A potência da crítica: o problema da aporia em Habermas e seu destino em Adorno
[...] o paradoxo é a paixão do pensamento, e o pensador sem um
paradoxo é como o amante sem paixão, um tipo medíocre. Mas a potência
mais alta de qualquer paixão é sempre querer a sua ruína, e assim
também a mais alta paixão da inteligência consiste em querer o choque
não obstante o choque de uma ou outra maneira tenha de tornar-se a
sua ruína. Assim, o maior paradoxo do pensamento é querer descobrir
algo que ele próprio não possa pensar. (Kierkegaard, 1995, pp. 61-62)
O pensamento frankfurtiano da primeira geração, notadamente Adorno e
Horkheimer, procede com radicalidade no que diz respeito à análise social. Em
"A Dialética do Esclarecimento", tal radicalidade guia a leitura da história
que não está necessariamente ligada ao progresso humano, mas, ao contrário, à
catástrofe, tal qual o "Angelus Novus" de Klee lido por Benjamin (1991). Também
a própria racionalidade ou o pensamento não escapam, pois são postos em tela de
juízo e perdem sua imunidade diante dos efeitos de barbárie. Em uma palavra, já
não haveria como vislumbrar possibilidades emancipatórias historicamente
capazes de superar o presente. Embora a necessidade da crítica e da
negatividade continuasse a existir.
A primeira frase da introdução à "Dialética negativa" diz respeito a esta
problemática: "A filosofia, que um dia pareceu ultrapassada, mantém-se viva
porque se perdeu o instante de sua realização" (Adorno, 2009, p. 7). Ao mesmo
tempo que a realização da filosofia se torna imprescindível, ela se demonstra
impossível. Por meio destas palavras, Adorno parece colocar-se diante da
necessidade de pensar depois do que se imaginava ser o tempo da realização da
filosofia, quer dizer, num mundo onde a técnica e as forças produtivas
avançaram significativamente sem que isso tenha implicado uma modificação
social em direção à sociedade não capitalista. A perspectiva de Adorno, como
defende Nobre (1998, p. 157), "não é a de uma emancipação por vir, mas a de uma
emancipação que não se deu e continua a não se dar".
Durante a segunda metade do século XX, a recepção de tal procedimento analítico
foi balizada pela leitura segundo a qual tais autores seriam demasiadamente
pessimistas ou perigosamente radicais, entre outros demais rótulos cujo
objetivo foi demarcar suas limitações de análise. E foi sobretudo no interior
da própria tradição da teoria crítica que vieram avaliações duras. A exemplo, a
chamada "segunda geração frankfurtiana", em especial Habermas, fez da crítica a
tal procedimento um dos pontos de partida para sua elaboração teórica e
filosófica.
De acordo com Rouanet (1987), o conceito de racionalidade de dupla face, isto
é, instrumental e comunicativa, permite que Habermas resolva as seguintes
aporias da crítica de Adorno: primeira aquela de uma razão que continua
exercendo sua atividade, mesmo depois de ter perdido todo direito à existência
devido ao seu entrelaçamento com a dominação; segunda aquela que, na esteira de
Nietzsche, realiza uma crítica total da razão que compromete seus próprios
fundamentos, pois utiliza as armas da razão para denunciar a razão; e terceira
a que se refere à necessidade de o conceito ultrapassar o próprio conceito,
isto é, afirmar a não identidade por meio de um procedimento cuja lei de
funcionamento é justamente subsumir o não idêntico na unidade do idêntico. Isso
torna possível a Habermas, entre outros ganhos, salvar o fundamento que permite
o exercício crítico: já que é uma forma de racionalidade, a comunicativa, que
permite realizar a crítica.
O objetivo deste artigo não é discutir profundamente a arquitetura desta
crítica habermasiana, mas sim esboçar os contornos gerais dela, focalizando a
questão da aporia ou da situação aporética da crítica de Adorno e Horkheimer em
relação à racionalidade para, em seguida, problematizá-la a partir do
entendimento que estes tinham de tal situação.1 Por isso, trata-se de refletir
acerca de qual é o papel assumido pela aporia na primeira geração
frankfurtiana. Porque, se, por um lado, em Habermas a aporia é índice de
superação do procedimento de crítica radical à racionalidade, por outro, em
Adorno e Horkheimer trata-se não de um destino ao qual a crítica seria
conduzida, mas de um ponto de partida a ser mantido em seu procedimento. Esta
discussão tem sua relevância não apenas para o interior da Escola de Frankfurt,
mas também para as possibilidades analíticas de uma crítica radical da
racionalidade, da modernidade e do capitalismo, isto é, para aquilo que aqui se
chama de potência da crítica.
Convém estabelecer os significados etimológico e filosófico de aporia, à guisa
de introdução ao conceito e suas problemáticas. Segundo o "Grande Dicionário
Houaiss de Língua Portuguesa", há quatro acepções desse termo: a primeira
refere-se à dificuldade ou dúvida racional decorrente da impossibilidade
objetiva na obtenção de uma resposta ou conclusão para determinada indagação
filosófica; a segunda, tomando como base as ideias de Aristóteles, seria um
problema lógico, contradição, paradoxo nascido da existência de raciocínios
igualmente coerentes e plausíveis que alcançam conclusões contrárias; a
terceira significando situação insolúvel, sem saída; e a quarta, referindo-se
às aporias do filósofo pré-socrático Zenão de Eléia, as quais tinham por
objetivo provar que as ideias de multiplicidade e movimento conduzem o
pensamento a impasses e contradições lógicas insuperáveis.
