Conflito e cooperação nas relações internacionais: as organizações
internacionais no século XXI
A recente intervenção anglo-americana no Iraque reacendeu o debate sobre a
eficácia do direito internacional e das organizações internacionais. Dessa
feita, muito mais do que em outras ocasiões em que a força foi empregada para
resolver uma discórdia internacional, as reações contrárias à ação militar
ficaram fortemente concentradas na alegação de que o ataque havia sido
desfechado à margem de normas e princípios do direito internacional e que teria
atingido gravemente a Organização das Nações Unidas (ONU) e tudo aquilo que a
entidade representa para a ordem internacional na modernidade. Tecnicamente,
contudo, foi apenas mais um evento internacional que expôs as características e
limitações das organizações internacionais. O Estado moderno tem na soberania
um de seus princípios fundantes e o estabelecimento de uma ordem capaz de
acomodar esse princípio com as noções de justiça e de eqüidade tem sido um
desafio para estadistas e pensadores nos últimos quatro séculos. É dentro dessa
ótica de mais longo prazo que se afigura mais apropriado avaliar algumas
perspectivas que se apresentam para as organizações internacionais nesse novo
século. Um século que se inicia sob o impacto da ameaça de ataques terroristas
em larga escala e da possibilidade real da maior potência do planeta escolher o
unilateralismo como padrão predominante para sua política externa.
A soberania e as limitações das organizações internacionais
A existência de um Conselho de Segurança e o direito de veto reservado às
grandes potências, reconhecendo explicitamente, portanto, uma hierarquia entre
Estados no cenário internacional, foram condições que asseguraram a própria
existência da ONU. Sem o instituto do veto, certamente teria sido muito mais
difícil construir um consenso entre os Estados Unidos, a União Soviética e a
Grã-Bretanha ao final da Segunda Guerra Mundial com vistas à criação da nova
Organização. Esse dispositivo, no entanto, significa apenas a parte mais
visível dos mecanismos contidos nessa entidade que limitam sua ação e que
reconhecem uma condição distinta para as grandes potências. Na verdade, ao
longo da existência da ONU há uma enorme lista de casos de conflitos
internacionais que foram decididos ou conduzidos fora de seu âmbito.
Durante a guerra fria, o mecanismo do veto fez com que, sistematicamente, as
questões mais críticas envolvendo a segurança internacional fossem tratadas e
conduzidas à margem da entidade. Entre 1946 e 1990 o direito de veto foi usado
279 vezes pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança.1 O emprego
de mais de 6 vetos por ano pelas grandes potências virtualmente significou o
afastamento da possibilidade de um papel mais decisivo das Nações Unidas em
questões internacionais que fossem efetivamente críticas. Se forem considerados
os vetos não declarados, isto é, os casos em que uma potência, tendo
consciência de que sua proposta de resolução seria objeto de veto por um dos
cinco membros permanentes, tenha decidido não submeter a questão ao Conselho de
Segurança, esse número seria ainda maior. Isso, no entanto, não significa que a
ONU tenha fracassado e que não tenha tido um papel importante nas relações
internacionais; significa apenas que seu alcance sempre foi limitado e que, tal
como agora, há circunstâncias em que a diplomacia e as instituições não
conseguem atingir plenamente seus objetivos e que as questões que afetam a
soberania das nações continuam muito difíceis de serem manejadas.
Na verdade, freqüentemente se observa uma confusão quanto à natureza da
Organização das Nações Unidas e suas finalidades. É certo que a promoção da paz
constitui o objetivo básico da organização, todavia a entidade não se constitui
num tribunal arbitral internacional mas sim numa instância diplomática
multilateral. Nesse sentido, o uso do veto, inclusive na forma não declarada,
não significa o fracasso da organização, significa isso sim que não existe
consenso a respeito da questão em discussão. Significa que os mecanismos
diplomáticos, inclusive aqueles oferecidos pela ONU, não são suficientes para a
obtenção do consenso que tanto poderia significar dar apoio a uma intervenção
militar ou encontrar alguma forma de solução pacífica.
Historicamente, essa é uma questão jamais resolvida nas relações
internacionais. Não há uma fórmula para estabelecer os limites da noção de
soberania em confronto com normas, princípios e instituições internacionais. A
razão central reside no fato de que não há um padrão universal para os
conceitos de justiça, de direitos e de obrigações entre sociedades e povos.
Apesar de toda a retórica da globalização, continuam evidentes os sinais de que
permanecem vivas as diferenças culturais e religiosas entre povos. Essas
diferenças revelam mais uma entre as muitas facetas do paradoxo da própria
existência humana: ao mesmo tempo que são essenciais para a preservação da
multiplicidade e riqueza do fenômeno humano, também sustentam diferentes
padrões de comportamento econômico, social e político, dificultando a
compreensão mútua e a convivência. Os direitos individuais e os direitos da
mulher, apenas para exemplificar, hoje se refletem tanto em normas jurídicas
quanto em códigos de comportamento que não admitem a discriminação ou o
cerceamento de direitos fundamentais como o de ir e vir, de ocupar cargos
públicos ou de manifestar opiniões. Esse padrão, contudo, não se verifica em
todas as sociedades consideradas civilizadas. Há sociedades em que esses
direitos não são reconhecidos sob a alegação de que há razões religiosas ou
culturais que fazem com que a existência individual das pessoas somente tenha
sentido como parte de um grupo, um clã ou uma tribo.
