A dívida de Hume com Pascal
1. Introdução
Para compreender o contexto francês da filosofia de Hume, uma conexão
importante é, sem dúvida, Blaise Pascal1. No entanto, é surpreendente que os
comentadores não dediquem muita atenção ao papel desempenhado por Pascal na
filosofia humeana. Mossner (2001), por exemplo, nem sequer o menciona na sua
biografia de Hume, assim como não o citam livros mais gerais sobre Hume, entre
eles Passmore (1952), Stroud (1977) ou Garrett (1997). O nome de Pascal pode
ocorrer incidentalmente num ou noutro livro ou artigo, como em Buckle (2004, p.
244) ou Russell (2008), mas eles não lançam nenhuma luz sobre a relação de Hume
com Pascal. Mesmo um livro dedicado ao contexto francês, como Jones (1982), não
explora as dimensões do impacto de Pascal sobre Hume. Falando de um modo geral,
observações incidentais podem ser úteis, mas não nos levarão longe no
entendimento da dívida de Hume com Pascal, se houver alguma. Finalmente, um
exame dos números da Hume Studiese das publicações sobre Hume informadas no
número final de cada ano dessa mesma revista mostra que Pascal não figura entre
os autores com que Hume é comparado2.
O próprio Hume pode ser responsável por essa falta de interesse em sua dívida
com Pascal, pois ele menciona Pascal somente duas vezes em toda a sua obra.
Assim, não temos muitas referências explícitas que poderiam nos guiar em
especulações certas sobre o impacto do pensamento de Pascal sobre a filosofia
humena. Não espanta que os comentadores não se interessaram especialmente pela
dívida de Hume com Pascal.
A situação, contudo, não é completamente desesperadora, pois encontramos
algumas pistas interessantes em Popkin (1980) e Jones (1982). Essas pistas
foram posteriormente desenvolvidas nos artigos inteiramente dedicados a essa
comparação de José Raimundo Maia Neto (1991) e Terence Penelhum (1993)3. Uma
das razões para isso é que agora conhecemos muito melhor o ceticismo moderno,
tendo se tornado impossível não se dar conta de algumas semelhanças entre Hume
e Pascal. Outra razão é que os especialistas em Hume estão mais conscientes da
importância da filosofia francesa para Hume, como enfatizado em Jones (1982) e
Wright (1983). Mesmo que Pascal seja uma figura proeminente no contexto francês
e tenha pensamentos notáveis sobre o ceticismo e cartesianismo, a atenção que
lhe foi dedicada é insuficiente e ainda há muito a ser dito a respeito da
dívida de Hume com Pascal.
2. Hume leu Pascal?
Consideremos o que as duas passagens explícitas de Hume sobre Pascal podem nos
dizer. A primeira passagem ocorre na seção "Dos milagres" (EHU, X, ii, p. 125,
nota adicional, p. 346). Pascal aparece como alguém que, embora muito
inteligente, acredita em historietas ou supostos milagres. A segunda passagem
ocorre num diálogo no final da Investigação sobre os princípios da moral.
Pascal aparece como um exemplo moderno (o exemplo antigo é Diógenes) de
excentricidade moral, contrastando com as maneiras comuns de comportamento
(EPM, p. 342-343). Se levarmos em conta somente essas duas passagens, nas quais
se menciona Pascal, pode haver algumas dúvidas sobre a resposta correta a nossa
pergunta, pois, como diz Penelhum (1993, p. 265-6), "seus comentários poderiam
estar baseados, tanto quanto permitem as provas textuais, seja nas críticas
muito superficiais de Voltaire, seja nas informações e comentário do artigo de
Bayle sobre Pascal no Dicionário." Além disso, em ambos os casos, Hume não
discute nenhuma ideia que Pascal possa ter defendido em seus livros. Hume
somente critica o homem, por credulidade ou estranho comportamento. As
observações de Hume dizem respeito mais à pessoa do que ao pensador.
E o que dizer com relação às referências implícitas a Pascal? Pode-se afirmar
que Hume leu Pascal baseado em passagens que se assemelham ou respondem a
algumas ideias importantes no pensamento de Pascal? Aqueles que levantaram essa
pergunta responderam afirmativamente. Jones (1982, p. 28), por exemplo, diz que
"Hume conhecia alguma coisa de Montaigne e Pascal, embora raras vezes os
mencione." Penelhum (1993, p. 266), rejeitando a ideia de que Hume conhecia
Pascal apenas indiretamente, concorda com Jones: "A meu ver, há razão para
supor que Hume tinha lido e refletido sobre Pascal por si mesmo." Há, portanto,
uma forte presunção em favor de uma resposta afirmativa para nossa pergunta.
Examinaremos essa questão e tentaremos respondê-la, mesmo que parcialmente, nas
páginas seguintes.
Supondo que Hume leu efetivamente Pascal, o que ele teria lido? Sabe-se que os
Pensamentos de Pascal eram um manuscrito que nunca foi publicado pelo autor e
do qual hoje temos diversas edições diferentes. A edição disponível para Hume
era muito diferente de nossas edições modernas e mais confiáveis. Hume
provavelmente leu a edição de Port-Royal de 1670 ou 1678, que deixa de lado uma
parte substancial do texto, distorce outra parte, muda a ordem planejada por
Pascal, omite referências críticas a Descartes, obscurece as novidades de sua
apologética etc. Assim, a ideia que Hume tinha dos pensamentos de Pascal pode
não coincidir com nosso entendimento de sua apologética da religião cristã.
Portanto, o intérprete deve ter o cuidado de verificar se a passagem que julgar
similar era acessível a Hume. Além dessa edição de Port-Royal dos Pensamentos,
Hume pode ter lido também a importante Conversa com o sr. Sacy, que foi
publicada em 1728. Esses dois textos bastam para o que direi mais abaixo,
embora talvez não bastem para um exame completo da dívida de Hume com Pascal.
