Gulliver na Amazônia e as aventuras do indigenismo nas Relações Internacionais
Introdução
Essa análise registra o quanto a Declaração das Nações Unidas sobre o Direito
dos Povos Indígenas adotada em 13 de setembro de 2007 abre novos caminhos. Em
junho de 2009, noutro gesto, a Resolução da Assembléia Geral das Nações Unidas
qualifica os efeitos das mudanças climáticas como ameaça à segurança mundial1.
Em vista disso, esse estudo amplia uma construção cognitiva por parcerias e
adverte, baseado em estudo do autor2, sobre a ressonância dos paradoxos das
políticas de proteção assistencialista às minorias indígenas.
Enfatizando o despreparo dos países amazônicos para capitalizar as virtudes das
reclamações de um mundo para todos, lembra a obviedade esquecida que os
direitos humanos e as garantias fundamentais do homem merecem ser
compartilhadas por indígenas e não-indígenas. Recorda que o discurso da não
indiferença da diplomacia brasileira é insuficiente diante da magnitude dos
desafios do indigenismo e do ambientalismo no cenário internacional.
Escrevendo sobre o direito à solidariedade global contra a desflorestação,
aliás, um direito de terceira geração, faz ver que a não superação dos
obstáculos epistemológicos e a falta do dever pela preservação incentivam a
monocultura, que cria tensões permanentes a desfavor da ecologia dos pobres3.
Respeitar a ecologia dos pobres significa gesto de responsabilidade cívica em
país onde desmatar rende votos e o eleva ao patamar pouco nobre de potência
exportadora de produtos primários sem valor agregado. Destacando o papel do
debate interparadigmático em diferenciadas perspectivas, o texto trata do
indigenismo que desponta como leitmotiv de uma identidade comum em expressiva
parte dos Estados-membros da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica -
OTCA.
Minorias indígenas e maiorias excluídas na sociedade amazônica
Em décadas de submissão à modernidade insustentável, a sociedade amazônica
testemunhou uma sucessão de políticas indigenistas de polêmicos resultados. As
deficiências dessa política são continuações de incertezas de Estados nacionais
que, perdendo sua autoridade no mar de corrupção que os cerca, abriram mão
também da sua eficiência.
Pelo fato de nos cemitérios dos nacionalismos, dos egoísmos étnicos e dos
privilégios raciais raramente se lembrar da probabilidade do juízo final,
depois da soberania sem alteridade, grupos econômicos fazem tabula rasa da
redefinição da complexa presença da solidariedade internacional no cotidiano
indígena. No estranhamento do mundo pleno de ciladas civilizatórias,
indigenismo algum resolverá sozinho os problemas indígenas. A qualidade de vida
das minorias étnicas depende de parcerias atreladas a objetivos comuns e a
procedimentos solidários acordados com outros segmentos da sociedade. O
adensamento da cooperação e da ajuda mútua entre minorias e maiorias mitiga
sofrimentos. Ensina o consenso por um mundo para todos, ainda que na iminência
do esgotamento dos mecanismos de governança responsável.
Uma ordem aberta para quem a constrói e pronta para que o outro participe dela,
certamente se transformará em gesto seminal contra o colapso das
espiritualidades e contra a globalização da tristeza civilizatória. A
proliferação dos egoísmos denota que as intolerâncias na Amazônia ameaçam os
fundamentos da coexistência pacífica. Põem em risco, tanto o perdão recíproco
quanto os esforços para amainar vulnerabilidades e problemas socioambientais.
Sendo assim, solucionar pendências e apagar ódios implantados entre minorias e
maiorias sofridas reduzirá o pânico da coletividade maltratada pelos caprichos
do sistema. Entre outros estão a escassez - fruto da brutal exploração da terra
-, o monopólio dos meios de produção e o desperdício dos bens necessários à
sobrevivência da humanidade. O grande capital por detrás de biombos deposita em
mãos de indígenas alguns desses bens, ciente que a fragilidade dessas minorias
as impede protegê-los.
A luta por uma amazônia em seu todo
Adaptável às forjas do multilateralismo, o pragmatismo circunstancial do poder
executivo em vários países amazônicos arquitetou um indigenismo de direitos sem
obrigações, bravo admirador de si mesmo. No caso brasileiro, exatamente como no
tempo do autoritarismo militar, marginalizam o poder legislativo em quase todas
as questões relativas ao índio.
Sem combinar elementos para coordenar suas ações, os três Poderes correm o
risco de não conseguir fecundar os compromissos contra a opressão que ainda
fere as sociedades tidas como estranhas. Ademais, os frutos colhidos em troca
do proporcionado pelo assistencialismo aos povos predecessores estão aquém do
esperado pela sociedade. No Brasil, o indigenismo alimenta mais o mito do índio
do que a causa indígena. Com esgarçada vontade política para entender que a
floresta tropical é também informação, a politicagem na periferia
freqüentemente sonega aos povos predecessores chances para seu risorgimiento
destutelado.
Para se aquilatar a magnitude do termo autodeterminação, se banido o silêncio
da história, até mesmo o dilema existencial tem como ensinar que a
independência não é conceito absoluto. A prosperidade independe do consumismo
que exaure fontes de energia e outros recursos naturais. Perceber esse perigo
amplia uma construção cognitiva por parcerias pela justiça social. Lembra a
obviedade esquecida que os direitos humanos e as garantias fundamentais da vida
merecem ser compartilhadas por indígenas e não indígenas
Seja por traços identitários, seja por singularidades, cabe ao indigenismo
entender o conflito de linguagem4, para evitar a companhia dos equívocos das
forças icônicas desatentas ao valor do convívio com saberes do espírito deles
mesmos e dos demais povos da floresta. A Amazônia de outras dinâmicas tem
língua própria que difere da fala do agronegócio e das mineradoras. Por isso, a
análise comparada do novo esforço internacional a favor das tradições nativas,
completa o panorama dos direitos dos povos indígenas comungando o espírito da
vocação universalista da
societas gentium5
.
Teme-se que o adensamento da pluridimensionalidade dos interesses por detrás da
homologação das reservas leve indígenas preterir sua identidade indígena em
troca do uso da fantasia de guardiães da natureza das reservas estratégicas,
essenciais para a expansão do capitalismo em futuras fases.
A negação do nomadismo semeador de culturas e de identidades coincide com os
marcos fixos das reservas. Abona uma arte de viver particular ao niilismo que
ocultamente insiste pelo fracasso no que resta da identidade cultural entre os
povos predecessores. Outra preocupação: os conflitos podem se espraiar
desvirtuando a verdade que o índio merece mais segurança do que aquela
proporcionada em reservas contínuas, ladeando fronteiras ou não. Enfim, que a
luta por essa causa exorcize as guerras fratricidas e promova a união com as
maiorias excluídas. Por exemplo, com o sem-terra, com os que vivem da
agricultura familiar produzindo alimentos, com as populações ripárias, com os
seringueiros e com os garimpeiros, esses últimos, o mais numeroso e explorado
grupo humano na floresta amazônica.
A estrutura para uma razoável qualidade de vida e de meios que evitem a fome,
malária, beribéri, oncocercose, anemia, hepatites virais, suicídios, roubos,
alcoolismo, violência nas aldeias, e opressão contra a mulher não se ergue
apenas com a demarcação de terra. O que é desfavorável ao próximo se transforma
em movimento incapaz de suplantar os estigmas erguidos pelas formações
cognitivas da sociedade dominante. Foi uma decisão dessa sociedade omitir os
Direitos Humanos do garimpeiro das redes de sua política indigenista. Resultado
de uma autogomia de egoísmos políticos semeadores de cizânia, essa cizânia
impede no presente o resgate da dívida ecológica daquelas maiorias na geografia
amazônica.
