A Amazônia Caribenha
Introdução
A Guiana, a Guiana Francesa, o Suriname e a Venezuela constituem
importantíssimo conjunto de etnias, culturas, religiões e de visões de mundo no
universo caribenho para onde os latinos americanos tardiamente estenderam as
suas mãos.
Amazônicos mais por suas florestas do que pelo seu conjunto hídrico ou por suas
políticas de integração, esses países, juntamente com o Brasil, relutam ainda
em construir uma identidade sociocultural e econômica amazônico-caribenha entre
si mesmos.
Se a Guiana Francesa fosse parte da Organização do Tratado de Cooperação
Amazônica ' OTCA, esses cinco constituiriam mais da metade dos membros da
organização. Ligados pelos seus indígenas, pelos seus lavrados, por suas matas
e por sua geografia física, nesses incógnitos espaços lindeiros, desenha-se uma
geopolítica cultural merecedora de atenções e estudos nas relações
internacionais pouco familiarizadas com as nações da Amazônia Setentrional.
A busca por identidades no universo da migração regional, da economia paralela
dos garimpos, das drogas e dos madeireiros e o respeito às diferenças nessa
Amazônia caribenha andam por conta própria. No triângulo Guiana-Brasil-
Suriname, o Estado ainda se mostra como um eterno ausente.
Sociedade em espaços fronteiriços
Crescendo a taxas médias de 5% nos últimos três anos, após substituir o guilder
pelo dólar surinamense, com uma política externa1 de mãos dadas com a política
econômica, Paramaribo abre-se em todas as direções possíveis e procura apoio
tanto dos estadunidenses quanto dos bolivarianistas venezuelanos.
O aumento da capacidade de produção da alumina deve-se a empresas como a
Suralco e a Billiton. A expansão dos investimentos na extração do ouro
capitaneia-se pela canadense Cambior. As pesquisas por petróleo são feitas pela
espanhola Repsol, pela dinamarquesa Maersk ou pela Ocidental Petroleum
Corporation dos EUA. Raramente essas atividades acompanham-se de cuidados
ambientais compatíveis com a preocupação externada por governos dessas
multinacionais nos fóruns internacionais onde se discutem os problemas
ambientais amazônicos.
Explorando o quanto pode a vocação mineral local, os políticos surinamenses
tais quais os brasileiros esquecem que minerais soltam uma única florada. As
alternativas encontradas, como, por exemplo, plantação de novos canaviais,
exportação de bananas, criação de camarões, mesmo sinalizando possibilidades de
diversificação da pauta de exportação e mais emprego, sentem falta do apoio
político da elite local, quase todo ele direcionado aos oligopólios da
mineração e à economia clandestina.
O cidadão surinamense guarda, troca como quer o dólar surinamense e aplica como
pode em qualquer instituição bancária. Essa liberação geral amarra-se ao
capital que a mineração e o contrabando de produtos chineses depositam em
poucas mãos. Aí se inclui o ouro encontrado por milhares de depauperados
garimpeiros do Brasil.
A República Popular da China ao investir em mineração o faz discretamente
associada a grupos de diferentes nacionalidades. Ela e a Índia exibem presenças
competentes em espaços outrora monopolizados por europeus e estadunidenses. A
presença indiana, seja na Guiana, seja no Suriname, concorre no comércio local
com a chinesa. Contudo, é imbatível a esperteza indiana no contrabando do ouro,
inclusive daquele extraído ilegalmente do Brasil e espalhado pelo mundo através
das janelas da contravenção amazônica.
Há poucos anos, a empresa China Zhong Heng Tai Investment, com tecnologia
parecidíssima à da Embrapa na seleção de sementes, espaçamento, adubação e
tratamento das mudas, estabeleceu com Paramaribo uma senhora parceria em
plantações de palmeira de dendê. Orçada em 116 milhões, essa espetacular
cultura emprega mais de mil técnicos chineses. Vista como uma iniciativa
bioenergética, ela certamente aumentará a receita cambial do Suriname.
Apesar da excelente tradição da Embrapa, nesse setor, nota-se a ausência
brasileira. Mesmo com todas as facilidades oferecidas pela vizinhança, faltam
políticas para articulação setorial e regional da produção. Por inexistir
investimento interno em agregação de conhecimentos e inovação, castra-se a
cooperação técnica que demanda ciência e tecnologia.
A ilegalidade presente na movimentada rota de contrabando de drogas sintéticas,
de madeira nobre, de diamantes, de pedras preciosas e de ouro, de produtos
químicos controlados e de eletrônicos não precisa se dar ao trabalho de usar
máscara no Suriname, país até hoje marcado pelas conseqüências do "golpe dos
sargentos" em 1980.
Há anos a contravenção no Suriname cresce como espinhoso problema para a
segurança regional. As preocupações pela contenção do terrorismo internacional
e pelo islamismo professado por quase metade da população na Guiana e no
Suriname destacam esses caribenhos-amazônicos e a católica Venezuela nas
agendas dos serviços de inteligência estadunidenses e da União Européia.
Igualmente as interferências externas impedem o fim do litígio entre Venezuela-
Guiana e entre Suriname-Guiana por regiões petrolíferas. Esse fato põe o estado
brasileiro de Roraima numa explosiva situação geopolítica, bem ao lado de um
tiroteio que tem de tudo para ferir esse estado setentrional com balas perdidas
da política internacional.
O silêncio que compromete
O insuficiente diálogo sobre a cooperação, os problemas mal resolvidos na
Comunidade Andina de Nações2 e a falta de iniciativas emudecem o
multilateralismo na Hiléia desorientado na crise sistêmica. Tal crise questiona
a legitimidade das democracias amazônicas, não pelo que prometem, mas pelo seu
silêncio que compromete. As disputas entre Suriname e Guiana precisam de
resolução por via pacífica. A favor da paz, o Brasil poderia desempenhar papel
protagonista nessa intermediação.
Os focos de violência em espaços sociais aquém e além-fronteiras dos seis
vizinhos amazônicos do Brasil avolumaram-se com a economia das drogas e com o
agronegócio. Ampliou-se a procura por produtos químicos controlados, ampliou-se
a procura pelos agrocombustíveis numa Amazônia sem vocação para substituir seus
cerrados e suas florestas por canaviais.
Com a cooperação dos financiadores internacionais, o Suriname e o Brasil nos
anos 1980 montaram infra-estrutura energética para a produção do alumínio. Duas
décadas depois arcam com o pesado ônus da poluição ambiental. Pior, usam da
eletricidade sem cuidados especiais com a água, esse recurso precioso, finito e
agora abusadamente utilizado na produção do etanol.
Com os cursos de rios represados e interrompidos por barragens, a vida aquática
sofre o prejuízo ambiental desse processo. Mesmo que a hidroeletricidade seja
limpa e relativamente renovável, seu uso nas usinas sucroalcooleiras e nas
atividades de mineração é, em geral, oneroso para a natureza. Esse fato,
associado às queimadas das florestas e dos cerrados, realça a sustentabilidade
do subdesenvolvimento brasileiro responsável por colocar esse país pobre e sujo
na companhia de seis imundos ricos, considerados os maiores poluidores da
terra.