Também usarei alguns opúsculos de Pascal, que eram bem conhecidos na época e
que complementam algumas das comparações permitidas pelos Pensamentos.
Naturalmente, somente se pode determinar com alguma precisão se Hume leu,
quando leu e o que leu, depois de examinarmos algumas das passagens que sugerem
que Pascal era um escritor importante para pelo menos alguns aspectos da
filosofia de Hume. Portanto, deve-se confessar que não se pode ir além de
conjecturas e estabelecer o que é mais provável, embora talvez jamais certo. Em
suma, a prova mais importante de que Hume leu Pascal depende de uma análise das
semelhanças e possíveis respostas que encontrarmos na filosofia de Hume à
apologética pascaliana à religião cristã. Passemos, então, a essas análises.
3. Ceticismo
A semelhança mais óbvia entre Hume e Pascal diz respeito às suas respostas ao
ceticismo4. Os inúmeros paralelos merecem ser cuidadosamente notados.
Primeiro, tanto Hume como Pascal veem uma oposição crucial entre a razão e a
natureza. Essa contrariedade é tão evidente e importante no pensamento de
Pascal que constitui uma seção específica da edição de Port-Royal (1670, p.
156). Pascal formula essa oposição de maneira clara e precisa: "A natureza
confunde os pirrônicos; a razão confunde os dogmáticos" (1670, p. 161; cf., p.
166). Se ninguém pode ser um pirrônico perfeito, é porque a natureza não o
permite. "A natureza torna a razão impotente e impede-a de extravagar até esse
ponto." (1670, p. 161) Hume também expressa de maneira elegante esse ponto:
"Para chegarmos a uma determinação tão salutar, nada pode ser mais útil do que
estar uma vez inteiramente convencido da força da dúvida pirrônica e da
impossibilidade de que nada, exceto o forte poder do instinto natural, poderia
livrar-nos dela." (EHU, XII, iii, 130, p. 162) Ou: "Assim, o cético continua a
raciocinar e crer, mesmo que afirme que não pode defender sua razão e, pela
mesma regra, deva assentir ao princípio que diz respeito à existência do corpo,
embora não possa pretender, com nenhum argumento da filosofia, manter sua
veracidade. A natureza não deixou isso para sua escolha e, sem dúvida, estimou-
o uma questão de muita importância para confiar em nossos raciocínios e
especulação incertos." (T1.4.2.1). Ou ainda: "A natureza, por uma absoluta e
incontrolável necessidade determinou-nos a julgar bem como a respirar e sentir"
(T 1.4.1.7).
Consequentemente, para ambos, é impossível que alguém se torne efetivamente um
cético ou que se possa ser um cético na vida real. Pascal (1670, p. 161) diz
explicitamente que "aceito como um fato que jamais existiu um pirrônico efetivo
e perfeito". Ora, Hume não diz coisa diferente: "O cético é outro inimigo da
religião, que naturalmente provoca a indignação de todos os místicos e
filósofos mais sérios, embora seja certo que nenhum homem jamais encontrou com
uma criatura tão absurda ou conversou com uma pessoa que não tivesse opinião ou
princípio sobre nenhum assunto, seja de ação ou especulação." (EHU, XII, i,
116, p. 149). Ou: "Quem quer que tenha se esforçado para refutar as cavilações
desse ceticismo total disputou realmente sem um antagonista" (T 1.4.1.7).
Correspondentemente, Hume, na primeira Investigação, chama o cético de
"extravagante" (EHU, XII, ii, 124, p. 155). Ora, esse termo, "extravagante", é
frequentemente empregado por Pascal com relação aos céticos (por exemplo: 1670,
p. 8).
É fundamental, em Pascal, a ideia de que os princípios não são demonstrados,
mas sentidos. Na discussão entre os dogmáticos e os pirrônicos, Pascal insiste
na ideia de que a força dos dogmáticos reside no sentimento natural. Nesse
sentido, a famosa frase de Pascal, segundo a qual o coração tem razões que a
própria razão desconhece, ganha um sentido mais preciso, já que alguns
raciocínios seriam mais o produto do sentimento do que de uma razão autônoma.
Todas essas ideias aparecem na edição de Port-Royal. Há um fragmento em nossas
edições modernas (L, 530, Br. 274) que não encontrei na edição de Port-Royal,
mas que expressa claramente uma ideia importante de Pascal. Nele, Pascal diz
que "todo raciocínio se reduz a ceder ao sentimento." Não é impossível, então,
que Hume possa ter visto em Pascal a tese de que o raciocínio, se não está
reduzido, é ao menos dependente do sentimento.
Ora, a ideia de que o raciocínio se reduz a um sentimento, ou pelo menos
depende de nosso sentir, é um tema tipicamente humeano. No Tratado, numa
passagem famosa, Hume diz que "todo raciocínio provável não é senão uma espécie
de sensação." (T 1.3.8.12) Correspondentemente, Hume insistirá na tese de que a
crença consiste na vivacidade de uma ideia e que se não sentíssemos uma ideia
de maneira mais vivaz e forte não teríamos nenhuma crença. É curioso que um
exemplo tornado famoso por Hume sobre os raciocínios prováveis, o de que o Sol
nascerá amanhã, já que a negaçao desse juízo não implica contradição, também se
encontra em Pascal: o Sol nascerá amanhã (L, 660/Br, 932).
Também não se deve negligenciar que Pascal pensa que a suspensão do juízo não
conduz à tranquilidade, mas produz um estado insatisfatório que tende à inação.
Logo no primeiro fragmento da edição de Port-Royal dos Pensamentos, Pascal
parece se referir aos céticos como "aqueles que sinceramente gemem nessa
dúvida, que a encaram como a última das desgraças e que, nada poupando para
sair dela, fazem dessa busca as suas principais e mais sérias ocupações."
(1670, p. 5) A sequência do fragmento somente confirma a associação entre a
dúvida e o mal-estar por ela causado. A própria oscilação entre o dogmatismo e
o ceticismo, a que estamos condenados por causa de nossa natureza cindida, faz
com que a suposta tranquilidade cética seja algo, no fundo, insatisfatório.
