Pode o conhecimento dar alguma alegria? Uma interpretação da "Melancolia I ",
de Albrecht Dürer, a partir da "Ética" de Spinoza
Para o meu amigo Marcus Vinícius
I'll change my state with any wretch, /Thou canst from gaol or
dunghill fetch; /My pain's past cure, another hell, /I may not
in this torment dwell! /Now desperate I hate my life, /Lend me a
halter or a knife; /All my griefs to this are jolly, / Naught so
damn'd as melancholy
(Robert Burton, "The anatomy of melancholy")1
I
Quando, no século XVII, o filósofo holandês Baruch de Spinoza (1632-1677)
elaborou um pensamento no qual o conhecimento e a alegria são inseparáveis,
estava lutando contra toda uma tradição que, desde o "Problema XXX, 1",
atribuído a Aristóteles, buscou sempre associar o "homem de gênio" à
"melancolia".2 Desde a Antiguidade, a ideia do gênio melancólico aristotélico
não deixou de fazer escola. Poetas, filósofos, grandes políticos e artistas
serão considerados, inclusive por si mesmos, também melancólicos. No fundo, o
que está sempre no horizonte é uma relação, vista como natural ou intrínseca,
entre conhecimento e melancolia.
Grandes melancólicos são dados à genialidade (artística, filosófica, poética,
literária, política); grands savants são melancólicos. Essa antiga tese terá
também sua importância durante toda a Idade Média, embora em sentido negativo.
Não por acaso, mais do que a crítica ou questionamento que o saber pudesse
trazer à Revelação das Escrituras, os monges medievais temiam antes a accidia
(acédia), essa melancolia medieval que, muito pior do que a aristotélica,
levava o monge a ser "abandonado por Deus", mas por sua própria culpa, já que
ele havia cometido o maior dos pecados, a perda do interesse pela vida, por si
mesmo e pelo próprio divino. Finda a Idade Média, contudo, quando o amor ao
conhecimento e às artes ressurgirá com todas as forças, a antiga relação entre
genialidade e melancolia também será resgatada, novamente em sentido positivo.
E, nesse contexto, Marcílio Ficino será sem dúvida o maior e mais conhecido
expoente do savant mélancolique.
Numa era de grandes filósofos, artistas e cientistas, o Renascimento será, como
afirma Jean Starobinski, a "era de ouro" da melancolia: "Sob a influência de
Marsílio Ficino e dos platônicos de Florença", afirma o autor, "a melancolia-
temperamento aparece como o apanágio quase exclusivo do poeta, do artista, do
grande príncipe, e sobretudo do verdadeiro filósofo" (cf. Starobinski, 2005, p.
571). Este "sobretudo" nos interessa, aqui, porque indica que a melancolia da
época estava mais associada ao conhecimento do que propriamente às artes. Pelo
menos na concepção de Ficino, que se considerava ele mesmo um melancólico, e
afirmava que os melancólicos "mostram às vezes um gênio tão superior que se os
diria menos humanos que divinos".3 Por isso, se Ficino não deixou de oferecer
vários conselhos aos "homens de cultura", não foi com o intuito de curá-los de
sua "doença", pois isso significaria eliminar a "causa" da genialidade, mas sim
para que tirassem dela o melhor proveito possível (cf. Starobinski, 2005, p.
571).4
A melancolia renascentista daria por si só um artigo à parte. O que nos
interessa é apenas o fato de que Ficino influenciará muitos de seus
contemporâneos, e Albrecht Dürer não escapará ao seu raio de influência; sua
"Melancolia I", de 1514, foi certamente elaborada num contexto de forte
presença das ideias de Ficino,5 o qual deixará sua marca também nas gerações
posteriores. No século XVII, por exemplo, Robert Burton citará Ficino mais de
uma vez em sua monumental "A anatomia da melancolia", de 1621.6 Mas se a partir
da medicina do século XVIII tem início a inversão dos sinais que qualificam a
melancolia, tratando-a agora como doença, tal mudança já se iniciara no século
XVII, com a filosofia de Spinoza.
De fato, em sua "Ética", Spinoza não hesita em definir a melancholia como a
mais profunda das tristezas: "[...] a Melancolia", escreve o filósofo, "é a
Tristeza que, enquanto se refere ao Corpo, consiste em que a potência de agir
do Corpo é absolutamente [absolute] diminuída ou coagida [...]" (Spinoza, 2014,
Parte IV, proposição 42, demonstração).7 Como a alegria fora definida como
aumento da potência de agir (seja do corpo, seja da mente), uma absoluta
diminuição ou coibição da potência é também uma tristeza profunda.8 Eis a nossa
questão: se é assim, a melancolia não poderia estar associada à criatividade '
artística, filosófica ou outra qualquer ' uma vez que, no limite, ela levaria à
total incapacidade de agir, de se fazer o que quer que seja, como nos atuais
casos de depressão profunda, e a exemplo da personagem Justine, no
"Melancholia" do diretor Lars von Trier. Mas, neste caso, como explicar a tese
aristotélica, que não deixa de apresentar, a seu favor, muitos exemplos
empíricos, como é o caso do próprio Dürer, de Burton e tantos outros? É nesse
quadro de questões que gostaríamos de interpretar a gravura de Dürer, a
"Melancolia I".
