A arte moderna como historicamente-sublime um comentário sobre o conceito de
sublime na teoria estética de TH. Adorno
Junto com o declínio de princípios de unificação para as obras de arte a partir
da vanguarda do início do século XX, como a figuração nas artes plásticas, o
centro tonal na música e o narrador onisciente na literatura, assistiu-se à
presença cada vez mais forte de elementos refratários ao que se pode chamar de
um bom gosto sedimentado socialmente, de modo que o feio, o repugnante, o
nonsense, passaram a fazer parte indissolúvel da estética moderna. Em virtude
disso, a categoria do belo tornou-se especialmente fraca ou no mínimo bastante
problemática como princípio não apenas descritivo quanto também hermenêutico.
Em seu lugar, o sublime experimentou uma valorização deveras significativa,
sendo tema de diversos tratados, congressos e artigos. Em sua estética, Theodor
Adorno também fez um uso relevante desta categoria, embora não tenha lhe
conferido uma definição mais específica (como, de resto, ocorre amiúde em sua
filosofia, avessa a definições prévias para o discurso filosófico). Diante de
uma divergência que nos parece um tanto surpreendente nas leituras sobre o
significado deste conceito na obra adorniana, pretendemos fornecer uma
concepção de sublime que, embora não explicitada como tal pelo filósofo, se
nutre de vários de seus conceitos, almejando uma resolução interpretativa que
ultrapasse as deficiências que vemos na tradição de comentários.1
Nosso percurso se inicia com uma apresentação crítica de três autores que nos
parecem mais significativos neste panorama: Albrecht Wellmer, Jan Rosiek e
Wolfgang Welsch. (Embora tal discussão ocupe boa parte de nosso texto,
consideramo-la necessária, pois fornece suporte a nossa proposta hermenêutica,
além de esclarecer de forma válida aspectos significativos do conceito de
sublime na Teoria estética.) Em seguida, falaremos sobre o caráter histórico-
temporal da obra de arte, de modo a fornecer elementos que sustentem nossa tese
interpretativa, colocada na parte final. Nesta última, argumentaremos a favor
de nosso conceito de sublime em íntima vinculação ao caráter histórico/
processual da obra de arte, momento em que a dimensão de alteridade/
transcendência se liga às tensões da configuração das obras, tanto em sua
dimensão monadológica, quanto em sua inserção na história.
I
Diversos comentadores de Adorno propuseram uma análise do conceito de sublime
na Teoria estética.2 Dentre eles, três merecem destaque por sua originalidade,
pois não apenas se dedicaram a apresentar e "explicar" o pensamento adorniano,
mas propor uma interpretação, de alguma forma, mais independente: W. Welsch, A.
Wellmer e Jan Rosiek. Embora seja a mais antiga, a concepção de Welsch é a que
mais se aproxima de nossa opção de considerar o sublime em sua qualidade de
experiência estética propriamente dita, motivo pelo qual será objeto de uma
análise mais detalhada.
Albrecht Wellmer, ao comentar o conceito de sublime na Teoria estética, vincula
as ideias de Adorno ao conceito de comunicação, concebido à luz da
racionalidade comunicativa de Habermas. Para o comentador, o sublime adorniano
poderia ser tomado propriamente como um momento em que as relações não
resolvidas entre o absurdo e o sentido que se estabelece linguisticamente
adquirem a oportunidade de comunicação através da arte: "comunicação do
incomunicável, representação do irrepresentável são características da arte,
através das quais esta pode lidar com todos os possíveis aspectos de nossa
experiência do mundo"3. Trata-se de substituir o pessimismo sombrio que o autor
vê nas filosofias de Nietzsche e de Adorno pelo otimismo da concepção política
habermasiana. Apesar de essa concepção mostrar-se em grande parte fiel ao texto
adorniano e ser muito bem construída, possui uma estrutura argumentativa que a
torna problemática como interpretação do texto de Adorno, uma vez que os
conceitos de falta de sentido e de comunicação que a sustentam derivam do
paradigma filosófico da racionalidade comunicativa de Habermas, que
consideramos, junto com Rodrigo Duarte4 e outros intérpretes, como muito
distante da concepção filosófica adorniana. Embora tal viés de abordagem
forneça certa originalidade na leitura sobre o sublime em Adorno, encaminha a
problemática mais decisiva para "soluções" conceituais que abandonam, em grande
medida, fundamentos nucleares da estética de Adorno.
Outro comentador, Rosiek, produziu um verdadeiro tratado sobre o conceito de
sublime, tanto no que concerne a Heidegger, quanto a Adorno. De todas as
abordagens sobre o sublime na Teoria estética, é a mais abrangente e extensa.
Apesar dessa proeminência, sua leitura está seriamente comprometida pelo
conceito geral de sublime que serve de baliza para sua obra, que é o da
"tradução religiosa-literária do metafísico"5. O autor procura, em vários
momentos, ressaltar as ligações do sublime com a experiência religiosa e
teológica, fazendo com que aquilo que é concebido como o totalmente outro seja
absorvido pela experiência do sagrado. Trata-se de perceber a sublimidade como
expressão estética do contato com a transcendência religiosa. Com base nessa
opção geral, ao tratar do sublime em Adorno, Rosiek subjuga todos os elementos
de ruptura da subjetividade - típicos da experiência-limite do sublime - à
ideia geral de um contato (positivo) com a transcendência.
