Questões de fronteira: sobre uma antropologia da história
HISTÓRIA ANTROPOLÓGICA OU ANTROPOLOGIA DA HISTÓRIA?
Não é de hoje que se debatem as relações entre história e antropologia. Se tal
afirmação faz sentido para ambos os lados, é possível dizer, sobretudo no caso
da antropologia e já em um contexto de institucionalização da disciplina ,
que a oposição entre sincronia e diacronia mostrou-se fundamental para a
delimitação de modelos, perfis e recortes.
Proponho, então, investigar alguns momentos em que a antropologia, enquanto
disciplina, refletiu sobre a história. Ou melhor, como algumas escolas de
antropologia e certos autores dialogaram com várias histórias: um modelo
ocidental de história (digamos assim, e de forma provisória), pautado pela
cronologia e pela comprovação documental; uma história tal qual os
historiadores a fazem (a disciplina histórica); uma história entendida como
categoria social (e que me remete à noção de temporalidade); ou a crítica a uma
certa "Filosofia da História", o que permitirá pensar no conceito de
historicidades, qual seja: diante da experiência etnográfica, não há como
entender história no singular2.
Minha intenção, assim, é alinhavar "movimentos dessa fronteira", sem canonizar
autores nem dar um tom por demais encadeado ao argumento. Com efeito, o risco
de uma visão evolutiva está presente em diversas correntes da História das
Idéias, que supõem uma sucessão de sistemas filosóficos 3, deixando "escapar o
essencial: o próprio conteúdo das teorias historiadas"4.
Mas comecemos do início. É possível definir história como um conceito
universal, já que a experiência comum da passagem do tempo é consensual, mas
também particular: na dimensão dos eventos e quando o acontecimento é
culturalmente valorizado. A história pode, ainda, ser tomada como uma
disciplina, ou como uma categoria fundamental. Nesse último sentido, e nos
termos de Durkheim, estaríamos lidando com uma "categoria básica do
entendimento", um a priori: não há sociedade que não construa sua noção de
tempo, mas cada cultura a realiza empiricamente de forma diversa5.
Poderíamos opor, também, duas noções mais óbvias de tempo e, como veremos, de
história. Assim como as coisas vivas nascem, crescem e morrem e, portanto,
mudam , também certos fenômenos da natureza se repetem (a semana; as estações;
o dia que vira noite, e vice-versa). Um paralelo pode ser feito com a famosa
distinção entre "sociedades com ou sem história": as que se definem pela
mudança ou pela reiteração nesse último caso, as nomeadas "sociedades frias"
(na versão de Lévi-Strauss), "estagnantes" (na concepção de Claude Lefort)6.
Mas esse debate foi abandonado faz algum tempo, ou pelo menos o mal-entendido
que o circundava. Lefort mostrou como teria procurado não por "realidades
empíricas", mas antes por modelos; e Lévi-Strauss explicitou que tal
classificação servia, apenas, para assinalar diferenças entre culturas: definia
somente dois estágios que, nos termos de Rousseau, "não existem, não existiram,
jamais existirão"7.
Como se pode notar e parafraseando Lévi-Strauss , a história é "boa para
pensar"8. Assim como se estudam parentescos, rituais, simbologias, também a
história permite prever como a humanidade é una, mas variada em suas
manifestações.
Hora de ajustar o foco. Não é meu objetivo selecionar uma, entre essas tantas
definições, mas antes pensar como a antropologia vem entendendo e registrando a
história em outras sociedades e por que não? na nossa. De pronto, lembro
alguns exemplos: o tempo dos Nuer, que, como mostra Evans-Pritchard, adotavam
um referencial interno9; o tempo dos Mendi, um povo que, como explica M.
Sahlins, fazia tudo convergir para si10; o modelo pendular encontrado por Leach
entre os Kachin, no qual o tempo é representado como uma repetição de
inversões11; o tempo dos Piaroa, descrito por J. Overing, o qual é ora linear
ora não12; o tempo dos Umeda, praticado no ritual pesquisado por Alfred Gell,
quando se encenam com diferentes cores os vários ciclos da vida13, e o "nosso"
um tempo seriado e cumulativo. Aí estaria uma questão, de fato,
antropológica: a busca de alteridades entre sociedades; formas diversas de
expressão que ajudam a refletir, no limite, sobre a própria experiência.
Parece-me, ainda, importante reconhecer o papel que a história assumiu na
própria constituição da antropologia como disciplina. Nesse sentido, a
delimitação de fronteiras foi preocupação central de algumas escolas de
antropologia, cujos autores buscaram definir seus modelos também partindo de
uma contraposição de métodos. Essa "história" tem, assim, muitos trajetos:
pretendo aqui realizar uma breve "antropologia da história".
HISTÓRIA COMO CONJECTURA OU A AUSÊNCIA DA HISTÓRIA
Por sinal, pode-se afirmar que, nos primórdios da produção antropológica com
o evolucionismo , incorporou-se a diacronia. É certo que essa antropologia de
finais do século xix procurava uma só história, pautando-se pela idéia de que
certas culturas teriam permanecido na estaca zero da evolução, seriam fósseis
vivos a testemunhar o passado da nossa própria sociedade. E, dessa forma, o
modelo do Ocidente, caracterizado por uma evolução cumulativa e pela tecnologia
índice para definir o progresso obrigatório , virava marca de uma humanidade
unificada, mas cindida por desigualdades 14. Foi nesse momento, também, que
essas sociedades foram denominadas de "primitivas e da eterna infância"15. E,
como tinham parado na história, não havia por que perguntar sobre ela. Conforme
afirmava Varnhagen, o famoso historiador do Império brasileiro, "de tais povos
na infância não há História: há só etnografia"16.
E foi por conta do modelo conjectural dessa escola que antropólogos
culturalistas norte-americanos, de um lado, e funcionalistas ingleses, de
outro, buscaram distanciar-se da diacronia e se opor à história. Condenava-se o
evolucionismo não só porque sua reconstituição histórica não era verificável,
mas também porque a história dessas sociedades parecia diminuta, perante o
"presente etnográfico".
Para Franz Boas, por exemplo, era preciso localizar desenvolvimentos
particulares; ou melhor, realizar uma análise comparativa limitada e
processual. Aí estava o acento em culturas individuais; o recurso a uma
história circunscrita 17. Mas, por mais que Boas tenha advogado um "modelo
diacrônico", não havia como encontrar história tomando como base a etnografia.
Se a história representava um recurso ao tempo passado, definidor de realidades
presentes, no domínio da etnologia que lidava com sociedades sem escrita
nenhum fato histórico parecia estar disponível. Confessava o antropólogo: "O
material necessário para a reconstrução da História biológica da humanidade é
insuficiente [...] o material para a reconstrução da cultura é ainda mais
fragmentário [...] Dispomos de informações históricas apenas dos povos que
dominaram a escrita"18.
Mas qual era a história que Boas procurava? Não seria uma história ocidental
(pautada em registros escritos) e, por princípio, não encontrável nas culturas
por ele estudadas? Segundo Lévi-Strauss, Boas manifestaria sua decepção ao
renunciar à aspiração de entender "como as coisas chegaram a ser o que são",
transformando-se num "agnóstico histórico completo"19. Como fazer história do
presente sem recurso ao passado e sem transformar aquela história (ou sua
suposta ausência) na "nossa história"? Estava em questão o encontro com outras
histórias: as que não se recuperam via lápis e papel.
Mais radical era a posição de alguns antropólogos funcionalistas, que se
privaram da diacronia, sob o pretexto de que a história que os etnólogos faziam
não era boa o suficiente. Rompendo com a herança de Rivers, que defendeu um
duplo "ponto de vista" na análise das sociedades o estudo comparativo de
diferentes estruturas sociais e o estudo histórico dos processos das sociedades
humanas , antropólogos sociais britânicos de gerações subseqüentes
transformariam a concepção de dinâmica social (e de história) no pomo da
discórdia. História lembrava os esquemas evolucionistas e a ideologia do
progresso correntes no século XIX20. Além do mais, o próprio método implicava
uma espécie de recusa à história, já que as sociedades humanas, sobretudo na
visão de Radcliffe-Brown, eram entendidas como séries de sincronias (umas mais
longas do que as outras) 21. Por isso mesmo, o autor estabeleceria uma
distância formal entre as disciplinas: ao etnógrafo destina-se o conhecimento
direto, fruto da observação dos povos que estuda; já os historiadores se
limitam aos arquivos escritos 22. Assim, retomando o tema exclusivamente a
partir de questões de método, Radcliffe-Brown desafiava: "Os antropólogos, que
consideram o estudo histórico, instalam-se em conjecturas e pura imaginação"
23.
