A meditatio mortis montaigniana
O ensaio "Que filosofar é aprender a morrer" (I,20) está entre aqueles que
Montaigne escreveu logo que iniciou a composição dos Ensaios, e aproxima-se
muito da leçon (um conjunto de citações e de exemplos que serviam de base para
reflexões de caráter moral). Porém, ainda que incorpore ensinamentos da
tradição literária, não se trata apenas de uma "lição". Prova disso é Montaigne
se valer de autores estoicos e epicuristas, fazendo um uso livre de suas
formulações éticas e desvinculando-as de seu solo metafísico de origem. O
resultado é, como pretendemos mostrar aqui, uma apropriação particular do
vocabulário ético helenístico ("seguir a natureza").
A estrutura argumentativa do ensaio compõe-se de quatro partes: a 1ª
(parágrafos 1 e 2) relaciona o mote "filosofar é aprender a morrer" à vida
feliz por meio de uma oposição entre a virtude e a volúpia; a 2ª (parágrafos 3-
28) apresenta um embate entre a posição de Montaigne e a do "vulgo"; a 3ª
(parágrafos 29-47) é composta pelo "monólogo da Natureza"; por fim, na
conclusão (parágrafo 48), o autor critica as práticas funerais de sua época.
Vejamos em detalhe cada uma delas.
A 1ª parte é composta pelos dois parágrafos iniciais: o primeiro é bastante
curto, o segundo é um pouco mais extenso e desdobra a questão levantada no
anterior: a apresentação do mote herdado da Antiguidade. Montaigne mostra que a
noção segundo a qual a filosofia é uma preparação para a morte possui duas
origens, a platônica (da qual ele se afasta), e a helenística (da qual ele a
princípio se aproxima): "Diz Cícero que filosofar não é outra coisa senão
preparar-se para a morte" (I, 20, 81/120)1. Não deixa de ser significativa a
menção a Cícero como fonte do mote, pois é mais que sabido que a sua origem
encontra-se em Platão, que cunhou-o no Fédon, com o qual as Tusculanas mantêm
uma relação direta. No sentido platônico, a preparação para a morte reside na
filosofia ser um exercício ascético de separação da alma (que conhece) em
relação ao corpo (que obscurece o conhecimento, pelos desvios que os sentidos
impõem à alma). Este divórcio prenuncia a morte, que nada mais é do que a
separação da alma (imortal) de seu invólucro carnal ' o corpo (mortal). Ao
contrário de ver na filosofia o exercício antecipatório de uma separação alma/
corpo, os helenísticos, para os quais a vida humana é finita, veem na aceitação
da morte algo necessário para a construção de uma vida feliz; ela faz parte da
condição humana; precisamos aceitá-la como uma imposição da natureza. Para os
estoicos a morte não deve ser temida, seja porque não é um mal, e sim um
"indiferente" (ocasião de aprimoramento moral), seja por fazer parte da ordem
racional e divina da natureza. Ambas as filosofias sabem o que é a morte; os
ensinamentos morais delas oriundos, relativos à finitude humana, têm, portanto,
uma forte sustentação ontológica.
Já na 1ª parte do ensaio Montaigne não adere a nenhuma corrente em particular
quando afirma que as escolas (toute la sagesse et discours) que viram a
filosofia como preparação para a morte coincidem ao dizer que filosofar é
ensinar o homem a viver bem (a ser feliz), o que tem como correlato o destemor
da morte. Todos concordam em que os homens desejam ser felizes, e em que a
filosofia é o caminho para se chegar à felicidade: "Na verdade, ou a razão se
abstém ou ela deve visar apenas a nosso contentamento, e todo o seu trabalho
deve ter como objetivo, em suma, fazer-nos viver bem e a nosso gosto (aise)"
(I, 20, 81/120)2. Convém dizer que o termo aise ("bem estar") associa-se à
eudaimonia enquanto vida boa e bem sucedida. A filosofia nos põe na direção
correta de sermos felizes, o que nasce não da entrega às paixões, mas do
exercício do julgamento e do cálculo correto da ação. O 1o parágrafo termina
afirmando que todos coincidem na ideia de que o papel da filosofia é o de
conduzir os homens à vida feliz e de ensiná-los a viver bem: "Todas as opiniões
do mundo coincidem em que o prazer é nossa meta (but), embora adotem meios
diferentes para isso" (I, 20, 81/120)3. Esta referência ao plaisirassinala que
a reflexão montaigniana sobre a morte está vinculada ao tema da felicidade
humana e do lugar que nela é ocupado pelo prazer. Quem desfizesse da felicidade
não seria sequer ouvido: "pois quem escutaria alguém que estabelecesse como fim
nosso penar e descontentamento?" ' completa Montaigne na sequência (I, 20, 81/
120)4, fazendo questão de reforçar que o consenso entre toutes les
opinonsacerca da finalidade da vida e dos ensinamentos morais é a busca da
felicidade, ainda que haja divergências (divers moyens) quanto à forma da
condução mais indicada e eficaz para alcançarmos este fim.
O 2o parágrafo afirma, por sua vez, que as diferenças entre as correntes do
pensamento antigo resumem-se a uma pura distinção de palavras: "As dissensões
das seitas filosóficas, nesse caso, são verbais" (I, 20, 81/120)5. As
discordâncias são sutilezas verbais que não merecem sequer atenção; são fruto
de obstinação e de provocação (d'opiniastreté et de picoterie), o que,
inclusive, denigre um pouco a reputação de homens entretidos com uma ocupação
tão séria (si saincte profession) (I, 20, 81/120). Montaigne confirma a sua
independência face à autoridade da tradição, tanto pela incorporação de um
ensinamento epicurista (a felicidade liga-se ao prazer) em um ensaio no qual
Sêneca está muito presente, como pela redução da polêmica entre as escolas à
uma mera "distinção de palavras". Se pensarmos que o estoicismo e o epicurismo
constituíram-se pelo embate que travaram entre si, chamar tal discussão de
dissenção "verbal" é esvaziar-lhes o dogmatismo. De qualquer forma,
independentemente das "diferenças" pouco louváveis encontradas entre as seitas
filosóficas, elas concordam naquilo que é decisivo: "Não importa o que eles
digam, na própria virtude o fim último a que visamos é a volúpia " (I, 20, 82/
120)6.