Obviamente, não cabe aqui discutir essas diferenças, mas apenas observar que
essa multiplicidade, característica do fenômeno humano, se reflete nas
percepções sobre questões fundamentais como ordem, justiça e direitos que
orientam os sentimentos morais e a ação política das sociedades e dos
indivíduos. Robert Jervis, em seu livro escrito nos fins da década de 1960,
argumentava que a imagem que os principais atores formam uns dos outros, assim
como das circunstâncias, tem um papel decisivo nos eventos internacionais.2 No
entender de Jervis, há aspectos sistêmicos, como a configuração da distribuição
do poder ou o nível de institucionalização, que, efetivamente, influenciam os
fenômenos internacionais; mas, além desses aspectos geralmente apontados pelos
analistas, argumenta que o desencadeamento de crises bem como o seu manejo
dependem também de crenças e percepções dos atores sobre objetivos, valores e
riscos. Ideologias especialmente aquelas calcadas sobre crenças religiosas ,
interesses econômicos ou disposição para correr riscos não influenciam de
maneira uniforme as sociedades e as lideranças. Ao contrário, essas percepções
vão constituir a base sobre a qual serão construídas as imagens que cada ator
irá fazer acerca do ambiente internacional e dos demais atores com os quais
eventualmente tem de interagir. Dessa forma, há um processo inevitável de
formação de imagens díspares acerca dos fenômenos internacionais, o que deve,
como conseqüência, produzir reações também diferentes. Cada ator tende a
avaliar de forma diferente o significado de uma disputa comercial ou
territorial, de um pacto de cooperação ou de um conflito armado real ou
potencial. Nesse quadro, é inevitável o ambiente potencialmente conflitivo do
meio internacional, uma vez que a noção de exercício da soberania,
invariavelmente, é associada à idéia de que um Estado, para ser considerado
efetivamente soberano, deve ter suas percepções transformadas em ação política.
Do ponto de vista da construção da ordem internacional, portanto, uma grande
dificuldade reside na relutância dos Estados em ceder parte de sua soberania em
favor de instâncias internacionais porque, inevitavelmente, essa atitude
significa abrir mão, total ou parcialmente, da prerrogativa de transformar em
ação política suas visões e percepções acerca do mundo e das coisas. Essa
relutância pode ser maior em se tratando das grandes potências porque, ao
admitirem uma instância internacional, podem estar abrindo mão da possibilidade
de usar diretamente o poder de que dispõem para promover seus interesses. No
entanto, isso não quer dizer que os Estados mais fracos também não vejam com
desconfiança o surgimento de entidades internacionais poderosas. Seu receio é
que essas entidades, em determinadas circunstâncias, venham a ser utilizadas
como instrumentos de intervenção das grandes potências até mesmo em seus
assuntos internos. Na história recente, a intervenção no Iraque foi apenas mais
um entre muitos outros casos manifestos de relutância das grandes potências em
outorgar maior poder para organizações internacionais, abrindo mão do uso do
poderio de que dispõem para encaminhar, por via de uma instância internacional,
uma solução para uma disputa envolvendo nações mais fracas. Na verdade, mais de
trinta conflitos armados foram registrados ao longo das primeiras quatro
décadas de existência da ONU e casos como o da Coréia, em 1950, e da Guerra do
Golfo, em 1990, em que intervenções armadas contaram com a anuência formal do
sistema Nações Unidas, constituíram-se em notáveis exceções.3 Na grande maioria
dos conflitos, a participação da ONU, reconhecidamente importante, concentrou-
se em esforços diplomáticos de mediação antes ou durante o conflito e em ações
no sentido de assegurar condições de paz depois do cessar fogo, incluindo-se aí
os trabalhos de reconstrução e assistência humanitária.
Por outro lado, uma vez que intervenções armadas tendem a ocorrer somente
quando há ameaças reais ou presumidas à segurança das grandes potências, é no
plano das relações econômicas onde se observa mais claramente a desconfiança
das nações mais fracas em relação a organismos internacionais mais fortes.
Instituições como o Fundo Monetário Internacional ou a Organização Mundial do
Comércio são freqüentemente apontadas como potencialmente ameaçadoras às
políticas nacionais e aos interesses dos países economicamente mais frágeis.
A difícil trajetória das organizações internacionais
Diante desse quadro, uma avaliação das organizações internacionais frente às
perspectivas que se apresentam no contexto internacional neste início do século
XXI deve ter por base o entendimento do significado fundamental dessas
organizações e, para isso, deve-se incluir também uma breve reflexão sobre a
experiência histórica vivida por essas entidades.
As organizações internacionais são a expressão mais visível dos esforços de
cooperação internacional de forma articulada e permanente. Desde o surgimento
do Estado Nacional como categoria política central nas relações entre povos e
unidades políticas, a história registra a ocorrência de iniciativas de
estadistas e formulações de pensadores voltadas para a estruturação de
instituições que hoje chamamos de organizações internacionais. Mas, a história
registra, igualmente, as enormes dificuldades de se por em prática essas
iniciativas.