A etnografia se convertia num modelo do presente, condicionado pela ausência de
documentos escritos. E é mais uma vez Lévi-Strauss quem problematiza tal
postura: "Pouca história vale mais do que nenhuma, dizer que uma sociedade
funciona é truísmo, mas dizer que tudo nessa sociedade funciona é um absurdo"
24. Afinal, o problema não era metodológico, e sim epistemológico: desconhecer
que havia também história no presente, ou, ainda, que existiriam outras
histórias e temporalidades inscritas na própria etnografia.
OUTRAS HISTÓRIAS, TANTAS HISTÓRIAS
Saída diferente encontraria Evans-Pritchard nas aulas que ministrou em 1950.
Nomeando o debate entre antropologia e história como uma "querela doméstica", o
autor refazia fronteiras e ao mesmo tempo as diluía. Caberia à antropologia o
estudo de sociedades contemporâneas, mas não havia como ignorar a história.
Dizia ele: "O conhecimento do passado leva a uma compreensão mais profunda da
natureza da vida social no presente. A história não é mera sucessão de eventos,
mas sim a relação entre eles; seu processo de desenvolvimento. O passado está
contido no presente como este no futuro"25. O antropólogo introduzia, dessa
maneira, uma outra chave explicativa: história é processo, e não há sociedade
sem história, mesmo que no tempo sincrônico 26.
E a preocupação não era nova. Já na década de 1940, Evans-Pritchard enfrentara
a especificidade da categoria tempo em seu estudo sobre os Nuer, mostrando de
que maneira esse conceito era condicionado pelo ambiente físico, mas suas
respostas dependiam de estruturas sociais e suas relações internas27. Tratava-
se de outra forma de nomear o tempo e de conceber a história: não a "nossa
história" (ou a história do sujeito), mas uma história interna ao grupo e
construída a partir de categorias nativas28.
Por sinal, em outro artigo, publicado em 1961, Evans-Pritchard relacionaria os
impasses criados por uma antropologia que, de a-histórica, se tornara anti-
histórica: o uso acrítico de fontes documentais, o pouco esforço em lidar com o
passado, o suposto de que as populações nativas eram estáticas e, sobretudo, a
idéia de que se podia desconhecer a mudança social. E insistia: "Não se chega à
mudança sem o recurso à história, e, ignorando-a, estamos condenados a não
conhecer o presente" 29. Inteirado das discussões do momento, citava Lévi-
Strauss e Louis Dumont para sintetizar seu ponto de vista: "História é o
movimento pelo qual a sociedade se revela a si mesma e o que é" 30.
Evans-Pritchard acusava, assim, a existência de uma "ignorância da história".
Contrário a essa posição, destacava as semelhanças entre as disciplinas que
teriam como objeto comum "traduzir idéias para outros termos e torná-las
inteligíveis" e tratava, ainda, de abolir dicotomias rígidas: o fato de os
antropólogos estudarem pessoas em primeira mão, e os historiadores através de
documentos, era apenas uma questão "técnica". Mas se esse problema parecia
superado, restava lidar com outras faces da questão. Evans-Pritchard não só
apontava para o interesse crescente entre antropólogos pela história, como
apresentava dois níveis de análise: história seria o registro de eventos, mas
também a representação deles31. E esse assunto parecia andar na ordem do dia.
Aliás, já em 1949 Lévi-Strauss lançara um ensaio sobre o tema: seu primeiro
"Etnologia e história". Não era, porém, Evans-Pritchard que parecia em questão,
mas o funcionalismo de Malinowski e Radcliffe-Brown 32. "Pode-se indagar",
sugeria ele, "se, privando-se de qualquer História, não teriam abandonado
tudo"33.
Não é o caso de assumir a verve lévi-straussiana. Interessa mais mostrar como o
etnólogo iniciava uma crítica epistemológica à maneira como a antropologia
havia lidado com a temática. Como definiria em Raça e história: "Todas as
sociedades humanas têm um passado da mesma ordem de grandeza [...] Não existem
povos crianças, todos são adultos, mesmo aqueles que não tiveram diário de
infância e de adolescência" 34. Mas, se não há povos sem história, existem,
sim, variações nas formas como as sociedades se representam a partir da
história. Trata-se de notar, portanto, diferentes "modelos" de conceber a
história: uma progressiva e acumulativa; e outra igualmente ativa, que, no
entanto, voltaria sempre a uma espécie de fluxo cíclico.
Essa é também a posição de Claude Lefort, que, em 1952, publicava As formas da
história. Retomando o debate de Lévi-Strauss, Lefort carregava a herança do
existencialismo e introduzia a noção de "historicidades". As culturas
apresentariam formas distintas de devir, verificando-se variações entre uma
história regida por um princípio de conservação e uma história que abre lugar
para o novo; entre uma história visível que faz ler a mudança e uma
história invisível que apaga seus vestígios. Era por isso que o filósofo
pensava em histórias no plural: "Há sociedades cuja forma se manteve durante
milênios e que, a despeito dos acontecimentos de que foram teatro [...]
ordenam-se em função da recusa do histórico" 35. Lefort denominava essas
sociedades de "sem história" não porque desconhecessem mudanças, mas para
evidenciar sua tendência a neutralizar os efeitos da mudança. Estamos, assim,
diante de um outro patamar: "as sociedades estagnantes" não se situariam aquém
da era do desenvolvimento histórico: elas elaborariam as próprias condições de
sua estagnação36.
Diferentemente de Hegel, para quem a história nasce com o Estado, Lefort
indagava sobre a vigência de sociedades que abriram mão da história; da nossa
concepção de história. Por isso, a etnologia ajudaria a desvendar não formas
primitivas da evolução humana, mas sim elementos de confronto entre tipos de
devir: "uma mesma humanidade, às voltas com as mesmas questões, embora dando a
elas soluções diferentes"37.
Mas voltemos ao texto de Lévi-Strauss, que ocupava lugar estratégico como
introdução à coletânea Antropologia estrutural38. Nele, o autor anunciava a
especificidade da etnologia que praticava e, por meio da história, repassava
impasses da disciplina. Em suas palavras: "Pretender reconstituir um passado do
qual se é impotente para atingir a História, ou querer fazer a História de um
presente sem passado, drama da etnologia [ou do culturalismo] em um caso, da
etnografia [ou do funcionalismo] em outro" 39.
O ensaio começava, inclusive, descartando distinções que relegavam à história a
alteridade no tempo e à antropologia no espaço: "O comum é que são sistemas de
representação que em seu conjunto diferem de seu investigador"40. Lévi-Strauss
indica, ainda, variações nos procedimentos: enquanto o historiador se debruça
sobre muitos documentos, o antropólogo observa apenas um. Entretanto, tal
desproporção parece não incomodar o etnólogo, que ironizava a sua constatação
dizendo que a saída seria "multiplicar os antropólogos", ou admitir que o
próprio historiador recorre aos etnógrafos de sua época.
Dessa forma, a diferença não seria de objeto (a alteridade), muito menos de
objetivo (o diverso), nem mesmo de método (menos ou mais documentos). No
entanto, a paz era só alardeada, e uma nova di-cotomia entraria em seu lugar:
"Enquanto a História organiza seus dados em relação às expressões conscientes,
a etnologia indaga sobre as relações inconscientes da vida social"41. A questão
não era, porém, téc-nica ou metodológica, já que, com tal distinção, Lévi-
Strauss pre-tendia, mais que desautorizar a produção historiográfica, anunciar
as bases de uma antropologia estrutural. Tendo como objetivo chegar às
estruturas inconscientes, o etnólogo explicava: "Na lingüística e na etnologia
não é a comparação que fundamenta a generalização, mas sim o contrário" 42.
A divisão entre presença ou ausência de documentos parece, assim, não ser
falsa, mas pouco essencial. E o artigo terminava com um estranho happy end,
depois de ter demarcado distinções tão fortes. "Elas nada podem uma sem a
outra"43, diria o etnólogo. E eu acrescentaria: uma a história sem a outra
a antropologia. Afinal, Lévi-Strauss escolhera a lingüística como sua noiva e
largava a história no altar.