II

Na "Melancolia I" (1514), Dürer mostra-nos uma personagem rodeada de objetos
que simbolizam a busca do conhecimento. Vemos aí, em destaque, uma personagem
alada (um "home-anjo" ou simplesmente um humano que traz consigo atributos
divinos, representados pelas asas em suas costas); ela tem em suas mãos um
compasso, que remete à geometria, tão importante nos séculos XVI e XVII; mas em
seu colo um livro repousa fechado. Estará ela observando uma grande figura
sólida e geométrica, um poliedro? A referência às matemáticas, porém, não param
por aí: também aparece atrás da personagem alada, na figura do "quadrado
mágico", aquele em que os números de 1 a 16 são dispostos de tal modo que a
soma de quatro números na vertical, na horizontal ou na transversal é sempre
34. Um pequeno anjo, que aparece na gravura, talvez seja a antítese da grande
figura alada ou grande anjo: concentrado, ele trabalha sobre seu buril como
quem anota algo em um caderno, e não deixa ver nenhum vestígio de tristeza.
Atrás deste pequeno anjo nós vemos uma balança, antigo símbolo da justiça e do
equilíbrio, assim como uma escada, que ruma ao céu, simbolizando certamente a
ascensão neoplatônica da alma pela via da filosofia (filosofar é tornar-se
divino) ' comentadores da obra consideram essa escada um dos símbolos bíblicos
e a chamam "escada de Jacob". Ao fundo da imagem, o que nós vemos é um cometa,
uma das poucas fontes de luz em toda a cena. Mas não é talvez por acaso que
justamente aí, perto do céu, de onde poderia provir a luz, símbolo antigo do
conhecimento e da razão, que Dürer figurou o título da gravura, com a inscrição
"Melencolia I" sendo segurada por uma espécie de cão-morcego. Aliás, o cão, nas
obras que retratam a melancolia, representa sempre os sentidos (e por extensão
a libido, o desejo e os prazeres do corpo); aqui ele aparece também aos pés da
personagem alada, adormecido, quieto (os sentidos estão portanto adormecidos,
controlados); e, perto dele, encontramos, por fim, certos objetos de
carpintaria, representando as artes manuais, mas com os quais se poderia
construir, talvez, instrumentos úteis ao próprio trabalho de conhecimento...
Há certamente muitos outros elementos pictóricos, nesta obra que é rica em
detalhes (a ampulheta, o sino, a pinça, os pregos, as réguas e serrotes e
outros instrumentos de corte; uma esfera lisa próxima ao cão adormecido etc.).
Mas quase todos eles parecem remeter o expectador ao tema da busca pelo
conhecimento e às artes manuais. Diante de todos esses elementos, no entanto, a
grande personagem alada, à primeira vista, parece dar pouca importância, como
se interrogasse a si mesma sobre a utilidade de tudo aquilo que está à sua
disposição. Na imagem, o que permite uma tal leitura é certamente o rosto da
personagem que, apoiado em sua mão esquerda, não deixa de ser o gesto simbólico
do savant fatigué que se pergunta para quê, afinal, serve tudo aquilo. O motivo
da mão suportando o rosto do melancólico aparece em diversas obras, como, por
exemplo, em "O melancólico" de Jacob De Gheyn (1565-1629), no "São Jerônimo"
(em torno de 1550) de Martino Rota, segundo Michiel Coxie, na "Melancolia" de
Hans Sebald Beham (1539); ou ainda em "O Poeta" (1630), água-forte de Jusepe de
Ribera. Mas por que a tristeza, a melancolia, contida no gesto da personagem
alada, diante das portas abertas pelas possibilidades do conhecimento?
Estaríamos aqui diante de um "sábio anjo" que, como Eclesiastes, após tentar
conhecer tudo o que há sob o sol, considera que "tudo é apenas vanidade", "que
uma grande sabedoria é acompanhada de uma grande indignação", e "que quanto
mais se tem conhecimento, mas se tem dor" ("Eclisiastes", I, 18)? Será este o
tipo de sábio melancólico aqui figurado?
Esta é uma maneira de ver a gravura de Dürer. A própria criação de "Melancolia
I" por Dürer, neste caso, seria sintomática do "homem de cultura" da época
desiludido com o trabalho intelectual. Como escreve G. Minois:
Quando em 1514 Albrecht Dürer realiza a gravura Melancolia I, ele tem
trinta e oito anos e perdeu suas ilusões. Pelos trinta anos ele
acreditava ainda na possibilidade de atingir a beleza absoluta,
universal, graças às matemáticas. Mas pouco a pouco ele desliza para
um sombrio ceticismo, agravado por visões e sonhos [...]. (Cf.
Minois, 2003, p. 141)
De certa maneira, a "Melancolia I" é o próprio Dürer tentando curar sua dor.
Maria Bolaños, analisando o tema da melancolia na arte de vanguarda dos inícios
do século XX, faz uma comparação entre a "Melancolia I" e o "Herói com uma
asa", de Paul Klee, na qual ela afirma que "[...] ambos compartem o fundo da
mesma doença: a do desassossego produzido pelos conhecimentos incompletos, a
fatal impossibilidade de alcançar o absoluto, o desencorajamento ante os
próprios limites" (cf. Bolaños, 1996, p. 13).