Falando sobre o sublime como uma promessa de um outro em relação ao atual
estado de coisas, Rosiek diz que
Adorno reitera que a própria forma da obra de arte é uma articulação
da promessa que abre para o outro; mas, mais que isso, a promessa é
vista como uma garantia atual de sua possibilidade, embora não ainda
como uma garantia de sua existência atual. A articulação dessa
pequena esperança não é típica do discurso de Adorno sobre promessas;
ele é mais apto a enfatizar as rupturas do que sua realização
potencial.6
Abordando a ligação entre a obra de arte e a transcendência, diz o comentador:
A transcendência sugerida pela obra de arte é sua "fala" ou
"escrita", mas fala e escrita que, deve-se observar, são "sem
significado" - ou, para ser mais preciso, e, de fato, faz muita
diferença - "com um significado truncado ou velado" (ÄT 122/967). O
adjetivo "velado", zugehångter, indica uma cobertura por uma cortina
de teatro e a ocultação da cena da transcendência mencionada
anteriormente. (...) no que se segue, tentarei levantar a cortina.8
A primeira passagem mostra o reconhecimento por parte de Rosiek de que Adorno
está mais próximo da negação de uma efetividade da promessa da alteridade
transcendente do que de sua afirmação, e insiste, apesar disso, em ressaltar o
aspecto afirmativo em sua análise. A segunda passagem indica como o comentador
opta, explicitamente, por romper com o paradigma adorniano de manutenção da
ideia de que o significado transcendente da arte permanece velado. A grande
questão é que essas duas opções interpretativas contrariam de forma
significativa o cerne da filosofia de Adorno. Embora todo o texto de Rosiek
seja muito bem elaborado, todo seu vigor interpretativo foi dirigido em prol de
uma concepção parcial e, principalmente, tendenciosa. Ele pretende interpretar
a ontologia fundamental de Heidegger e a dialética negativa de Adorno a partir
de uma mesma concepção religiosa do sublime, o que nos parece uma abordagem
realmente imprópria.
No início da abordagem sobre o sublime em Adorno, Rosiek faz um apanhado das
concepções de Wellmer e de Bohrer, deixando de lado o texto de Welsch, que,
segundo ele, não compartilha da ideia diretiva geral do sublime como vinculado
à metafísica. Ora, precisamente esse motivo que levou Rosiek a desconsiderar a
concepção de Welsch leva-nos a tomá-la como significativa para estudarmos o
sublime em Adorno.
Wolfgang Welsch lê toda a filosofia da arte de Adorno como uma "estética
implícita do sublime"9 e analisa a Teoria estética como concebendo a arte
essencialmente a partir dessa categoria. Tal interpretação tem sua validade em
várias de suas colocações, mas, segundo pensamos, mostra-se equivocada em
outras, principalmente no que concerne à sua concepção do conceito de
reconciliação em Adorno.
Segundo Welsch, a Teoria estética deve ser lida como um abandono crescente da
ideia de reconciliação [Versöhnung] na arte em favor da de justiça
[Gerechtigkeit] ao particular, às suas contradições, movimento em que o sublime
se mostra como o ponto teórico mais relevante e inequívoco a este respeito.
Welsch estabelece então as relações Versöhnung-belo e Gerechtigkeit-sublime. O
conceito de belo estaria ligado à ideia de reconciliação dos conflitos dos
particulares, e o sublime, à de exposição não-conciliada das contradições e
antinomias entre eles: o foco da arte passaria então "da reconciliação para a
irreconciliabilidade, do nivelamento das contradições para sua articulação, da
aparência de salvação [Erlösung] para a evidência do conflito" (AÄ 134).
Segundo o autor, a ideia de reconciliação na obra de arte deve ser enfraquecida
até se tornar apenas uma figura de pensamento, apenas uma maneira (cada vez
menos potente) para se pensar a arte na Teoria estética. O belo seria, "segundo
toda sua estrutura, apenas um pseudônimo para o sublime" (AÄ 122), ou seja,
onde Adorno fala da beleza estaria em jogo propriamente este último, que seria,
por assim dizer, o que caracteriza mais essencialmente todo o pensamento de
Adorno sobre a arte.
Para fundamentar sua posição, Welsch parte da crítica explícita que Adorno faz
ao procedimento estético de tomar objetos já considerados sublimes como matéria
ou tema [Stoff], caracterizando o que Adorno chama de sublime oco [hohles
Erhabenes] (cf. ÄT 294), pois em sua positividade liga-se ideologicamente ao
poder, através de sua glorificação imagética (cf. ÄT 224/171). Como início
histórico dessa categoria, considerou-se sublime um conceito "bombástico" de
espírito, considerado um dominador e opressor da natureza, como Adorno vê em
Kant: "a 'grandeza do homem como um espiritual e que oprime a natureza' (ÄT
295) forma o ponto de partida da carreira do sublime" (AÄ 118). Segundo Welsch,
Adorno nega essa concepção em favor de sua transformação: "da dominação sobre a
natureza para a experiência da própria naturalidade" (idem). Essa passagem
seria feita a partir da concepção da natureza como um poder infinito que não
pode ser dominado, em que ela é vista não como aquilo que oprime efetivamente,
mas que participa em uma libertação da constrição subjetiva. Haveria, assim, um
duplo movimento rumo à liberdade: "emancipação do sujeito da obrigação de
domínio soberano sobre a natureza", experimentado por ele como um abalo
[Erschütterung] de sua subjetividade, "e libertação da natureza da 'conexão
perversa da naturalidade [Naturwüchsigkeit] e soberania subjetiva' (ÄT 293)"
(AÄ 120). Tais momentos se ligam aos de desprazer e prazer no sublime, "pois o
que o sujeito que pretende subsistir experimenta como desprazer de seu abalo,
tal apresenta-se para o saber mais profundo, que acompanha subterraneamente
toda a tensão subjetiva, como uma felicidade [Glück], como realização
propriamente de sua 'nostalgia' pelo 'que é vetado ao sujeito pelo bloco
subjetivo' (ÄT 396)". (AÄ 121) - Até aqui, temos uma exposição fiel ao texto
adorniano, compartilhada por outros intérpretes e que toca realmente em pontos
significativos da concepção presente na Teoria estética, mas se refere mais
propriamente à interpretação que Adorno faz em relação ao sublime na natureza
em Kant. Vejamos então como Welsch interpreta a Teoria estética considerando a
arte como sublime.