Henrique IV e seu Ministro, o Duque de Sully, no início do século XVII portanto
dentro de um ambiente político já formado por Estados Nacionais elaboraram a
primeira proposta de formação de uma instância internacional centrada na idéia
de um sistema de arbitragem permanente onde os soberanos deveriam resolver suas
pendências sem o recurso da guerra. Cerca de um século depois, em 1712, Abbé de
Saint-Pierre, retoma as idéias de Henrique IV numa proposta mais elaborada de
um Projeto de paz perpétua.4 A grande preocupação dessas duas propostas era a
de demonstrar, de um lado, as vantagens que as principais potências teriam em
aderir ao projeto e, de outro, porque cada uma delas teria seus interesses
fundamentais e sua autonomia respeitados. Rousseau, no entanto, ao ler a
proposta de Abbé de Saint-Pierre argumentava que a proposta era realmente
admirável em suas intenções e concordava também que seria vantajosa para todos
os reinos, no entanto, observava com ceticismo o comportamento dos governantes
e concluía que "embora admiremos um projeto tão belo, devemos consolar-nos do
seu fracasso uma vez que só poderia ser implantado (justamente) com os meios
violentos que a humanidade precisa abandonar". É possível que se a proposta de
Henrique IV ou de Abbé de Saint-Pierre não presumissem a constituição de uma
instância que se constituísse num tribunal arbitral entre as nações, mas tão
somente numa entidade política onde os Estados procurassem discutir e negociar
suas demandas, sua aceitação seria menos problemática.
Com efeito, cem anos depois, ao final das guerras napoleônicas, as grandes
potências, lideradas por Metternich e Castlereagh, constituíram o Concerto
Europeu. Esse arranjo não apresentava, nem de longe, o grau de
institucionalização contido na proposta de Abbé de Saint-Pierre e nem tinha a
pretensão de se constituir num tribunal arbitral internacional. Os reinos,
especialmente os mais poderosos, manteriam sua soberania de forma plena,
aceitando apenas a idéia de que suas demandas poderiam ser discutidas em
encontros de governantes e de plenipotenciários e que a busca do consenso
passaria a figurar entre os objetivos da diplomacia. O Concerto Europeu,
portanto, apresentava um nível muito baixo de institucionalização e,
formalmente, seus participantes praticamente não tinham qualquer obrigação,
dever ou mesmo custo derivado de sua participação no arranjo, a não ser o de
discutir suas demandas com as demais potências.
No Continente Americano, as mesmas dificuldades de conciliar a natureza das
organizações internacionais com as aspirações de soberania também se fizeram
presentes numa das iniciativas mais notáveis do processo de independência da
região. A idéia de Bolívar para constituição de uma Confederação de Estados
Americanos não foi além do Congresso de 1826, que contou com a presença de
apenas alguns representantes de países americanos. Entre as várias razões que
podem ser apontadas para esse fato, além da baixa densidade na interação entre
os novos Estados que acabavam de se formar na região e que tinham muito pouco
interesse nas relações com os vizinhos, pode-se destacar a ausência dos Estados
Unidos, que não foram convidados, em grande parte pela preocupação de Bolívar
em não despertar a oposição da Grã-Bretanha. Essa ausência teria, por outro
lado, contribuído para a ausência de outras nações que temiam que um arranjo
daquela natureza, que virtualmente excluía os Estados Unidos, pudesse despertar
a desconfiança da jovem potência regional em relação à formação de uma liga
anti-americana.5
Um século mais tarde a Liga das Nações iria se constituir na primeira
organização internacional de forma plena e no sentido atual. A história de sua
curta e turbulenta trajetória, no entanto, é conhecida. J. M. Keynes, em seu
livro As conseqüências econômicas da paz,6 ainda sob o impacto da decepção
sofrida na Conferência de Versailles, relata de forma eloqüente como a atitude
de Lloyd George e Clemenceau, notadamente egoísta em termos do que entendiam
serem os interesses dos Estados que representavam, comprometeram o destino da
Liga das Nações desde seu nascimento. Lloyd George e Clemenceau não eram vilões
ou estadistas irresponsáveis, mas apenas refletiam a percepção corrente entre
políticos e até mesmo entre estudiosos que acreditavam (muitos continuam
acreditando até hoje) que estavam somente cumprindo seu papel de defender
aquilo que julgavam ser o interesse de seus países e que, como bons defensores,
deveriam valer-se de seus talentos individuais e dos recursos de poder de que
dispunham de forma que decisões e arranjos que emergissem daquele encontro
contemplassem esses interesses, se possível, em sua plenitude. A Liga era
entendida muito mais como um instrumento de afirmação de soberania dos Estados
do que como uma instância internacional com capacidade de encaminhar soluções
para as eventuais disputas internacionais. Até mesmo o Brasil foi protagonista
de um evento marcante que, na história da Liga, revela as contínuas
dificuldades originadas do desejo de afirmação das soberanias, que se choca com
freqüência com os requisitos de uma autoridade tipicamente supra-nacional. Com
efeito, as negociações de Locarno, de 1925, que levaram a Alemanha a integrar a
Liga em 1926, com direito a um assento permanente no Conselho da entidade,
foram vistas nas capitais européias como um enorme passo em direção à
construção de uma paz estável. Na avaliação das principais lideranças
européias, os acordos de Locarno teriam sido o verdadeiro epílogo para as
questões mal resolvidas na Conferência de Paz de Versailles. No entanto, o
Governo Brasileiro, sentindo-se virtualmente traído no seu intuito de tornar-se
membro permanente do Conselho da organização, decide, num gesto grandiloqüente,
retirar-se da entidade.7 Na essência, do ponto de vista da construção da ordem
internacional, o que o Governo Brasileiro havia manifestado no episódio era
apenas mais um testemunho vivo dos limites bastante estreitos da parcela de
soberania que as nações estão dispostas a ceder em favor de instâncias
internacionais.
