Sismogramas do choque: considerações sobre o choque em "Teoria da vanguarda",
de Peter Bürger, e em "Filosofia da nova música", de Theodor W. Adorno
1 Choque em "Teoria da vanguarda"
Em "Teoria da vanguarda"(1974),Peter Bürger associa o conceito de choque
(Schock) ao "mais elevado princípio da intenção artística da vanguarda".1 A
obra de arte vanguardista, em sua denegação de sentido imposta ao receptor,
representaria uma reação concreta ao princípio de autonomia que prevalecia no
quadro institucional das artes no final do século XIX. Tal princípio consolidou
o que o autor chama de "esteticismo modernista", concepção que designa o
progressivo afastamento da arte em relação à sociedade, a oclusão formal da
arte sobre si própria. Por meio do choque, os movimentos históricos de
vanguarda do início do século XX (principalmente o dadaísmo, o início do
surrealismo e o futurismo russo) procuravam então demover o esteticismo,
ambicionando com isso uma redefinição do papel social da arte. Tais objetivos
haviam sido parcialmente motivados pela própria redução das possibilidades
expressivas que sustentavam a prerrogativa da arte pela arte no esteticismo. Em
função da disponibilidade integral de estilos e de procedimentos do passado, o
imperativo do estranhamento, do deslocamento abrupto de signos induzido pelo
choque, forneceria um modo privilegiado para a transposição da arte à práxis
vital:
Esse choque é intencionado pelo artista de vanguarda, que mantém a
esperança de, graças a essa privação de sentido, alertar o receptor
para o fato de a sua própria práxis vital ser questionável e para a
necessidade de transformá-la.2
O desejo vanguardista de criar novos modos de sensibilização capazes de
transformar o cotidiano apontava tanto para a modificação da estrutura social
de recepção da arte quanto para a destruição da ideia tradicional de obra (os
ready-madesde Duchamp e a "escrita automática" dos surrealistas seriam exemplos
diretos de tal intenção). Sob a perspectiva da estética da recepção de Bürger,
o choque - realizado mediante os expedientes formais de montagem, bricolagem e
acaso - seria, portanto, não apenas o mais elevado princípio da vanguarda como
também seu principal dispositivo político.
No entanto, o projeto que visava desestabilizar a instituição arte,3bem como a
ideia de obra, resultou em fracasso, tendo em vista a posterior coexistência do
princípio de autonomia com o arcaico e o pré-moderno. Bürger sugere que o
ataque dos movimentos de vanguarda, em que pese sua tentativa de ruptura em
bloco com toda a tradição (e não apenas com um sistema específico de
representação), acabou paradoxalmente fortalecendo os alicerces da instituição
arte, viabilizando inclusive a ampliação de seu repertório formal. Ou seja, se
as vanguardas deixaram em aberto a possibilidade de transformação da ordem
social por meio do choque, seu gesto de ruptura revelou-se, em contrapartida,
bastante proveitoso para o subsistema social da arte e para seus mecanismos de
distribuição. Esse fenômeno ficaria visível na assimilação "domesticada" dos
procedimentos da vanguarda pela neovanguarda, no processo contraditório e
irônico de "museificação" do objet trouvéde Duchamp;4 ao legitimar o choque
como um dos paradigmas constitutivos das obras no século XX, o aparato
institucional preservou sua função tradicional de definir o que é arte, ou
melhor, de determinar "o efeito ou a carência de efeito de arte" em geral.
Bürger encaminha diversas objeções à reflexão de Adorno sobre o modernismo e
sobre o choque. Entre elas, a de que Adorno teria compreendido esse gesto de
ruptura das vanguardas, gesto único e datado, como o princípio geral de
desenvolvimento do modernismo.5 Por negligenciar a centralidade da instituição
arte, Adorno não teria relativizado, por exemplo, a emergência histórica da
categoria de "novo" e de autonomia,estendendo, de maneira retrospectiva, o
impulso específico proveniente das vanguardas à totalidade do percurso estético
desde o modernismo. Grosso modo, Adorno não soube perceber a diferença
fundamental entre, por um lado, o projeto do esteticismo modernista e, por
outro, aquele das vanguardas históricas, que se colocavam justamente contra o
modernismo. Como Bürger adverte no livro, sob o termo "modernidade artística",
Adorno entende o amplo período que inclui os "antecedentes dos movimentos de
vanguarda (desde Baudelaire), os próprios movimentos e a neovanguarda".6 Tal
indistinção deliberada entre modernismo e vanguarda - uma falta de precisão
conceitual talvez surpreendente - privaria então a filosofia adorniana de
admitir a historicidade de categorias estéticas, como a autonomia, o novo, a
autoria, bem como de reconhecer certa transição funcional da instituição arte.