Paradoxo dos paradoxos, a produção de energia limpa e renovável que se diz ser
o etanol exaure a terra, gasta adubos, preteja o ar em sua colheita e consome
absurda quantidade de água. Tal fato, direta ou indiretamente, transforma o
exportador de grãos e de etanol igualmente em exportador de água.
O Suriname tem população que nem sequer alcança meio milhão de pessoas e seus
políticos pensam também em ganhar fácil com a cana. Desigualmente repartida em
área de 163.265 quilômetros quadrados, apenas a capital Paramaribo concentra
cerca de 120 mil habitantes. A sociedade surinamense, de baixa imunidade ao
crime organizado, assemelha-se com a família amazônica por suas florestas e
pela gênese de suas debilidades estruturais3.
O Suriname nas origens do Projeto Calha Norte
O holandês, língua oficial, fala-se cada vez menos. O taki-taki, herança
crioula, moda entre jovens, de certa forma transformou-se na língua franca do
país. Independente desde 1975, essa sociedade serviu de palco entre 1980 e 1990
para golpes militares. Cinco anos depois do rompimento de seus laços coloniais
com os Países Baixos, militares depuseram o governo civil, proclamando a
República Socialista do Suriname.
Esse desafiador acontecimento ' o socialismo de inspiração cubana dentro da
comunidade amazônica ' alarmou os EUA e, por extensão, o Centro de Informações
do Exterior. O Ciex do Ministério das Relações Exteriores é a caixa preta da
ditadura até hoje escondida para não comprometer nomes de diplomatas vivos
compromissados com a tortura e com a perseguição a exilados no exterior.
Motivados politicamente, cruzavam-se pelo Centro de Estudos Brasileiros ligado
à Embaixada em Paramaribo membros do estamento militar, policial e dos serviços
secretos surinamenses. Local impregnado de anticomunismo, repassava conceitos
desatualizados da segurança e da defesa. Afinado com a Casa do Rio Branco, à
época embebedada no fanatismo anti-subversivo, este "centro de estudos", bem
afinado com o Ciex, repassava doutrinas e práticas elaboradas pelos serviços de
informação estadunidenses.
A luta contra o socialismo por anos transformou-se no carro-chefe da cooperação
diplomática entre Brasília e Paramaribo. Surgiu em tal contexto uma entre as
tantas preocupações com a defesa do espaço amazônico logo incorporada ao
Projeto Calha Norte, posto em marcha a partir de 1986. Antes, esforços das
diplomacias declaradamente anticomunistas dos governos militares em boa parte
dos países amazônicos convergiram para assinar em julho de 1978 o TCA, nascido
com a inconfundível cor dos olhos do pragmatismo responsável da política
externa brasileira4.
Num colossal erro de análise política, a diplomacia em Brasília julgava chegar
do Leste Europeu, via Cuba, nas brechas da instabilidade amazônica, da
surinamense, por exemplo, duros perigos. Em maior ou menor medida, tais perigos
afetariam os projetos de vivificação das fronteiras e de construção de grandes
estradas, ponta de lança do desmatamento em favor do agronegócio.
Equívoco insanável: as pressões partiam de sociedades hedonistas solidificadas
em ferrenho consumismo na Europa Ocidental e nos Estados Unidos da América5.
Precisamente aí se desfraldam bandeiras favoráveis a princípios como direito de
intervenção, tutela internacional e soberania limitada6. Merece atenção a
leitura dos conceitos de soberania territorial, segurança e defesa trabalhados
por Rufin, Ruggie, Huntington e Badie7.
O despertar dos interesses por cuidados ambientais está acima do dito choque de
civilizações8. Nascido de pressões exógenas e raramente pelo respeito que a
natureza e a vida merecem, o ambientalismo alienado responde pelos equívocos
causados pela emergente ecocracia no aparelho burocrático do Estado, inclusive
no surinamense.
O ambientalismo descompromissado com o social, ora por ameaças, ora por mimos
embrulhados por ONGs dos países centrais, influenciou durante anos a formulação
de políticas públicas de poucos resultados. A opacidade e visão alienada sobre
a problemática ambiental hoje abrem as portas amazônicas para o renovado ciclo
da cana-de-açúcar de alma colonial claramente presente na memória histórica do
Suriname.
Equivocada, a aposta que o fim do comunismo antecedido pela queda do muro de
Berlim traria paz legou à sociedade imensas dúvidas. Através da entrada
surinamense, a subversão da corrupção soube aproveitar-se dos conflitos
étnicos9. Englobou espaços, principalmente os remexidos pelo narcotráfico.
Afora isso, existe o fluxo quase contínuo de brasileiros deserdados da sorte '
os bandeirantes do século XXI ' ilegalmente empregados em garimpos dentro dos
territórios da Guiana, Suriname, Venezuela e da Guiana Francesa.
Antigos colonizadores, os holandeses no Suriname ensinaram a língua. Exploraram
contingentes de migrantes indianos e javaneses como substitutos da mão-de-obra
escrava nas plantações de cana-de-açúcar e de arroz. Os filhos da África
empobreceram e os da Ásia se enriqueceram. Atualmente o hinduísmo congrega
cerca de um quarto do total da população, tornando-se a religião com o maior
número de adeptos no Suriname e na Guiana.
O garimpeiro brasileiro no Suriname e na Guiana Francesa
A crise do desemprego no Brasil, a violenta perseguição aos maltrapilhos
garimpeiros em áreas indígenas e o irrisório preço oferecido aos produtos da
floresta neste quarto de século perdido e ainda em curso transbordaram para o
Suriname número expressivo de paupérrimos migrantes brasileiros.
Hoje representam um considerável contingente da população local. Deserdados da
sorte, sujeitos a maus-tratos e ao descaso consular, nem o governo, nem ninguém
se lembra deles em suas políticas públicas. Mesmo as estatísticas os ignoram
para dizer que esse problema inexiste. Contabilizados por estimativas díspares,
algumas rezam: os brasileiros correspondem a
quinze por cento da população do Suriname. Outras reduzem esse percentual pela
metade.
Vitimados pelo Cartel de Suri, parte dos imigrantes brasileiros são explorados
por organizações criminosas oriundas do Líbano, da Índia e da Nigéria. Esses
trabalhadores, marginalizados pelos que arquitetam os direitos humanos para
suas bem remuneradas carreiras, recebem tratamento de escravos nos garimpos da
floresta. Jamais viram a Organização Internacional do Trabalho e instituição
alguma mover uma palha por eles.
Entre Caiena e Paris inexiste controle de bagagem pelo simples fato de
considerarem esta última possessão francesa em terras continentais como rota
interna. Companhias aéreas e empresas de navegação transportam para a Europa
pequenas quantidades de pedras preciosas de grande valor, ouro e drogas com
inacreditável silêncio das autoridades francesas nessa Amazônia, ainda parte do
seu espólio colonial.
A administração francesa tampouco livrou essa herança napoleônica da ação dos
narcotraficantes, dos madeireiros, dos garimpeiros e de outros agentes da
degradação ambiental. Isso ensina que os problemas amazônicos jamais se
esgotarão com a transferência da soberania para as mãos dos países centrais.
