A natureza do filósofo
Se na tradição pré-socrática a concepção de phýsis aparece tanto associada à
superação do mito e da intervenção divina, quanto à afirmação de um princípio
material ou imanente ao cosmos, quando transposta para A República e à
definição do filósofo, essa noção ressurgirá vinculada à psykhé. Apesar da
concepção tripartite da alma, apresentada por Sócrates no livro IV do diálogo,
incluir o desejo e as carências fisiológicas (em marcante diferença com a
oposição dicotômica entre corpo e alma do Fédon), a natureza do filósofo não se
subordina a nada que seja orgânico ou fisiológico. Desprendida da
materialidade, conforma-se ao pensamento e permanece atada ao divino cujo apelo
integra verdade e justiça. Divina seria, então, a própria filosofia: o maior
benefício que os deuses concederam à raça dos mortais, segundo o Timeu; assim
como o método que a define, a dialética, fora um presente dos deuses aos
humanos, segundo o Filebo1. Falar dessa natureza do filósofo, por conseguinte,
pressupõe abordar a natureza mesma filosofia. No caso de um filósofo grego
antigo e, mais particularmente, de Platão, filosofia e vida estão tão
imbricadas, sobretudo se levarmos em conta o registro do testemunho socrático,
que se torna quase impossível distingui-las.
A primeira imagem delineada do filósofo nos escritos de Platão é a do próprio
personagem Sócrates, visando sempre a uma sabedoria que se descola do solo do
prestígio público, seja pelo modo despojado como vive, seja pela direção à qual
orienta seu pensamento, construindo, assim, um discurso desafinado do que se
costuma ouvir no âmbito da pólis2. Aquele que se consagra à filosofia não
apenas vive à parte das inquietações que movem seus concidadãos, mas dirige-se
aos mesmos por meio de interpelações que sempre lhes soam tão singulares quanto
excêntricas. Desde os primeiros passos da Apologia, o personagem do filósofo
chama a atenção para a sua fala estranha aos tribunais3, tal como um idioleto,
antes mesmo de discorrer sobre a sua vida desvinculada das ocupações políticas
e dos interesses particulares - que a prática política se atenha ao particular
e não à justiça, esse é o distintivo da pólis cujos governantes mantém-se
distanciados do exercício da filosofia. Ressonâncias desse estranhamento
reencontramos no Górgias e no Teeteto. No diálogo com Polo, consagrado ao exame
da oratória, Sócrates relembra que provocou risos por sua inabilidade quando
fora convocado a exercer na Assembléia as funções da pritania. Para Cálicles, o
mais inflamado porta-voz da retórica sofista, por toda a sua atenção à
filosofia e inapetência para lidar com os assuntos práticos da pólis, Sócrates
findaria por habitar uma
casa vazia4
. No Teeteto, Sócrates retoma esse tema da excentricidade dos mais sábios:
evoca a Teodoro a anedota sobre Tales, tão desligado do mais imediato que, ao
caminhar, fora incapaz de enxergar um poço a sua frente; indiretamente, refere-
se também a si mesmo quando discorre sobre a inaptidão prática dos filósofos,
sempre provocando a chacota, ora de incultas jovens trácias, ora dos seus mais
ou menos próximos concidadãos5.
Na encenação dos diálogos, a lição do colóquio dramático do Fédon: viver e
refletir à margem do burburinho da agorá decorre da atribuição primeira e
permanente de todos aqueles que se consagram à filosofia; mirar para além do
visível, atar a alma ao invisível e, assim, sondar o eterno e o divino. Durante
o seu processo, Sócrates reconhecera seus vínculos diretos com Apolo, o deus
que, por meio da resposta à consulta de Querofonte ao oráculo de Delfos,
levara-o a fazer da filosofia um exercício aberto e público; desde então, o
exame de si mesmo passou a ter seu lado reverso e complementar: o exame dos
pretensos sábios da
pólis6
. Esses mesmos vínculos são reafirmados no Fédon pois o filósofo, identificando
a filosofia à forma mais elevada de música, teria até mesmo composto uma
melodia para o hino ao deus oracular, ao qual, rememorando o canto divinatório
dos cisnes na iminência da morte, se reconhecera consagrado7.
Em paralelo ao deus explicitamente designado, evoca o signo do divino
(daimónion), seja através da voz (phoné), que guia o filósofo porquanto o
retém, seja através do Eros mediador que, a partir do desejo de um só corpo,
rege a sua progressiva ascensão do sensível até a contemplação da beleza como
Forma inteligível8. No Banquete, o discurso atribuído a Alcebíades associa o
próprio Sócrates ao percurso ascético que Diotima expusera para atar o elo
amoroso ao elã extático proporcionado por Eros9. No relato mítico do Fedro, o
filósofo é representado como um humano possuído pelo divino e, no Timeu, a
intelecção da qual participa os deuses (noû dè theoús) é também atribuída a
alguns poucos dentre os humanos10. Há um pressuposto comum e recorrente que se
estende desde o personagem Sócrates até as demais representações do filósofo,
tanto pelo relato mítico quanto pelo contorno do lógos: é sempre a partir da
crítica ao predomínio da política e da educação peculiares à sofística que se
estrutura a explicação do não reconhecimento do caráter filosófico pela larga
maioria dos seus concidadãos.