Entre os objetivos de Bürger, predomina aquele de apontar a alteração das
condições estruturais de recepção e distribuição da arte, cuja visibilidade se
tornou possível com as vanguardas. Assim, a irrupção do choque como dispositivo
vanguardista seria o indício do estágio final de autocrítica do subsistema
social da arte, motivado pelo próprio desenvolvimento do esteticismo, o que
deveria levar à sua superação histórica. Se "Teoria da vanguarda"investe contra
a concepção adorniana de modernismo pela adesão desta ao princípio de
autonomia, é porque, segundo o autor, tal princípio obscurece o debate
materialista sobre a função social da arte, suas condições específicas de
recepção em cada momento histórico: "Adorno renuncia a uma análise da função,
porque supõe, por trás disso, a tentativa de submeter a arte a fins
estabelecidos fora dela".7 A problemática da função, em Adorno, estaria
"amplamente desfocada",8 pois a hipóstase da autonomia orientaria todo o
trajeto de sua especulação filosófica sobre as obras.
Bürger compreende, portanto, a categoria de autonomia como ideológica, no
sentido do jovem Marx;9 ela congrega ao mesmo tempo um momento de verdade, ao
tornar reconhecível o desenvolvimento histórico real de afastamento da arte em
relação à práxis vital, induzido pelo esteticismo modernista, e um momento de
inverdade, "ao hipostasiar esse estado de coisas, produzido historicamente,
como 'essência' da arte",10 ou seja, ao tomar a particularidade de suas
operações como qualidade universal. Nesse sentido, a constituição da categoria
dissimularia seu processo de desenvolvimento, bloqueando o reconhecimento de si
mesma como construto histórico admitido no interior da sociedade burguesa. A
análise de Bürger apoia-se fundamentalmente na crítica da religião realizada
por Marx, para quem o fenômeno religioso apresenta igualmente um momento de
verdade (forma de protesto contra a miséria real do mundo social) e de
inverdade (produção de realidade invertida). Sob esse aspecto, não é gratuita a
atribuição do anátema ideológico à categoria de autonomia, quando se observa
nela o princípio ritualizante do movimento esteticista, o próprio fundamento
daquela "religião da arte" marcada pelo ideal de "poesia pura".11
Para Bürger, a maior conquista das vanguardas, em que pese sua esterilidade no
campo da ação política, consiste na denúncia do cerne ideológico que norteou o
esteticismo em sua crença na categoria de autonomia. Somente a análise da
função social da arte, apoiada na centralidade da categoria de instituição
arte, permitiria a distinção não ideológica entre o projeto do esteticismo
modernista e aquele intencionado pelas vanguardas; tal distinção teria
escapado, como vimos, à interpretação adorniana, que simplesmente dilui os
movimentos de vanguarda a excursos do projeto modernista.
Entretanto, não se deduzem plenamente, ao menos não em "Teoria da vanguarda",
as consequências que provêm da convergência entre modernismo e vanguarda no
pensamento de Adorno. Em "Das Altern der Moderne", Bürger procura compreender,
com efeito, a postura adorniana sob outro aspecto, associando a ela o acento
crítico de "antivanguardismo".12 Para ele, a postura antivanguardista de Adorno
estaria plenamente indiciada já no capítulo dedicado a Stravinsky de "Filosofia
da nova música", no qual os procedimentos semelhantes àqueles do dadaísmo e do
surrealismo, adotados pela técnica de Stravinsky, seriam tomados como
regressivos.13 A desconfiança adorniana quanto a métodos radicais de mudança
das condições de recepção da arte - como o choque vanguardista - levaria o
filósofo a considerar tais tentativas de ruptura como parte de um projeto
intraestético que, todavia, se apresentava como falsa superação da aparência e
não propriamente como ataque ao modernismo:
O ataque dirigido pelos movimentos de vanguarda contra o estatuto de
autonomia da arte [...] só pode ser interpretado por Adorno como
falsa superação da aparência (Schein) estética, e não como o lugar
histórico de uma mudança radical (Umbruch) que permitiria pensar as
contradições da arte no interior da sociedade burguesa.14
Com estratégia semelhante àquela utilizada em "Teoria da vanguarda", Bürger
reafirma os limites do antivanguardismo adorniano pela sua insistência na
lógica evolutiva do material artístico. Assim, critica-se novamente o
fato de que tanto a noção de aparência quanto a noção de gênio, ambas
vinculadas à ideia burguesa de autonomia, estariam atuando de maneira normativa
no centro da teoria estética de Adorno.
