A HERANÇA GRECO-ÁRABE NA FILOSOFIA DE MAIMÔNIDES: PROFECIA E IMAGINAÇÃO
Introdução
Qualquer um que se debruce sobre a filosofia elaborada na Idade Média não pode
deixar de notar a estreita correlação entre as filosofias oriundas inicialmente
dos ambientes árabe-islâmico e judaico e, mais tarde, do cristão. A intenção de
resolver determinados problemas e as soluções levantadas pelos sábios das três
comunidades põem em relevo o fato de que pertencem ao "Povo do Livro" ("Ahl al-
Kitāb"), como são designadas no Corão. Fundadas na Revelação do Livro - a Torá
para os judeus, o Corão para os muçulmanos e os Evangelhos para os cristãos -,
essas comunidades, conhecidas como "os três anéis", deixaram um legado de
capital valor, cuja influência, direta e indireta, pode ser constatada até em
Descartes, que, a despeito de anunciar o rompimento com a tradição
aristotélico-tomista, não consegue se desvencilhar completamente das teses
recebidas de seus professores jesuítas.
Nesta introdução à questão da profecia em Maimônides, não será abordada a
filosofia gerada em ambiente cristão, embora se faça necessário reconhecer e
apreciar sua magnitude.1 Apresentamos alguns aspectos que foram comuns tanto na
filosofia judaica quanto na árabe-islâmica e, em especial, o que se refere à
faculdade da imaginação no exercício da profecia. Maimônides reluta em
reconhecer sua dívida para com Avicena, o qual é, sem dúvida, fonte de
inspiração para muitas doutrinas maimonideanas. Em sua obra filosófica "Guia
dos Perplexos",2 o Rambam não menciona sequer uma vez o filósofo persa; e, em
carta dirigida a Ibn Tibbon, declara que "os livros de Avicena, ainda que sejam
sutis e difíceis, não são como os de Al-Fārābī", cuja obra é "plena de
sabedoria" (Maimônides,_2003, pp. 43-44).3
Nascida em zonas geográficas de cultura predominantemente islâmica, a filosofia
judaica foi desmerecida por alguns historiadores que afirmavam ser ela mera
cópia da filosofia árabe. Tal opinião, porém, passou a ser desacreditada
sobretudo em virtude dos trabalhos de Salomon Munk, que, em 1859, publicou
"Mélanges de philosophie juive et arabe". Que a filosofia judaica seja mera
cópia da árabe é opinião que não pode mais ser sustentada, assim como a que
afirma que a filosofia árabe é mera reprodução da grega. Ambas as filosofias –
a árabe-islâmica e a judaica – são originais a seu modo. Contudo, certas
coincidências entre elas são explicáveis, uma vez que as duas comunidades são
regidas pelas diretrizes da fé na Revelação divina.
O fator que desencadeou a produção filosófica na Península Ibérica nos séculos
XII-XIII foi o ingresso de Aristóteles no Ocidente, inicialmente em vestes
neoplatônicas com as obras de Al-Fārābī4 (872-950) e de Avicena (Ibn Sīnā)
(980-1037) e, depois, por meio dos comentários ao corpus aristotélico feitos
por Averróis (Ibn Rushd) (1126-1198), filho nativo de Córdova, a mesma cidade
natal do ilustre filósofo judeu Maimônides. Todos eles redigiram suas
principais obras em língua árabe. Algumas chegaram até nós em seu original,
outras somente em versões latinas – como é o caso das obras de Averróis, cujos
originais árabes, em sua maioria, não sobreviveram, restando as traduções para
o latim, além de algumas poucas versões para o hebraico.5 Das obras de Al-
Fārābī e de Avicena que a posteridade recebeu, o Oriente encarregou-se de
conservá-las em seu original árabe; sobreviveram também as traduções para o
latim de algumas obras de Avicena que foram realizadas na Escola de Toledo, no
século XII, e exerceram muita influência no pensamento do Ocidente cristão.
Dois grandes centros de cultura judaica destacaram-se na Espanha islâmica:
Córdova e Lucena. Com a queda de Córdova, em poder dos almôadas, a família de
Maimônides foi obrigada a fugir de sua cidade natal e exilar-se, de início, em
outras cidades da Península e, por fim, a estabelecer-se no Marrocos.
Natural de uma região onde a tradição cultural hebraica estava impregnada da
civilização islâmica, Maimônides demonstra ser um grande conhecedor do Kalām,6
a teologia racionalista dos muçulmanos, como está patente em sua principal
obra, o "Guia dos Perplexos". Sua formação filosófica é derivada dos pensadores
de expressão árabe, pois sabemos que seu mestre foi Avempace (Ibn Bājjah) (m.
1139), filósofo de Saragoça que ficou conhecido por seus comentários às obras
de Aristóteles - os tratados sobre a alma e o intelecto, e também sobre a
ética. Avempace recebeu os ensinamentos das obras de Al-Fārābī, marcados pela
doutrina intelectualista de caráter neoplatônico, difundida pela "Teologia
Pseudo-Aristotélica"7 em ambiente de língua árabe. Sem dúvida alguma, a visão
cosmogônica de Maimônides (Guia II: 12) espelha a doutrina neoplatônica
farabiana das emanações, que também foi adotada por Avicena:
[...] Portanto, é evidente que a ação recíproca dos corpos, em
virtude de suas formas, prepara as várias espécies de matéria
[substância] para receber a ação do que é incorpóreo, isto é, das
formas. Os efeitos produzidos pela ação dos incorpóreos
<inteligências separadas> [quando houver mudança na combinação dos
elementos] não dependem do contato (do agente com o paciente) nem
operam a uma distância determinada, <dado não se tratar de um
corpo>.8 <Essa ação da inteligência separada> é designada
"influência" [ou "emanação"] por analogia a uma fonte cuja água flui
em todas as direções sem nenhum lado específico que receba ou faça
jorrar seu conteúdo, pois rega tudo em volta, o próximo e o distante.
De igual modo, o incorpóreo [inteligência], ao receber a força [de
onde quer que provenha] e distribuir potência aos outros, não está
limitado a um lado ou a uma distância particulares, tampouco ao
tempo. Sua ação é contínua e, sempre que um objeto estiver
suficientemente preparado, recebe o efeito dessa ação ininterrupta,
designada "influência" [ou "emanação"].9 Porque Deus é incorpóreo e,
enquanto causa eficiente, tudo é obra Sua, dizemos que o universo foi
criado pela divina influência e que todas as mudanças emanam d'Ele.
No mesmo sentido, dizemos que Ele é causa da sabedoria que d'Ele
emana e se derrama sobre os profetas. (Maimônides,_1956, p. 170;
1998, p. 266)
A profetologia de Maimônides
Doutrina central no "Guia dos Perplexos",10 a profetologia de Maimônides é
bastante complexa. O filósofo enumera as condições necessárias para que haja
profecia: o profeta deve dispor de intelecção, imaginação e hábitos perfeitos;
além disso, deve possuir a virtude da coragem, a capacidade de adivinhação e a
capacidade de conduzir os homens.11
No estudo aqui proposto, destacamos os dois primeiros requisitos para que
alguém se torne profeta. Intelecção e imaginação perfeitas são qualidades cuja
origem é possível traçar nas teorias do intelecto da falsafa,12 ou melhor, na
herança grega que a filosofia de expressão árabe recebeu.