Efetivamente, os problemas ambientais na Guiana Francesa, parecidíssimos aos
dos seus vizinhos subdesenvolvidos, agora e no futuro, mostrar-se-ão em todas
as horas da noite e do dia. Demoverão o mais ferrenho partidário da
internacionalização em suas tentativas de lutar pelo fim da soberania nacional
nos outros países amazônicos.
Em Caiena, sente-se a subversão da economia paralela fomentando o processo de
integração num espaço colonial inteiramente démodé. Graças a essa subversão,
intensificaram o intercâmbio e o fluxo de pessoas. Cresceu o comércio e
ampliou-se a presença de brasileiros. O número desses compatriotas envolvidos
nas diferentes etapas da economia informal corresponde ao aumento da presença
do crime organizado europeu na sociedade amazônica. Tida ainda como um pedaço
do velho mundo nessa parte do globo de florestas vivas, nessa colônia são as
redes do crime que a livra do seu ostracismo sociopolítico.
A substantiva integração da economia informal por intermédio do banditismo
ultrapassa, nos países da Hiléia, as promovidas por iniciativas diplomáticas. O
crime organizado integra de fato e desmoraliza quaisquer esforços oficiais em
prol da organicidade da integração legal. Seu pragmatismo inovador reflete a
modernidade nas suas dimensões mais cruéis. Nele a Segurança Ambiental vale
menos que o dinheiro. Paralelamente à complexa interdependência de éticas
distintas, observam-se no submundo desta possessão colonial atividades nas
quais a força e a corrupção decidem as opções.
Neste lugar onde cidadãos da vizinhança amazônica padecem duros
constrangimentos, conseqüência de seu status, a Guiana Francesa simboliza a
herança colonial da ambição do eurocentrismo na Amazônia Continental. O
processo de descolonização varreu a África nos anos 1960, porém tolerou o
enclave desse departamento francês ultramarino bem na testa amazônica. Dessa
forma, a França na Amazônia peca por sua ambição. Nem mesmo os milhares de
imigrantes ilegais convencem Paris mudar a política responsável por afastá-la
do convívio com os oito demais países amazônicos.
Colonialismo francês na Amazônia
A cobiça de Paris por pedaços amazônicos notou-se no Amapá, onde franceses
entraram e retiraram-se, após pressionados, em 1840. Os ingleses penetraram no
rio Branco e a questão dos limites brasileiros nessa região resolveu-se em
1904. Pelo laudo da Coroa italiana, deixaram de ser reconhecidos como do Brasil
19.630 quilômetros quadrados de terras amazônicas. Ou seja, não é só na
Bolívia, Equador, Polônia ou na Alemanha que os territórios mudam de dono. O
brasileiro já sentiu na própria carne a dor da amputação de partes reclamadas
como suas10.
Os desígnios coloniais nesta parte hidrograficamente separada da bacia
amazônica aportam custos também no domínio dos significados. É mostra da
dominação colonial com a qual os países amazônicos ainda convivem.
Sem intenção de criminalizar a diáspora, precisa lembrar-se de milhares de
brasileiros abandonados da sorte, sem as vantagens da cidadania em seu país
natal, espalham-se pela Guiana Francesa. Sem estatísticas confiáveis para dizer
se são vinte ou trinta mil, o certo é, destacada parte deles lá procura ouro e
diamantes para máfias européias com negócios em Amsterdã, Antuérpia, Palermo e
Marselha.
Vínculos históricos do Brasil com essa colônia remontam ainda às guerras
napoleônicas. De fato, a Coroa lusitana, tradicional aliada dos ingleses,
deixou lá sua resposta à invasão de Portugal. Marcou nesse ato, espécie de
compensação pela fuga da família real de Lisboa para o Rio de Janeiro. Lavando
a honra, a opção da casa dos Bragança recaiu na invasão desse espaço facilmente
incorporado como propriedade do Reino Unido do Brasil, Portugal e Algarve.
Parte do território brasileiro até 1817, pelo tratado de Viena, foi entregue à
França.
Expressivo segmento da população da Guiana Francesa guarda raízes no
estrangeiro. O êxodo da população na faixa etária ativa busca na metrópole
oportunidades de emprego mais compensadores que na colônia. As portas da União
Européia abrem-se para esses filhos amazônicos ocuparem funções recusadas pelos
prósperos europeus.
Tal fato traz complicadores. Deixa Paris quase sem opção para o preenchimento
dos postos pouco cobiçados na terra onde no passado, na ilha do Diabo,
funcionou presídio de triste memória. Tem como alternativa ou tolerar os
brasileiros católicos ' hoje culturalmente mais distantes da França e ainda
assim, mais dia, menos dia, acabam falando o francês ' ou acolher os asiáticos
hindus com bom inglês na ponta da língua. Atualmente, estes últimos constituem
a maioria étnica das outras duas, antigamente chamadas de Guiana Inglesa e
Holandesa.
Na virada do século XX para o XXI, muitos nordestinos e paraenses mudaram-se
para a Guiana Francesa, a ponto de a festividade de expressão em Caiena ser o
carnaval e, recentemente, o Círio de Nazaré. Isto sem esquecer da lusofonia lá
indisfarçavelmente presente.
A teimosia de manter herança colonial na Amazônia, há décadas em desuso nas
relações internacionais, leva Paris à sucessão de enganos. Por exemplo, a
política indigenista implementada por este importantíssimo sócio da União
Européia, ao ser vista pelos resultados, substantivamente pouco difere dos
demais países do maciço da Guiana. Estão todas impregnadas de forte carga de
contradições, seja em nome da modernidade ou seja em nome dos euros
distribuídos pelo Estado francês aos seus indígenas nessa possessão colonial.
Na Guiana Francesa, há indígenas recebendo mensalmente a chamada renda mínima,
versão milionária do Programa Bolsa Família brasileiro. Morrem vítimas da
cachaça e de outros vícios presenteados pela civilização do branco tal como
aqui. Triste referência em termos de equívocos contra o indígena e contra as
florestas tropicais, apesar de avançadas leis, estatutos e reservas, o Brasil
tem pouco para ensinar à França e vice-versa.
A ilusória felicidade do bom selvagem amansado pelo dinheiro leva o
sindicalismo indígena' a pender para o lado que satisfaz o seu paladar ou onde
se vendem drogas e bebidas alcoólicas a melhor preço. O custo de vida nesse
pedaço de mundo é seguramente o maior na Amazônia Continental.
La Gabrielleno final do iluminismo
Considerando-se o critério ultramarino da possessão colonial, a França divide
com o Brasil sua maior fronteira. Mesmo assim, a carne bovina nacional quando
vendida legalmente em Caiena chega através do portal do atlântico norte
percorrendo o trajeto Belém, Marselha e, por fim, Caiena! Daí seu exagerado
preço, responsável pela preferência à carne bovina e bufalina brasileiras,
baratas, de excelente sabor, qualidade e fartas no mercado negro.
O conhecido protecionismo agrícola francês, camuflado por barreiras
fitossanitárias, propositadamente dificulta a aproximação pelo comércio da
sociedade guianense com todos os países amazônicos. O controle fitossanitário
em sociedades cujos povos bebem água dos mesmos rios, sentem as mesmas chuvas,
consomem frutas e produtos agrícolas de um único universo pedológico equivale a
tiro saído pela culatra por duas razões.