Quarenta anos depois, o mestre francês ainda procuraria defender seu ensaio dos
ataques de historiadores: "Meu artigo tendia a mostrar que uma oposição nefasta
e caduca deveria ceder lugar aos trabalhos que os etnólogos e historiadores
hoje podem realizar lado a lado"44. Lévi-Strauss trataria, inclusive, de
esclarecer seu partido em novo artigo, apresentado em 1983, por ocasião do V
Ciclo de Conferências em homenagem a Marc Bloch. Apesar da repetição do título
"História e etnologia" , não existem referências explícitas ao texto
anterior, e, nesse caso, o ensaio principiava com um elogio (breve) à obra de
Bloch. Seu objetivo era examinar as "estreitas relações entre as disciplinas" e
adiantar que "graças à antropologia [...] os historiadores teriam percebido a
importância das manifestações obscuras". E é por meio dessas "manifestações"
que o autor introduz um novo campo: uma "antropologia histórica". O problema é
então anunciado da seguinte maneira: "Todas as sociedades são históricas, mas
apenas algumas o admitem francamente, outras preferem ignorá-lo"45. As culturas
não seriam classificadas por uma escala ideal, ou em nome de seu grau de
historicidade, mas pela maneira como o pensamento coletivo se abre à história:
como e quando a vêem como ameaça ou quando percebem nela um instrumento para
transformar o presente.
Há assim uma decorrência no argumento que gostaria de acompanhar: se tomarmos o
tempo como categoria analítica, não há sociedade que não seja histórica. Ou
melhor, ficam evidentes as diferenças entre um "tempo estrutural" como
categoria de análise e um "tempo histórico", que é antes uma forma
circunscrita, datada e culturalmente condicionada de conceber a passagem do
tempo. O ensaio revela, também, que optar pela estrutura não significa recusar
a história e, com esse intuito, explora o conceito de casa. Ao analisar o
casamento de primos em sociedades de épocas e lugares diferentes, demonstra
como as culturas esquentam e esfriam, abrem-se e fecham-se à história. Não é o
caso de explorar tal concepção, mas sobretudo de mostrar como, segundo o autor,
abria-se para a história o campo das "estruturas profundas", porque comuns ao
passado. E ele ponderava: "Como é pouco plausível que as sociedades humanas se
repartam em dois grupos irredutíveis, alguns revelando a estrutura, outros o
acontecimento, duvidar que a análise estrutural se aplique a algumas conduz a
recusá-la para todas"46.
E a história estaria presente em vários textos de Lévi-Strauss47. Neles, o
autor lança mão da etnologia, com o objetivo de elaborar uma crítica ao papel
universalizante da história ocidental. Por sinal, se até agora trabalhamos com
duas categorias a história dos historiadores (como a denominam Gaboriau e
Goldman)48 e a história como conceito analítico , é preciso lembrar a crítica
que o etnólogo fará à "Filosofia da História". E foi com o intuito de se
contrapor a algum sentido privilegiado da história, definidor da própria
humanidade, que escreveu o último capítulo d'O pensamento selvagem. O objetivo
era acusar a leitura sartriana da história, que tomou a dialética como modelo
geral e invocou o critério da universalidade da consciência histórica. Afirmava
Lévi-Strauss: "É preciso bastante egocentrismo e ingenuidade para crer que o
homem está todo inteiro, refugiado em um só dos modos históricos de seu ser
[...] A História não é, pois, a História, mas a História para"49. Toda história
é, portanto, seleção, e nossa própria versão ocidental seria redutível a um
código: a cronologia, nossa cosmologia particular.
Assim, apoiando-se num tema aparentemente pouco relevante em sua teoria, Lévi-
Strauss chega a conclusões centrais nesse debate: as formas de nomear a
historicidade50. E a antropologia por meio da comparação e do estranhamento
ocuparia lugar privilegiado, revelando como existem tantas histórias como
culturas, religiões e parentescos. A distinção entre "histórias frias e
quentes" é, dessa maneira, apenas um modelo para chegar à alteridade: "Ela não
postula uma diferença de natureza [...] Refere-se às atitudes subjetivas que as
sociedades adotam frente à História"51.
Lévi-Strauss trabalharia, ainda, com outro conceito aproximado de história: a
noção de "grupo de transformações"52. Esse tipo de proposta já está presente no
primeiro volume das Mitológicas, quando o autor esclarece ter configurado "o
grupo de transformações de cada seqüência, seja no interior do próprio mito,
seja elucidando as relações de isomorfismo entre seqüências extraídas de vários
mitos provenientes da mesma população"53. Ao ancorar suas análises em
sociedades concretas, o etnólogo mostrou como, para o estruturalismo, as
transformações históricas concretizam-se por meio de inversões lógicas, segundo
as quais os elementos contidos na experiência do mundo concreto são a todo
momento reelaborados, tendo como base princípios estruturantes comuns a toda a
humanidade54. Na sua definição: "[...] a análise estrutural não recusa a
história. Ao contrário, concede-lhe um lugar de destaque [...] Para ser viável,
uma investigação voltada para as estruturas começa por curvar-se diante do
poder e da inanidade do evento"55.
UMA ANTROPOLOGIA DAS HISTORICIDADES E SEUS VÁRIOS CAMINHOS
Não é hora de aprofundar esse debate, que implicaria pensar no conceito de
"entropia", e como, para Lévi-Strauss, as estruturas não seguem um sentido
lógico que pressuponha a mudança visível: elas podem não se alterar, se perder,
morrer, e assim por diante56. De toda maneira, o que se quer destacar é como,
por meio da questão da história, Lévi-Strauss revela-se um teórico da
diversidade; constatação que ajuda a nuançar interpretações enganosas acerca
dessa obra. Afinal, desde os anos 1970, vários antropólogos dividiram-se entre
aqueles que se opunham ao modelo estrutural, em sua suposta condenação à
história57, e aqueles que se declaravam abertamente influenciados por ela. Não
pretendo listar os nomes que tomaram parte nesse debate. Julgo mais proveitoso
examinar, em função de seu destaque no campo antropológico, o papel de Marshall
Sahlins, que vem se definindo como um "estruturalista histórico".
Além do mais, Sahlins tem priorizado, em vários estudos, questões semelhantes
às que temos tratado aqui: o modo como as culturas carregam suas próprias
historicidades. Aí estaria o projeto intelectual mais amplo desse autor,
implicado na tentativa de elucidar de que forma a infra-estrutura econômica é
ela própria organizada pelos diferentes esquemas culturais. Significa dizer,
entre outras coisas, que o sistema mundial, para além do processo de
globalização, estaria sendo relido, a todo momento, por categorias locais.
Foi, porém, no livro Historical metaphors and mythical realities que Sahlins se
imiscuiu mais diretamente no debate entre antropologia e história. Como
explicava o autor: "O grande desafio para uma História antropológica não é só
saber como os eventos são ordenados pela cultura, mas como, nesse processo, a
cultura é reordenada. Como a reprodução de uma estrutura carrega a sua própria
transformação"58. O objetivo era demonstrar de que maneira qualquer recepção se
pauta sempre por estruturas anteriores, motivadas pela dinâmica da cultura: "O
processo histórico caminha num movimento recíproco entre a prática da estrutura
e a estrutura da prática"59.
É esse processo que Sahlins denomina, em Ilhas de história60, de "a reavaliação
funcional de categorias". O autor introduzirá estrutura na história (só que a
partir do modelo de Hocart61), mostrando como, mesmo na representação mais
abstrata dos signos a cosmologia , a estrutura está em movimento. O problema
levaria menos a explodir o conceito de história pela experiência antropológica
da cultura, e mais a apresentar a experiência histórica, incluindo a estrutura.
Por sua vez, a cultura assim equacionada corresponde à organização da situação
atual em termos do passado. É isso que o autor chama de "estrutura da
conjuntura": a forma como as culturas reagem a um evento, fazendo o contexto
imediato dialogar com estruturas anteriores. A história é construída tanto no
interior de uma sociedade como entre sociedades que repõem estruturas passadas
na orquestração do presente.
É também nessa perspectiva que Sahlins analisa a incorporação do capitalismo em
países periféricos. "Cada cultura é (no limite) um sistema mundial", declararia
em entrevista recente62, mostrando como é preciso dar ouvidos aos "povos
periféricos", na melhor tradição antropológica, que sempre se definiu como "uma
ciência social do observado: seja porque ela visa atingir em sua descrição as
sociedades estranhas [...] seja porque ela amplia seu objeto até incluir nele a
sociedade do observador"63. Nem tão distantes estariam, portanto, Lévi-Strauss
e Sahlins, sobretudo quando buscam chegar a temporalidades diferentes.
A obra de Sahlins sinaliza ainda, para outros rumos da disciplina, que, ao se
concentrar no tema do poder, destaca como atentar para estruturas e
permanências, o que não significa recusar a história e a mudança. Seus livros
revelam, por outro lado, como a prática política carrega dimensões simbólicas e
rituais que não se limitam ao estudo da lógica política mais tradicional. Aí
estaria, em minha opinião, a novidade dos trabalhos desse autor, que tem
explorado o rendimento da análise estrutural para pensar em outras histórias
contingentes: as releituras de culturas, assim chamadas, periféricas.