"Esse repouso nessa ignorância é uma coisa monstruosa" (1670, p. 8). Outro
exemplo: "A natureza não me oferece nada que não seja matéria de dúvida e de
inquietude." (1670, p. 64) O mesmo ocorre na moral, pois Montaigne, como o
grande pirrônico aos olhos de Pascal, se precipita "no desespero de encontrar
um verdadeiro bem" (ES, p. 47). Por isso, a suspensão do juízo não conduz à
tranquilidade e esta não é senão lassidão ou preguiça (ES, p. 47).
Também Hume pensa que o resultado natural da atitude cética é o desespero. São
famosas as passagens da conclusão do livro I do Tratado e da seção XII da
primeira Investigação que atestam esse ponto. Confundido pela dúvida cética,
Hume admite estar "na condição mais deplorável possível, cercado da escuridão
mais profunda e inteiramente privado do uso de todo membro e faculdade." (T
1.4.7.8) Note-se que, para ambos, a suspensão do juízo conduz, seja à preguiça
e moleza, no caso de Pascal, seja ' de maneira mais radical, mas na mesma
direção - à inação, no caso de Hume. O pirrônico "deve reconhecer, se ele
reconhecer alguma coisa, que toda vida humana deverá morrer se seus princípios
prevalecessem universal e constantemente." (EHU XII, ii, 128, p. 160)
Além disso, essa oposição entre razão e natureza, essa disposição melancólica
promovida pelo ceticismo e dispersa pela natureza parece ter alguma conexão com
a vida do Hume tal como ele a descreve numa carta famosa a um médico,
provavelmente o dr. Cheyne, embora isso tenha sido posto em suspeita por
Mossner e tenha recebido alguma discussão por parte da literatura secundária.
Pode-se encontrar mais alguns indícios de que Hume leu Pascal nessa carta, pois
Hume se refere a "alguns místicos" (bem como a alguns fanáticos escoceses),
notando algumas semelhanças entre sua própria doença e a reação deles. Poderia
Hume estar se referindo implicitamente também a Pascal5? Nada pode garantir
essa possibilidade. Além disso, Wright (2003, p. 128) sugere que Hume estava
pensando em Madame Guyon. Embora uma mera conjectura, pode bem ter acontecido
que Hume estava pensando também em Pascal como um desses místicos franceses. Um
indício poderia aumentar a probabilidade dessa conjectura. Um pouco antes,
nessa mesma carta, Hume admite que ele leu "os livros mais celebrados em latim,
francês e inglês". Ora, Pascal está certamente entre os autores mais celebrados
em França. Assim, não é nada improvável que lendo os autores franceses mais
celebrados e, igualmente, alguns franceses místicos, Pascal seria uma das
referências implícitas. Poucos satisfariam simultaneamente essas duas
descrições.
Outro ponto importante em comum é a ideia de que a dúvida cética deve aplicar-
se a si mesma para que seja, por assim dizer, uma verdadeira dúvida cética. Ao
apresentar o ceticismo de Montaigne ao sr. Saci, em sua conversa, Pascal diz
que "É nessa dúvida de que duvida de si e nessa ignorância que se ignora, e que
ele chama de forma mestra, que está a essência de sua opinião" (ES, p. 30).
Nesse mesmo parágrafo, Montaigne é descrito como um "puro pirrônico". Assim, de
acordo com Pascal, a essência do pirronismo consiste em uma dúvida que vai ao
ponto de duvidar de si mesma; isso é o puro pirronismo. Sem essa dúvida sobre a
dúvida, sem uma dúvida que se volta sobre si mesma, o ceticismo não seria puro
e perderia sua "essência". Hume diz exatamente a mesma coisa. Para ele, "um
verdadeiro cético será desconfiado de suas dúvidas filosóficas" (T 1.4.7.14).
Essa mesma ideia reaparece na primeira Investigação, talvez com um significado
filosófico diferente. Lá, Hume diz que "a razão deve permanecer inquieta e em
movimento, mesmo com relação a esse ceticismo... De modo que nada pode ser mais
cético, ou cheio de dúvida e hesitação, do que esse próprio ceticismo." (EHU
XII, ii, 125, p. 157-158).
Finalmente, Pascal pensava na filosofia como uma espécie de guerra entre
céticos e dogmáticos. Nessa batalha, não haveria vencedor e, se houvesse um
empate, o cético venceria. "Eis, portanto, a guerra aberta entre os homens. É
preciso que cada um tome partido e se coloque necessariamente ou do lado do
dogmatismo ou do lado do ceticismo, pois quem pensar permanecer neutro será
pirrônico por excelência. Essa neutralidade é a essência do pirronismo. Quem
não é contra eles, é excelentemente a favor deles." (1670, p. 161) Essa imagem
da batalha também se encontra em Hume. A passagem é famosa e merece citação
completa. "Todos os sistemas religiosos, confessa-se, estão sujeitos a grandes
e insuperáveis dificuldades. Cada disputante triunfa na sua vez, enquanto ele
leva adiante uma guerra ofensiva e expõe os absurdos, barbaridades e doutrinas
perniciosas de seu antagonista. Mas todos eles, conjuntamente, preparam um
triunfo completo para o cético, que lhes diz que nenhum sistema deve ser
adotado com relação a qualquer assunto. Uma suspensão total do juízo é aqui
nosso único recurso razoável. E se todo ataque, como se observa comumente, e
nenhuma defesa, entre os teólogos, é bem sucedida, quão completa deve ser a
vitória daquele que permanece sempre, com toda a humanidade, na ofensiva e não
tem, ele próprio, uma estação fixa ou cidade permanente, a qual estaria, em
qualquer situação, obrigado a defender?" (D VIII, p. 88-89)
As semelhanças vão muito além dessa comparação das respectivas posições gerais
diante do ceticismo. Se entrarmos nos detalhes dos argumentos céticos
encontraremos algumas outras semelhanças realmente surpreendentes.
