Argentina: entre o Mercosul e a Alca
Introdução
Uma interpretação "aristotélica" do título deste documento indicaria que a
Argentina, apesar de ter impulsionado o Mercosul, mantém ainda, entre a
integração sub-regional e a integração hemisférica, uma opção em aberto. Como
será possível ver na análise que segue, na realidade atual, trata-se
sobremaneira de uma confluência, na qual o Mercosul vai transformando-se em um
caminho que leva à ALCA. Mas esta mudança ' partindo do pressuposto de que a
união alfandegária tivesse sido desenhada como uma estratégia independente da
evolução de outros esquemas de integração (sub-regionais ou hemisféricos) ' não
teria sido possível sem que outros elementos confluíssem; primeiro, que a opção
pela integração do cone sul fosse a de um modelo em direção à globalização e
não em direção à regionalização estratégica (Bernal-Meza, 2000; 2000ª);
segundo, que o Brasil, nos anos recentes, não tivesse dado sinais ambíguos
sobre seu posicionamento, terminando com a atual decisão de ir à ALCA.
Para abordar a evolução da posição argentina, serão expostas, primeiramente, as
linhas gerais da política exterior do presidente Menem, sob cuja gestão se
desenhou, implementou e desenvolveu o Mercosul, e o surgimento da Iniciativa
para as Américas, da qual derivaria a proposta da ALCA. Em seguida,
identificar-se-ão o "velho" e o "novo" presentes na atual política exterior do
presidente De la Rúa. Em ambas etapas, será analisada brevemente a posição que
ambos os esquemas de integração ocuparam na política exterior até o presente,
identificando as percepções e leituras de outros atores domésticos, depois do
que serão apresentadas algumas conclusões.
A política exterior argentina durante o período do nascimento e desenvolvimento
do Mercosul
Realismo periférico e política exterior
Assim como visto na literatura, a comunidade epistêmica que fundamentou a
política exterior de Menem manifestou uma interpretação revisionista da
história do desenvolvimento argentino e de sua inserção internacional (Escudé,
1992; 1995; De la Balze, 1997), sobre a qual se sustentou o modelo de política
conhecido como "realismo periférico" (Escudé,1992). De acordo com esta
interpretação, o país, que num momento histórico pertenceu ao mundo
desenvolvido, abandonou-o por decisão própria ' ao implementar políticas
incorretas e internacionalmente conflitantes, em particular, de competição e
confrontação com os Estados Unidos ' diante do qual o caminho para reverter o
atraso argentino passava pela aplicação de uma nova política exterior, que
transformasse as relações bilaterais com a potência hegemônica em uma aliança
de longo prazo.
Sob a gestão presidencial de Carlos Menem, a Argentina, envolvida em uma
política de abertura e desregulamentação, cujas bases tinham sido lançadas a
partir da política implementada pelo regime militar em 1976, apoiou a
reformulação do programa de integração argentino-brasileiro implementado por
Sarney e Alfonsín.
Menem, seguindo uma política neoliberal e sob os delineamentos do realismo
periférico (Escudé, 1992; 1995; Bernal-Meza, 1994), lançou a Argentina em uma
nova política econômica e em uma nova política exterior, as quais se mantiveram
coerentes durante os dez anos de seu governo (1989-1999). Sua gestão ultimou um
processo de reformulação das concepções e políticas públicas que, com
diferentes matizes, tinham sido dominantes até 1976 e ' com reformulações
heterodoxas na política econômica ' até 1989. Como é possível imaginar, tanto a
reformulação do papel do Estado e da política pública, como as medidas que
delas sobrevieram, também implicaram uma nova visão das relações internacionais
sobre as quais a Argentina buscava uma re-inserção. A adoção desta nova
perspectiva, com suas implicações diretas sobre o Mercosul, significava ' em
termos de política exterior ' três posições básicas (Bernal-Meza, 2000): 1) uma
aliança com as potências vencedoras da guerra fria, particularmente com os
Estados Unidos; 2) a aceitação das novas regras do jogo da economia e da
política mundiais na construção da "nova ordem" (unipolarismo; globalização);
3) um aprofundamento dos vínculos transnacionais, mediante a aplicação de uma
política econômica de abertura, desregulamentação, privatizações e retração do
Estado.
O modelo "Mercosul" e as relações com o Brasil
Do ponto de vista do contexto internacional, o Mercosul, refletiu na sub-
região, o impacto das políticas e concepções ideológicas que seriam
predominantes na economia política mundial depois do fim da Guerra Fria: a
acelerada expansão do capitalismo global e a incontrastável hegemonia norte-
americana sob o novo mundo unipolar.
Tanto o "Consenso de Washington" (1989), como a Iniciativa para as Américas
(1990), constituíram ' certamente ' mensagens diretas, que seriam lidas como as
cartilhasdas políticas públicas latino-americanas e que marcariam o estreito
vínculo entre as políticas domésticas e as políticas externas. O Mercosul seria
assim a expressão das "novas formas de integração", em conformidade com o
regionalismo abertoe a abertura e desregulamentação das economias. Seu destino
então deveria estar atado à lógica das iniciativas extra-regionais, à dinâmica
do processo de mundialização e à influência da visão ideológica o
u fundamentalista1
da globalização.