Sob essa ótica podemos aproximar, também, a excursão histórica que Clifford
Geertz realiza em Negara 64. A partir do estudo de uma prática ritual da
Indonésia, o autor não só elabora uma crítica à filosofia política ocidental,
como defende uma concepção específica de história: "A História de uma
civilização", explica ele, "pode ser descrita como uma série de grandes eventos
[...] ou então enquanto fases de desenvolvimento sociocultural"65. Geertz
reconhece a complementaridade das abordagens, e acrescenta uma terceira: a
etnográfica. Não se trata de acreditar que "a ilha tenha sido poupada à
História"66, ou que os costumes do presente sejam prova de existência no
passado. A idéia é reafirmar que há história no "presente etnográfico".
Além do mais, por meio da análise das dimensões simbólicas do poder estatal,
Geertz destacou exemplos alternativos à versão ocidental de Estado, assim como
relativizou nossa concepção de poder, herdeira da moderna teoria política do
século XVI67. Em Negara apresentava, portanto, formas distintas de política,
poder e história, reconhecidas por um método tão original quanto contestado: o
"doing history backwards". E esse método já havia sido experimentado em
Observando o islã, quando Geertz comparou a fé religiosa no Marrocos e na
Indonésia 68. Sem entrar no argumento da obra, vale atentar para o tipo de
história preconizada: "Em certo sentido, formular o problema nesses termos é
fazer uma História de frente para trás [...] A vida, como disse Kierkegaard, se
vive para a frente, mas se compreende para trás" 69.
A partir desse ângulo delimitado, as obras de Geertz retomariam problemáticas
dos textos de Sahlins: ambos analisam de que modo processos do presente são
determinados por estruturas do passado, mas geram experiências inusitadas. No
entanto, existem também dissonâncias: diferentemente de Geertz, Sahlins define
uma espécie de vocação para as sociedades que estuda70, acreditando que as
culturas preexistentes limitam de forma radical as possibilidades de mudança71.
Por outro lado, percebem-se divergências na maneira como Sahlins entende as
culturas periféricas: tal qual centros da transformação histórica. Aliás, esse
seria o cerne da crítica de autores como Bhabha e Obeyesekere, que acusaram uma
tendência culturalista nas obras de Sahlins72.
Se não há tempo para refazer esse debate (que implicaria adentrar a leitura
pós-moderna), o que se pode dizer é que há uma antropologia interessada na
transformação histórica; ou melhor, nas manifestações divergentes de processos
históricos assemelhados73.
O fato é que esses autores, entre outros 74, têm investido numa antropologia
histórica atenta às reelaborações locais. O suposto é que do contato entre
culturas ambas saiam alteradas, não resultando apenas dois blocos: um impondo
esquemas culturais e outro absorvendo; um sendo destruído e outro mantendo sua
tradição imutável75.
Lembro que tal perspectiva pode ser acompanhada também no contexto da América
indígena. Uma clara revisão tem demonstrado, entre outros temas, como não basta
dar aos povos nativos ora o papel de heróis que lutam pela conservação de sua
cultura entendida como essência imutável ora o de vítimas passivas76. Além
do mais, no lugar da noção de culturas "puras", ou conspurcadas pelo encontro,
vários trabalhos insistem atualmente nas estratégias de negociação e de
reformulação de identidades: na fronteira. Sem incorrer no erro de supor que os
contatos culturais se travam de modo harmonioso e igualitário, trata-se de
investigar como elementos externos foram relidos pelas culturas locais, não só
porque revelavam imposição política, mas, também, porque faziam sentido em
determinado contexto, em si significativo 77.
Nesse sentido, uma série de pesquisas antropológicas vem reconsiderando as
maneiras de fazer essa "história do encontro" e criticando a representação do
nativo como um "elemento passivo" de sua história. De um lado, há toda uma
produção atenta às lógicas políticas e culturais desses contatos, e que tem a
sociedade ocidental como referência de análise78. De outro, um conjunto de
trabalhos busca não uma história (ocidental) dos índios brasileiros, mas uma
história indígena em seus próprios termos79. Trata-se de uma linha que, em vez
de acreditar que o discurso sobre os povos de tradição não européia serve para
iluminar nossas "representações do outro", passa a indagar de que forma os
"outros representam os seus outros" 80. A alternativa inaugura um
construtivismo de mão dupla, no qual a antropologia reconhece que suas teorias
sempre exprimiram um compromisso, em contínua negociação histórica, entre os
mundos do observado e do observador, e que toda antropologia bem-feita será
sempre uma "antropologia simétrica", nos termos de Latour81.
Não se trata de repassar a produção etno-histórica ou de esgotar autores e
obras. Vale a pena assinalar, porém, que o que está em pauta é reconsiderar
formas indígenas de pensar e fazer história um regime de historicidades
próprio , uma outra história, para voltarmos a nosso debate central. Mas é
necessário fazer uma parada estratégica. Não pretendi construir uma espécie de
patchwork de teorias, nem imaginar que todos "viveram felizes para sempre".
Também não foi minha intenção chegar a uma visão consensual, mesmo porque
outros trabalhos poderiam ser aqui incluídos. O que fiz foi, através da questão
da história, buscar articular perspectivas, se não afinadas, ao menos
convergentes. É por meio da comparação e do estranhamento que se chega a outras
histórias, paralelas à nossa própria experiência. E não estamos longe da
definição de Merleau-Ponty, que viu na antropologia "a maneira de pensar quando
o objeto é outro e exige a nossa própria transformação" 82.
TEMPORALIDADES EM NOSSA HISTÓRIA OCIDENTAL
E é mais uma vez Lévi-Strauss quem mostra como "nas nossas sociedades a
história substitui a mitologia e desempenha a mesma função". Para as sociedades
sem escrita, a mitologia asseguraria que o futuro permanece fiel ao presente e
ao passado; já para nós, a história garantiria que o futuro será sempre
distinto do presente83.
Assim, a autoconsciência histórica faz parte de culturas que trazem para dentro
de si tal movimento progressivo, o que faria da nossa sociedade, uma "sociedade
a favor da história". Mas o perigo de apostar nessa visão unitária é
caricaturar a nós mesmos. Se outras sociedades carregam "histórias no plural",
também o Ocidente não é só (e sempre) um conjunto de sociedades que se pauta
pela cronologia.
E não foram poucos os historiadores que se voltaram sobre "nossos" tempos. Marc
Bloch, em Os reis taumaturgos 84, ao fazer uma espécie de "história do
milagre", inaugurava uma antropologia histórica, atenta aos elementos culturais
persistentes, quase estruturais. Anos depois, Fernand Braudel, em O
Mediterrâneo, indicava como encontrara um mundo marcado por temporalidades
distintas. Permanências e regularidades da história mediterrânea mostravam a
importância da "longa duração" 85.
Mais recentemente, Robert Darnton, em O grande massacre de gatos, recuperaria
esse diálogo, analisando um ritual ocorrido numa gráfica parisiense, no final
da década de 1730, onde conviviam vários tempos: o tempo da Revolução, o tempo
dos rituais, mas também o tempo longo da feitiçaria 86. Carlo Ginzburg, em
História noturna, ao buscar no sabá exemplos profundos de "formações culturais
de compromisso", elegeu o modelo estrutural. Se o objetivo era retomar o ritual
dando lugar ao observado, já a metodologia insistiu numa análise sincrônica 87.
Mas, uma vez que não há espaço aqui para recuperar esse debate na
historiografia e perguntar quais foram as antropologias que a história
encontrou88 , gostaria de finalizar trazendo a discussão "para o meu campo". É
possível reverter o eixo de análise e, por meio da alteridade, refletir não só
sobre os "outros", mas acerca da nossa própria cultura e suas tantas
historicidades. Por esse caminho assumiríamos uma postura diferente diante das
"sociedades complexas", que implica, como diz Viveiros de Castro,
"antropologizar o centro e não apenas a periferia da nossa cultura"89.
É preciso questionar esse "ar de novidade" sem perder, porém, a oportunidade de
provocar. Se não são poucos os trabalhos de antropólogos brasileiros que têm se
utilizado da diacronia como forma de reflexão90 e basta lembrar a herança de
Gilberto Freyre91 , é hora de mostrar como esse tipo de abordagem teórica tem
influenciado meu trabalho, em particular. Fazendo um paralelo com minhas
pesquisas, diria que tratei de enfrentar conceitos nativos mediante o recurso à
história. Inspirada por alguns dos autores citados, estudei instituições
científicas do século XIX e retomei noções como raça e cidadania. Tal
pesquisa implicou "historicizar" categorias, ou, nos termos de Sahlins,
encontrar novas formas para velhas estruturas. A idéia foi privilegiar a versão
local, o que levou a pensar na "originalidade da cópia" e como a raça fazia
aqui as vezes da nação92.