Uma maneira de ver. Mas essas interpretações podem ser contrapostas às
interpretações mais cuidadosas de Erwin Panofsky e de Francis A. Yates. Em "The
Life and Art of Albrecht Dürer", Panofsky argumenta que o contato entre Dürer e
o melancólico Ficino não se deu imediatamente por intermédio do "De amore" ou
de outra obra, mas por meio da obra de Cornelius Agrippa, o "De Occulta
Philosophia", publicado apenas em 1531, mas cuja versão manuscrita de 1509 e
1510 já circulava entre os humanistas alemães (cf. Panofsky, 1945, pp. 168-
169). Leitor de Agrippa, que por sua vez teve Ficino como principal referência,
Dürer teria representado em "Melancolia I" apenas a primeira etapa de um
processo de "inspiração Saturniana"9 da alma rumo ao conhecimento de todos os
mistérios do Universo. Essa primeira etapa seria marcada pela "imaginação"
(imaginatio), enquanto na segunda a "razão" (ratio) é que estaria no centro do
processo de ascensão da alma, que só se completaria ao atingir a terceira
etapa, o estágio do "intelecto [mind] 'intuitivo'" (mens). Para
Agrippa, uma mesma inspiração de Saturno, um mesmo furor melancholicus, poderia
proporcionar três tipos de gênios: naqueles em que a imaginação é mais forte, o
furor produziria "maravilhosos artistas ou craftsmen como os pintores e os
arquitetos"; naqueles em que a razão predomina, grandes cientistas; e, por fim,
naqueles dotados de intuição, o furor produziria o que poderíamos chamar de
"grandes místicos", porque capazes de conhecer os mistérios divinos do
Universo. Para Panofsky, "Melancolia I", então, representando a primeira etapa,
figuraria uma personagem que exprime tristeza, decepção e frustração, uma vez
que ela se encontra no campo da imaginação que pode criar e construir muitas
coisas, "mas ela não tem acesso ao mundo metafísico".10
Yates segue essa mesma linha interpretativa, em "The Occult Philosophy in the
Elizabethan Age", mas a partir dela oferece uma interpretação um pouco
diferente. A autora considera que na "Melancolia I" a personagem alada não
representaria o "gênio melancólico" que se encontra frustrado diante dos
impasses do conhecimento ou da sombra do ceticismo, por estar dominado por uma
imaginação que o impede de acessar o plano intuitivo do conhecimento
metafísico. A gravura representaria antes a primeira etapa de uma melancolia
inspirada que conserva três graus de ascensão pelo conhecimento mágico ou
oculto: a imaginação, a razão e o intelecto; e a cada um desses níveis
correspondem, respectivamente, os demônios que inspiram as artes manuais, o
conhecimento das coisas naturais e humanas, e os segredos divinos. O
melancólico inspirado estaria protegido contra tais demônios, porque praticante
de uma "magia branca ascética", da qual, na gravura, os elementos indicativos
seriam as asas, o anjo e a escada que leva ao céu. A gravura de Dürer
representaria a primeira etapa dessa "magia branca", marcada pela imaginação e
pelas artes manuais, donde todos os instrumentos e ferramentas que figuram na
gravura. O título, "Melancolia I", seria indicativo de que estamos nessa
primeira etapa, enquanto o "São Jerônimo em seu gabinete", obra composta
igualmente em 1514, representaria a terceira etapa, marcada pela presença do
intelecto intuitivo que acessa os segredos divinos, e seria portanto uma
espécie de "Melancolia III" (cf. Yates, 2010, p. 69). Assim, a personagem da
"Melancolia I" não representaria "o gênio trágico e infeliz" (donde a mão
apoiando o rosto), mas antes a imaginação inspirada do gênio melancólico dotado
da visão inspirada que se realiza em três níveis (cf. Yates, 2010, pp. 65-70).
Seu gesto melancólico ' a mão que segura o rosto ' não exprimiria propriamente
uma tristeza, mas a atitude de quem se encontra num "transe visionário"
(visionary trance) que, se deixa a personagem inativa, não é por colocá-la num
estado depressivo, mas sim por proporcionar-lhe uma "intensa visão interior"
(intense inner vision), própria desse "primeiro estágio de inspiração" (cf.
Yates, 2010, p. 66).
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No entanto, melancolia inspirada é ainda melancolia. Mesmo que se considere
"Melancolia I" como o primeiro passo de um processo de conhecimento rumo ao
"intelecto intuitivo" iluminado, conhecedor dos mistérios, é preciso admitir
que a tristeza paira sobre o "anjo" como uma sombra, um negrume, e que, assim,
bloqueia a entrada da luz do conhecimento. Daí não só o gesto da personagem
alada, a mão que segura o rosto, e sua inatividade, mas também o próprio título
da obra. Mas, quanto ao título, por que esse "I" após o "Melancolia"? Haveria,
então, o "II" (obra que teria se perdido), e o "III", que seria talvez o
próprio "São Jerônimo em seu estúdio"? É o que pensa Yates. Um título, porém,
às vezes diz mais, no fundo, do que o que enuncia na superfície. Se o primeiro
"estágio da visão inspirada" de Agrippa é o da "imaginação inspirada", e se
Dürer, ao representar esse estágio, dá-lhe o nome de "Melencolia", é porque a
imaginação deve ter algo a ver com a tristeza. Isso explicaria por que o "São
Jerônimo" não recebeu o nome de "Melancolia III": nada, aí, exprime tristeza;
os elementos que simbolizam o conhecimento estão ordenados, bem dispostos, a
cabeça de São Jerônimo está divinamente iluminada; a luz do sol, aliás,
perpassando os vidros das janelas, ilumina quase todo o gabinete; e, sobretudo,
Jerônimo encontra-se num estado de concentração em sua leitura, num estado de
atividade intelectual que não vem acompanhado do clássico gesto melancólico do
"sábio" que segura seu rosto com uma das mãos. Neste aspecto, estaríamos de
acordo com a descrição de Panofsky, que, ao contrapor as duas obras, considera
que Dürer "transformou a célula de S. Jerônimo num lugar de beatitude
encantada" (cf. Panofsky, 1945, p. 155).