A eficácia das organizações internacionais
Essas considerações, contudo, não querem dizer que as organizações
internacionais não tenham sua eficácia e que sejam instâncias diplomáticas de
pouca importância, que ocultam sob um manto de amenidades e conveniências
apenas uma fria e incansável luta pelo poder. Essas considerações pareceram
necessárias para lembrar que os esforços de construção de uma ordem
internacional pacífica e articulada é uma tarefa difícil e trabalhosa porque
precisa conciliar percepções e anseios políticos contraditórios. O
estabelecimento de normas internacionais não traz em si a garantia de que essas
normas serão efetivamente cumpridas e que uma vez produzidas, automaticamente,
farão surgir padrões de comportamento. Mesmo no plano doméstico, onde existe
uma autoridade formalmente constituída e amplamente estruturada, o fato de
produzir leis não significa que direitos humanos sejam plenamente respeitados,
padrões ambientais sejam observados ou que crimes deixem de ser cometidos ou
que sejam devidamente punidos: o poder judiciário pode ser lento e ineficaz e a
polícia pode ser corrupta ou insuficiente para fazer com que as leis, novas ou
antigas, sejam cumpridas. A esse respeito, no caso do Brasil, diariamente há
incontáveis exemplos. No plano internacional, onde as normas são compostas
basicamente de tratados, onde não há uma autoridade supranacional independente
dos Estados (que possuem o atributo da soberania) e onde a principal forma de
sanção é a condenação moral, a existência e a eficácia de arranjos e
instituições continuam fortemente dependentes das percepções e da vontade de
agir dos governantes dos Estados.
Apesar de tudo, é possível apontar vários fatos e desenvolvimentos que indicam
que as organizações internacionais têm sido muito eficazes e hoje fazem parte
integrante da vida das sociedades. Na verdade, embora na maioria das vezes de
forma pouco visível, são elementos essenciais da modernidade. Atualmente, é
inimaginável um mundo sem o enorme fluxo de bens, recursos financeiros,
informações, pessoas e de uma série de outros elementos mais difusos e menos
quantificáveis que transitam continuamente entre as fronteiras que delimitam os
Estados. Na base desse fenômeno, está uma ampla e complexa malha de
organizações internacionais, que, de maneira integrada, possibilita esse fluxo
relativamente ordeiro e continuamente crescente.
Um aspecto central, geralmente pouco lembrado, a ser assinalado, é o fato de
que, embora as organizações internacionais geralmente sejam voltadas para uma
determinada área das relações internacionais, elas exercem influência
significativa sobre todas as demais. Assim, as relações comerciais não se ligam
apenas com as relações financeiras e monetárias, mas têm conexões estreitas com
áreas técnicas, culturais e mesmo de segurança internacional, e a história
exibe vários exemplos em que essa interligação foi particularmente importante.
Com efeito, as principais iniciativas que resultaram na construção da ordem
econômica que se seguiu à Segunda Guerra Mundial tiveram por base essa
associação de objetivos. O Plano Marshall, em larga medida, foi uma solução
keynesiana para os problemas da estagnação econômica que atingia a Europa e que
ameaçava se estender para os Estados Unidos. Keynes, em Bretton Woods, havia
insistido em vão na necessidade de os Estados Unidos proverem a economia
internacional (isto é, a Europa) de dólares. Em 1947, os Estados Unidos, sob
nova liderança e movidos pela estratégia de construção de um sistema de
segurança internacional baseado no containment (contenção do avanço soviético),
produziram o Plano Marshall, que transferiu para a Europa aproximadamente a
mesma quantia que Keynes havia apontado, com argumentos econômicos, como
necessária para resolver o problema da falta de liquidez da economia
internacional. A formação dos arranjos que fizeram parte do processo de
integração européia e muitas outras iniciativas que deram os contornos do mundo
do pós-guerra obedeceram uma lógica semelhante. Ou seja, os argumentos
originados das formulações estratégicas sobre segurança internacional
conseguiram ser eficazes onde os argumentos de Keynes, fundados na teoria
econômica, por mais sensatos e coerentes que tenham sido, haviam fracassado.
O caso do comércio é muito ilustrativo dessa evolução das organizações
internacionais e também de como sua importância transcende os limites estritos
das trocas comerciais e, de modo geral, das transações econômicas. Pensadores
como Montesquieu e Kant dedicaram atenção ao que ficou conhecido como a "tese
do suave comércio". Montesquieu, no Espírito das Leis afirma: "O efeito natural
do comércio é trazer a paz. Duas nações que comerciam juntas tornam-se
reciprocamente dependentes; se uma tem interesse em comprar, a outra em vender;
e todas as uniões estão baseadas nas mútuas necessidades".8 O acesso a
matérias-primas essenciais, em várias circunstâncias, revelou essa face
"pacificadora" do comércio e, com certeza, essa tese hoje poderia ser estendida
a muitas outras áreas: turismo, ciência e tecnologia, cultura, etc. Obviamente,
no sentido inverso, dificuldades e ameaças ao acesso a fontes de matérias-
primas essenciais também podem se constituir em fatores de instabilidade e até
mesmo em ameaças à segurança internacional.