O Sofista, diálogo tardio, ainda pode ser lembrado como um dos vários exemplos
de que, para Platão, numa vida pautada pela filosofia não se firmariam rupturas
nem sequer distâncias instransponíveis entre a práxis e a theoría orientada à
esfera do supra-sensível. Reconstruindo os parâmetros teóricos da hipótese das
Formas inteligíveis, o diálogo começa com o elogio do filósofo e termina com o
menosprezo do próprio sofista. Em seu prólogo, Teodoro afirma ser o Estrangeiro
de Eléia um filósofo, não um deus, mas um ser divino, como seriam todos os
filósofos. Sócrates mostra-se de acordo mas adverte-lhe que o gênero divino não
é fácil de definir por revestir-se de múltiplas aparências entre os humanos;
embora os filósofos enxerguem as multidões e a vida dos homens das alturas em
que se mantêm, podem ser confundidos com políticos ou até mesmos sofistas11.
Depois da longa discussão, da reconstrução da questão do ser a partir dos
gêneros supremos e da noção de alteridade ontológica, o diálogo se encerra com
a sentença que reduz a sofística a uma mera arte imitativa que, ao fomentar
contradições no terreno das opiniões, apenas produz simulacros e ilusões; por
isso seus porta-vozes pertenceriam a uma raça apenas humana, de nenhum modo
divina12.
Platão aborda tanto a natureza do filósofo quanto a atividade filosófica por
proposições afirmativas, mas também por justaposições que se constroem através
de negativas - ora adverte-nos sobre o que o filósofo e a filosofia não podem
deixar de ser, ora sobre o que não podem ser. No alvo das negações,
invariavelmente, estão os sofistas e a sofística. É assim no Protágoras, no
Górgias, no Fedro, na República, no Teeteto e no próprio Sofista. A distinção
talvez mais marcante e recorrente seja justo a que acabamos de ressaltar: a
vida e o pensar do filósofo concernem ao divino e a prática dos sofistas diz
respeito apenas ao humano, ou melhor, ao mundano.
Vejamos alguns dos termos pelos quais o caráter do filósofo é associado ao
divino. Na Apologia, ao enfatizar sobre o que significa fazer filosofia,
Sócrates reconhece que podia ser prazeroso aos jovens ouvi-lo, quando desnudava
a pretensão daqueles que se pretendiam sábios sem, efetivamente, sê-lo; porém
sobre a sua prática interrogatória, o seu exercício público e peculiar de
pensar, não vacila em admitir:
"Para mim, repito, é alguma coisa que o deus me prescreveu fazer por intermédio
dos oráculos, dos sonhos e por todos os meios enfim de que se vale uma
concessão divina (theía moîra) para prescrever a um homem a tarefa que lhe é
própria"13.
A expressão theía moîra, designativa da atividade filosófica, também presente
na Carta VII, pode ser associada, nos termos do Ion, a uma potência, theía
dýnamis14. No relato mítico do Protágoras aparece para designar o que, a partir
do dom de Prometeu, os seres humanos alcançaram partilhar com o divino: a
capacidade criadora e inventiva das tékhnai15. Na conclusão do Mênon, Sócrates
sustenta a seu interlocutor: por não advir da natureza nem ser coisa possível
de ser ensinada, a virtude surge neste mundo por meio da theía moîra. No Mênon,
são chamados também de divinos os homens que, mesmo sem terem a inteligência ou
a ciência da virtude, tornam-se capazes de se conduzirem corretamente (áxion to
útous theíous kaleîn toùs ándras); se existissem políticos aptos a ensinar a
virtude, esses seriam, entre os vivos, libertos das sombras errantes como,
segundo Homero, teria sido Tirésias no Hades16.
Se, no livro VII d'A República (540 b-c), Sócrates prescreveu o culto aos
governantes exemplares mortos tal como se fossem daímones, em outros diálogos
refere-se aos homens divinos em vida. São várias as passagens que, mais ou
menos diretamente, aludem a homens sábios e superiores, como se pertencessem a
uma estirpe celestial. No Crátilo, o filósofo rememora os homens da raça de
ouro dos versos de Hesíodo:
"Depois que a terra fez desaparecer esta raça eles são, pela vontade de Zeus
poderoso bons gênios ctônicos, guardiões divinos dos mortais" (phýlakes thnetôn
anthrópon)17.
Assim como n'A República, a condição demoníaca ou divina seria um atributo
concedido aos mortos. Porém, logo em seguida, continuando a discussão com
Hermógenes sobre a correção natural dos nomes, Sócrates acrescenta uma outra
dimensão à crença de Hesíodo e àquela que transmitira a Gláucon:
"Ele decerto tem razão, ele e tantos outros poetas, ao dizer que, quando um
homem de bem morre, detém da fortuna uma alta reputação e se torna potência
divina, segundo a denominação que lhe cabe por sua sabedoria. É assim que eu
também estabeleci o nome daémon: afirmo que todo homem bom, tem qualquer coisa
de divino (daimónion eînai), que ele esteja morto ou vivo, e que é correto
chamá-lo daímon"
18.