Talvez se deva notar, antes de tudo, que Pascal e Hume dividem os argumentos
céticos em duas classes e ambos estimam que os argumentos tradicionais
empregados pelos céticos não são argumentos muito fortes. Pascal (1670, p. 157)
começa sua principal consideração, nos Pensamentos, sobre o ceticismo lembrando
"as principais razões dos pirrônicos" (Pascal usa consistentemente "pirronismo"
para ceticismo). A seu ver, os dois argumentos céticos mais proeminentes se
encontram na primeira Meditação de Descartes. O argumento cético mais forte diz
respeito à origem de nosso ser (atualmente, chamado de maneira um tanto
enganosa de "argumento do Deus enganador"): se não sabemos qual é nossa origem,
se não estamos seguros de que um Deus confiável é o verdadeiro criador de nosso
ser, então nada é certo. Em segundo lugar, Pascal expõe o assim chamado
argumento do sonho. Quando trata dos argumentos céticos mais tradicionais,
Pascal passa rapidamente por eles, como se tivessem bem menos interesse
filosófico. "Deixo de lado os discursos que fazem os pirrônicos contra as
impressões do costume, da educação, dos hábitos do país e outras coisas
semelhantes, que impulsionam a grande maior parte dos homens, que não
dogmatizam senão com base nesses vãos fundamentos." (1670, p. 158) Assim,
Pascal afirma que há dois tipos de argumentos céticos: aqueles empregados por
Descartes, dirigidos contra os filósofos, e aqueles empregados por Montaigne (e
outros céticos), úteis contra o dogmatismo dos homens comuns, mas não bons o
suficiente contra os filósofos.
Hume, na primeira Investigação, também distingue dois tipos de argumentos
céticos. Com relação aos sentidos, Hume menciona primeiro o argumento
"empregado pelos céticos de todas as épocas", que consiste principalmente nas
aparências contraditórias fornecidas pelos nossos sentidos; então, ele passa em
revista "outros argumentos mais profundos contra os sentidos" (EHU XII, i, 117,
p. 151), posteriormente descritos como "filosóficos" (EHU XII, i, 123, p. 155).
A mesma distinção está presente nas considerações de Hume a respeito dos
raciocínios sobre questões de fato. Depois de mencionar "os argumentos
populares" (EHU XII, ii, 126, p. 158) produzidos pelos pirrônicos, ele trata
"daqueles argumentos filosóficos" (EHU XII, ii, 127, p. 159). E, assim como
Pascal, a avaliação de Hume é a de que, enquanto os argumentos tradicionais são
"triviais", "fracos", "populares" e admitem uma solução fácil, os argumentos
céticos modernos (derivados em parte de Descartes, embora não só) surgem de
investigações mais profundas e não admitem resposta (EHU XI, i, 123n, p. 155).
Obviamente, há diferenças entre Hume e Pascal, uma vez que, para Pascal, os
argumentos céticos filosóficos e fortes são aqueles empregados por Descartes,
enquanto Hume emprega alguns argumentos diferentes. E quando, ao expor o
ceticismo antecedente, se refere à primeira Meditação, Hume não discute os
argumentos específicos mencionados por Descartes. Contudo, o esquema geral para
pensar os argumentos céticos é muito parecido nos dois casos.
Se examinarmos atentamente o que Hume tem a dizer sobre o "ceticismo
antecedente", notaremos que talvez Pascal também esteja por trás de suas
observações. Com relação à dúvida cartesiana universal, Hume diz pelo menos
duas coisas: primeiro, é uma dúvida impossível; segundo, se pudéssemos alcançá-
la, essa dúvida seria "inteiramente incurável" (EHU XII, i, 116, p. 150). Já
vimos que Hume compartilha com Pascal a ideia de que uma dúvida universal é
impossível, uma vez que a crença é, graças a nossa natureza, inevitável. De
outro lado, por que essa dúvida seria incurável? Para entender a semelhança a
respeito desse ponto, temos de passar ao anti-cartesianismo presente em Hume e
em Pascal.
4. Anti-Cartesianismo
Descartes pensou que poderia escapar da dúvida universal que ele mesmo propôs
graças ao cogito. Uma vez estabelecido esse primeiro princípio, ele poderia
deduzir outro primeiro princípio, a saber, Deus, e, com esses dois princípios
em mãos, poderia deduzir inúmeras outras verdades. Correspondentemente, Hume
oferece duas respostas contra essa solução cartesiana à dúvida cética
antecedente. Primeiro, "não há nenhum princípio original desse tipo, que tem
uma prerrogativa sobre outros, que seja auto-evidente e convincente ou, se
existisse, jamais poderíamos avançar um passo adiante, exceto pelo uso das
mesmas faculdades das quais supostamente já desconfiamos." (EHU XII, i, 116, p.
150) Creio que essas duas razões podem ser encontradas em Pascal.
Pascal também não aceita a concepção cartesiana de ciência, nem a ideia de que
é preciso dar à ciência uma fundamentação filosófica. Correspondentemente, não
há primeiros princípios da ciência para Pascal. Mais especificamente, Pascal
rejeita que possamos estar certos de qualquer princípio supostamente primeiro
com base no qual poderíamos deduzir outras verdades e construir um corpo sólido
de conhecimento. Antes, entretanto, de compararmos as críticas de Pascal e Hume
à concepção cartesiana de ciência, discutirei se, na opinião de Pascal e Hume,
Descartes estabeleceu algum princípio primeiro, em particular se é possível
estabelecer que o cogito é esse princípio primeiro.
Pascal não somente rejeita as provas da existência de Deus, mas também, de
maneira mais significativa ainda, qualquer prova de nossa própria existência.
Assim, os primeiros princípios propostos por Descartes não são aceitáveis.