O esquema geral de tal interpretação é o seguinte: já que o que é experimentado
como sublime na natureza é a negação feita por esta sobre a dominação subjetiva
sobre ela, a arte é considerada sublime quando recusa a dominação subjetiva
precisamente ao negar seu próprio conceito, o qual exige dela uma disposição
racional dos particulares na obra, uma vez que estes não aceitam de antemão o
que lhes é imposto. Se para a obra se afirmar como arte é necessário o elemento
de dominação racional, a arte sublime exerce uma dominação que tende a negar
aquele, expondo e articulando as contradições em vez de conciliá-las (o que
seria o caso da arte bela). Sem essa negação do elemento de dominação que toda
arte tem, a obra apenas afirmaria a perniciosa dominação externa, prática, da
natureza. "A arte se completa não em sínteses, mas sim ao rompê-las, mas ela o
faz 'com a mesma força' (ÄT 209) que antes as realizava" (AÄ 126). A negação
interna da dominação racional na arte é índice da "reprodução da natureza
oprimida e entrelaçada na dinâmica histórica" (ÄT 198, cf. AÄ 126), o que já se
afigurara como pertencente ao sublime como libertação da natureza do contexto
de dominação subjetiva. Assim, conclui o autor, "a arte, como a Teoria estética
a pretende, realiza a estrutura não do belo, mas do sublime. A estética de
Adorno representa tanto em seu coração [Herzen], como em suas leis [Gesetzen],
uma estética do sublime" (AÄ 127).
O restante do texto de Welsch é dedicado a mostrar o enfraquecimento do
conceito de reconciliação em favor do de justiça ao particular, em que a arte
se mostra como uma reconciliação de contradições radicalmente recusada. A
ascendência do sublime na arte seria, nesse movimento, índice da "dissolução do
ideal de reconciliação" (AÄ 132). Tal ideal reconciliador teria sido promovido
pela estética filosófica, que acolheu em seu interior antes a estética do belo,
que se realizou sob a égide da reconciliação (entre o reino da liberdade e da
natureza, em Kant, por exemplo), em detrimento da do sublime, que rejeitou tal
ideal, pois "articulou contraposições, rupturas e momentos de conflito que
resistiam a uma última integração" (AÄ 138).
Ao fazermos uma análise da interpretação de Welsch, o primeiro ponto que nos
parece problemático é justamente a tese central de que a reconciliação em
Adorno somente deve ser tomada como válida na medida em que se enfraquece para
dar lugar à ideia de justiça ao particular, em que o ideal reconciliatório cede
sua vez à articulação das contradições. Percebemos aí uma unilateralidade do
conceito de reconciliação. Welsch toma esta noção como vinculada quase
exclusivamente à ideia de resolução de antagonismos, de fim das contradições. É
claro que esse significado é pertinente para aquele conceito, sendo isso
visível em várias passagens dos textos adornianos, mas sua exclusividade
abstrai algo mais difícil de perceber no pensamento de Adorno, que é a ideia de
que a reconciliação significa a consciência da distinção entre sujeito e
objeto. Trata-se, não de uma harmonia pacificada, de uma resolução de tensões,
de um nivelamento de conflitos, mas sim de relações de alteridade e diferença
em que o não-idêntico nas coisas e no sujeito se exprima sem pagar o preço da
pura dispersão sem sentido ou do aprisionamento na mediação falsificadora do
universal. Por outro lado, mesmo tomando-se apenas o primeiro sentido para o
conceito de reconciliação, a ideia de Welsch mostra-se inadequada. Como muito
bem apontou Klaus Baum, as noções de utopia e de reconciliação, estreitamente
ligadas em Adorno, recebem na Teoria estética a determinação de que elas
incluem necessariamente em si a negação do que elas prometem, ou seja, na
própria ideia de reconciliação o seu não-cumprimento é signo de sua verdade10.
O que parece escapar a Welsch é que a recusa da efetividade da reconciliação na
arte não acontece em favor da justiça ao particular (que se lhe oporia) e em
detrimento da própria ideia de reconciliação, mas sim em favor dela, ou seja, a
reconciliação no âmbito estético contém em si a cláusula de sua insuficiência
como atualidade. Embora outras passagens de textos de Adorno autorizem uma
leitura mais positivada da reconciliação, como o último ensaio das Minima
moralia, o que nos parece mais significativo como interpretação de sua estética
é a ideia de que a impossibilidade de marcar um espaço de identidade e
diferença entre sujeito e objeto de forma conceitualmente estrita qualifica
propriamente a reconciliação como um ponto de fuga e um modo de seu vislumbre
através do âmbito imagético da arte. O que funda a possibilidade de a justiça
ao particular, em sua articulação de contradições e conflitos, ser verdadeira,
é que ela se dá no interior de um movimento de expressão não-violenta de
diferenças, tensões e alteridades na obra de arte, ou seja, ela somente existe
enquanto verdade em relação aos próprios particulares porque aponta para a
possibilidade de superação da violência a que se submete a particularidade.11
Uma vez colocada essa primeira crítica, parece-nos claro que as relações que
Welsch estabelece tão nitidamente para belo-reconciliação e sublime-justiça ao
particular se mostram problemáticas. Cremos que elas tenham maior validade em
relação às suas análises referentes às estéticas anteriores a Adorno, mas,
frente a este, elas são equivocadas, e isso de modo mais claro se consideramos
que o conceito de reconciliação inclui a ideia-mestra de uma primazia do
objeto, de uma quebra do encantamento que o sujeito lança sobre o objeto e
sobre si mesmo, de tal modo a se perceber, na distância mediada entre ambos, o
espaço que pode configurar o solo da liberdade. De nosso ponto de vista, a
justiça às contradições do particular exprime, no âmbito das reflexões
estéticas de Adorno, virtualmente a mesma coisa contida na ideia de
reconciliação. Um apoio que nos parece importante para essa perspectiva é uma
passagem do texto "Rede über Lyrik und Gesellschaft", em que Adorno diz das
grandes obras de arte "que sua essência consiste em dar forma às contradições
na existência real, e somente nesse sentido, [consiste] em uma tendencial
reconciliação delas" [die an Gestaltung und allein dadurch an tendenzieller
Versöhnung tragender Widersprüche des realen Daseins ihr Wesen haben]12.