Este contrapor-se à noção platônico-estoica segundo a qual a vida virtuosa
resulta de uma adoção de hábitos austeros e inacessíveis ao homem comum é
bastante provocador: "Apraz-me azucriná-los com esse termo pelo qual têm forte
aversão" (I, 20, 82/ 120)7. Contudo, esta diferença marcada da posição de
Montaigne em relação aos que tratam a virtude de maneira mais ascética,
dificilmente seria, ela mesma, puramente uma divergência "verbal" menor. Ele
não se distingue de muitos (talvez da maioria) por uma simples questão
d'opiniastreté et de picoterie, pois existe no ensaio uma concepção bastante
particular da vida virtuosa e feliz.
A palavra "volúpia" tem conotações ligadas aos prazeres do corpo, ao
sensualismo, à entrega às paixões; usá-la como o termo que designa o fim último
da virtude não é algo gratuito ou sem consequências. Ora, Montaigne não apenas
utiliza um termo que indica "um supremo prazer e extensa satisfação", mas o
aplica à virtude: "ele convém melhor para apoiar a virtude do que para apoiar
qualquer outra coisa" (I, 20, 82/120)8. Tal associação entre volúpia e virtude
estabelece, porém, uma distinção clara no uso do termo, visando especificar
aquilo que torna a virtude voluptuosa, já que, para Montaigne, ela é prazerosa
e leva ao contentamento. Para tanto, ele diferencia duas volúpias: uma está
ligada à virtude; a outra, plus basse, liga-se às paixões e conduz à dor. Esta
distinção leva em conta que a virtude autêntica é mais forte, nervosa, robusta
e viril (plus gaillarde, nerveuse, robuste, virile [I, 20, 82/120]). O filósofo
chega a criticar o erro de enxergar na "baixa" volúpia a fonte de alegria e de
felicidade; ela é desqualificada por ser menos isenta de incômodos e de
obstáculos do que a virtude autêntica, que produz autêntica volúpia. Aquilo que
existe de negativo na "baixa" volúpia é que, nela, a apreciação dos prazeres é
momentânea, fluida e periclitante (son goust est plus momentanée, fluide et
caduque [p.82/121]); aqui tudo está ligado aos impulsos e não ao caráter (que é
resultado da virtude estável). Fora isso, ela comporta mais dores do que
prazeres ("ela tem suas vigílias, seus jejuns e suas lidas, e o suor e o
sangue" [I, 20, 82/121]9), dores que, aparentemente, servem de aguilhão para o
prazer ("Erramos grandemente ao julgar que essas inconveniências lhe servem de
aguilhão e de comedimento para sua doçura" [I, 20, 82/121]10). Tais dores, no
fundo, acabam por tornar esta volúpia pesada demais, levando a "uma saciedade
tão pesada que se iguala à penitência" (I, 20, 82/121)11.
Só a vida autenticamente conduzida pela virtude é, segundo o autor dos Ensaios,
voluptuosa; a sacieté si lourde o é falsamente, visto ser permeada de excesso e
desregramento. Por outro lado, Montaigne critica aqueles que afirmam que a vida
virtuosa, na qual ele localiza a autêntica volúpia, é dolorosa. Da mesma forma
como os defensores da "baixa" volúpia erram ao ver os empecilhos que lhe são
próprios como uma espécie de condimento das paixões, como um aguilhão dos
prazeres, estão igualmente equivocados aqueles que identificam uma vida
virtuosa com uma constante e penosa prática de sacrifícios, que a tornam
inacessível à maioria dos homens e acessível a raríssimos sábios. Tal visão é,
segundo o filósofo, distorcida; resulta do falso entendimento dos que
desconhecem o que seja a virtude. Ele mostra que é incorreto tomar os
empecilhos da "baixa" volúpia como componentes que visam a tornar-lhe mais
intenso o prazer. E é igualmente incorreto ver nas pretensas dificuldades da
vida virtuosa elementos que "enobrecem, aguçam e realçam o prazer divinal e
perfeito que ela nos proporciona" (I, 20 82/121)12.
As formulações mais corretas sobre este problema parecem ser outras, e podem
ser reconhecidas quando revertemos os termos presentes nestas duas formulações
equivocadas. Ao invés da comum distinção "virtude/(baixa) volúpia", Montaigne
estabelece a associação "virtude/volúpia". Ele faz isto porque a vida virtuosa,
preenchida pela autêntica virtude, que é gaillarde, nerveuse, robustee virile,
é verdadeiramente aquela vida feliz que todos buscam e que os filósofos
reconhecem como o nosso desejo último. Montaigne identifica, em suma, a
existência de duas opiniões, uma acerca da volúpia (tida como a felicidade
acessível a todos), outra acerca da virtude (tida como a felicidade acessível
apenas aos sábios) ' e desqualifica as duas, por serem equivocadas e resultarem
de um erro grosseiro. A virtude não se localiza num "além", assim como a
felicidade não se localiza no futuro distante, pois ambas (virtude e
felicidade) engendram-se mutuamente. Só diz que a virtude é dolorosa quem não é
virtuoso: "Por certo é bem indigno de conviver com a virtude aquele que iguala
seu custo ao seu fruto, e não lhe conhece nem as graças nem o uso" (I, 20, 82/
121)13. Os homens de virtude sabem que ela não separa, ao longo da vida, o seu
custo e o seu fruto (son couste son fruit). Ascetismo e concepções rígidas da
virtude são rejeitados por Montaigne, que sabe não haver distinção, na virtude,
entre meio (a busca, pretensamente dolorosa e ascética, da virtude) e fim (o
gozo pleno das benesses da virtude adquirida), tanto que escreve: "em todos os
prazeres que conhecemos a própria busca é aprazível. O empreendimento impregna-
se da qualidade da coisa a que visa, pois é uma boa parcela da coisa em si e
tem a mesma natureza dela" (I,20, 82/121)14. Alegria e prazer se fazem
presentes em todos os momentos da vida prazerosa: "A ventura e a beatitude que
reluzem na virtude enchem todas as suas dependências e vias de acesso, até a
primeira entrada e a última barreira" (I, 20, 82/121)15. Ora, entre os
benefícios da virtude está o desprezo pela morte, cujo temor não combina com
uma vida feliz.
