, Consuming the romantic utopia, op. cit., p. 252).
[36] Cf. Costa, Sérgio. Dois Atlânticos. Belo Horizonte: Ed. UFMG (no prelo).
[37] Cf., por exemplo, Hatfield, Elaine e Rapson, Richard. Love and sex: cross-
cultural perspectives. Massachusetts: Allyn & Bacon, 1996; Munck, Victor C. de (org.). Romantic love and sexual behavior:
perspectives from the social sciences. Westport: Praeger, 1998.
[38] Lindholm, Charles. "Love and structure". Theory, Culture & Society,
vol. 15, no 3-4, 1998.
[39] O deslize evolucionista encontra expressão clara no trabalho de Peter
Fuchs, seguidor de Luhmann. No âmbito de uma série de aulas magnas sobre o
amor, ele recebe a consulta de uma aluna temerosa de se tornar incapaz de amar
depois que a sociologia sistêmica desconstruísse suas últimas ilusões
românticas. As palavras de consolo à aluna proferidas por Fuchs são reveladoras
de seu eurocentrismo teórico: "Você ganhará em complexidade o que está perdendo
em inocência. Quem joga o jogo do amor com exagerada simplicidade corre o risco
de nunca conhecê-lo" (Fuchs, Peter. Liebe, Sex und solche Sachen. Zur
Konstruktion moderner Intimsysteme. Konstanz: UVK, 1999, p. 57).
[40] Cf. Burkard, op. cit., p. 26.
[41] Honneth, Axel. Introdução ao dossiê "Liebe und Kapitalismus". WestEnd,
vol. 2, no 1, 2005, p. 79.
[42] Burkard, Günter. Liebesphasen ' Lebensphasen. Vom Paar zur Ehe zum Single
und zurück? Opladen: Leske + Budrich, 1997; "Auf dem Weg zu
einer Soziologie der Liebe", op. cit.