É provável que o suposto "déficit sociológico", apontado pelo argumento de
Bürger, proceda da divergência de método entre os autores a respeito do alcance
social da arte e do significado do choque. De fato, Bürger mesmo avalia tal
possibilidade: "Caso os termos 'moderno' e 'vanguarda' sejam tomados como
sinônimos, a tese do antivanguardismo de Adorno perde seu sentido".15 Podemos
então conjeturar se parte das objeções de "Teoria da vanguarda" contra Adorno -
apoiadas na hipótese das investidas da vanguarda contra a instituição arte e
contra o esteticismo modernista nas artes visuais e na literatura - não
resultaria de uma suspensão do enquadramento conceitual adorniano sobre o
modernismo; em particular, sobre o modernismo musical, analisado com maior
extensão pelo filósofo. A fim de expor o conflito entre as premissas dos
autores, convém descrever como o conceito de choque se materializa nos dois
extremos dialéticos de "Filosofia da nova música"(simbolizados por Schoenberg e
Stravinsky), para, em seguida, expor as linhas gerais da crítica de Bürger em
sua interpretação da reflexão adorniana.
2 Choque e dissociação do tempo em "Filosofia da nova música"
Percebemos que tanto Bürger quanto Adorno tomam diretamente de Benjamin o
conceito de choque. Ao interpretar gestos e particularidades do cotidiano na
vida moderna, registrados pela lírica de Baudelaire, Benjamin estabelece a
oposição entre experiência (Erfahrung,"matéria da tradição" na qual, grosso
modo,o registro de um acontecimento passaria pela intervenção da memória, do
passado tanto individual quanto coletivo)e vivência (Erlebnis,a pura impressão
de efeitos imediatos). Para o autor de "Sobre alguns temas em Baudelaire", a
alteração da estrutura da experiência e da percepção subjetiva do tempo,
dissociada por uma sequência de vivências no cotidiano na metrópole, é o
fundamento que caracteriza a própria modernidade. Nesse sentido, a escrita
"sismográfica" de Baudelaire manifestaria uma absorção mimética do choque, por
meio da observação detida da multidão amorfa dos passantes na grande cidade, do
trabalho mecânico do operário na "época da industrialização em grande escala",
ou mesmo dos gestos pré-formados do "indivíduo ocioso" nos jogos de azar.16 Com
efeito, Benjamin identificava em Baudelaire a "desintegração da aura na
vivência do choque (Schockerlebnis)", desintegração que se tornou o preço
necessário para "adquirir a sensação do moderno".17
Em carta de 1940 a Benjamin, Adorno declarava seu entusiasmo pela análise do
choque empreendida especificamente nesse ensaio: "[...] a teoria do
esquecimento e do choque possui estreita relação com algumas das minhas
reflexões sobre a música, entre outras a que se refere à percepção das
repetições".18 Tais reflexões comparecem em "Filosofia da nova música"(1949),
no qual Adorno recorre à teoria de Benjamin para descrever a percepção mutilada
e mecanizada do fluxo do tempo na música moderna: "mediante os choques, o
indivíduo percebe de imediato sua nulidade diante da máquina enorme do sistema
total".19 Na linha de Benjamin, os choques corresponderiam aos sinais de um
mundo que opõem forças produtivas (dominação da natureza) e relações de
produção (dominação social), e que se refletem materialmente na música à
maneira de sismogramas, reações da consciência no presente.20 Se lembrarmos que
"Filosofia da nova música"foi concebida como excurso à "Dialética do
esclarecimento",não estranharemos o paralelismo do conceito de choque com o
atrofiamento da experiência subjetiva de tempo, ocasionada pela progressiva
divisão social do trabalho na modernidade. Tal como descrito no livro publicado
com Horkheimer,
Quanto mais complicada e mais refinada a aparelhagem social,
econômica e científica, para cujo manejo o corpo já há muito foi
ajustado pelo sistema de produção, tanto mais empobrecidas as
vivências [Erlebnisse]de que ele é capaz.21
Desde já, um ponto importante da concepção adorniana de choque na música merece
ser ressaltado: o choque pertence "ao fundamento de toda música nova",
coincidindo com o "fim da experiência do tempo musical" e com as tendências de
aniquilação da consciência subjetiva na modernidade. Ou seja, não apenas as
peças da fase "primitivista" e da fase neoclássica de Stravinsky,mas também as
peças da atonalidade livre de Schoenberg manifestariam a situação de impotência
do indivíduo diante das forças da civilização em seu estágio técnico-industrial
avançado. As duas tendências antinômicas da modernidade musical - simbolizadas
por Schoenberg e Stravinsky - confirmariam o enfraquecimento da tensão entre
sujeito e objetona música, tensão implícita pelo menos desde o advento da
tonalidade. Para Adorno, o caráter dialético do material da tonalidade
condicionava essa tensão entre sujeito e objeto: por um lado, o material
corresponde ao repositório dos esquemas formais e de modelos consolidados (o
"espírito sedimentado" da tradição que projeta seu conteúdo social e objetivo);
por outro, converte-se em obstáculo à autenticidade expressiva do compositor.