Ousaríamos afirmar, a partir desta interpretação de Panofsky, que Dürer
transforma também a própria "filosofia oculta" de Agrippa: Yates está certa, o
"São Jerônimo" representaria o terceiro estágio da "visão inspirada", mas se em
Agrippa os três estágios são momentos de uma mesma "melancolia inspirada", em
Dürer a melancolia desaparece no terceiro momento, restando apenas o
conhecimento, o uso do intelecto, a atividade no lugar da inatividade, a
alegria no lugar da tristeza. E, aqui, não desejamos sugerir nenhuma ligação
com a biografia de Dürer; desconhecemos o quanto essas duas obras estão
conectadas com a vida pessoal do artista. O que nos interessa é antes a
presença do que chamaríamos de "intuição filosófica" que teria ocorrido a
Dürer, provavelmente a partir de suas leituras da obra de Agrippa: a saber,
essa conexão entre imaginatio e tristeza, em "Melancolia I", e alegria (ou
serenidade) e conhecimento, em "São Jerônimo em seu estúdio". Gostaríamos de
explicar essa possível intuição nos termos da "teoria do conhecimento" de
Spinoza, a fim de oferecer nossa interpretação da gravura de Dürer.
III
Em sua "Ética demonstrada à maneira dos geômetras", particularmente na segunda
parte da obra, intitulada "De Natura et Origine Mentis" ("Sobre a natureza e
origem da mente"), Spinoza nos oferece uma filosofia da mente que tem
implicações sobre uma "teoria do conhecimento". Não podemos aqui, por razões de
tempo e espaço, expor tal filosofia em seus pormenores. Destaquemos apenas que
ela está ancorada numa complexa metafísica da imanência, a partir da qual
Spinoza deduz a origem e a essência da mente, considerando-a como expressão
imanente, "certa e determinada", da atividade do intelecto infinito de "Deus",
a Substância absolutamente infinita da qual nosso corpo e nossa mente seriam
expressões modais ("modos") das atividades eternas e infinitas de certos
atributos (no caso, a Extensão e o Pensamento) da Substância única. O que nos
interessa especificamente é que Spinoza também trabalha com a divisão da mente
em três dimensões, a saber, a "Imaginação" (imaginatio), que ele chama de
"primeiro gênero de conhecimento", a "Razão" (ratio), "segundo gênero de
conhecimento" e a "ciência intuitiva" (scientia intuitiva), o mais alto grau do
conhecimento, pela qual o homem é capaz de conhecer a essência singular de seu
corpo como expressão modal imanente da atividade igualmente singular da
Natureza inteira. Contudo, ao contrário das tradições aristotélicas e
platônicas, que influenciaram toda a posteridade até o século XVII, passando
pelos renascentistas, imaginação, razão e ciência intuitiva não são faculdades
separadas da mente, mas três dimensões ou estruturas cognitivas inseparáveis de
uma mesma mente que é ela própria uma atividade pensante inseparável do seu
corpo, porque sua essência é ser ideia do seu corpo existente em ato: "O objeto
da idéia que constitui a Mente humana", escreve Spinoza, "é o Corpo, ou seja,
um modo certo da Extensão, existente em ato, e nada outro" (cf. Spinoza, 2014,
Parte II, proposição 13).11
Essa definição da mente tem várias implicações cognitivas e éticas. No campo
cognitivo, implica que a mente conhece a si, seu corpo e as coisas exteriores
sempre a partir de seu corpo, pois ela é, antes de tudo, uma ideia de seu
corpo, e uma ideia que produz novas ideias. Isso faz com que o ponto de partida
do trabalho da mente seja a imaginação, isto é, uma ideia da imagem produzida
em seu corpo em sua relação consigo mesmo e com exterior. Esta relação, por sua
vez, está envolvida em todo e qualquer esforço (conatus) de perseveração na
existência, o qual, segundo Spinoza, constitui a essência de todos os seres.12
Nesse esforço, a potência de existir (isto é, de ser, agir e pensar, no caso
dos humanos) pode ser aumentada ou diminuída: a dor e a fome, num organismo
complexo, diminuem-na; a sensação prazerosa e o alimento aumentam-na. A esse
aumento e a essa diminuição da potência de existir, Spinoza dá o nome de
alegria e tristeza, respectivamente.13 Por isso o exercício da mente tem
consequência também no campo ético, já que, para Spinoza, desejo (que é a
própria essência humana14), alegria e tristeza estão na base da criação de
valores morais e estéticos.15
Eis por que, para Spinoza, a melancolia é uma tristeza profunda, na qual o
indivíduo está, no limite, completamente incapacitado de agir e pensar. No
escólio da proposição 11 da Parte III da "Ética", Spinoza define a melancholia
como o afeto pelo qual "todas as partes são igualmente [pariter] afetadas" de
tristeza, e nessa medida ela é o afeto oposto ao de hilaritas (hilaridade ou
contentamento), pelo qual todas as partes do corpo são igualmente afetadas de
alegria.16 Todavia, na demonstração da proposição 42 da Parte IV, Spinoza
introduz uma modificação importante no conceito de melancolia. Relembremos a
definição do filósofo:
Já a Melancolia (cuja def. também se vê no mesmo esc. da prop. 11 da
parte III) é a Tristeza que, enquanto se refere ao Corpo, consiste em
que a potência de agir do Corpo é absolutamente diminuída ou coagida
[absolute minuitur vel coercetur].
Essa modificação permite-nos compreender a melancolia como um afeto de tristeza
que, atingindo igualmente todas as partes do corpo, diminui absolutamente sua
potência de agir, e consequentemente a potência de pensar da mente que dele é a
ideia. Tal diminuição, sendo absoluta, faz da melancolia um afeto que pode ser
definido, mas não vivenciado em sua plenitude: pois, no limite, a melancolia é
a própria morte, e na morte já não há afetos, que são variações da potência de
existir. Em "La stratégie du conatus", Laurent Bove não hesita em afirmar que,
na ética de Spinoza, a "Melancolia é de fato o adversário principal", porque,
sob ela, "o conatus pode ser totalmente vencido por neutralização, paralisia,
inversão de suas forças de vida em forças de morte" (cf. Bove, 1996, p. 121). A
melancolia é a dinâmica afetiva que, no limite, leva à morte ' uma dynamique du
suicide, como afirma Bove (1996, p. 120) ' mas que só se realizaria totalmente
na morte. Nesse ponto, contudo, o corpo próprio do indivíduo existente não
comporta qualquer dinâmica afetiva. Em Spinoza, a melancolia totalmente
realizada seria como a morte em Epicuro: é um nada para o indivíduo, pois
enquanto ele vive, ela não está, e quando ela está, ele já não vive.17
Entendida, porém, como "dinâmica suicida" ' isto é, como processo afetivo que
leva tendencialmente à morte ' a melancolia é compreensível tanto
conceitualmente quanto empiricamente (lembremos aqui os casos contemporâneos de
depressão profunda).