Leo_Strauss_(1988,_pp._101_et_seq.), em seu clássico estudo sobre a
fundamentação da Lei na filosofia, apesar de não ter a intenção de fornecer uma
exposição completa da doutrina da profecia de Maimônides, guia o leitor pelo
labirinto de ideias que compõem a teoria. Caracteriza a posição de Maimônides
como um "pensamento medieval das Luzes em matéria de religião", no sentido de
ele possuir a "liberdade para filosofar". Contudo, para Maimônides, não se
trata de "difundir a luz, de educar as massas no conhecimento racional, de
esclarecê-las" (Strauss,_1988, p. 103). As verdades reconhecidas pela razão
devem ser mantidas em segredo, seguindo uma tradição filosófica que remonta a
Platão: ocultas ao vulgo, as verdades são acessíveis somente a uma elite de
sábios. Esse caráter "esotérico" das "Luzes medievais", como escreve Strauss,
funda-se no ideal grego da vida contemplativa, na atividade de contemplar
(theorein) – explicitada por Aristóteles no final da "Ética Nicomaqueia" (1177a
7) –, que, para os medievais, pressupõe a Revelação. Na busca de sua perfeição,
o homem deve viver uma vida dedicada à theoría, à contemplação de seu objeto
supremo, a saber, Deus. A Revelação divina é absolutamente necessária ao ser
humano, pois ela lhe concede a Lei que o educa no conhecimento das verdades.
Enquanto Lei concedida por Deus a um profeta, a Revelação orienta aqueles que
são capazes de filosofar, pois ela é o próprio objeto da filosofia. Sua única
finalidade é o chamamento à vida contemplativa e à educação que proporciona ao
homem aptidão para contemplar. Amediação do profeta é o argumento de base para
que a Revelação não seja compreendida como um milagre de Deus, pois, se assim
fosse, não poderia ser apreendida pelas faculdades humanas. Para que seja
inteiramente compreendida pelos homens, a Revelação deve ser um fato natural
inserido na totalidade da natureza criada por Deus. Compreender a Revelação
significa, portanto, compreendê-la a partir do homem, uma vez que o profeta,
apesar de se tratar de alguém que se destaca do conjunto da humanidade, é
sempre um ser humano, possuidor de uma natureza humana. Desse modo, a doutrina
da profecia, no "Guia dos Perplexos", é elaborada a partir da natureza humana à
luz da filosofia racional greco-árabe.
As fontes da profetologia de Maimônides13
Os falāsifa – filósofos muçulmanos helenizantes – já ensinavam que a profecia é
possível graças a certa perfeição da natureza humana (leiase intelecto). Esse
ensinamento está fundamentado na teoria do intelecto apresentada por
Aristóteles em "De Anima" III.5, 430a 10 et seq.
Al-Fārābī, um dos primeiros representantes da falsafa, desenvolveu sua teoria
do intelecto na "Risāla fī al-ʽaql" ("Epístola sobre o Intelecto"), mais tarde
retomada por Avicena na parte dedicada à alma do "Kitāb alShifā'" ("Livro da
Cura"), cuja versão abreviada "Kitāb al-Najāt" ("Livro da Salvação") foi lida
pelos sábios judeus medievais em tradução hebraica somente em meados do século
XIV.14 Foram as obras de Al-Fārābī que os judeus melhor conheceram, pois não só
tiveram acesso à tradução hebraica da mencionada "Epístola" como também à de
seu célebre "Kitāb al-Siyāsa al-Madaniyya" ("Livro da Política", também
conhecido por "Livro dos Princípios e dos Seres")15 e puderam conferir o
pensamento farabiano nos comentários em hebraico dos filósofos judeus que liam
e escreviam em árabe. Embora as obras de Al-Fārābī circulassem mais na
comunidade dos sábios judeus em virtude de suas traduções para o hebraico,
permanece maior a influência de Avicena no pensamento filosófico dos judeus,
que liam e escreviam em árabe. Herbert A. Davidson aponta as razões que
encobrem essa influência: os primeiros filósofos judeus que adotaram as noções
derivadas de Avicena ou a elas se referiram não mencionam o médico-filósofo por
seu nome; além disso, o pensamento aviceniano foi amplamente mediado por
outros, e suas teorias acabaram por se entrelaçar com as de Al-Fārābī.16 Como
exemplo podemos citar os filósofos judeus Judah Halevi (ca. 1085-ca. 1140),
Abraão ibn Daūd (ca. 1110-ca.1180) e o próprio Maimônides (1135-1204), que liam
o árabe e nessa língua escreveram suas obras filosóficas.
Judah Halevi apresenta suas ideias no "Livro do Kuzari",17 na forma de um
diálogo do rei dos Khazares com um filósofo e três teólogos, um cristão, um
muçulmano e um judeu, em que cada um deles expõe seu ponto de vista. O filósofo
judeu apresenta uma cosmologia e uma teoria do intelecto humano, ambas
fundamentadas nas teorias de Al-Fārābī e de Avicena, embora muito do que Halevi
expõe sobre essa temática esteja mais próximo das ideias avicenianas. No
interior de uma cosmologia neoplatônica de emanações, o intelecto do homem
perfeito entra em comunhão com o Intelecto Agente e recebe a ciência
verdadeira, livre de dúvidas. Grande parte das noções é de Al-Fārābī, sobretudo
proveniente da "Risāla fī al-ʽaql" ("Epístola sobre o Intelecto"),18 embora
haja alguns traços distintivos de Avicena, como a noção de que as formas dos
quatro elementos procedem do Intelecto Agente ou "doador de formas" (lat.:
dator formarum; ár.: wāhib al-ṣuwwar), termo que Halevi emprega igualmente para
designar a última inteligência, a que derrama o conhecimento sobre o homem.
No discurso do rabino, quando faz a defesa do judaísmo, Halevi introduz a
profecia como prerrogativa de alguém que possui "visão interior" e acrescenta
que "é possível que essa visão interior seja a verdadeira clarividência. [...]
É possível que essa visão interior seja a faculdade da imaginação submetida ao
controle da razão" (1987, p. 74). Apenas os profetas possuem essa capacidade de
separar a imaginação (visão interior) das coisas sensíveis, pois, quando veem
uma imagem, "eles a descrevem por meio dos atributos materiais tal como a
perceberam", e esses atributos são exatos em relação "às exigências da
inspiração, da imaginação e das sensações, mas são inexatos em relação à
essência que exige a razão" (1987, p. 74-75). Com os exemplos que Halevi
oferece para elucidar a visão profética por meio de coisas materiais, podemos
inferir que ele antecipa a teoria da analogia de Tomás de Aquino. Escreve: "Em
geral, quando a razão considera a essência divina, ela a compara à luz porque
esta constitui o mais nobre dos objetos sensíveis e o mais rarefeito, o que
envolve, mais que todos os outros, as diversas partes do universo" (1987, p.