Nesse sentido, podemos compreender em que medida "a confrontação do compositor
com material é também confrontação com a sociedade".22
Ao atenuar as exigências materiais da tonalidade, a música moderna seria
marcada por cesuras temporais que indicariam, na visão de Adorno, as
intromissões das vivências do choque da vida moderna. É importante sublinhar
novamente que o fenômeno da dissociação do tempo musical ocorreria nas duas
vias do modernismo (e não somente no caso de Stravinsky, no qual prevalece um
modo "rítmico-espacial" e regressivo de escuta). Ao contrário do que sugerem os
títulos que compõem "Filosofia da nova música"("Schoenberg e o progresso" e
"Stravinsky e a restauração"), o processo de dissociação do tempo manifesta-se
também no expressionismo de Schoenberg:
A lei da harmonia complementar [de Schoenberg] implica o fim da
experiência do tempo musical [...] Ela indica, com maior insistência
do que outros sintomas, esse estado de a-historicidade musical.23
A miniatura expressionista da escola de Viena contrai a dimensão
temporal, exprimindo um 'romance inteiro por um único gesto',
enquanto que, nas mais poderosas construções dodecafônicas, o tempo
se interrompe graças a um procedimento integral, desligado de
qualquer ideia de desenvolvimento, pois nada que poderia se
apresentar como desenvolvimento fora desse procedimento é tolerado.24
Desse modo, juntamente com a supressão da narratividade do discurso musical em
decorrência dos vestígios da crise do sistema tonal, a reificação do tempo
simbolizaria a introjeção do choque em seus extremos dialéticos:
O perecimento do tempo subjetivo na música, no meio de uma humanidade
que faz dela mesma uma coisa, um objeto de sua própria organização,
aparece como tão inevitável que se pode observar nos polos opostos da
composição[Schoenberg e Stravinsky]um fenômeno similar.25
Sabemos que a reflexão materialista de Adorno se orienta pela premissa segundo
a qual "o tempo que é imanente em cada música, sua historicidade interna, é
realmente tempo histórico real, refletido como aparência (Erscheinung)".26 É
assim que, em função do declínio da experiência (Erfahrung) na modernidade,
torna-se visível, afinal, um fenômeno similar nos polos divergentes da nova
música.
2.1 "Erwartung" e o registro refletido do choque
Adorno apresenta, contudo, uma diferença substantiva no que se refere à
elaboração formal do choque nas composições. Essa diferença reside em processos
técnicos distintos com que Schoenberg e Stravinsky exteriorizam as sequências
do choque e, portanto, no alcance crítico que tais sequências adquirem no
interior da forma musical. Adorno pretende desvelar as formalizações do choque
por meio de uma análise concreta da dimensão rítmica, das variações de
dinâmica, da progressão harmônica, da polifonia e da textura de obras. Esses
elementos são articulados pela categoria de "subjetividade musical", na qual se
conjugam uma teoria material e social das formas, bem como conceitos derivados
da psicanálise.
Assim, no monodrama "Erwartung" (1909),uma das primeiras peças da atonalidade
livre de Schoenberg, a música, segundo Adorno, "defende-se contra as vivências
do choque (Schockerlebnissen)ao representá-las (sie darstellt)".27 A fim de
qualificar essa defesa contra o choque em Schoenberg, Adorno usa o termo
"preparação/disposição para angústia"- Angstbereitschaft - descrito por Freud
em "Além do princípio de prazer".28Aqui novamente a referência a Benjamin pode
ser percebida, em particular à seção III do ensaio sobre Baudelaire; comentando
Freud, Benjamin afirma que, "quanto mais corrente se tornar o registrodos
choques no consciente, tanto menos se deverá esperar deles um efeito
traumático".29 Em função da Angstbereitschaft,o sujeito musical em "Erwartung"
resiste aos choques ao fornecer a eles uma representação refletida, um registro
expressivo único; consegue, em resumo, "transformá-los heroicamente (heroisch)
em elementos de sua própria linguagem".30 O sujeito empenha-se aqui na luta
contra sua desagregação e permanece protegido durante a travessia dos choques,
na medida em que "o registro sismográfico dos choquestraumatizantes torna-se a
lei técnica da forma musical, lei que impede toda continuidade e
desenvolvimento".31 Para Adorno, a transcrição rigorosa e autêntica da
angústia, decorrente das vivências do choque, amplia a linguagem musical e
constitui a substância de toda obra de arte fragmentária- diferente de
mecânica, conforme a classificação que veremos a seguir.