O Estado Gulliver
Entre os movimentos sociais, o indígena prima por crescimento demográfico
impulsionado pelo zelo de organizações não-governamentais, para as quais o
Estado negligente repassa parte de suas responsabilidades na Amazônia. Ainda
assim, paradoxos nas políticas de proteção reforçam o desprezo à glossolalia
verificado na torre de Babel dos países nos quais a racionalidade reativa os
despoja de iniciativas pela defesa do sagrado, a cada hora com menor espaço.
A política externa do pragmatismo circunstancial certamente entende o
desconforto causado pelo Relatório da OIT de março de 2009 confirmando o
descumprimento por parte do Brasil da Convenção 169 referente aos Povos Tribais
e Indígenas em Países Independentes. Celebrada pela Organização Internacional
do Trabalho, em vários aspectos essa Convenção casa com a Declaração Americana
dos Direitos dos Povos Indígenas da Organização dos Estados Americanos. Da
mesma forma, combina com o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais
e Culturais; com o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos; com a
Convenção para a Eliminação da Discriminação Racial; com a Convenção das Nações
Unidas sobre os Direitos da Criança e com a Convenção da Diversidade Biológica.
Por tudo isso, 143 países votaram pelo texto revisto da Declaração das Nações
Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, repita-se, adotada no dia treze
de setembro de 2007 pela Assembléia Geral das Nações Unidas.
Países gigantes, partícipes da história em defesa da democracia e das
liberdades fundamentais do homem, como explicar a não adesão dos Estados Unidos
da América, do Canadá, da Nova Zelândia e da Austrália à Declaração das Nações
Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas? Será pelo temor de se tornarem
algo como um Gulliver acordaçado por lilliputianos, ou prevenção para evitar
"tibetes de aborígenes" em seus territórios? Desconhecendo qual resposta dar,
que se cuidem os governos especialistas em fazer do atendimento às reclamações
das minorias indígenas uma espécie de pátina assistencialista a capear
interesses por reservas estratégicas de recursos naturais.
Depois de a ONU qualificar os efeitos das mudanças climáticas como ameaça à
segurança mundial soou a hora de verificar se o memorável lugar reservado aos
povos originários abre portas ou as fecha para afinidades eletivas manifestas
em projetos de cooperação. Se for instrumento de respeito aos mistérios de cada
cultura, a coesão preencherá espaços. Atenderá o desiderato da convivência pela
paz na Terra que, tal qual Fênix, ressurge das cinzas das lições da vida.
Há que se pensar na solidez da construção do direito a identidade cultural sob
cujo teto os regimes de conciliação nascerão e crescerão. Aí, o diálogo
interativo durará se inspirado por responsabilidade social fruto da alteridade.
Aprender com o tempo evita equívocos passados e ensina lidar responsavelmente
com o presente. Mesmo na adversidade há que se respeitar as diferenças para
atuar de forma coletiva aguçando a compreensão mútua. Essa, por sua vez,
apressa os passos pela solidariedade humana e por extensão ao Direito dos Povos
Indígenas. Se tal direito colidir com o de outros deserdados da sorte, todos
perderão. Isso se a "vitória de um ideal moral for alcançada mediante os mesmos
meios 'imorais' como qualquer vitória: mentira, força, difamação, injustiça"6.
PAC, terras indígenas e STF
Guardando um olhar crítico para com as versões da mídia que obrigam dar fé no
que nela se lê ou se vê, essa análise inclui os deserdados da sorte e condena a
extrusão do outro. O papel da Igreja Católica e sua pastoral na sociedade
amazônica, indiretamente se relembram na indisfarçável atração de grupos
católicos pelo Partido dos Trabalhadores. Por anos, o PT compartilhou de um
lugar comum com progressistas de vocação indigenista. Tal atração, tempos
depois, acabou em constrangimentos explícitos. Acumulados, os tais
constrangimentos transbordaram a paciência de milhares de fiéis protagonistas
do amplo e irrestrito apoio a um projeto de Estado que nunca incluiu uma
governança moral. Conduzido por petistas, no poder político o indigenismo da
dominação cresce no vácuo das militâncias ninadas pelo assistencialismo da
desesperança.
A proteção caridosa ao índio e ambientalismos bichados pela corrupção são um
prato cheio para epístolas da contestação do etnodesenvolvimento. Recusando a
cor da ideologia lulista e suas alianças com a direita, em nome do índio e da
natureza movimentos de várias tendências se manifestam contra projetos
governamentais. Por exemplo, opõe-se à concepção e ao conteúdo do Programa de
Aceleração do Crescimento.
Coordenado por um ministro catedrático cujo sotaque inglês do seu português lhe
rendeu audiência e trânsito no Palácio do Planalto, quem condena o PAC por
obras e ações comete injustiças. Afinal, todo o planejado por esse programa,
pouquíssimo saiu do papel. Porém, se para a Igreja Católica lá na Amazônia até
por intenção se peca, então esse Programa de Aceleração originalmente nasceu
maculado de defeitos. Mal concebido, seus vícios são responsabilidades de um
Governo com pretensões de se eternizar numa obra que sequer reflete o que
prometeu antes de assumir o poder.
Planos por silos, dutos, hidroelétricas, rodovias, regulamentação da mineração
em territórios indígenas e incentivos ao agrocombustível, tudo isso consta no
PAC. Etiquetado de anti-indigenista pelo CIMI - lá se esquece que chegam dessas
obras condenadas - os meios para o conforto e a viabilização da assistência
humanitária reclamada em nome das minorias. Entre esse amontoado de paradoxos,
parâmetros desenvolvimentistas da racionalidade do progresso na vida social
dificilmente obterão consensos onde a democracia jamais desfrutou de um sentido
histórico. Quando combatidos por meio da arma da extrusão do outro, provocam
equívocos insanáveis.
Dotadas de valor ambiental deveras expressivo, as imensas reservas, o
território, a terra e a nação com seus marcos divisórios, tudo isso perfila em
conceitos aproximando o PAC das decisões recentes do STF. Assim, qualificar ou
enquadrar o indigenismo na lógica da militância pelo assistencialismo o prepara
para um basta que nunca dará a imoralidade da dependência ao dito civilizado.
A Suprema Corte ao pontuar o usufruto das potencialidades hídricas e do que
existe de riqueza naquele solo, obedece à logística do interesse capitalista
exportador de matéria prima sem valor agregado bastante dependente da infra-
estrutura prometida pelo PAC. Cega para com os deveres pela inclusão social e
entendimento entre os povos, a decisão da Suprema Corte lembra outrossim que a
presença indígena em área de conservação não impede nem a vigilância da Polícia
Federal nem das Forças Armadas. Segundo o STF a construção de estradas, de rede
de comunicação, de linhas de transmissão, enfim, a infra-estrutura essencial
aos oligopólios se garante independente de consultas as comunidades indígenas.
Também para ampliar o programa nuclear e concluir Angra Três, tampouco o
Governo consulta a comunidade fluminense envolvida.
Legalmente proibidas de cobrar taxas de pedágios em rios e estradas, várias
tribos abraçam um comodismo que as leva a nada. Sem a coragem de seus
ancestrais, recebem propinas pelo contrabando de madeiras nobres, diamantes e
ouro em garimpos onde lideranças corruptas se deixam subornar.
Não bastasse vedar a ampliação das terras indígenas demarcadas, o Poder
Judiciário subordina aos interesses da União a manipulação das riquezas onde
vivem. Afastada a consulta prévia aos indígenas, os juízes do STF advertiram:
autorizações dependem de legislação no Congresso Nacional e não das lideranças
indígenas.