Também nessa linha analisei a representação da monarquia, durante o Segundo
Reinado brasileiro, procurando refletir sobre a dimensão simbólica do poder
político e das tantas realezas aqui relidas, em historicidades variadas: o
tempo curto da política das elites, o tempo longo do rei das festas e do
monarca que sobrevive na memória como mito93.
Acredito ainda que uma antropologia histórica das "sociedades complexas" deve
transpor não "termos", mas "relações" e "conceitos" 94, e o recurso à história
pode representar uma abordagem privilegiada. É nessa direção que vem se
desenvolvendo minha pesquisa atual, que trata do pintor Nicolas Taunay, o qual,
chegado ao Brasil em 1816, tinha a complicada tarefa de "traduzir" para as
telas a realidade local. O artista lamentava que as cores do Brasil não
encontravam nenhum referencial neoclássico e, acima de tudo, que o tempo dos
trópicos insistia em não se deixar captar: "Como prender o sol dos trópicos,
que rouba o tempo e insiste em correr?", indagava o pintor. Aí estava outro
tempo: o tempo ao sul do equador, o tempo da viagem e da situação passageira. O
tempo da Revolução, que perpetua na tela as virtudes do governante, não cabe na
pintura de Taunay, que fez questão de expor um certo mal-estar entre modelo e
realidade: de um lado a tentativa de engrandecer a corte exilada; de outro o
esforço de obscurecer a escravidão.
Durante os quase cinco anos em que permaneceu no Brasil, Taunay produziu 45
obras, mas apenas quinze sobre essa natureza que resistia a uma leitura fácil:
os trópicos não combinavam com o rigor neoclássico, assim como as figuras não
se pareciam com as da Arcádia ou da Antigüidade. Exemplo do tempo distinto dos
trópicos é encontrado na tela Cascatinha da Tijuca, na qual o pintor surge
diminuto perante a natureza que tenta capturar. "Pintei o quadro", admitiu ele,
"antes que o tempo me enganasse." Taunay retrata, mas também contempla:
interioriza a experiência e expõe o conflito entre o homem e a natureza. Nesse
processo, a natureza entra no lugar da história e representa a nação. Era a
realeza da natureza que acolhia os Bragança; uma paisagem edenizada que
constituía a nacionalidade.
Mas é em outra tela Gato com papagaio que a reflexão sobre o tempo aparece
de maneira mais direta. Nela estão dispostos alegoricamente dois animais que
revelam, respectivamente, o mais tradicional e o mais exótico, a longa e a
curta duração. Animal de representação clássica, o gato, como objeto de
simbolização, tem sido associado à metonímia sexual, à feitiçaria e à traição.
Com efeito, ele lembra tudo o que é passado, mas, como alegoria, representa a
falsidade. Falta falar do papagaio, que estaria presente já nas primeiras
imagens da América. Ademais, como alegoria, os pássaros, além de aparecerem com
freqüência na mão do Cristo infante, representam a "alma". No entanto, se não
ficarmos restritos a uma análise formal, poderemos notar como os dois animais
pouco se olham. Parecem observar, de soslaio, o pintor, que também os observa.
Aqui estão a lealdade e a falsidade, o novo e o velho, o tempo imediato e o
mais longo. Estando dispostos lado a lado, pouco se comunicam, tal qual um
grande (e forçado) convívio entre tempos distintos. Como diz Ginzburg, "expulsa
silenciosamente pela porta, torna (a história) a entrar pela janela"95.
O TEMPO DA MONTANHA
O desafio é enfrentar, portanto, as várias histórias da nossa cosmologia, tema
retomado por Latour para pensar "os modernos":
A passagem ocidental do tempo nada mais é do que uma forma particular
de historicidade [...] A antropologia está aí para lembrar que tal
passagem pode ser interpretada de diferentes formas [...] Vivemos a
sensação de uma flecha irreversível do tempo. Como observava
Nietzsche, os modernos têm a doença da história. Querem datar tudo,
porque pensam terem rompido definitivamente com o passado [...] Mas o
passado permanece ou mesmo retorna96.
Estou me referindo a uma antropologia histórica da nossa própria sociedade,
terreno onde situo minhas investigações. Trata-se de, à semelhança do que a
etno-história realiza para outras culturas, recuperar um trabalho de "tradução
para as sociedades complexas"97. Esse tipo de antropologia nos levaria a ser
capazes de nos espantar diante de formas de representar nossa própria sociedade
e, por que não?, o tempo e a história. E quem sabe Keith Thomas tenha razão
quando reconhece que "aqueles que estudam o passado se deparam com duas
conclusões contraditórias. A primeira é que o passado era muito diferente do
presente. A segunda é que ele era muito parecido"98.
Mas é hora de terminar, e recorro a um exemplo da literatura: Hans Castorp,
personagem de A montanha mágica, um jovem que narra "fatos recobertos pela
pátina do tempo e na forma de um passado remoto"99. O cenário se concentra no
sanatório Berghof, localizado na aldeia suíça de Davos-Platz, espécie de
laboratório de uma Europa enferma do período entre guerras, quando se
entrelaçam inquietações, ilusões e utopias... todas reunidas pela mesma
doença100.
E Castorp vai ficando nesse local em que o tempo ganha outro tipo de duração.
Mas deixemos Thomas Mann narrar:
[...] é necessário que as Histórias já se tenham passado. Poderíamos
até dizer que, quanto mais se distanciam do presente, mais adequadas
serão ao narrador, este mago que evoca o pretérito. Acontece, porém,
com a História o que hoje em dia acontece com os homens e com os
narradores de Histórias: ela é muito mais velha que seus anos; sua
vetustez não pode ser medida por dias [...] Não é propriamente ao
tempo que a História deve o seu grau de antigüidade e com esta
observação feita de passagem aludimos ao caráter problemático desse
elemento misterioso101.
A história é central nesse livro, mas sua extensão não se mede por dias, e sim
por esse "elemento misterioso" chamado tempo. No entanto, como o tempo "é um
enigma difícil de resolver"102, o romance corre, e Castorp comprova que as sete
semanas que passara lá em cima, na montanha, não lhe pareceram mais do que sete
dias. Ou às vezes tudo acontecia exatamente ao contrário: já vivia naquele
mesmo lugar muito mais tempo do que a realidade lhe anunciava. Segundo Thomas
Mann, "uma coisa e outra eram, provavelmente, verdade: ao seu olhar
retrospectivo, o tempo ali passado afigurava-se excessivamente longo como
excessivamente breve. Um único aspecto desse tempo, entretanto, escapava-lhe: a
sua duração real admitindo ser o tempo um fenômeno natural e ser lícito
relacionar com ele o conceito de realidade"103. Escapava-lhe, justamente, a
nossa temporalidade: o mês de outubro que estava prestes a começar, ou a
objetividade dos dias impressos no calendário.
De um modo ou de outro, "o tempo escoava e seguia o seu curso [...] de forma
que nenhum homem de espírito são pudesse considerá-lo História"104. Até parece
que estamos diante da noção de "tempo misterioso", utilizada por Walter
Benjamin: "essa imagem do passado que a história transforma em coisa sua"105. A
montanha mágica permite lembrar de que maneira, também entre nós, o tempo e a
história são matéria de negociação: ambíguos em sua compreensão, múltiplos nos
desenlaces, vários enquanto representação.
O tema escolhido permitiu, assim, não só refazer uma certa história da
antropologia, mas localizar muitas histórias: uma história que os homens fazem
sem saber (como categoria analítica); uma história que os homens sabem que
fazem (como disciplina); a história como elemento universal ou traço da
relatividade. Por fim, ajudou a problematizar nossas concepções de tempo e
história. Como revela Dumont, "a tese complementar que falta demonstrar, ou
defender, é que, inversamente, uma perspectiva antropológica pode permitir-nos
conhecer melhor o sistema moderno de idéias e valores, sobre o qual acreditamos
saber tudo pelo simples fato de ser nele que pensamos e vivemos"106.