Etimologicamente, aporia é palavra composta do prefixo negativo a- e pelo
substantivo póros (passagem, via de comunicação, caminho, trajeto). Póros
pertence a uma família de palavras como poreúo, que significa fazer passar,
transportar, conduzir a algum lugar, realizar um trajeto; e porízo: abrir
caminho, encontrar passagem, dar passagem a, transmitir. Por extensão,
significam chegar a uma conclusão, deduzir, inferir. Aporia significa:
incapacidade de encontrar caminho ou trajeto; falta de uma via ou um meio de
passagem; impossibilidade de chegar a algum lugar; por extensão,
impossibilidade de deduzir, concluir, inferir. A aporia é uma dificuldade
insolúvel (Chauí, 2002, p. 495).
De acordo com Abbagnano (2012, p. 84), em seu "Dicionário de Filosofia", esse
termo é usado no sentido de dúvida racional, de dificuldade inerente a um
raciocínio, e não do estado subjetivo de incerteza. É, portanto, a dúvida
objetiva, a dificuldade de um raciocínio ou da conclusão a que leva um
raciocínio. Em Japiassu e Marcondes (2006), aporia diz respeito, por um lado, à
dificuldade lógica insuperável num raciocínio, denotando especificamente tudo o
que faz com que um pensamento não possa avançar e, por outro, ao que não tem
solução, como no exemplo dos diálogos
socráticos de Platão que terminam sem uma solução definitiva para a questão
examinada, valorizando mais o exame do problema do que sua solução final. Esta
última definição é sobejamente importante na medida em que
sinaliza para a duplicidade própria da aporia, a qual procuraremos defender:
tanto como limitação lógica e obstáculo ao pensamento quanto exame do problema
que deixa em suspenso a solução.
No "Le vocabulaire de l'ecole de Francfort", o verbete aporia não existe.
Apesar disso, defendemos que este termo é demasiadamente marcante na economia
discursiva da segunda geração frankfurtiana, em especial Habermas e sua
avaliação de como a primeira teoria crítica se enreda em contradições
insolúveis, determinando assim a mudança de paradigma necessária para a
racionalidade comunicativa.
Deste modo, esta noção me é central porque é mediante o entendimento da aporia
como índice de inevitabilidade da mudança de paradigma no interior da tradição
da teoria crítica - ou seja, a leitura habermasiana segundo a qual o pensamento
da primeira geração frankfurtiana, em especial Adorno, enreda-se em
dificuldades insuperáveis e, portanto, necessita de uma correção no que se
refere à crítica da razão - que buscaremos reposicionar a aporia avaliando o
destino que lhe é dado por Adorno.
Resgatar a aporia de outra forma que não se referindo aos obstáculos
inultrapassáveis ou dificuldades insuperáveis permite reafirmar a potência da
crítica, é esta a tarefa deste artigo. Se, como defende Jay (2003a), a teoria
crítica é composta sobretudo por específico campo de forças, talvez a aporia
ocupe nele papel fundamental. Ou seja, a manutenção da condição aporética da
crítica garante efetivamente aquilo a que ela se propõe no que concerne aos
efeitos de análise radical do presente. A aporia, em uma palavra, é a virtudeda
crítica radical e não seu obstáculo ou impedimento.
O problema da aporia em Habermas
Segundo Habermas, o pensamento frankfurtiano da primeira geração se encontraria
diante de dificuldades insolúveis, as quais sinalizariam para sua inevitável
superação. Numa palestra proferida na Sociedade Coreana de Filosofia, em maio
de 1996, Habermas reflete acerca de duas tradições que leem a modernidade de
diferentes maneiras:
Isso dirige a nossa atenção para o conceito clássico de modernidade
tal como ele foi inicialmente determinado por Hegel e desdobrado, com
base na teoria da sociedade, por Marx, Max Weber, pelo primeiro
Lukács e pela primeira Escola de Frankfurt. Essa tradição enredou-se
finalmente de modo aporético na auto-referencialidade de uma crítica
totalizante da razão. Daí por que o projeto de uma certificação
autocrítica da modernidade foi continuado com a ajuda de um outro
conceito da razão - o de uma razão personificada e "situada"
linguisticamente (Habermas, 2001, p. 167).
A partir destas palavras, podemos entender quais são os elementos em jogo: um
diagnóstico da modernidade, a crítica da razão e a necessidade de outro modelo
de racionalidade. Para Habermas, a noção weberiana de racionalização da
sociedade está comprometida com a questão da dialética do Esclarecimento.2
Deste modo, pode-se ver em que medida esse diagnóstico de época conduz a uma
"rua sem saída observando-se as consequências aporéticas
da Teoria Crítica mais antiga que, sob as premissas do marxismo ocidental, deu
continuidade ao programa de pesquisa de Max Weber" (Habermas, 2001, p. 176).
Habermas (2010) retoma nessa pequena conferência, de modo resumido, parte de
seus argumentos de sua obra, "Teoria da ação comunicativa", sobretudo no que se
refere ao primeiro tomo da obra dedicado à racionalidade da ação e da
racionalização social, onde ele busca analisar como, de Lukács a Adorno, as
formulações de Weber se inscrevem para fundamentar a análise da racionalização
como coisificação sob o título de crítica da razão instrumental.
Especificamente o capítulo IV, intitulado "De Lukács a Adorno: racionalização
como reificação", onde se enfatiza a inscrição de Weber na tradição do marxismo
ocidental e a problemática da crítica da razão instrumental.
