Promessa tecnológica e vantagem combatente
Máquinas não vencem batalhas,
mesmo que se ganhem batalhas com máquinas '
uma enorme diferença.
Ernst Jünger, Das Wäldchen 125 (Berlin, 1926)
Introdução
Mais ou melhor tecnologia não garante mais ou melhores arranjos de defesa. A
ênfase tecnológica expressa, por exemplo, na meta dos EUA de Transformaçãoou na
Estratégia Nacional de Defesa do Brasil presume uma passagem fluente desde a
busca por resultados tecnológicos até sua materialização em termos de arranjos
de defesa. Pautar prioridades de defesa por metas tecnológicas arrisca perder
de vista a integridade do processo pelo qual se busca, produz e aproveita algum
resultado tecnológico para produzir capacidade combatente; pelo qual se
concebe, propõe e escolhe alternativas de capacidade combatente para compor
arranjos de defesa; e ainda pelo qual se aprecia e pondera a oportunidade,
propriedade e utilidade de tais arranjos diante das metas e preferências
políticas, por exemplo, numa política de defesa.[1]
Nenhum desses passos pode ser tomado como certo, nenhuma dessas passagens pode
ser tomada como sendo automática, e uns e outras incluem mais do que apenas
soluções tecnológicas. Cada passo e passagem tem demandas, riscos, dinâmicas e
prazos próprios, considerando diversos tipos de insumos e se
pautando por diferentes mecanismos. Não se pode dar como certo que se chegue
ao resultado tecnológico que se deseje nos termos, prazos e custos que se
gostaria de ter. Mesmo que se chegue a resultados tecnológicos aceitáveis, não
se pode presumir que seu aproveitamento, operacionalização e sustentação em
termos combatentes atendam às expectativas de capacidade que se ambiciona.
Mesmo que se tenham alternativas de capacidade aceitáveis, não se pode afirmar
que correspondam precisamente aos arranjos de defesa que atendam às metas e
preferências políticas de um governo. Erigir a tecnologia em símbolo do que se
busca e a pesquisa tecnológica como método pelo qual se buscam resultados de
defesa arrisca subtrair recursos e comprometer a viabilidade do processo
integral de que os arranjos de defesa dependem.[2]
A composição da lógica política com a gramática dos meios é a forma pela qual
se pode enquadrar, articular e conduzir esse processo. A lógica política dá
conta dos fins, metas e preferências de um governo, os termos pelos quais ele
propõe conduzir os assuntos em que o uso de força pode ser uma consideração,
como, por exemplo, a defesa. Expressa a um só tempo um diagnóstico e um
prognóstico quanto a relacionamentos políticos, disponibilidades de recursos, e
metas a serem perseguidas. Isso corresponde ao que se enuncia em políticas
públicas de assuntos de segurança, de relações exteriores, de relações
federativas e de defesa. As metas dessas políticas, a seu turno, intimam a
necessidade de se terem determinadas capacidades para que possa fazer isto ou
aquilo, desta ou daquela maneira, em tal alcance ou tempo. Mas isso não é o
suficiente; querer não é poder. É necessário considerar a gramática dos meios,
apreciando o que o estado da arte permite e, daí, o que se exige para dispor
dos meios que oferecem esta ou aquela capacidade. Isso faz com que se tenha que
lidar não apenas com a posse de uma determinada capacidade pronta que os meios
ofereceriam, mas também com a temporalidade do preparo de tal capacidade. É com
esse enquadramento que se pode delinear de forma consistente o processo que vai
desde tecnologia até a posse de meios em arranjos de defesa. Seu início é a
percepção do potencial de promessas tecnológicas, e seu destino seria, a um
primeiro olhar, a posse de capacidade combatente pronta.[3]
Mas não basta considerar capacidades combatentes em si mesmas, como se elas se
fizessem tecnicamente autárquicas em relação à sua destinação política uma vez
escolhidas. A lógica política, que usa dessas alternativas para modificar suas
metas, dá ainda destino às alternativas de arranjos de defesa, ao
contextualizar o emprego dos meios que se escolhe preparar. O antagonismo
político que considera usar de força tem lugar entre oponentes, cada um com
suas capacidades. O destino real de todo o processo, então, diz respeito à
capacidade combatente comparada, isto é, ele expressa a busca por vantagens
combatentes, com tudo o que isso tem de transiente e fugidio.[4]
O propósito deste artigo é delinear as relações entre promessa tecnológica e
vantagem combatente. Apresenta, inicialmente, alguns aspectos que balizam esse
processo, qualificando entendimentos relativos ao papel da tecnologia na guerra
e destacando a centralidade do projeto de força. Oferece, em seguida, uma
ilustração histórica que pode servir para enquadrar algumas coisas sobre as
quais se deve pensar. Ao final, ainda que não se possa apontar para uma
conclusão cabal, espera-se ter demarcado de maneira útil aspectos essenciais do
que o tema exigiria para sua correta apreciação.
Tecnologia e projeto de força
Numa era que glorifica a tecnologia, é sempre difícil questionar a expectativa
de promessas tecnológicas. Isso é ainda mais delicado quando se reconhece a
prevalência da miopia fácil e sensível que só vê tecnologia de produto,
deixando de lado a tecnologia de processo, e a tecnologia na e da capacitação
de pessoal. Esse equívoco tende a ser mais presente em assuntos de defesa do
que em outros, em função da lógica de venda de seus produtos mais destacados '
sistemas de armamentos (weapons systems). Qualificar o papel da tecnologia na
guerra se inicia pela denúncia da falácia reducionista pela qual mais ou melhor
tecnologia de produto, de artefatos, de armamentos bastaria para assegurar
sucesso e vitória. Muito da dificuldade de fazê-lo reflete o fato de que um
erro é tão mais perigoso quanto mais verdade inclua.