Parece-me, portanto, oportuno desconfiar de definições disciplinares que se
assentam, exclusivamente, num método ou num objeto. O que define a antropologia
é antes uma questão ou uma postura que, nos termos de Merleau-Ponty, "diz
respeito à própria natureza da reflexão antropológica que, ao levar a sério a
alteridade, cria um espaço de encontro entre o 'eu' e o 'outro'" 107. Como
ciência da alteridade e da diversidade, a antropologia permite transpor
conceitos e fazer a reflexão incidir sobre nós mesmos. Noutras palavras, se a
antropologia deve se debruçar sobre o que é considerado "nativamente"
relevante, não pode deixar escapar a centralidade que a história ocupa em nosso
pensamento: ela é parte fundamental das grandes narrativas sociais e da forma
de nos auto-representar, costurando eventos. E, como mostrou Paul Veyne, "um
evento é apenas o que se destaca sobre um fundo de uniformidade; é uma
diferença", da mesma maneira como a "história no singular, e com maiúscula, no
limite não existe"108.
Esses são os desafios de uma "antropologia histórica", na perspectiva de Bloch;
de uma "história antropológica", na versão de Sahlins, ou de uma "antropologia
da história", expressão com que iniciei este ensaio e que implica privilegiar,
como quer Lévi-Strauss, várias historicidades. Não se trata de jogar com
palavras, mas antes de assinalar uma questão tão complexa como antiga: afinal,
somos todos nativos de nossas muitas temporalidades. Ou, como diria Thomas
Mann: "A História é muito mais velha que seus anos".
[1] Este ensaio foi apresentado originalmente sob a forma de uma "prova oral de
erudição", em concurso para professor titular, realizado pelo Departamento de
Antropologia Social da Universidade de São Paulo. A aula foi realizada no dia 9
de março de 2005 e procurou, justamente, recuperar momentos dessa fronteira
entre antropologia e história, privilegiando a primeira disciplina; área na
qual se realizava o concurso. Como se verá, a pergunta que orienta o ensaio
visa entender de que maneira a produção antropológica dialogou com "várias
histórias". Nesse sentido, propositadamente não se fez o caminho oposto, o qual
implicaria perguntar quais foram "as antropologias" com que a historiografia
(seja ela inglesa ou francesa) dialogou. Esse debate levaria a outras
indagações e escaparia aos propósitos e limites desse estudo.
[2] Vide, nesse sentido, Gaboriau, M. "Antropologia estrutural e história", in
Lima, L. C. (org.). O estruturalismo de Lévi-Strauss. Petrópolis: Vozes, 1968; Goldman, M. "Lévi-Strauss e os sentidos da história". Revista
de Antropologia, vol. 42, n. 1-2, São Paulo, USP/FFLCH, Depto. de Antropologia,
1998; e idem. "Lévi-Strauss e os sentidos da história", in
idem. Alguma antropologia. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999.
[3] No lugar de uma "História das Idéias", François Châtelet, em sua História
da filosofia (Rio de Janeiro: Zahar, 1972), propõe uma
"Geografia das Idéias".
[4] Goldman, M. Razão e diferença. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1994.
[5] Vide Durkheim, É. "Representações individuais e representações coletivas"
(1898), in Sociologia e filosofia. Rio de Janeiro: Forense, 1988. Sugiro também a leitura do artigo de Pontes, Heloisa. "Durkheim: uma
análise dos fundamentos simbólicos da vida social e dos fundamentos sociais do
simbolismo". Cadernos de Campo, ano 3, n. 3, 1993, pp. 89-102.
[6] Lévi-Strauss, C. "História e etnologia", in Antropologia estrutural. Rio de
Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975; idem. "História e etnologia",
Textos Didáticos, n. 24, 1996; Lefort, C. As formas da
história. São Paulo: Brasiliense, 1979.
[7] Idem. "Histoire et ethnologie", Annales E.S.C., vol. 38, n. 6, 1983, p.
1219.
[8] Expressão utilizada por Lévi-Strauss, em seu livro Totemismo hoje(Lisboa:
Edições 70, 1986), para se contrapor a Malinowski.
[9] Evans-Pritchard, E. E. Os Nuer [1940] São Paulo: Perspectiva, 1978.
[10] Sahlins, M. "O pessimismo sentimental e a experiência etnográfica". Mana.
Estudos de Antropologia Social, vol. 3, 1997.
[11] Leach, E. R. "Dois ensaios a respeito da representação simbólica do
tempo", in Repensando a antropologia. São Paulo: Perspectiva, 1974, p. 193.
[12] Overing, J. "O mito como história: um problema de tempo, realidade e
outras questões". Mana. Estudos de Antropologia Social, vol. 1, n. 1, 1995.
[13] Gell, Alfred. The anthropology of time. Cultural construction of temporal
maps and images. Oxford/Providence: Berg Oxford/Providence, 1992. Gell faz, inclusive, um apanhado sobre as noções de tempo encontradas
nas obras de Durkheim, Evans-Pritchard, Lévi-Strauss e Leach.
[14] Destacamos, entre outras, as obras: Maine, Ancient law (1861); Bachofen,
Das Mutterrecht (1861); Fustel de Coulanges, La cité antique (1864);
McLennan's, Primitive marriage (1865); Tylor, Researches into the early history
of mankind (1865), e Morgan, Ancient society (1877).
[15] Carneiro da Cunha, M. "Introdução a uma história indígena", in idem.
(org.) História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p.
11.
[16] Varnhagen, F. A. de. História geral do Brasil [1854]. São Paulo:
Melhoramentos, 1978, p. 30.
[17] Boas, F. "História e ciência em antropologia" [1936], in idem.
Antropologia cultural (Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
[18] Idem. "Os objetivos da pesquisa antropológica" [1932], in ibidem, p. 98.
Para um apanhado das idéias de Boas, sugiro a leitura dos livros de Stocking
Jr., G. W. (org.) Franz Boas. A formação da antropologia americana. 1883-1911.
Rio de Janeiro: Contraponto/Editora da UFRJ, 2004; e Moura, M.
M. Nascimento da antropologia cultural. A obra de Franz Boas. São Paulo:
Hucitec, 2004.
[19] Lévi-Strauss, C. "História e etnologia", in Antropologia estrutural, ed.
cit., p. 21.
[20] Rivers, que praticou um método indutivo e de tradição empirista,
introduziu em seu texto "História e etnologia" [1920] (in Cardoso de Oliveira,
R. (org.) A antropologia de Rivers. Campinas: Editora da Unicamp, 1991), a idéia de "cronologia relativa", distinta de uma cronologia
absoluta ou numérica. Vide também, para uma boa análise da obra de Rivers,
Grimshaw, A. & Hart, K. Anthropology and the crisis of the intellectuals.
Cambridge: Prickly Pear Press, 1993.
[21] Mais recentemente, uma série de autores tem tecido críticas a essa
perspectiva. Lembro, a título de exemplo, o trabalho de Clifford, James &
Marcus, George E. (eds.). Writing culture. Berkeley: University of California
Press, 1986; e as críticas que fazem Grimshaw, Anna &
Hart, Keith (op. cit., p. 25), a esse tipo de etnografia, que, segundo eles
"isolava as populações que estudava negando sua participação coletiva no
movimento da história moderna".
[22] Radcliffe-Brown, A. R. Estrutura e função nas sociedades primitivas.
Lisboa: Edições 70, 1989, p. 11.
[23] Ibidem, p. 12.
[24] Lévi-Strauss, C. "História e etnologia", in Antropologia estrutural, ed.
cit., p. 27.
[25] Vide "Marret Lectures". Evans-Pritchard, E. E. "Anthropology and history",
in Essays in social anthropology. Londres: Faber and Faber, 1962; e Antropologia social, ed. cit., p. 100.
[26] Idem. "Anthropology and history", in ibidem, p. 48.
[27] Os tempos mais longos eram quase sempre estruturais; os tempos mais
breves, ecológicos. O tempo estrutural era progressivo, enquanto o tempo
ecológico era cíclico e delimitado.
[28] Evans-Pritchard, E. E. "Social anthropology: past and present", in Essays
in social anthropology, ed. cit., p. 21.
[29] Ibidem, p. 56.
[30] Ibidem, p. 56; e Dumont, L. "For a sociology of India". Contributions to
Indian Sociology, n. 1, 1957, p. 21.
[31] Evans-Pritchard, E. E. "Anthropology and history", in ibidem, p. 56;
Dumont, L. ibidem, p. 63.
[32] Radcliffe-Brown discordou dessa alcunha comum, que dizia ter sido
inventada por Malinowski e só a ele devia se aplicar, pois diferiam
radicalmente a começar pelo próprio conceito de função. Vide Radcliffe-Brown,
A. R., op. cit., p. 279.
[33] Lévi-Strauss, C. "História e etnologia", in op. cit., pp. 25-7.
[34] Idem, Raça e história[1952]. São Paulo: Martins Fontes, 1975, p. 35.
[35] Lefort, C. "Sociedades 'sem história' e historicidade", in As formas da
história. São Paulo: Brasiliense, 1979, p. 17.