Particularmente interessante, a meu ver, tanto em si mesmas como em conexão com
o ceticismo, são as considerações de Pascal sobre por que o pirrônico puro
jamais extrairia da dúvida cética a certeza ou o saber de sua própria
existência.
De acordo com Pascal, há um sentido em que se pode duvidar de sua própria
existência, pelo menos como um princípio primeiro, como a res cogitans
cartesiana. Essa dúvida sobre si mesmo pode ser vista tanto nos Pensamentos
como em sua Conversa com o sr. Saci. A ideia principal, parece-me, é esta: se
uma pessoa duvida de tudo, então ela deve duvidar de que está duvidando; ora,
se ela não está certa de que está duvidando, então ela não pode estar certa de
que está pensando e, portanto, de que é ou existe. "O que fará, portanto, o
homem nesse estado? Duvidará de tudo?... Duvidará de que ele duvida? Duvidará
de que ele é?" (1670, p. 161) É verdade que, nessa passagem, Pascal parece
afirmar que essa dúvida é impossível de ser atingida. Mas, mesmo que seja
impossível, não é porque ela envolve uma contradição (como é o caso em
Descartes), mas porque a natureza não permite uma dúvida tão extensa. De
qualquer forma, corta-se pela raíz a progressão cartesiana em direção ao cogito
se a certeza de se estar duvidando é abalada. Sem esse ponto inicial, que
Descartes pretende extrair da própria dúvida cética, não haveria o
estabelecimento do cogito. Uma dúvida puramente pirrônica não deixa de fora a
certeza do próprio ato de duvidar e, por assim dizer, puxa o tapete de
Descartes.
A Conversaparece fornecer uma prova decisiva de que é possível, para Pascal,
essa dúvida sobre a dúvida. Como vimos, um puro pirrônico duvidará de sua
dúvida cética; essa era a essência do pirronismo. Consequentemente, "se ele
[Montaigne] diz que ele duvida, ele se trai, ao garantir pelo menos que ele
duvida, o que, sendo formalmente contra sua intenção, ele não pode explicar
senão por interrogação, de modo que, não querendo dizer Eu não sei', ele diz:
O que sei eu?', fazendo disso sua divisa" (ES, p. 30). Obviamente, essa dúvida
cética sobre a dúvida cética bloqueia o caminho em direção ao cogito. Descartes
pensava que poderia extrair da própria dúvida cética uma primeira certeza ou
verdade, o seu primeiro princípio: se eu duvido, eu penso e, se eu penso, eu
sou. Contudo, um cético puro sequer sabe ou está certo de que está duvidando;
assim, a fortiori, ele não pode estar seguro ou saber que está pensando; e,
finalmente, não pode saber ou estar certo de que é ou existe. O caminho em
direção do cogito não está disponível para um "puro pirrônico".
E, igualmente importante, Pascal atribui a Montaigne, ainda na Conversa, uma
dúvida sobre a alma: se a alma é capaz de conhecer a si mesma, onde ela existe
e assim por diante. Referindo-se a Montaigne, Pascal diz que "ele pergunta se a
alma conhece alguma coisa, se ela se conhece a si mesma, se ela é substância ou
acidente, corpo ou espírito, o que é cada uma dessas coisas e se não há nada
que seja de uma dessas ordens" (ES, p. 33). A dúvida cartesiana não duvidou de
nada disso: nem da existência da dúvida, nem de um duvidador, nem da estrutura
metafísica substância/acidente etc. Descartes nunca questionou se o que ele
estava fazendo na primeira Meditação era realmente duvidar: ele estava seguro
de que estava duvidando, mas o cético puro de Pascal levantaria essa dúvida.
Hume também questiona, não somente a existência de provas a favor da existência
de Deus, mas sobretudo que o cogito seja um princípio com base no qual podemos
deduzir outras verdades. Para Hume, assim como para Pascal, não se trata de
dizer que a ciência usa ou parte de certos princípios para inferir outros;
parece bastante óbvio que a ciência é um corpo articulado de proposições. A
crítica a Descartes é que nenhumprincípio pode ou deve ser considerado um
primeiro princípio, inclusive o cogito ou Deus, isto é, nenhum princípio tem
uma prerrogativa sobre os demais6. Se houver um ponto de partida, esse será a
experiência ou os fenômenos. Já na "Introdução" do Tratado, Hume afirma que
"sendo a essência da mente igualmente desconhecida para nós como a dos corpos,
deve ser igualmente impossível formar qualquer noção de seus poderes e
qualidades exceto por experimentos cuidadosos e exatos... e quaisquer hipóteses
que se pretendam descobrir as qualidades últimas originais da natureza humana
devem ser de início rejeitadas como presunçosas e quiméricas." (T Int, 8) Uma
vez que não conhecemos a essência da mente, não podemos deduzir nada dela, mas
devemos recorrer à experiência. Pascal e Hume aliam-se contra a concepção
cartesiana de ciência e contra o cogito como um primeiro princípio.
Esse ponto confirma-se quando atentamos para alguns aspectos da crítica humeana
do cogito. Hume, seguindo Pascal, levantará algumas dúvidas sobre a substância
pensante postulada por Descartes. Não é o caso de expor toda sua crítica, que,
de resto, é bem conhecida, mas basta indicar que, por exemplo, a
substancialidade do cogito é posta em questão; que a reflexão sobre si mesmo
não apresenta nenhuma unidade no presente ou ao longo de tempo; que a
localização da alma é problemática (T 1.4.5 and 1.4.6).