76). O paralelismo entre Deus e as coisas materiais não deve ofender, porque é
admissível do ponto de vista da razão. "A comparação é a fortiori do ponto de
vista da profecia, cuja visão é mais penetrante do que a visão especulativa"
(1987, p. 76), pois percebe a região celeste com a visão interior.
Halevi descreve o universo e o intelecto humano sem, contudo, nomear nenhum
filósofo. Apesar de criticar as teorias filosóficas, aceita-as ao incorporar
certas noções filosóficas à sua própria argumentação. Ibn Daūd é o primeiro dos
filósofos judeus a tomar abertamente emprestado o Aristóteles árabe. Apresenta
uma estrutura do universo e uma teoria do intelecto humano em nome de
Aristóteles e de filósofos anônimos. Ainda que com certa reserva, aceita as
teorias que expõe. Quanto a Maimônides, como já mencionado, em sua concepção do
universo, as esferas celestes são movidas por almas inspiradas pelas
inteligências (ou anjos). Acima do céu das inteligências que movem as esferas
está a Causa Primeira, que traz a primeira inteligência à existência no
processo de emanação. A Causa Primeira não pode emanar uma esfera; logo, a
tarefa de emanar o mundo da matéria é deixada à primeira inteligência emanada
da Causa Primeira. Mantém-se assim o princípio farabiano e aviceniano ex uno
non provenit nisi unum, do um provém somente o um. A primeira inteligência
emana sua própria esfera celeste, a alma dessa esfera e a segunda inteligência
na série. A processão continua até que a esfera da Lua emana a décima
inteligência, também chamada de Intelecto Agente ou Ativo. Os seres humanos
recebem o fluxo emanatório do Intelecto Agente, que atualiza a potência de seus
intelectos individuais. Na trilha da filosofia árabe, Maimônides considera que
a matéria é emanada do Intelecto Agente na forma dos quatro elementos (isto é,
seus princípios), pois afirma, sem reservas, que "todas" as formas emanam da
última inteligência, o que inclui as formas dos quatro elementos.19 Todo o
fluxo emanatório que desce das esferas se une às potências do mundo sublunar
para preparar a matéria a fim de que esta receba sua forma apropriada. Tal como
na teoria de Avicena da preparação da matéria, para Maimônides, toda vez que a
mistura (mijāz) dos elementos estiver pronta, a matéria recebe a forma
apropriada para aquela mistura. O que produz a forma, porém, é sempre o
Intelecto Agente. Portanto, qualquer forma no mundo sublunar possui uma forma
incorpórea recebida do Intelecto Agente, que é a última inteligência a receber
o fluxo contínuo e ininterrupto da processão das emanações que atravessa todas
as outras inteligências até chegar a ela - o Intelecto Agente que se encarrega
de passar as formas para a matéria do mundo sublunar. Quanto à hierarquia das
formas, a exposição de Maimônides reflete claramente a teoria de Avicena do
dator formarum, ainda que o filósofo judeu cite a "Risāla fī al-ʽaql"
("Epístola sobre o Intelecto"), de Al-Fārābī.20
Intelecção e imaginação proféticas em Maimônides
Maimônides ("Guia", I: 1) apresenta a distinção entre dois termos hebraicos,
ṣelem e to'ar, duas palavras que possuem significados distintos quanto às
formas que podem ser apreendidas por diferentes operações mentais.21 To'ar
designa a "configuração e o aspecto de uma coisa, segundo a opinião vulgar
[...] também designativo de uma produção humana" (Maimônides,_1998, p. 67;
1956, p. 13), ao passo que ṣelem "significa a forma específica, isto é, aquilo
que constitui a essência de uma coisa, por meio da qual a coisa é o que é; a
realidade que determina o ser da coisa".
Na definição de ṣelem, reconhecemos a definição de eîdos de Aristóteles em
"Metafísica" Z. 7, 1032 b 1-2: "Por forma entendo a essência de cada coisa e a
sua substância primeira (eîdos dè légo tò tí ên eînai hekástou kaì tèn próten
ousían)". Em geral, nas obras filosóficas de língua árabe, encontramos ṣūra,
que corresponde à "forma"; quanto à expressão tò tì ên eînai (tem o sentido de
"o que era antes de ter sido"), traduzida para o latim por quod quid erat esse,
resumida pelo vocábulo quidditas do latim tardio, corresponde ao termo árabe
māhiyya. Māhiyya (quididade) exprime o que é comum a todos os indivíduos da
mesma espécie.
A continuação do texto parece confirmar que ṣelem (lat.: quidditas; ár.:
māhiyya), no homem, diz respeito à sua capacidade intelectiva, ao passo que,
nos ídolos, refere-se à ideia que estes representam e pela qual são adorados. O
versículo "façamos o homem à nossa imagem (ṣelem)" (Gênesis 1:26) significa
"façamos o homem com capacidade de apreensão intelectiva", sua especificidade
essencial (ṣelem/māhiyya), e não a figura ou forma física (to'ar/ṣūra).
Maimônides ("Guia", I: 3) declara que o termo hebraico temuná possui sentido
anfíbolo, uma vez que pode ser empregado em três acepções distintas: 1) a forma
(configuração e estrutura) de um objeto percebido pelos sentidos sem a
intervenção do intelecto; 2) a forma de um objeto impresso na imaginação; 3) a
noção verdadeira de alguma coisa apreendida pelo intelecto.
Ao longo de todo o "Guia", Maimônides chama a atenção do leitor para as crenças
intelectuais, as apreensões intelectuais, as apreensões da verdadeira realidade
das coisas e para as essências das coisas, sobretudo para o conhecimento de
Deus. No que concerne à imaginação, Maimônides adverte seu leitor contra a
imaginação, o que fica claro no final da obra, quando, ao mencionar a
recomendação de Davi a Salomão quanto à busca do conhecimento de Deus, o
filósofo afirma que tal exortação se refere à busca das concepções
inteligíveis, e não "às criações da imaginação, pois os pensamentos relativos à
área da imaginação não se denominam de'á (conhecimento), mas ha-'olá 'al
ruḥakém, 'o que vem ao vosso espírito'" (Ezequiel 20:32) (Maimônides, "Guia",
III: 51; 198, p. 536).
Maimônides finaliza o capítulo sobre a natureza do intelecto com a seguinte
observação:
Penso que não podes confundir a representação intelectual com a
imaginativa, tampouco que haja lugar em tua faculdade da imaginação
para comparar essa matéria com as coisas sensíveis, dado que este
tratado foi composto para os que filosofam e conhecem o que foi
exposto a respeito da alma e de todas as suas faculdades.