Segundo Marcel Conche, Montaigne compartilha com Platão a visão de que a vida
feliz é uma vida mistaque combina prazer e temperança, ainda que o platonismo,
na visão montaigniana, eleve a razão humana a um lugar muito alto e reserve ao
corpo humano e aos desejos carnais um lugar muito baixo. No entendimento de
Conche, para o autor dos Ensaios, o homem não é a associação de um animal e de
um deus. A alma deve unir-se ao corpo porque é preciso consentir à vida
corpórea, o que não significa uma resignação à nossa condição, e sim a obtenção
de prazeres que nela possam existir. Além disso, Montaigne não reconhece que o
prazer do conhecimento seja "puro", se em nada porque não concebe o
conhecimento como o produto da separação da alma em relação ao corpo. Por seu
turno, Epicuro vê a saúde como sinônimo do prazer, como um sentimento agradável
que viver causa quando estamos livres de ameaças e incômodos. A novidade
epicurista, que tanto escândalo causou entre os estoicos, teria sido, de acordo
com Gérard Lebrun, tomar a saúde como critério de apreciação do bom e do mau.
Marcel Conche chega a afirmar que, para Epicuro, o prazer de ter le ventre
plein é fundamental. Na visão epicurista, comer e beber, por serem prazeres em
movimento, são ainda mesclados de dor; já o prazer de ter le ventre plein é um
prazer do repouso.
No estoicismo, o prazer é contrário à natureza. Marcel Conche compara
Aristóteles e os estoicos mostrando que, enquanto o primeiro não viu nenhum mal
nos prazeres corporais, mas apenas no seu excesso, os últimos entendem que o
prazer invariavelmente comporta um excesso. Montaigne, portanto, distancia-se
do estoicismo ao afirmar que todo o trabalho da razão tende a nos fazer viver
bem e à notre aise. Mas ' perguntamos ' as afirmações feitas no início do
ensaio I,20 (le plaisir est notre but; en la vertu même, le dernier but de
notre visée, c'est la volupté) aproximam-no ou não do epicurismo? Ora, para os
epicuristas, o homem, para ser feliz, deve simplificar a vida renunciando a
tudo o que seja vão e supérfluo; deve reduzir suas exigências e limitar os seus
desejos àqueles que Epicuro chamou de "naturais e necessários", aos quais opôs
os "naturais e não necessários", e, sobretudo, os desejos que não são "nem
naturais nem necessários". Estes últimos, com os quais os homens mais se
debatem, devem ser excluídos da vida do sábio porque eles não nascem da
naturezae sim da opinião; por isso, são vazios e sem objeto. Ser feliz é
restringir-se aos desejos "naturais e necessários" que, por serem finitos,
podem ser completamente satisfeitos. Uma vez satisfeita a natureza, temos todo
o prazer possível. Ao invés disso, os desejos "não naturais", originados
daopinião e não da natureza, por serem vazios, são insaciáveis e infinitos. O
sábio epicurista faz a triagem dos desejos e atém-se àqueles que, oriundos da
natureza, podem ser realizados. O insensato não apenas desconhece tal
distinção, como entrega-se aos desejos vãos e vazios, criados artificialmente
pela opinião; e nunca é feliz porque estes desejos não têm satisfação possível.
Se Montaigne se afasta dos platônicos e dos estoicos por reconhecer neles
aquilo que Conche denomina sentimentos negativos e tendências autorepressivas,
autoacusadoras e ascéticas, ele aparentemente se aproxima dos epicuristas. Mas
tal aproximação não indica adesão. Epicuro valoriza o prazer de ter le ventre
plein, atendo-se à satisfação de ter comido (ainda que Platão já tivesse dito
que a ausência de dor é simples aparência de prazer). Montaigne dá valor ao
prazer de comer, de estar comendo. Como diz Marcel Conche, o primeiro encontra
prazer no repouso, o segundo insere-o no movimento, pois "ama a mudança" e
alcança contentamento no "inacabado". Além disso, Montaigne também rejeita, em
Epicuro, o que rejeitara em Platão: a presença de prazeres "puros". Como o
platonismo associa tais prazeres apenas à alma, e o epicurismo vincula os
prazeres "naturais e necessários" ao corpo, conclui-se que os preceitos das
duas filosofias são igualmente muito rigorosos, e obstaculizam a entrada da
vida virtuosa ao impor ao homem limites dos quais ele não é capaz.
Na verdade, se a associação entre volúpia e virtude caracteriza a postura
montaigniana quanto ao problema da vida feliz, isto não o aproxima de Epicuro e
sim de Aristóteles, para quem a felicidade, que não existe sem o prazer, é o
fim de nossas ações. Pensamos que, ao invés de dizer que Montaigne "ama a
mudança" e contenta-se com o "inacabado", seria mais correto aproximá-lo do
aristotelismo, que associa o prazer à virtude, entendida como uma disposição
para atos bons (criada pela repetição e pelo hábito), que produz a ação fácil e
desimpedida, que ele realiza à son aise, isto é, seguindo um movimento conforme
a sua natureza moral (sua disposição, seu ethos).