O exílio ambiental
Dos últimos dois séculos aos dias de hoje, o perfil da diáspora nordestina rumo
à Amazônia assumiu diferentes feições. Atualmente parte da história repete-se
no Inferno Verde com idas e vindas de sobreviventes oriundos de outras regiões
onde pedras crescem e plantas murcham. Ensaiam por meio de valores comuns dar à
Amazônia a sua identidade. Para milhares desses exilados ambientais, as portas
das reservas indígenas se fecharam, a contragosto dos que não querem vê-las
transformadas em símbolo de políticas antimulticulturais ou em exemplo contra a
miscigenação.
A consangüinidade como base da homogeneidade arrisca transformar a pureza
cultural em pólvora entre povos onde crimes se comentem em nome do espaço vital
e da raça. Por outro lado, a oposição à invasão de terras para o desmatamento
apressador das mudanças climáticas deu às minorias indígenas substantivo peso
político e visibilidade. Ontem estigmatizado e hoje ponto focal da atenção dos
estados maiores, o índio resiste. A foto de um deles flechando helicóptero
faiscou reações em várias partes do mundo. Ainda assim, esse gesto sequer
bastou para que a civilização concedesse ao povo predecessor chances de sondar
a própria consciência para traçar o seu destino fora da traiçoeira dinâmica de
favores que o coopta. Entre os 225 povos indígenas reconhecidos, uma meia dúzia
é de recente contato e segundo a Funai 63 são ainda povos isolados.
Teimando ser o silêncio a sua força, o poder executivo em vários países
amazônicos demorou pôr em pauta a discussão sobre o indigenismo no
multilateralismo. A Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas como
instrumento de reconciliação ajudará ver que os direitos humanos e as
liberdades fundamentais reconhecidos na carta das Nações Unidas são para todos,
ou seja, valem igualmente para os excluídos.
Multiplicada a sensibilidade complacente, o raquitismo social ataca as
responsabilidades e essas deixam de se manifestar. A não contestação das
ambigüidades no indigenismo nacional alarga o espaço do apartheid. A
desintrusão do migrante ou do exilado ambiental servos do latifúndio, ao invés
de reforçar a universalização dos direitos humanos, cria um vazio moral
propenso a privilégios e regalias a favor de minorias. Nesse panorama, posições
consagradas relativas ao desenvolvimento pátrio, metamorfoseadas, caminharão
para uma profunda releitura na mesa de negociação ainda inimaginável da
comunidade internacional.
A governança cuja economia depende da devastação, satisfeita em perder a mão no
lugar do braço, convive com insistentes admoestações do centro. Por exemplo, as
da União Européia. Somem-se a essas, aquelas provenientes das organizações não-
governamentais de alcance transnacional. Particularmente atentas a assuntos
relacionados à causa indígena e ao meio ambiente, a vocação dessas ONGs
identifica-se aos grupos econômicos que as financiam. Alimentam-se também em
estados constrangidos da periferia que lhe repassaram parte de suas
responsabilidades.
Poucos entendem a floresta como simbiose da existência com o existir em
garantia da vida. Assim, no espaço presente na arquitetura do Direito dos Povos
Indígenas a Segurança Humana avança e retrocede na disritmia dos tempos em que
destruição gera dinheiro e poder.
Mesmo exposta a perigos do medo, a vocação universal do humanismo sobreviverá
se reforçada por tolerância com sinergia para apaziguar conflitos. Resistirá se
apadrinhar a certeza de que as nações solucionarão em comum, problemas comuns,
dentro e fora de fronteiras, separadas ou não por cortinas de taquara das
reservas.
A preocupação com os impactos das mudanças climáticas valoriza a preservação da
natureza amazônica e incorpora a questão das minorias étnicas. Não
desqualifica, entretanto, os dogmas dos preconceitos que afligem outros povos e
culturas. Ademais disso, nenhuma articulação se montou para uma efetiva
contenção da indústria do indigenismo cujas máquinas destroem a vocação maior
do índio que é ser índio. Que se busque então, aberturas dentro do Direito dos
Povos Indígenas para a convivência com os saberes do humanismo planetário7. Tal
fato fará que ideais pelo respeito à visão do outro se transformem em destacado
conceito. A Organização das Nações e Povos Não Representados, UNPO, pode ser um
dos tijolos dessa construção.
Na falta de eqüidade, pacto social algum fomentará o estado de sociedade a
desfavor da lei do mais forte.8 Por maior que venha a ser seu repertório
futuro, o Direito dos Povos Indígenas, caso queira evitar os labirintos dos
egoísmos étnicos, necessita da luz da alteridade.9 A diversidade das
expectativas em torno do indigenismo no limiar de novas formas de autonomia
administrativa e organizacional faz com que algumas dessas formas insistam no
absurdo de separar o inseparável. Ao baratear a vida das maiorias nas
florestas, por exemplo, a dos garimpeiros, o dogma da infabilidade da causa do
indigenismo - ruinoso aos interesses do próprio indigenismo - fabrica a
intolerância entre o índio e os demais segmentos sociais.
Destruição da natureza como negócio
Hoje denominam membros de diferentes etnias sob um único nome: o índio. Passa-
se por cima do papel tribal, da etnicidade e do direito de não ser forçosamente
assimilado. Então, ser Macuxí, Xavante, Dessano, Guarani, Ianomami e Tukano,
entre outros, qualquer dessas culturas vem antes do status genérico de índio,
palavra nascida do equívoco de Colombo que julgava essa terra e sua gente como
parte da Índia.
A genealogia do conflito entre os povos predecessores rotulados de primitivos
mais a modernidade testemunham: a cegueira das políticas públicas sempre esteve
nas diferentes etapas da conquista amazônica. Em todas elas, os mecanismos de
proteção atribulam-se nos limites que lhe impõem os mercados. Respeitar a
vocação dos povos predecessores e a heterogeneidade da criação significa
ampliá-la para além do horizonte das terras indígenas. Assentá-la em pedras e
sobre pedras edificá-la. O exercício da solidariedade cimenta a ética do
entendimento apoiada no chão da interdependência das necessidades. Respeitar as
identidades coletivas majoritárias e minoritárias conduz ao distanciamento dos
egoísmos mancomunados com a insaciabilidade por espaço, sinônimo de poder.
A ordem econômica assentada na busca de recursos naturais em uma entre as
últimas fronteiras que ainda resta virgem, poupa nem os miseráveis garimpeiros,
nem os madeireiros. Prova viva do fracasso do capitalismo na Amazônia, a
exclusão dessas categorias sociais desmascara mentiras convictamente repetidas
e transformadas em verdade. A dependência do índio domesticado, a modernização
ecológica como paradigma da sustentabilidade e a Amazônia celeiro do mundo são
opções desastrosas. Aceitas no clima de anarquia mundial, elas robustecem a
crise que reconverte ao keynesianismo as melhores inteligências liberais.
Inteligências apressadas para por nas mãos do Estado que condenam a
responsabilidade pela solução dos problemas ambientais, bem no espírito
neoliberal de Krugman10.
O homem há milênios e milênios como canteiro predestinado da essencialidade
desenvolveu seu instinto de sobrevivência. Se auto-protegendo ele se faz de
estiva da dimensão holística de suas vidas. Deduz-se então, o respeito a vida
pede a garantia dos direitos humanos dos garimpeiros, dos migrantes e de outros
excluídos da arca de Noé, independentemente da localização geográfica do seu
ganha pão ou da sua situação legal. Rejeição ou expulsão desses deslocados
sociais explorados na economia clandestina sinaliza renascimento da patologia
de ódios e de novas formas de genocídio.
