O contencioso do algodão: cenários para mudança na política de subsídios dos
EUA
Introdução
O sistema multilateral de comércio vive tempos de apreensão e expectativas
quanto ao futuro dos subsídios agrícolas concedidos por países ricos aos seus
produtores e exportadores. Os EUA estão no centro desse debate pelo seu papel
na sociedade internacional e particularmente por causa do contencioso do
algodão, travado com o Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC)1.
O Órgão de Apelação (OAp) da OMC, confirmando resultados do Órgão de Solução de
Controvérsias (OSC), emitiu parecer favorável ao Brasil. Afirmou que políticas
americanas relacionadas ao algodão influenciaram a baixa dos preços mundiais e
que os EUA deveriam reformar seu programa de créditos à exportação;
reclassificar certos subsídios de acordo com as regras da OMC; e eliminar o
programa Step 22, considerado subsídio à exportação (NCC, 2005).
São objetivos dos EUA na Rodada Doha eliminar subsídios à exportação e à
produção que distorcem o comércio agrícola (USTR, 2005). Mas esse país,
principal ator do regime comercial, não é capaz de criar uma agenda para
atingi-los. Essa incapacidade, que prejudica a negociação em outros temas, pode
ocorrer por diversos motivos. Um deles é a debilidade em liderar, que é
agravada pela não adequação ao parecer da OMC no contencioso do algodão, isto
é, pela não eliminação do Step 2 no prazo estipulado.
Este artigo tem dois objetivos. O primeiro é examinar por que os EUA não se
adequaram ao parecer da OMC no prazo estipulado. A baixa relevância do algodão
para o conjunto da economia americana reforça nossa indagação e permite lançar
uma hipótese: a força política dos grupos de interesse e políticos ligados ao
algodão é forte suficiente para constranger a adequação americana ao parecer da
OMC. O segundo objetivo é elaborar cenários, a partir desse estudo de caso,
para refletir sobre possibilidades de mudança na política de subsídios dos EUA.
Política doméstica e relações internacionais
Para interpretar fatores e atores domésticos americanos relevantes no
contencioso do algodão, recorremos à literatura teórica das Relações
Internacionais que trata das relações entre os âmbitos doméstico e
internacional. Parte-se do pressuposto que questões internacionais têm impactos
no âmbito interno, o que leva à politização doméstica de assuntos antes
atribuídos à política internacional (Soares de Lima, 2000). A politização
doméstica, por sua vez, pode criar estímulos e constrangimentos à ação do
Estado quando a distribuição doméstica do poder for fragmentada. Quando isso
ocorre, premissas clássicas sobre o Estado unitário e racional perdem poder
explicativo, levando à necessidade de um referencial teórico cuja base esteja
na visão desagregada do Estado. Nesse sentido, três variáveis domésticas são
importantes para a compreensão de uma ação de política externa: as preferências
dos atores relevantes; a distribuição de informação; e as instituições que
regulam essas relações (Milner, 1997).
Um referencial teórico desses ajusta-se a esse estudo de caso. Por quê os EUA
não se adequaram ao parecer da OMC, sendo que o algodão é parte ínfima de sua
economia e a não adequação prejudica a liderança em negociações de temas
economicamente mais relevantes, como compras governamentais e serviços? Um
Estado unitário e racional assumiria o pequeno custo econômico da adequação
agrícola para obter ganhos maiores em outros setores. Porém, os EUA não se
adequaram ao parecer da OMC. Para interpretar esse comportamento, deve-se olhar
para o âmbito doméstico, rompendo a visão do Estado unitário.
A possibilidade de politização e de mobilização de atores domésticos depende da
questão internacional. Seguramente o comércio é um dos temas produz mobilização
e politização, pois exportações e importações são componentes cada vez mais
importantes da renda nacional. Tanto na perspectiva dos produtores, quanto na
perspectiva macroeconômica, do balanço de pagamentos, o comércio internacional
ganha espaço no debate doméstico (Keohane e Milner, 1996). E, diante da
possibilidade de custos e benefícios que poderão ser gerados no exterior,
grupos de interesses domésticos, atores do Legislativo e do Executivo tendem a
se mobilizar e formar coalizões para fazerem valer suas preferências nas
políticas do Estado.
Para Milner (1997) e Soares de Lima (2000), a politização doméstica de questões
internacionais tende a ocorrer de maneira mais agressiva em Estados em que o
poder é fragmentado, e cujo desenho institucional favoreça a influência da
sociedade civil no processo político. Nesses casos, grupos de interesse
pressionam o Legislativo e o Executivo para que sejam adotadas políticas de
acordo com suas preferências, que sejam capazes de otimizar seus objetivos.
Como é desejo dos políticos alcançar ou manter o poder, devem estar atentos às
demandas da sociedade e dos grupos que os apóiam, procurando atendê-las para
garantir e angariar suporte na sociedade.
Segundo Frieden e Rogowski (1996), não defender o interesse desses grupos ou
adotar medidas que os enfraqueçam economicamente significaria enfraquecer a si
mesmos. Um exemplo seria adotar uma medida que elevasse o preço internacional
de um produto, prejudicando sua venda - exemplo semelhante à eliminação do Step
2. Deve-se reconhecer, porém, que nem toda decisão do Legislativo e do
Executivo reflete as preferências desses grupos. Há questões em que a vontade
da população em geral ou o interesse de Estado prevalecem, e casos em que a
pressão estrangeira motiva decisões (Vigevani, 1995). Nos EUA, compreender as
relações entre as preferências de atores do Executivo, do Legislativo e de
grupos de interesse é fundamental para se entender a política comercial
praticada (Vigevani, Oliveira, Lima e Mendonça, 2005).