A primeira ao onerar o contribuinte francês na manutenção de estrutura colonial
ultrapassada. A segunda por causa da integração paralela nos espaços sociais
aquém e além dos marcos divisórios move-se independentemente dos caprichos de
Paris. Compra-se e vende-se no mercado paralelo sem a mínima preocupação com o
humor da metrópole.
Nessa parte do mundo, a França enfrenta problemas de segurança e vigilância,
como qualquer outro país subdesenvolvido. Isso custa caro aos seus
contribuintes. Para tornar mais rentável esse espólio colonial, projetos de
plantações de cana-de-açúcar para o etanol estão em marcha. Nessa hora,
silenciam-se as preocupações do governo francês pela devastação florestal.
O jardim botânico La Gabrielle maravilhou Dom João VI que trouxe de lá espécies
nobres. Daquela horta do iluminismo francês à atual plataforma de lançamento de
foguetes do Centro Espacial em Kouru, o tempo nunca apagou da memória o
desrespeito pelos Direitos Humanos nos presídios nesse pedaço amazônico à
espera de algum dia tornar-se Estado.
A coroa portuguesa tinha intenções de plantar no Brasil, para depois vender na
Europa, espécies exóticas de alto valor. Daí a admiração por La Gabrielle,
fonte de inspiração para os projetos de um horto florestal no Rio de Janeiro,
no Pará e outro no Maranhão. Mangueiras (Mangifera indica), gengibre (Zingiber
officinale), anil (Indigofera tinctoria), bogari (Jasminum Sambac), jaca
(Antocarpus integrifolia), canela de casca fina (Cinnamomum zeylanicum), cravo
das Molucas ou das Ilhas das Especiarias (Syzygium aromaticum), pimenta
africana (Piper nigrum), nós moscada (Myristica aromatica Lam), isso e mais, o
iluminismo tardio lusitano pretendia explorar. Um porém: a fase magna do
comércio das especiarias de alto preço havia passado há décadas11.
O péssimo tratamento ao estrangeiro lá revive a desolada imagem transmitida de
suas colônias penitenciárias com trabalhos forçados para deportados. Resumindo,
a Ilha do Diabo, hoje um centro turístico, guarda duras recordações de passado
singularizado no presente: atualmente, a segregação e a má acolhida aos
brasileiros vizinhos parecem rotina do tratamento dispensado aos que da
periferia migram para a União Européia.
A valsa ideológica da Guiana
A República Cooperativa da Guiana logo no apagar do seu passado colonial com
Londres, em 1966, aproximou-se da União Soviética. Com o esfacelamento dessa
última até hoje, ela deixa-se mimar pela República Popular da China. A presença
de Pequim em Georgetown intriga tanto as antigas potências coloniais quanto os
EUA.
Sede do Caricom, ainda assim a Guiana é esquecida pelo Brasil. Diplomatas
brasileiros aceitam aquele posto geralmente em troca de melhor contagem de
tempo, por rápida promoção e remoção garantida para servir no eixo Elizabeth
Arden. Com raras exceções, quem procede usualmente assim com a Guiana, o mesmo
comportamento adota em relação à quase totalidade da África, aos pobres da Ásia
e aos demais assemelhados com o Brasil.
O conhecimento superficial das relações interétnicas, a tradição de ignorar que
são de veludo as barreiras ou fronteiras dividindo as etnias amazônicas, a
insistência em ignorar que os nativos das florestas e dos lavrados vêem na
terra um bem cultural e jamais um bem de produção, tudo isso dificulta a
presença de qualidade dos agentes do Estado na sociedade amazônica.
O poder da cultura na Guiana e no Suriname divide-se em mãos de descendentes de
escravos negros, de muçulmanos convictos, de hindus e raramente nas dos
indígenas ou dos poucos descendentes de espanhóis que há séculos lá pisaram.
Apesar de ser um instigante exercício para estudiosos da sociedade da Amazônia
Setentrional, essa matéria da sociologia comparada sobre essas sociedades
permanece ainda como um projeto a ser iniciado.
Dados obtidos em março de 2007 davam conta de que cerca de 10% dos presidiários
em Boa Vista tinham a nacionalidade guianense. Abuso de drogas, roubo de
veículos e outros delitos típicos dos peixes pequenos respondiam pela maioria
das condenações.
Do total de 850 mil almas guianenses, 12 mil delas, com registro duplo, vivem
em Roraima, estado com cerca de 325 mil habitantes, dos quais 250 mil
concentram-se em Boa Vista. Simpatizantes radicais do pragmatismo
circunstancial, assumem a nacionalidade brasileira ou guianense segundo suas
necessidades.
Mais numerosos que os guianenses em Boa Vista ' ainda que contagens ocasionais
digam o contrário ' os brasileiros na Guiana garimpam o ouro, diamantes e
serram árvores. Como mulas, transportam drogas e produtos químicos controlados
em espaços sociais transfronteiriços. A maré de ilícitos das máfias madeireiras
nesta parte setentrional blinda toda uma macroestrutura a facilitar o
contrabando de produtos de alto valor. Corrompe e impede investigações levando
ao senhorio dessa bem organizada rede de contravenção.
No território guianense, quase quarenta vezes menor que o brasileiro, os mais
destacados centros urbanos localizam-se no litoral. Georgetown, Linden e New
Amsterdam estão de costas para essa terra, assim como o Brasil dá a sua para
eles. Isso apesar da fortíssima identidade comum legada pela progênie africana
a ambas as partes.
Sua população nem três vezes maior que a de Roraima e os 1.472 quilômetros de
fronteira sinalizam existir entre Guiana e Brasil uma identidade caribenha
reveladora de amazoneidades' próprias a ambos. Ainda assim, da única ponte a
uni-los fisicamente, apesar de várias vezes paga, apenas suas colunas
inacabadas avistavam-se sobre as águas do rio Tacutu.
Com ou sem ela, quinquilharias, computadores e até material cirúrgico
contrabandeados do Império do Centro aí transitam. Por esse caminho antigamente
entravam o arroz e o açúcar guianense. Esse último vendia-se a menos da metade
do preço daquele transportado do longínquo Nordeste para Boa Vista.
A febre garimpeira assolou o Brasil nos anos 1980. Agora voltou e agride os
países vizinhos. A experiência nacional com os garimpos de ouro e diamante
desempenha papel protagonista, seja na descoberta de novos veios, seja em suas
técnicas de exploração. No rio Cuyuni, afluente do Essequibo, dragas parecidas
às que tanto poluíram o rio Madeira em passado recente lá provocam os mesmos
problemas ambientais.
A população de Georgetown, capital abaixo do nível do mar, protege-se por
velhos diques construídos pelos ingleses. Por causa da má construção e
raramente restaurados, a capital sofreu há poucos anos terríveis inundações com
perdas humanas. Pelo fato de ser Georgetown, e não New Orleans, o espaço dado
pela mídia a essa tragédia jamais correspondeu à gravidade do fenômeno.