Nossa questão é saber por que, em Spinoza, o conhecimento pode ser um antídoto
contra a melancolia, já que, como sugerimos acima, à atividade de conhecimento
está sempre associado um afeto de alegria. É preciso então mostrar a conexão
necessária entre conhecimento e alegria, que Spinoza propõe em sua "Ética". Sem
entrar nos meandros da Parte II, precisamos revisitar, minimamente, as noções
de conhecimento imaginativo, racional e intuitivo, em Spinoza. Mas para isso
temos que recorrer às noções básicas da estrutura metafísica elaboradas no "De
Deo", a Parte I da "Ética".
Spinoza demonstra, no "De Deo", que a Natureza ou Deus é Causa sui, causa de
si, e que ela é uma Substância absolutamente infinita, cuja essência é
constituída de infinitos atributos infinitos.18 Um atributo, em Spinoza, é uma
"essência atuosa" (actuosa essentia).19 Todo atributo é assim produção
necessária. A própria Substância é, portanto, autoprodução necessária de si
mesma e, nessa medida, ela é produção necessária de infinitos modos de
infinitas maneiras, que são expressão certa e determinada de cada um de seus
atributos (cf. Spinoza, 2014, Parte I, proposição 16). Modos são modulações ou,
se quisermos, particularizações de uma mesma Substância. A partir dessa
metafísica, Spinoza pode demonstrar, na Parte II, que a mente é um modo do
atributo Pensamento e que sua essência é ser ideia de um corpo existente em
ato, o qual é modo do atributo Extensão. Como o atributo Pensamento é uma
essência atuosainfinita, ele produz infinitas ideias de tudo o que há, isto é,
de todas as essências, de tudo o que é e existe. Dentre essas coisas, estão as
próprias ideias. Logo, o atributo pensamento é ele mesmo potência reflexiva:
produz não só ideias das coisas como também ideias dessas ideais. A ideia
imediata que o atributo produz da Natureza inteira é o que Spinoza chama de
intelecto infinito, o qual é um modo infinito imediatodo Pensamento.
Uma dentre as ideias das coisas produzidas pelo intelecto infinito da
Substância é a ideia do corpo humano. A essa ideia Spinoza dá o nome de mente.
Não podemos entrar aqui nos detalhes da teoria spinoziana da mente, mas cabe
afirmar que a mente humana é essencialmente a ideia de um corpo existente em
ato. Ela é uma ideia complexa porque é a ideia de um corpo igualmente complexo.
Expressão certa e determinada da atividade do atributo pensamento, a mente é
potência reflexiva: ela não apenas é uma ideia de seu corpo existente em ato,
mas também uma ideia dessa ideia, idea ideae. Ela é portanto reflexividade.
Quando Spinoza fala em autômato espiritual (automa spirituale) (Espinosa, 2001,
§ 85, p. 52), seu leitor compreende o quanto sua teoria da mente escapa a todas
as filosofias da representação e do sujeito pensante: as ideias da mente não
são essencialmente representações, mas ações, e ações de uma atividade
necessária.
O fato de ser potência reflexiva implica que, quando a mente conhece algo, ela
sabe que conhece. Se esse conhecimento favorece seu ser, ela e seu corpo
experimentam essa ideia (sentem-na) como um aumento da potência de existir, ou
seja, como alegria. Tal conhecimento pode ser meramente imaginativo; por
exemplo, a simples lembrança de que há alimentos prontos na geladeira, se estou
com fome: conhecimento imaginativo, pois a memória não nos oferece a certeza
intelectual de que os alimentos estão ainda lá. Não importa: o que importa é
que ele é experimentado como alegria (assim como, inversamente, ao abrir a
geladeira e não encontrar lá os alimentos que eu desejava, experimento esta
ideia como tristeza). Aqui, a produção de ideias na mente é determinada
externamente por nossa relação com os corpos exteriores. Neste campo, as ideias
produzidas são os próprios afetos passivos; e elas são ideias inadequadas,
porque somos apenas a causa parcial delas. Os afetos passivos ' seja de desejo,
alegria, tristeza etc. ' são ideias do que se passa no corpo quando este é
exteriormente determinado a agir (passividade, paixões). O campo da imaginação
envolve exterioridade e passividade, e as ideias aí são confusas e inadequadas.
Ocorre que há um tipo de alegria inerente à produção de ideias verdadeiras e de
conhecimento adequado. Ao produzir suas ideias, a mente pode ser internamente
determinada por sua própria potência. Neste campo, as ideias produzidas são
adequadas. Na definição 3 da Parte II da "Ética", Spinoza afirma que uma ideia
é um "conceito da mente, que a mente forma por ser coisa pensante". Esta ideia
é produzida pela mente enquanto ideia do corpo, e não porque ideia do que se
passa no corpo(esta última é propriamente um afeto do ânimo, expressão psíquica
do que nele se passa: paixão e imaginação, como vimos). O axioma 3 da Parte II
enuncia: "Modos de pensar como amor, desejo, ou quaisquer outros que sejam
designados pelo nome de afeto do ânimo, não se dão caso no mesmo indivíduo não
se dê a ideia da coisa amada, desejada etc. Mas a ideia pode dar-se ainda que
não se dê nenhum outro modo de pensar". Assim, na ordem do intelecto, as ideias
produzidas na mente seguem a ordem própria da mente enquanto coisa pensante.