Milner (1997) chama a interação entre o Legislativo, o Executivo e grupos de
interesse de estrutura de preferências doméstica. Tal estrutura é representada
por uma linha unidimensional com dois pólos, um contrário e outro favorável à
mudança. A interação das preferências desses três grupos de atores cria uma
relação de forças, representada por uma agulha, que se localiza entre os pólos,
como mostra a figura abaixo. As instituições que intermediam a relação entre os
atores, podem funcionar como variáveis intervenientes entre a relação de forças
e a política praticada pelo Estado, como mostra a linha pontilhada.
Para Milner (1997), aprimorando idéias de Putnam (1988), é a estrutura de
preferências doméstica que determina as possibilidades de modificação interna
em função de questões internacionais. Por exemplo, caso a negociação de um
acordo comercial não conte com preferência doméstica majoritária a seu favor, o
acordo pode ser refutado pelo congresso ou vetado pelo presidente, e grupos de
interesse podem influenciar essas decisões.
A informação tem papel importante na composição das preferências. A informação
disponível para os atores domésticos sobre custos e benefícios que poderão ser
gerados a partir do exterior, e sobre o andamento de uma negociação por meio da
qual o governo lida com o tema internacional, influencia a estrutura de
preferências doméstica e pode criar vantagens políticas. Pode influenciar
também o nível de accountability dos políticos, o voto e o apoio do eleitor
médio e de grupos de interesse. Grosso modo, podemos admitir que se eleitores
votam em um candidato que promove políticas que os prejudicam é porque possuem
"informações incompletas sobre o comportamento do seu líder" ou, por exemplo,
porque "não sabem exatamente qual política comercial seus líderes escolheram
num determinado momento" (Mansfield, Milner e Rosendorff, 2002:504).
Entender a composição de forças doméstica é fundamental para a análise. Certos
atores podem agir como veto players, isto é, impedir a modificação doméstica a
partir de questões internacionais. Por exemplo, o presidente do comitê de
agricultura da Câmara pode obstruir um projeto de lei ou o ministro da
Economia, responsável pela inflação, não autorizar aumento de tarifas.
Instituições podem ter função determinante nas interações entre grupos de
interesse, eleitores e políticos. A literatura identifica dois processos
principais nos quais as instituições afetam as preferências que predominarão em
um Estado. São os processos eleitoral e decisório, que funcionam como variáveis
intervenientes entre as preferências de atores domésticos relevantes e a
posição oficial do Estado de duas formas principais: "determinam quais atores
têm maior influência no processo político" (Milner, 1997:127); e indicam em
quantos pontos uma determinada preferência pode ser vetada, afetando a
manutenção ou modificação de uma política (Mansfield e Henisz, 2004).
Fatores como regime político, intensidade da relação sociedade-governo e a
concentração do processo decisório são determinantes do grau de politização
doméstica de assuntos internacionais (Cortell e Davis Jr, 1996; Carvalho,
2003). Quanto mais esses fatores configurem um ambiente de poder fragmentado,
maior a tendência de politização doméstica. Aumentam também as chances de
dissenso entre Legislativo e Executivo, resultando em padrões de comportamento
que escapam aos modelos do Estado unitário e racional. É essa perspectiva de
poder fragmentado que sustentará a análise da hipótese acima e a projeção de
cenários para mudança na política de subsídios dos EUA.
O contencioso do algodão Brasil versusEUA
Em 27 de setembro de 2002 a representação brasileira na OMC solicitou consultas
com o governo dos EUA, questionando a legalidade de leis e regulamentações que
autorizavam subsídios, créditos, doações e assistências à sua indústria do
algodão. Os subsídios americanos à indústria do algodão, que ultrapassaram US$
4 bilhões no mesmo ano e superaram o valor total da produção algodoeira
americana, promoveriam queda do preço internacional do produto e desvio de
comércio, prejudicando exportações brasileiras para terceiros mercados e
violando os artigos 5(c) e 6.3(b) dos Subsidies e Countervailing Measures
Agreement, firmado no âmbito da OMC. As perdas brasileiras foram estimadas em
US$ 600 milhões somente no ano comercial de 2001 (OMC, 2002).
Consultas ocorreram em 3, 4 e 19 de dezembro de 2002 e em 17 de janeiro de
2003, mas não foram capazes de dirimir o contencioso. Em 6 de fevereiro de
2003, a representação brasileira solicitou abertura de painel contra os EUA
(WT/DS267/7) e em 18 de junho, confirmando decisão preliminar de 26 de abril de
2004, o OSC emitiu relatório favorável ao Brasil. O OSC entendeu que oStep 2
era subsídio à exportação, portanto ilegal. O programa de crédito à exportação
também foi considerado ilegal e a classificação dos subsídios não distorcivos
equivocada. No geral, entendeu-se que "o conjunto da política [americana]
rebaixou os preços do mercado internacional, causando prejuízos ao Brasil"
(Camargo Neto, 2004).