Vitória no combate, bom resultado na guerra, sucesso quando o uso da força tem
lugar dependem, sim, em diferentes medidas em distintos contextos, dos
armamentos e portanto da tecnologia que estes contenham. A falácia do
reducionismo tecnológico simplifica tudo o mais ao redor dessa parte da
verdade. Isso é especialmente sedutor, tanto por sua singeleza quanto por sua
dramaticidade. Serve, por exemplo, tanto a propósitos de marketing na venda de
produtos de uso de defesa quanto ainda para fins de entretenimento. Por um ou
por outro motivo, a falácia de que os armamentos lutam, e mais que lutam,
determinam os resultados da luta, está presente de forma marcante no imaginário
do que seja a guerra.
A espada que tudo corta, o escudo no qual nada penetra; o míssil que vai mais
longe, o tiro que nunca erra seu alvo; o deslumbre da velocidade de uma
aeronave, da imponência de um grande navio. Chega-se ao ponto em que se aceita,
mesmo se espera, uma medida de identidade entre superioridade (de desempenho
técnico) de armamentos, ou seja, a promessa tecnológica de tal desempenho, e a
expectativa de sucesso no combate, na guerra (o cumprimento bem-sucedido da
tarefa da defesa). Isso imiscui expectativas de diversas naturezas, a tal ponto
em que não parece ser algo que se possa questionar sem alguma indução.
Num exemplo insuspeito do valor da percepção de Marshall MacLuhan de a mídia
ser a mensagem[5], considere-se a espetacularidade simples e direta do filme de
guerra prototípico, em sua cena mais incisiva para a questão do lugar e papel
do armamento na guerra. Imagine-se a sequência:
* long shot, ambiente e personagens, as tropas em luta;
* zoom in, para o impacto que derruba um dos que a audiência já pensa como
sendo um dos seus, com tudo o que isso tem de emocional;
* medium shot, a maior parte do corpo de um dos que a audiência já pensa
como sendo um dos deles, o inimigo, com tudo o que isso tem de emocional;
* pan down, para perceber debaixo o esgar de satisfação do inimigo enquanto
prepara mais um golpe;
* zoom out, se espera o pior para o galã, um dos nossos, que é o próximo
alvo;
* medium shot, o golpe é desfechado;
* pan up que vê de cima o desapontamento do inimigo quando o golpe não
produz efeito;
* zoom out, to medium shot do galã revelando que aparou o golpe;
* travelling shot que acompanha o galã enquanto converte a interceptação do
golpe no início do contragolpe;
* medium shot, o contragolpe que derruba o inimigo;
* close up do fator explicativo da reversão da fortuna;
e aqui se pode ter diversas possibilidades que acabam sendo a mesma.
A tal espada ou escudo, ou o que se coloca em tal lugar: o disparo mais
intenso, a blindagem mais forte, o avião mais rápido, o navio mais imponente.
Isso é acompanhado por efeitos visuais e sonoros diferentes dos que ocorrem na
realidade. Na maioria dos filmes de guerra, o efeito especial que simula uma
granada de mão usa uma carga explosiva bem maior e mais pirotécnica do que a
granada possui, e se apõe à sua explosão um efeito sonoro menos intenso e mais
agradável do que o que essa carga de efeitos especiais ou mesmo a explosão
inicial produziria, por exemplo. E tem-se ainda o efeito indutor do fundo
musical, que melhor cumpre o seu papel quando não é percebido conscientemente.
[6]
A propaganda de produtos de uso de defesa é menos familiar que o cinema, mas
manipula as mesmas ferramentas, e sabe-se das ferramentas da propaganda da
experiência cotidiana. Não é preciso conhecê-la para reconhecê-la, numa
diversidade de programas de aspiração educacional e de informação que a emulam,
e em que a história da guerra é a sucessão de armamentos que se superam ' por
exemplo, o Weaponology do Discovery Channel ou o Future Weapons do History
Channel. Há ainda a presença dessa falácia, precisamente porque ela é familiar,
e porque ela é empurrada na lógica da mídia, em programas que não teriam a
intenção de glorificar armamentos ou vender o que quer que seja. Ou ainda no
noticiário que apresenta o armamento como sinônimo, símbolo, evidência do fato
da luta, mas que pode muito facilmente reduzir a luta à alternância ou ao
embate de armamentos ' o que pode ser, aliás, precisamente o que a propaganda
de guerra de um dos lados deseja.
Ensina-se assim que o resultado do combater é, principalmente, o resultado do
embate entre os armamentos de que cada um dos lados dispõe. Derrota ou vitória
dependem da posse do armamento superior. O resultado cumulativo das incontáveis
ocasiões e maneiras como se teve essa vivência de segunda mão é um dos maiores
empecilhos para que se possa vir a enquadrar, conduzir ou mesmo apreciar o
papel da tecnologia na guerra. Contamina e interfere em qualquer tentativa de
se considerar o que seja o processo pelo qual se perseguem promessas
tecnológicas até que elas possam vir a permitir que se obtenham vantagens
combatentes.
Tudo o que povoa esse imaginário é fake. Por mais familiar que seja, por mais
habituado que se esteja a essa pseudorrealidade, é preciso trazê-la à mente
para poder exorcizá-la. E isso pode mesmo ser simples, porque se pode colocá-la
assim, despida da licença artística que a autoriza, sem o aparato da mágica do
entretenimento ou da persuasividade medida da propaganda, até mesmo da
ingenuidade que a toma apenas porque é mais fácil e familiar. E agora se pode
dizê-lo, esperando ser entendido, de que não são os armamentos que lutam, mas
as pessoas que lutam como eles. Que saber lutar é muito mais do que ter e usar
o armamento. E daí denunciar a falácia reducionista, expondo como ela deseduca:
ela ensina o desprezo ao trabalho do preparo da defesa, dos profissionais das
armas, ao intimar que a posse deste ou daquele armamento, daquela tecnologia, é
tudo o que é relevante.