A unilateralidade do ponto de vista de Welsch pode ser esclarecida a partir da
crítica que Rosiek lhe fez, ou seja, que ele estaria interessado em aproximar a
concepção adorniana do sublime à de Lyotard, tomado por Welsch como expoente e
fundador da filosofia pós-moderna.13
O ponto forte da concepção de Welsch, entretanto, é sua ênfase na dimensão
constitutiva da experiência estética como conflituosa, contraditória, não
apelando para estruturas situadas em outras esferas (como a da comunicação ou
da teologia) a fim de "apreender" o significado dessas contradições. Mesmo
nessa "vantagem", porém, sua concepção tem uma fraqueza, pois, embora a
subjugação do movimento de negatividade da arte por um âmbito extra-estético
para sua apreensão de sentido não nos pareça válido, algo deve ser pensado como
se situando nesse ponto. Aqui podemos invocar a ideia de Thomas Weiskel de que
o sublime intra-humano é algo contraditório: "sem noção alguma do além, ou
discurso plausível do sobre-humano, o sublime soçobra ou torna-se um
'problema'. Isso é verdadeiro tanto para o Romantismo quanto para a
Antiguidade. Diz Schiller: 'o belo é valioso apenas em relação ao ser humano,
mas o sublime o é em relação ao puro demônio[dåmon]' no homem, 'aos estatutos
do espírito puro'. Um sublime humanístico é um oximoro"14. Nós diríamos que a
história da filosofia tornou-o um oximoro, afunilando a noção de alteridade,
tal como se afigura no sublime, para a de infinitude (de grandeza e de força),
o que favoreceu a consideração de Kant de que somente a natureza (e em seu
aspecto disforme, bruto) é capaz de suscitar o sentimento de sublimidade. Nossa
intenção é a de mostrar como a transcendência na arte pode ser pensada em
íntima associação com o que lhe é imanente, interno. A dimensão histórica
conteria tal "ambivalência", de modo a poder ser apreendida nesse movimento
pendular entre uma determinação intrínseca e outra que ultrapassa o
confinamento monadológico de cada obra.
II
É preciso ver, inicialmente, o que Adorno concebe como uma falsa concepção da
historicidade artística: "O contrário de uma genuína relação com o elemento
histórico das obras como seu próprio conteúdo é a sua apressada subsunção na
história, sua remissão ao lugar histórico" (ÄT 290/220; tradução própria). Essa
tomada de posição condenada pelo autor da Teoria estética é o que ele chama de
historicismo [Historismus]. Ela consiste nessa subsunção da obra na história
enquanto um dos elementos de uma sequência que se desdobra temporalmente. De
acordo com essa concepção, a arte seria histórica porque faria parte de um
continuum histórico que unifica e dá sentido a todos os seus integrantes.
Podemos interpretar o qualificativo "apressada" [eilfertige] para o ato dessa
subsunção como a eliminação de uma série de mediações - tanto teóricas quanto
na experiência com as obras - que devem ser levadas em conta para se apreender
o caráter histórico da obra de arte. Sem tais mediações, a história se
apresenta para a arte como um destino exterior (cf. ÄT 285/217), ou seja, como
algo que englobaria o que há de legítimo na sequência das manifestações
estéticas. Dado que no historicismo há, como na concepção hegeliana da
história, um desdobramento de um sentido que subjaz aos acontecimentos, ou
remetemos a obra de arte para a sequência histórica em seu todo, ou então ela
não vale nada por si como verdade acerca do espírito15, ou seja, perde sua
legitimidade em si mesma.
Contra essa concepção historicista, a historicidade da arte é tomada como
imanente a ela, como um caráter processual [Prozeßcharakter] constitutivo da
identidade da obra como arte: "A obra de arte é processo essencialmente na
relação do todo e das partes. Não podendo reduzir-se nem a um nem a outro
momento, essa relação é, por sua parte, um devir" (ÄT 266/202; tradução
própria). A impossibilidade de a arte manter-se enquanto tal optando ou pela
totalidade fechada de seus momentos, ou pela dispersão absoluta de suas partes
obriga-a a buscar um equilíbrio instável, que não se resolve em definitivo para
nenhum dos dois polos. Os antagonismos reinantes entre as particularidades dos
elementos introduzem um fator de destruição e morte no núcleo da arte que tende
a desfazer a sua própria identidade. A ânsia mítica pela sobrevivência para
além do desconhecido, entretanto, herdada das origens mágicas da arte, leva-a a
separar-se da empiria multiforme e dispersa através da colocação de uma esfera
idêntica a si mesma, no "'reino autóctone do espírito'", mas que precisa, para
conservar tal auto-identidade, do seu "não-idêntico, heterogêneo, não-ainda-
formado" (ÄT 263/200). Por isso Adorno diz que o próprio conceito de
"equilíbrio" para definir esse estado se contradiz a si mesmo (cf. ÄT 266/202).