No livro II d' A República, retomando as hipóteses sofísticas de Trasímaco e
discorrendo sobre as vantagens da vida injusta, Adimanto sustenta que ninguém é
justo voluntariamente, a menos que, por uma natureza divina (theía phýsei,
366c), seja preservado de cometer injustiças. O que, afinal, aproximaria a
natureza do filósofo dessa esfera do divino? Do ponto de vista teórico,
lembremos da definição do sábio que Sócrates nos propõe no livro V do diálogo.
Ao tratar da ciência, porque quem se consagra à filosofia buscando tudo saber é
também um
philomathés19
, Sócrates visa, antes de tudo, focalizar a disjunção entre os domínios do
conhecimento e o da opinião, correspondentes, respectivamente, ao inteligível e
ao sensível. A noção de eídos, aliada à compreensão do que seria o filósofo, ou
melhor, os reis filósofos (oi philósophoi basileúsosin, 473c), começa a ser
mais claramente esboçada em 476c onde, evocando o belo em si, o filósofo
introduzirá a noção de conhecimento, justapondo por uma divisão tripartite: a
pólis, composta de artesãos, guardiões guerreiros e guardiões governantes, à
psykhé (desejante, impetosa e pensante) e, por fim, às virtudes (temperança,
coragem e prudência/sabedoria) que culminam na justiça; por essa via, associa o
Ser à ciência, o não-ser à ignorância; como intermediários (metaxý), no plano
da ontologia, designa toda a multiplicidade das aparências e, no plano do
conhecimento, a opinião. Sábio seria aquele afeito a investigar e apreender a
unidade do Ser através da multiplicidade infinita do sensível; sofista, aquele
enredado entre o ser e não-ser, dominado por todas as fantasias perceptivas e
cujos discursos, por isso mesmo, nunca escapariam ao âmbito do opinativo20.
Muitos males adviriam para a pólis dessa cegueira sofística e a muitos
sofrimentos estariam sujeitos os verdadeiros filósofos21.
No livro VI, Sócrates alerta para os riscos maiores dos desvios pedagógicos de
que podem ser vítimas aqueles que são dotados de uma natureza filosófica
(philosóphoy phýsin), quando se deixam arrebatar pelos discursos dos sofistas.
Em tais casos, só o auxílio advindo pela intervenção divina (tis autêi
boethésas theôn týkhe) poderia preservar os jovens seduzidos e prisioneiros dos
mais nefastos malefícios22. Quando habitantes das sociedades regidas pelas
ilusões sofistas, esses caracteres dotados para a filosofia poderiam ter a sua
índole original desvirtuada ao ponto de se tornarem as mais perversas
caricaturas dos verdadeiros filósofos. Se o cuidado pedagógico, na sociedade
modelar, resguardaria os caracteres filosóficos da degeneração, no âmbito das
formações sociais onde os jovens são guiados pelas imagens sombrias do real,
apenas seres humanos excepcionais são preservados de toda corrupção, pois a sua
natureza se afirmaria pelo suporte da intervenção divina; sem a intercessão
auxiliar de um dos deuses, não se manteria incorrupta (cf. Rep. 492a5). Alguns
poucos passos adiante o filósofo sentenciara:
"Não há, nunca houve e nem haverá um caráter formado na virtude contra as
lições que a multidão subministra; falo, meu amigo, de um caráter humano
(anthrópeion). Quanto ao caráter que é divino (theîon), segundo o provérbio,
deixemos de mencioná-lo. (...) Se, em tais governos, existir um que se salve e
se torne o que deve ser, podes afirmar sem medo de errar que essa salvação se
deve a uma intervenção divina (theoû moîran)"
23.
Em seguida, insistindo ainda e prevenindo Adimanto sobre as ameaças de
corrupção que sofrem nesse meio corrompido aqueles poucos dotados de uma
verdadeira inclinação para a filosofia, Sócrates alude a seu próprio signo
divino (daimónion semeîon)24; decididamente, nenhum dos atuais governos,
lamenta Sócrates, mostra-se digno de ser conduzido por governantes afeitos à
filosofia, a não ser se, por um feliz acaso, lhe sobrevenha alguma inspiração
divina (theías epipnoías)25. Enquanto esse acaso não ocorre, o filósofo mantém-
se inalterável em seus desígnios, mesmo quando se defronta com uma multidão
ensandecida.
No livro VI, Sócrates vale-se ainda de uma metáfora, a de uma nave
desgovernada, para falar do filósofo, estranho e inútil aos concidadãos que não
o reconhecem. Se numa sociedade de justos os homens brigariam entre si a fim de
se manterem distantes do governo, os marinheiros dessa nave, imagem da pólis
subordinada às seduções do poder, permaneceriam em constantes sedições; ávidos
pelas posições de comando e disputando o leme da embarcação, findam por
expulsar o timoneiro do seu posto, o único ciente das regras e exigências da
arte náutica26.