Voltando à conferência citada anteriormente, Habermas (2001, p. 180) defende
que a "Dialética do Esclarecimento" pode ser compreendida como a "retro-
tradução das teses weberianas na linguagem da filosofia da história hegeliano-
marxista". Entende, também, que o diagnóstico da modernidade oriundo de Max
Weber acaba por desenvolver um "quadro-negro de uma sociedade administrada",
uma vez que se observa, por toda parte, uma conversão de liberdades em
disciplinas, de aparentes progressos em, na verdade, continuação e
complexificação de processos de poder.
O objetivo dessa crítica de Habermas, compartilhada por Honneth (2009), membro
da terceira geração frankfurtiana,3 é mostrar como os traços ambivalentes da
modernidade são apagados e, em seu lugar, é posta a imagem de uma modernidade
totalitária, unidimensional:
A dialética hegeliana do Esclarecimento teve sua ponta quebrada. Pior
ainda, à medida que a racionalidade instrumental incha e torna-se um
todo irracional, a crítica do todo falso enreda-se em uma aporia.
Assim que a crítica da razão instrumental não pode mais ser realizada
em nome da razão, ela - e com ela a crítica da modernidade - perde um
fundamento normativo próprio. Adorno fez da dificuldade aporética - a
qual como que é tornada consciente na execução da crítica auto-
referencial - a virtude da dialética negativa. Ele permaneceu fiel ao
empreendimento de uma crítica declaradamente paradoxal e "sem chão",
à medida que desmentiu exatamente as condições que deveriam ser
preenchidas para que fosse possível a operação da crítica realizada
in actu (Habermas, 2001, pp. 180-181).
Ao entender o processo da modernidade desprovido de qualquer ambivalência,
sendo quase que univocamente moldado por processos de dominação, o próprio
gesto de crítica se encontraria danificado em Adorno. Ou seja, ao radicalizar a
crítica da razão e afirmar seu conluio com a dominação, perder-se-ia o próprio
fundamento que permite realizar tal crítica, pois a Razão encontrar-se-ia em
situação suspeita, ela própria sub judice. Ao radicalizar-se, portanto, a
crítica não teria outro caminho senão dirigir-se a um beco sem saída, sem
conseguir fundamentar, por exemplo, por que e como esta crítica consegue se
desvencilhar, de alguma maneira, da própria dialética do Esclarecimento.
Habermas pontua, mais de uma vez, que Adorno está devidamente cônscio do
enredamento aporético no qual seu pensamento se encontrava. Na conferência de
1996, como vimos, por exemplo, ele afirmou que Adornofez da dificuldade
aporética a virtude da dialética negativa. Porém: como Adorno foi capaz de
transformar algo ao qual sua crítica seria necessariamente conduzida, isto é,
um beco sem saída, em virtude de seu próprio empreendimento?
Habermas afirma, por exemplo, mais de uma década antes de sua conferência, em
seu "Discurso Filosófico da Modernidade", como a crítica empreendida por Adorno
denuncia o Esclarecimento que se tornou totalitário com os meios do
próprio Esclarecimento. Adorno estava perfeitamente consciente dessa
contradição performativa da crítica totalizada. A Dialética Negativa,
de Adorno, pode ser lida como a continuação da explicação de por que
temos que girar em torno dessa contradição performativa, e devemos
persistir nela. [...] Durante os vinte e cinco anos após a conclusão
da Dialética do Esclarecimento, Adorno permaneceu fiel ao impulso
filosófico, sem se furtar à estrutura paradoxal de um pensamento da
crítica totalizada (Habermas, 2000, p. 170).
De acordo com Jay (2003b, p. 63), a contradição performativa não surge quando
se afirmam simultaneamente como verdadeiras duas proposições antitéticas, mas
sim quando qualquer coisa que se declare está em desacordo com os supostos ou
implicações do ato de fala. Em outras palavras, a contradição performativa se
produz quando a dimensão locucionária de um ato de fala está em conflito com
sua força ilocucionária, quando o que se diz perde impacto pela maneira como se
diz. Para Habermas, o uso comunicativo da linguagem esconde uma obrigação
imanente de justificar as pretensões de validade. Quando as declarações que são
feitas em um nível locucionário negam a possibilidade mesma de tal
justificação, incorre-se em uma contradição performativa.
Portanto, este contrassenso emerge quando há contradição entre a pretensão de
validade de verdade (conteúdo ilocucionário) com o conteúdo proposicional
(locucionário). Repa (2008, p. 295) dá o seguinte exemplo ilustrativo:
suponhamos que alguém afirme que não existe nenhuma verdade. Nesta afirmação,
há uma reivindicação àquilo que a própria sentença procura negar: para que não
exista verdade é necessário que a verdade de que não há verdade seja
procedente. Contradizem-se a proposição e os pressupostos pragmáticos do ato de
fala que incorpora a proposição.
A ideia de contradição performativa se apresenta como forma de Habermas
discutir as críticas da razão de Adorno e dos pós-estruturalistas, uma vez que,
se estes argumentam, em linhas gerais, que a razão é dominação, apoiam-se no
pressuposto de que seu argumento, de algum modo, é racional e livre desse jogo.
A solução encontrada por Habermas, para realizar a crítica da modernidade e da
racionalidade instrumental, foi apoiar-se num conceito complexo e amplo de
razão, livrando-se, assim, da contradição performativa. É por meio desta via
linguística que Habermas compreende a aporia em Adorno e toma como necessária
sua superação.