Mas tal posição exige certa totalidade, pois, sem ela, como falar de uma
"obra", um ser, um algo que efetivamente existe? O resultado, portanto, é,
paradoxalmente, um equilíbrio em devir:
Se a obra de arte não é em si nada fixo, definitivo, mas sim algo
móvel, então sua temporalidade imanente se comunica às partes e ao
todo no fato de que a relação destes se desdobra no tempo, e de que
eles podem denunciá-la. Se as obras de arte vivem, graças a seu
caráter processual, na história, então elas podem se perder nela. (ÄT
266/202; tradução própria)
A dinâmica da obra de arte é precisamente essa irresolução entre o aspecto
disperso, de multiplicidade, de alteridade, em relação ao espírito, e a
necessidade de a obra se constituir como algo idêntico a si, como algo
espiritual, fabricado, que, portanto, precisa encerrar-se em um todo. Sem poder
inclinar-se definitivamente para nenhum dos dois polos, sob pena de se perder
em meio à mera contingência sem pretensão a voz, ou igualar-se à violência do
universal abstrato, a única chance de a arte prosseguir na história é expor seu
"núcleo temporal", o que a torna, por outro lado, frágil, diante da necessidade
reinante de uma universalidade afirmativa no sistema de autoconservação
individual e coletivo.
Se, entretanto, o sentido da obra é referido por Adorno à construção de sua
unidade (cf. ÄT 229-235/175-179), e se tal unidade não é o ponto definitivo por
meio de que a obra alcança a duração, mas em um equilíbrio insatisfeito entre
os antagonismos dos particulares e a totalidade formal, a consecução e o
alcance de um sentido para a própria arte seria a anulação de si mesmo. Assim,
"seja o que for que no artefato se pode chamar a unidade de seu sentido não é
estático, mas sim processual (...)" (ÄT 262/200; tradução própria), ou seja, o
sentido da própria arte não é algo dado de antemão, nem possível de ser
alcançado em definitivo através de seu desdobramento historiográfico. Adorno
faz um jogo com a polissemia da palavra "processo", dizendo que "é objetivo o
caráter de processo imanente das obras de arte - mesmo antes que elas assumam
um partido qualquer -, o processo que elas promovem contra o que lhes é
exterior, o mero subsistente" (ÄT 264/201). A palavra ganha uma conotação
jurídica, em que a radical separação da obra de arte em relação à existência
reificada exterior procura fazer justiça ao que é recalcado na realidade
empírica, mostrando a esse "que ele mesmo deve ser de outro modo: esquema a-
consciente de sua modificação" (idem).
Esse caráter processual, histórico, das obras, traduzido em termos das relações
entre o todo e as partes, é transposto por Adorno também para o conjunto das
obras: "Imanentemente dinâmicas, entretanto, são não apenas as obras de arte
individuais, mas também sua relação recíproca" (ÄT 263/200; tradução própria).
Ora, se a dinâmica das obras se faz nas relações de antagonismo entre os
particulares, que, assim, "não se encontram em justaposição, mas atritam-se ou
atraem-se mutuamente, um querendo ou repelindo o outro" (ÄT 275/209; tradução
própria), e se essa dinâmica está presente na esfera das relações entre as
obras, então se nos afigura incompreensível como Adorno pode dizer, em
sequência à primeira citação deste parágrafo, que "a relação da arte é
histórica, entretanto, somente através das obras individuais, imóveis em si,
não através de sua relação exterior, ou mesmo através da influência que elas
devem exercer uma sobre a outra" (ÄT 263/200; tradução própria, grifos nossos).
Ora, como seria possível perceber uma dinâmica, um caráter histórico,
processual, portanto, em que haja atrito, repulsão e atração, sem que os
elementos em jogo - no caso as obras individuais - exerçam influência uma sobre
a outra, sem que isso contribua na constituição da identidade de cada obra? Em
outras palavras: o que significaria dizer que as relações entre as obras
individuais tenham também uma dinâmica imanente e que tais relações não
contribuam para o caráter histórico, ou seja, de uma dinâmica imanente, para a
arte? - e, além disso, que as influências recíprocas das obras também não
contribuam para a dinamicidade de cada uma delas? - Esse impasse, para o qual
não vemos solução dentro da argumentação de Adorno no âmbito argumentativo em
que é colocado, será útil, entretanto, para nossa hipótese interpretativa, e
voltaremos a ele mais à frente.
Embora seja "problemático" o estabelecimento das relações entre as obras
particulares como históricas, processuais, por outro lado é inequívoco que
Adorno considera esse caráter processual como algo objetivo, ou seja, não se
trata de um desdobramento temporal tomado apenas do ponto de vista da recepção
(cf. ÄT 266/203). Que as obras de arte se modifiquem é devido à sua lei formal,
ou seja, essa modificação tem seu fundamentum in re, é uma característica
objetiva delas, de forma alguma acontece somente de acordo com a recepção que
se tem delas em cada época histórica. Que as obras estejam na história isso é
devido ao caráter de devir gerado pelas tensões internas da obra, na relação do
campo de forças antagônico entre sua totalidade e as contradições reinantes no
seio das particularidades. Ora, tais relações constituem a própria lei formal
da obra.