Em "Erwartung", com efeito, o andamento da peça altera-se de acordo com as
manifestações pulsionais da personagem. Seu longo recitativo atemático, sem
repetição ou pausa, resultante da extrapolação do princípio da variação em
desenvolvimento, abandona centros tonais estáveis. Ao mesmo tempo, a falta de
recorrência temática aliada ao rigor da construção polifônica encaminha um
conceito renovado de expressão. Sob essa perspectiva, Dahlhaus argumenta que a
poética de "Erwartung" fundamenta-se no tratamento singular do canto com a
polifonia orquestral, modificando o princípio expressivo cujo senso formal é
definido por Adorno como "ausência de continuidade". O recitativo
acompagnatoque caracteriza o monodrama, uma "declamação musical acompanhada de
motivos orquestrais descritivos", resulta em uma textura ao mesmo tempo
atemática (tal como um recitativo) mas também polifônica no sentido
camerístico; um denso trabalho de contraponto, com nítida diferenciação de
vozes (linha vocal, voz instrumental principal, voz instrumental secundária e
acompanhamento), preserva uma relevância hierárquica das vozes no discurso
musical (o que remete diretamente à técnica contrapontística de Bach). Dahlhaus
demonstra ainda que a recorrência de uma figura motívica de base composta por
três notas (ré bemol - dó - lá) contribui também de maneira decisiva para a
coerência estrutural da peça.32
Para Adorno, tais procedimentos forjam uma expressividade que se apresenta como
"protocolo", "registro" de expressão (Ausdrucksprotokoll).33 No expressionismo,
valoriza-se o "sentimento único criador da forma", a busca da expressão pura em
vez de leis formais universais, esquemas impostos de cima para baixo.34 Isso
significa que se, por um lado, a fragmentação impõe certa renúncia da percepção
do caráter de aparência (Scheincharakter) da obra, por outro, essa renúncia não
implica o abandono do princípio de construção formal, em última análise, de
coerência orgânica entre sujeito e objeto. No caso de "Erwartung",a "segurança
da forma revela-se meio de absorção dos choques":35 os choques dinamizam a
dialética entre construção e expressão. De modo semelhante à elaboração formal
do choque na poesia lírica de Baudelaire, Schoenberg produz um modo de
representação musical da própria sequência de vivências fragmentárias na
modernidade. Como observa Benjamin, "o fato de o choque ser amortecido e
aparado pelo consciente emprestaria ao evento que o provoca o caráter de
experiência (Erfahrung)".36 Em termos benjaminianos, poderíamos então dizer que
o expressionismo de Schoenberg fornece ativamente o peso de uma experiência
(Erfahrung) à natureza passiva das vivências (Erlebnissen) que definem a
modernidade. Nessa medida, a forma expressionista, que se esgota no interior da
própria obra, distancia-se radicalmente dos procedimentos de montagem.
Este ponto é determinante na compreensão da relação entre choque, experiência e
organicidade em "Filosofia da nova música": a resistência estrutural do
sujeito, presente na atonalidade livre de "Erwartung",permite concluir que "a
música expressionista ainda permaneciaorgânica".37 Tal resistência não
existiria no surrealismo: "expressionismo e surrealismo divergem na atitude em
relação ao orgânico", propõe Adorno. Isso significa que, embora o
expressionismo proceda da irracionalidade da organização social, a formalização
fragmentária dessa irracionalidade ainda conserva um caráter orgânico. Em
contrapartida, a irracionalidade do surrealismo, em sua "desagregação da
unidade fisiológica do corpo", equivale à mímesis do antiorgânico, liga-se a
uma "coisa morta" (Totes), no momento em que se deixa abandonar a um
procedimento que "suprime a fronteira entre o corpo e o mundo dos objetos, para
convencer a sociedade da coisificação do corpo. Sua forma é aquela da montagem,
completamente estranha a Schoenberg".38
2.2 "Sagração" e a absorção não refletida dos choques
Adorno é categórico ao afirmar que, em Stravinsky, o sujeito musical não dispõe
de Angstbereitschaft, de um mecanismo consciente de resistência à sequência dos
choques. Ao contrário do expressionismo de "Erwartung", na "Sagração da
primavera"(cujo programa, por sinal, sugere o colapso das forças individuais em
nome da inexorabilidade de interesses ritualistas da coletividade), o sujeito
musical sucumbe aos choques por meio de convulsões irrefletidas, sustos,
sobressaltos que sancionam a falha da resistência ao choque. A transcrição dos
choques é imediata, não refletida, pois o "tipo humano" que deriva da obra
abstém-se de toda reflexão sobre si e admite que não pode elaborar o que lhe
transcende. Desse modo, na "Sagração", ficaria celebrada, em vez de elaborada,
a liquidação do sujeito:
O sujeito musical renuncia a se afirmar como sujeito, resignando-se
em sofrer as convulsões; comporta-se como ferido, vítima de um
acidente que não consegue absorver e que o repete constantemente nos
sonhos.39
Vale a pena enfatizar uma importante nuança conceitual: sujeitoe forma
musicalnão estão necessariamente atrelados. Em Stravinsky, o sujeito musical
identifica-se com a vítima, embora a forma musical se identifique objetivamente
com a instância destrutiva, com o agressor.40 Enquanto que, no polo oposto, a
forma musical em Schoenberg atua como Angstbereitschaft,como proteção para os
choques aos quais o sujeito é igualmente submetido. A linguagem expressionista
representaria, como vimos, uma proteção subjetiva de amortecimento dos choques;
em Schoenberg, portanto, o sujeito converte suas vivências em experiência
(Erfahrung),por meio do desenvolvimento consciente do material que tem como
referente implícito a tonalidade.