Nas cinco décadas que se seguiram ao final da Segunda Guerra Mundial, os
inúmeros arranjos globais, regionais e setoriais desempenharam um papel
essencial no processo de evolução do comércio até os níveis atuais. No plano
mais geral é notável como a criação do Gatt, com todas as suas limitações,
ajudou a estabelecer as bases da recuperação dos fluxos comerciais nas duas
primeiras décadas do pós-guerra. A partir dos anos 1980, contudo, o mundo
passou a enfrentar dificuldades para continuar incrementando o comércio
internacional e, afinal, percebeu-se que essas dificuldades decorriam, em
grande medida, do baixo nível de institucionalização do Gatt. Os impasses que
apareceram de forma marcante na Rodada Uruguai de negociações comerciais,
iniciada em 1986, evidenciavam as dificuldades de obtenção de consenso entre
nações e blocos econômicos que disputavam espaço nos mercados internacionais. A
emergência da Europa, do Japão e de outras economias em setores específicos
havia minado a capacidade dos Estados Unidos de arbitrar disputas comerciais
enquanto as regras difusas do Gatt se revelavam incapazes de atuar com eficácia
dentro do novo cenário dentro do qual o comércio internacional passava a se
mover. A solução encontrada para esses impasses foi a transformação do Gatt em
OMC (Organização Mundial do Comércio), uma entidade com perfil institucional
muito mais definido e com capacidade de, efetivamente, intervir na autonomia
das ações dos Estados no que tange às políticas comerciais. Apesar de eventuais
manifestações de insatisfação, não há dúvida de que o sistema de solução de
controvérsias da OMC, com suas peculiaridades e imperfeições, funciona como um
verdadeiro tribunal arbitral internacional permanente para as questões do
comércio e que essa transformação de um Gatt, feito de regras difusas, para uma
OMC, com capacidade para orientar e resolver disputas comerciais, é fruto de um
significativo consenso internacional.
Obviamente, as questões de comércio apresentam um perfil muito menos crítico do
que aquelas que dizem respeito diretamente à segurança e ao poder das nações.
Entretanto, é importante notar que as crises internacionais podem ter origem
variada e geralmente são o resultado de desentendimentos sobre diversas
questões que se combinam agravando-se mutuamente. Além disso, a questão do
acesso a fontes de matérias-primas e aos meios de construir e acumular riqueza
sempre tiveram papel fundamental na definição de políticas internas e externas.
Dessa forma, somente o que ocorreu no mundo do comércio já seria suficiente
para justificar o argumento de que há muito mais sucesso do que fracasso a ser
registrado na história das organizações internacionais e é possível identificar
trajetórias semelhantes nas finanças, nas relações monetárias, na ciência e
tecnologia e em muitos outros campos da cooperação internacional, que, de
muitas maneiras, têm construído pontes de relacionamento e de entendimento
entre povos e nações. Muito provavelmente esses desenvolvimentos já foram muito
além do que Montesquieu, Kant e outros pensadores da tradição do "suave
comércio" um dia imaginaram.
As organizações internacionais no século XXI em perspectiva
O esforço de elaborar uma visão sobre o futuro é sempre condicionado, de um
lado, pela experiência histórica e, de outro, pela impossibilidade de prever
desenvolvimentos inesperados. Apesar de tudo, pode-se estabelecer alguns
possíveis desdobramentos a partir das atuais circunstâncias e algumas
dificuldades a serem enfrentadas nos próximos anos pelas organizações
internacionais.
De uma forma geral, como já foi destacado anteriormente, as relações
internacionais tornaram-se uma dimensão inerente à vida civilizada na
modernidade e essa dimensão depende de muitas formas do bom funcionamento de
uma ampla rede de organizações internacionais, sendo praticamente impossível
pensar numa alternativa a essa possibilidade que não esteja associada a uma
drástica deterioração das condições de vida na atualidade. Isto é, qualquer
recuo nessa tendência parece inevitavelmente associado a elevação dos níveis de
intolerância e a outras circunstâncias dramáticas que representariam um
verdadeiro recuo nos padrões de convivência civilizada da humanidade. Os níveis
de bem estar de que hoje desfrutam as sociedades dependem de forma
significativa das muitas maneiras pelas quais indivíduos e instituições
interagem no plano internacional. Para a maioria dos países ricos a renda
nacional depende em um terço ou mais do comércio exterior. Economias
importantes como a da Alemanha, da França, da Grã-Bretanha ou da Holanda
dependem em mais de 40% do comércio com outros países. O volume total do
comércio internacional supera hoje a casa dos US$ 10 trilhões e calcula-se que
os fluxos financeiros internacionais sejam cem vezes maior. Obviamente essas
são apenas algumas cifras mais visíveis, mas há inúmeras outras formas pelas
quais o modo de vida na modernidade e os níveis de bem estar dependem de forma
substancial da interação internacional.
No plano mais específico das organizações internacionais não é possível
analisar as perspectivas que se apresentam individualmente para essas
entidades. Todavia, é possível identificar algumas forças ou tendências que
atuam sobre a ordem internacional e que devem influenciar o futuro das
organizações internacionais.
Em primeiro lugar, as organizações internacionais são organismos vivos que se
transformam ao longo do tempo acompanhando as mudanças sociais e políticas.