Os homens, como sabemos, não perseguem o mesmo prazer. A maioria se fixa nos
prazeres corporais que, por nos serem familiares, muitos julgam ser os únicos
existentes, o que o homem virtuoso, por seu turno, sabe ser falso. O sábio tem,
inclusive, a noção exata de que os prazeres corporais, por admitirem excesso,
podem tornar o caráter perverso. A Ética a Nicômaco distingue entre os prazeres
ligados à atividade e os prazeres ligados a estados e processos (aqueles que
nos restituem ao nosso estado natural: comer, por exemplo). Estes se ligam a
coisas agradáveis por acidente, e, como atuam em processos, costumam agir como
remédios; são prazeres acidentais. Já o primeiro tipo é ocupado pelos prazeres
ligados a coisas agradáveis por natureza e que estimulam a atividade. Eles não
são devires e tampouco se ligam ao devir, mas à atividades e a fins; são
produzidos quando fazemos uso de nossas potencialidades. Além disso, eles não
têm um fim diferente deles próprios, tal como ocorre com os prazeres que
reconstituem a nossa perfeição natural. Se nenhuma atividade impedida é
perfeita, e se a felicidade está na classe das atividades perfeitas, a
definição aristotélica não poderia ser outra: a felicidade é atividade
desimpedida de todas as nossas disposições ou de algumas delas. Cremos que algo
próximo disso é o que leva Montaigne a dizer que seu maior desejo é viver à son
aise.
Por fim, separando o pensamento montaigniano do epicurismo, há, segundo Conche,
a polêmica relativa à distinção rígida que os epicuristas fazem entre desejos
que são produtos da natureza e desejos que brotam da opinião. Para o autor dos
Ensaios, os desejos humanos não permitem esta triagem porque a natureza humana
é uma segunda natureza criada pelo hábito. Montaigne, portanto, não rejeita a
noção epicurista de desejo "natural e necessário" apenas por vê-lo com uma
espécie de contraface da noção platônica de desejo "puro". Para ele, todos os
desejos humanos nascem das opiniões que o costume naturaliza. Nascidos da
opinião e da imaginação, são todos invariavelmente vazios e vãos. No entanto,
estas coisas vazias e vãs que são a opinião e a imaginação tornam-se, na
filosofia montaigniana, a essência do homem16. Diferentemente dos estoicos,
Montaigne concebe o prazer como finalidade, isto é, aproxima-se dos
epicuristas, ainda que reconheça o prazer não no repousoe sim no movimento. Por
outro lado, próximo dos epicuristas, ele elege o prazer como guia e signo de
uma vida conforme a natureza, adotando o conselho de "seguir a natureza".
Entretanto, inverte o sentido que este ensinamento tem nas filosofias pós-
aristotélicas: se o prazer é signo de uma vida conforme a natureza, a
"natureza" é, agora, produto do costume, visto que nossa natureza não passa de
costumes inveterados.
Tal processo de naturalização das opiniões costumeiras é explicado por Marcel
Conche nos seguintes termos. Analisando a natureza do homem, Montaigne
discerne, por trás dela, o costume; e, por trás do costume, a opinião. Ora,
todas as opiniões humanas são vazias e insubstanciais porque, face a uma razão
que exigiria uma verdadeira justificação, cada uma delas é tão válida e
arbitrária quanto a contrária. A verdade é que as opiniões acabam por
constituir a nossa substância e a nossa natureza; delas nasce uma maneira
costumeira de viver e de agir, da qual resulta, por sua vez, uma nova maneira
de ser, uma nova determinação de nossa natureza17. Chamemo-la ainda de
"natureza", pois aquilo que o costume imprimiu em nós é tão poderoso quanto
ela. Natureza é, em suma, o uso que vamos fazendo de nós mesmos. Quando
Montaigne formula, com vocabulário epicurista, que o prazer é um guia natural a
ser seguido no rumo da boa vida, ele, na verdade, vale-se de uma formulação
literária tradicional ' mas para esvaziá-la de seu dogmatismo original. Eis o
ponto que mais nos interessa: a renovação da meditatio mortispor meio do uso
das formulações morais que se apoiavam na noção metafísica de natureza. O ponto
alto desta originalidade da meditatio mortismontaigniana é o "monólogo da
Natureza" (final do I,20), no qual os ensinamentos ético-metafísicos da
tradição transformam-se em meros argumentos com os quais Montaigne entretém a
própria imaginação, visto que é ela que teme a morte.
A 2ª parte do "Que filosofar é aprender a morrer" é um trecho bastante extenso
que vai do 3º ao 28º parágrafo. Montaigne, agora, contrapõe-se àqueles que
viram as costas para a morte, tentando a todo custo ignorar essa fatalidade
inalienável da condição humana: todos morreremos. O "vulgo" recusa-se a
qualquer tipo de preparação para a morte. Tal postura é tida pelo filósofo como
a pior que se pode adotar, por vários motivos, que ele fará questão de
detalhar, tanto que arrola argumentos e exemplos que visam a combater esta
recusa de pensar na morte. Para tanto, ele mobiliza um conjunto grande de
ideias, examina uma considerável gama de opiniões, e lança mão de todos os
recursos possíveis para desqualificar a opinião do "vulgo": exemplos
(literários ou não), citações célebres de autores helenísticos, traços de seu
autorretrato.