Contra o entendimento mútuo opera o hedonismo sedento por ter, conquistar e
proteger o seu interesse. Essa apropriação igualmente se sustenta no consumo
das riquezas minerais e agrícolas à custa das florestas. Na Amazônia
Continental, onde a morte da natureza é atividade lucrativa, as rivalidades em
nome das raças, das etnias e do conservacionismo sem o homem envolucram a
questão indígena em furtivas metáforas.
A terra merece estar em mãos da coletividade para restaurar a credibilidade do
valor da ação comunitária. Apagar a memória das necessidades humanas para
presenciar a desintrusão de posseiros e agricultores, há décadas no lugar,
respalda forças pelo imaginário de uma Amazônia sem amazônicos. Superpostas ou
não em solos de notáveis tesouros mineralógicos, as reservas contínuas ou
descontínuas, se esquecidas da necessidade do outro, fermentam antagonismos a
configurar rupturas difíceis de aplacar. Política holística e pluralista
comprometida com o pacto social onde minorias assistidas e protegidas estejam
dispostas compartilhar o sal da terra com as maiorias excluídas fecundará um
ecologismo ativo e propositivo por um presente e futuro com garantia.
Militância como meio de vida
Difícil dizer quantos jovens indígenas transformados em universitários graças
ao sistema de cotas tecem planos de voltar às origens para viver novamente como
índios entre os índios. Quando a visão de mundo do oprimido se aproxima da
visão do opressor, militância como negócio vira doentio meio de vida. Centenas
e centenas recebem salário do Estado para lutar pela causa indígena,
preferencialmente nas universidades e em ONGs, longe do lugar da resistência
onde ficam os que permanecem fiéis à cultura de seus antepassados. Sacrificam o
lado mais desprotegido de seus valores para a posse fugaz da terra que ensina
ter o que é do índio sem ser índio.
As políticas públicas para os povos predecessores criadas por não-índios perdem
por repudiar o estranho. Perdem por excluir a maioria pobre, a escória da
floresta, sequer rotulada como movimento social. Ganharão se buscarem a
conciliação. A exegese dos elementos constitutivos da cooperação vicinal
amparada por um direito de viver com liberdade e segurança golpeia anátemas em
gestação. Faz sentir as dimensões propositivas, principalmente as de
interdependência complexa, numa dinâmica que não mais independe das relações
internacionais. Por isso, resta à Amazônia única opção: ou ser a primeira
gigantesca reserva biológica do mundo ou ser a última fronteira agrícola, sob
uma modernidade transvestida de economia ecológica.
Diplomacias dos estados maiores que antes se imiscuíam em assuntos internos na
periferia mundial para defender os interesses de suas elites, que também eram
os seus, agora agem como antigamente para proteger o índio. Esquecem que,
extraditar ou impedir milhares de cidadãos da periferia de entrar em seus
países é ser contra o reconhecimento do direito universal do ir e vir.
Antagonismos orquestrados por quem vislumbra dividir para dominar banalizam a
desunião desses deserdados segmentos. Manipulando o exótico, a farsa solidifica
o confronto em prejuízo do convívio.
Conseqüências da negação da luta de classes
A negação da luta de classes separou o índio do garimpeiro e do sem terra.
Assistencialismo sectário, fanatismo religioso, apologia da raça, xenofobia,
desintrusão e descaso para com tradições culturais são peças perfeitas da
consciência retardada da identidade.
Sob a perspectiva da luta de classes, índio é sujeito político. A luta de
classes recusa tanto o racismo indigenista quanto as manipulações por
multiplicação de nações11, verdadeiras fábricas de cordas para grupos étnicos
periféricos se enforcarem. Negando ser objeto, pau-mandado ou guardião de
riquezas para futuras necessidades do imperialismo renovado, lá nas reservas a
contragosto do ecoautoritarismo de ocasião, o indigenismo andará com suas
próprias pernas.
Aguda rivalidade também lateja entre posseiros e colonos na Amazônia. Disso
inicialmente as colonizadoras se beneficiaram. Estas, cientes há anos da
presença de posseiros em regiões de cerrados e florestas cortadas por estradas
- várias delas clandestinas - venderam para muitos colonos lotes cultivados por
lavradores indocumentados, razão para uma sucessão de conflitos. Da mesma
forma, os madeireiros que tratam a Hiléia como casa de ninguém invadem terras
de ocupantes indefesos. A sintonia às múltiplas formas de convivência com a
injustiça provoca mortes coroando de violência um lado e outro. Os posseiros
experientes precursores do Movimento dos Sem-Terra são rotulados de invasores,
de "gente que toma e ocupa até terras registradas em cartório" e "sem medo,
desmata e planta em reservas". Para o latifundiário contaminado pelo ódio,
"essa mistura de nordestinos com bugre vale menos que o índio"!
O generalizado anacronismo do clientelismo dominante e o pensamento que
privilegia a ecoeficiência das reservas em detrimento da segurança dos
excluídos entrelaçam-se em labirintos que obscurecem iniciativas para a paz. Em
áreas de colonização, algumas transformadas em pequenas cidades, a população se
martiriza com a escalada da violência. Municípios na macro-região de Colniza,
Aripuanã, São José do Xingu e Juruena inserem-se no topo da taxa nacional de
homicídios. Na municipalidade de Colniza, de aproximadamente 13 mil habitantes,
em 2006, o risco de morte por assassinato quase recorde no mundo, sextuplicava
a funesta média doméstica. Ressalte-se nesses infernos o desmatamento apresenta
alarmantes índices. Em Aripuanã e Colniza, por exemplo, o corte ilegal de
madeira, de tão intenso, incluiu ambas as cidades na lista dos 36 municípios
onde mais se desmata. Ou seja, desmatamento, desintrusão, intolerância e
violência na Amazônia dão-se as mãos12.
A diáspora garimpeira aumenta o fardo das desgraças ambientais. Expulso como se
não fosse gente, o tratamento desumano dispensado a essa corrente migratória de
excluídos configura a insensibilidade social de deletérias conseqüências.
Disciplinar a economia garimpeira certamente coibirá vários malefícios
ambientais. Evitará os costumeiros assassinatos desses migrantes excluídos e
talvez inicie a caminhada pelo fim do divórcio entre a arte da prosperidade e a
natureza indomável.
A circunstancialidade da nada ecológica economia agroexportadora e os
desdobramentos dos descasos que vitimam aos que trabalham nela roubam as
vantagens do seu empreendedorismo. Tolhem a legitimidade de suas estratégias de
mercado tumultuado pelo êxodo em múltiplas direções. Políticas inter-regionais
para assistência aos migrantes oprimidos pela incompreensão abrirão espaço para
tarefas compartilhadas na vizinhança amazônica. Por enquanto, o conforto
espiritual inspirado em motivações religiosas lhes chega quase que apenas pelas
igrejas neopentescostais. Fragmentada e sem bandeira, a migração garimpeira do
Brasil em direção à Bolívia, ao Peru, à Venezuela, à Guiana, ao Suriname e à
Guiana Francesa, há anos exibe um papel de alcance transnacional. Relembrando,
os garimpeiros que embastecem as fileiras do neopentecostalismo, constituem o
mais numeroso grupo humano na floresta.
Olhares enevoados de contradições apequenam o valor da vida do trabalhador nos
garimpos e realimentam injustiças no trato desses migrantes da selva. Milhares
deles portam um tecido etnogenético familiar ao do índio. Ambigüidades na
política ambiental abrem caminhos para perseguições, prisões e extradicões a
garimpeiros brasileiros, notadamente na Guiana Francesa. Em consonância com a
exploração do homem pelo homem, injustiças obrigam esse "lumpen proletariado do
mato", em pleno século XXI, abdicar de sua identidade cidadã, da sua
independência econômica e outras utopias. No outro lado da moeda da sociologia
amazônica, distorções presentes no assistencialismo oferecido às minorias
indígenas inspiram-se no anátema da segregação e multiplicam-se tuteladas pela
etnicidade. Quando a etnia e a raça justificam critérios para privilégios,
corre-se o risco de sepultar o apelo "Povos da floresta, uni-vos!"13.