Desde 1945 a Organização das Nações Unidas vem passando por mudanças seja no
número de países membros, que se tornou praticamente quatro vezes maior, ou de
suas atribuições, que passaram a incluir uma grande quantidade de novos itens
em sua agenda de preocupações. Uma possível reforma da ONU, que incluiria
mudanças na composição do Conselho de Segurança, tem se revelado um
empreendimento particularmente difícil. Muito embora haja consenso de que a
composição atual do Conselho de Segurança não reflete mais as necessidades da
ordem internacional, as alternativas de reforma apresentam inúmeros aspectos
controvertidos, difíceis de serem superados. Por exemplo, se forem mantidas as
atuais regras e se forem atendidas todas as demandas (somente as mais
significativas e representativas) o número de países com direito a veto pelo
menos dobraria, dificultando ainda mais o processo decisório e a capacidade de
ação efetiva da Organização em situações de crise. Por outro lado, entre os
possíveis "candidatos naturais" a ocuparem uma vaga permanente no Conselho de
Segurança, talvez o Brasil seja um dos casos menos controvertidos no momento,
mas dificilmente seria feita a inclusão isolada de qualquer novo país como
membro permanente do Conselho de Segurança. Além disso, outras instâncias como
o G-8, por exemplo, também se apresentam, sob muitos aspectos, como instâncias
alternativas para o encaminhamento de muitas questões mundiais. Alguns
problemas globais como aqueles relacionadas ao meio ambiente e à proteção dos
direitos humanos bem como à ajuda humanitária tiveram avanços institucionais
consideráveis nas últimas décadas e, muito embora possam eventualmente sofrer
alguns percalços e até mesmo recuos, a natureza dessas questões e suas
implicações para o bem estar e para a ordem política indicam que deverão
continuar avançando, seja no âmbito do sistema Nações Unidas ou fora dele.
Arranjos informais como o G-8 podem ter um papel de grande importância na
construção de consensos sobre questões importantes para a ordem internacional.
No campo das relações econômicas internacionais, o Fundo Monetário
Internacional de hoje tem muitas características ou funções que não existiam
quando de sua criação, enquanto muitas daquelas para as quais fora criado, como
a de ser a principal instituição responsável pela administração da liquidez
internacional, virtualmente deixaram de existir. O manejo do equilíbrio entre
as economias hoje depende apenas parcialmente dos instrumentos de ação do FMI,
ao mesmo tempo em que a instituição foi, gradativamente, assumindo um curioso
papel de auditor internacional das contas internas e externas dos países
endividados. Essa transformação ocorreu em grande parte porque os
desequilíbrios nos balanços de pagamento cresceram a tal ponto que tornaram
irrisórios os recursos e os mecanismos do FMI para manejar esses
desequilíbrios. Na verdade, desde a sua fundação, os recursos postos à
disposição do Fundo pelo mecanismo de quotas sempre foram insuficientes para
enfrentar situações de desequilíbrio mais graves, e o crescimento da economia
internacional apenas agravou essa insuficiência. Os empréstimos do Fundo ainda
continuam servindo para equilibrar as contas externas dos países, mas apenas
quando esses desequilíbrios são relativamente pequenos e ocasionais. Em
situações mais críticas, geralmente decorrentes não de desequilíbrios
comerciais mas de crises financeiras, o Fundo tem atuado como principal
elemento catalisador de empréstimos de fontes variadas e não como provedor de
fundos para estabilizar economias em dificuldades.
Sob muitos aspectos essas mudanças no papel desempenhado pelo FMI deverão estar
associadas a desenvolvimentos que venham a ocorrer no atual quadro do sistema
monetário internacional e esse é um quadro difícil de prever. A força do dólar
americano e a afirmação do euro como moeda internacional são apenas duas entre
as muitas variáveis que deverão influenciar a conformação do sistema monetário
internacional nos próximos anos. Mas, a economia internacional é muito dinâmica
e há outros desenvolvimentos em curso na ordem econômica e política que podem
produzir mudanças inesperadas. De uma forma geral, no entanto, é possível
entender que mesmo que a economia americana continue com seu papel de principal
economia do mundo, outros centros de poder continuarão a emergir e aumentar sua
importância relativa dentro do sistema, fazendo com que o Fundo Monetário
Internacional, provavelmente reforçado por outras instâncias como o G-8, o
Forum Econômico Mundial, o Bank for International Settlements e o próprio Banco
Mundial, tenha, cada vez mais, um papel de coordenação e de construção de
consensos.
No campo do sistema financeiro internacional não é muito diferente. As mudanças
sofridas refletem, de um lado, mudanças bastante radicais na concepção da
cooperação internacional para o desenvolvimento e, de outro, o reordenamento
dos fluxos financeiros a partir da desregulamentação e do revigoramento dos
mercados privados de capitais. O Banco Mundial, que um dia tivera o papel de
elemento central do sistema, como instituição tipicamente intergovernamental,
também vem reorientando seu papel e suas atividades.