Talvez caiba mencionar um último ponto de semelhança a esse respeito. Para
Pascal, o homem é um ser repleto de contradições, de tal modo que não é
possível atribuir-lhe uma unidade, como pretende Descartes. "Tantas
contradições poderiam estar num sujeito simples?" (1670, p. 40). "Assim, ele [o
homem] está sempre dividido e contrário a si mesmo." (1670, p. 74) "Que
quimera, portanto, é o homem? Que novidade, que caos, que sujeito de
contradição?... Eu o contradigo sempre até que ele compreenda que é um monstro
incompreensível." (1670, p. 168-169) A ideia de que há contradições inerentes
ao homem é uma ideia claramente aceita por Hume. Num momento crucial de suas
análises sobre o mundo exterior, Hume diz que "há uma oposição direta e total
entre nossa razão e nossos sentidos." (T 1.4.5.15) Essa oposição é retomada na
conclusão do Tratado (T 1.4.7.4) e na Investigação (EHU XII, ii, 123). Ao
descrever o entendimento humano, Hume mostra suas contradições inerentes, ele
mostra como um princípio se opõe a outro e quão lamentável é o seu
funcionamento. Confuso e solitário por causa de suas dúvidas céticas, Hume se
sente "um monstro estranho e desajeitado", um ser "deformado" (T 1.4.7.2). Essa
é a linguagem mesma de Pascal.
Em suma, Hume poderia ter visto, nas considerações de Pascal sobre a dúvida
cética, uma motivação ou, mesmo, razões para desconfiar de que o cogito
cartesiano poderia ser considerado um primeiro princípio.
Voltemo-nos, agora, para a crítica da concepção cartesiana da ciência. Não se
deveria diminuir a importância das considerações sobre o lugar do homem no
universo desenvolvidas por Pascal (1670, p. 169-175). Essas considerações têm
implicações diretas para a crítica que Pascal dirige a Descartes7, que será
retomada por Hume. Uma de suas ideias principais é que a ciência não tem
começo, nem fim. Pascal argumenta com base em nossa condição finita, que é um
meio entre o nada e o infinito (1670, p. 173). Em comparação com tudo, não
somos nada, mas, em comparação com o nada, somos tudo. De acordo com Pascal,
deveríamos conhecer o que está dentro de nosso alcance: a inteligência do homem
somente "pode perceber alguma aparência no meio das coisas, num desespero
eterno de não conhecer delas nem o princípio, nem o fim." (1670, p. 173-174)
Também os sentidos são incapazes de conhecer os extremos: "nossos sentidos não
são capazes de perceber nada de extremo... As coisas extremas são para nós como
se não existissem e nada somos a seu respeito. Elas nos escapam ou nós a elas."
(1670, p. 174-175)8 Ora, o princípio da ciência e suas infinitas consequências
são os dois extremos da ciência. Assim, a apreciação correta dessa condição
intermediária deveria nos levar a um entendimento adequado da ciência: não
deveríamos buscar primeiros princípios, nem tentar deduzir deles infinitas
conseqûencias, como é comum entre os filósofos e, em particular, Descartes
tenta fazer, por exemplo, nos Princípios (cf. Pr., pref., p. 2/10-11/22). É a
pretensão mesma de buscar um fundamento para a ciência que deveria ser
abandonada, pois tal conhecimento nos é vedado. "Queimamos de desejo de
encontrar um terreno firme e uma base última para nela edificar uma torre que
se eleva ao infinito, mas todo nosso fundamento rui e a terra se abre até o
abismo." (1670, p. 175)9
Creio que lendo somente a edição de Port-Royal não fica claro que essas
considerações de Pascal dirigem-se contra o projeto cartesiano. Como se sabe,
essa edição feita pelos jansenistas cartesianos tentou esconder as críticas de
Pascal a Descartes. A impressão que se tem é somente a de que os filósofos, de
um modo geral, tiveram uma pretensão desmesurada e nenhum conhecimento absoluto
é possível. Não é certo, portanto, que Hume tenha visto nelas todo o alcance
que nós hoje podemos ver.
Mas o que Pascal diz nesse trecho (1670, p. 169-175) ecoa o que ele já tinha
dito em seu Do espírito geométrico, um texto bem conhecido sobre o que nós hoje
chamaríamos epistemologia. Lá, ele já tinha criticado o modelo geométrico para
a ciência, como sustentado por muitos filósofos racionalistas como Descartes,
argumentando que a ciência humana jamais alcançará termos primitivos (como se
diz hoje), que não precisam de definição (EG, p. 70-74), nem primeiros
princípios (EG, p. 74-78). De acordo com esse modelo geométrico, a ciência deve
começar com definições corretas, isto é, algumas palavras devem ser definidas
por algumas outras palavras, e com alguns axiomas, isto é, com algumas
proposições evidentes por si mesmas que não são provadas, mas constituiriam
nosso ponto de partida para provar teoremas ou deduzir outras proposições.
Contudo, para nós, seres finitos, isso é impossível, pois não há termos
primitivos, nem primeiros princípios. Os princípios não são provados, nem são
evidentes; portanto, se devemos aceitar um princípio, de acordo com Pascal, é
porque ele se adequa bem a nossa experiência.
Pascal aplica sua concepção de ciência à geometria e extensão (EG, p. 78-84).
Esse exemplo permite a Pascal levantar a questão a respeito dos infinitos e da
heterogeneidade entre o que é finito e o que é infinito (EG, p. 83-84). Pascal,
então, convida seu leitor a ponderar sobre a condição humana, a conhecer a si
mesmo, "considerando-se colocado entre um infinito e um nada de extensão" (EG,
p. 84).
A ciência, tal como Pascal a concebe, isto é, limitada às aparências
(fenômenos) e hipóteses mais ou menas adaptadas a nossa experiência, é
inteiramente compatível com o ceticismo. Essa é, ao menos, a interpretação de
Bouchilloux. De acordo com ela, "o pirronismo não disqualifica senão o
dogmatismo da filosofia que culmina na metafísica, mas ele não desqualifica de
maneira nenhuma, exceto o dogmatismo sobrenatural da teologia, o dogmatismo
natural de uma ciência situada em sua ordem, a saber, a de um conhecimento
fenomênico" (2000, p. 75) ou, de maneira ainda mais clara, "o dogmatismo
científico é conciliável com o pirronismo filosófico" (2000, p. 80).