Nas coxias do imaginário reducionista, ocultam-se a delicadeza, complexidade,
duração e humanidade da luta, substituindo-as pelo espalhafato, simplicidade,
concisão e automatismo que se consuma no embate entre armamentos. Os
armamentos, os combatentes e as guerras não nascem do nada, não se resumem a
uma frase ou duas que situam a ação, ou a uma tomada que alavanca
familiaridade. É na História que se pode encontrar o processo de tomada de
decisão pelo qual uma sociedade decide lutar, ou busca antecipar as
circunstâncias e prover os meios de força com os quais pode vir a ter que
lutar. Isso pode ter lugar muito antes que tais meios venham ser usados, ou
pode se apresentar com a premência do imediato. Os meios de forças dependem,
para existirem, do planejamento que organiza a conversão de recursos de toda
ordem em grupos combatentes e sistemas de apoio, e daí em forças combatentes.
[7]
A tecnologia não é em si mesma, não explica nada por si só: seu papel e efeito
dependem de seu aproveitamento em algo material ou imaterial ' um armamento, um
arranjo, um procedimento ou um treinamento, por exemplo. Só quando se incorpora
e aproveita tecnologia em artefatos, sistemas ou pessoas é que se pode esperar
que ela tenha significado para atividades e relacionamentos humanos.
A tecnologia aplicada pode dialogar consigo mesma em alguma medida: os ganhos
de desempenho entre diferentes possibilidades e aplicações tecnológicas. A
medida comparativa desse desempenho referencia a aplicação tecnológica
anterior, e se abre a apreciação de sua qualidade, por exemplo, em termos de
benefício contra custo.[8]
Mas embora possa ser relevante, essa medida nunca é suficiente. Um ganho de
desempenho palpável no depois em relação ao antes não se traduz,
automaticamente, num ganho em capacidade combatente diante de um oponente. Não
faz sentido considerar ou apreciar resultados tecnológicos em termos de
capacidades, ou desempenhos técnicos, em si mesmos: tem-se que incluir sempre o
oponente.
E agora talvez se possa apreciar que, ao contrário do que a falácia
reducionista intima, a tecnologia não simplificou a guerra. Diferentemente do
que se poderia, talvez, imaginar quando se tem como referência os últimos anos
da digitalização no mundo civil, a tecnologia complicou extraordinariamente a
condução da guerra nos últimos 100 anos. Cada novo desenvolvimento, cada novo
armamento, sistema ou possibilidade de qualificação de pessoal exige não apenas
o reaprendizado do fazer, mas principalmente um repensar. Esse repensar tem que
considerar cada vez mais elementos e seus relacionamentos, impondo requisitos
de qualificação técnica, tática e logística cada vez mais elevados. Não se
trata apenas de rever o que o alcance ou o efeito deste ou daquele artefato,
sistema ou procedimento significa para como se pretende lutar ou como se luta.
A questão é propriamente cognitiva, a demanda por sínteses pragmáticas, que
sejam capazes de produzir resultados. Sejam as sínteses que permitem formular
doutrinas capazes de urdir artefatos, pessoal e procedimentos em grupos
combatentes coesos e competentes, sejam as que capacitem ao exercício do
comando.[9]
Esse turbilhão de desafios cognitivos e práticos não é algo recente. Que as
coisas tenham que seguir mudando, porque mudam os artefatos e armamentos, mas
para além deles, porque se aprendem acima de tudo formas novas de usá-los, e
para usá-los depende-se de muito mais do que dos artefatos eles mesmos, é a
principal lição da Grande Guerra de 1914'1918. Esse aprendizado impôs a
necessidade de se considerar, de maneira articulada, o que sejam as escolhas de
artefatos, armamentos e sistemas, de qualificação e articulação de pessoas e
organizações, de procedimentos e formas de agir ' até mesmo as formas de lidar
com a incerteza, a complexidade e a mudança que o estado da arte revela serem
inescapáveis.[10]
Isso deu uma ênfase adicional para os processos cognitivos e práticos pelos
quais uma sociedade converte alguns de seus recursos em meios combatentes e
arranjos de defesa: o projeto de força. O projeto de força é um dos elementos
menos visíveis e mais capitais do relacionamento civil-militar. Trata-se da
circunscrição da capacidade das forças armadas para que possam ser capazes de
buscar os resultados que se esperam de seu uso, e para que não possuam
capacidades que afrontem o que seja a preferência política de modos e métodos
em seu uso. É nesse processo que se têm tanto o teste quanto o exercício da
combinação das diferentes competências de órgãos de assessoramento do governo e
das forças armadas. Isso depende de uma combinação delicada de aspectos
cognitivos, técnicos e tácitos, para levar desde a meta de dispor de uma
capacidade alinhada com a política de defesa até a materialidade da força
pronta, capaz de agir, de combater com expectativa razoável de sucesso.[11]
Diante das metas da política de defesa de um governo, as forças armadas
oferecem, usualmente, algumas alternativas de capacidade para a busca das metas
de tal política, da forma como ela deseja buscá-las. O governo aprecia essas
alternativas considerando suas preferências em termos do dispêndio de recursos
ou de formas de sua administração como parte do aparato de Estado, e ainda em
termos do que a gramática dos meios combatentes determina em termos de modos e
meios. Em larga medida, o governo depende das alternativas de projeto que as
forças armadas coligem. Assim, o projeto de força é uma instância em que se
demanda a colaboração ativa das forças armadas para instituir os termos de sua
própria capacitação e controle, seja para tarefas externas ou internas.[12]
Aqui se coloca, então, de maneira adequadamente modesta, o lugar das promessas
tecnológicas, sejam as do presente, sejam as futuras. Em primeiro lugar, as
forças armadas têm que ser capazes de identificar, apreciar e desdobrar as
alternativas de que dispõem diante do estado da arte da gramática dos meios de
força. É dizer, apreciar a tecnologia aplicada em termos de artefatos,
sistemas, procedimentos, pessoal que correspondem à sua configuração existente,
herdada de outro projeto de força. Suas propostas de alternativas de projeto de
força dependem desse juízo e dos recursos que as forças armadas têm, esperam ou
podem vir a ter, em função da decisão política. Em segundo lugar, apenas quando
dispõem de tal inventário é que podem sopesar a oportunidade de configurações
alternativas de pessoal, artefatos e sistemas disponíveis para aquisição, por
exemplo. Isso corresponde às promessas tecnológicas do presente. Em terceiro
lugar, só com esses resultados podem vir a colaborar na identificação de
carências ou oportunidades diante do potencial futuro desta ou daquela
possibilidade tecnológica. Isso corresponde ao que se estime que sejam as
promessas tecnológicas de futuro.[13]
Cada uma dessas perspectivas pode ter um papel mais ou menos relevante num
determinado momento, num determinado contexto, em função do que seja a política
de defesa que esses esforços buscam permitir. Esse processo de participação no
projeto de força é um dos mais importantes elementos de atualização cognitiva
de uma força armada. Tem o papel de dinamizar e, portanto, de amenizar o efeito
inercial que nasce da familiaridade com os arranjos e meios existentes,
questionando-os.