A velocidade das águas dos rios na desembocadura para o mar depende de
correntezas que, por sua vez, dependem de canais naturais e da profundidade das
águas. O assoreamento provocado por garimpos destruidores de barrancos na cata
do ouro certamente apressa enchentes e catástrofes.
Pelo fato de expressivo número dos garimpeiros ser brasileiro, o crime de
retirar ouro e diamante certamente custará demais ao Brasil. Isto, apesar da
maior parte dessa riqueza cair nas mãos das forças policiais e dos políticos
guianenses, para depois acabar nas mãos das máfias euro-asiáticas. No bolso do
garimpeiro ripário, quer dizer, daquele que freqüenta os bancos de um rio, fica
praticamente nada dessa riqueza.
O esquecido país sede do Caricom
Porta voz dos caribenhos no grupo do Rio, prometendo entrar nessa agremiação
como membro pleno e não só como representante dos países do Caribe, a Guiana dá
ao Brasil a mesma importância que a diplomacia do Rio Branco reserva para ela,
ou seja, nenhuma. Ao contrário das representações diplomáticas brasileiras na
Europa e nos Estados Unidos da América apinhadas de funcionários, Georgetown
tem como embaixador um ministro de segunda classe e um diplomata para auxiliá-
lo.
Sede da Comunidade do Caribe, entre seus quinze membros, onze são anglófonos
insulares, um francófono ' o Haiti ' e três continentais, Suriname, Belize e a
própria Guiana. Também associada ao Aosis (Associação dos Pequenos Estados
Insulares), esse vizinho demasiadamente vulnerável às mudanças climáticas
particularmente sofre com o aquecimento global responsável pelo aumento do
nível do mar. Ou seja, a paz com a vizinhança por parte do Brasil depende
particularmente dos cuidados ambientais que o país deverá ter para consigo
mesmo. O melhor cartão de visitas que o Brasil pode ter é o respeito para com
seu próprio povo e o poder de vigiar e punir as elites que legislam em causa
própria, outorgando a si e a sua prole salários entre os mais abusivos do
mundo.
Surinamenses e guianenses, vizinhos ausentes na diplomacia, na academia, na
mídia e ignorados pelos empresários, com a crise econômica brasileira através
das portas da economia informal, estão bem mais presentes do que antes no
cotidiano lindeiro.
A diáspora agora sentida pelo brasileiro dentro da própria casa atormenta
intensivamente os guianenses há décadas. Acredita-se que outro tanto de
população equivalente a de Georgetown viva no Reino Unido, nos Estados Unidos
da América e no Canadá sem laços ou saudades da pátria mãe. Ao contrário do
Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador e Peru, cujos imigrantes remetem dinheiro
para a família, diz-se que o guianense é relativamente avarento. Quando sai do
país, volta jamais.
Triturada pela empresa de capital moscovita nominada Rusal, depois de seca, a
bauxita de excelente qualidade segue em graneleiros para a Europa em
quantidades muitíssimo superiores às declaradas. A Guiana, miniatura do Brasil,
abriga poderosos e discretíssimos grupos chineses, sempre trabalhando em
silêncio. A China passa assim a tomar espaços antes ocupados pelo Reino Unido
ou pelos Estados Unidos da América.
A Guyana Sugar Coorporation passou de mãos canadenses para chinesas. Essas já
transformaram projetos em realidade, tais como a instalação de usina de etanol
e, bem próximo dali, de uma termoelétrica incrivelmente parecida em tecnologia
com as usinas do lado de cá, alimentada com bagaço da cana. O que o Brasil
intenciona fazer com o apoio de Washington, os guianenses já adiantaram
trabalhando com Pequim, sempre presente na ajuda técnica.
As exportações de madeira contrabandeada e subfaturada paulatinamente
empobrecem áreas florestais guianenses que, a continuar o ritmo da devastação
em futuro próximo, unir-se-ão às áreas devastadas do lado brasileiro.
A luta por territórios
No pertinente à inconformidade da Venezuela com a decisão de um tribunal
arbitral internacional montado em Paris, isso ocorreu porque acertos políticos
entre a Rússia e a Inglaterra viciaram o tal laudo arbitral de 1899, que foi
manipulado por um prussiano de origem russa. Desde então a reclamação
venezuelana por terras na Guiana, como um vulcão, hora lança cinzas, hora se
acalma.
Menos de década depois dos problemas com o laudo, em 1908 o General Juan
Vicente Gomes tentou em vão alguma saída. Quarenta anos depois, finda a Segunda
Guerra Mundial, o romancista e Presidente Rómulo Gallegos na Conferência dos
Estados Americanos em Bogotá externou sua total inconformidade com o laudo
arbitral.
O Presidente Perez Jimenez usou da Organização dos Estados Americanos e das
Nações Unidas batendo sempre na tecla da desaprovação de tal laudo. Tal
insistência incomodava cada vez menos os ingleses, cientes de que suas
colônias, como no jogo de dominó, uma a uma iam proclamando suas
independências. Após a deposição de Jimenez por golpe militar em 1958, a
posição de flexibilidade dos ingleses mudou; talvez por causa de suas derrotas
diplomáticas para com o Egito relacionadas ao Canal de Suez.
A aceitação de Londres das reivindicações de Caracas certamente repercutiria na
quase dúzia de ilhas anglófonas no Caribe, fato suficiente para Londres
endurecer até diante dos delicados recados emitidos por Washington a favor da
Venezuela. Naquele tempo, ainda no nascedouro, a revolução cubana deixou os EUA
em maus lençóis.
Washington exigia dos aliados ação para barrar a influência de Fidel Castro.
Rómulo Betancourt se prestou a isso. Servindo aos interesses estadunidenses
contra Havana, levantou a questão da disputa com Georgetown. Recebeu um
explícito apoio de Washington. Pressionada, Londres finalmente concordou criar
comissão de especialistas para rever os documentos e iniciar negociações12.
Efetivamente, em fevereiro de 1966, Caracas e Londres assinaram em Genebra
memorando buscando mecanismos para resolver o problema territorial. Acontece
que, semanas depois, no dia 25 de maio de 1966, a República Cooperativista da
Guiana declarou sua independência. Os venezuelanos continuaram a ver navios,
sem definição nenhuma para solução dessa gigantesca disputa por território,
parte dele provavelmente abarrotada de petróleo.
Manifestando boa vontade para com as elites no poder da nova e vizinha
república, a Venezuela numa amabilidade ímpar apressou-se em reconhecê-la
propondo sua entrada na Organização das Nações Unidas.
A nova liderança em Georgetown apoiada por Cuba e URSS esnobou inflexibilidade.
Concordaram sim em reunir comissão tratando do assunto, contudo espertamente
nem sequer decidiram sobre a agenda. Em 1970, quem diria, venezuelanos apoiados
pelos EUA e os guianenses orientados por Cuba, no Protocolo de Port of Spain '
num adendo sobre o Acordo de Genebra firmado em 1966 entre a Venezuela e a Grã-
Bretanha ' congelaram a disputa por 12 anos.