Resta investigar, a partir de então, não tanto por que Adorno preferiu não
ceder à aporia em nome de uma outra racionalidade que ancorasse a sua crítica,
mas como foi possível que ele não cedesse às dificuldades insolúveis de seu
procedimento, embora estivesse plenamente ciente delas. Minha hipótese é a de
que reposicionando ou ressignificando a aporia se torna possível sustentar a
viabilidade das reflexões frankfurtianas no que diz respeito à crítica radical
da racionalidade. De modo que a aporia não seja tanto aquilo ao qual a crítica
é conduzida, isto é, não seja uma consequência do procedimento, mas sim seu
ponto de partida. Se Habermas estiver certo ao defender que Adorno tinha mesmo
consciência da situação aporética de seu pensamento, vale a pena investigar
como é que ele se dirige a esta questão e como a entende.
Em Habermas está em jogo o modo como a primeira geração frankfurtiana, em
especial Adorno, não conseguiria encontrar ponto de escape à própria forma como
entende a racionalidade: questiona-se o modo pelo qual se pode sustentar uma
crítica da razão ao mesmo tempo que se afirma que é a própria razão que está na
raiz da regressão reinante no mundo administrado.
É uma forma de compreender esta situação aporética com base no registro da
superação de seus obstáculos mediante o abandono da crítica radical à
racionalidade e à modernidade. O problema é o de como Adorno e Horkheimer
perderiam de vista a dialética: questiona-se esta perda referida a uma
ambivalência dos processos da modernidade, já que o germe destrutivo se
encontra no seio do projeto emancipatório iluminista. Assim, a dialética do
Esclarecimento acaba por se converter não tanto numa dialética, ou seja, num
embate entre forças, mas num processo onde a barbárie se intensifica a ponto de
converter a razão em mero instrumento de poder e dominação.
Por meio desta forma de compreensão, qual seja, de que a crítica social da
primeira geração frankfurtiana se enredaria em contradições insolúveis com
relação à crítica da razão, buscarei refletir acerca de qual é o papel exercido
pela aporia no interior do pensamento social da primeira geração frankfurtiana,
a partir daquilo que é exposto na "Dialética do Esclarecimento" e da "Dialética
negativa".4
O próprio modo como Adorno entende a aporia (enquanto limite estrutural do
próprio pensar) nos dá pistas para correlacioná-la com o primado do objeto e
com outra modalidade de pensamento, que se sustenta num procedimento bastante
peculiar no qual a aporia ocupa posição fundamental. É então a partir dessas
problemáticas, da relação com o objeto e da posição ocupada pela aporia no
interior do pensamento frankfurtiano, que considero ser possível operar um
reposicionamento ou uma ressignificação da condição aporética da crítica
radical.
Este destino que a aporia assume - rejeição devido à crítica radical da razão -
conduz ao caminho da correção ou da rejeição da crítica engendrada por Adorno e
Horkheimer. Tomar a aporia como centro de nossa reflexão significa focalizar o
ponto a partir do qual um importante interlocutor e herdeiro da primeira
geração frankfurtiana afirma a inatualidade da primeira teoria crítica. Em
outras palavras, tomo por tarefa refletir acerca do que julgo ser o ponto
precípuo desta avaliação. Para Habermas, a aporia constitui-se como contradição
insolúvel da primeira teoria crítica frankfurtiana, o que faria necessário o
abandono ou a mudança radical de paradigma em seu interior. Porém, seria esta a
única forma de lidar com a situação aporética da crítica da primeira geração
frankfurtiana?
Tracei, então, para dar conta desta problemática, três formas de compreender a
aporia: primeiro, enquanto horizonte da crítica radical da razão, tal como
Habermas a compreende, isto é, aporia como produto do pensamento que deve ser
superado; segundo, enquanto limite fundamental do próprio pensar, mais
enfatizada por Adorno na "Dialética negativa"; terceiro, por fim, a aporia
enquanto produtora de efeitos de análise social, ou seja, enquanto força matriz
do exercício do pensar crítico, como aquilo que força o pensamento a pensar, a
partir da "Dialética do Esclarecimento".
O reconhecimento da aporia como condição de possibilidade da crítica radical da
razão
Em determinado momento da "Dialética negativa", Adorno (2009, p. 133) afirma:
"Os conceitos aporéticos da filosofia são as marcas daquilo que não é
resolvido, não apenas pelo pensamento, mas objetivamente". A aporia é
concebida, neste excerto, quase como uma imposição ao pensamento oriunda
daquilo que é objetivo, externo. Salienta-se, deste modo, muito mais o fato de
que há forças para além do pensamento que o condicionam, constrangem-no e
limitam-no. Em resumo, pode-se equivaler aqui o objeto ao mundo externo não
regulado pelo entendimento, caótico portanto.
Sabe-se, pelo menos desde a "Dialética do Esclarecimento", escrita cerca de
vinte anos antes, como a produção de conhecimento racional passa por uma
espécie de projeção cujo objetivo é dominar o objeto. Utilizando um exemplo da
"Dialética do Esclarecimento" para elucidar este problema, enquanto a magia
ainda é portadora de uma "substitutividade específica", perseguindo seus
objetivos por meio da mimese, como no exemplo de rituais nos quais o feiticeiro
torna-se semelhante aos demônios para assustá-los ou suavizá-los, a ciência
moderna acaba com isso: "É a isso que ela dá fim. Nela não há nenhuma
substitutividade específica: se ainda há animais sacrificiais, não há mais
Deus. A substitutividade converte-se na fungibilidade universal" (Adorno;
Horkheimer, 1985, p. 22).