No turbilhão da pólis mal governada ou acéfala, o filósofo se retrai para
contemplar o que é efetivamente real (pròs toîs oûsi), o que é ordenado e
permanece sempre no mesmo estado (
tétagméta átta kaì kata tauta aeì ékhonta27
. "Assim, convivendo com o divino e ordenado (teioi kaì kosmíoi) o filósofo
torna a si mesmo divino e harmonioso, o quanto é possível a um ser humano
(theîos eis tò dunatón anthrópoi gígnetai). Reportando-se apenas a esse modelo
divino (tôi theíoi paradeígmati), o filósofo transforma-se ao ponto de, neste
mundo, divisar o que é por natureza justo, belo e moderado (tò phúsei díkaion
kaì kalón kaì sôphron)28. Valendo-se de Sócrates como mediador, Platão parece
ir longe demais porém, se tudo é uma questão de medida a ser seguida, em se
tratando da filosofia, não há meio termo ou cânone de meia medida, não há
comedimento algum para firmar o paradigma da excelência humana; qualquer medida
que se afaste, por pouco que seja do divino não é uma boa medida: de nenhum
modo o imperfeito (inacabado) (atelès) pode ser medida de coisa alguma29.
Através do relato alegórico, na abertura do livro VII, Sócrates não nos ajuda
muito a compreender por que há destinos humanos excepcionais que se cumprem em
sentido contrário a todas as mais ordinárias experiências e previsões; é o
pronome indefinido
tìs30
que exprime o que impulsiona o homem, prisioneiro no interior da caverna, a
desamarrar seus grilhões, revirar o seu corpo e a direção do seu olhar; para
suportar a dor de um percurso estranho e individual (isolando-o da mais larga
maioria dos habitantes da caverna) e a seguir passo a passo, numa conversão
progressiva, até alcançar o espaço exterior, tornando-se, enfim, capaz de
contemplar as Formas inteligíveis e o princípio não hipotético do Bem.31
Fora desse longo e difícil percurso da filosofia, resta quase sempre o arremedo
pedagógico da pólis democrática ou o pesadelo da tirania. No livro VIII, ao
explicar a tirania como uma decorrência da democracia, Sócrates sustenta que
essas duas formas mais corrompidas de governo poderiam ser compreendidas e até
mesmo justificadas pelas crenças e práticas políticas da sofística - hipóteses
antecipadas tanto no livro I quanto em diálogos anteriores. Consequentemente,
enquanto face avessa do filósofo, Platão identifica o sofista, tanto ao arauto
da democracia quanto ao porta-voz da mais desmesurada tirania. No primeiro
caso, põe em foco o mestre de Abdera e os pressupostos relativistas do
ánthropos métron32. Para ilustrar o segundo, vale-se, sobretudo, de Cálicles,
no Górgias, mas também de Trasímaco n'A República. Em ambos, o apego às honras
sociais, a atração pelo poder; no caso da tirania, o fascínio pela força e pelo
espetáculo do social, diferenças e nuances à parte, exacerba a tentação
desmedida pelo poder absoluto e arbitrário. As possíveis distinções entre um
Trasímaco mais fatalista ou, por assim dizer, "positivista" com relação às
vantagens inerentes ao exercício do comando, e um Cálicles amoralista que, do
ponto de visa da moral e da lei, antecipa as transvalorações nietzscheanas, tem
contornos difusos. Nesse jogo de prestígio e força visando à sedução e ao
domínio do grande animal social (thrémmatos megálou kaì iskhyroy, Rep. 493a), o
sofista não passa de um domador fragilizado, propenso a ser devorado pelo
monstro que alimenta.
Se todos os discursos podem ser validados, por que o discurso do mais forte
haveria de ser negado? Se os múltiplos logói podem exprimir e justificar
qualquer percepção fragmentada, qualquer experiência ou proposição política
dilacerante para a pólis, o fundamento do pensamento e da vida do filósofo têm
de se firmar alhures. Poderíamos continuar parafraseando Platão para nos
estendermos sobre essa natureza humana que se torna apta a mirar a região do
inteligível, segundo a fábula e o lógos da República; sobre sua vida
contemplativa, desenraizada da caverna, sobre suas palavras construtoras de
hipóteses acerca das Formas supra-sensíveis até firmar-se no princípio não
hipotético do Bem em si, para além do ser ou da essência em dignidade e
potência (tês ousías presbeíai kaì dunámei), reinando sobre tudo o que é em si
e por si, autò kath' hautò33. Poderíamos ainda nos estender sobre a reta
segmentada, os quatro planos correlatos do ser e do conhecer e tudo o que lhe
diz respeito: as sombras, as nossas fantasias e crenças, os objetos do nosso
mundo, as entidades e ciências matemáticas, as Formas e a dialética, as
aparências e a essência, as relações entre o múltiplo percebido e o uno
pensado, as alusões à educação matemática e à iniciação à dialética,
necessárias à formação do filósofo; enfim mais e mais discorrer sobre o
programa pedagógico inscrito no livro VII do diálogo.