Mal percebendo a astúcia da estratégia dos guianenses, soprada por Havana de
empurrar com a barriga o máximo possível a disputa, Rafael Caldera buscou o
caminho do diálogo. Tentou fortalecer laços bilaterais com a Guiana até então
frouxos como os que mantinha com os brasileiros. Nesse espírito, Georgetown viu
com alegria o Protocolo de Port of Spain ser ratificado pelo Congresso em
Caracas.
A inversão das alianças, ou seja, o distanciamento de Caracas com Washington e
posterior aproximação com Havana, assim como o esfriamento de Georgetown com
Cuba e rápido aquecimento bilateral com os Estados Unidos da América, deixou
tudo exatamente na mesma. Chávez certamente quer evitar equívocos de seus
antecessores. Encarando com realismo responsável a diplomacia de Georgetown,
longe de subestimar o poder étnico guianense com dúzia de votos no caribe
anglófono, Chávez sabe ser suicídio político fazer da Guiana o que Saddam
Hussein fez do Kuwait.
Carlos Andrés Perez, o primeiro presidente venezuelano a viajar à Guiana,
apresentou-se com um cesto de propostas orgulhosamente desprezadas por
Georgetown. Perez chegou a proclamar que abandonaria desideratos históricos,
abriria mão do leste de Essequibo em troca de uma faixa ao longo da costa,
no território setentrional acima do rio Cuyuni. Prometeu em troca construir
uma hidrelétrica no alto Mazaruni, afluente do Essequibo. Nenhuma oferta foi
aceita pela Guiana.
Sem perder a paciência com esse coelho da cartola do Tio Sam, Caracas agora
acompanha com olhos de condor a programada diplomacia de Georgetown.
O assunto atualmente permanece na pachorrenta mesa de acordos da ONU. Até os
mediadores que aproximariam os dois países morreram pela idade. O último deles,
um jurista de Barbados, faleceu no início de 2007.
Disputas por fronteiras entre a Guiana e o Suriname
Enquanto isso, espalhados nas escolas e nos ministérios, em todos os mapas
venezuelanos, lê-se grande parte da Guiana anexada à Venezuela com a seguinte
frase: Zona en reclamación. A maioria dos governos americanos no "esprit de
corp" da latinidade concorda com as aspirações de Caracas.
Sabendo de antemão a posição histórica do Brasil diante das terras controladas
pelo imperialismo inglês e dos problemas com a opinião pública interna por
parte de qualquer país irmão que ousasse se manifestar contra essa postura,
Chávez se opõe a eventual projeto do Brasil na Guiana. Antes de tudo, porque
eles sinceramente inexistem. Os engavetados são de tão pequena envergadura que
nem sequer atraem polêmicas. Por exemplo, melhorar estradas de terra, drenar,
acascalhar, refazer pontes de madeira em petição de miséria, nada disso
incomoda ninguém, nem mesmo as comunidades indígenas porventura ali existentes.
A Guiana anda prensada por dois vizinhos. O primeiro é a Venezuela,
militarmente bem equipada, relativamente forte, com boa capacidade de
mobilização. Culturalmente afastada dos guianenses de origem indiana e
africana, a inexistência de política cultural de aproximação é o pecado mortal
de Caracas. A arrogância histórica das tradicionais elites venezuelanas abriu
espaço para a presença de Dionísio nos sonhos nacionalistas.
O segundo poder a pressionar Georgetown está concentrado em Paramaribo. O
Suriname, por causa dos seus conflitos políticos e étnicos, anda tão aperreado
quanto a Guiana, que sempre foi o seu retrato falado. Com esse último,
disputam-se terras nas cercanias do rio Corentyne e áreas próximas a Neiuw
Nickerie. Existe igualmente litígio por áreas marítimas a serem julgadas em
Washington pelo Tribunal Internacional do Direito do Mar. A marinha surinamense
já expulsou canadenses trabalhando para o governo guianense nessas águas.
Para desnortear Georgetown, um apaixonado namoro de Caracas com Paramaribo anda
em curso com farta venda de óleo cru a preços realmente convidativos e outros
mimos da Petrocaribe. Sob esse aspecto, Caracas generosamente auxilia as nações
caribenhas, velhas viúvas do bipolarismo mundial. Em troca, elas respaldam
politicamente o bolivarianismo. Antígua e Barbuda, São Vicente, Granadinas e
Dominica, comungando com o antineoliberalismo, aplaudem a marcha da expansão da
Alternativa Bolivariana para as Américas em contexto de um ciúme cada vez menos
velado por parte de Brasília.
Diante desses fantasmas externos a assombrar a Guiana, os dois partidos
políticos no poder, engalfinhados em disputas étnicas, agora se entendem
melhor. Em resumo, polícia e exército concentraram-se em mãos da progênie
africana e o poder da economia e dos tribunais superiores em mãos indianas13. O
PPP, Peoples Progress Party, fundado por Cheddi-Jagan, era de inspiração
marxista.
O PNC, People National Congress, de etnia africana, liderado por Lindon Forbes
Burnhan, famoso por sobreviver cerca de duas décadas na presidência por meio de
fraudes e corrupção, manteve-se no poder apoiado pelos EUA14. Desde então, o
PPP, sustentado pelos indianos, controla o poder. Recrutaram afro-descendentes
e os distribuíram em atrativos postos para aliviar tensões, preferencialmente
os diplomáticos, repletos de mordomias e vazios de poder.
A falta de recursos humanos e o desconforto vernacular nos espaços sociais
lindeiros do Brasil com a Guiana e o Suriname deixaram que paradoxos erguessem
ali algo piorado da torre de Babel. Realmente, ao contrário do ensinamento
bíblico, mesmo falando línguas distintas, lá crescem as estruturas do
contrabando tribalizado. Para agravar a situação, notável número de jovens
brasileiras entrega-se às redes de prostituição nesses países em busca do pão
cotidiano. Quem tenta ganhar a vida em Georgetown, perde-a rapidamente
contagiada pela Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. Dentre as prostitutas,
aquelas que regressam ao lar, vão para casa para morrer. Isso caso encontrem
algum garimpeiro sortudo e de alma generosa disposto a pagar a passagem da
volta sem volta.
Difícil e factível, esse acordo de boas intenções promoveu a valsa dos
diamantes no mundo. Ninguém diz exatamente sua procedência propositalmente
mascarada. Poucas centenas de quilômetros separam Georgetown da fazenda, ex-
propriedade do Reverendo Din Jones, responsável pelo envenenamento de centenas
de seus seguidores. Naquele lugar de triste memória, trabalham brasileiros na
busca do ouro para empresários chineses e canadenses. Todavia, não é só do
garimpo que vivem os miseráveis brasileiros lá esquecidos por Deus.
O despertar pela bioenergia lentamente acontece na Guiana e no Suriname, fato
que talvez algum dia ressoe entre o pequeno e tímido empresariado roraimense e
amazônico. Georgetown e Paramaribo sabem que da tradição açucareira para a do
etanol o salto é deveras pequeno.
Somando os empregos indiretos e diretos oferecidos pela indústria açucareira,
esse setor emprega quase um quinto da população guianense. Os dólares obtidos
com a exportação açucareira, inclusive do seu genuíno açúcar demerara, chegaram
nos últimos dois anos à casa dos US$ 250 milhões.