Spinoza afirma que a ordem das ideias adequadas é tão necessária quanto as
ideias inadequadas e confusas (E III, 36), mas enquanto estas dependem dos
encontros fortuitos dos corpos, as ideias adequadas seguem uma ordem necessária
que é intrínsecaà própria mente. Seguindo uma tal ordem, a mente produz
autonomamente suas ideias, isto é, ela é causa adequada das ideias, cuja
produção depende apenas da mente. O que é uma ideia adequada? É, afirma
Spinoza, precisamente a ideia que, "enquanto considerada em si mesma, sem
relação com o objeto, tem todas as propriedades ou denominações intrínsecas de
uma ideia verdadeira" (E II, def. 4). Ou seja, a ideia verdadeira não é
verdadeira porque corresponde ao objeto fora dela: tal correspondência é apenas
uma denominação ou propriedade extrínseca da ideia verdadeira (como quando
afirmo que há um alimento na geladeira e ele realmente está lá); ela é
verdadeira porque traz em si mesma o signo de sua verdade (quando afirmo que o
movimento de uma semirreta, que tem uma de suas extremidades fixa, produz um
círculo, tal ideia é verdadeira em si mesma, sem que este círculo precise
existir fora da mente).
Precisamente essa produção interna da mente é inseparável de um afeto de
alegria. Como a mente é potência reflexiva, ao ter uma ideia verdadeira e
adequada, ela não pode deixar de saber que a tem; mas cada ideia verdadeira que
a potência de pensar da mente produz é um acréscimo, um aumento de sua própria
capacidade de pensar. E a mente, que é reflexividade, não pode deixar de
experimentar esse acréscimo, esse aumento: ou seja, ela não pode deixar de se
alegrar com esse conhecimento verdadeiro. Mas é preciso ainda dizer que o
esforço da mente em conceber ideias verdadeiras e adequadas não advém do acaso:
trata-se ele mesmo de um esforço do indivíduo que, por diversas causas, foi
determinado a buscar o melhor, o mais útil. "Por bem", escreve Spinoza no
escólio da proposição 36 da Parte IV, "entenderei isso que sabemos certamente
nos ser útil". Se temos uma ideia adequada do que nos é útil, à alegria
envolvida na produção em si da ideia adequada acrescenta-se a utilidade que
decorre, no plano da ação, dessa mesma ideia: o mais útil, aqui, é aumento da
potência de pensar da mente e, simultaneamente, aumento da potência de agir do
corpo. Alegria plena.
Justamente esse tipo de conhecimento, com o sentimento da certeza que ele
envolve, não está contido no conhecimento imaginativo. Por isso, mesmo que na
imaginação esteja envolvida uma alegria (e isso ocorre frequentemente), tal
alegria não pode ser duradoura, como o é a alegria envolvida na ideia
verdadeira e adequada. Pois todo conhecimento adequado, para Spinoza, comporta
a dimensão da eternidade (a certeza de que, em um espaço euclidiano, a soma dos
ângulos internos do triângulo é necessariamente 180º, vale para qualquer época
e qualquer lugar). Eis por que a ciência intuitiva, sendo o maior grau de
conhecimento que a mente pode atingir, é por isso mesmo a maior alegria que
podemos conquistar. Spinoza afirma que, na ciência intuitiva, alcançamos a
Felicidade, Beatitude ou Liberdade, porque somos capazes de compreender que a
essência singular de nosso corpo pertence à essência imanente da Natureza
inteira (Deus ou a Substância), tanto em sua dimensão extensa quanto em sua
dimensão pensante.
IV
Ainda que não tenhamos desenvolvido aqui todos os passos demonstrativos da
teoria da mente e do conhecimento em Spinoza, não é difícil admitirmos, após o
que foi dito acima, que o conhecimento adequado envolve necessariamente
alegria. Mas se é assim, por que a figura alada da "Melancolia I" encontra-se
em estado de inatividade e de certo abatimento? Por que está melancólica, como
sugere o título da obra, quando está cercada de elementos que remetem não só ao
conhecimento, mas ao conhecimento certo, exato, verdadeiro, isto é, o
conhecimento matemático e geométrico?
Segundo Yates, como vimos acima, a gravura representaria um primeiro estágio da
visão inspirada do "De occulta philosophia" de Agrippa, estágio no qual a
imaginação é o elemento central. Mas mesmo em Spinoza a imaginação não é
sinônimo de tristeza. Pelo contrário, é precisamente no campo da imaginação que
operamos quando vivemos nossas paixões alegres; apenas elas não podem ser
alegrias duradouras, porque derivam de nossa relação com objetos perecíveis e
transitórios (como, para citar os maiores exemplos, o dinheiro, o sexo, o
poder, as honrarias e a fama). A imaginação, em si mesma, não é uma impotência,
e Spinoza chega a afirmar que, quando a mente percebe que está imaginando, a
imaginação é neste caso uma potência.20 Bons exemplos disso são os grandes
escritores: Flaubert, Machado de Assis ou Proust, p. ex., narram todo um
universo de paixões em que vivem suas personagens; mas não necessariamente
vivenciam estas mesmas paixões os autores da narrativa: imaginam-nas, mas sabem
que imaginam e, por isso, não são dominados pela própria imaginação.