Já para descrever o estado "anímico" do sujeito em Stravinsky, incapaz de se
defender dos choques, são utilizadas categorias como "despersonalização",
"ausência de intenção", infantilismo, catatonia.41 Como no estado catatônico de
pessoas marcadas por um trauma, a desintegração do eu levaria à repetição de
gestos e palavras que desestabilizam a coerência do discurso. Na visão de
Adorno, a renúncia à elaboração formal em Stravinsky, reduzindo o trabalho do
compositor à manipulação de resíduos da tonalidade, corresponde à renúncia à
categoria de sujeito. A música de Stravinsky, torna-se, nesse sentido,
"objetivada", estranha à consciência e alheia à história do "espírito".
Poderíamos afirmar que, para Adorno, o gesto musical de Stravinsky fixa um
conjunto de "conceitos sem intuição", no sentido daquele destemor que
caracteriza o indivíduo sem Angstbereitschaft,conforme o seguinte aforismo de
Minima moralia:
Quando o objeto da experiência vai além da proporção ao indivíduo
este nem mesmo chega a percebê-lo, mas o registra imediatamente
(unvermittelt) por meio do conceito sem intuição (durch den
anschauungslosen Begriff), como algo externo e incomensurável, em
relação ao qual ele se comporta tão friamente como o choque
catastrófico faz com ele.42
Tecnicamente, as convulsões e os sobressaltos que dissociam a experiência do
sujeito efetivam-se sobretudo no plano rítmico: ênfase nas síncopes e nas
mudanças assimétricas do compasso, pulsação recorrente em ostinato, repetição
de motivos isolados e rudimentares.O ritmo é, por assim dizer, hipostasiado
como vetor estruturante da composição, o que esvazia a elaboração do conteúdo
propriamente melódico e harmônico. Na medida em que a prática composicional de
Stravinsky converge para essa fetichização do ritmo, despreza-se aquilo que
Adorno chama de "organização total dos elementos" (Durchorganisation der
Elemente). Ou seja, mesmo o emprego da dissonância e a politonalidade
resultariam de um pensamento orientado ao fortalecimento da rítmica. Esse
estilo composicional fica bastante evidente, por exemplo, no 2º movimento da
Sagração, Augúrios primaveris,ao longo do qual um único acorde dissonante que,
segundo o próprio compositor, teria servido de inspiração para a peça como um
todo43 - o acorde "augúrios" (consistindo na sobreposição de um acorde de mi
bemol maior com sétima dominante e a tríade de fá bemol maior; ver Fig._1) - é
repetido 280 vezes e se desliga de toda função harmônica; ou ainda, no último
movimento, "Dança sagrada - a eleita", em que o motivo melódico mais
perceptível é um fragmento de seis notas (conjunto de três notas em cromatismo
descendente repetido duas vezes). A obra de Stravinsky cultivaria então certa
apatia em relação àqueles recursos técnicos que poderiam fornecer a sensação de
continuidade do tempo: não há "transições, crescendos, diferença entre campo de
tensão e repouso, entre exposição e desenvolvimento, entre pergunta e
resposta".44 Na leitura de Adorno, os expedientes que eliminam as expectativas
funcionais da percepção de um contínuo temporal fazem da música de Stravinsky
uma "escamotagem do tempo", uma obra "estática" que recusa desenvolver-se.

Além do fetichismo da rítmica, outro elemento destacado por Adorno como
regressivo no tratamento dos choques refere-se, como vimos, ao uso da montagem,
do recurso de "música sobre música", apresentado como paródia e orientado por
uma lógica de desintegração do material. O excesso de citações musicais em
Stravinsky revelaria não apenas sua rejeição deliberada ao desenvolvimento do
material, mas o desejo de fazer passar por novo o que já estaria classificado,
pré-formado.45 Nesse sentido, a "História do Soldado"é comparável às montagens
oníricas dos surrealistas, feitas a partir de dejetos da vida cotidiana. A obra
compõe-se de "montagens de material morto", "sequências sonoras danificadas",
fragmentos de peças de salão, fanfarras, polcas, música de circo, tango,
ragtime, marchas militares; sob esse aspecto, a comparação com os dadaístas
sugerida por Bürger de fato não seria improcedente, se levarmos em conta que o
compositor declarava aspirações semelhantes àquelas dos vanguardistas do início
do século.46 Além disso, o retorno a formas arcaicas na fase neoclássica,
indiferente ao estágio histórico do material, confirmaria o desejo de suspensão
do próprio tempo histórico.