A ausência brasileira
O baixo custo da mão-de-obra, clima apropriado a culturas tropicais,
luminosidade, água, abundância de terras férteis e de matérias primas e o fato
de estar no hemisfério norte, relativamente perto dos grandes mercados
consumidores, nada dessas vantagens comungadas por outros tantos países pobres
ajuda a Guiana ou o Suriname. E, a bem da verdade, nenhum dos países
amazônicos.
Produtos made in Brazil, há anos gradativamente substituídos nas gôndolas dos
supermercados dentro do próprio Brasil por aqueles made in China, tampouco
existem nas prateleiras do comércio vicinal nessa parte do Caribe. Para pensar
que nem tudo está perdido, nas relações bilaterais Brasil-Guiana, o coco salva
as aparências. Caminhões cheios deles destinados ao mercado consumidor
brasileiro sempre atolam e caem nos buracos da única estrada a unir esses dois
vizinhos. De terra, a BR-401, nas proximidades do rio Takutu, a espera há anos
de uma ponte, é o retrato falado do descaso na integração regional.
O gigantesco delta do rio Essequibo raramente visitado por alguma embarcação de
bandeira brasileira seria excelente canal para transportar a baixo custo
mercadorias em variadas direções. Todavia, a falta de vontade política, que
castra iniciativas, obriga os produtores a restringir o comércio amazônico
nacional para dentro das fronteiras brasileiras.
Grande paradoxo da Guiana, fenômeno de difícil compreensão sociológica, diz
respeito ao legado inglês presente em seu sistema educacional beirando níveis
de excelência. Comparada aos demais países amazônicos, a educação guianense,
por ser de especiosa qualidade, vitaminou a diáspora. Repetindo o escrito
anteriormente, guianenses que saíram nos anos 1980 jamais voltaram. Nem sequer
ajudam financeiramente os que ficam15.
Com aproximadamente 80% do território desabitado, a cada dia arquiva-se o
projeto da Guiana transformar-se juntamente com o vizinho Suriname no
sustentáculo agrícola das nações insulares do Caribe, vítimas em escala
crescente do aquecimento global.
Caracterizadamente multirraciais e multirreligiosos, demora demais a hora para
que os africanos, indianos, chineses, europeus, ameríndios e brasileiros melhor
se entendam dentro das fronteiras guianenses e surinamenses. A visão
inconsistente dos problemas internos das elites de olhos no enriquecimento
fácil, ao invés de transformá-los em nações com prósperos e apropriados
negócios, os levou à estagnação econômica quase tão longeva quanto a
brasileira16.
O porto de águas profundas e a zona de exportação da ilha de Hogg na foz do rio
Essequibo ' ainda que dentre os melhores do subcontinente ' perderam a
importância estratégica como centro de transferência de carga para o Brasil,
Suriname e Venezuela. Isso porque o Suriname e o Brasil transformaram-se em
verdadeira porta de entrada do contrabando.
Visto que todos no subcontinente pretendem ao mesmo tempo transformar-se em
Meca da exportação, complicam-se regionalmente as disputas por parcerias
estratégicas. No traiçoeiro contexto de interdependências assimétricas, os
amazônicos se fazem mais telespectadores do que atores do processo da sua
inserção nas relações internacionais.
Até hoje sem resposta por parte do já mencionado Tribunal Internacional dos
Direitos do Mar, o litígio marítimo entre o Suriname e a Guiana, seja seu
resultado favorável ou desfavorável a Georgetown, descortina negativos cenários
para a cooperação amazônica. A Guiana, ao defender seus interesses, insiste em
entender tais terras como suas e jamais venezuelanas ou surinamenses.
Isolada pelos vizinhos a leste e oeste, tampouco o Brasil, no sul, brinda a
Guiana com a atenção que a boa vizinhança exige. Pelo andar da carruagem do
Itamaraty, falta demais para considerar a Guiana como excelente portal da
Comunidade do Caribe (Caricom).
Do outro lado do mundo, surgiu mais ativa e competente a diplomacia de Pequim,
há anos ocupando o vácuo da burocracia do saber das elites brasileiras.
Prestando assistência técnica de qualidade, daquela que os especialistas põem
mãos à obra deixando de dedicar-se apenas a relatórios, os chineses conseguem
resultados nem sequer sonhados pela Agência Brasileira de Cooperação do
Ministério das Relações Exteriores, pródiga em telegramas e em relatórios e em
falta de ação.
No modismo da bioenergia, cada um planta o que quer, quando, onde e como quer.
A cooperação multilateral com regras mínimas para monitorar essa ou aquela
prioridade entre os oito amazônicos praticamente inexiste. Nessas horas, sente-
se muitíssima falta de uma Organização do Tratado de Cooperação Amazônica
atuante e dinâmica. Resumindo, na periferia a memória é curta.
Olvidam-se rapidamente desastres econômicos de superprodução oriundos de
monoculturas para a exportação. O café mais o açúcar pariram catástrofes e
arruinaram produtores repetidas vezes. Ainda assim os países produtores
esqueceram a lição. Governo algum da Amazônia luta por produção integrada e por
política de exportação que deixe de lucrar com as desgraças do outro.
Pequim e Washington na Amazônia Caribenha
Além dos graves problemas de demarcação de fronteiras, a ex-colônia inglesa, a
Guiana, tem porque se preocupar por ser o país amazônico com a mais alta
incidência de portadores de Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Sida/Aids).
Os EUA, em seus programas de cooperação, colocam esse país, juntamente com o
Haiti, nas prioridades da Usaid.
Mesmo com a alta qualidade técnica dessa Agência, que costuma funcionar no
mesmo espaço físico das embaixadas dos EUA, ela perde em dinamismo para a
representação diplomática da China em Georgetown.
Na política, toda caridade tem seu valor de troca. O governo norte-americano
guarda segredo sobre a quantas anda o polêmico projeto de uma base espacial que
tanto irritou Caracas. Tal iniciativa havia sido originalmente programada para
ser construída no Essequibo pela Beal Aerospace Technologies, que cessou seus
negócios em outubro de 2000.
A entrada dos chineses na Amazônia através do corredor setentrional formado
pela Guiana e pelo Suriname revela o interesse da República Popular da China
pelas reservas de petróleo, gás, biodiversidade, madeira e pela abertura de
caminhos para desova de seus produtos no Caribe e no extremo norte da América
do Sul. A escassez na China de matérias-primas dita o rumo da sagaz presença do
dragão na Amazônia.
Pela estrada da ilegalidade, igualmente conhecida pela fama do trânsito dos
produtos chineses inundando o Brasil setentrional, a BR-401, Boa Vista-Bonfim,
conecta o contrabando rodoviário ao fluvial. Isso se vê em águas guianenses, no
rio Maú Miang, por exemplo. Pela República da Guiana transitam produtos
chineses e recentemente até indianos, como jóias e tecidos destinados ao
consumidor desinteressado em saber se o que compra é contrabandeado ou não, se
desemprega ou não.
Fronteiras com vigilância de baixa qualidade e a notável corrupção interna a
receber de braços abertos as ofertas do crime tribalizado fazem o Brasil
parecer terra de ninguém.