Temos em Adorno, porém, várias outras considerações acerca desse caráter de
objetividade, e, assim, de universalidade. Ele é tomado em conta também pelo
lado da recepção, por exemplo, da qual "não se deve abstrair esquematicamente"
(ÄT 288/219; tradução própria). Embora as obras de arte tenham uma parcela da
vontade mítica de sobrevivência espelhada em sua "fixação na pedra, na tela, no
texto literário ou de notas musicais", elas não escapam da modificação
temporal, pois "o fixado é signo, função, não em si; o processo entre ele e o
espírito é a história da obra" (idem - grifos nossos). Aqui entra em jogo uma
dimensão nova: a historicidade da obra se dá entre ela e o espírito, o que
significa que a lei formal da obra, isto é, aquilo que determina seu caráter
processual, é por sua vez determinada também pela recepção, pela crítica, pela
interpretação que se faz dela: "se as obras de arte acabadas tornam-se o que
elas são porque seu ser é um devir, então elas são por seu turno remetidas a
formas em que aquele processo se cristaliza: interpretação, comentário e
crítica" (ÄT 289/220; tradução própria). Se o ponto de equilíbrio instável que
caracteriza as obras como um devir (seu núcleo temporal) não reside nem no seio
da particularidade por si só, nem na unidade de todos os seus momentos, mas em
um lugar a rigor inconceituável, então, de forma semelhante, esse mesmo caráter
histórico/processual das obras não se situa nem na própria obra, nem na soma
das formas de sua recepção, mas entre esses dois planos. Tais formas de
recepção não são, assim, elementos exterioresao que constitui a própria
identidade (histórica) da obra, mas são "o palco do movimento histórico das
obras em si e por isso formas por direito próprio. Elas se prestam ao conteúdo
de verdade das obras como a algo que as ultrapassa e separam-no - a tarefa da
crítica - dos momentos de sua inverdade. Que o desdobramento das obras seja bem
sucedido, para isso aquelas formas de recepção devem agudizar-se até a
filosofia" (idem).
III
Essa vinculação entre a historicidade da arte e a filosofia pode, enfim, ser
pensada diretamente em relação ao sublime. Segundo Adorno, "o sublime, que Kant
reservou à natureza, tornou-se após ele um constituinte histórico da própria
arte" (ÄT 293/222-3; tradução própria). Isso significa que a grande arte
subjetiva burguesa absorveu tudo aquilo que a natureza prometia como sublime,
ou seja, como expressão de um absolutamente outro, de uma liberdade do âmbito
das relações concretas de produção. Isso é o que se deu na arte com a
antinomia, fundadora da arte moderna, da necessidade de produzir sua própria
transcendência, sem poder situar-se para além dos limites do artefato humano,
nem desistir da persecução desse ideal de transcendência. Mas a interpretação
que fazemos do vínculo entre tal transcendência secularizada e a historicidade
na arte permite-nos, por outro lado, fazer uma paráfrase da ideia de Adorno
citada acima, dizendo que, na arte a história tornou-se um constituinte do
próprio sublime.
Como é bem conhecido, ao definir o sublime na natureza, Kant dividiu-o em dois
momentos: o matematicamente-sublime [Mathematisch-Erhabene], que diz respeito à
natureza em sua infinidade de grandeza física, e o dinamicamente-sublime
[Dynamisch-Erhabene], que se relaciona à incomensurabilidade da força física
das potências naturais. Schiller rebatizou-os como teoricamente-sublime e
praticamente-sublime.16 De acordo com os conceitos que usamos para
circunscrever a arte moderna como sublime, dizemos que ela é historicamente-
sublime. Apesar do vínculo aparente que essa denominação tem com a concepção
kantiana, há uma diferença fundamental. Em Kant, os advérbios que antecedem o
termo "sublime" dizem respeito ao que provoca o sentimento em jogo, ou seja, as
infinidades de grandeza e de força naturais. Em nossa definição, o advérbio
"historicamente" vincula-se mais propriamente ao sentido da experiência de
contato com a obra, embora também se ligue a seu fundamento.
Dois momentos da Teoria estética apóiam essa aposta interpretativa. O primeiro
diz respeito à transcendência estética: "as obras em que a forma estética se
transcende sob a pressão do conteúdo de verdade ocupam o lugar que outrora o
conceito de sublime significava" (ÄT 292/222 - grifos nossos). A arte pratica
uma secularização da transcendência, na medida em que torna objetivo o que é
radicalmente outro perante a realidade empírica. A arte duplica imageticamente
o estremecimento [Erschütterung] diante do que sempre se mostrou incomensurável
aos homens, o Mana, o poder difuso da natureza. O deslocamento aprofundado do
núcleo ontológico do cosmo em um ponto originário da criação no mito, a fluidez
do poder infinito e amorfamente disperso pelos poderes naturais no pré-animismo
e na magia são aquilo que empresta à alteridade radical da natureza sua
evanescência suprema. A arte é um momento que procura conjurar essa efemeridade
ao se pôr como sua cópia objetivadora: prolongamento do transitório no
artefato. A arte produz uma mediação imagética que dá voz ao que transcende de
forma difusa a circunscrição das coisas como simples objetos, ao mesmo tempo em
que retira da transcendência a ilusão de ser literal, por confiná-la em uma
totalidade que se assume como mera aparência.