Preferimos, todavia, parar por aqui. Afinal, apostando que, ainda hoje, é
possível, e talvez até mesmo desejável, levar Platão a sério, para além das
paráfrases dos diálogos, o quanto seria possível vislumbrar da diánoia que mal
traduzimos por discurso ou pensamento, ou da nóesis, que mal traduzimos por
intelecto ou por intuição intelectual? Quão distante já estamos de um percurso
dialético que visa costurar o tecido por demais triturado do real e do
conhecimento? Não nos formamos numa pólis paradigmática, não estamos dotados da
theía phýsei nem da theía moîra, sequer conseguimos vislumbrar signos do divino
em nossas vidas. Diante de todas as perversões e desvarios, em nós mesmos e
fora de nós, em tudo que nos cerca, só nos restaria a nostalgia de uma
sabedoria irremediavelmente perdida?
Platão nos legou algumas fábulas acerca da condição humana. Na abertura do
livro VII d' A República, através da alegoria da caverna, somos levados a
compreender por que, sem a ascese filosófica ou a iniciação dialética, sem o
tis34 indefinido que impulsiona a conversão para a nossa libertação,
permaneceríamos prisioneiros de um espaço subterrâneo onde, sob uma precária
luz, apenas observamos sombras de marionetes, manipuladas por estranhos que
desconhecemos. Conforme o mito da parelha alada do Fedro, seríamos como um
cocheiro debatendo-se para manter o controle e bem conduzir uma atrelagem
alada, embora os dois cavalos que a movem tendam para direções opostas; somente
um custoso aprendizado oriundo da loucura erótica, outorgada pelos deuses,
possibilitar-nos-ia seguir os rumos do cavalo branco ou da ascensão da alma até
a região do hyperouranós35. No primeiro livro das Leis, temos uma outra imagem
de prisão; ali, seríamos nós mesmos as marionetes, joguetes fabricados pelos
deuses; estranhos artefatos, porque os fios das afecções que nos prenderiam,
comandando nossos movimentos, não seriam fios de suspensão às esferas celestes,
mas fios com trações diversas: o mais maleável, símbolo da razão (logismós),
seria o fio de ouro, os demais puxando-nos para outras direções seriam mais
pesados ou mais duros como o ferro ou outros metais. O fio da razão seria o
mais flexível porque não se sujeitaria à coação; embora possa ser transmutado
em lâminas, o ouro não é suscetível à corrosão; assim também o caráter do
verdadeiro filósofo36.
Platão tem sido considerado um arquiteto de projetos utópicos e atópicos; suas
imagens fabulosas mostram-nos, todavia, o quanto ele estava atento à
dificuldade de soltarmos as nossas mais resistentes amarras. N'A República só
inicia o discurso sobre o projeto do estado modelo depois que Sócrates se
confessa impotente diante dos argumentos de Gláucon e Adimanto. Se nos livros
intermediárias do diálogo temos a aposta em uma sociedade pedagógica e em uma
dialética ascendente para formar os seus governantes, a partir do livro VIII, o
foco se direciona às sociedades sujeitas ao declínio, marcadas pelo signo da
corrupção; sobretudo os dois últimos livros do diálogo compõem um drama
tangenciando o trágico em torno da degradação tanto da pólis, através da
tirania, quanto da alma por meio da poesia desconectada das representações do
divino regidas pelo Bem37. Ainda assim, diante da impossibilidade histórica de
uma pólis filosófica, Sócrates nos convida a edificarmos a nossa pólis interior
e o mito de Er, na conclusão do diálogo, é também uma constatação de nossa
liberdade primordial, apesar do mal uso que dela fazemos; afinal, nós mesmos
seríamos levados a escolher nossas próprias vidas38.
Se o grande e forte animal é a metáfora que melhor traduz o social é porque
nossa alma mesma é a imagem de um animal policéfalo (uma espécie de amálgama de
Quimera, Cila e Cérbero), com cabeça de múltiplos animais selvagens ou
domésticos, à qual se junta a forma de um grande leão e de um pequeno homem.
Esse estranho e múltiplo composto que, em sua aparência externa, parece-nos uno
seria o que chamamos ánthropos - a pequena parte da alma, o homem interior,
corresponderia à porção do divino (tôi theíôi39) em nós. Adestrar todos os
nossos animais internos e indômitos, cuidar da diminuta forma humana que eles
ameaçam ou subjugam, é ao que Sócrates nos chama: trata-se, portanto, de
construir nossa pólis interior. O sábio que nunca é chamado para ordenar a
pólis em que vive, ordena a sua própria alma como uma pólis, outorgando-lhe uma
constituição interna visando ao governo racional de si mesmo (autôi
politeían40); assim, a sua alma consagra-se à imitação do divino. Se o divino
socorre o humano, nem que seja apenas por contenção para preservá-lo de
praticar ações que o desviariam de sua natureza original, é também porque o
humano se volta para o divino, em mútua cumplicidade; ultrapassando as
distinções sofistas e os conflitos entre physei e nomôi, a vida do justo torna-
se pautada pela conformidade com o divino (homoiósis theoi), apelo d' A
República reposto na denominada digressão no
Teeteto41
.
Talvez seja menos difícil abordar, não a nóesis ou a dialética das Formas
inteligíveis, mas o que, efetivamente, faz parte deste nosso mundo concreto e
visível; do que está muito mais próximo de nossas experiências vividas e
reflexivas, mundo abandonado pelos deuses, deuses que nós mesmos abandonamos.