Novas diásporas
O diagnóstico acrítico das assimetrias da globalização vinculada à pós-
modernidade desestimula sentimentos pela superação das rivalidades. Inviabiliza
um mundo para todos. Por isso, o destaque dado pelo paternalismo estatal ao
indigenismo na hodiernidade, ainda que somado à importância ambiental das
reservas, não o muniu de habilidades para dialogar com o homem vitimado pela
desintrusão, filho de Deus como qualquer índio. Tampouco diminuiu as disputas
domésticas que separam famílias nas tribos. Vários desentendimentos são
soprados pelo ócio, pela intolerância religiosa e pelo alcoolismo a engrossar a
tendência do êxodo para as cidades. Isso faz pensar que nenhum antídoto contra
conflitos em reservas indígenas se materializará, a não ser que sejam em formas
dialogais por consensos. Com o diálogo em desuso, interferências manipuladoras
de ressentimentos históricos avolumarão os problemas existenciais do próprio
índio.
De passado essencialmente masculino, no presente a migração atrai índias que se
juntam com o "branco" com maior facilidade que as "brancas" ou as "negras" com
o índio. Tantas e tantas se iludem crendo que o êxodo de suas tribos lhes dará
melhor status na nova terra de adoção. Nos tiroteios entre os prós e os contra,
nem os valores da cristandade se usam para apressar medidas favoráveis à
proteção da mulher índia nos espaços urbanos que usualmente abriga sociedades
pluriétnicas.
O estudo do indigenismo sob as lentes das relações internacionais, da etno-
história e das considerações de gênero maneja melhor a condição feminina, seja
nas reservas, seja nas cidades. A feminização da migração interamazônica advém
da falta de prevenção da discriminação contra a mulher, das funções ingratas a
elas reservadas e por causa das tarefas mais duras que cumprem nas aldeias. Por
isso, para manter a credibilidade com que nasceu, a Declaração da ONU sobre os
Direitos Indígenas precisa de um arcabouço pluricultural com interlocutores
lutando contra preconceitos, brutalidades e variadas insuficiências a desfavor
da mulher.
Os sacrifícios inerentes a feminização da migração indígena no Brasil e em
países vizinhos acrescidos com a discriminação acabam com o sonho humano da
inserção solidária que amarra o ideal à realidade. Há quem interprete o fim do
direito da livre locomoção nas terras indígenas, por exemplo, o
constitucionalista Ives Gandra14, como o apagar da liberdade da cláusula pétrea
do ir e do vir. Em número substantivamente maior do que o punhado de
latifundiários afetados, as vítimas da desintrusão são empregados pobres com
mãos calejadas pelo trabalho em arrozais dentro das reservas indígenas
homologadas. A aritmética da dominação os soma com suas mulheres e crianças
como gente sem direito de viver com integridade física e mental. Expostos aos
perigos, o sistema sem resistência às tentações do apartheid, da
"bantustanização"15 ou da balcanização os absorve.
O diálogo contra a miséria social
Impedir o convívio entre etnias e as quase invisíveis maiorias desprotegidas
leva ao perigo de patrocinar um messianismo étnico proporcionando às minorias
garantias que deveriam ser de todos. Entre os países amazônicos, ou seja, a
Bolívia, o Brasil, a Colômbia, o Equador, a Guiana, o Peru, o Suriname e a
Venezuela transitam índios sem projetos de fixar lugar e sem vontade de
explorar a terra como se fossem seus únicos donos16. Graças ao nomadismo em
suas veias, sua identidade construiu um antimodelo, uma arte de vida distinta
da apregoada pelas instituições da modernidade ávidos pelo controle da terra e
das coisas que ela guarda.
As organizações não-governamentais de alcance transnacional injetando o
discurso ambiental no indigenista, o fazem ocupando visível espaço na pauta
internacional. Polarizam visões e soltam demônios da não reconciliação sem ter
água benta para exorcizá-los. Por exemplo, o Conselho Indigenista Missionário
da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil informa que transitam pela justiça
140 ações relacionadas à posse por indígenas de terras nos estados do Amazonas,
Bahia, Ceará, Mato Grosso, Mato Grosso de Sul, Paraíba, Paraná e Rio Grande do
Sul.
Incapaz de desvendar no silêncio dos cerrados e das florestas os segredos do
tempo, a modernidade espalha dilemas, esquecida de que preservar é viver.
Subjugadas pelas transnacionais dos agrotóxicos e dos adubos, a monocultura e a
pecuária direcionadas à exportação comprometem a conservação dos cerrados e das
florestas. Menos de um quarto do comércio agrícola mundial escapa das
transnacionais que com as queimadas e o uso de agrotóxicos abastecem cidades,
tribos e lucram mais. Perdidas na origem dos paradoxos, tais práticas aportam
problemas na racionalidade enfartante da democracia dependente do produtivismo
capitalista tropical. Complexos, os seus desdobramentos no entorno das reservas
causam prejuízos irreparáveis. A natureza jamais separa o inseparável.
Expostas à influência do clientelismo, as reservas com suas flores e os seus
espinhos também abrigam caciques que aproveitam de sua condição de índio para
abusar de seus direitos e burlar leis. Enquanto a vontade coletiva desdenhar os
fundamentos que verdadeiramente coíbem o desinteresse pelo combate às violações
aos direitos fundamentais, dificilmente o indigenismo no Brasil será senhor do
próprio destino.
O diálogo igualitário é condição sine qua non para que os sonhados direitos do
índio não se divorciem da lógica comunitária do próprio índio. A moral
ambivalente do assistencialismo a serviço do indigenismo colide com os ideais
de liberdade insistentemente apregoados. A comunhão com os demais povos
certamente subverterá a dependência que o amarra a falsos protetores
especialistas em ensinar a pesca que acaba com o peixe. No horizonte
civilizatório, mesmo com a visibilidade que desfruta a causa pelas populações
originárias, a elas se reserva um irrelevante papel. Assim continuará até que
sua cultura pare de obstaculizar a expansão do mercado global do hedonismo.
Mercado que empurra para dentro do precipício a vontade de cultivar a utopia do
convívio humano junto com a preservação da identidade de cada um.
Impossível negar que a posse da terra dá aos que a possuem poder sobre os
despossuídos. Então, longe de por fim às formas de discriminação e de opressão,
demarcações de titânicas áreas homologadas em país de instituições de proteção
ao índio, anãs em eficiência, revelam paradoxos. De forma análoga, a
grandiosidade da legislação brasileira, de tanto criminalizar o desmatamento
transformou esse país no que mais desfloresta na Terra. Esses paradoxos
configuram políticas incapazes de sugerir atalhos cognitivos para a sociedade
arquitetar uma ordem estrutural menos contraditória daquela a serviço do
Estado. Por meio de desempenho medíocre, o da Fundação Nacional do Índio e o do
PPG7, por exemplo, as instituições estatais e programas internacionais delegam
funções a atores de baixo perfil desconhecedores das relações entre a natureza
e a cultura.