[36] Ibidem, pp. 17-8.
[37] Ibidem, pp. 55-6.
[38] O ensaio foi publicado originalmente na Revue de Metaphysique et de
morale.
[39] Lévi-Strauss, C. Raça e história, ed. cit., p. 30.
[40] Idem. "História e etnologia", in op. cit., p. 28.
[41] Ibidem, p. 34. Nessa perspectiva a história estaria para a antropologia
como a etnografia para a etnologia.
[42] Ibidem, p. 37.
[43] Ibidem, p. 41.
[44] Lévi-Strauss, C. & Eribon, D. De perto e de longe. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1990, p. 157.
[45] Lévi-Strauss, C. "Histoire et ethnologie". Annales E.S.C., vol. 38, n. 6,
1983, p. 1.218.
[46] Ibidem, p. 1.229.
[47] Em obras como "História e etnologia" (1949); Raça e história (1952); Aula
inaugural (1960); os dois últimos capítulos de O pensamento selvagem (1962); o
segundo "História e etnologia" (1983); "Um outro olhar" (publicado na revista
L'Homme em 1983); História de lince (1991); "Voltas ao passado" (entrevista
para a revista Manade 1998), e nas Mitológicas(1964-71).
[48] Gaboriau, M., op. cit., e Goldman, M., "Lévi-Strauss e os sentidos da
história", ed. cit.; "Lévi-Strauss e os sentidos da história", in idem, Alguma
antropologia ed. cit.
[49] Lévi-Strauss, C. "História e dialética", in O pensamento selvagem. São
Paulo: Companhia Editora Nacional, 1976, p. 292[ STANDARDIZEDENDPARAG]
50] Vide também, nesse sentido, artigo de Goldman, M. "Lévi-Strauss e os
sentidos da história", in ed. cit.
[51] Lévi-Strauss, C. "Voltas ao passado". Mana. Estudos de Antropologia
Social, vol. 4, n. 2, 1998, p. 108.
[52] Idem. "A estrutura dos mitos", in Antropologia estrutural, ed. cit., p.
258.
[53] Idem. O cru e o cozido. São Paulo: CosacNaify, 2004, pp. 20-1.
[54] Pateo, R. D. do. "Claude Lévi-Strauss: estrutura, história e
transformação". Tradução de Beatriz Perrone-Moisés, 2004, p. 8 (mimeo).
[55] Lévi-Strauss, Claude. "A harmonia das esferas", in Do mel às cinzas, 2003,
pp. 401-8 (mimeo).
[56] Vide, nesse sentido, artigo de Almeida, M. "Simetria e entropia: sobre a
noção de estrutura em Lévi-Strauss", Revista de Antropologia, vol. 42, n. 1-2,
1998.
[57] Vide, nesse sentido, Delacampagne, C. & Traimond, B. "A polêmica
Sartre/Lévi-Strauss revisitada. Nas raízes das ciências sociais de hoje", Les
Temps Modernes, n. 596, nov.-dez., s/d.
[58] Sahlins, M. Historical metaphors and mythical realities. Michigan:
Michigan Press, 1986, p. 9.
[59] Ibidem, p. 72.
[60] Idem. Ilhas de história [1987]. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.
[61] Vide, por exemplo, Hocart, A. M. Kinship[1927]. Oxford: Oxford University
Press, 1969.
[62] Entrevista para o livro Antropologias: histórias e experiências,
organizado por Fernanda Peixoto, Heloisa Pontes e Lilia Moritz Schwarcz (Belo
Horizonte: Editora da UFMG, 2004).
[63] Lévi-Strauss, C. "Lugar da antropologia nas ciências sociais e problemas
colocados por seu ensino" [1954], in Antropologia estrutural, ed. cit.
[64] Geertz, C. Negara. O Estado teatro no século XIX [1980]. Lisboa: Difel, s/
d.
[65] Ibidem, p. 15.
[66] Ibidem, p. 18.
[67] Ibidem, p. 169.
[68] O antropólogo focaliza a narrativa na ação carismática de dois líderes
Sunan Kalidjaga e Ali al-Hassan com o intuito de explicar por que eles teriam
institucionalizado diferentes formas de islamismo.
[69] Geertz, C. Islam observed. Religious development in Morocco and Indonesia.
Chicago: Chicago University Press, 1971, pp. 59-60.
[70] Vide, nesse sentido, Sahlins, Marshall. "Cosmologias do capitalismo",
Religião e Sociedade, n. 16, 1992.
[71] Fox, R. & Gingrich, Andre Anthropology, by comparison. Londres/Nova
York: Routledge, 2002.
[72] Vide Obeyesekere, G. The apotheosis of Captain Cook. Princeton: Princeton
University Press/Bishop Museum Press, 1992; Bhabha, Homi K. O
local da cultura. Belo Horizonte: Editora da ufmg, 1998; Sahlins, M. Como pensam os nativos. São Paulo: Edusp, 2001; e idem. Esperando Foucault, ainda. São Paulo: CosacNaify, 2004.
[73] Vide, nesse sentido, Fox, R. & Gingrich, A., op. cit., p. 167.
[74] Vide, entre outros, Isaac, Rhys. Transformations of Virginia. Chapel Hill:
University of North Carolina Press, 1982; Clendinnen, I.
Ambivalent conquests: Maya and Spaniard in Yucatan, 1517-1570. Cambridge:
Cambridge University Press, 1987; e Dening, Greg. Islands and
beaches. Discourses on a silent land. 1774-1880. Melbourne: Melbourne
University Press, 1980.
[75] Vide, nesse sentido, Pompa, C. Religião como tradução. São Paulo: Edusc/
Anpocs, 2003; e Ginzburg, C. "Introdução", in O queijo e os
vermes. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
[76] Vide, nesse sentido, entre outros, Pompa, C., op. cit.; Sider, G.
"Identity as history: ethnohistory, ethnogenesis and ethnocide in the
Southeastern United States", Identities, vol. 1, n. 1, 1994, pp. 109-22; e Stern, Steven. "Paradigms of conquest: history,
historiography and politics", Journal of Latin American Studies, vol. 24, 1992,
pp. 1-34.
[77] Vide, na produção historiográfica, Gruzinski, S. La colonisation de
l'imaginaire. Paris: Gallimard, 1988; idem. La pensée métisse.
Paris: Fayard, 1999; Vainfas, R. A heresia dos índios.
Catolicismo e rebeldia no Brasil colonial. São Paulo: Companhia das Letras,
1995; e Puntoni, P. A guerra dos bárbaros. Povos indígenas e
colonização do sertão. Nordeste do Brasil, 1650-1720. São Paulo: Hucitec/Edusp,
2002. Para o uso do conceito de negociação, destaco os
trabalhos de Reis, J. J. Escravidão e invenção da liberdade: estudos sobre o
negro no Brasil. São Paulo/Rio de Janeiro: Brasiliense/CNPq, 1988); e de Silva, Eduardo. Negociação e conflito: a resistência negra no
Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
[78] Oliveira, J. P. de. Ensaios em antropologia histórica. Rio de Janeiro:
Editora da UFRJ, 1999; Lima, A. C. "A identificação como
categoria histórica", in Oliveira, J. P. (org.). Os poderes e as terras dos
índios. Comunicações 14, Rio de Janeiro: ppgas/Museu Nacional/UFRJ, 1989; Monteiro, John. Tupis, Tapuias e historiadores. Estudos de
história indígena e do indigenismo. Campinas: Tese de livre-docência, Unicamp,
2001; Wright, Robin (org.). Transformando os deuses. Os
múltiplos sentidos da conversão entre os índios do Brasil. Campinas: Unicamp,
1999.
[79] Cunha, M. C. da (org.), op. cit.; Cunha, M. C. da & Castro, Eduardo
Viveiros de. "Vingança e temporalidade: os Tupinambás", Anuário Antropológico,
vol. 85, 1986, pp. 57-78; Albert, B. & Ramos, A. (orgs.).
Pacificando o branco. Cosmologias do contato no Norte Amazônico. São Paulo:
Unesp, 2002; Franchetto, B. & Heckenberger, M. (orgs.). Os
povos do Alto Xingu. História e cultura. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2001; Amoroso, M. "Conquista do paladar: os Kaingang e os Guarani
para além das cidadelas cristãs", Anuário Antropológico. Brasília: UnB, 2004; Perrone-Moisés, B. "Aldeados, aliados, inimigos e escravos:
lugares dos índios na legislação portuguesa para o Brasil", Actas do Congresso
Internacional Portugal-Brasil: Memórias e Imaginários, v.1., Lisboa: GTMECDP,
2000. pp.147-64; Gallois, D. Mairi revisitada: a reintegração
da fortaleza de Macapá na tradição oral dos Waiãpi. São Paulo: Núcleo de
História Indígena e do Indigenismo (NHII-USP)/FAPESP, 1994; idem. Sociedades indígenas e suas fronteiras na região sudeste das
Guianas, 2004 (mimeo); Comaroff, J. Body and power. Spirit of
resistence: the culture and history of a South African people. Chicago: Chicago
University Press, 1985; idem. Ethnography and the historical
imagination. Boulder: Westview Press, 1992; idem, Comaroff, J.