No espaço acadêmico, distante da pólis paradigmática, em um mundo em que o
trabalho e a ciência encontram-se fragmentados e não apenas divididos, estamos
mais afeitos a uma perspectiva própria ao relativismo, exercitando
contradições, antilogias ou aporias sem mais pretensões a quaisquer
totalizações teóricas ou a grandes sínteses discursivas. Nesse espaço nos
encontramos porque, de algum modo, somos afeitos à filosofia, porém já não
somos philosóphos à moda antiga, talvez menos ainda no sentido socrático-
platônico, pois não mais buscamos a sabedoria das iniciações ascéticas ou dos
testemunhos exemplares da justiça. Em nossas democracias capengas, de fato,
oligarquias eletivas onde representantes e governantes chegam a seus postos
pelo decisivo impulso das retóricas e imagens publicitárias, vivemos muito
próximos da sofística. Se já não somos filósofos, consideramo-nos, no mínimo,
phílos da filosofia. E poderíamos, voltar à República para pensar, menos a
natureza do filósofo, cujo modelo já está tão afastado de nós, e mais para
pensar o que corrompe essa natureza. Por esse caminho, talvez, seja-nos
possível chegar mais perto de Platão ou fazer Platão chegar mais perto de nós.
Se não mais perto, ao menos não tão distante, embora sem ilusões de reencontros
tardios e impossíveis com o passado.
No meio social em que vivemos, próximos da sofística ou até mesmo do Leviatã
hobbesiano, o social também identificado a um monstro animal, apenas uma
inspiração divina (theía epipnóia 42), admitindo a hipótese platônica, poderia
tornar filósofos os que detêm o poder. Todavia como seria possível essa
irrupção da norma do divino no seio de uma sociedade corrompida? Por que nos
corrompemos, sempre desejosos e insatisfeitos, tornando-nos mais ou menos
próximos de um crivo repleto de furos ao qual Sócrates alude em seu diálogo com
Cálicles no Górgias43? O que podemos fazer de nossa liberdade?
Com poderia, então, diante de todas as impossibilidades históricas e políticas,
um ser humano tornar-se esse artesão de si mesmo no interior da pólis
imperfeita? Essa é uma questão de ressonâncias míticas. Tal como Dédalo,
construindo suas próprias asas, Sócrates, argumentador fixado nos paradigmas
das tékhnai, sábio artesão de si mesmo, construiu asas simbólicas,
contemplativas, que lhe permitiram manter-se atento ao lógos e ao divino embora
deambulando e dialogando na agorá, âmago da pólis. No entanto, lições do
Protágoras, do Górgias e do Mênon, a virtude não seria objeto de ensino, não
como as demais artes ou ciências. Sócrates relembrava sempre aos seus
interlocutores que homens de talento político, como Péricles ou Temístocles,
não souberam transmiti-lo a seus filhos ou concidadãos44. A virtude, em suma,
depende da atenção ao Justo, pelo esforço de cada um. O mito da atrelagem alada
no Fedro quase nada prescreve sobre como melhor ou mais rápido domar e dirigir
o cavalo rebelde para a ascensão da alma às esferas celestiais45. Dédalo doara
a Teseu tão somente um fio; o sábio apenas lançava as suas perguntas. Ambos
impulsionaram e apelaram à anámnesis mas o percurso, sempre solitário, haveria
de ser do próprio Teseu, assim como de cada interlocutor do filósofo. Tanto
quanto a virtude, o vôo da alma também não se ensina. Ícaro, por não ter
construído suas próprias asas, não conseguiu apreender as lições de Dédalo e
submergiu no mar46.
O que tornaria possível, neste mundo corrompido, um ser humano escapar de viver
contaminado por ambições de prestígio e não sucumbir a desejos desmesurados?
Podemos tentar responder essa questão a partir de onde nos situamos: não nas
instituições governamentais de nossas sociedades, mas no espaço acadêmico, na
república das letras. Recuando, ao início do livro II d´A República e às
questões de Gláucon a Sócrates, relativas à justiça, podemos transpô-las para
pensar o modo como exercitamos a filosofia. Interroguemo-nos, então, sobre que
espécie de bem é, para nós, pesquisar ou lecionar filosofia:
a) se é um bem que prezamos apenas por si mesmo;
b) se é um bem que apreciamos por si mesmo mas também por seus benefícios
exteriores;
c) se o exercício do filosofar seria aquela terceira espécie de bens árduos de
praticar que valorizamos tão somente pela utilidade dos seus resultados ou por
suas vantagens materiais47.
Se não praticamos o amor da sabedoria apenas por si mesma (afinal, somos pagos
para pesquisar e lecionar e dependemos desse ofício para sobreviver), tentar
pensar por nós mesmos não deixa de nos comprazer; sendo assim, não exercitamos
a filosofia, nem como uma espécie de missão divina, nem apenas como uma tarefa
árdua da qual extraímos apenas recompensas que lhe são exteriores;
consequentemente, se não estamos no primeiro nem no terceiro caso, só podemos
nos situar no segundo, ou seja, prezamos a atividade filosófica por si mesma e
pelas compensações exteriores que ela nos proporciona.