Questionar-se não é fácil nem natural para forças armadas. Organizações de
hierarquia vertical e com alto investimento em capital fixo tendem a ser
avessas a algo que pode por em risco a fluência e familiaridade com o que têm.
Mas o que promessas tecnológicas oferecem pode ser importante para a
atualização, mesmo para a continuidade da capacidade de ação das forças. Isso
faz com que tenham que considerar o que tem que ser mudado para que se possam
manter capacidades comparáveis às do estado da arte dos meios e formas
combatentes. Mas mudanças incrementais ou de partes podem cobrar um preço alto
em termos de preparo ou de prontidão obtendo ganhos marginais de capacidade,
pondo em dúvida o valor de promessas tecnológicas presentes ou futuras. O que
seja o balanço entre essas duas tendências depende do que sejam os rumos e
prioridades da política de defesa.
Como qualquer organização que não esteja adequadamente tutelada, as forças
armadas sempre se arriscam a alguma forma de emancipação. Conveniências
corporativas podem levar a desafios dos rumos da política, ou se prenderem a
dinâmicas inerciais. Isso faz com que se possa lançar uma primeira luz sobre a
dificuldade do processo de preparo de forças armadas em tempos de paz pela
baliza de dois casos polares: a recusa e a sedução diante de promessas
tecnológicas.
A recusa de promessas tecnológicas pode chegar ao extremo de preferir e
demandar apenas mais do mesmo. Mais pessoal, que alarga possibilidades de
progressão na carreira e aumenta o orçamento e o poder da organização tanto
quanto de indivíduos em posições de mando. Mais ou melhores versões do que já
se tem e conhece, que não ameaçam os arranjos existentes nem colocam desafios
cognitivos para sua incorporação. A tecnologia é mantida à distância,
ocasionalmente concedida em atividades-meio ' que podem ser formas de um
aumento indireto de recursos. Pode, ainda, ser confinada a uma pequena parte da
força, onde fica indefinidamente experimental, expressando uma aceitação formal
para ser uma recusa concreta.
A consciência do estado da arte pode ser deslocada para fora do âmbito
cognitivo da força. Atua-se como se a tecnologia pudesse ser congelada num
determinado instante, o que corresponde ao do mesmo que se tem e conhece. É
uma forma de não ter que dar conta da infinidade de questões que fazem parte do
projeto e mesmo do preparo de uma força combatente. Em vez de se ter que lidar
com os problemas concretos e em movimento do estado da arte, pode-se priorizar
problemas em termos familiares e fixos, dando-os como resolvidos. Nesse caso, é
bem mais fácil chegar a resultados incontestes, e mesmo consensuais, já que
tais resultados ganham a força da longevidade, e seu questionamento é o
questionamento dos resultados de quem tem a ascendência da hierarquia. Quanto
mais os conflitos intraforça se sobrepõem a disputas interforça, mais sedutor
se torna ofertar alternativas para o projeto de força que são apenas réplicas e
expansões do que a força já é, ou imagina ser. O rumo do conjunto e a
integração da ação das forças ficam entregues às formas de justaposição mais
brandas que se possa obter da autoridade civil.[14]
A ausência de tutela pode levar à outra forma de emancipação, em que se abraça
a promessa tecnológica. O mais do mesmo é substituído pelo nada será como
antes. Isso não é um paradoxo: a aversão a mudanças incrementais ou a
rearranjos substantivos de partes pode levar a apostas em promessas
tecnológicas, mesmo quando elas carecem de outro respaldo que não o de sua
ambição ou sedução. Aqui a tecnologia é tomada como uma panaceia. Essa postura
tem o benefício de desautorizar o questionamento: o que seja a visão desse
dever-ser está condicionada apenas pelo que interesses intraforça possam
entrever e ambicionar. Ao se lidar com uma visão, com um dado porvir, admite-se
necessariamente uma medida de sonho, e isso permite ainda a demanda corporativa
de alinhamento afetivo com essa uma determinada ambição. É como se a capacidade
não precisasse ser mais do que promessa, ficando sempre no futuro.
Ao viver no futuro, a força não precisa dar conta da infinidade de questões que
fazem parte do processo de projeto e preparo de uma força combatente. Em vez de
se ter que lidar com problemas concretos, pode-se priorizar problemas
imaginários. Neste último caso, é bem mais fácil chegar a resultados
incontestes, e mesmo consensuais, já que tais resultados dependem apenas do
acordo dos envolvidos e podem mais facilmente serem feitos segredos ou
obrigações profissionais. Quanto mais os conflitos interforças se sobrepõem a
disputas intraforça, mais sedutor se torna ofertar alternativas de projeto de
força que apostam inteiramente no que uma promessa tecnológica permitiria
fazer. O rumo do conjunto e da integração das forças se faz uma prenda em
disputa, a ser obtida por uma das forças por sobre as demais, de forma tão
avassaladora quanto se possa obter da autoridade civil.[15]
Em ambos os casos, a menos de uma capacidade civil em defesa capaz de ter juízo
próprio sobre as alternativas apresentadas diante do estado da arte, isto é,
capaz de exercer uma tutela substantiva, chega-se muito rapidamente a
disfunções. A capacidade combatente das forças fica refém de dinâmicas
corporativas. Quando isso acontece, a rotina administrativa se sobrepõe,
podendo mesmo excluir, o exercício e o experimento de que a integridade do
preparo depende. O emprego é algo mantido à distância de processos de avaliação
e autoaperfeiçoamento.