3 Críticas de Bürger a Adorno: incompatibilidade entre as concepções de choque
A partir das análises imanentes de Schoenberg e Stravinsky, Adorno propõe uma
classificação com três tipos de obra:47 a) obra de arte fechada(geschlossene
Kunstwerk), que oculta seu processo de produção reafirmando seu caráter de
aparência, caso de Beethoven; b) obra de arte fragmentária (fragmentarische),
alçada a objeto de conhecimento, única capaz de liberar conteúdo crítico, por
expor em sua forma as contradições sociais e a angústia do sujeito, como o
expressionismo de Schoenberg, que ainda preserva organicidade; c) obra de arte
mecânica(mechanische), de índole fascista, pela adesão ao ritmo motorizado e à
repetição de fórmulas, ligado ao inorgânico, como em Stravinsky.
Essa divisão tripartite sugerida por Adorno dificilmente se coaduna com a
divisão binária de Bürger entre obra de arte orgânica(visando à produção de
aparência de algo natural, construída segundo um padrão sintagmático no qual os
detalhes e o todo formam uma unidade dialética) e obra de arte não orgânica
(ligada ao conceito de alegoria de Benjamin, cujo dispositivo conceitual seria
principalmente o choque).48 Podemos finalmente nos perguntar se tal
incompatibilidade não teria levado Bürger a apresentar de maneira imprecisa, em
"Teoria da vanguarda", a visão adorniana de modernismo.
Em diversos momentos de "Teoria da vanguarda", notamos os efeitos de tal
inadequação. Bürger ressalta, por exemplo, que, pelo fato de a filosofia de
Adorno ainda pertencer a certa tradição do esteticismo, não se desvencilhou da
crença ideológica no princípio da autonomia, no desligamento progressivo da
arte à práxis vital.49 No entanto, sabemos que a concepção de "arte pela
arte"que regula o esteticismo é de fato problematizada por Adorno, pois se
reconhece tacitamente a contradição interna da ideia de autonomia: a autonomia
da arte depende, afinal, de um momento social heterônomo que lhe confere
legitimidade, vinculada, por sua vez, à ideia burguesa de liberdade.50 Adorno
não deduz, portanto, uma história linear da arte, pois em sua concepção de obra
se efetua um movimento de oscilação conflitante entre "fato social", produto do
trabalho social do espírito, e autonomia, reflexão sobre suas formas internas
(atingida com o aburguesamento da arte). Para Adorno, a autonomia, na medida em
que se apresenta como crítica e negação determinada ao mundo social empírico,
não deveria ser confundida com a autotelia da "arte pela arte".
Em outra passagem, Bürger denuncia o uso ideológico da categoria do novo por
parte de Adorno,bem como sua negligência quanto às modificações das condições
da recepção da arte. Considera que o modernismo, para Adorno, não somente teria
rompido com a continuidade do desenvolvimento de uma tradição específica (por
exemplo, a invenção de um gênero, como o Lied,e sua modificação posterior no
século XIX), mas teria realizado uma ruptura com toda a tradição.51 Segundo
Bürger,
Exatamente este é o ponto a ser criticado na utilização adorniana da
categoria do novo. Adorno tende a transformar a ruptura com a
tradição assinalada pelos movimentos históricos de vanguarda, ruptura
historicamente única, em princípio de desenvolvimento da arte
moderna.52
Porém, como vimos, Adorno evita compreender o ato de ruptura vanguardista como
"ruptura com a tradição", optando por tomá-lo antes como falsa superação da
aparência. Mesmo a ruptura das obras fragmentárias do expressionismo conserva
"a tradição dos critérios técnicos diante da barbárie crescente".53 Em que pese
sua recusa a estruturas da tonalidade, por exemplo, o expressionismo musical
resultaria, por um lado, das consequências formais do cromatismo e da modulação
contínua de Wagner e, por outro, do princípio de variação em desenvolvimento,
proveniente do romantismo de Brahms. Além disso, a insistência na radicalidade
do estilo composicional de Mahler indica que, para a estética de Adorno, o
"estado histórico do desenvolvimento das técnicas" não assegura necessariamente
o avanço das forças produtivas da música (aqui subentendidas no conceito de
material). Vale a pena insistir que, na acepção adorniana de arte como "fato
social", um regime teleológico e evolutivo de história da arte dificilmente
encontra lugar.