Os EUA apelaram da decisão em 18 de outubro de 2004 e o encerramento do caso
ocorreu em 3 de março de 2005, após parecer do OAp confirmando resultados
positivos ao Brasil (OMC, 2005). Para se adequar ao parecer da OMC, os EUA
deveriam reformar os créditos à exportação e eliminar o Step 2 até 30 de junho
de 2005 (NCC, 2005). Outras medidas devem ser implementadas em até 15 meses.
Em 30 de junho o Departamento de Agricultura (USDA) comunicou alterações em
dois programas de crédito, o Export Credit Guarantee Program (GSM-102) e o
Supplier Credit Guarantee Program (SCGP), e a desativação do Intermediate
Export Credit Guarantee Program (GSM-103). Para Mike Johanns, secretário de
Agricultura, essa ação demonstrava comprometimento com a OMC e liderança. "By
implementing these changes, we ensure continued U.S. leadership in the WTO Doha
negotiations as we work toward an ambitious outcome that will be beneficial for
U.S. agriculture" (USDA, 2005a). Essa demonstração, entretanto, teve limites. O
Step 2 não foi eliminado no prazo estipulado, minando a liderança dos EUA.
A não adequação mostra a importância de se entender o processo de formulação de
política comercial dos EUA. O Executivo, por meio do USDA, adequou os programas
de crédito à exportação porque esses poderiam ser modificados
administrativamente. Já o Step 2 é matéria do Congresso, o qual não agiu para
eliminá-lo, causando constrangimento à administração. Por que o Congresso não
agiu? A literatura aponta que razões podem ser encontradas nas relações entre
grupos de interesse e o Legislativo e nas instituições.
A relevância econômica e política do algodão e o enviesamento institucional da
política agrícola nos EUA
A relevância econômica e política do algodão para os EUA foram avaliadas
buscando identificar motivos que limitaram a adequação ao parecer da OMC.3 No
tópico 1, vimos que políticos são movidos por princípios utilitaristas, visando
principalmente objetivos eleitorais. Para alcançá-los, devem evitar medidas
impopulares para o eleitor médio e angariar apoio de grupos de interesse.
Assim, quanto mais relevante em termos econômicos e políticos for a indústria
do algodão, mais contraproducente seria adequar os subsídios ao parecer da OMC.
Isto é, a alta relevância política e/ou econômica da indústria do algodão
dificultaria a eliminação do Step 2.
A relevância do algodão para a economia americana foi examinada no nível
nacional, dos estados subnacionais vinculados ao algodão e de seus distritos, a
partir de indicadores como o Produto Nacional Bruto (PNB), o Produto Estadual
Bruto (PEB), e exportações nacionais e estaduais. Esses indicadores foram
comparados com os valores de algodão produzidos e os exportados pelos EUA.
O cultivo de algodão compreende 17 estados dos EUA. Esses estados - Alabama,
Arizona, Arkansas, Califórnia, Carolina do Norte, Carolina do Sul, Flórida,
Geórgia, Kansas, Louisiana, Mississippi, Missouri, Novo México, Oklahoma,
Tennessee, Texas e Virginia - formam ocinturão do algodão, localizado ao sul
dos EUA.
No nível nacional, observa-se que embora os EUA sejam o segundo maior produtor
mundial de algodão, atrás apenas da China, a produção nacional é parte ínfima
do PNB americano (NASS, 2004b). De fato, a contribuição de todo o setor
agrícola para esse índice não ultrapassou 1% em 2004. Apesar dos EUA serem o
maior exportador mundial de algodão, a exportação nacional desse produto frente
ao total exportado pelos EUA, também é bastante reduzida. O setor agrícola
possui alguma relevância para as exportações nacionais, representando 7,5% do
total entre 1999 e 2003. Analisando a pauta agrícola, verifica-se que o algodão
é uma das maiorescommodities exportadas dentro da diversificada pauta americana
(NASS, 2004). Assim, embora a cotonicultura não possua relevância nacional em
termos de comércio internacional, ela é importante segmento da área rural
americana.
No nível estadual a soma da produção da agricultura, forestry e pesca não
corresponde a 10% do PEB dos estados do cinturão do algodão. Portanto, não é
relevante para a economia dos estados. Todavia, ao analisar a contribuição do
algodão para o produto agrícola desses estados, nota-se que, em média, de 1995
a 2001, essa ultrapassou 10% em Arkansas, Geórgia, Tennessee e Texas, e 20% em
Louisiana e Mississippi. Já a contribuição do algodão para tudo o que é
produzido exclusivamente pelas fazendas do cinturão do algodão foi superior a
10% em Arizona e Tennessee, representou mais de 20% em Arkansas, Geórgia e
Texas, e mais de 30% em Carolina do Sul, Louisiana, Mississippi, Novo México.
Quanto ao comércio internacional, ainda no nível estadual, as exportações
agrícolas comparadas às totais são relevantes para cinco estados do cinturão.