Tem-se pouco ou nenhum interesse em manobras que podem relevar problemas.
O preparo se confina à adesão, por vezes apenas nominal, a um determinado
padrão longevo ou projetado. O teste dos arranjos combatentes e de defesa
diante de tal padrão pode degenerar numa encenação que valida o que se acredita
ou se espera ter ou ser. Tem-se muitas atividades, mas nenhum problema: seja
porque se espera mais do mesmo, seja porque se espera a vinda do inédito
transformador. Mas pode ficar difícil identificar ou aferir atividades cuja
medida seja a disponibilidade de capacidade pronta e concreta à luz do que seja
o estado da arte.
Uma das tarefas mais difíceis na direção das forças armadas é resistir às
pressões inerentes da dinâmica burocrática de sua dimensão e complexidade.
Estas pressionam pela aparência de conformidade com mais facilidade do que por
esforços que se mensurem por desempenho real. Sem tutela civil que o exija, ou
oponente que o exponha, é fácil confiar em excesso no que parece correto ou
apenas concorda com o que se imagina ou deseja, e que só esteja ao alcance do
militar. Esse potencial de autolocupletação não tem como ser inteiramente
contido pelas forças elas mesmas.[16]
Em tempos de paz, a tutela civil tem que ser capaz de impor dinâmicas capazes
de permitir espaços em que se admita o questionamento da maneira de pensar, de
agir e mesmo de ser das forças enquanto organizações burocráticas. Os últimos
50 anos deram conta de diversos ciclos e enormes esforços em busca de formas de
integração das forças, seja em termos de sua ação integrada (joint), seja em
termos de contatos vivificantes entre os sistemas de educação, mais amplamente
de preparo militar, com a dinâmica do mundo civil, por exemplo, com a
universidade. Essa é uma obra em andamento, que tem sua própria história e
detalhes, e não pertence a este artigo. Aqui é suficiente ter apontado que a
integração interforças e a qualidade cognitiva das forças faz parte do projeto
de força.
Em tempos de guerra ou crise, essas questões ganham diferentes qualidades.
Diante do oponente, em armas, na luta iminente ou presente por coisas que
importam, se descobre nele um excelente tutor, ainda que, como aponta
Tucídides, a guerra seja uma mestra violenta. E aqui se tem, para fazê-la
explícita, a razão de ser de toda a discussão: a impotência diante do oponente
por desvãos de falta de tutela na paz pode pôr em risco a prosperidade, a
democracia, a soberania e mesmo a independência de um povo.
Aproveitamento tático do desempenho técnico
Que se possa vir a ter vantagens combatentes a partir de promessas tecnológicas
é o que anima uma grande parte do projeto de força, e isso depende da
exploração do desempenho técnico de artefatos, sistemas e pessoal. Mas
vantagens combatentes não se apresentam espalhafatosamente, não são
automáticas, nem são certas ou permanentes. Seu uso não é autoevidente e elas
dependem da vontade e habilidade humana na luta, no combate. Vir a ter tais
vantagens depende do empenho, trabalho e arte dos combatentes eles mesmos ' os
estudos de estado-maior, os experimentos e experiências dos profissionais, a
rotina do preparo, exercício, experimento, o aprendizado na própria luta. É
nesses que se pode vir a identificar o potencial de arranjos táticos ou
logísticos que possam vir a produzir vantagens combatentes.
A delicadeza do processo sugere que se aponte aquilo sobre o que se deveria
pensar de forma mais adequada por meio de uma ilustração. Propõe-se assim
ilustrar o aproveitamento combatente do desempenho técnico, o lugar da
tecnologia na guerra, escolhendo como foco a produção de vantagens táticas, no
combate, isto é, a promessa tecnológica de armamentos. Enfrenta-se assim a
falácia reducionista ali onde ela promete certeza.
Apresentam-se apontamentos sobre desempenho técnico e aproveitamento tático dos
diferentes fuzis utilizados nas guerras da Prússia contra a Áustria em 1866, e
contra a França em 1870. Seu interesse está em que se trataria, na lógica do
espalhafato, de aspectos menores; de mudanças que nada tiveram de
espetaculares. Expressaram escolhas dos países envolvidos num ambiente de
normalidade de despesas e transparência de suas alternativas e decisões. Mas
ainda assim produziram o efeito de dar a um dos lados vantagens substanciais.
Em 1866, vantagens combatentes da infantaria prussiana que exploraram a
superioridade de desempenho técnico de seu fuzil ' a promessa tecnológica: um
desempenho técnico superior do armamento que produziu sucesso.
Em 1870, vantagens combatentes da infantaria prussiana que exploraram a
inferioridade de desempenho técnico de seu fuzil ' o questionamento de tal
promessa: um desempenho técnico superior do armamento que produziu fracasso.
Eis o que se deseja apresentar: que se pode produzir vantagens combatentes
tanto com o benefício quanto contra resultados tecnológicos, diante de
superioridade e inferioridade de desempenho técnico de artefatos, porque
vantagens combatentes são mais do que apenas o que se pode ter em promessas
tecnológicas. E não se tem aqui casos restritos e pedantes, de pouco interesse:
essas foram as guerras que fizeram surgir a Itália e a Alemanha modernas, onde
o que se fez com fuzis levou à reconfiguração do equilíbrio do poder na Europa
e pautou a História do século 20.