Obviamente, "dogmatismo", no caso da ciência, significa somente que algumas
proposições são sustentadas à luz da experiência (e não há suspensão de juízo
sobre os fenômenos); não significa nenhum suposto conhecimento de essências,
das coisas em si mesmas ou alguma pretensão similar. Por essa razão, o
ceticismo é também parcialmente verdadeiro para Pascal.
Pascal (TV) oferece um bom exemplo de como deveríamos decidir entre proposições
hipotéticas que competem entre si para descrever ou explicar mais adequadamente
a experiência. "Existe o vácuo" ou "tudo é pleno"? Qual dessas duas proposições
deveríamos aceitar? De acordo com Pascal, os antigos aceitavam a ideia de que a
natureza tem horror ao vácuo. Essa ideia era bastante adequada à experiência
que eles tinham. Assim, à luz da experiência disponível para eles, era razoável
supor a não existência do vácuo. Contudo, novos experimentos, como o inventado
por Torricelli e realizado por Pascal com tanto sucesso em Paris, obrigaram a
rever essa suposição dos antigos. Em face dessa ampliação da experiência,
tornou-se mais razoável negar a teoria do pleno, sustentada, por exemplo, por
Descartes. Deve-se notar que Pascal não está decidindo se a natureza em si
mesma admite o vácuo ou é um pleno. Isso seria ir muito além do que nossa
condição nos permite. Antes, ele está dizendo que, com referência a esses novos
experimentos, a hipótese de que existe do vácuo é mais adequada à experiência
do que a outra hipótese. Pascal está falando somente das aparências (ou
fenômenos) e da melhor hipótese que podemos conceber para explicá-las. Como
vimos há pouco, as aparências são inconstantes e podem nos desencaminhar (1670,
p. 173-175). Correspondentemente, antes do experimento de Torricelli, a
experiência era mais bem explicada pela negação do vácuo, mas, depois desse
experimento e da consequente ampliação da nossa experiência, resultou o
contrário, isto é, que seria melhor aceitar o vácuo. Para Pascal, jamais temos
uma ciência absolutamente certa e, à medida que novos experimentos são
inventados, temos de mudar, adaptar e melhorar nossas hipóteses.
Hume, é claro, não baseia seu empirismo em argumentos como os de Pascal. Mas
ambas as considerações feitas por Pascal, uma com relação aos dois infinitos e
outra com relação à geometria, são retomados por Hume. Hume, parece, inverte o
primeiro raciocínio de Pascal, uma vez que ele diz que "enquanto não podemos
dar uma explicação de por que cremos, depois de mil experimentos, que uma pedra
cairá, podemos alguma vez nos satisfazer com relação a qualquer determinação
que possamos formar sobre a origem dos mundos e a situação da natureza de e
para a eternidade?" (EHU XII, iii, 130, p. 162) Pascal argumenta com base na
desproporção do homem, tanto em relação ao infinitamente grande, como em
relação ao infinitamente pequeno, que nossa ciência deveria ser empírica,
enquanto Hume argumenta que nossa ciência empírica não é capaz de explicar as
conexões causais entre objetos e, portanto, não deveríamos tentar entender
nossa condição no universo.
Na primeira Investigação, Hume pensava que os problemas a respeito da infinita
divisibilidade poderiam talvez sustentar alguma espécie de ceticismo sobre a
razão (cf. EHU XII, ii, 124-125, p. 155-158). A linguagem usada por Hume para
expor esse argumento assemelha-se à retórica de Pascal naquelas passagens já
mencionadas (1670, p. 157-162; 1670, p. 169-175). "A razão aqui parece ser
jogada numa espécie de espanto e suspensão, que, sem a sugestão de qualquer
cético, lhe dá uma desconfiança de si mesma e do chão no qual caminha. Ela vê
uma luz plena, que ilumina certos lugares, mas essa luz se avizinha com a mais
profunda escuridão. E entre essas ela fica tão atônita e confusa que mal pode
se pronunciar com certeza e segurança a respeito de qualquer objeto." (EHU XI,
ii, 124, p. 157) Claro, Hume acredita ter encontrado uma solução para esses
paradoxos céticos sobre a infinita divisibilidade da extensão e do tempo.
Contudo, a concepção humeana de ciência tem uma semelhança considerável com a
de Pascal. Mencionarei apenas algumas dessas semelhanças. Tal como Pascal, Hume
também pensa que os princípios devem ser referidos à experiência, que estamos
confinados às aparências, que nossas hipóteses são revisáveis à luz da
ampliação da experiência.
Obviamente, muitos outros filósofos foram importantes para Hume em seu anti-
cartesianismo, como Newton, e na sua ênfase no papel crucial dos experimentos,
como Bacon. Contudo, Pascal era um cientista famoso e não deveríamos ignorar
que, entre outros pontos, o anti-cartesianismo de Pascal na ciência pode ter
ajudado Hume a formular e elaborar suas próprias concepções. Em particular,
Pascal parece ter fornecido um esquema para criticar o ceticismo antecedente
cartesiano com sua concepção de ciência baseada no método geométrico.
5. Conclusão
A primeira conclusão que se pode tirar das análises precedentes é a de que a
conjectura de que Hume leu Pascal é altamente provável, se não certa. A
hipótese alternativa, a de que Hume teria lido as mesmas ideias em outras
fontes, não parece muito plausível, embora, é claro, outras fontes possam ter
fornecido algumas dessas ideias. Vejamos os argumentos que poderiam sustentar
esta hipótese alternativa.