Exemplos como estes permitem-nos compreender melhor a ideia, lançada acima, de
que imaginação, razão e ciência intuitiva constituem dimensões ou estruturas
cognitivas inseparáveis da mente humana. Esse é um tema difícil, em Spinoza,
que exigiria desdobramentos teóricos que estão muito além do escopo deste
artigo. Mas não podemos deixar de oferecer algumas palavras sobre o assunto,
até porque ele afeta a interpretação que ofereceremos mais adiante sobre o
lugar do conhecimento na "Melancolia I" de Dürer.
O início da trajetória do desenvolvimento psicofísico do indivíduo humano é
marcado pela presença quase total da imaginação: com um corpo já complexo, mas
ainda extremamente dependente do exterior, a criança é movida pela imaginação,
quase nada pela razão, e ainda menos pela ciência intuitiva. Spinoza abre o
conjunto de definições da Parte II da "Ética" ' que, como dissemos, trata da
mente humana ' com uma definição de corpo, e não de mente, cuja definição
sequer se encontra entre as setes definições iniciais do "De mentis". Não sendo
o objeto de um conhecimento a priori, e sim aquilo que deve ser demonstrado, a
definição de mente não está no ponto de partida, mas apresenta-se apenas ao fim
do percurso que culmina na proposição 13, cujo escólio, não por acaso,
desenvolve toda uma "pequena física" dos corpos, resultando, por sua vez, na
definição de indivíduo. Todo esse desenvolvimento dedutivo do "De Mentis", que
vai das definições até o escólio da proposição 13, permite-nos afirmar que a
ideia de um corpo é tanto mais complexa quanto mais complexo é esse corpo. O
corpo infantil da criança está ainda imerso numa passividade, cuja marca é a
quase completa dependência do mundo exterior. O corpo do "sábio", ao contrário,
é desenvolvido ao ponto de ele poder afetar e ser afetado de muitas maneiras
simultaneamente. No primeiro caso, predomina a imaginação; no segundo a razão e
a ciência intuitiva. Mas o adulto conserva uma vantagem que a criança não tem:
nele, as três estruturas cognitivas ' imaginação, razão e intuição ' estão
presentes, e ele será tanto mais "sábio" quanto mais puder fazer uso da razão e
da ciência intuitiva. Na figura do "sábio", não desaparecem a razão e a
imaginação. O "sábio" é aquele que faz delas um uso mais apropriado ao seu
desejo de buscar e gozar de uma verdadeira felicidade e liberdade.
Em resumo, se na criança predomina a imaginação sobre a razão (não havendo
nela, talvez, qualquer vestígio de "ciência intuitiva"), no "sábio" a ciência
intuitiva (ou intuição racional) prepondera sobre a razão e a imaginação.
Corpos diferentes, mentes diferentes. Eis por que se pode afirmar sem
contradição o fato de haver na mente dimensões ou estruturas cognitivas
distintas, copresentes, mas que não se confundem. A presença e o predomínio de
cada uma delas vai depender da estrutura e complexidade do corpo de que a mente
é a ideia. Também por aí se poderia explicar que, nos grandes artistas, a
imaginação não é desvario, como no sonho ou nos loucos, mas antes é auxiliar de
uma razão estética que permite criar obras dotadas de um sentido que pode ser
lido ou visto por outros. É sem dúvida o caso de Dürer. Mas como interpretar a
presença do conhecimento e sua relação com a imaginação, na "Melancolia I"? A
resposta a essa pergunta constituirá a parte final do nosso artigo.
V
Nós sabemos o quanto as artes e o conhecimento foram prezados durante o
Renascimento. Ficino, como vimos acima, considerava que "gênios" melancólicos
poderiam ser escritores e filósofos, não tanto artistas; já Cornelius Agrippa
considerava que artistas, escritores, cientistas ou filósofos poderiam ser
todos inspirados pelo mesmo furor melancholicus, embora o mais sábio seria
aquele que alcança o terceiro estágio do "intelecto intuitivo" e desvenda os
mistérios divinos. Em ambos os casos, portanto, o mais importante é um certo
conhecimento metafísico. No Renascimento, todavia, tudo se passa como se mil
portais estivessem abertos ao conhecimento do homem e do Universo. Nesse
período de grandes recuperações, de grandes resgates dos legados das culturas
greco-romanas, diversas formas de conhecimento pululam, mas não podem deixar de
se misturar com o legado das tradições místicas alquimistas, além do da
tradição judaico-cristã medieval, sobretudo o neoplatonismo e o misticismo
judaico da cabala. O resultado é uma espécie de confusão, de embaraço, em que
as grandes promessas que emergem pela revalorização do conhecimento e da
cultura humanistas se acompanham de ceticismo, desconfiança e até decepções. O
Renascimento, com efeito, é esse momento da história da cultura ocidental em
que o desenvolvimento do conhecimento é promissor, mas também confuso: a
astronomia mistura-se à astrologia, a matemática à numerologia, a filosofia à
teologia, a química à alquimia. Um desenvolvimento e, contudo, o conhecimento
não consegue apontar para uma direção certa e segura, não consegue mostrar sua
própria utilidade, nem cumprir suas promessas, mostrando assim a impotência
daquele que imaginava poder tirar do trabalho de conhecimento mais do que ele
realmente podia proporcionar, já que contaminado pelos anseios da imaginação.