O segundo momento de apoio a nossa hipótese se dá na relação íntima que Adorno
estabelece entre conteúdo de verdade e historicidade na arte: "a história pode
se chamar o conteúdo das obras de arte" (ÄT 132/103); "analisar as obras
artísticas equivale a perceber a história imanente nelas armazenada" (ÄT 132/
103); "o conteúdo de verdade das obras de arte, do qual sua qualidade depende
finalmente, é histórico até o mais profundo de si mesmo" (ÄT 285/217); também é
significativa uma colocação nuclear de Adorno sobre o vínculo entre sociedade e
a forma estética: "Os antagonismos não resolvidos da realidade retornam às
obras de arte como os problemas imanentes da sua forma" (ÄT 16/16). Embora
provavelmente poucos comentadores de Adorno se sintam à vontade para empregar
argumentos interpretativos baseados em silogismos, parece-nos mais do que
legítimo dizer, associando a primeira passagem acima a estas últimas, que a
auto-transcendência da forma estética se dá precisamente em virtude do modo
como a história que se sedimenta esteticamente impele, constrange, à
ultrapassagem das vicissitudes próprias do confinamento monadológico de cada
obra. A história mostra-se como um plano de alteridade cuja força é
significativa para fazer com que a arte, em seu poder de mediação imagética,
afirme-se em sua essencial diferença perante a realidade empírica.
Seria difícil exagerar o quanto a distinção arte-empiria é significativa para
toda a estética de Adorno. Christopher Menke a exprime de forma exemplar: "as
obras de arte somente podem ser apreendidas em sua autonomia, na lógica própria
de sua apresentação e experiência, por quem as concebe em sua relação negativa
perante tudo o que não é arte"17. Como, por outro lado, é igualmente importante
enfatizar o modo como a historicidade extra-estética ainda permanece na arte -
"a arte é a antítese social da sociedade" (ÄT 19/19); "nenhuma sublimação é
bem-sucedida se não preserva em si o que foi sublimado" (ÄT 145/113) -, muito
do sentido da leitura adorniana do fenômeno estético consistirá em mostrar que
a arte somente faz sentido através de uma articulação absolutamente rigorosa de
seus elementos particulares, suficientemente capaz de produzir uma refração(e
não um aniquilamento) do significado que eles possuem na realidade empírica.
Esta quebra, esta ruptura, que Adorno associa ao conceito psicanalítico de
sublimação, constitui precisamente o momento de liberdadedas obras perante o
fluxo histórico e da realidade sócio-empírica (cf. ÄT 33/29 e 196/151). Para
nossos fins, importa salientar o quanto este processo de metabolização do
extra-estético lhe confere o caráter "explosivo", de uma força que impele à
transcendência da forma da obra. A historicidade imanente da arte seria fruto
de um modo sui generiscom que a arte é capaz de articular as tensões
contraditórias na realidade empírica, tornando eloquente aquilo que escapa à
racionalidade que conforma nosso olhar para o real em sua dimensão primeira.
Embora não tenhamos aqui espaço suficiente para desenvolver a temática, temos
nessa articulação conceitual um modo de compreender a importante noção
adorniana de "linguagem do sofrimento", na medida em que este último é tomado
como a experiência, o impacto e o significado subjetivos de uma série de
conflitos e contradições que incidem sobre o indivíduo nas diversas formas com
que o universal coletivo pesa sobre ele. Nessa medida, o sofrimento, sem sua
articulação rigorosamente estética, permanece mudo, ou seja, incompreensível em
sua racionalidade própria, sendo vivenciado de forma caótica, imobilista e
angustiada nas diversas espécies de neurose. - Em suma, segundo nossa leitura,
a alteridade substantiva da realidade empírica perante a arte é assimilada de
forma estética na medida em que, ao sofrer uma refração essencial, adquire um
poder de compelir à transcendência da obra por si mesma. Em vez de ser apenas
um destino exterior, a história nutre a arte intrinsecamente de um conteúdo que
a impele radicalmente a ir além de uma mera configuração empírica de elementos
materiais. Ao conferir uma eloquência ao que permanece recalcado na realidade
exterior, essa transcendência estética aponta enigmaticamente para um espaço de
liberdade reflexiva.
Tal caracterização, entretanto, não é isenta de certa problematicidade em seu
apoio na Teoria estética. Segundo Adorno, a categoria do sublime é aplicável à
arte como um todo, e não a cada obra particular. Em dois momentos ele afirma
isso:
Dever-se-ia contrapor ao hedonismo estético aquela passagem da teoria
kantiana do sublime, que ele, timidamente, recusa à arte: a
felicidade nas obras de arte seria, quando muito, o sentimento da
resistência, que elas medeiam. Isso vale antes para o domínio
estético como um todo do que para a obra de arte individual. (ÄT 31/
27; tradução própria)
Frente a obras de arte concretas não se deveria falar mais do sublime
sem a ladainha da religião cultural, e isso é derivado da dinâmica da
própria categoria. (ÄT 295/224)
O sublime em relação a cada obra singular, portanto, somente poderia ser
considerado como oco, vazio, já salientado por Welsch, em que a sublimidade
reside em procedimentos e temas de antemão considerados grandiosos, pomposos, e
que, com justa razão, são rechaçados por Adorno.
A ideia de que o domínio estético como um todo, historicamente considerado,
reserve um lugar para o sublime na arte nos parece correta, mas que esse lugar
somente exista se se considera a totalidade desse domínio, tal concepção se
apresenta incompatível com a ideia de que "obras em que a forma estética se
transcende, sob a pressão do conteúdo de verdade, ocupam o lugar que outrora o
conceito de sublime significava". Com efeito, se se pode perceber que há essa
autotranscendência da forma nessas obras, por que não se poderia falar delas
adequadamente segundo a categoria do sublime? Por que a interpretação
filosófica não seria capaz de perceber, em cada uma dessas obras em que a forma
se transcende, o seu caráter de sublimidade? - Aqui devemos voltar àquele
impasse de que falamos anteriormente, em que Adorno insistiu, de forma
paradoxal, em dizer que a relação temporal das obras de arte somente se dá na
singularidade de cada uma, e não na relação entre elas, pois agora vemos algo
também difícil de assimilar, mas que se encaminha para o outro extremo,
considerando a sublimidade apenas no âmbito macro, da história da arte em sua
totalidade. Isso aponta, segundo pensamos, para uma tensão inerente ao
pensamento adorniano, no que concerne ao significado da relação singular com
uma obra e aquele resultante do vínculo entre as obras particulares, e delas
com todo o movimento histórico. Não vemos aí, todavia, um índice de fraqueza de
sua concepção, mas sim de uma verdade relativa à própria experiência estética,
a saber, da impossibilidade de fixar uma identidade e diferença nítidas entre o
que constitui a arte a partir de um movimento histórico geral e cada obra na
medida em que é bem realizada.