Montaigne assume duas posições relativas ao enfrentamento da morte como
condição de vida virtuosa e feliz: devemos encarar a determinação fatal de
nossa condição porque a morte é universal e inevitável; e devemos saber afastar
o temor que isto nos causa se quisermos ter uma vida feliz. Estas duas
constatações são as bases de sua argumentação para derrubar a disposição do
"vulgo" para a cegueira; a elas acrescentar-se-á o recurso ao autorretrato. Por
enquanto, estas duas ideias já permitem a Montaigne firmar uma posição e
defender suas opiniões a partir da convicção expressa numa frase célebre: "A
morte é o objetivo (but) de nossa caminhada, é o objeto necessário de nossa
mirada" (I, 20, 84/123)18. Se tomarmos butcomo equivalente a "objetivo", firma-
se a convicção, adotada por vários leitores, de que o filósofo vê a morte como
"finalidade" de nossa vida, e não o seu "fim" (conclusão, término). Cremos ser
importante notar que, com o termo but, reforçado pela expressão nostre visée, a
finitude penetra nossa vida, que caminha para o fim; se ela fosse só o bout,
seria externa, exterior à vida. Também vale reforçar que Montaigne utiliza o
termo butpara a morte e para o prazer (a meditatio mortis, sempre inserida no
quadro da vida feliz, implica em uma reflexão sobre o prazer). A frase lapidar
le but de nostre carriere, c'est la mort é seguida da refutação, por Montaigne,
da opinião defendida pelo "vulgo": "O remédio do vulgo é não pensar nisso" (I,
20, 84/123)19. Tal postura é por ele fortemente desqualificada na pergunta:
"Mas de que brutal estupidez lhe pode advir uma tão grosseira cegueira?" (I,
20, 84/123)20. Os termos pejorativos brutale stupidité e grossier aveuglement
designam uma postura inadequada ao homem de juízo, pois ela rebaixa nosso
entendimento e nossa dignidade.
Contudo, não há exemplaridade mais eficaz nos Ensaios do que a do próprio autor
(de onde o autorretrato). Montaigne, como vemos, elege um adversário (o
"vulgo") contra o qual entra em disputa direta, tentando vencer a disposição
para a cegueira que este assume diante da morte. Ele mostra que prepararmo-nos
para ela é o melhor caminho que podemos seguir; apenas assim teremos uma vida
sem o temor que compromete a felicidade. No conjunto dos argumentos que compõem
este embate, destaca-se a utilização do próprio caráter moral do filósofo (seu
ethos ou sua "natureza"), decisivo para consolidar a força das suas respostas
ao "vulgo". Montaigne começa referindo-se a si mesmo, dizendo que acaba de
completar 39 anos e que, provavelmente, tem ainda outro tanto a viver. Mas ele
não acredita que, em sua idade, a morte esteja fora de cogitação. A
possibilidade de ter ainda metade da vida a viver não o engana; serve-lhe,
antes, de reforço para enfatizar a universalidade e a inevitabilidade da morte.
A listagem cômica de mortes imprevistas leva à interpelação: "Com esses
exemplos tão frequentes e tão comuns passando ante nossos olhos, como é
possível que possamos nos desembaraçar do pensamento da morte, e que a cada
instante não nos pareça que ela nos agarra pela gola?" (I, 20, 85/126)21. Tal
pergunta, calcada em casos irrefutáveis, colhidos seja nos relatos históricos,
seja no campo do l'effect et l'experience(do qual os livros também fazem
parte), deveriam silenciar o "vulgo", pois tais casos confirmam a necessidade
de preparação constante para a morte. Não é o que ocorre.
A discussão prossegue e Montaigne se depara com uma objeção do "vulgo" que opõe
aos raciocínios do filósofo a constatação de que, ainda que a morte possa nos
surpreender a qualquer momento, e pelos mais variados motivos, isso nada conta,
desde que "não nos atormentemos com isso" (I, 20, 85/ 126)22. Nota-se que esta
objeção tem alguma força: não é porque a morte é universal, inevitável e
imprevisível, que devemos, obrigatória e necessariamente, pensar nela o tempo
todo. Dada a sua pertinência, tal ponderação é, inclusive, assumida por
Montaigne, quando afirma "sou da mesma opinião (je suis de cet avis)",
completando que "seja qual for a maneira como possamos nos proteger dos golpes,
mesmo que sob a pele de um bezerro, não sou homem de recuar diante disso" (I,
20 85/126)23. Mais uma vez ele confessa que o seu propósito é o de seguir uma
vida feliz e sem tormentos, valendo-se de qualquer meio para se livrar dos
golpes da fortuna; não se sente nem um pouco constrangido a portar-se com a
dignidade de um sábio estoico: "me basta passar o tempo como me agrada; e a
melhor situação que eu me possa conceder, adoto-a, por menos gloriosa e
exemplar aos outros que vos parecer" (I, 20, 85-86/126)24. Disposto ao debate,
Montaigne concede, assim, alguma validade à posição do "vulgo", reconhecendo
que, mesmo conscientes da imprevisibilidade da morte, não é necessário que
passemos o tempo todo rigidamente pensando nela. Muitas vezes, o esquecimento
da morte pode ser benéfico, pois a sua perspectiva constante diante de nós pode
nos atormentar e paralisar. Não se deve dizer, então, que as opiniões do
"vulgo" são, todas elas, indignas de consideração. Como esta última tem algum
peso, Montaigne não a rejeita completamente; todavia, ela não anula a sua
defesa da preparação constante para a morte como a exclusiva atitude de um
homem de juízo. Não pensar na morte o tempo todo se diferencia de uma distração
absoluta, e, em especial, da "cegueira" e da "estupidez" de quem não leva a
morte "tão a sério", tomando um caminho equivocado rumo à vida feliz. Como diz
o filósofo, "é loucura pensar em chegar assim a isso" (I, 20, 86/127)25. Não
pensar na morte é pior do que pensar nela, que é a melhor trilha que podemos
seguir, tanto que o autor dos Ensaios continua sustentando o porquê devemos nos
manter firmes em tal via.