(Maimônides,_1998, p. 183)
O Rambam também adverte o leitor contra "os apetites da imaginação"
(Maimônides,_1998, p. 69) que levaram Adão a ser expulso do Éden.
Já na Introdução, Maimônides esclarece seu leitor sobre o propósito do tratado,
isto é, explicar a Torá, em seu autêntico sentido, para os desorientados,
perplexos e confusos que, ao renunciarem à razão, permaneceram agarrados às
suas "fantasias"22 (Maimônides,_1998, p. 55).
O capítulo 61 da primeira parte é dedicado à polêmica contra os mutakallimūn,23
teólogos racionalistas cuja influência sobre os judeus era maior que a de
outras seitas, tal qual o ash'arismo.24 Os mutakallimūn confundiram, segundo
Maimônides, as operações da imaginação com as do intelecto. Embora a profecia
necessite tanto da imaginação quanto das faculdades racionais, Maimônides
critica as opiniões dos legisladores, visionários e adivinhos que se servem
apenas da imaginação para presumir conhecimento.25
Por que a polêmica contra a imaginação?
Em Maimônides, a imaginação ocupa um lugar central na teoria da profecia
elaborada em sua obra mais conhecida, o "Guia dos Perplexos".
Maimônides herdou a antiga concepção grega - reelaborada pelos árabes – da
divisão da alma nas partes nutritiva, apetitiva, sensitiva, imaginativa e
racional.26
No primeiro capítulo do tratado conhecido por "Oito Capítulos", Maimônides
apresenta o que, em sua "opinião", são as cinco "partes da alma", embora inicie
sua argumentação enfatizando que "a alma do homem é uma somente". Seguindo a
filosofia de expressão árabe, as cinco partes da alma são: a nutritiva ou
vegetativa (al-ġaḏiyya); a sensitiva (al-ḥāssa); a imaginativa (almutaḫayīla);
a volitiva ou apetitiva (al-nuzū'iyya); e a intelectual ou racional (al-
nāṭiqa).27 A definição da faculdade imaginativa que o sábio de Córdova expressa
está de acordo com a tradição da filosofia greco-árabe:
A parte imaginativa é a capacidade de conservar a impressão de
objetos percebidos pelos sentidos, depois que desapareceram das
imediações dos sentidos. Algumas impressões são ligadas às outras e
algumas são separadas. Portanto, dos objetos percebidos, essa parte
acrescenta outras não percebidas e que são impossíveis de apreender.
Por exemplo, o homem imagina uma nave de ferro flutuando no ar, ou um
ser humano cuja cabeça está nos céus e os pés na terra, ou um animal
com mil olhos. A parte imaginativa soma muitas dessas possibilidades
e concretiza-as na imaginação. [...] essa faculdade (imaginativa)
combina coisas cuja existência é impossível [...]. (Maimônedes,
1992b, pp. 13-14)28
Ao longo de toda a sua obra, Maimônides insiste em seu projeto de elucidar a
tradição da Torá e explicar como essa tradição integra uma racionalidade
idêntica à racionalidade filosófica.29 Tomadas emprestadas da filosofia, as
proposições especulativas ajudam a decidir entre as múltiplas interpretações
dos eventos narrados na Sagrada Escritura. Contudo, se a filosofia serve para
esclarecer a tradição da Torá, de modo algum pode substituí-la. É sempre na
tradição do judaísmo que permanece o quadro em cujo interior se inscreve a
busca filosófica. A síntese que Maimônides opera entre a Escritura e a
filosofia não é mera redução de uma herança à outra, pois, se a filosofia
permite a interpretação da tradição, será sempre a tradição que orientará e
imporá os limites às hipóteses do filósofo. Na crítica que faz ao Kalām,
Maimônides chega a observar que nada do que afirma discorda dos sábios
andaluzes da comunidade judaica que seguiam os ensinamentos dos filósofos sem
se oporem aos princípios da religião mosaica ("Guia", I: 71).
Os falāsifa ensinavam que a profecia é uma certa perfeição da natureza humana e
que se alguém fosse possuidor dos dons necessários para profetizar não poderia
deixar de seguir sua missão profética. Maimônides segue de perto os árabes,
porém discorda deles em um ponto: os dons requeridos para alguém se tornar
profeta não faziam dele necessariamente profeta, pois Deus pode sempre recusar
o dom da profecia a tal homem, conforme Sua vontade; por isso, a escolha divina
por determinado indivíduo constitui um milagre, embora o dom da profecia em si
não o seja. Aquele que possui os dons necessários não se torna necessariamente
um profeta, mas, para que venha a ser profeta, deve necessariamente possuir
tais dons, isto é, as condições para profetizar: a perfeição da intelecção, dos
hábitos e da imaginação.30 Se a Revelação deve comunicar as verdades essenciais
por meio de uma atividade contemplativa, teorética, é necessário que o profeta
disponha de um conhecimento em ato, ou seja, um conhecimento de acordo com a
perfeição de seu intelecto, que se realiza por meio do conhecimento filosófico.
O profeta deve ser também filósofo e, como filósofo, deve chegar à perfeição
intelectiva. Maimônides segue os falāsifa no que se refere à doutrina
aristotélica da atualização da capacidade intelectiva que, para ele, só se
realiza por meio do Intelecto Agente, última das inteligências separadas, mas
sempre dependendo de Deus. Para o filósofo, basta a capacidade intelectiva.
Para o profeta, contudo, o Intelecto Agente deve exercer influência sobre a
capacidade imaginativa, além de exercê-la sobre a intelectiva. O profeta deve
comunicar às massas a Palavra divina por meio de imagens, o que lhe impõe
possuir a perfeição da imaginação aliada à perfeição intelectiva. Na definição
de Maimônides, a profecia é, portanto, um derramamento da emanação de Deus que
é processado pelo Intelecto Agente sobre a faculdade da intelecção e sobre a da
imaginação ("Guia", II: 36).