Deixemos, por enquanto, esse paralelo em suspenso e rememoremos alguns passos
dos os livros VIII, onde Sócrates relaciona os caracteres humanos às formas de
governo. Seriam cinco os tipos humanos: o aristocrata correspondente ao governo
bom e justo, e, além desse tipo ideal, mais outros quatro, correlatos às formas
degeneradas de governo - a saber: o homem timocrático, o oligárquico, o
democrático e o tirânico48. Esses tipos corrompidos, concernentes diretamente à
pólis, não seria tarefa fácil transpô-los para a república das letras. Mas,
avançando para o livro IX, vemos que Platão reduz os cinco caracteres humanos a
apenas três aos quais se vinculam três espécies de prazeres: em primeiro lugar,
está o aristocrata, o homem real da pólis e, antes de tudo, rei de si mesmo (
basilikótaton kaì basileuonta autoy49)
; assim, em ordem decrescente, temos o philosophón, ao qual se segue o
philónikon e, por último, o philokerdés50; sendo o primeiro o amigo da
sabedoria, o segundo poderia ser considerado o amigo do triunfo, do êxito ou da
honra; e o terceiro o amigo do ganho ou da ganância.
Se não somos filósofos, seja porque já não somos guiados por gênios ou deuses,
seja porque não temos chances de habitar uma pólis paradigmática (afinal, a
República propõe-nos apenas um modelo discursivo51), não podemos ser amigos da
sabedoria, ao menos no rigoroso sentido socrático-platônico que exige a plena
atenção ao saber desdobrando-se em inequívoco testemunho de justiça. Também não
somos amigos apenas das vantagens materiais advindas do nosso ofício, até
porque se o nosso objetivo maior fosse ganhos e salários, teríamos optado por
outras profissões. Mais uma vez, se não nos situamos no primeiro caso nem no
terceiro, só podemos nos encontrar no segundo. Se não somos philósophos somos,
por assim dizer, phílo-philósophos, pois ainda nos deixamos impressionar pelas
honras, prestígios ou êxitos acadêmicos e, lamentavelmente, pelo espírito de
competição que, não raro, decorre do desejo, mais ou menos consciente, de
prevalecer sobre nossos pares. A nosso favor, poderíamos ainda alegar que não
almejamos honras indevidas ou prestígios desmerecidos; damos a conhecer o nosso
trabalho porque buscamos o diálogo inter-pares, a comunicação que visa,
principalmente, ao reconhecimento do nosso esforço. Porém, no mínimo, temos de
admitir o quanto é difícil delimitar a fronteira entre reconhecimento e
prestígio, entre o desfrutar da justa glória ou da vanglória.
Parece-nos, então, que nesses dois esquemas triádicos sobre os gêneros dos bens
e dos humanos equilibramo-nos no campo intermediário. Se já não esperamos
qualquer irrupção de uma norma divina, podemos ao menos permanecer vigilantes
para que sempre mais nos afastemos do terceiro plano e tentar, no que ainda nos
for possível, nos aproximar do primeiro. Essa atenção ao pensamento por si
mesmo não é um sonho vão. Na iminência de sua morte, Sócrates indica as pistas
para esse percurso ao enfatizar que os filósofos não devem temer a pobreza
material nem a desconsideração social dessa condição, como a maioria que se
apega às riquezas, às honras, ao poder e à glória. Assim, o verdadeiro filósofo
não pode viver como um philonikós sempre a procura de triunfar52.
Nestes nossos tempos em que o exercício da inteligência aliado ao cuidado
primordial do ético raramente se impõe como um valor não flexível e não
negociável, podemos nos lembrar do exemplo do matemático russo Grigory
Perelman; tendo proposto a solução para a chamada conjectura de Poincaré, ele
não se preocupou em divulgá-la em qualquer prestigiada publicação acadêmica,
acessível apenas aos assinantes ou iniciados; lançou-a na agorá virtual para
que todos pudessem ter acesso a seu trabalho. Em 2006, causou espanto nos meios
intelectuais quando declinou receber do rei da Espanha a medalha Fields e a
soma em dinheiro que lhe seria correspondente; sua justificativa para essa
recusa, extraída de uma rara entrevista à revista The New Yorker, em 28 de
agosto do mesmo ano, tem a limpidez de uma máxima socrática: "(O prêmio) é
completamente irrelevante para mim. Qualquer pessoa entende que, se a
demonstração estiver correta, não é necessário nenhum outro reconhecimento".
Muito possivelmente, quanto mais estejamos próximos dessa pessoa qualquer menos
nos distanciaremos dos valores inerentes à natureza do filósofo, tal como
Platão a concebeu. Nessa direção, encontramos ainda ressonâncias nos
testemunhos de alguns pensadores já muito distantes da antiguidade clássica,
quando filosofia e vida eram inseparáveis; pensadores que também se
distanciaram de honras sociais e acadêmicas: modernos como Spinoza e Rousseau,
e contemporâneos como Simone Weil e Wittgenstein. Se optamos por pesquisar e
lecionar na academia, ao menos não nos deixemos enredar em disputas por
objetivos menores, nem cativar por quaisquer honrarias.