Os argumentos em favor da preparação para morrer caminham no sentido de mostrar
que a desatenção pode ter consequências nefastas. Os homens inconscientes vivem
bem até o momento em que a morte chega (em geral de modo imprevisto); é quando
se deparam com uma autêntica tragédia:
Os homens vão, vêm, andam, dançam e nenhuma notícia de morte. Tudo
isso é muito bonito. Mas, também quando ela chega (...) que
tormentos, que gritos, que dor e que desespero os abatem! Já vistes
algum dia algo tão rebaixado, tão mudado, tão confuso? (I, 20, 86/
127)26.
Paga-se caro demais por não pensar na morte. A postura da maioria dos homens (a
nonchalance bestiale) nous vend trop cher ses denrées. Inexiste, então,
alternativa melhor que a de preparar-se contra este inimigo invencível:
"aprendamos a enfrentá-lo de pé firme e a combatê-lo" (I, 20, 86/128)27. Eis-
nos diante do vocabulário "bélico" que sustenta a leitura daqueles que vinculam
o ensaio I,20 ao estoicismo. De qualquer forma, depois deste arrazoado que
reitera que a morte, diferentemente dos demais infortúnios próprios à condição
humana, é universal, inevitável e imprevisível, Montaigne defende a
premeditação como o caminho a ser seguido, numa direção oposta à do "vulgo".
Devemos seguir na contramão, trilhar a via incomum e invulgar, exclusiva dos
homens de juízo: "tomemos um caminho totalmente contrário ao habitual.
Eliminemos-lhe a estranheza, trilhemo-lo, acostumemo-nos a ele" (I, 20, 86/
128)28. Eis, então, aquilo que praticamente encerra a polêmica travada ao longo
de quase toda a 2ª parte do ensaio: "Não pensemos em nenhuma outra coisa com
tanta frequência quanto na morte. A todo instante, representemo-la à nossa
imaginação e sob todos os aspectos" (I, 20, 86/128)29. Adotemos uma atenção
vigilante diante da possibilidade de morrermos; façamos isto em qualquer
situação cotidiana.
Voltamos ao ponto em que a reflexão montaigniana liga-se à concepção
aristotélica de que a virtude nasce do hábito. No que tange à coragem para
enfrentar o medo de morrer, temos como alternativa primeira a meditatio mortis.
Todavia, ainda que a preparação virtuosa para morrer encontre neste hábito de
meditar um bom caminho, persiste o paradoxo de que morrer é, ao mesmo tempo, a
nossa maior tarefa e algo que nos ocorre uma única vez. Como gerar uma
disposição moral diante daquilo que não permite repetição?
Tal questão, levantada no I,20 na última objeção do "vulgo" a Montaigne, é
retomada no ensaio "Do exercício" (II,6) e equacionada por meio daquilo que é a
pedra de toque da experiência montaigniana da morte: a imaginação (exercida na
meditatio mortise validada no exercício aproximativo do morrer relatado no
II,6). A justificação para isso reside na percepção de que, em primeiro lugar,
a morte é uma experiência humana que só pode ser imaginada; para ela, só é
possível encontrar substitutos imaginativos(sono e desmaio). Em segundo lugar,
porque, como vimos dizendo, a originalidade de Montaigne na tradição das
filosofias da morte, em especial as helenísticas, reside na transformação do
vocabulário por elas construído com base na metafísica em argumentos de função
imaginativa e consolatória. Esta operação é possível porque, se pensarmos com
Marcel Conche, para Montaigne a imaginação é não apenas o solo original das
opiniões que o costume naturaliza e transforma em razões: ela é a própria
essência do homem.
Mas analisemos um pouco mais o autorretrato. Montaigne reafirma a sua
predisposição "natural" (gerada pelo hábito) para a premeditação da morte:
"nunca um homem duvidou tanto de sua vida, nunca um homem contou menos com sua
duração" (I, 20, 88/129)30. Esta tendência se faz presente nele cotidianamente,
pois é algo que constitui "de dentro" o seu caráter: "Como homem que
continuamente vou incubando meus pensamentos e dando-lhes a luz em mim, a todo
o momento estou preparado para o que posso ser" (I, 20, 88/130)31. Ele exercita
a premeditação em função de sua tendência "natural": "A cada minuto me parece
que escapo de mim" (I, 20, 88/129)32. E confirma que, homem que continuamente
"incuba" seus pensamentos e os dá à luz em si, experimenta (sempre
experimentou) que a preparação para a morte é a conduta correta e adequada de
um homem de juízo, distinto do "vulgo", o qual, mergulhado na brutale
stupidité, no grossier aveuglemente na nonchalance bestiale, é incapaz de
exercer qualquer bom julgamento (não pensar na morte é a prova disso). O papel
central do autorretrato deve-se, então, à exemplaridade moral que ele fornece
ao conjunto dos argumentos que compõem a polêmica com o "vulgo". Após a
desmontagem paulatina da opinião comum, o golpe final se encontra na força com
que o filósofo assegura, a partir de sua própria experiência, que a
premeditação da morte é própria de um homem de juízo, e que, efetivamente, ela
torna a vida melhor. Tanto é assim que na conclusão deste trecho aparece outra
célebre citação de Sêneca que Montaigne mais uma vez toma como sua: "Quem
ensinasse os homens a morrer estaria ensinando-os a viver" (I, 20, 90/133)33.
Finalmente, no parágrafo 16, a pugna entre o filósofo e a brutale stupiditédo
"vulgo" se encerra, não sem que antes este lhe dirija um argumento extremo:
"Dir-me-ão que a realidade ultrapassa de tão longe a imaginação que não há
batalha tão fácil que não se perca, quando se chega a ela" (I, 20, 90/133)34.