Cabe observar que, no "Guia dos Perplexos",31 Maimônides concede um grande
destaque para a faculdade imaginativa no exercício da profecia. Ao discorrer
sobre o papel da imaginação na atividade profética, o Rambam apoia-se na
tradição filosófica greco-árabe da divisão da alma em faculdades cognitivas,
além de se vincular à síntese neoplatônica herdada dos árabes32 no que se
refere ao papel exercido pelo Intelecto Agente - última emanação no sistema das
processões das inteligências separadas - sobre as faculdades intelectiva e
imaginativa do profeta. Conforme já mencionado, na definição de Maimônides, "a
profecia é uma emanação de Deus (seja Ele exaltado!), mediante o Intelecto
Agente sobre a faculdade intelectiva em primeira instância e, em seguida, sobre
a imaginativa" (Maimônides,_1998, pp. 334 et seq.), sendo que tal estado, ainda
que "ao alcance de qualquer homem" (p. 335), representa o mais alto grau de
percepção do ser humano, embora não seja acessível apenas com o aperfeiçoamento
das ações de conduta e com a aquisição do saber especulativo. Não basta, para
Maimônides, portanto, que o Intelecto Agente exerça influência sobre o
intelecto humano, uma vez que o profeta deve falar às massas e o faz por meio
de imagens. O Intelecto Agente, emanação que provém de Deus, deve também
exercer influência sobre a imaginação. Para que a profecia se realize, é
necessária "a máxima perfeição possível da faculdade imaginativa em sua
formação primária" (Maimônides,_1998, p. 335). O profeta, cuja faculdade da
imaginação está em ato, é capaz de conhecer de modo imediato, sem "premissas e
conclusões", tudo o que os outros homens, ainda que tenham seu intelecto
atualizado, não são capazes de conhecer. O profeta é, portanto, superior ao
filósofo, visto que dispõe de condições que este não possui. Como o profeta
dispõe de uma capacidade de conhecimento superior à do filósofo, Maimônides é
impelido a afirmar que o filósofo deve seguir o profeta, já que este possui um
conhecimento que deriva da combinação da intelecção com a imaginação. Fato
curioso, porque, na primeira parte do "Guia dos Perplexos", Maimônides alerta
para a compreensão imaginativa da Escritura, uma vez que ela apreende o
individual, e não o universal, visto que está presa à matéria, logo não é capaz
de apreender as formas. Maimônides chega a afirmar que é preciso se libertar da
influência da imaginação para chegar às verdades supremas, pois a imaginação é
oposta à intelecção.33 Sigamos a argumentação de Maimônides a fim de esclarecer
essa aporia.
O desenvolvimento de qualquer faculdade – nesse caso, a imaginação – depende do
grau de perfeição do órgão responsável. Fazendo uso de seus conhecimentos
médicos, Maimônides associa a constituição física dos órgãos corporais ao
melhor ou ao pior desempenho das faculdades. Na primeira parte do "Guia", o
filósofo-médico afirma que "uma é a condição de todos os órgãos, tanto externos
quanto internos: são instrumentos para as operações da alma. [...] As
'faculdades', sem dúvida alguma, integram-se aos órgãos" (Maimônides,_1998, p.
131). Assim, para ele, a imaginação é função de um órgão físico e opera de
acordo com o funcionamento do órgão que a ela está associado.
Na primeira parte do tratado, Maimônides refere-se às figuras da imaginação
como "criadas" (Maimônides,_1998, p. 132). Na segunda parte, reafirma a
condição da faculdade imaginativa de ser "criada de início em toda a sua
perfeição" (Maimônides,_1998, p. 338) para que o profeta realize seu destino.
Nesse sentido, o profeta já está, desde seu nascimento, destinado a profetizar,
pois o órgão que abriga sua faculdade imaginativa é perfeito em sua
constituição inicial. Assim, no indivíduo destinado a ser Seu mensageiro, Deus
cria o órgão da imaginação sem nenhuma imperfeição.
As operações da faculdade imaginativa consistem em conservar a lembrança das
coisas sensíveis e combiná-las, assim como é de sua natureza reproduzir
imagens. Todavia, é somente com o cessar da atividade dos sentidos que sobrevém
a inspiração divina, "sua mais alta e nobre atividade", na forma de "sonhos
verdadeiros e de profecia", sem que haja uma diferença qualitativa entre ambos,
pois "a ação da potência imaginativa durante o sonho é idêntica à da profecia"
(Maimônides,_1998, p. 335), exceto se a faculdade imaginativa não tiver
alcançado sua perfeição. Maimônides apoia-se na Sagrada Escritura e cita a
Palavra divina: "Se há entre vós um profeta, é em visão que Me revelo a ele, é
em sonho que lhe falo" (Números 12:6),34 explicando que a faculdade
imaginativa, em sua potência máxima, é capaz de "ver" o objeto como se este
existisse exteriormente, ou seja, percebe o objeto pelos sentidos corporais. O
"Guia" fundamenta a dupla caracterização da profecia - conhecimento na visão ou
na palavra transmitida pelo sonho - para estabelecer os diferentes graus de
profecia. Maimônides esclarece que aquilo ao qual a faculdade imaginativa se
dedica em estado de vigília será o objeto de seu sonho, uma vez que, desse
modo, estará preparada para receber a emanação do Intelecto Agente. Desde o
nascimento, o cérebro do profeta é composto de matéria pura, é bem-
proporcionado, tem condições perfeitas, e seu corpo inteiro está isento de
qualquer enfermidade. O indivíduo apto para receber a Revelação adquire
conhecimento e sabedoria desde que sua faculdade intelectiva passe da potência
ao ato. Contra os sábios que afirmam que a profecia é "algo inerente à condição
humana" (Maimônides,_1998, p. 336), Maimônides rebate que o profeta deve estar
"preocupado apenas com o conhecimento de Deus, com a contemplação de suas
obras" e com os assuntos "a respeito dos quais é necessário crer" (Maimônides,
1998, p. 336). Deve, além disso, ter conduta moral adequada, afastando-se dos
prazeres materiais e das ambições de poder para que sua faculdade imaginativa,
desde que atingido o grau supremo de perfeição e estando em plena atividade,
possa receber as verdades divinas e a ciência das opiniões verdadeiras no que
se refere à conduta dos homens. São três, portanto, as condições enumeradas por
Maimônides para que a profecia se realize em determinado indivíduo: "Perfeição
da faculdade intelectiva por meio do estudo, da faculdade imaginativa em sua
formação inicial" e a conduta "ética derivada do afastamento de todos os
prazeres corporais" (Maimônides,_1998, p. 337).