De 1999 a 2003, em média, Arkansas, Kansas, Mississippi, Missouri e Oklahoma
exportaram mais de 10% do total em produtos agrícolas. Nos dois primeiros houve
anos em que exportações agrícolas superaram 50%. Em nove estados a exportação
de algodão é relevante na pauta agrícola, embora em nem todos esses estados a
agricultura tenha relevância nas exportações. Em Alabama, Arizona, Arkansas,
Carolina do Sul, Tennessee e Texas o índice ultrapassou 10% e em Geórgia,
Louisiana, Mississippi foi superior a 20%. Esses dados mostram que o algodão é
cultura importante no universo rural de mais da metade dos estados do cinturão
do algodão.
Os estados dos EUA são subdivididos em distritos de acordo com o tamanho da
população. Ao todo a federação possui 438 distritos (Aldrich, 2003). Dos 213
distritos dos 17 estados do cinturão do algodão, há cultura desse produto em
111 distritos, embora o tamanho e a produtividade das plantações sejam
assimétricos. Dos 111 distritos, o algodão é um dos três produtos agrícolas
mais vendidos em 41 distritos, e está entre os três maiores em termos de área
plantada em 54 distritos (NASS, 2004b). Isso significa que essa cultura possui
relevância econômica rural para o nível distrital dos estados produtores, e que
pode ser potencializada politicamente pelo sistema eleitoral distrital,
abordado adiante.
No que se refere à relevância política, foram analisadas a importância da
população e dos grupos de interesse ligados à indústria do algodão para que os
políticos atinjam seus objetivos eleitorais. Os indivíduos empregados na
indústria do algodão têm interesse no contencioso, pois a adequação ao parecer
da OMC levará ao aumento dos preços, resultando em perda de competitividade,
que poderia se traduzir em desemprego . Assim, desde que informada,
dificilmente essa parcela da população votaria em políticos favoráveis à
adequação. Nesta perspectiva, deve-se comparar os empregos gerados pela
indústria do algodão e o número de eleitores nas eleições presidenciais e para
o Senado. Quanto maior a proporção dos empregos gerados pela indústria do
algodão em relação ao número de eleitores, maior a relevância eleitoral dessa
indústria e menor a propensão dos políticos contrariarem suas preferências.
Antes de comparar, cabe identificar se essa indústria se mobiliza
politicamente. A capacidade de mobilização é fundamental para influenciar
políticos. Um grupo de interesse pequeno e bem mobilizado pode ter mais
influência que um grande grupo disperso (Cintra, 2005).
O National Cotton Council of America (NCC), que congrega empresas e fazendas
que compõem a indústria do algodão desde 1938, possui essa qualidade. O
objetivo do NCC é assegurar que os interesses relacionados ao algodão sejam
levados em consideração pelo governo4. Além de dialogar com políticos visando
influenciá-los e informá-los, o NCC coleta informação sobre processos políticos
de seu interesse e divulga o comportamento dos políticos aos eleitores. Desse
modo, pressiona políticos para que ajam no interesse da indústria.
De acordo com o NCC (2004), a indústria do algodão emprega 443.356 pessoas.
Esse número corresponde aos eleitores que teriam suas preferências políticas
alteradas no caso da adequação ao parecer da OMC. Nacionalmente, esse é um
número bastante reduzido, pois em 2000 a população dos EUA era de mais de 281
milhões de pessoas, sendo 129.721 milhões pessoas empregadas. No mesmo ano, o
número de pessoas aptas a votar era de 202.609 milhões (USCB, 2002).
Setorialmente, o agregado agricultura, pesca e forestry empregou 951.810
pessoas em 2000, cerca de 0,7% do total de empregos no país. O número é
irrelevante se comparado aos mais de 12 milhões (9,4%) de empregos gerados pelo
agregado construção, extração e manutenção (USCB, 2002). Todavia, ao comparar o
total de empregos gerados por agricultura, pesca e forestry com os empregos
criados pelas fazendas de algodão, observa-se que estas empregam cerca de 18%
dos trabalhadores desse setor. Ou seja, 18% dos trabalhadores rurais teriam
interesse no contencioso do algodão.
Pensar a relevância política - em termos de votos - dos produtores e da
indústria do algodão somente no nível nacional não é suficiente. Nos EUA as
eleições presidenciais são indiretas, isto é, o presidente não é eleito pela
soma de votos populares e sim pela maioria dos votos no colégio eleitoral
(Aldrich, 2003). As instituições, como visto acima, podem modificar a relação
de forças. Se 18% dos trabalhadores rurais têm vínculo com o algodão no nível
nacional, esse número seria aumentado se considerado apenas o cinturão do
algodão.
No sistema eleitoral americano, cada estado da federação tem direito a um
número de votos de acordo com o número de deputados e senadores que possui. A
Flórida possui 25 deputados e, como todos estados, dois senadores, portanto 27
votos. O candidato que obtiver a maioria de votos populares na Flórida leva os
27 votos. O mesmo ocorre nos outros estados, com exceção de Maine e Nebraska.
Ao todo são 438 deputados e 100 senadores, somando 538 votos no colégio
eleitoral. Portanto, para se eleger presidente, é preciso obter no mínimo 270
votos. Assim, para avaliar o peso dos produtores e da indústria do algodão em
termos nacionais, é preciso averiguar quantos eleitores seria possível
mobilizar em cada estado e qual a relevância desses eleitores para as eleições
presidenciais em cada um deles.