Trata-se de uma objeção importante, dado que o "vulgo" não se engana ao afirmar
que, efetivamente, nunca estamos preparados para enfrentar a morte, pois não
sabemos como reagiremos quando chegar a nossa vez. Morrer é uma experiência
única, que extrapola qualquer exercício da imaginação. Só saberemos como
reagiremos quando lá chegarmos. Diante disto, o exercício premeditativo pode,
ao fim e ao cabo, revelar-se vão. Quem garante que uma longa preparação será
mesmo útil e nos tranquilizará no momento de morrermos? Apenas no instante
efetivo da morte conheceremos nossa reação, ou seja, no mais singular de todos
os instantes. O "vulgo" questiona a validade da experiência, que não valeria
para a morte visto que morrer não permite a geração de um hábito. Tanto é assim
que Montaigne reconhece-lhe algum sentido; permanece, todavia, seguro de sua
posição, virando-lhe as costas quando afirma: "Deixai-os falar; sem a menor
dúvida, premeditá-la dá grande vantagem" (I, 20, 90/133)35. Montaigne continua
certo de que a preparação para a morte, ainda que não possa nos ensinar a
morrer bem, dada a impossibilidade de exercício antecipatório, leva-nos a viver
bem. A resposta ao golpe extremo do "vulgo" é sucinta: Laissez les dire.
Premeditar a morte é muito mais vantajoso do que não pensar nela. O debate está
concluído. Os parágrafos finais (19-28) marcam uma transição para a 3ª parte do
ensaio. Tal transição é permeada por um discurso consolatório, ainda na voz de
Montaigne, que, de modo paulatino, acaba por ceder a palavra à natureza.
A meditatiomontaigniana se equaciona mais claramente quando enfrenta a
dificuldade da preparação para a morte nos seguintes termos: morrer é algo que
só pode ser imaginadoe não vivido; a imaginação, porém, deforma e distorce
tudo, tornando terrível aquilo que na maioria das vezes não o é. Logo, é a
faculdade da imaginação, e não a do entendimento, que precisa de apoio e
sustentação; é a ela que a meditação deve, por fim, dirigir-se. Como diz Luiz
Eva: a imaginação, em Montaigne, não é apenas um veículo das perturbações, mas
um "instrumento de dizimação dos males que ela mesma gera"36. Prova disto é
justamente a articulação argumentativa do ensaio I,20: esgotados os argumentos
dirigidos ao "vulgo", chega o momento de acalmar a imaginação, tanto a dos
leitores, como a do próprio Montaigne (da mesma forma que, nas Cartas a
Lucílio, Sêneca também fala a si próprio). Este é o sentido maior do
consolatório "monólogo da Natureza".
Em resumo: o ensaio I,20 discute e equaciona um problema moral. Resolvido este,
ou antes, defendido um ponto de vista (na 2ª parte do ensaio), a questão se
resume (na 3ª) em sensibilizar o leitor, movendo-lhe os afetos, em relação à
perspectiva defendida, e isto é feito pela incorporação de elementos
consolatórios herdados da tradição. O "monólogo da Natureza" ilustra, contudo,
o modo como Montaigne reinventa a tradição da meditatio mortisapropriando-se do
vocabulário moral a ela ligado, mas apagando sua vinculação metafísica
original. Ele configura, ao nosso ver, aquilo que Jean Starobinski chama de
"apóstrofe do espírito à imaginação"37, presente em uma passagem do ensaio "Da
experiência" (III,13), na qual o espírito lança mão de argumentos para acalmá-
la, pois, como dissemos, é ela que teme a morte.
Starobinski afirma ter Montaigne, no ensaio "Que apenas após a morte se deve
julgar sobre nossa felicidade" (I,19), encarado a hora mortiscomo unificadora
dos atos humanos ' e logo abandonado esta ideia. Esta mudança seria confirmada
pela aceitação de uma das advertências do "monólogo": a morte não nos diz
respeito nem vivos nem mortos; vivos, porque existimos; mortos, porque não mais
existimos. Segundo o intérprete, a partir desta ideia Montaigne teria passado a
ver que a vida é uma longa hora da verdade, e isto o levou a um retorno ao
presente e a uma aceitação da finitude. Acreditamos, porém, que tomar esta fala
de Epicuro como uma expressão do pensamento do autor dos Ensaios só tem sentido
se a submetermos à articulação do I,20, isto é, se percebermos que o "monólogo
da Natureza" serve para consolar e confortar a imaginação. A exigência deste
cuidado vem da constatação de que esta parte do ensaio explicita a inovação a
que Montaigne submete as artes de morrer helenísticas, as quais, como disse
Jules Brody, forneceram-lhe, de antemão, o modelo para romper com as artes de
morrer cristãs. Tal inovação reside em um tratamento muito particular do
vocabulário e dos conceitos morais com os quais as escolas antigas formulam
conselhos, advertências e exortações: aquele que neutraliza ou anula o alicerce
metafísico que sustentava este repertório. Como vimos, um bom índice desta
ruptura com a tradição filosófica reside no fato de a natureza se confundir, em
Montaigne, com uma "segunda natureza", construída pela sedimentação costumeira
das práticas e opiniões humanas. Logo, quando lemos, no ensaio I,20, que, para
enfrentar a morte, a própria natureza estende-nos a mão e nos dá coragem, salta
aos olhos que esta célebre formulação moral tem um sentido absolutamente
distinto daquele que tinha na literatura estoica e epicurista. Mas em que
termos é possível tomar o conselho de Epicuro como portador de algum sentido
dentro da meditatiomontaigniana? O próprio Starobinski sugere um bom caminho
quando analisa a "prosopopéia do espírito" do III,13. Podemos, contudo, fazer o
que ele não faz: aproximar esta última e a "prosopopéia da natureza" que compõe
a 3ª parte do I,20.