De forma análoga a como o sublime kantiano é interpretado por Adorno como
testemunho da possibilidade de uma liberdade perante aquilo que reside no
próprio sujeito como um princípio de coerção da identidade, de modo que a
objetividade do objeto se exprime no questionamento dos princípios de
conformação subjetiva, a arte se mostra sublime na medida em que tenciona os
fios que tecem sua identidade e sua diferença em relação ao movimento macro de
constituição do âmbito estético. Tal como a identidade de cada obra não é dita
como definitiva, mas sim eivada das questões que permeiam a história dos
comentários, das críticas e das interpretações, o caráter artístico, por
depender da sedimentação histórica de conteúdos sociais na forma estética, se
firma e é colocado em xeque nessa relação tensa em que "cada obra é a inimiga
mortal da outra" (ÄT 59/49). A impossibilidade de fixação da identidade e da
diferença no conceito que se tenha da arte, ao mesmo tempo em que questiona a
fixação de seu sentido, demonstra o quanto este surge pelas sucessivas
instaurações particulares de sentido, que, como salientou Welsch, é contrariado
por cada uma delas. Se a forma é a síntese não violenta do disperso - pois a
particularidade ganha sua eloquência pelo modo como é acolhida em uma
totalidade que somente se firma ao aglutinar cada um de seus elementos
constitutivos e mantê-los em sua diferença -, então cada obra de arte
particular deverá se inserir em um movimento histórico em que essa totalidade
sedimentada processualmente se nutre das vicissitudes com que cada obra se
mostra refratária a esta acomodação.
Na busca por uma alteridade cuja diferenciação não signifique uma positividade
do que é (totalmente) outro em relação ao sujeito, o plano histórico, tomado
como um movimento de conjugação de forças que ultrapassam a perspectiva
individual, é concebido por Adorno, tal como dissemos, não como etapas
sucessivas de auto-reconhecimento de um Absoluto que se desdobra através delas,
como na filosofia hegeliana. Ao mesmo tempo, não é tomado como a soma dos
processos e eventos que se concatenam empiricamente. Trata-se de uma
objetividade social cuja unidade se constitui proporcionalmente ao modo com que
as diferenças entre os eventos particulares a ratificam e a contrariam. Na
medida em que a história "oficial", vivida de forma ao mesmo tempo consciente e
ideológica pela mediação dos discursos e saberes, demonstra a sedimentação de
relações de poder que recalcam ímpetos miméticos, próximos a planos mais
arcaicos de nossos desejos e sentimentos, as obras de arte apresentam-se como
testemunhos cifrados e enigmáticos deste estrato subterrâneo da história. A
arte não expõe uma verdade do particular em sua singularidade, mas sim exprime,
de forma radicalmente mediada pela configuração da imagem estética, o quanto o
singular alcança certa inteligibilidade perante sua mescla indissolúvel com
aquele substrato historicamente constituído. Deste modo, o caráter processual
das obras de arte passa por, mas ultrapassa, a necessidade de interpretação
contextualizada, de uma leitura historicamente informada, pois ele significa o
quanto o sentido propriamente estético da relação com a obra de arte implica o
que chamamos de relação mimética com o tempo histórico. Na demanda de exegese
de uma obra cujo instante não apenas espelha o movimento da história, mas o
evoca naquilo que ultrapassa o olhar racionalizado e dirigido à sua superfície,
tem-se que a relação de identidade e diferença, de semelhança e contraste -
elementos próprios da mímesis -, mostra o quanto a arte somente subsiste como
uma experiência-limite do que transcende o instante pelo modo como aglutina
enigmaticamente um sentido coletivo e ao mesmo tempo individual. Dessa não-
resolução se nutre o caráter enigmático da arte, que não se perde no abismo de
um mistério religioso/teológico/místico, nem tampouco se resigna a espelhar
imageticamente a sedimentação empírica do movimento histórico-social na
realidade das coisas, dos desejos, dos valores sociais etc.
A historicidade imanente ao estético mostra-se como o palco em que o movimento
de auto-transcendência da arte exprime as contradições, diferenças e conflitos
não-resolvidos da realidade exterior - tal como salienta parte da tradição de
comentários sobre este tópico em Adorno -, como também permite conceber um
plano de significação que ultrapassa as vicissitudes ligadas à singularidade
monadológica de cada obra, sem que isso implique o recurso a instâncias
metafísico-teológicas (tal como apontamos na leitura de Jan Rosiek) ou
conceitos de intersubjetividade comunicativa (como vemos na perspectiva de
Albrecht Wellmer), ao mesmo tempo em que nos permite ir além de uma
interpretação por assim dizer nietzschiana da estética de Adorno18 (ao modo
como Wolfgang Welsch concebe), que faz da exposição das contradições, do caos e
da negatividade dos particulares a caracterização do sublime em sua
significação total. Em virtude desta forma sui generis de enfrentamento e de
assimilação imagética do tempo histórico dizemos, então, que a arte moderna
seria historicamente-sublime.