1 Cfr. Timeu, 47a-b e Filebo, 16c-17a.
2 Que Sócrates foi o mais sábio de seu tempo é o que podemos ler na conclusão
do Fédon (118c); também foi aquele a quem menos caberia qualquer acusação de
impiedade na Carta VII (325 b-c).
3 Apologia, 17 d.
4 Cfr. Górgias, 473e-474a e 486c.
5 Cfr. Teeteto, 174a e segs.
6 Cfr. Apologia, 20e e segs. e 28e.
7 Cfr. Fédon, 60d e segs; e 84e e segs.
8 Cfr.Apologia, 31d e Banquete, 202d e segs.
9 Cfr. Banquete, 214e e segs.
10 Cfr. Fedro, 249d e Timeu, 51e.
11 Sofista, 216 c-d.
12 Sofista, 268 b-d.
13 Apologia, 33c; trad. a partir de L. Brisson, Paris, Flammarion.
14 Carta VII, 326: theías môiras; Ion, 533d e 534c
15 Protágoras, 322a: theías metéskhe moîras.
16 Mênon, 99c e 100b; cfr. em 99d, a expressão "theîos anér" . E cfr. Homero,
Odisséia, X, 494-495.
17 Trad. a partir de C. Dalimier, P. Mazon e M. C. N. Lafer; cfr. Crátilo,
397e-398a e República, 469a. Cfr. Hesíodo, Os trabalhos e os dias, versos 121-
123 (toì mèn daímonés eisi Diòs megálou dia boulàs).
18 Crátilo, 398b-c (grifo nosso); trad. a partir de C. Dalimier, Paris,
Flammarion.
19 Cfr. República, 475c; 376c e 581b.
20 República, 472e-480a. Nessa proposição triádica simplificada, não temos
ainda a mediação atenuante da alethès dóxa, diversa da pseudès dóxa; no livro
IX, Sócrates relacionará opinião verdadeira e ciência, hipótese também aventada
no Mênon, 98-b-c, no Teeteto, 187a e segs., 201c e segs., e na conclusão do
Filebo 66b-c.
21 Cfr. República, 488a; pode-se aproximar o sábio expulso da pólis ao modelo
do justo perfeito, sugerido por Gláucon, 361b-362a .
22 República 492a;
23 República 492e-493a; trad. a partir de A. L. de Almeida Prado e J.
Guinsburg.
24 República, 496c.
25 República, 499c; e cfr. 497a e segs.
26 República, 347d-e e 480a e segs.
27 República, 500 b-c.
28 República, 500 c-d; 501b.
29 República, 504c: métron tôn toioúton apoleîton kaì hotioûn toû óntos ou pánu
metríos gígnetai: atelès gàr oudèn oudenòs métron. A questão da medida com
relação aos prazeres e ao bem na vida humana, será retomada, especialmente, nos
passos conclusivos do Filebo: 64e e segs.
30 República, 514c
31 Cfr. República, 516a-517c.
32 Cfr. Protágoras, 320d-323c; Teeteto, 166a-168c.
33 República, 509b. Trata-se, afinal, de compreender tanto a essência do Bem
quanto a própria ordenação da pólis . Desde os primeiros passos do livro II do
diálogo, Glaucon interrogara Sócrates sobre o que seria a justiça autò kath'
hautò (358d).
34 República, 514c.
35 Fedro, 247c.
36 Leis, 644d-645e. Cfr. Dixsault, M. Le naturel philosophe, Paris, Belles
Letres, J. Vrin, 1985, p. 266.
37 Não podemos nos esquecer que toda a crítica à poesia desenvolvida no livro X
d' A República, 595a-608d, é precedida pela advertência inscrita no livro II do
diálogo:do divino só se poderia dizer o bem e o verdadeiro, (379b e segs. e
382e)
38 República, 617d; sobre a pólis interior, cfr. 591d-592b e 608a-b.
39 República, 589d e cfr. 589 a-b.
40 República, 591e.
41 Teeteto 176b.
42 República, 499c
43 Górgias, 493b
44 Cfr. Protágoras, 319 e segs.; Górgias, 515b e segs; Mênon, 93b e segs.
45 Cfr. Fedro, 246a- 257c.
46 Cfr.. MORAIS, E. M. de e SOARES, M. L. "Divagações platônicas em torno do
mito de Dédalo," in Actas del XVVII Simpósio Nacional de Estúdios Clásicos:
Memória y olvido en el mundo antíguo, Bahia Blanca, Universidad Nacional del
Sur, 2002.
47 República, 357b-d.
48 República, 544d-545b e 580b-580c.
49 República 580c.
50 República 581c
51 Sobre a dificuldade ou a impossibilidade de efetivação da pólis
paradigmática, fundada em palavras apenas e o consequente apelo a uma pólis
interior, cfr. República, 592b, 591e; e 499b, 502c, 590e e segs.
52 Cfr. Fédon, 82c e 91a e cfr. República 581b.