A Guerra Austro-Prussiana de 1866[17] colocou Prússia e Piemonte (que aspirava
ser, e já se denominava, Itália) contra a Áustria, para forçá-la a abandonar
seu pleito de autoridade sobre terras alemãs e italianas. Para os fins deste
artigo, é suficiente apontar que os exércitos principais de Prússia e Áustria
se buscaram nas províncias austríacas da Silésia e Boêmia. A campanha progrediu
de uma sucessão de refregas de crescente intensidade entre as vanguardas, com
desconcertante vantagem prussiana, até uma grande batalha das forças principais
em Königgrätz. Nessa batalha, a força austríaca foi expulsa da posição forte em
que esperava vencer os prussianos com tais perdas que a Áustria cedeu tudo o
que dela se queria.
Muito do sucesso prussiano nessa campanha resultou da superioridade tática de
sua infantaria. E aqui se pode começar a considerar o papel do armamento,
portanto da tecnologia, daí de promessas tecnológicas. A partir de 1848, os
prussianos haviam rearmado sua infantaria com um dos primeiros fuzis de
repetição, o Dreyse Zündnadelgewehr de 1841, que disparava 10 a 12 vezes por
minuto com um alcance de 600 m. Os austríacos tinham considerado uma mudança
equivalente no armamento de sua infantaria em função de suas experiências na
Guerra de 1859 contra Piemonte, em que tinham tido contato com o Dreyse das
tropas de Garibaldi. Consideravam que o maior volume de fogo do Dreyse seria
compensado pelo maior alcance, de 900 m, de seus fuzis Lorenz (de 1855) e
Augustin (de circa 1840), apesar de esses dispararem apenas 3 a 4 vezes por
minuto: em vez de disparos rápidos e independentes, tiros pausados e
coordenados, em salvas demolidoras. Ajuizaram, assim, que a vantagem não valia
o preço do rearmamento e o esforço de uma mudança em seus arranjos: um
armamento que disparava quatro vezes mais depressa exigiria um repensar de seus
arranjos ' táticos para poder ser usado no combate, ou logísticos, como, por
exemplo, a expectativa de ter que fornecer quatro vezes mais munição.
Aqui se chega ao cerne da questão. Os austríacos estavam errados, mas também
estavam certos. O porquê de estarem errados e certos ilumina o problema do
aproveitamento tático de desempenho técnico e, portanto, a origem e uso de
vantagens combatentes. Por um lado, a cadência de tiro do Dreyse não tinha como
ser aproveitada nos arranjos táticos de inspiração napoleônica que predominavam
em meados do século 19. A linha de tiro, ombro a ombro, disparando em salvas,
desperdiçava o potencial do volume de tiros que se podia produzir com cada
combatente atirando individualmente. As colunas de marcha ou assalto
simplesmente impediam a maioria dos combatentes de atirar e eram alvos fáceis e
frágeis. Os prussianos adotaram estrutura de comando, organização logística e
abordagem tática que enfatizavam a dispersão, a mobilidade e a iniciativa para
aproveitar o que o Dreyse permitia. Cada fração de 100 ou 200 combatentes que
tivesse o oponente a seu alcance abria fogo, empastelando o oponente com tiros,
disparando tão rápido quanto possível. Assim que pudesse, seguia adiante, sem
esperar apoios ou reforços, forçando seu avanço formação oponente adentro,
atirando sem parar. Os austríacos não encontraram resposta para o volume de
fogo, a celeridade e ímpeto com que cada fração de tropa prussiana se lançava
ao combate. Para lutar, os austríacos dependiam da articulação de ao menos
algumas centenas, idealmente de milhares de combatentes numa determinada
formação, apoiando-se mutuamente. O ímpeto e o fogo prussianos impediam que
pudessem chegar a tal formação. Como resultado, nas refregas e escaramuças, os
austríacos foram sobrepujados.
Por outro lado, os prussianos descobriram que, numa grande batalha, a solidez
das formaturas austríacas e o alcance de suas salvas permitia-lhes lutar de
maneira a frustrar a aproximação prussiana. Fora do alcance ou ao abrigo da
chuva de projéteis do Dreyse, uma posição austríaca não tinha como ser vencida
pelo fogo ou ímpeto da infantaria prussiana. Era capaz de devolver os golpes,
explorando o alcance e o peso de fogo de suas salvas. Em Königgrätz a
infantaria austríaca foi capaz de conter e enfrentar a prussiana, permitindo
que sua artilharia, em particular, pudesse participar da luta. O desenrolar da
batalha de Königgrätz revelou que ainda havia muito em favor dos arranjos
napoleônicos numa grande batalha. Os austríacos, com seus milhares onde
deveriam estar, mostraram que suas linhas de fogo, suas marchas de apoio e seus
arranjos de comando de milhares e de artilharia eram superiores quando podiam
se apoiar mutuamente. Königgrätz não foi uma vitória fácil: foi uma luta dura e
apertada. Os prussianos sofreram para arrancar uma vitória quando o
fracionamento e ímpeto que tanto lhes serviram antes produziram riscos
consideráveis e perdas desnecessárias. Que tenham vencido resultou tanto de sua
habilidade em reinventar o uso do que o Dreyse permitia para uma grande batalha
quanto da inabilidade dos austríacos de aproveitarem plenamente suas próprias
vantagens antes que os prussianos aprendessem, ali, em plena luta, no
transcurso de um único dia, como dar conta delas.
A Guerra Franco-Prussiana de 1870[18] colocou a Prússia, à testa da
confederação da pequena Alemanha (porque, como resultado de 1866, a Prússia
excluíra a Áustria da Alemanha), contra a França. Foi o resultado de uma
artimanha política em que a guerra foi o instrumento da superação das
resistências dos Estados alemães confederados a serem unificados num Império
Alemão sob a Prússia. Para os fins deste artigo, é suficiente apontar que os
exércitos principais de Prússia e França se buscaram nas províncias orientais
da França. Como resultado do processo de mobilização e disposição inicial de
ambos os lados, os prussianos foram capazes de lançar o grosso de sua força
contra uma parte da dos franceses. A campanha se iniciou com refregas de
moderada intensidade e batalhas em que a Prússia saiu vitoriosa, mas estas
foram vitórias amargas. Os prussianos sofreram baixas pesadas e
desproporcionais, a despeito de sua superioridade numérica. No entanto, a
partir de certo ponto, as vitórias prussianas passaram a ser menos custosas e
isso lhes permitiu dividir, derrotar e isolar as forças francesas até a sua
derrocada.