Até meados dos anos 1970, a cooperação financeira internacional era entendida
essencialmente como fomento a projetos de desenvolvimento que, notadamente,
incluía a construção de infra-estrutura econômica a partir da premissa de que
havia um considerável número de países cuja pobreza derivava fundamentalmente
da idéia de que eram economias carentes de poupança interna e que nos capitais
externos estaria a chave para a industrialização e o desenvolvimento. Recursos
do Banco Mundial e de agências de fomento ao desenvolvimento regionais e
bilaterais eram destinados a esses países mediante projetos que demonstrassem
seu potencial de geração de atividade econômica. Nessa estratégia, as economias
centrais (em especial os Estados Unidos), por sua vez, se beneficiariam de duas
formas: primeiro, pela venda de equipamentos e outros produtos necessários ao
processo de industrialização das economias periféricas e, em seguida, com o
avanço da modernização, esses países poderiam se tornar mercados cada vez mais
importantes. Contudo, essa estratégia de atuação foi, pouco a pouco, sendo
abandonada diante de alguns desenvolvimentos observados a partir dos anos 1970.
A crise do petróleo, ao produzir um ambiente de recessão internacional, trouxe
consigo uma redução substancial na disponibilidade de recursos para programas
de fomento ao desenvolvimento. Além disso, a crise pôs a descoberto o fato de
que a carência de poupança interna não era suficiente para explicar a falta de
recursos para investimentos nas sociedades pobres. Os países da Opep, na
esteira dos sucessivos aumentos de preço do petróleo, receberam uma maciça
transferência de recursos internacionais, muito maior do que os países da
Europa haviam recebido com o Plano Marshall. Dados do Conselho Nacional do
Petróleo (CNP) mostram que o Brasil, por exemplo, em 1973, ano em que foi
deflagrado o primeiro choque nos preços do petróleo, gastou US$ 947 milhões com
a importação de petróleo. No ano de 1974 esses gastos haviam se elevado para
US$ 3,15 bilhões9 e essas cifras já atingiam a quantia de US$ 10 bilhões na
virada daquela década. Nessa época cerca de 90% das importações de petróleo
feitas pelo Brasil vinham do Oriente Médio. Apesar de tudo, não se observava
nenhum resultado significativo em termos de desenvolvimento econômico que
beneficiasse de forma geral a população desses países. Em sua maior parte, os
recursos que afluíam de forma maciça para os países exportadores de petróleo
tinham outro destino. Além do aumento do consumo conspícuo das elites e de
compras de armamentos, o que se verificou foi o re-investimento da maior parte
dos saldos dos petrodólares no sistema financeiro internacional.
Posteriormente, a crise do endividamento do Terceiro Mundo dos anos 1980 foi
mais um fato que contribuiu significativamente para alterar a percepção do
significado da cooperação internacional para o desenvolvimento, contido nas
estratégias de ação dessas instituições de fomento, notadamente do Banco
Mundial. A crise da dívida tornava evidente que a estratégia de crescimento
havia se esgotado. Os programas de fomento sofreram drásticas reduções e
reorientaram suas prioridades passando a contemplar principalmente projetos
voltados para áreas como a promoção da saúde pública, a recuperação e
preservação de recursos ambientais e a proteção e promoção de minorias.
Entidades como o FMI e o Banco Mundial não deverão deixar de existir num futuro
próximo, mas com certeza deverão continuar sofrendo mudanças em face de
transformações como, por exemplo, um possível fortalecimento da União Européia
e do euro como moeda internacional importante, ou de um novo papel para a
economia asiática. Além disso, a evolução de iniciativas como a Área de Livre
Comércio das Américas (Alca) pode ter um papel significativo na conformação de
novos perfis para a cooperação econômica internacional. As incertezas quanto à
implantação da Alca residem em vários pontos e não apenas numa possível
aceitação por parte dos Estados Unidos de demandas do Brasil e de outras
economias importantes da região. Um aspecto sempre importante a ser considerado
é o fato de que a perspectiva dos Estados Unidos é, antes de mais nada, uma
perspectiva mundial para quem a política internacional se confunde com os
interesses nacionais e regionais. Dessa forma, é inevitável que dificuldades e
benefícios advindos da evolução da ordem internacional tenham reflexos diretos
sobre o desempenho de arranjos regionais de que os Estados Unidos façam parte.
No passado, as economias mais diretamente relacionadas com a Grã-Bretanha se
beneficiaram de ciclos de crescimento daquela potência, no entanto, quando as
dificuldades surgiam na ordem econômica internacional, considerável parte do
esforço adicional da Grã-Bretanha para manter seu papel de economia central do
sistema monetário e financeiro, invariavelmente, recaía sobre sua periferia
mais próxima. Por outro lado, mesmo sem a constituição da Alca, os Estados
Unidos já são há muito tempo, individualmente, o parceiro comercial e
financeiro de maior peso para o Brasil e para outras economias da região e,
dessa forma, os efeitos estabilizadores ou desestabilizadores da economia
americana sobre a região ocorrerão de qualquer forma.
Uma questão mais geral afeita a todas essas organizações, incluindo-se a
própria ONU, é a questão da distribuição das responsabilidades internacionais.