Ciganos do mato
O fundamento do poder da política indigenista reside na garantia de suas
culturas e de sua existência coletiva. Por isso ele depende do respeito à
diversidade cultural no seu todo. No que tange à sua continuidade, na garantia
desse processo, o incerto e o contraditório se expressam em alta voz. No caso
roraimense, por exemplo, jamais convidaram a população local para opinar sobre
a demarcação, promover plebiscito ou referendo, tipo daqueles incentivados por
democracias estáveis. Indígenas, funcionários de Ong's, donas de casa,
intelectuais, formadores de opinião, sem terra, desterrados, militares,
religiosos, trabalhadores, políticos, rizicultores, garimpeiros, desempregados,
estudantes e imigrantes, entre outros, todos merecem ouvidos. Pressionada,
Brasília ao homologar a mencionada reserva em terras contínuas optou por
ignorar o sim ou o não dessa gente. Esse racionalismo despojado de senso comum
se impôs ao ponto de marginalizar o Parlamento Nacional das decisões nacionais
relacionadas ao índio. Conforme mencionado anteriormente, índio no Brasil é
monopólio do executivo.
A supremacia dos Direitos Humanos em relação às demarcações de terras obriga
lembrar a garantia de condições de vida para o migrante, principalmente aquele
sem ninguém para defendê-lo. Enquanto expulsões, extrusões e o uso da força
bruta vitimar e discriminar a identidade do excluído, qualquer paz pensável
nessas reservas será a paz dos cemitérios! As demarcações que fogem dos campos
da ética da justiça se curvam à prática das expulsões, duro símbolo da
intolerância ao direito das diferenças.
O dogmatismo nas múltiplas mecânicas da exclusão social forma juízos sem
fundamentos. Principalmente onde há falta de redes de proteção social são
constantes as humilhações contra os sem terra e os garimpeiros. A busca de
privilégios em detrimento do outro ou a superficial condenação que se faz do
agronegócio, sem saber viver longe das dotações orçamentárias e dos alimentos
oriundos dele, avolumam deslealdades. Ser exportador de passivos ambientais faz
o capitalismo periférico suportar um nostálgico passado incrustado de
equívocos, que se repetidos, perigarão o viável projeto de preservar a
natureza.
Da base ao vértice da pirâmide, os movimentos sociais considerados lesados,
feridos na desigualdade de tratamento, dificilmente se deixarão pacificar.
Quanto aos desterrados - a maior parte deles miseráveis - a sua expulsão da
terra por eles cultivada constitui fragoroso desrespeito ao próximo. Daí a
urgência para que o Estado, organismos internacionais e honestas organizações
não-governamentais somem esforços para consolidar a paz na terra como ideal de
vida. Marginalizados, os madeireiros e os garimpeiros costumam invejar a sorte
dos indígenas que, aliás, no decorrer da história, nem sorte se chama.
Vítimas do latifúndio exportador, parte dos "ciganos do mato" entram em
reservas em busca de terra para ser cultivada no quadro da economia familiar.
Quando não conseguem, vendem sua força de trabalho para contrabandistas
madeireiros e até para caciques que os exploram em nome da racionalidade
sistematizada do capitalismo periférico. Reciclado, em dinâmica cíclica esse
capitalismo empenha-se em manipular as terras indígenas em novos projetos de
poder e as transforma, em nome do culto ao rústico, em estoque de produtos
estratégicos. Objeto de disputa entre grupos e classes, o capital simbólico das
reservas é tão importante quanto o seu capital ambiental.
Responsabilidade de Proteger
O direito à resistência contra a extrusão e contra parcerias que roubam a maior
parte da colheita do meeiro está presente na luta dos sem terra. Para evitar
problemas futuros há que se buscar solução equânime a favor da inclusão
acompanhada de obrigações e de direitos. A ação próxima às várzeas dos rios
Surumu e Cotingo, sob força policial, ocorreu na terra indígena Raposa Serra do
Sol com 1,74 milhões de hectares homologados por Decreto Presidencial em 15 de
abril de 2005. Tinha dentro dela centenas e centenas de roceiros empregados em
latifúndios. Por exemplo, os de Casa Branca, Carnaúba, Cariri, Depósito,
Guanabara-Canadá, Iemanjá, Maravilha, Milagre, Praia Grande, Providência e
Tatú17.
O Ministério da Justiça pela portaria 820 de dezembro de 1998 declarou a antiga
missão Surumu como permanente posse indígena. Relembrando, em ambos os
momentos, sentem-se a ausência da sociedade para opinar. Num caminho aberto por
grupos de interesse nacionais e estrangeiros fica a sensação que o indigenismo
corre o risco de depender mais da ajuda de fora do que das próprias forças. Por
excesso de confronto e falta de diálogo, a desintrusão ao fomentar o êxodo
estruturou uma realidade que deserda a homologação das reservas contínuas da
legitimidade construída pelo entendimento mútuo.
O pleito pela desintrusão se desentende com a necessidade de sobrevivência dos
migrantes que reclamam pelo direito de viver, ainda que em terra alheia.
Também, a autonomia índigena dependente da caridade do ambientalismo mais
preocupado com o impacto das mudanças climáticas nos países centrais não passa
de uma espécie de mentira engenhosa. Mesmo com lacunas, a experiência das
Nações Unidas sobre a governança migratória18, trará luzes sobre problemas
aportados por garimpeiros vivendo ou não nas reservas. Quiçá, até uma solução
para que a miséria desses excluídos não os force resistir à expulsão dentro das
áreas indígenas demarcadas no território nacional. Mesmo com tanta terra,
expressivo número de indígenas sofre com a desnutrição. Comprovam que se
reservas bastassem para a multiplicação das tapiocas lá inexisteria a fome.
Relembre o leitor o quanto em 1999 a homologação da Raposa Serra do Sol
contestada judicialmente tornou-se objeto de controvérsia. Acirrou crises
porque na raiz das coisas a sociedade retardatária temia reconhecer o
indigenismo como novo sujeito político que de fato o é. Com volumosos recursos
estrangeiros à disposição para criação de reservas, aqui no Brasil essa
política precisa contar com experiências de países contérminos. Sua homologação
em forma contínua se deu independente da história nos vizinhos. A pluralidade
de saberes evita aventuras do "Estado Gulliver" quase afogado nas demandas dos
grupos étnicos que ele mesmo ensina reivindicar. Amarrado, o Estado repassa
verbas para que se organizem politizados em busca da militância que os
homogeniza ideologicamente pondo em risco a cultura e o modo de ser dos povos
antecessores.
Em vários países amazônicos vivem índios recenseados como brasileiros e vice-
versa. Mesmo os estabelecidos no oeste de Roraima, área demarcada em 1992, vez
ou outra saem e embrenham-se por terras caribenhas próximas. Os ianomâmis, por
exemplo, no Brasil e na Venezuela não se contentam em pertencer a um único
país. Ainda que sem passaporte de outra nacionalidade - conforme facultam as
leis brasileiras - eles, à sua maneira, comprovam a possibilidade de um mundo
sem fronteiras. Os tucanos, desanos, tarianos tanto vivem na Colômbia quanto no
seu maior vizinho. Os exemplos não param aí: ilustram a pouco falada
problemática da nacionalidade na organização das sociedades tribais dos oito
países amazônicos.
O Droit de Ingérance, criticado, pouco a pouco foi substituído pela
"Responsabilidade de Proteger" (Responsibility to Protect -R2P). Defendida na
ONU, identificada com questionamentos relacionados à presença militar e a
exploração mineral em reservas, esse conceito se mescla a uma contemporaneidade
difícil de separar. Uma vez que, entre os países retardatários, a lógica da
separação fala mais alto que a lógica da integração, o conceito de soberania
como responsabilidade dá impressão que nascerá morto. Neste contexto, por
exemplo, multiplicam-se os preconceitos mútuos em municipalidade como a de
Pacaraima, estado de Roraima. Lá expulsam os não índios em nome da chamada
política de desintrusão. Transbordando problemas daqui para o exterior,
silenciosamente, os deslocados internos infiltram na vizinhança. De fato,
expressivos contingentes de garimpeiros e lavradores brasileiros desplazados -
esquecidos de que respeito não se pede e sim se exige - procuram trabalho e
abrigo na Guiana, na Venezuela, no Suriname e na Guiana Francesa.