O texto de Bürger também parece superestimar o lugar que Adorno atribui ao
procedimento de montagem no modernismo:
[...] as considerações de Adorno sobre o significado da montagem para
a arte moderna constituem [para ele] pontos de referência importantes
para a compreensão do fenômeno. Adorno aponta o caráter
revolucionário do procedimento [...] Mas é questionável a
possibilidade de se atribuir ao procedimento artístico da montagem
também um significado político, como o faz Adorno.54
Entretanto, como vimos na crítica a Stravinsky, Adorno não aponta o caráter
revolucionário do procedimento. Notamos que, no léxico adorniano, obra de arte
antiorgânica, mecânica, tende à regressão. A ideia de compor "música a partir
de música" remontaria de fato a Mozart em suas citações de Haendel, ou mesmo a
Mahler. Contudo, quando elevada a princípio de estruturação, por meio da
exposição de um material previamente codificado sem tensões com a história, do
excesso de citações de sequências sonoras, a ideia de montagem musical
abdicaria da construção orgânica e intencional de sentido, denunciando um
caráter reacionário de eliminação do polo subjetivo da composição.55
Um quarto aspecto da crítica de Bürger a Adorno refere-se à própria denegação
de sentido. Bürger afirma que "quando Adorno interpreta a negação da síntese
como negação de sentido, é preciso lembrar que mesmo a denegação de sentido
representa ainda um tipo de atribuição de sentido".56 Em "Filosofia da nova
música",entretanto, a denegação de síntese em Schoenberg é de fato compreendida
como "esclarecedora" da situação social de um "mundo privado de sentido". A
denegação intencionalde sentido (distinta da montagem) que emerge da expressão
fragmentária em Schoenberg constitui, para Adorno, um sentido de segunda ordem.
Tal característica também é descrita nas passagens de "Teoria estética"
relativas ao formalismo e à crise de sentido:
a emancipação das obras de arte relativamente ao seu sentido torna-se
esteticamente rica de sentido, logo que se realiza no material
estético [...] As obras de arte, que se despojam da aparência de todo
aspecto significante, nem por isso perdem sua semelhança com a
linguagem [...] As obras de mais elevado nível formal, desprovidas de
sentido ou a ele alheias, são, pois, mais do que absurdas, porque seu
sentido cresce na negação do sentido.57
Os exemplos acima sugerem que essa divergência quanto à posição do problema do
choque, divergência não enunciada por Bürger em seu livro de 1973, instigaria a
crítica em relação à validade da reflexão de Adorno para se compreenderem as
manifestações ulteriores de vanguarda. Tal divergência parece comprometer, no
entanto, o alcance do empreendimento, pois, ao simplesmente contrapor obra de
arte orgânica e obra vanguardista nãoorgânica (esta que, posteriormente, foi
reassimilada pela instituição, ampliando o campo semântico de obra de arte), a
interpretação de Bürger tende a obscurecer a dialética inscrita na própria
modernidade, ressaltada por Adorno, entre progresso e regressão, autonomia e
heteronomia, obra de arte fragmentária e mecânica. Longe de ser o "déficit"
insinuado por Bürger, a ausência de demarcação entre modernismo e vanguarda em
Adorno sugere, na realidade, o deslocamento da compreensão do mesmo fenômeno
para outro eixo conceitual.
Por caminhos distintos, outros comentadores também observam a insuficiência da
interpretação de Bürger. Max Paddison, por exemplo, discorda da insensibilidade
teórica de Adorno em relação às mudanças estruturais das condições de recepção
das obras, salientando, pelo contrário, a força de sua especulação sociológica
ao tratar dos mecanismos de distribuição da arte.58 Lambert Zuidervaart, por
sua vez, mostra que as objeções de Bürger à categoria de autonomia em Adorno
são invalidadas por suas próprias premissas:59 "Teoria da vanguarda"deseja
recusar toda estética normativa, baseada em critérios que derivam do princípio
de autonomia, mas requer a estabilidade de outro esquema normativo para, então,
historicizar a estética adorniana em chave crítica.60 Também na leitura de
Richard Murphy a posição do problema da autonomia no modelo de Bürger incide na
petição de princípio: sua teoria pressupõe o distanciamento crítico do objeto a
ser criticado (a primazia da autonomia), logo, certo afastamento da práxis
vital. Assim, a possibilidade de constatação crítica da alteração da função
social da arte torna-se viável apenas por meio da mesma autonomia que deveria
ser denegada.61
Por fim, segundo nossa hipótese, a diferença semântica quanto à categoria de
choque prenuncia a vulnerabilidade crítica de "Teoria da vanguarda". Se os
exemplos acima de fato apontam para uma efetiva incompatibilidade conceitual,
podemos supor que a origem dessa tensão se localiza na tentativa de subjugar a
dinâmica histórica específica da música, arte na qual Adorno fundamenta com
maior rigor sua reflexão sobre o modernismo, às dinâmicas históricas das artes
visuais e da literatura, a partir das quais Bürger procura delimitar, afinal, o
surgimento do choque como o dispositivo crítico e político das vanguardas.