É verdade que Hume poderia ter encontrado muitas dessas ideias em outros
autores, uma vez que muitas delas foram apresentadas, defendidas ou criticadas
por outros filósofos do conhecimento de Hume. Por exemplo, a metáfora da
batalha também se encontra em Bayle (DHC, "Zenão de Eleia", G), bem como em
Montaigne (E II, xii, p. 504/257). A crítica de Hume à substancialidade da alma
pode ter suas fontes mais em Malebranche (RV III, ii, cap. 7, 4; RV
Esclarecimento XI) ou Montaigne (E II, xii, p. 542-556/313-335) do que em
Pascal. A ideia de que a dúvida cética se aplica a si mesma aparecem em Bayle
(DHC, "Pirro", C), assim como em Montaigne (E II, xii, p. 503/256). Montaigne
poderia ser, ainda, a fonte para a ideia de que não existe um perfeito cético
(E II, xxix, p. 705-706/558-559). Assim, muitos dos pontos semelhantes entre
Hume e Pascal poderiam ser igualmente explicados pela comparação da filosofia
de Hume com outro pensador que ele conhecia bem. Com base nas análises, alguém
poderia dizer que Pascal não foi uma referência especialmente importante para
Hume, uma vez que Hume provavelmente conhecia melhor esses outros autores, como
Malebranche, Bayle e Montaigne, do que conhecia Pascal.
Contudo, as análises aqui propostas parecem tornar a hipótese de que Pascal foi
uma fonte direta de Hume de longe a mais forte. Embora se possa encontrar em
Montaigne a oposição entre razão e natureza, uma vez que ele descreve o fluxo
natural de nossas opiniões e a suspensão racional do juízo, ele certamente não
é tão claro sobre isso quanto Pascal. Do mesmo modo, se fala de uma dúvida
sobre a dúvida cética, Bayle a atribui a Pascal. O conjunto de todas essas
considerações, ademais, sugere fortemente que Pascal foi uma leitura atenta de
Hume. Ainda que cada semelhança, tomada isoladamente, possa ter outra fonte, o
fato é que, postas lado a lado e tomadas em conjunto, as semelhanças parecem
indicar um impacto direto de Pascal sobre Hume.
Além disso, mesmo que a leitura de Pascal por Hume tenha sido guiada por Bayle
(de onde Hume certamente tirou muitas ideias), por que Hume não olharia por si
mesmo o texto de Pascal, dado que faria um uso tão importante dessas ideias?
Seria muito fácil para Hume fazer isso. Pode ser verdade que Bayle serviu de
guia para Hume saber o que procurar em Pascal, mas, tanto quanto posso ver,
Hume foi ver por conta própria o que Pascal tinha a dizer. E, então, descobriu
mais algum material para trabalhar por si mesmo, sem a orientação de Bayle.
Acima de tudo, parece-me que a análise feita por Hume na primeira Investigação
não deixa dúvida sobre uma leitura direta e atenta de Pascal, pois nela não
encontramos paralelo com nenhum outro autor que tenha tratado do ceticismo.
Parece que a distinção entre argumentos populares e filosóficos pertence, que
eu saiba, somente a Hume e Pascal. Além disso, ambos têm avaliações semelhantes
sobre os méritos dos novos argumentos céticos modernos e as limitações dos
argumentos céticos tradicionais. Portanto, eu concluo que ninguém exceto Pascal
poderia ter sido a fonte dessa distinção e avaliação.
Se Hume leu Pascal, podemos passar à seguinte questão: quando Hume leu Pascal?
Inclino-me para a hipótese de que Hume leu Pascal em diversos momentos de sua
vida, em pelo menos três momentos de sua vida (se não foi uma leitura mais ou
menos constante). Parece que Hume leu Pascal ainda bastante jovem. Se a
conjectura de que, na carta ao dr. Cheyne, Hume teria feito uma referência
implícita a Pascal estiver correta, então Hume leu Pascal precocemente, e o
impacto dessa leitura foi realmente muito significativo, pelo menos para a
composição do Tratado e durou, em alguma medida, até a primeira Investigação.
Em particular, Pascal pode ter fornecido a Hume um esquema, não somente para
entender sua própria enfermidade, mas também uma maneira de articular a relação
entre o ceticismo e a natureza. Muitos anos mais tarde, Hume parece ter lido
Pascal novamente. A divisão dos argumentos céticos em dois tipos, com suas
respectivas avaliações, é inteiramente nova na primeira Investigação. Se Pascal
fornece a Hume essa divisão, bem como uma avaliação dos méritos de cada um,
então pode conjecturar-se que Hume novamente leu com atenção Pascal antes de
escrever esta obra. E, no final de sua vida, Hume teria lido Pascal ainda uma
terceira vez, ao menos se a interpretação de Penelhum (1993, p. 277-281)
estiver correta. Segundo Penelhum, Hume ainda estava refletindo sobre Pascal
quando revisava os Diálogos sobre a religião natural. A seu ver, a famosa e
fundamental adição, em que Philo parece endossar uma proposição sobre a
existência de Deus (feita na revisão final, em 1776, de acordo com a nota de
Gaskin) e que suscita tantas dificuldades para os intérpretes, não somente
recebe alguma luz por meio do seu contraste com Pascal, mas também mostra que o
apologista francês foi, talvez, uma fonte importante para alguns dos
pensamentos de Hume sobre a religião.
Um último ponto antes de terminar. Parece-me que as reflexões de Pascal foram
úteis a Hume para muitos assuntos diferentes, não se limitando a um ou outro
tópico particular. Em diversos tópicos, como vimos, a presença de Pascal se faz
de maneira significativa, em questões que envolvem a dúvida cética, o
conhecimento geométrico, a noção de extensão, a natureza e substancialidade da
alma, a concepção de ciência. Não somente para a sua "lógica", mas também para
questões morais e religiosas Pascal foi uma referência para Hume (embora não
tenham sido analisadas neste artigo), ainda que em sentido oposto, pois, no
caso da "lógica", Pascal foi mais uma fonte de inspiração, enquanto em questões
morais e religiosas suas reflexões tenham servido de contraponto. De qualquer
forma, a variedade dos assuntos em que Hume usou em benefício próprio os
pensamentos de Pascal é notável.
Pode-se concluir, portanto, que Hume leu atentamente Pascal durante toda a sua
vida, aproveitando-se extensamente de suas reflexões nos mais diversos
assuntos, ora aprovando-as, ora rejeitando-as, mas frequentemente tendo-as sob
sua mira.