Nota-se que Washington incrementa sua parceria com Georgetown contrapondo-se
com auxílio humanitário e econômico àquela que Chavéz oferece a alguns outros
amazônicos. Tendo no bolso um pacote de ajuda à educação, merenda escolar e
moradia bem menos generoso que os US$ 16 bilhões investidos em projetos sociais
garantidos pela política bolivarianista de cooperação na vizinhança, Washington
tardiamente amplia suas prioridades para uma maior presença na sociedade
amazônica.
Principalmente por causa das disputas territoriais com a Venezuela, sobra troca
de informações entre os serviços especializados das Forças Armadas e dos
serviços de inteligência da Guiana com os EUA. Quanto aos demais amazônicos,
eles calam-se diante desse conflito.
Inexistindo um projeto integrado de defesa, a Guiana depende da cooperação
bilateral com os EUA. A falta de vontade política de Georgetown na aproximação
com os latino-amazônicos e vice-versa traduz recíproca ignorância. Vem daí a
dificuldade da reversão do quadro de apatia pela integração amazônica. Arranjos
bilaterais aplicados a fenômenos multilaterais prejudicam tentativas de reforço
à segurança de feição transnacional entre Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador,
Guiana, Peru, Suriname e Venezuela.
Esquecidas das lições da história, as delongas diplomáticas dependentes das
fragilidades internas postergam o fortalecimento da segurança coletiva. Deixam
até mesmo atividades agropecuárias ao alcance de sabotagens e do bioterrorismo.
A prevenção para conter futuras pragas nos canaviais com chances de estender às
outras lavouras é uma necessidade.
Falta, outrossim, descobrir as causas dos surtos da febre aftosa que em passado
recente atingiram rebanhos comprovadamente vacinados. Diante do leque das
debilidades da defesa na Amazônia ' também da defesa fitossanitária ' os
perigos nem sempre se percebem a tempo, notadamente os existentes na Guiana e
no Suriname.
Prevenção pede integração com minimização das divergências e maximização das
convergências. Envolve proposições conjuntas e desprendimento em prol do
trabalho cooperativo circundado por variáveis particularmente dinâmicas.
Segurança, monitoramento de fronteiras e defesa merecem pauta na agenda
diplomática dos oito. O déficit de informações sobre a Guiana e demais países
amazônicos entre si mesmos permanecerá insolúvel se persistir a crença de que
ele sanar-se-á com a criação de novas burocracias e de novos ministérios.
Dispendiosas reuniões próprias de políticas externas da exibição retórica
coadjuvadas por interesses diplomáticos paroquiais tampouco ajudaram. Tudo isso
estabiliza o cenário de descrença no Estado. Abandona a sociedade em patamar
exposto às ruindades da informação de baixa qualidade.
Se acordos de cooperação mútua para a proteção das nascentes e para o combate
ao desmatamento ficam só no papel, vai de vento em popa a economia informal que
leva à biopirataria, à lavagem de dinheiro, ao tráfico ilícito de drogas, de
mercúrio, de armas e ao contrabando de madeiras na Guiana. Se a cooperação
vicinal contra o crime organizado inexiste, favor culpar o péssimo uso que o
serviço público dos países amazônicos faz das verbas disponíveis e não
necessariamente a permanente crise étnica pipocando em Georgetown e Paramaribo.
Conclusão
A tradição do compadrio diplomático de raízes ibéricas historicamente
marginalizou a Guiana e o Suriname. Também o apego aos bailes da corte e às
benesses outorgadas pela proximidade com o poder deixam espaços lindeiros
amazônicos no abandono. A capital, Brasília, apresenta maior número de
delegados da Polícia Federal, de funcionários do Ibama e de generais que aquele
presente em toda a Amazônia, que, reitere-se, ocupa 60% do território nacional.
Acordos bilaterais isolados do contexto regional freqüentemente postergam o
processo das estratégias macroeconômicas amazônicas. Abrem-se para políticas
imediatistas, raramente compromissadas com a necessária cultura por uma
duradoura cooperação vicinal.
Mais do que as controvérsias comerciais, o desinteresse por um mercado comum
entre os amazônicos os leva a abandonar esforços por uma cultura de trabalho
grupal cuja ausência arruína suas economias. Tão grave quanto o contrabando '
seja de armas, do couro, de produtos eletrônicos, de químicos controlados, de
madeiras nobres, de pedras preciosas ou dos biodiversos através de portas que
se abrem pelo lado de fora da casa amazônica ' é a vinculação do crime
organizado existente na Hiléia com as máfias trabalhando no Panamá, Haiti,
México, Taipé, Miami, Hong-Kong e Nova Déli.
1 EGGER, Jerome. Suriname por seus autores. Diplomacia, Estratégia, Política,
nº 5, janeiro-março de 2007, p. 128-143.
2 A propósito, ESTERMANN, Josef. Andine Philosophie. Eine interkulturelle
Studie zur autochtonen andinen Weisheit. Frankfurt/M, 1999.
3 Ver LIER, R. A. J. Van. Sociedade de fronteira: uma análise social e
histórica do Suriname. Fundação Alexandre de Gusmão. Brasília, 2005.
4 Ver PROCÓPIO, Argemiro. "Tratado de Cooperação Amazônica e suas implicações
ecológicas. In: Ibero-Amerikanisches Archiv, Berlim, 1991.
5 Ver RUFIN, J.C. L'Empire et les nouveaux barbares. Paris: Lattès, 1991.
6 Ver RUGGIE, J. "Territoriality and Beyond: Problematizing in International
Relations". International Organization, n.º 47, 1993, pp. 139-74.
7 Ver BADIE, Bertrand. O fim dos territórios. Lisboa: Instituto Piaget, 1995.
8 Ver HUNTINGTON, Samuel. O choque nas civilizações. Rio de Janeiro: Objetiva,
1997.
9 Ver DEW, Edward. The Difficult Flowering of Suriname. Ethnicity and Politics
in a Plural Society. Haia, Países Baixos. Nijhoff, 1978.
10 FERREIRA REIS, Arthur César. A Amazônia e a cobiça internacional. 2ª ed. Rio
de Janeiro: Edinova, 1965, pp. 118-119.
11 Ver TORRES, Milton. O Maranhão e o Piauí no espaço colonial: Faria e Silva.
São Luís, Instituto Geia, 2006, p. 185.
12 Ver GARAVINI, di Turno A. Politica exterior de Guyana. Instituto de Altos
Estudios de America Latina. Universidad Simon Bolivar. Caracas, 1988.
13 Ver ROMERO, Rita Giacalone de (org.). Guyana hoy. Carácas. Corpoandes/
Editorial, 1982.
14 Ver RIVIERE, Peter.O indivíduo e a sociedade na Guiana. São Paulo, Edusp,
1999.
15 Ver RIVIÈRE, Peter. RIVIÈÈRE, O indivíduo e a sociedade na Guiana. São
Paulo. Edusp, 1999.
16 Ver ROMERO, Rita Giacalone de.Estudio historico de la Guyana Britanica del
descubrimiento e la formacion del movimento independentista. Mérida, Venezuela.
Librería Universitaria Fundacipol, 1982.