Muito do amargor das primeiras vitórias prussianas resultou da inferioridade
tática de sua infantaria. E aqui se pode começar a considerar o papel do
armamento, portanto da tecnologia, e daí de promessas tecnológicas. Os
prussianos seguiram usando o Dreyse e, vaticinados por sua experiência em
Königgrätz, concentraram seus esforços de modernização na artilharia e na
adaptação das formas napoleônicas de grandes batalhas para o que os armamentos
de que dispunham permitiam. Os franceses, a seu turno, tinham levado um susto e
tanto com a vitória prussiana de 1866. Estavam cientes de que o que acontecera
com a Áustria teria sido o seu destino caso a guerra tivesse seguido em sua
direção. Empenharam-se energicamente em modernizar o armamento de suas forças
adotando ' no que interessa a este artigo ' um novo fuzil em 1866. O Chassepot
tinha um alcance de 1.200 m e podia disparar 30 vezes por minuto; por breves
momentos, podia disparar um tiro por segundo, o equivalente a 60 disparos por
minuto. Tinha, portanto, o dobro do alcance e de 2 a até 5 ou 6 vezes a
cadência de tiro do Dreyse. Os franceses tinham confiança de que, com tal
armamento, sua infantaria faria com a prussiana o que esta havia feito com a
austríaca.
Aqui se chega ao cerne da questão. Os franceses estavam certos, mas também
estavam errados. O porquê de estarem certos e errados ilustra o aproveitamento
tático de desempenho técnico e, portanto, a origem e uso de vantagens
combatentes. Por um lado, a superioridade de desempenho do Chassepot era
acachapante. Tentativas prussianas de chegar a um alcance em que a tempestade
de tiros do Dreyse pudesse ter lugar produziram banhos de sangue, exigindo
recuos e impondo baixas desmoralizantes nas frações de tropa prussiana que o
intentaram. Mesmo quando os prussianos reuniam mais tropas e conseguiam se
aproximar o suficiente para poderem usar o Dreyse, aceitando o preço de suas
baixas na aproximação, na troca de tiros a curta distância o Chassepot era
claramente mais capaz que o Dreyse. A tomada das posições francesas exigiu
enorme superioridade numérica, o manejo de tropas na lógica da grande batalha
e, ainda, a aceitação de baixas desproporcionais às francesas. Os prussianos
amargaram esse preço porque sabiam que tinham conseguido concentrar quase toda
a sua força contra uma parte da dos franceses. Se as coisas tivessem ficado
assim, os prussianos, sofrendo bem mais perdas do que produziam, teriam que
reconsiderar suas expectativas de sucesso na guerra ' não haveria como vencer a
força principal dos franceses.
Por outro lado, os franceses não tinham, realmente, ido muito além da simples
adoção do Chassepot. Haviam atualizado seu armamento, sim, mas apenas isso. A
estrutura de comando, organização e formações de luta francesas eram
basicamente as mesmas de Bonaparte, cujo armamento havia sido mosquetes de
alcance de 50 m e cadência de tiro de 2 ou 3 tiros por minuto: alguns poucos
atiradores independentes adiante, que só atiravam em alvos mirados,
deliberadamente; linhas de tiro, ombro a ombro, que disparavam em salvas;
colunas de marcha compactas para dar ou receber apoio; densas colunas de
assalto para atacar à baioneta ' tudo como fizera Bonaparte. Só que as táticas
que haviam servido quando o armamento era o mosquete não eram mais possíveis
diante de fuzis de repetição: estes podiam liquidar os atiradores
independentes, empastelar as linhas ou aniquilar as colunas que ficassem a seu
alcance. Os franceses descobriram que não tinham pensado em formas de lutar que
usassem o alcance ou a cadência de tiro do Chassepot. Suas formaturas e
procedimentos só admitiam uma disposição concentrada que desperdiçava o
potencial do armamento de que dispunham, e os improvisos de que lançaram mão
numa ou noutra ocasião não foram suficientes. Os prussianos perceberam que
podiam contornar as formações e os dispositivos franceses ficando fora do
alcance dos tiros do Chassepot, cercando-os e cortando suas linhas de retirada
e abastecimento. Uma vez cercadas e isoladas, as tropas francesas se sabiam
condenadas. Quando contra-ataques franceses tentaram romper o cerco, os
prussianos aprenderam a aceitar baixas em sua infantaria sob o fogo inicial do
Chassepot, porque assim que os franceses chegavam ao alcance dos Dreyse (ou a
renovada artilharia prussiana podia intervir, pelo mesmo motivo que em
Königgrätz), o fogo prussiano aniquilava suas formações.
Do momento em que as batalhas se transformaram em disputas desse tipo, em que a
superioridade de enfoque prussiana no uso do que seu armamento permitia se
afirmou sobre a adoção inercial de armamento pelos franceses, as diferenças de
desempenho dos fuzis se revelaram um detalhe relevante, ao invés de um fator
determinante. Então foram as baixas francesas que se tornaram insuportáveis, e
eles não tiveram a oportunidade de elaborar uma resposta antes do fim.