Proporcionalmente, essa ultima abriga o maior número de brasileiros no
exterior.
Conflitos religiosos e o indigenismo nas Américas
Quanto à hierarquia católica, nas várias dinâmicas para fazer desaparecer as
cicatrizes do passado, ela "mineiramente" aviva sua pastoral organizando o
esforço missionário por conversões. Simultaneamente, outra parte do clero
desfralda bandeiras pela preservação da visão de mundo tradicional do índio;
cultiva a esperança ambígua de que depois do batismo o novo crente voltará
abraçar crenças e costumes de seus ancestrais.
A quase inexistente autocrítica aos resultados da ação pastoral indiretamente
amparada por políticas públicas paternalistas sonega respostas às carências
presentes na arte da convivência. Quanto às forças responsáveis pela
mobilização por homologação de reservas em terras contínuas, elas sequer
detectaram a urgência de se prevenir contra as larvas do conflito de origem
religiosa a escorrer pelas reservas.
A disputa religiosa entre adeptos do catolicismo e do neopentecostalismo os
divide em suas reservas. Quanto ao alcoolismo, esse esfacela seus valores, suas
identidades e suas bravuras. Nas reservas, os não batizados pela Igreja de Roma
exigem igualdade de tratamento. Por exemplo, os seguidores da Assembléia de
Deus pelejam pela liberdade de culto. Querem para os pastores os mesmos
direitos e o mesmo apoio que a Funai do Estado proclamado como laico garante
aos padres e aos catequistas.
A opinião pública mal se dá conta do quanto à politização, o partidarismo e a
conversão alteram a estrutura social daquelas comunidades. Não há como
esconder, o número de índios fiéis do catolicismo apostólico romano diminui
expressivamente, se comparado ao crescimento numérico dos índios crentes
batizados pelo neopentecostalismo. Com ou sem um sincero mea culpa em tal
processo, o Conselho Indigenista Missionário, há anos redefine o papel dos
missionários centrando notável apoio na formação da militância política pelos
direitos indígenas. Difícil avaliar como o CIMI julga o esvaziamento das
capelas e a diminuição do número dos batismos nas reservas. A resposta do
porque o índio parece preferir mais a mensagem bíblica dos neopentecostais do
que a mensagem objetiva, politizada e despida de mistérios oferecida pela
pregação engajada, certamente a memória histórica da missiologia aclarará.
Diferentemente da renovação dos fundamentos da convivência entre os povos, os
paradoxos da subserviência propositalmente ou não, ferem o espírito libertário
e destroem valores culturais. Surge daí um indigenismo híbrido e vazio de si
mesmo. Ignora o quanto a luta pelo ter em detrimento do ser salpica a vida
tribal com culturas moribundas dispostas a servir ao jogo geopolítico nada
católico dos estados maiores.
Insistentemente o IV Tribunal Russell, organizado em Roterdam, Países Baixos,
de 24 a 30 de novembro de 1980, alertou sobre os riscos da cooptação e da
conversão. Esse Tribunal poderia, pelo menos por sua história, ter contribuído
na construção dos alicerces da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos
dos Povos Indígenas19. As missões e seus religiosos, quando esquecidas do
ecumenismo pelo encontro, nem sempre prevêem as conseqüências da pregação que
demonizou o garimpeiro. A dimensão logística da convergência evoca uma
libertação consciente e solidária onde maiorias e minorias se dão as mãos.
Diga-se o mesmo em relação a busca do bem terreno como base material da
evangelização que estreitou o horizonte missionário. Do mesmo modo, o
partidarizar desantifica o movimento pastoral. O modus operandi da militância e
da politização na catequese acelerou as entradas na fileira neopentecostal. A
luta contra o esvaziamento dos rebanhos que a hierarquia na Cidade Eterna
abençoa, seguindo o ideal da salvação das almas indígenas, obriga reflexões
francas sobre o caminhar da missiologia rumo ao que chama de procura da
verdade.
Nos caminhos abertos pela ação missionária, relativamente poucos conseguiram
fugir das políticas de homogeneização cultural mantendo-se fiel às crenças de
seus antepassados que viviam mais para o ser do que para o ter. Ainda que com o
direito de migrar e de se revoltar, a politização oferecida ao índio não é
proteção. Falta prevenção com horizontes para frear as animosidades produzidas
pela intromissão de diferentes correntes religiosas na vida tribal. Há
igualmente que diminuir as tensões dadas "no plano do reconhecimento do direito
consuetudinário, que seguidas vezes, ao incompreender o papel do gênero, entra
em choque com os princípios de igualdade da mulher e da participação
igualitária nas decisões da comunidade".20
O crescimento das relações intersocietárias em diversificados tabuleiros,
tampouco deve descuidar do cada vez menos conhecido tesouro lingüístico nas
dezenas de idiomas falados na Hiléia. Sem a solidariedade humana o controverso
e o contencioso se multiplicam quebrando a estética da convivência, ou seja, as
línguas, ainda que diferentes todas têm seu papel. Pela fala se dialoga com o
mundo. Feliz da Terra amada por tantos idiomas! No Brasil se a diversidade
cultural contar com as identidades lingüísticas, ela enobrecerá o "princípio
primi" da essência do convívio.
O espaço das reservas corre o risco de ser palco de conflitos, a principiar
pelos religiosos. A re-emergência étnica, ainda que mantida em conjuntura
favorável, necessita da memória histórica presente nos idiomas para desviar das
trágicas experiências dos aldeamentos. Dificultar a solidariedade ao outro
acelera ao invés de solucionar problemas. Todavia, há como evitar
desdobramentos de crises principiadas nas ciladas da auto-identificação
concebida como indicativos de raça e de credo. Para isso insta compreender, ser
índio é ver as coisas no mundo como o índio o vê, inclusive o mundo em processo
de mudança!
O aprendizado da convivência pacífica entre maiorias e minorias e o uso da
solidariedade a favor do encontro das sociedades nos oito países amazônicos e
na Guiana Francesa, de alguma maneira aplaina caminhos para a cidadania
multicultural de largo espectro. Cidadania multicultural capaz de contrapor-se
à xenofobia que rompe elos entre as estratégias de sobrevivência da população
de baixa renda em terras indígenas com os direitos das minorias protegidas.
Se parece longa a trajetória para uma construção epistemológica formatadora de
interesse coletivo, numerosas são as experiências entre os povos nesse extremo
Ocidente. Por exemplo, no Chile, país de especiosos índices de desenvolvimento
na América do Sul, a política de Estado para as minorias de Mapuches é mais
antiga do que aquela que o pragmatismo circunstancial brasileiro brinda às
nações indígenas. Santiago age para que bandeiras em nome de raças e etnias não
desfraldem restringindo a liberdade do Estado no que diz respeito à exploração
de recursos naturais de interesse nacional. Situação em certos aspectos
distinta da chilena ocorre, por exemplo, em Belize, Uruguai, Suriname e França
na sua província ultramarina. Esses são Estados onde o ser índio não consta em
suas leis. No México, Canadá e Estados Unidos da América, os indígenas tendem
reclamar, mais por respeito e menos por reservas. O Exército Zapatista de
Libertação Nacional21 levantou a questão da preservação da identidade coletiva
antes do título da posse da terra.