Na teoria maimonideana, a faculdade imaginativa ocupa um lugar privilegiado em
relação às duas outras exigências. No "Guia dos Perplexos", o autor condiciona
o perfeito funcionamento dessa faculdade a um estado mental isento de paixões,
já que, nos momentos de tristeza e de cólera, o profeta é incapaz de
profetizar. Em sua argumentação, Maimônides dá os exemplos de Jacó - incapaz de
profetizar em virtude da dor originada pela perda de seu filho José - e de
Moisés; este, embora o maior de todos os profetas - o único que se viu diante
de Ihwh -, não pôde receber a Revelação porque estava magoado com os crimes de
idolatria cometidos pela geração que fugiu do Egito. Entretanto, há diferenças
nas atividades proféticas: em Moisés, "a imaginativa não intervinha em sua
profecia" (Maimônides,_1998, p. 337), pois o Intelecto Agente se derramava
sobre ele sem a mediação da imaginação, o que é característico de sua ação
profética, pois Moisés recebeu a Lei diretamente de Ihwh e, portanto, sua ação
é diversa da dos demais profetas, que falavam por meio de parábolas. Como
exemplo da ação da tristeza que perturba a profecia, Maimônides afirma que esta
não foi possível durante o cativeiro da Babilônia porque os israelitas,
submetidos à escravidão, encontravam-se em estado de grande abatimento. A
faculdade imaginativa deixa, portanto, de funcionar quando o povo está
submetido à impiedade, à ignorância e à concupiscência de seus senhores,
conforme já havia profetizado Amós (8:12): "Andarão errantes de mar em mar e do
Norte ao Oriente em busca da palavra de Ihwh, mas não a encontrarão!"; e como
está escrito em Lamentações (2:9): "Seu rei e seus príncipes estão entre os
gentios, sem Lei, e seus profetas não recebem a visão de Ihwh". Logo, para que
se realize, a profecia necessita do auxílio da faculdade imaginativa, uma vez
que, sem ela, haverá apenas ciência especulativa, que é própria dos
filósofos.35
No profeta, o Intelecto Agente, depois de se derramar sobre a faculdade
intelectiva, abre-se sobre a faculdade imaginativa ("Guia", II: 36; 37). Esta
tem uma função intermediária entre os sentidos e a intelecção pura. Para o
homem comum, ela retém as impressões sensíveis e, depois de combiná-las, passa
as "imagens" para o intelecto. Na profecia, ocorre o caminho inverso: as
verdades inteligíveis são transmitidas para a imaginação e, em seguida, para os
sentidos; surgem então sonhos e visões, inicialmente produtos dos órgãos
sensíveis. Sob o influxo do intelecto, a imaginação reproduz ou recombina os
dados recebidos do mundo sensível por meio dos sentidos. Para que a atividade
dos sentidos seja neutralizada na recepção de alguma mensagem divina, o profeta
tem visões ou sonhos, à exceção de Moisés, que falou diretamente com Deus. A
imaginação produz um deslocamento da atividade intelectual e cria imagens e
parábolas cujo sentido simbólico o profeta é capaz de decifrar e transmitir
para seu povo. Não basta, pois, apenas a apreensão das verdades reveladas: sem
a importante função da transmissão, a profecia não se realiza, pois a grande
maioria dos profetas tem como missão ensinar e guiar seus conterrâneos.
Como explicar a palavra divina a partir de um ser humano? Maimônides se debruça
sobre o estudo da linguagem profética para explicar os antropomorfismos da
Bíblia e cita o adágio talmúdico: "A Torá fala o idioma dos homens"36 ("Guia",
I: 26). Como o homem comum pode apenas compreender e imaginar o que é expresso
em linguagem humana, a profecia deve levar em conta essa limitação humana e
dirigir-se à opinião comum. Além do mais, a linguagem profética faz uso de
recursos de oratória que devem ser reconhecidos como tais; tanto Isaías quanto
os outros profetas se valiam de metáforas e de hipérboles que não deveriam ser
compreendidas ao pé da letra, pois, nesse caso, a interpretação da mensagem
profética ocasionaria "uma grande confusão de ideias e opiniões errôneas sobre
a Divindade ou mesmo a irreligião e a negação dos princípios da Torá" ("Guia",
II: 29). O discurso figurativo das Escrituras é necessário em virtude dos
segredos e mistérios nelas contidos, cujo verdadeiro sentido apenas aos sábios
é permitido o acesso; segredos e mistérios contidos nas Escrituras devem ser
resguardados das massas para que não haja interpretações errôneas das verdades
reveladas. Há, pois, um discurso exotérico, acessível às massas, e outro
esotérico, reservado a um seleto grupo, tradição que remonta a Platão e a
Aristóteles.37
Como explicar a capacidade profética de Moisés, que não necessita do auxílio da
imaginação? Como explicar que a capacidade profética de Moisés é superior à de
todos os outros profetas que profetizaram fazendo uso da faculdade imaginativa?
Como explicar a superioridade dos outros profetas em relação aos filósofos,
apesar de que aqueles se serviram da atividade da imaginação, e os filósofos
não? Tanto os filósofos quanto Moisés não fazem uso da imaginação, ao passo que
todos os outros profetas sim. Como então explicar a superioridade de Moisés em
relação aos outros profetas, e como explicar a superioridade dos profetas em
relação aos filósofos? Todos os profetas fazem uso da imaginação, ao passo que
Moisés e os filósofos não. Nas duas pontas estão "o maior de todos os profetas"
e "o maior de todos os filósofos"; ambos não fazem uso dessa faculdade que,
todavia, é fundamental para os outros profetas, os quais se encontram entre os
dois extremos.
Para resolver essa aporia, Maimônides exemplifica que "o maior de todos os
filósofos", Aristóteles, conhecia tudo a respeito do mundo sublunar, embora, a
respeito do mundo das inteligências separadas, suas opiniões sejam
incompreensíveis, uma vez que "não concordam com a ordem do universo, não se
sustentam com qualquer razão e tampouco constituem prova convincente" ("Guia",
II: 22).38 Se Aristóteles, o Filósofo por excelência, não conhece o mundo
supralunar, o que dizer dos outros, comuns mortais? Os homens podem conhecer
apenas o mundo no qual vivem, que está sob seus olhos e que lhes é familiar.
Conhecem apenas o mundo inferior que lhes é acessível. O mundo superior não é
acessível ao conhecimento humano, uma vez que os seres humanos estão presos à
matéria.
Os conhecimentos mais elevados são mistérios e se revelam esporadicamente a
apenas alguns eleitos. Alguns destes vivem em uma noite profundamente escura
que, de tempos em tempos, se ilumina como que por relâmpagos. Outros vivem
envolvidos por essa luz, e, para eles, a noite é como o dia. Esse é o caso de
Moisés. Para os outros profetas, os relâmpagos se sucedem a uma grande
distância, e ainda há os que veem a luz do relâmpago apenas uma vez. Quanto aos
filósofos, eles vivem nas trevas, jamais iluminadas por relâmpagos; de tempos
em tempos, no entanto, recebem uma vaga luz semelhante ao reflexo em uma
superfície polida, mas que desaparece em seguida. Enfim, há os que jamais veem
luz alguma; são os que constituem as massas ignorantes (Maimônides,_1998,
Introdução, pp. 56-57).
Os profetas se distinguiam de Moisés, visto que recebiam a luz do relâmpago
apenas de tempos em tempos, isto é, não viviam continuamente na luz. Não
dispunham do conhecimento profético sempre que o quisessem. Retomavam suas
atividades cotidianas quando o poder profético os abandonava. Moisés, porém,
como os anjos, estava sempre preparado para receber a Revelação; profetizava em
todas as ocasiões e "não retornava à sua antiga tenda", ou seja, "abstinha-se
das gratificações corporais" ao permanecer com "a mente intimamente vinculada
ao Onipotente" (Maimônides,_1992a, p. 144).