Esse método servirá para a análise da relevância dos produtores e da indústria
do algodão nas eleições do Senado. O mandato dos senadores é de seis anos, e
eleições ocorrem a cada dois anos para renovação ou substituição de um terço
dos cargos. Cada estado é capaz de eleger somente um senador por eleição, tal
qual nas eleições distritais para a Câmara dos Deputados. Aquele que obtiver
maioria dos votos diretos no estado/distrito sagra-se senador/deputado
(Aldrich, 2003).
Foram comparados os empregos gerados pelo agregado agricultura, pesca eforestry
em cada estado do cinturão do algodão com o total de votantes nas três últimas
eleições presidenciais no estado correspondente. O mesmo foi feito com os
empregos criados pelas fazendas e pela indústria do algodão. Constatou-se que
os eleitores da indústria do algodão são parte praticamente nula do total de
votantes nos estados. Apenas em seis estados ultrapassam 2% do total. Nas
eleições para o Senado mantêm-se as baixas proporções.
O agregado agricultura, pesca e forestry também apresenta baixos percentuais,
superando 2% do eleitorado em apenas três estados nas eleições presidenciais.
Porém, é interessante notar que, embora as fazendas de algodão apresentem
baixas taxas em relação ao eleitorado total, quando comparadas com a soma de
agricultura, pesca e forestryapresentam um valor significativo para a maioria
dos estados. O mesmo ocorre nas eleições para o Senado. Como o algodão é apenas
um dos produtos desse agregado, ele possui certa importância política na área
agrícola desses estados.
Não foi possível obter dados sobre empregos gerados pela indústria e pelas
fazendas de algodão no nível distrital, o que inviabiliza o mesmo tipo de
análise para os deputados. Entretanto, tudo leva a crer que os empregados
ligados ao algodão teriam relevância maior nos distritos com maior área rural.
Em suma, a análise demonstra que a indústria e as fazendas de algodão geram
quantidade pequena dos empregos no cinturão do algodão, ou seja, são capazes de
mobilizar poucos eleitores. Disso infere-se, salvo eleições com margens
estreitas de vitória, que os votos desses empregados exercem baixa influência
sobre as preferências dos candidatos à Presidência e ao Senado. É provável que
tenham um peso maior nas eleições de deputados, nos distritos mais rurais.
Infere-se também que a baixa relevância desses eleitores para as eleições
presidenciais não colocou constrangimento à reforma do programa de crédito
feita pela administração.
Doações financeiras para campanhas eleitorais é outra maneira pela qual grupos
de interesse podem influenciar as preferências dos políticos. O montante doado
pode sugerir o grau de compromisso entre as preferências de políticos e grupos
de interesses. Atuar contrariamente às preferências dos doadores pode resultar
em perda de recursos na próxima campanha.
De acordo com o Center for Responsive Politics5, de 1996 a 2004 o setor
agrobusiness foi um dos dez maiores doadores para candidatos à Presidência, ao
Senado e à Câmara de Deputados federal. As doações do NCC são classificadas no
subgrupo Plantação e Processamento Básico, no qual o NCC foi o 6º maior doador
em 1996, o 2º em 1998, o 8º em 2000, o 10º em 2002 e o 4º maior em 2004. Assim,
o NCC é grande doador dentro do seu subgrupo. Como esse ranking é nacional, se
fosse considerado somente o cinturão do algodão a posição do NCC seria maior.
Além disso, foram consideradas apenas doações do NCC. Os próprios fazendeiros e
empregados, assim como outros grupos ligados ao algodão, fazem doações. Logo,
quando os congressistas do cinturão do algodão deliberam sobre assuntos ligados
a essa indústria, tendem a considerá-la de maneira diferenciada.
Por fim, cabe abordar o processo de formulação da política agrícola americana e
a forma como políticos utilizam-no para defender demandas de seus distritos e
estados e angariar apoio por meio de concessões específicas.
Desde 1974 os principais temas da política agrícola são tratados em uma
estrutura legislativa abrangente chamada de Farm Bill, reeditada a cada seis
anos. Capaz de abarcar diversos temas, ainda que superficialmente ligados à
agricultura, a política agrícola se tornou um jogo de soma-positiva, pois
muitos congressistas conseguem incluir na Farm Billalguma demanda cara a seu
eleitorado, urbano ou rural, e ganhar popularidade (Browne, 1995).
Basicamente, a reedição da Farm Bill funciona em dois estágios. No primeiro são
discutidos temas centrais para os Comitês de Agricultura da Câmara e do Senado,
como os programas de subsídio e crédito. Para que esses programas sejam
aprovados, os congressistas ligados a interesses rurais contam com apoio de
congressistas não diretamente interessados nessas questões. No segundo estágio,
garantida a aprovação dos temas centrais, políticos cuja base social é urbana
recebem apoio daqueles ligados a bases rurais para suas propostas "não-rurais"
(nonfarm), como uso de energia, por exemplo. Esse processo enviesa a política
agrícola para um acordo exitoso, fornecendo boa oportunidade legislativa aos
membros da eventual maioria. "Farm Bills não são desenhadas para falhar"
(Browne, 1995:27).