Há, portanto, um distanciamento progressivo em relação ao objeto, na
racionalidade esclarecida. O pensar do Esclarecimento se pauta em estruturas a
priori de um sujeito cognoscente que dá inteligibilidade ao real: "As múltiplas
afinidades entre os entes são recalcadas pela única relação entre o sujeito
doador de sentido e o objeto sem sentido, entre o significado racional e o
portador ocasional do significado" (Adorno; Horkheimer, 1985, p. 22). O que
está em jogo é a primazia do sujeito que projeta sobre o real suas estruturas
que lhe permitem compreendê-lo e dominá-lo para fins de autoconservação. "A
distância do sujeito com relação ao objeto, que é o pressuposto da abstração,
está fundada na distância em relação à coisa, que o senhor conquista através do
dominado" (ibidem, p. 24).
Adorno e Horkheimer provavelmente têm em vista, ao realizar esta última
afirmação, a situação emblemática que envolve Ulisses e o episódio das Sereias,
situado no Canto 12 da "Odisseia"de Homero, na qual o protagonista se distancia
do objeto, isto é, amarra-se ao mastro para não ceder ao feitiço das sereias,
ao mesmo tempo que pode contemplar os belos sons, às custas da completa
alienação dos remadores de seu barco em relação ao que se sucede naquele
momento. Numa artimanha tipicamente freudiana, Adorno e Horkheimer mostram como
o ato do sujeito cognoscente de projetar sobre o mundo suas categorias de
entendimento está pautado num medo de que o objeto possa aniquilá-lo. A
projeção pode transformar-se, assim, em paranoia.
Existe, pois, no Esclarecimento, uma dialética na qual o domínio da natureza
converte-se em domínio dos próprios homens. O Esclarecimento é movido por certo
delírio persecutório cuja ideia básica é a de que o objeto destruirá o sujeito,
e isto o impulsiona a controlar, quantificar, manipular, dominar o real.
Ocorre, assim, a transformação do pensamento em coisa, em instrumento, a
conversão do pensamento em racionalidade instrumental que serve à finalidade de
autoconservação do eu apartado do objeto. O medo é o fundamento da
racionalidade: "o Esclarecimento tem perseguido sempre o objetivo de livrar os
homens do medo e de investi-los na posição de senhores" (Adorno; Horkheimer,
1985, p. 17).
O projeto de livrar os homens do medo, portanto, acaba por se converter numa
estrutura projetiva e paranoica que produz dominação: "a essência do
Esclarecimento é a alternativa que torna inevitável a dominação" (Adorno;
Horkheimer, 1985, p. 38). O objeto é sempre visto como algo a ser controlado,
ainda que tal controle seja pago com o preço caro da submissão do sujeito, como
ocorre na situação emblemática de Ulisses no episódio do Canto das Sereias.
Diante deste processo descrito de maneira catastrófica, Adorno e Horkheimer
dão, pelo menos, duas pistas de um procedimento diferente da racionalidade
instrumental: a primeira delas refere-se ao modo como eles mesmos realizam a
leitura do Esclarecimento, isto é, mediante uma "teoria intransigente", ou
seja, uma teoria que não contemporiza e nem cede ao seu procedimento de
crítica.5 Afirmam, inclusive, que "uma verdadeira práxis revolucionária depende
da intransigência da teoria, em face da inconsciência com que a sociedade deixa
que o pensamento se enrijeça" (Adorno; Horkheimer, 1985, p. 45). A segunda
refere-se ao fato de que "o Esclarecimento pôs de lado a exigência clássica de
pensar o pensamento" (ibidem, p. 33). Trata-se, então, além de sustentar uma
teoria intransigente, de dirigir a reflexão crítica ao próprio pensamento.
Na "Dialética do Esclarecimento", este último gesto significa opor à
racionalidade instrumental a reflexão crítica, isto é, tomar por objeto a
própria racionalidade instrumental, entender sua gênese, as forças que a
compõem, seus modos de efetivação em determinado tecido sócio-histórico etc. O
movimento da crítica é o de pôr o impasse gerador da situação aporética para o
interior do próprio procedimento de análise.
A determinação de pensar o pensamento sofre uma modificação substancial na
"Dialética negativa", pois trata-se, a partir de então, de pensar contra o
pensamento:
Se a dialética negativa reclama a autorreflexão do pensamento, então
isso implica manifestamente que o pensamento também precisa, para ser
verdadeiro, hoje em todo caso, pensar contra si mesmo. Se ele não se
mede pelo que há de mais exterior e que escapa ao conceito, então ele
é de antemão marcado pela música de acompanhamento com a qual os SS
adoravam encobrir os gritos de suas vítimas (Adorno, 2009, p. 302).
A intransigência da teoria e a atitude de pensar o pensamento são boas
ferramentas, mas não bastam. É preciso que o pensamento tenha uma outra relação
com o objeto. A filosofia comporta um "esforço de ir do conceito para além do
conceito" (Adorno, 2009, p. 22). A aporia, como sublinhei anteriormente, é a
marca do que está irresoluto não só no pensamento, mas objetivamente.
A partir daqui, convém dar mais um passo na direção do reconhecimento da aporia
não enquanto obstáculo insolúvel ou horizonte inultrapassável: é o objeto que
põe uma tarefa ao pensamento, e isto é feito por tal reconhecimento de sua
inevitabilidade. Contudo, este objeto não é apenas o lado de fora de todo
pensamento, mas aquilo que está historicamente determinado.