No "Da experiência", o filósofo lida com os tormentos do cálculo renal através
de um alegórico "debate interior" entre duas das faculdades da alma (que são
três: razão ou entendimento, imaginação ou fantasia, memória), sob a forma de
uma "apóstrofe do espírito à imaginação". Neste "debate", duas instâncias do eu
se cindiram: um "ele" (o espírito) prega e tenta persuadir um "tu" (a
imaginação), porque esta, diante da doença, corre o risco de inquietar-se.
Neste "discurso no discurso", o espírito, lançando mão de argumentos fortes e
frágeis, socorre e reconforta a sua imaginação. Montaigne diz:
trato minha imaginação o mais brandamente que posso e, se pudesse,
livrá-la-ia de todo trabalho e contestação. É preciso ajudá-la e
lisonjeá-la, e enganá-la se pudermos. Meu espírito é apropriado para
esse serviço (...) Ele diz que é para o meu bem que tenho cálculos
renais" (III, 13, 1090/461)38.
O teor desta apóstrofe do espírito à imaginação é não só muito parecido com
aquele da apóstrofe que a natureza nos dirige no final do ensaio I,20, como
reitera o que Montaigne confessou quando acolheu a posição do "vulgo": "seja
qual for a maneira como possamos nos proteger dos golpes, mesmo que sob a pele
de um bezerro, não sou homem de recuar diante disso". Se Jean Starobinski toma
as palavras da "mãe natureza", em especial aquela citação de Epicuro, como
palavras de Montaigne, podemos concordar com o comentador desde que se admita
que elas equivalem ao discurso que o espírito dirige à imaginação no final dos
Ensaios. Vale lembrar, inclusive, que, se no "Da experiência" encontramos uma
crítica dirigida às artes de viver e às ciências (sobretudo a medicina), no
I,20 Montaigne já discutia as regras de conduta das seitas filosóficas, pois
não aderia a nenhuma delas e subvertia o conteúdo das formulações reunidas no
"monólogo da Natureza".
A apóstrofe do espírito à imaginação é uma pele de bezerro (un peau d'un veau)
da qual o filósofo se serve quando sua imaginação se aflige diante da doença e
da morte. No trecho final do I,20, esta apóstrofe leva o ensaio a assumir a
característica mais típica da leçon: o florilégio de citações e de conselhos
morais oriundos da tradição. Trata-se de um discurso composto por um número
enorme de citações, no qual quem fala diretamente não é o autor, mas sim a
natureza personificada, que se dirige aos homens num tom simultaneamente
professoral e maternal, consolando-os e ensinando-os a não temer a morte.
Entretanto, esta passagem inspirada em Lucrécio fornece, a contrapelo, a
singularidade deste "monólogo", pois aqui a prosopopéia se restringe a consolar
a imaginação. De modo semelhante ao III,13, a apóstrofe do espírito (encarnado
na "mãe natureza") mescla argumentos fortes e frágeis com os quais socorre e
reconforta a imaginação humana (a de Montaigne aí incluída). Reencontramos aqui
conhecidas passagens senequianas: "A vida por si só não é bem nem mal : é o
lugar do bem e do mal conforme a fazeis para eles" (I, 20, 93/138)39. Frases
como estas já haviam aparecido na 2ª parte do ensaio, marcando uma transição do
discurso de Montaigne para a fala da natureza, em uma aparente continuidade de
um discurso a outro. E vemos incorporar-se ao "monólogo" outro célebre
ensinamento helenístico, que tanto horror provoca na ortodoxia cristã: pior do
que morrer seria ter que viver para sempre; a eternidade nos seria
insuportável; amaldiçoaríamos a natureza se ela não nos permitisse morrer
nunca. Ora, a meditatioconcilia Montaigne com a finitude. A prova de que o
destemor da morte é galardão da vida virtuosa encontramos em uma passagem do
I,20 que, aliás, é uma das mais belas dos Ensaios: "Quero que ajamos, que
prolonguemos as tarefas da vida tanto quanto pudermos, e que a morte me
encontre plantando minhas couves, mas despreocupado dela, e mais ainda de meu
jardim imperfeito" (I, 20, 89/131-132)40. Esta nonchalance, obviamente, não se
confunde com aquela outra, bestiale, própria de quem não consegue exercer o
juízo e desconhece que a vida virtuosa é prazerosa. Ela indica que o filósofo
consegue o que tanto almeja: viver à son aise.
Por fim, a apropriação do mote "filosofar é aprender a morrer" pode ser
entendida quando diferenciamos o que, em Montaigne, significa "filosofar" e
qual o sentido que nele tem o "aprender a morrer". Como sabemos, os Ensaios se
situam fora de qualquer ordem do mundo e de qualquer finalismo: neles,
filosofar não é ocupar-se do ser e sim do eu (que não é uma essência ' alma ou
razão ' mas uma instância de julgamento). Se filosofar é ensaiar-se, ensaiar-se
é por em ação a instância de julgamento. No caso da morte, Montaigne busca
naturalizá-la e integrá-la à vida. Diante do morrer, o melhor é seguir a
natureza. A grande novidade do ensaio I,20 reside em tomar esta formulação (e
todo o repertório aconselhativo a ela associado) retirando-lhe, porém, o estofo
metafísico. Transformar o vocabulário ético-metafísico em argumentos de função
puramente imaginativa é a inovação semântica distintiva da maneira montaigniana
de tratar a matéria tradicional. Eis a nova chave: seguir a natureza é
conformar-se à nossa natureza constituída pelo hábito (conselho nascido da
experiência de si). Como a morte só pode ser imaginada, e como a imaginação
tende a distorcer as coisas, não podemos deixar de temê-la. Logo, na meditatio,
a tarefa do entendimento é não apenas a de naturalizá-la, habituando-nos a ela
como forma de integrá-la à vida, mas também a de acalmar a imaginação (e isso
também se faz pelo hábito). Tudo aqui caminha para a criação de uma disposição
para nosso fim último: viver bem. Meditar a morte é uma terapêutica da
imaginação.