Embora a política agrícola seja alvo constante de críticas, é improvável que o
voto do eleitor médio seja definido pela atuação dos congressistas no que se
refere à Farm Bill. A despeito de a maior parte dos recursos federais para a
agricultura destinar-se a poucos produtores, geralmente ricos, que é o que
atrai boa parte da propaganda negativa sobre o tema, a sensibilidade econômica
do eleitor médio é ínfima. Os impostos recolhidos dos eleitores de todo o país
para sustentar programas de subsídios agrícolas são muito pequenos para
determinar sua opção política (Miller, 2005). Por outro lado, é possível
manipular a lei de modo a garantir recursos para eleitorados específicos, como
no caso do algodão. Os políticos podem criar regras que beneficiem sua base
social em troca de votos e doações, gerando um círculo vicioso (Browne, 1995).
Leis agrícolas e emendas podem ser votadas nos intervalos de reedição da Farm
Bill, mas não é comum alterar programas estruturais fora de época. No caso da
eliminação doStep 2 a dificuldade é aumentada, pois 24 dos 46 deputados que
compõem o Comitê de Agricultura da Câmara, considerado bastante paroquialista,
são oriundos do cinturão do algodão.
Hart e Babcock (2002) e Miller (2005) mostram o paroquialismo do Congresso ao
analisarem a elaboração daFarm Billde 2002. Apesar de haver preocupação com a
legalidade internacional dos programas, os congressistas sabiam de que "muito
dos apoios [e dos subsídios] propostos iriam de encontro aos compromissos
feitos pelos EUA na OMC" (Hart e Babcock, 2002:20). Isto é, o interesse
doméstico prevaleceu sobre os compromissos internacionais.
Em suma, os cotonicultores e a indústria do algodão possuem força política nos
EUA devido as suas doações financeiras e sua importância econômica para área
rural de alguns estados do cinturão do algodão. Em termos eleitorais, é baixa a
proporção dos eleitores para eleições senatoriais e presidenciais, mas esses
possuem maior importância para os deputados de áreas rurais. Além disso, o NCC
possui boa mobilização. Esses fatores são potencializados pelo sistema
eleitoral distrital e pela política agrícola, um jogo de soma-positiva
enviesado para a manutenção dos programas de subsídios.
A análise mostrou limites domésticos à adequação ao parecer da OMC. Mesmo que a
administração queira cumprir as exigências da OMC, é preciso convencer o
Congresso disso, e não há sinais que apontem nessa direção antes da próxima
reedição da Farm Bill, programada para 2007. Prova disso é que o projeto de lei
que exclui o Step 2, enviado pelo USDA ao Congresso em 5 de julho de 2005, cria
baixas expectativas. A administração pretende que o Step 2 seja eliminado ainda
esse ano, mas a opinião de Hufbauer é enfática: "I really do not expect that to
happen, because these cotton people are very influential, and there's a lot of
money at stake. The lobbying will be intense, and I don't think that as a
stand-alone (bill), it can happen". Para ele, "Congress is more likely to
address the program when lawmakers begin writing a new farm bill" (Quaid,
2005).
Formulação e execução da política comercial
A Constituição dos EUA atribui ao Congresso, por um lado, a função de regular o
comércio exterior. O objetivo é, dentre outros, garantir que diversos
interesses econômicos tenham acesso ao Estado por meio de deputados e
senadores, resultando em um foro de disputa entre os interesses. Por outro
lado, a Constituição delega ao presidente a função de conduzir as relações
exteriores e negociar acordos comerciais internacionais, como maneira de
garantir coerência à política externa(Jackson, Davey e Sykes Jr., 2002). Assim,
foi criado um sistema fragmentado, com dispersão de poder e responsividade à
sociedade, o qual exige articulação entre Executivo e Legislativo para a
condução da política de comércio internacional. Ao longo do tempo, o padrão de
relacionamento entre os dois poderes modificou-se. Houve momentos em que o
Congresso ou o presidente possuiu maior ou menor poder sobre o comércio
exterior, momentos de baixa e de alta sensibilidade do Executivo e do
Legislativo a grupos de interesse, assim como melhor ou pior sinergia entre
esses três grupos de atores.
As tensões entre Executivo, Legislativo e grupos de interesse sobre a condução
da política comercial levaram à criação do Special Trade Representative (STR)
no Trade Expansion Act de 1962. Dentre as funções dessa agência - subordinada
ao presidente, mas accountable ao Congresso - estavam a coordenação do
interesse comercial das diversas burocracias e a diminuição da utilização do
comércio como moeda política pelo Departamento de Estado. No Trade Act de 1974,
a agência foi modificada estruturalmente, passando a contar com comitês
institucionais de aconselhamento e assessoria técnica permanente do setor
privado. Com o Trade Agreements Act de 1979 o STR foi renomeado United States
Trade Representative (USTR) e teve seus poderes ampliados (Destler, 1995).
A praxe criou uma relação intensa entre o USTR e o Congresso. Como a regulação
do comércio depende do último e a negociação internacional do primeiro, há
diálogo constante entre burocratas e congressistas para definir objetivos,
limites, concessões, etc. As autorizações comerciais, como o Trade Promotion
Authority (TPA), são o maior exemplo disso.
Bergstein (2002) observa as relações entre Executivo e Legislativo para a
política comercial destacando as leis de autorização comercial. Segundo ele,
desde a Rodada Kennedy nos anos 60, sempre que o presidente buscou autorização
do Congresso para negociar uma rodada liberalizante, ele teve de construir
maioria legislativa concedendo proteção a indústrias-chave. Numa metáfora
interessante, o autor aponta que a política comercial dos EUA dá um passo para
trás, protecionista, para então dar dois à frente, rumo à liberalização.