O fundamento histórico da aporia é o fato de na Alemanha, a revolução
contra os fascistas ter fracassado ou, muito mais, o fato de não ter
havido em 1944 nenhum movimento revolucionário de massas (Adorno,
2009, p. 239).6
Conectando esta frase com aquela outra sobre a irresolutividade objetiva,
podemos afirmar que a aporia praticamente força o pensamento a pôr questões que
talvez ele não seja capaz de responder dentro de seu sistema lógico: "a
filosofia quer mergulhar muito mais literalmente no que lhe é heterogêneo, sem
o reduzir a categorias pré-fabricadas" (Adorno, 2009, p. 19).
É possível compreender a aporia, para além do limite estrutural do pensar, como
aquilo a partir do qual a crítica impõe suas próprias exigências de reflexão e,
assim, constitui o núcleo potente de produção de efeitos de análise social no
procedimento crítico. Neste sentido, ela pode ser compreendida como a condição
de possibilidade da crítica frankfurtiana. Tomemos como exemplo a aporia com a
qual a "Dialética do Esclarecimento" se vê emaranhada, para lê-la de acordo com
o que propus.
Em primeiro lugar, demonstro como a crítica exposta na "Dialética do
Esclarecimento" é forçada a existir por uma contradição concreta e histórica: a
humanidade, em vez de entrar num estado verdadeiramente humano, ou seja, de uma
autonomia consolidada pelo uso da razão capaz de produzir uma sociedade melhor,
no sentido de mais justa, igualitária e fraterna, afundou-se em uma nova
espécie de barbárie. Aqui, a aporia é compreendida na ordem histórica e
objetiva: há uma situação aporética, ou seja, uma desordem lógica ou mesmo uma
antinomia entre projeto emancipatório do Esclarecimento e a situação de
barbárie ocasionada especificamente (mas não somente) pelo fascismo alemão.
A exigência de pensar o pensamento faz com que a situação aporética seja
considerada no procedimento crítico enquanto objeto a partir do qual o
pensamento tentará buscar compreensão: "A aporia com que defrontamos em nosso
trabalho revela-se como primeiro objeto a investigar: a autodestruição do
Esclarecimento" (Adorno; Horkheimer, 1985, p. 38). Este objeto se tornaalvo de
investigação para o pensamento. Ele é uma exigência do objeto, no sentido de
ser um acontecimento histórico que provoca o pensamento a pensar: como um
projeto de autonomia desembocou num mundo heterônomo?
Se há uma exigência externa ao pensamento, o próprio procedimento utilizado é
fronteiriço no que se refere ao que é conceitualmente o Esclarecimento e a
formas de dominação presentes na sociedade:
Acreditamos ter reconhecido com a mesma clareza que o próprio
conceito desse pensamento, tanto quanto as formas históricas
concretas, as instituições da sociedade com as quais está
entrelaçado, contém o germe para a regressão que hoje tem lugar por
toda parte. Se o Esclarecimento não acolhe dentro de si a reflexão
sobre esse elemento regressivo, ele está selando seu próprio destino
(Adorno; Horkheimer, 1985, p. 13).
Não se trata somente de pensar o modo como o conceito de Esclarecimento contém
germes de regressão, mas também a figura que este assume na realidade efetiva.
Os conceitos devem, portanto, "ser compreendidos não apenas como histórico-
culturais, mas como reais" (Adorno; Horkheimer, 1985, p. 13). Ou seja, trata-se
de investigar como a racionalidade se entrelaça com as instituições sociais. Em
outras palavras, o que está em questão são as formas concretas nas quais a
racionalidade entra em funcionamento. Não é por acaso que o primeiro estudo, "O
conceito de Esclarecimento", "fundamento teórico dos seguintes, procura tornar
mais inteligível o entrelaçamento da racionalidade e da realidade social"
(Adorno; Horkheimer, 1985, p. 15).
Deste modo, esquematicamente posso dizer que, concebida desta maneira, a
situação aporética força o pensamento a pensar por meio da eleição de um objeto
em si contraditório e contra a lógica: a autodestruição do Esclarecimento. Este
objeto, por sua vez, obriga a produção de um procedimento de reflexão que
afirma a prioridade não do conceito, mas de sua conexão com uma realidade
historicamente determinada; trata-se de uma racionalidade que não é abstrata,
mas efetiva, que se entrelaça em instituições sociais: uma razão impura
(McCarthy, 1994). O procedimento, por fim, contribui para a produção de um
diagnóstico do presente, que permite a leitura de uma conjuntura histórica e
politicamente determinada.
A aporia ocupa, assim, papel fundamental no processo de montagem da crítica
radical da razão da primeira geração frankfurtiana. Esta montagem passa não
pelo jugo da lógica racional, mas pelo crivo de um problema historicamente
preciso. A razão surge como objeto da crítica por uma exigência externa ao
pensamento. Ela é colocada em suspenso, sub judice, porque ela própria,
mediante o Esclarecimento, ensejou uma situação aporética histórica devido aos
modos de dominação que acabaram por convertê-la em seu contrário.
Por exemplo, se a cultura poderia ser pensada como construção de um homem
autônomo, a Indústria Cultural acabou por produzir, ao contrário, indivíduos
alienados, massificados; se a Razão poderia ser compreendida como meio pelo
qual o homem alcançaria a maioridade, utilizando-a para se constituir enquanto
livre, por intermédio de uma vontade racional autônoma, a racionalidade
instrumental acaba por converter este processo em heteronomia e o sujeito se vê
cada vez mais subjugado ao cálculo, aos fins.