& Farage, N. As muralhas do sertão: os povos indígenas no rio Branco e a
colonização. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.
[80] Castro, E. V. de. "Etnologia brasileira", in Miceli, S. (org.). O que ler
na ciência social brasileira (1970-1995). 1. Antropologia. São Paulo: Editora
Sumaré, 1999, p. 155.
[81] Ibidem, p. 156. Latour, B. Jamais fomos modernos. São Paulo: Editora 34,
1994.
[82] Merleau-Ponty, M. "De Mauss a Claude Lévi-Strauss", in Merleau-Ponty. São
Paulo: Abril Cultural, 1984 (col. Os pensadores), pp. 199-200.
[83] Lévi-Strauss, C. Mito e significado. Lisboa: Edições 70, 1979, pp. 63-4.
[84] Bloch, M. Os reis taumaturgos[1924]. São Paulo: Companhia das Letras,
1993.
[85] Braudel, F. O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Filipe II
[1949]. Lisboa: Publicações D. Quixote, 1995, p. 15; idem.
"História e ciências sociais. A longa duração", in Escritos sobre a história.
São Paulo: Perspectiva, 1978.
[86] Darnton, R. O grande massacre de gatos. Rio de Janeiro: Graal, 1986. Carl Schorske, uma grande influência na obra de Darnton, em
Viena fin-de-siècle (São Paulo: Companhia das Letras, 1988, p. 17), revela como
no trabalho do historiador se cruzam "duas linhas. Uma vertical ou diacrônica,
com a qual ele estabelece a relação de um texto ou um sistema de pensamento com
expressões anteriores no mesmo ramo de atividade cultural. A outra é
horizontal, ou sincrônica; com ela o historiador avalia a relação do conteúdo
do objeto intelectual com as outras coisas que vêm surgindo, simultaneamente,
em outros ramos da cultura".
[87] Ginzburg, C. História noturna. Decifrando o sabá. São Paulo: Companhia das
Letras, 1991. Lembro do exemplo dado por J. S. Martins, no
texto "A ferrovia e a modernidade em São Paulo", Revista USP, n. 63, set.-nov.
2004, p. 10, que, citando R. Kipling na viagem que fez pela
São Paulo Railway, destacava como a economia de tempo dos novos trens,
contrastava com a demorada dedicação dos passageiros às despedidas; "indício de
cultura aristocrática de quem tem tempo para os rituais da sociabilidade".
[88] Não há espaço para recuperar todos os trabalhos que enfrentaram, na
historiografia, a temporalidade. Cito só alguns, que, na escola francesa,
realizaram esse debate mais diretamente: Le Goff, J. La naissance du
purgatoire. Paris: Gallimard, 1981 e L'imaginaire medieval.
Paris: Gallimard, 1985; Duby, G. Le temps des cathèdrales.
Paris: Gallimard, 1976 e Les trois ordres ou l'imaginaire
feodale. Paris: Gallimard, 1978; Dumézil, G. Heurs et malheurs
du guerrier. Paris: Flammarion, 1985, e Le Roy Ladurie, E.
Montaillou. Povoado occitânico de 1294-1324. São Paulo: Companhia das Letras,
1997. Sugiro também a leitura do livro organizado por
Pallares-Burke, M. L. G. As muitas faces da história. São Paulo: Unesp, 2000, que reúne entrevistas com nove historiadores europeus e norte-
americanos. Nelas o debate entre antropologia e história é retomado em vários
momentos.
[89] "Entrevista com o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro", Sexta Feira:
Antropologia, Artes e Humanidades, Corpo, n. 4, 1999, p. 117. Para um exemplo desse tipo de postura, que dialoga com "conceitos
centrais", cito o trabalho de Green Debert, G. A reinvenção da velhice. São
Paulo: EDUSP, 1999, em que a autora demonstra como, mesmo nas
sociedades ocidentais, a idade cronológica é estabelecida por um aparato
cultural independente e neutro em relação à estrutura biológica.
[90] Relaciono, nesse sentido, entre tantas outras, as obras de Fry, P.
"Febrônio Índio do Brasil", in Caminhos cruzados. São Paulo: Brasiliense, 1982; Green Debert, G. Ideologia e populismo. São Paulo: T. A.
Queiroz, 1979; Cunha, M. C. da. Negros estrangeiros. São
Paulo: Brasiliense, 1979; Borges Pereira, J. B. Italianos no
mundo rural paulista. 2ª ed. São Paulo: Edusp, 2002; Mott, L.
Rosa Egipcíaca. Uma santa africana no Brasil. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,
1993; Lima, A. C. Aos fetichistas ordem e progresso. Rio de
Janeiro: Dissertação de mestrado, Museu Nacional, 1989; Corrêa, M. As ilusões da liberdade. Bragança Paulista: EDUSF, 1998; Chor Maio, M. "Raça, doença e saúde pública no Brasil: um
debate sobre o pensamento higienista do século xix". Rio de Janeiro, 2004
(mimeo); Montero P. (coord.), Entre o mito e a história. O V
Centenário do Descobrimento da América. Rio de Janeiro: Vozes, 1996; e Ribeiro Thomaz, O. Ecos do Atlântico Sul. Rio de Janeiro/São Paulo:
Editora da UFRJ/FAPESP, 2002.
[91] Gilberto Freyre, Casa-grande e senzala. 4ª. ed. Rio de Janeiro: José
Olympio, 1951. Refiro-me a Freyre a despeito de reconhecer
que, apesar do recurso à história, o antropólogo procurava mesmo pela
sincronia. Vide também, nessa tradição que retomava sempre as origens, o
clássico de Bastide, R. As religiões africanas no Brasil [1960]. São Paulo:
Pioneira, 1971.
[92] Estou me referindo ao livro O espetáculo das raças. São Paulo: Companhia
das Letras, 1993. Esse estudo é, de certa maneira, produto da
reflexão realizada no Idesp, a qual resultou na coletânea organizada por
Miceli, S. História das ciências sociais no Brasil. São Paulo: Vértice/Idesp,
1989.
[93] A referência, nesse caso, é ao livro As barbas do Imperador. São Paulo:
Companhia das Letras, 1998.
[94] "Entrevista com o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro", ed. cit., p.
118.
[95] Ginzburg, C. Mitos, emblemas e sinais. São Paulo: Companhia das Letras,
1989, p. 92.
[96] Latour, B. op. cit., pp. 68-9.
[97] Geertz, C. "Como pensamos hoje: a caminho de uma etnografia do pensamento
moderno", in O saber local. Petrópolis: Vozes, 2003.
[98] Thomas, K. "Introduction", in Bremmer, Jan & Roodenburg, H. (eds.) A
cultural history of gesture, Cambridge: Polity Press, 1991, p. 10.
[99] Mann, T. A montanha mágica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980, p. 9.
[100] Vale a pena destacar que o escritor alemão Thomas Mann (1875-1955)
dedicou sua obra a retratar o colapso da sociedade européia após a Primeira
Guerra Mundial. Projeta-se com a saga familiar Os Buddenbrook (1901), e já em
Morte em Veneza (1912) explora os temas da decadência e da morte. Mas foi com A
montanha mágica(1924) que tratou mais diretamente da desestruturação daquilo
que considerava ser a civilização européia. Opositor do nazismo, deixou a
Alemanha em 1933 para se fixar nos Estados Unidos em 1938. Em 1947 voltou
definitivamente à Alemanha.
[101] Mann, T. op. cit., p. 9.
[102] Ibidem, p. 161.
[103] Ibidem, p. 248.
[104] Ibidem, p. 601.
[105] Benjamin, W. "Sobre o conceito de história", in Obras escolhidas. São
Paulo: Brasiliense, 1985.
[106] Dumont, L. O individualismo: uma perspectiva antropológica da ideologia
moderna. Rio de Janeiro: Rocco, 1985, pp. 19-20.
[107] Para essa discussão, vide Peixoto, F. "O diálogo como forma". Caxambu,
XXV Encontro Anual da ANPOCS, 2001, p. 3 (mimeo).
[108] Veyne, P. Como se escreve a história. Brasília: Editora da UnB, 1982.