AFarm Billde 2002 seria um passo para trás. Ou seja, uma concessão do
presidente Bush para conseguir maioria legislativa e assegurar a aprovação da
TPA em 2002 (Bergstein, 2002). A TPA, basicamente, autoriza o presidente a
negociar acordos comerciais com a garantia de que a votação para a ratificação
do negociado ocorra sem emendas. Leis de autorização comercial são importante
termômetro do Legislativo. Indicam a disposição desse poder em modificar a
legislação doméstica em função de acordos internacionais, pois estabelecem
condições para a liberalização. Pelo protecionismo concedido ao algodão na Farm
Bill de 2002 e pelos limites impostos à negociação agrícola na Rodada de Doha
(Embaixada Brasileira em Washington, 2002), pode-se entender que é improvável a
modificação substancial e unilateral nos programas de subsídio ao algodão.
A redução "unilateral" é improvável porque o Congresso estipulou na TPA que é
interesse dos EUA reduzir subsídios agrícolas com reciprocidade da União
Européia (UE) e do Japão. Conforme análise da Embaixada Brasileira em
Washington (2002), "a TPA respalda claramente os grandes interesses internos
norte-americanos" e constrange o USTR ao deixar "claro o 'preço' das concessões
que os EUA venham a fazer: ganhos significativos em acesso a mercados,
'equalização' das condições de abertura entre os diferentes parceiros".
A noção de equalização, ou reciprocidade, na questão agrícola pode ser auferida
na proposta encaminhada em julho de 2001 à OMC. Nela, o USTR atrela a
eliminação de subsídios agrícolas à exportação e a redução de subsídios
distorcivos para 5% do valor total da produção nos EUA à ações iguais da UE e
do Japão (USDA, 2002). Em nova proposta, de outubro de 2005, o USTR sugere
reduções substanciais de apoios distorcivos e a eliminação dos subsídios à
exportação agrícola em cinco anos. Após esse período as demais políticas
distorcivas seriam extintas em mais cinco anos. Confirmando a improbabilidade
de redução unilateral, o documento afirma que "This is not a unilateral offer
it is contingent on bold reforms from all countries participating in the WTO
process" (USTR, 2005: 1).
Diante da improbabilidade da redução unilateral, cujos constrangimentos estão
concentrados no Congresso, o USTR, o USDA e o NCC desenvolveram a estratégia da
"não litigação, sim negociação". Mills, porta-voz do USTR, afirmou que "a
negociação, e não o litígio, é a melhor forma de lidar com as distorções na
agricultura mundial" Para ele, subsídios e outras questões agrícolas devem ser
solucionadas em ambiciosas reformas globais (Folha de S. Paulo, 2005).
A estrutura institucional fragmentada da política comercial dos EUA, cujo
centro de referência é o USTR, é importante para legitimar essa estratégia que
começou a ser externada após o parecer do OAp. Desprestigiar a OMC não faz
parte das preferências da administração, da maior parte do Congresso e da
maioria dos grupos agrícolas. O Congresso, porém, não parece disposto a se
adequar à OMC, o que mina a liderança dos EUA. Assim, ficou decidido que a
melhor alternativa a não cumprir o parecer da OMC é negociá-lo. O NCC (2005)
"concorda com o USTR que as mudanças políticas sugeridas pelos painéis nessa
disputa devem ser objeto de negociação, não litigação". Para Penn (2005),
subsecretário do USDA, o parecer da OMC reafirma a importância da Rodada Doha,
pois "os EUA acreditam que a negociação, não o litígio, é a maneira mais
eficiente de lidar com distorções em agricultura".
Considerando a assimetria de poder entre Brasil e EUA, não é possível que o
primeiro imponha modificações ao segundo. O parecer da OMC potencializou a
demanda brasileira com tecnicidade e legitimidade internacionais, resultou em
algumas reformas, mas não conseguiu impor a eliminação do Step 2. A reforma do
programa de crédito à exportação e a proposta encaminhada ao Congresso para
eliminação do Step 2 apontam para o intuito da administração de garantir
liderança aos EUA na Rodada Doha e de estabelecer uma agenda de eliminação de
subsídios à exportação e redução dos subsídios à produção. Porém, mais do que
tema de política externa, a política agrícola é política pública controlada por
um Congresso estruturalmente paroquialista em questões agrícolas, cujos
processos eleitoral e de criação da Farm Bill potencializam a força política
dos cotonicultores, e que prioriza preferências locais em detrimento dos
compromissos internacionais. Tendo isso em consideração, vejamos cenários para
adequação dos EUA ao parecer da OMC.
Cenários para mudança na política de subsídios dos EUA
A partir da análise acima, foram projetados cenários para a adequação dos EUA
ao parecer da OMC. O primeiro cenário mostra a situação atual. Para que
houvesse mudança, o contencioso deveria potencializar grupos domésticos que
criticam a Farm Bill, a ponto de superar o poder político daqueles que apóiam à
manutenção dos programas de subsídio, como o Step 2. Dentre os críticos estão
fazendeiros afetados negativamente pelos subsídios; conservadores preocupados
com o ajuste fiscal; ambientalistas que combatem a expansão agrícola; e ONGs
que acusam a imoralidade dos subsídios por prejudicarem produtores de países
pobres (Saunders, 2005; Rainford, 2005; OXFAM, 2004).