O melancólico de Dürer é uma personagem que representa bem esse momento. As
possibilidades abertas pelas redescobertas humanistas e pela revalorização do
conhecimento laico não deixam de estar acompanhadas, ainda, da imaginação
teológica da tradição judaico-cristã e da imaginação mágico-alquimista. Eis por
que o melancólico de Dürer precisa estar protegido contra seus próprios
demônios por outros seres sobrenaturais (representados pelo anjo, as asas, a
escada de Jacó que ruma ao céu): ele não consegue "proteger-se" pela força de
sua própria inteligência ou genialidade. Significa que, sem as proteções
mágicas, ele poderia desesperar-se do conhecimento e de sua genialidade, caindo
em profundo abatimento (o que não é aqui o caso, e nesse ponto concordamos, de
certa forma, com a interpretação de Yates). Assim, a gravura de Dürer pode ser
vista como representativa daquela confusão de conhecimentos que acabamos de
assinalar, com as artes, a ciência e a filosofia misturadas com o ocultismo, a
magia e a religião. Diante dessa indefinição do próprio campo e alcance do
conhecimento, a personagem alada não deposita no conhecimento, nas artes ou na
filosofia, por si mesmos, a confiança capaz de livrá-la da melancolia. Dessa
maneira, é o lugar do saber que permanece precário. O abatimento (embora não
profundo) e a inatividade (embora não total) da personagem alada estão ligados
ao papel frágil que tal conhecimento representa para o gênio melancólico.
A "Melancolia I", assim, nos oferece a imagem da imaginação diante das
possibilidades infinitas do conhecimento. Tudo se passa como se, sob a
imaginação, a personagem alada não soubesse o que fazer com tantos recursos à
disposição, caindo em certo abatimento, que se exprime em seu gesto, típico dos
melancólicos, e em sua inatividade diante dos recursos à sua frente. Mas a
gravura de Dürer diz mais. Misturando figuras que remetem ao conhecimento e à
razão com figuras que remetem à magia e à imaginação, ela representa, juntos,
num mesmo espaço pictórico, os dois primeiros momentos da "visão inspirada" de
Agrippa, a imaginatio e a ratio, mostrando que mesmo a razão é impotente se,
como diria Spinoza, o intelecto não for reformado, corrigido ou emendado.21
Significa que a razão é impotente, em termos spinozianos, quando não se dirige
corretamente ao "objeto" que importa conhecer antes de tudo: a causa prima
imanente que, causa de todas as coisas, é também causa imanente de nosso corpo-
mente. Mas sobretudo, para Spinoza, a "emenda do intelecto" passa pela
utilização de uma razão que busca o conhecimento verdadeiro sem crenças,
teologias ou superstições (que são formas de imaginação): ela o faz apenas
mediante sua própria potência interna. Sem isso, ela não pode levar àquele
estágio da "ciência intuitiva" que proporciona a suma alegria, isto é, a
beatitude, a felicidade ou a liberdade.
A "intuição artística" (e, de certo modo, "spinoziana") de Dürer estaria,
portanto, em figurar, na "Melancolia I", essa impotência da razão que se vê
ainda sob as garras ou sob a sombra da imaginação. É esta a causa da
melancolia, não o conhecimento em si.22 Mas que a "Melancolia I" represente em
termos pictóricos a ideia de que a razão renascentista encontra-se ainda
estorvada pela imaginação dos conhecimentos herméticos, ficinianos,
cabalísticos etc., deve-se antes a essa "intuição", mais do que a uma ideia
conscientemente elaborada e figurada na tela. Da mesma maneira, não foi, nos
parece, uma ideia consciente que guiou Dürer na elaboração de "São Jerônimo em
seu gabinete". Dürer não é um Spinoza avant la lettre. É um artista, não um
filósofo, e um artista de seu tempo. Adepto dos círculos luteranos de uma
Alemanha renascentista porém protestante, ele é portador de um humanismo que
não poderia ser o mesmo de um Vermeer (1632-1675), por exemplo. Que se compare,
aqui, o "estúdio" de "O geógrafo" (1668) ou de "O astrônomo" (1668), óleos
sobre telas que parecem dispensar quaisquer implicações religiosas na
construção do cenário do estudioso. Não era o caso em "São Jerônimo em seu
estúdio". E, no entanto, acreditamos que aquela "intuição filosófica" que levou
Dürer a associar a mistura entre imaginação e conhecimento à condição
melancólica daquele que tem todas as "asas" para ir ao céu, mas se vê impotente
para tanto, tal "intuição" completa-se justamente na outra obra composta no
mesmo ano de 1514, "São Jerônimo", que representaria não o terceiro estágio da
"visão inspirada" de Agrippa, mas antes a condição do homem de saber marcado
pela presença e o uso do "intelecto intuitivo", condição na qual a melancolia
já não tem lugar, apenas a serenidade proporcionada pelo trabalho da mente no
desvendamento de questões que são de ordem metafísica. Se, como afirmou
Panofsky (1945, p. 156), Dürer costumava presentear seus amigos oferecendo-lhes
uma cópia da "Melancolia I" junto com uma cópia de "São Jerônimo", talvez seja
o caso de lermos as mensagens dessas duas gravuras sob a perspectiva da relação
que uma parece manter com a outra. Na primeira, a imaginação é a sombra que
paira sobre as possibilidades infinitas da experiência intelectual, causando a
melancolia; na segunda, a melancolia desaparece porque, tranquilo em seu
estúdio, o estudioso volta seu intelecto para aquilo que, segundo Spinoza,
importa conhecer antes de qualquer outro "objeto": a estrutura metafísica e
ontológica do Infinito positivo, do Universo. Mas o leitor, aqui, pode ainda
objetar que São Jerônimo foi antes teólogo que filósofo, sendo por isso marcado
pela imaginação das Escrituras, e não pelo exercício livre da potência da
razão. Diremos que, contudo, o "Jerônimo" de Dürer é o Jerônimo que emerge da
visão de um humanista, não de um teólogo; e que, precisamente por isso, em vez
de se abater diante dos insondáveis mistérios revelados pela imaginação dos
profetas ou pelas fantasias dos ocultistas, ele antes se alegra com o próprio
trabalho sereno e paciente de seu intelecto.