Essa ilustração pode servir para situar o que quer que venha a ser o processo,
o resultado ou o uso de promessas tecnológicas em diversas instâncias e formas
de materialização. O combate e a guerra são embates de forças vivas, a luta de
pessoas e não de tecnologias em potencial, em abstrato, nem mesmo apenas de
artefatos ou sistemas concretos em que tal tecnologia se encontra aplicada. O
aproveitamento tático de desempenho técnico depende de mais do que a posse
deste ou daquele armamento com um determinado desempenho, mesmo que ele seja
taticamente útil ' um fator substantivo da capacidade combatente. Obter e usar
vantagens combatentes depende de todo o trabalho, antes e mesmo durante o
desenrolar da luta, que permite converter capacidades e possibilidades em
vantagens. Inclui ser capaz de encontrar formas de explorar tais vantagens em
resultados na luta contra determinado oponente, num determinado contexto,
diante das vantagens que o oponente pode ter. Apenas quando se considera esse
todo é que se pode trazer os elementos que explicam o aproveitamento de
desempenho técnico em vantagens combatentes de maneira íntegra.
Considerações finais
Um elemento final precisa ser apontado: o risco de que o enquadramento do
processo que leva da percepção de promessas tecnológicas até a posse de
capacidades combatentes prontas possa se enrijecer, fazendo-se uma formalidade
a mais, um formulário burocrático adicional a ser marcado e esquecido. O
aprendizado que permite identificar, desdobrar e usar vantagens combatentes só
pode ser adquirido e mantido vivo nas organizações e pessoas pela prática, pelo
exercício e pela crítica que nasce da articulação entre estudo, experimento e
experiência. Só assim se pode superar a reificação do vivido ou experimentado,
convertendo-os em empiria capaz de sustentar o aperfeiçoamento. Sem isso,
arrisca-se ficar refém da expectativa de que uma vez feito, se tenha um
resultado permanente e perfeito, que não demanda outro ensaio e não admite
questionamento, quando então o oponente pode ter outra perspectiva da questão.
A imperenidade de qualquer vantagem combatente é bastante evidente. Ela depende
tanto do contexto quanto das capacidades comparadas. Aprender a identificar
possibilidades pela imaginação e o rigor do estudo em lutas virtuais é o pré-
requisito de poder fazê-lo quando a luta for real. Sem o trabalho intelectual e
prático constante, alerta, questionante, que faz com que reconhecer e saber
usar uma vantagem seja parte integrante do preparo, pode ser temerário presumir
que tal habilidade esteja presente no momento do emprego.[19]
O processo que leva de possibilidades tecnológicas a vantagens combatentes é,
por sua própria natureza, uma obra inacabada. Não poderia ser de outra maneira,
porque depende de escolhas que compõem alternativas de lógica política e da
gramática dos meios. Ele segue, num sentido essencial, por fazer até o instante
em que se segue adiante com o que se possa ter para arrancar a vitória, quando
então se pode ter que repensar e refazer ' mais de uma vez, e mesmo diante do
oponente. A tutela civil tem que ser capaz de impor dinâmicas que conduzam e
apoiem o cerne de capacidade combatente das forças, impedindo que este se
paralise em dinâmicas burocráticas, autocomplacentes e satisfeitas. Mas esse é
um limite do que se pode fazer em antecipação e tal limite é, ele mesmo, uma
perspectiva necessária para que possa enquadrar e compreender esse processo.
Depende-se do resultado concreto do trabalho diuturno e qualificado dos
profissionais das armas, e do que se possa fazer para apoiá-los de maneira
crítica e substantiva ' seja no projeto de força, seja no processo de
descoberta de oportunidades das quais se pode extrair vantagem ' na
temporalidade que os fatos exigirem.
[1] DAVIS, Paul K. (2010) 2. Military Transformation? Which Transformation,
and What lies ahead? In: CIMBALA, Stephen. J. (ED.) The George W Bush Defense
Program: policy, strategy & war. Washington DC: Potomac Books, 2010. p.
11'41, 254'9; ÁVILA, Fabrício S., MARTINS, José M. &
CEPIK, Marco. (2009) Armas estratégicas e poder no sistema internacional.
Contexto Internacional, Vol. 31, nº 1, p. 49'83.
[2] SPINNEY, Franklin. (1985) Defense Facts of Life. Westview, 260 p.; Autor,
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[3] DAVIS, Paul, Ed. (1995) New Challenges for Defense Planning. Rand
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[4] MILLET, Alan R. & MURRAY, William. (2007) Calculations. Free Press,
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[5] McLUHAN, M. (2005) The Medium is the message. MIT Press, 2005, 160 p.
[6] SUID, Lawrence H. (2002) Guts and Glory. The University Press of Kentucky,
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[7] Cf. DELBRUCK, Hans. (1990) History of the Art of War, 4 vols. University
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University of Nebraska Press, 2005, 244 p.
[8] PRZEMIENIECKI, J. S. (2000) Mathematical Methods in Defense Analyses.
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[9] MILLET, Alan R. & MURRAY, Williamson. (2010) Military Effectiveness, 3
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[10] JOHNSON, Stuart E.; LEVIS, Alexander H. (1988) Science of Command and
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(1989) Science of Command and Control Part II. AFCEA, 1989, 180 p. ; LEVIS, Alexander H. (1994) Science of Command and Control Part III.
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[11] Autor, 1998.
[12] HICKS, Kathleen H. (2008) Invigorating Defense Governance. Center for
Strategic and International Studies, 2008, 88 p. ; LUSTGARTEN,
Lawrence. (1986) Governance of Police. Sweet & Maxwell, 1986, 168 p.
[13] O'HANLON, Michael E. (2009) The Science of War. Princeton University
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[14] POSEN, Barry R. (1986) Sources of Military Doctrine. Cornell University
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[15] MacISAAC, David. (1986) Voices from the Central Blue in PARET, Peter,
Ed., Makers of Modern Strategy. Princeton University Press, 1986, p. 116'42.
[16] BRUNEAU, Thomas C.; TOLLEFSON, Scott D., Eds. (2008) Who Guards the
Guardians and How. University of Texas Press, 336 p.
[17] WAWRO, Geoffrey. The Austro-Prussian War. Cambridge University Press, 330
p.
[18] WAWRO, Geoffrey. The Franco-Prussian War. Cambridge University Press, 342
p.
[19] WAWRO, Geoffrey. Warfare and Society in Europe, 1792-1914. Routledge, 256
p.