Durante anos esses grupos tentaram modificar esses programas, sem sucesso
(Browne, 1995; Miller, 2005). A decisão da OMC pode potencializar as
preferências desses grupos no debate de reedição da Farm Bill em 2007, mas não
há sinais que apontem para essa direção com força suficiente, de modo que se
vença o enviesamento institucional da política agrícola. A figura abaixo mostra
esse cenário. Há um equilíbrio de forças, mas as instituições do processo
eleitoral e da criação da Farm Bill fortalecem os grupos contrários.
Num segundo cenário, adicionam-se grupos interessados em menores barreiras e
melhores regras em outros temas comerciais, como serviços e propriedade
intelectual. Esses grupos poderiam entrar incisivamente no debate e agregar
força aos grupos favoráveis à adequação. Posicionar-se-iam assim para garantir
liderança aos EUA e para desobstruir a Rodada Doha. Se a força agregada for
suficiente, o enviesamento institucional poderia ser superado, como demonstra a
figura abaixo.
Pode-se entender que a intenção brasileira de retaliar os EUA suspendendo
direitos de propriedade intelectual buscou trazer outros grupos para o debate.
Porém, a ação parece não ter sido eficiente, pois houve ameaça de suspensão de
benefícios sob o SGP. Assim, a retaliação não foi adiante e grupos que estavam
no alvo do governo brasileiro não receberam o estímulo para entrar no debate.
Num terceiro cenário, acrescentam-se grupos agrícolas eficientes e
exportadores. Esses grupos têm interesse em abrir o mercado agrícola mundial e,
para isso, é preciso dar continuidade à Rodada Doha. Posicionar-se-iam a favor
da adequação ao parecer da OMC, exercendo pressão de dentro da área agrícola e
fornecendo estímulo para congressistas romperem o enviesamento institucional,
conforme a figura abaixo.
Esse cenário seria interessante ao Brasil por duas razões. Primeiro, seria uma
estratégia aplicada a partir do setor privado. Caberia aos grupos agrícolas
brasileiros convencer os americanos das vantagens de favorecer a adequação para
desobstruir a Rodada Doha. Por ser uma ação privada não haveria, em tese,
retaliação dos EUA. Segundo, a pressão seria exercida a partir de interesses
agrícolas. Assim, congressistas com base social rural teriam contrapeso dentro
do seu próprio distrito eleitoral, tornando politicamente viável agir contra
interesses de grupos ligados ao algodão. Ao contrário do que ocorreria caso
grupos interessados em propriedade intelectual entrassem no debate, os quais
são geograficamente concentrados e muitas vezes localizados em regiões de baixo
interesse agrícola, a atividade agrícola ocupa grandes faixas territoriais e
está mais dispersa no território. Assim, seria possível mobilizar mais
exportadores em mais distritos.
Por fim, o quarto cenário é aquele que leva em conta um acordo para redução de
subsídios com Japão e UE. Um compromisso internacional desse tipo
potencializaria a posição da administração e reduziria incentivos de
congressistas para manter o programa de subsídios ao algodão por adequar-se à
TPA. Os legisladores poderiam argumentar que, mesmo o acordo produzindo custos,
haveria uma quantidade maior de benefícios, legitimando sua escolha pela
redução.
Considerações finais
Esse estudo de caso teve dois objetivos: 1) examinar a hipótese de que os EUA
não se adequaram ao parecer da OMC no contencioso do algodão porque a força
política dos grupos de interesse e políticos ligados ao algodão foi forte
suficiente para constranger mudanças necessárias; e 2) elaborar cenários para
pensar a mudança na política de subsídios agrícolas dos EUA.
O caso foi estudado a partir de uma abordagem que permite o exame das relações
de força e instituições domésticas, pois a não adequação não encontrava
justificativa na concepção de Estado unitário racional. Assim, constatamos que
a administração desejava a adequação, mas a eliminação do Step 2 cabia ao
Congresso, o qual não agiu devido a força política de grupos de interesses e
congressistas potencializados por instituições políticas.
O estudo permitiu elaborar cenários, os quais têm por objetivo estimular a
reflexão sobre a melhor estratégia a ser adotada para lidar com os EUA.
Estratégia essa que, embora de política externa, deve ir além da visão do
Estado como ator unitário e levar em conta a política doméstica americana, suas
dissensões e contradições. Ressalta-se, porém, que esses são apenas cenários,
projeções sujeitas às intempéries das relações internacionais e da política
doméstica.
Política de comércio internacional não é apenas questão de defesa ou promoção
de interesses setoriais. Certas ações podem ter intuito mais amplo, de marcar
posição e enviar sinais para a sociedade internacional. Por isso, os
desdobramentos do contencioso do algodão podem oferecer perspectivas relevantes
sobre a posição dos EUA nas negociações internacionais. Reconhecendo que
"política externa depende da interna (...), podemos afirmar que a dificuldade
de definir políticas, sobretudo de fazer escolhas, é um dos fatores
determinantes da debilidade [ou potencialidade] de um país nas relações
internacionais" (Vigevani, 1995:321). No caso dos EUA, a política agrícola pode
constranger objetivos de política comercial internacional.