Conclusão
Destas breves considerações a respeito da profetologia de Maimônides, com
ênfase no papel da imaginação em relação ao fato profético, podemos concluir
que a teoria da profecia está inserida na teoria do conhecimento. Explicar o
fenômeno da profecia com as categorias racionais de um esquema conceitual
cosmológico e noético aponta para o aspecto epistemológico da teoria. Para os
filósofos medievais, era necessário explicar a veracidade da profecia, isto é,
a validade cognitiva de seu conteúdo. Tal como na tradição filosófica árabe-
islâmica, em Maimônides há uma noção clara e definida do que se constitui como
explicação adequada. O aristotelismo era o paradigma de uma ontologia muito bem
definida, cuja demonstração é sempre, a priori, da causa ao efeito. O
conhecimento e seu corolário, a profecia, não podem se desvincular do esquema
neoplatônico das emanações das dez inteligências, uma explicação da ordem
cosmológica. O intelecto humano possui faculdades que, segundo seu maior ou
menor grau de perfeição, recebem, ou não, a Revelação divina. Assim, na ordem
antropológica, a verdade profética inserese em um exame racional fundamentado
nas noções herdadas sobretudo da noética aristotélica. O profeta, desde o
nascimento, possui a capacidade intelectiva para receber a Revelação divina
porque ele é portador de órgãos perfeitos. No que concerne à teoria do
intelecto, as faculdades da intelecção e da imaginação perfeitas constituem os
requisitos necessários para a recepção da mensagem divina, mas esses requisitos
não são suficientes para a realização profética. Acima de tudo, permanecem
sempre a vontade e a escolha divinas, que são as causas supremas da Revelação
profética.
1Ver Wohlman,_1988.
2Em hebraico: Moré Nevukim. O substantivo moré (masc.) aplica-se tanto àquele
que atua como 'guia' espiritual quanto ao mestre intelectual no sentido de
docente, professor, instrutor; o título em árabe é Dalālat al-ḥa'irīn; dalālat
(fem.) significa "guia, direção, orientação", cf. Maeso_(1998,_p._17).
Maimônides escreveu a totalidade de suas obras em árabe, exceção feita à sua
codificação do Talmud, Mishné Torá (Repetição da Lei), o qual foi redigido em
hebraico (cf. Hassoun,_1994, p. 289, nota 3). Ao longo deste artigo, as
citações do "Guia dos Perplexos" seguem a tradução espanhola realizada por
David_Gonzalo_Maeso_(1998), embora seja citada, em algumas passagens, a
tradução inglesa de Friedländer a partir do árabe (Maimônides,_1956).
3Carta enviada a Shmuel ibn Tibbon em 8 tishri (30 de setembro) de 1199 e
reproduzida na tradução italiana de Mauro Zonta.
4No mundo latino, era conhecido por Alfarabius ou Avennasar.
5Cf. Pereira,_2012, pp. 31-42.
6Termo árabe que tem afinidade, quanto ao sentido, com o grego logos e
significa "discurso"; designa o movimento de teologia especulativa que se
formou a partir do século VIII, no Oriente Médio, cujo objetivo era explicar,
por meio de argumentos racionais, os dados da Escritura. Sobre o Kalām, ver
Verza_(2007,_pp._149-175).
7Zimmermann_(1986) estudou a atividade do filósofo árabe Al-Kindī (ca. 800-ca.
870) e de seus discípulos em Bagdá durante os califados de Al-Ma'mūn e de Al-
Muʻtasim, ambos patronos das traduções de obras gregas (seja do original, seja
via o siríaco) para a língua árabe. Quanto às traduções de textos gregos no
estudo que consagrou às origens da "Teologia Pseudo-Aristotélica", o estudioso
demonstrou que essa obra pertencia inicialmente a um grupo de textos de
metafísica que compreendia não apenas textos de Plotino (paráfrases das
"Enéadas" IV a VI), mas ainda de Proclo ("Elementos de Teologia") e de
Alexandre de Afrodísia, coleção que visava completar a "Metafísica", de
Aristóteles, com uma "antologia [...] de teologia clássica" (cf. Zimmermann,
1986, p. 128; cf. D'Ancona_Costa,_1995, p. 167). Outra obra de larga circulação
entre os árabes foi o "Liber de Causis", cuja doutrina é derivada dos
"Elementos de Teologia", de Proclo, também atribuída a Al-Kindī e seu círculo.
O compêndio das duas fontes neoplatônicas, a paráfrase árabe das "Enéadas" IV a
VI e os "Elementos de Teologia", de Proclo, formam o que se convencionou
denominar "Plotiniana Arabica" (cf. D'Ancona_Costa,_1995, p. 155 et seq.).
8[...]: interpolação ou glosa minha; <...>: conforme a tradução espanhola com
base no texto hebraico.
9Árabe: fayḍ; hebraico: shefa'.
10Cf. L._Strauss_(1995,_p._101): "Prophetology is a central part of the
doctrine of the "Guide of the Perplexed".
11Cf. Strauss,_1988, p. 101 et seq.
12Corruptela do grego philosophía, a falsafa concerne à filosofia de cunho
grego que se desenvolveu em terras do Islã. Sobre a transmissão da filosofia
grega para a árabe, a literatura é bastante vasta; remetemos o leitor para as
referências citadas em nosso ensaio: Pereira,_2007a; destacam-se nessa temática
os trabalhos de Gutas,_1998; id., 2000; e, certamente, os de Walzer,_1962, que
constituem um referencial clássico.
13Sobre as fontes de Maimônides, permanece um marco de referência o estudo
introdutório de Shlomo_Pines_(1963,_Vol._I,_pp._lvii-cxxxiv) à sua tradução
inglesa do "Guia dos Perplexos".
14Cf. Davidson,_1992, p. 181.
15Steinschneider,_1893 apud Davidson,_1992, p. 180, nota 270.
16Cf. Davidson,_1992, p. 181.
17Foi o tradutor hebraico Judah ben Saul ibn Tibbon (1120-ca. 1190) que deu o
título de "Sefer haKuzari" à obra de Halevi. O título original árabe é: "Kitāb
al-hujjat wa al-dalīl fīnuṣr al-dīn al-ḏalīl" ("Livro da Prova e da
Argumentação em Defesa da Religião Depreciada"). O nome de Kuzari ou Khozari
foi escolhido pelo tradutor hebraico em referência à anedota histórica
escolhida por Judah Halevi para expor suas ideias.
18Cf. Davidson,_1992, p. 183.
19Maimônides ("Guia dos Perplexos", II: 19") rebate a teoria aristotélica da
eternidade do mundo quanto à emanação "necessária" das esferas e se pergunta
sobre a diversidade entre os indivíduos de cada espécie que ocorre na matéria –
que, segundo Aristóteles, é una, comum a tudo. Para Aristóteles, a diferença
ocorre entre os diversos movimentos e posições, e tudo se origina por
necessidade física. Para Maimônides, é o desígnio divino a causa da ordem no
universo, "sendo necessárias todas as coisas conforme o desígnio de quem as
planejou". E acrescenta: "A melhor prova do desenho do universo eu a encontro
nos diferentes movimentos das esferas e na posição fixa das estrelas das
esferas. Por essa razão, verás que todos os profetas apontam em direção às
esferas e às estrelas quando querem provar a existência necessária de um Ser
divino". Para Maimônides, a diversidade é resultado da ação de um agente capaz
de determiná-la, cuja ação sobre o movimento das esferas resulta na preparação
da matéria para receber as formas dos quatro elementos por meio do Intelecto
Agente. O agente não podendo ser outro que Deus, a prova aristotélica da
eternidade do mundo não se sustenta para o filósofo judeu, que, de acordo com a
crença monoteísta, professa a criação ex nihilo.