Paz, estabilidade, crescimento econômico e, mais recentemente, preservação das
condições ambientais do planeta são bens cujo provimento, bem como seu
usufruto, obedecem a mesma lógica de todos os bens públicos: os atores tendem a
ser free riders quanto ao provimento desses bens públicos, uma vez que seu
usufruto não pode ser particularizado e restrito apenas àqueles que
presumivelmente teriam pago por esses bens. Nesse quadro, talvez a pergunta
mais fundamental a ser respondida nesses próximos anos é saber até que ponto as
nações, sobretudo as grandes potências, incluindo-se os Estados Unidos, estão
dispostas a participar de um esforço de concertação internacional e de
construção efetiva de uma ordem que contemple as demandas por paz e progresso
da grande maioria das sociedades organizadas do mundo. Obter um consenso a
respeito dessa questão é muito difícil; significa aceitar regras de convivência
e também custear os arranjos institucionais que se fizerem necessários. De uma
forma geral, todas as nações defendem o multilateralismo, argumentam em favor
do desenvolvimento de formas de convivência pacífica e se mostram cooperativas
a menos que, de alguma forma, surja uma circunstância em que, no seu entender,
algum interesse fundamental está em jogo. O grande problema é definir esse
interesse fundamental e fazer com que outros compreendam a questão da mesma
maneira. Além disso, por que as dificuldades circunstanciais de uma potência
não deverão ser interpretadas e manejadas como oportunidades e vantagens para
outras nações?
Nesse processo, um eventual fracasso de uma negociação acerca de uma questão
internacional não pode ser entendido como o fracasso de todo um sistema ou a
impossibilidade de se promover um tema de interesse para a convivência
internacional. A constituição de instâncias internacionais não é um processo
simples e também não é linear. Está sujeito a turbulências e muitas vezes a
recuos. Sucesso ou fracasso não podem ser identificados apenas pela criação ou
abandono de um foro de negociação. Essas são apenas a parte visível do trabalho
e do produto da diplomacia multilateral, com suas limitações e com sua
característica fundamental, que é a continuidade. Com efeito, há objetivos e
interesses conflitantes e concorrentes que se alteram ao longo do tempo e que
são difíceis de serem acomodados, suscitando continuamente questões nada fáceis
de serem respondidas a não ser pela ação política tolerante e paciente. A
autoridade é necessária para manter a ordem internacional, mas como construir
essa autoridade se ela depende diretamente da decisão política dos Estados?
As respostas dependem de visões por vezes bastante díspares e acomodá-las não é
tarefa fácil. Os avanços conseguidos até o momento não são suficientes, mas são
bastante significativos quando vistos sob a ótica da história. A paciência e a
tolerância são valores que a cristandade aprendeu a valorizar porque sofreu
tanto o peso de perseguições e martírios quanto a tragédia de perseguir
cruelmente uns aos outros. Locke, em fins do século XVII, dedicou uma
importante reflexão em favor da tolerância entre cristãos,10 mas essa era uma
época em que, para os europeus, o mundo praticamente se confundia com a Europa.
Hoje a diversidade é muito maior e, apesar de todos os avanços nas tecnologias
de comunicação e da retórica da globalização, o entendimento entre povos e
nações continua um desafio. David Hume argumentava que nossos julgamentos em
qualquer área, apesar do contínuo esforço de buscar suporte na razão, em última
instância, se fundam essencialmente nos sentimentos humanos.11 Esses
sentimentos são cambiantes e variam de acordo com percepções fundadas em
ideologias e visões sobre riscos, interesses e oportunidades. Nesse quadro,
construir e participar de instituições internacionais é uma das formas mais
valiosas de aprimorar a convivência humana em nosso tempo, mas também não se
pode esquecer de que essa é uma dedicação que exige, antes de mais nada, um
exercício continuado de paciência e tolerância.
Junho de 2003
1 124 vezes pela União Soviética; 82 pelos Estados Unidos; 33 pela Grã-
Bretanha; 22 pela China; e 18 pela França (FUJITA, E. O Brasil e o Conselho de
Segurança. Parcerias Estratégicas. Vol. 1, n. 2, dez. 1996. p. 96. )
2 JERVIS, Robert. The logic of images in international relations. New Jersey:
Princeton University Press, 1970.
3 LUARD, E. Conflict and peace in the modern international system. A study of
the principles of international order. Macmillan Press & State University
of New York, 1988.
4 SAINT-PIERRE, Abbé de. Projeto para tornar perpétua a paz na Europa.Brasília:
IPRI/FUNAG, Editora Universidade de Brasília; São Paulo: Imprensa Oficial do
Estado de S. Paulo, 2003.
5 FENWICK, C. G. A Organização dos Estados Americanos. O sistema regional
inter-americano. Rio de Janeiro: Edições GRD, 1965.
6 KEYNES, J. M. As Conseqüências Econômicas da Paz. Brasília: IPRI/FUNAG,
Editora Universidade de Brasília; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de S.
Paulo, 2002.
7 GARCIA, E. V. O Brasil e a Liga das Nações (1919-1926). Porto Alegre: Ed. da
UFRGS, 2000.
8 MONTESQUIEU. O Espírito das leis. Livro 20, cap. II. p. 358. Brasília:
Editora Universidade de Brasília, 1982. Sobre a tese do "suave
comércio", ver também HIRSCHMAN, A. O. A Economia como Ciência Moral. São
Paulo: Editora Brasiliense, 1986.
9 SINOPSE ESTATÍSTICA DO BRASIL. Rio de Janeiro: Fundação IBGE, 1977. p. 321-2.
Os preços do barril de petróleo passaram de US$ 1,85 para US$ 4,76 em outubro
de 1973 e, em janeiro de 1974, já atingia US$ 10,96.
10 LOCKE, J. Essay concerning human understanding. 1690.
11 HUME, D. Essays: moral and political. 1741.