Talvez tenha sido por estes fatores - a eleição de um problema por imposição de
uma realidade histórica precisa, a criação de novo procedimento de análise que
põe a razão como objeto de investigação crítica em sua ligação com a realidade
efetiva e a produção de um diagnóstico do presente - que Adorno, embora
consciente da existência da aporia no sentido que Habermas a entende, tenha
preferido sustentar suas análises mantendo a condição aporética de seu
pensamento como virtude de seu procedimento.
Portanto, reposicionar a aporia, entendendo-a não como consequência da análise
radical, isto é, como chegada a um beco sem saída, mas sim como condição de
possibilidade, permite-me deslocar a questão de por que Adorno não cedeu,
permaneceu intransigente em relação a isso, para o comoele foi capaz de não
ceder. Posso dizer agora, se o que expus estiver correto, como: por meio da
exigência do pensamento de pensar algo radicalmente outro.
Adorno e Horkheimer compreendem como a aporia não é algo a ser extirpado do
pensamento, mas algo a ser mantido, sustentado a fim de que seja possível a
produção de efeitos de análise em direção ao diagnóstico do presente. Deste
modo, o destino da aporia não é a lata de lixo da história do pensamento
crítico nem aquilo que justificaria uma mudança de paradigma, mas o lugar
heterogêneo, do não idêntico, a partir do qual o pensamento é forçado a pensar.
Aliás, foi esta posição da aporia enquanto aquilo que força o pensamento a
pensar que introduziu, em certa medida, uma mudança de consequências inéditas
para a teoria social, pois, pela primeira vez, de uma perspectiva crítica e
emancipatória, a tradição do Esclarecimento como tal foi posta em questão: a
barbárie, materializada histórica e politicamente no fascismo, não foi um
monstro alheio ou um tropeço do Espírito Absoluto, mas sim um legítimo
descendente do próprio Esclarecimento (Kurz, 1997).
Para concluir este ponto acerca da posição da aporia, lembremos como, na
"Dialética negativa", Adorno reflete sobre o que chama de primado do objeto no
processo de pensamento:
Ele recebe seu impulso da coisa. Diferenciado é aquele que, na coisa
e em seu conceito, ainda consegue distinguir o mais ínfimo que escapa
ao conceito; somente a diferencialidade alcança o mais ínfimo. Em seu
postulado, ou seja, no postulado da faculdade da experiência do
objeto - e a diferencialidade é a sua experiência transformada em
forma de reação subjetiva -, o momento mimético do conhecimento, o
momento da afinidade eletiva entre aquele que conhece e aquilo que é
conhecido, encontra refúgio. No interior do processo conjunto do
Esclarecimento, esse momento vai se desfazendo pouco a pouco (Adorno,
2009, p. 46).
Para Adorno, o exterior tem posição privilegiada no processo de pensamento. A
ponto de o próprio processo de pensamento ser secundário ao objeto: "cabe à
filosofia pensar aquilo que é diverso do pensamento e que o transforma pela
primeira vez em pensamento" (Adorno, 2009, p. 165). Este pensamento, mediante a
defesa do primado do objeto, acaba por manter a irredutibilidade do não
idêntico, entendendo-o não como aquilo que deve ceder às categorias lógicas do
pensamento, mas como algo que propulsiona o próprio pensamento a pensar, tanto
no nível fundamental quanto na ordem da crítica social.
É por meio desta outra modalidade de relação entre crítica da razão e análise
social, que podemos entender de que maneira a aporia se inscreve no pensamento
da primeira geração, isto é, de modo metodológico, como algo cuja função é
permitir o exercício da crítica:
De certo modo, Adorno faz dessa lógica aporética método: as tensões e
ambiguidades herdadas pelo marxismo e pela teoria crítica da
sociedade constituem o único elemento em que se pode pensar, ou seja,
pensar no "estado falso" é pensar no interior das aporias inevitáveis
do projeto moderno. Mais ainda, para Adorno, o objeto da teoria é
justamente a inevitabilidade das aporias (Nobre, 1998, p. 183).
A aporia é uma contradição lógica de origem histórica que se impõe ao
pensamento devido à sua tarefa de produzir efeitos de análise social. É neste
sentido que a concebemos enquanto potência da crítica e como conceito que nos
torna possível refletir acerca da atualidade da análise social da primeira
geração frankfurtiana.
Vitalidade e atualidade da primeira geração frankfurtiana
Ao longo deste artigo, busquei refletir acerca da visão de que devido às
deficiências analíticas oriundas do próprio procedimento crítico frankfurtiano
seriam inevitáveis tanto a mudança de paradigma na teoria crítica quanto a
recusa da crítica radical da razão. Com relação a isso, Zamora (2009) constata
o modo pelo qual se consolidou certa visão baseada no fato de que o pensamento
de Adorno e da primeira geração como um todo estariam superados, suas aporias e
becos sem saída haviam sido postos à baila pela "nova geração" de
frankfurtianos.
A corrente elétrica que anima o presente artigo refere-se principalmente a uma
problematização deste empreendimento de despotencialização da crítica radical
da primeira geração frankfurtiana, onde ocorre algo que se pode chamar de
desradicalização de uma geração intelectual.7Deste modo, ao analisar a crítica
de Habermas chego à conclusão de que somos conduzidos, na verdade, ao núcleo de
força da crítica social de Adorno e Horkheimer.