No Equador, Bolívia e Peru, países andino-amazônicos de milenar e vasta
tradição cultural, a população indígena majoritária visivelmente difere da
população indígena minoritária presente na Venezuela, Suriname, Guiana e
Brasil. O tratamento que lhes dispensou a civilização ocidental cristã deixou
chagas ainda abertas. Na sua heróica luta pela justiça, mais que a terra, mais
que os problemas étnicos preocupam-lhes resgatar o respeito como garantia de
sobrevivência cultural.
Do Paraguai tão guarani ao Canadá, passando pelos Estados Unidos da América, a
troca de experiências nas relações internacionais do indigenismo em seus
acertos e erros tem como canalizar forças. Sob esse aspecto, vale novamente
perguntar se o voto contrário à Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos
Indígenas dado pelos Estados Unidos da América, Canadá, Austrália e Nova
Zelândia provocará reações não levantadas nesse texto. Além desses quatro
países do centro, onze outros se abstiveram de votar. Entre esses últimos está
a vizinha Colômbia detentora de população indígena expressivamente maior que o
Brasil e o único na América Latina com crescimento econômico contínuo há mais
de um quarto de século.
Na Guiana e no Suriname - por causa das disputas raciais e rivalidades da
progênie africana com os muçulmanos e hindus - aceitar um Estado-nação
pluricultural e multiétnico municiado de um bom pluralismo jurídico certamente
melhorará a vida das minorias nativas. Na Colômbia, na Venezuela, no Panamá e
na Nicarágua, os territórios demarcados e a autonomia proclamada não
transtornaram a ordem jurídica. Tampouco afetou a identidade nacional ou abriu
espaço, como no Brasil, às milionárias indenizações pagas pelo Governo, por
mineradoras e por hidroelétricas às comunidades indígenas afetadas. Parece que
em muitas terras lá no estrangeiro, quase como o PAC faz no Brasil, em nome do
interesse nacional a tendência é impedir a obstrução de obras públicas
anunciadas como essenciais.
Conclusão
No debate interparadigmático das relações internacionais obrigações em
perspectiva comparada merecem análise, para o quanto antes, equilibrar a
universalidade das visões dos Direitos Humanos com as práticas do Direito
Cultural. Urge entender o porquê do respeito ao indígena e as suas práticas
culturais. Alteridade não é esmola nem exercício de paciência. É respeito.
Caso existam, como testemunhar eventuais manifestações da vida tribal
relacionadas ao aborto, ao suicídio, à poligamia e aos castigos físicos?22.
Acrescente-se a isso o maltrato da mulher, consumo de plantas alucinógenas,
gnaticídio dos portadores de deficiência física, eutanásia, repressão ao
homossexualismo e ao lesbianismo, entre outras. Ainda que chocantes e
controversas, insta entender as diferenças. Isso evita o monopólio da verdade e
a beatificação do indigenismo.
A crença na infalibilidade das culturas leva ao uso indevido dos instrumentos
hermenêuticos da civilização de cada povo. De alguma maneira, a alteridade
proporciona compreensão para com as diferentes visões de mundo. Seu impulso
pela objetividade nas novas formas de relacionamento entre a sociedade
internacional e o epifenômeno do indigenismo desembocarão em uma epistemologia
com história e lógica.
No mosaico de percepções sobre o indigenismo, a comunidade epistêmica entenderá
que na construção de parcerias, quem defende a minoria indígena respeitando as
maiorias é pelos direitos humanos. Na defesa desses direitos a análise
comparada da sociologia indígena nos países amazônicos, se substantivada pelo
olhar não discriminatório em direção aos excluídos, ela angariará expressiva
legitimidade. Nessa tarefa cabe congregar esforços em apoio aos direitos
fundamentais universais direcionados aos desplazados. Igualmente aos
refugiados, aos índios abandonados nas cidades, aos migrantes e, entre esses,
aos garimpeiros sem fronteiras.
O texto enfatizou ser essencial uma consciência cívica enraizada na alteridade
e não atomizada. Que seja estrutural e tenha visão de conjunto. Que se muna de
contribuições capazes de prover a sociedade no seu todo de instrumentos para
evitar o genocídio, fruto venenoso dos equívocos da barbárie civilizatória.
Suplantar estereótipos obriga lidar com a cidadania étnica sem os valores
capitalistas contaminados por egoísmos dos mercados. Evitar a repetição das
desgraças históricas aborta a dinâmica da violência. Fecundadas em único
ventre, as rivalidades étnicas e religiosas, no mais das vezes, como lobos sob
peles de cordeiro, ao defender territórios para mercados, vitimam minorias e
maiorias.
1 Resolução A/RES/63/281, de 03 de junho de 2009 - Organização das Nações
Unidas, Nova Iorque.
2 PROCÓPIO, Argemiro. "Migrantes, garimpeiros e a Declaração das Nações Unidas
sobre os Direitos dos Povos Indígenas". Revista de Informação Legislativa,
Senado Federal, Brasília, Jan./Mar. 2009, Ano 46.
3 ALLIER, José Martinez. El Ecologismo de los Pobres: conflitos ambientales y
lenguajes de valoración. Barcelona: Içaria, 2006.
4 CHOMSKY, Noam. Language and Mind. 3ª Ed. Cambridge University Press, 2006.
5 TRINDADE, Antônio Augusto Cançado. A humanização do direito internacional.
Del Rey: Belo Horizonte, 2006.
6 NIETZSCHE, Friedrich. Fragmentos Finais. Brasília: Editora UnB, 2002. pg.
112.
7 MORIN, Edgar. O método 6 - ética. Porto Alegre: Sulina, 2005.
8 HOBBES, Thomas. Leviatã ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e
civil. São Paulo, Iconome, 2000.
9 Ver: LÉVINAS, Emmanuel. Da existência ao existente. Campinas: Papiros, 1998.
10 KRUGMAN, Paul & OBSTFELD, Maurice. Economia Internacional: teoria e
política. 6ª Ed. São Paulo: Addison Wesley, 2005.
11 MARX, Karl. O Capital. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.
12 PROCÓPIO, Argemiro. Subdesenvolvimento Sustentável. 3ª ed. Curitiba: Editora
Juruá, 2009, p. 93.
13 MARX, Karl. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Martin Claret, 2008
14 GANDRA, Ives: "Os direitos e privilégios de ser índio". Jornal Notícias
Forenses. Outubro 2004, p. 12.
15 Os bantustões, pseudo-estados tribais criados pelo regime do apartheid,
segregavam negros apesar de mantê-los disponíveis como mão de obra barata.
16 Ver: CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Vida e Missão neste Chão.
Campanha da Fraternidade. São Paulo: Salesiana, 2007.
17 LAURIOLA, Vicenzo; CARNEIRO FILHO, Arnaldo; COSTA, Jorge da; MALHEIRO,
Gercimar Morais. "Política fundiária das monoculturas". Ciência Hoje. Dezembro
de 2007, p. 53.
18 Ver: FIRMEZA, George Torquato. Brasileiros no Exterior. Brasília: Fundação
Alexandre Gusmão, 2007.
19 PROCÓPIO, Argemiro. Amazônia, Ecologia e Degradação Social. São Paulo: Alfa
Ômega, 1992. p. 194 a 208.
20 SORJ, Bernado e MARTUCCELLI, Danilo. O desafio latino-americano: inclusão
social e democracia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008, p. 254.
21 SUBCOMANDANTE MARCOS. Our Word is our Weapon. New York: Seven Stories Press,
2003.
22 Ver: KERN, Felipe Moreira. "Povos Indígenas e os Discursos Teóricos em
Relações Internacionais". In: VAZ, Alcides Costa (org.). Amazônia: Discursos e
Realidades. Boa Vista: Editora UFRR, 2008.