20Em trabalho anterior (Pereira,_2002), tive a oportunidade de expor com mais
detalhes a teoria farabiana das emanações. Segui o percurso de Madkour_(1934),
o qual demonstrou a filiação de Avicena a Al-Fārābīno que concerne à teoria das
emanações. Avicena batizou de "anjos" as inteligências, mas em nada mudou seu
conteúdo.
21Ver Strauss,_1963, Vol. I, p. xxvi.
22"Fantasias" parece ter o mesmo sentido que o termo grego tà phantásmata,
representações da imaginação, conforme Aristóteles em "De Anima" III. 3-4.
23O termo mutakallimūn (plural de mutakallim) aparece também traduzido por
"teólogos dialéticos" e "escolásticos do Islã". Os teólogos "racionalistas" são
assim chamados porque consideravam a lógica um instrumento capaz de fortalecer
suas doutrinas religiosas nas disputas contra os ataques de pensadores não
ortodoxos.
24Escola teológica fundada por Al-Ashʻarī (873-935). O ashʻarismo foi uma das
doutrinas teológicas mais propagadas durante o período do Islã clássico.
25Cf. Maimônides,_"Guia",_II:_36;_1998, pp. 334 et seq.
26Ver Aristóteles, "De Anima" II- III; Maimônides, "Oito Capítulos" I; Wolfson,
1973, Vol. I, pp. 250-314.
27Para uma exposição desenvolvida sobre as partes da alma em Avicena, ver
Pereira_(2007b,_pp._344-356); sobre a mesma temática em Aristóteles, Al-Fārābī
e Averróis, ver Pereira_(2012,_pp._143-186). Sobre as partes da alma em
Aristóteles, ver "De Anima" II.3, 414a 25-414b; "De Anima" III.10, 433b 4-5
(cf. Pereira,_2012, p. 278, nota 23). Em "Fuṣūl Muntazaʻa" ("Aforismos
Selecionados"), Al-Fārābī começa afirmando que há cinco principais partes
(ajzā') e/ou faculdades (quwà) da alma: a nutritiva (al-ġāḏiyya); a sensitiva
(al-ḥāssa); a imaginativa (al-mutaḫayīla); a apetitiva/desiderativa (al-
nuzūʻiyya); e a racional (al-nāṭiqa). A passagem está calcada em Aristóteles,
"De Anima" III.9, 432a 29-432b 7, cujos termos gregos equivalentes são: tò
threptikón,tò aísthetikón,tò phantastikón, tò orektikón etò logistikón (cf.
Pereira,_2012, p. 149; p. 280, nota 49).
28Segui a tradução (portuguesa) do hebraico "Shemona Perakim, Hakdama
Lemassechet Avot," de Maimônides.
29Os filósofos medievais árabes, judeus e, depois, os latinos, procuraram
sempre conciliar a verdade da fé escritural com a verdade da razão filosófica.
Como declarou Averróis (Ibn Rushd) no "Tratado Decisivo" §18 ("Faṣl al-Maqāl"),
"a verdade não contradiz a verdade". Essa máxima sintetiza a busca de toda a
filosofia medieval.
30Cf. Maimônides, "Guia", II: 32; 36.
31Em seu estudo "The Internal Senses in Latin, Arabic, and Hebrew Philosophic
Texts", Wolfson_(1973,_pp._254-255,_nota_27) expõe as expressões e termos
árabes e hebraicos que Maimônides usa no "Guia dos Perplexos" para os sentidos
externos e internos; transcrevemos aqui a transliteração das expressões
hebraicas: a) heiseigot gufiot (kohot) mifahlot: apreensões corporais
(potências, virtudes) operantes ou atuantes; b) heiseigot murgashot gluiot:
apreensões sensíveis manifestas; c) heiseigot gashmiot vhpealiot: apreensões
concretas (palpáveis) atuantes; d) heiseigot hushiot nirot: apreensões dos
sentidos externos; e) rayon (dimioni): ideia (imaginária); f) mahshavah sihlit:
pensamento racional; g) histaflut (ação reflexiva do verbo lehistakel no
sentido de receber a conclusão do próprio pensamento): cogitação; h) tafta:
intelecto; i) hitbonanut: inteligência ou intelecção. O objetivo de Wolfson, na
parte desse estudo dedicada às concepções dos sentidos internos e externos de
Ibn Gabirol, Ibn Ezra e Maimônides, é demonstrar que as listas desses três
representantes da filosofia medieval hebraica são traduções da classificação de
Galeno. Todavia, é preciso frisar que Maimônides usa o termo "imaginação" em um
sentido mais amplo, que engloba as funções dos sentidos internos de Avicena:
sentido comum, imaginação retentiva, imaginação compositiva humana, imaginação
compositiva animal e estimativa (cf. Wolfson,_1973, p. 291). Com a expressão
"sentidos internos", os filósofos medievais de língua árabe, hebraica e latina
designavam os sentidos captados inicialmente do mundo físico pelos "sentidos
externos", visão, audição, tato, olfato e paladar, e transmitidos para os
"internos". Todos eles seguiram Aristóteles, "De Anima" III; "De Memoria et
Reminiscentia", obras que apresentam a teoria das faculdades da alma do
Estagirita.
32A "Teologia Pseudo-Aristotélica" ou "Teologia Apócrifa" circulou na Idade
Média entre árabes e judeus.
33Cf. "Guia", I: 73; Maimônides,_1998, p. 216 et seq.
34Tradução da "Bíblia de Jerusalém".
35Cf. Maimônides,_1998, p. 338.
36Essa declaração de Maimônides é um princípio universalmente admitido por lei
natural, inquestionável, evidente por si mesmo, aceito na linguagem das
Escrituras e em sua exegese (cf. Maeso_in:_Maimônides,_1998, p. 94, nota 66).
37Ver, a propósito, Averróis,_2005. Nessa obra, Averróis declara que, para a
massa, o texto sagrado deve ser ensinado por meio da retórica; os teólogos
devem restringir-se ao uso da dialética para interpretar o Livro sagrado e
somente aos filósofos cabe a demonstração da veracidade do texto revelado, uma
vez que só eles dominam as ferramentas da lógica.
38"Toda a exposição de Aristóteles referente ao mundo sublunar possui perfeita
coesão; são coisas cuja causa é conhecida, deduzem-se umas das outras, e o
lugar que nelas ocupam a sabedoria e a sagaz captação da natureza é evidente e
manifesto. Com relação ao mundo celeste, o homem nada alcança [...]"
(Maimônides,_"Guia",_II:_24;_1998, p. 302).