As situações aporéticas nas quais o pensamento social da primeira geração da
Escola de Frankfurt encontra-se enredado paradoxalmente constituem a potência
do procedimento crítico. No que se refere a Habermas, defendi que a crítica não
se enreda na aporia, mas sim se inicia a partir dela, sendo ela mesma a
condição de efetividade da crítica radical. Assim, em vez de aporia ser algo
para o qual a crítica se vê conduzida, é ela própria o ponto de partida que
torna possível a crítica radical da razão como ferramenta de análise social.
Desta maneira, Adorno e Horkheimer não realizam uma crítica do poder, ou seja,
uma análise cujo objeto é determinada forma histórica de poder, como no caso do
fascismo. Isto acarretaria afirmar, por exemplo, como faz Honneth (2009),
importante membro da chamada terceira geração frankfurtiana, que a derrocada do
fascismo também levou à obsolescência da leitura adorniana da modernidade. De
modo diverso, a crítica tem como condicionantes a política e a história, que
põem para o pensamento a obrigatoriedade de pensar o novo.
O que Adorno e Horkheimer realizam é o exercício da potência da crítica, a
saber, o movimento pelo qual o pensamento busca, no encontro com aquilo que lhe
é exterior (histórico e político) produzir novos modos de pensar que possam
conduzir outras formas de viver. Este pensamento deve à aporia não a sua
limitação e sim a sua vitalidade.
O atual rearranjo social, oriundo das transformações ocorridas no interior do
processo de produção capitalista na década de 1970 (Jameson, 2002; Harvey,
1993), confirma não só a vitalidade teórico-analítica da primeira geração
frankfurtiana, mas também a materialidade da barbárie, um de seus objetos
principais de análise. Autores próximos à teoria crítica, como Kurz (1992) e
Postone (1993), apontam para o esgotamento desta forma social por meio da crise
do trabalho e pela produção de uma massa supérflua para além do modo de
produção vigente, no sentido de serem populações incapazes de realizar a
mediação social básica do capitalismo: comprar e vender. Trata-se do chamado
desemprego estrutural, isto é, não mais cíclico e não mais composto por aquele
exército industrial de reserva pronto a retornar ao processo de trabalho
(Mészáros, 2011).
Ao contrário, a consequência da chamada terceira revolução industrial é a
tendência de supressão do trabalho vivo pelo trabalho morto (as máquinas). O
resultado disso é um desemprego cada vez mais crescente e insolúvel.8 A
barbárie é uma das chaves compreensivas para se pensar o nosso tempo, na medida
em que ela é resultado da incapacidade de se criar outra destinação das bases
objetivas de produção social (Menegat, 2012).
Do mesmo modo como a primeira geração frankfurtiana viveu numa sociedade na
qual o recurso à barbárie foi plenamente desenvolvido em prol do projeto
totalitário de sociedade, para nós do início do século XXI a barbarização das
relações sociais continua não sendo algo da ordem do acidente ou do incoerente:
ela é o produto mesmo desta forma social e, na atualidade, uma possibilidade de
realização histórica, uma vez que, por exemplo, as formas fetichizadas de
anticapitalismo, por meio do antissemitismo contemporâneo (Postone, 1986), a
nossa guerra civil brasileira declarada e o boom da criminalidade no
capitalismo tardio (Wacquant, 2003) ganham força nos grandes embates sociais
contemporâneos. Portanto, a barbárie continua sendo um eixo de interpretação
crítica da atual quadratura da sociedade burguesa, apontando para o seu
esgotamento civilizatório (Menegat, 2012, p. 19).
Isto posto, a defesa da radicalidade da primeira geração frankfurtiana tem seu
momento de verdade na atual conjuntura social, histórica e política. O
rearranjo sociopolítico hodierno gira em torno também do desmonte do Estado de
bem-estar social, impulsionado pelo chamado neoliberalismo, fenômeno que nem
mesmo a teoria crítica considerou possível (Türcke, 2005). Não obstante, diante
da mudança do quadro social nas últimas décadas, a primeira geração
frankfurtiana nos fornece instrumentos analíticos capazes de dar conta de nosso
tempo marcado pela dinâmica de regressão histórica.
Mais uma vez, o sujeito da história não se faz presente para operar a
necessária transformação do tempo presente, a teoria então se encontra numa
situação aporética, pois o suporte social de sua realização não está formado,
embora a necessidade de superação social seja urgente. De modo adorniano, se a
filosofia se mantém viva porque perdeu o instante de sua realização, cabe
manter a tensão dialética. É preciso sublinhar que as formas de resistência não
são atributos de um sujeito pré-dado, dedutível de sua posição no processo de
produção, por exemplo. A história não cessa de produzir momentos de resistência
nos quais se forjam sujeitos que empreendem ações contestatórias, como bem
apontou Marcuse ao longo de todo seu percurso intelectual.
Deste modo, a condição de existência, em determinados contextos, só encontra
expressão na revolta. É isso que define a constituição do sujeito nahistória,
capaz de lutar e empreender ações emancipatórias. Assim, como nos legou a
primeira geração frankfurtiana, cabe fazer dessa atual condição aporética da
crítica não o beco sem saída, mas sim o princípio a partir do qual se deve
formular adequadamente o problema de nossa época, a saber, a superação da forma
social mediada pelo valor: o capitalismo. Aqui, a crítica da teoria é um
momento necessário em direção à crítica do real.