De fato, o advento do governo de Carlos Menem marcou uma nova inflexão,
drástica, de aprofundamento das políticas de ajuste estrutural e tanto neste
país, como no Brasil, sob a presidência de Fernando Collor e depois Fernando
Henrique, haveria coincidências na adoção do modelo econômico neoliberal.
Esta mudança se refletiu na nova concepção da integração, sob o paradigma do
regionalismo aberto (Bernal-Meza, 1994; 2000) e que prevaleceria durante os dez
anos do Mercosul. Para a Argentina, dada a predominância do enfoque comercial
eleito para o novo projeto de integração e o desinteresse em aprofundar outros
temas da agenda, o Mercosul passou a ser um instrumento conjuntural, tático, de
expansão comercial e, mais tarde, uma instância em direção à formação da ALCA.
Os Estados Unidos continuavam sendo o ator político mais importante de sua
agenda internacional; enquanto que o Brasil se encontrava ' paradoxalmente, em
função do destino de mais de 30% de suas exportações - no terceiro lugar em
seus objetivos de política exterior, depois da prioridade conferida à inserção
no capitalismo central e de sua aliança com os Estados Unidos (Bernal-Meza,
1998; 1999).
A posição em relação à ALCA
No período compreendido entre a reunião de cúpula presidencial de Miami (1994)
e Québec (2001), as posições da Argentina e do Brasil não foram coincidentes.
Em Miami, diante da posição entusiasta da Argentina, a do Brasil foi de grande
reserva e cautela.
O governo do presidente Menem nunca descartou por completo as possibilidades de
conseguir um acordo bilateral com os Estados Unidos ou de adiantar as
negociações sobre a ALCA. Estas dúvidas derivavam de três situações: em
primeiro lugar, as posições no interior do governo, entre aqueles que preferiam
uma aproximação aos Estados Unidos e à ALCA, sobrepondo as relações com o
Brasil ("comunidade epistêmica", Cavallo, Di Tella) e aqueles que queriam
manter a prioridade do eixo sul-americano (níveis intermediários de Economia e
da Chancelaria, assim como também, em parte, o próprio Menem). Em segundo
lugar, porque alguns setores, tanto do governo como da sociedade (grupos
econômico-financeiros), consideravam que a tarifa externa comum era um
impedimento para a tomada de decisões que melhorassem a competitividade da
economia argentina. Em terceiro lugar, porque a posição dos setores que
dominavam a estrutura de poder econômico na Argentina (setor financeiro e
grupos empresariais com monopólios) eram claramente favoráveis aos norte-
americanos e mantinham estreitos vínculos transnacionais.
Desde 1994, um documento interno (non paper) da Chancelaria argentina indicava
algumas contradições entre a união alfandegária do Mercosul e os objetivos de
curto prazo da Argentina. Ali se dizia que o país necessitava contar com
maiores graus de liberdade na política econômica para equilibrar a sua balança
comercial, sem afetar o seu nível de atividade, algo que a resignação dos
instrumentos de política comercial que a união alfandegária impunha tornava
incompatível (Bernal-Meza, 1994:274).
Contudo, a reunião de cúpula de Quebec marcaria a confluência: o Brasil
aproximou-se da posição argentina e agora aceitava negociar a ALCA. Mais ainda,
começava a manifestar sinais claros de transformar-se (ou aspirava fazê-lo) no
interlocutor regional dos Estados Unidos.
A política exterior de De la Rúa
O velho e o novo na política exterior da Aliança
Ainda que durante a campanha eleitoral não houvesse abertas ou manifestas
declarações que fizessem presumir mudanças drásticas na política exterior, em
relação àquela seguida por Menem, a cidadania votou de forma majoritária,
evidentemente, por "mudanças em geral".
O novo Presidente manifestou de forma reiterada, desde os primeiros dias do seu
governo, que as relações com o Brasil e o fortalecimento da integração do cone
sul eram seus principais objetivos externos. Essas declarações foram
reafirmadas através das primeiras visitas ao exterior, justamente ao Brasil e
ao Chile.
Desde os primeiros dias da sua gestão (dezembro de 1999), o novo governo
procurou diferenciar-se do anterior. Não obstante, como esses esforços não
foram percebidos no âmbito da política econômica ' já que no primeiro ano de
governo De la Rúa aplicaria dois ajustes, os quais afetaram exclusiva e
diretamente os trabalhadores, assalariados e classes médias ' foram feitas
declarações abertas à respeito de uma gestão diferenciada do Ministério de
Relações Exteriores, sob a responsabilidade de um economista conservador, como
o era Adalberto Rodríguez Giavarini.
No discurso do dia 21 de dezembro de 1999, na ocasião da posse de seus
colaboradores imediatos, o Chanceler expressava que o novo caminho eleito pelos
cidadãos (ao terem optado pela Aliança), favorecia a ampliação da democracia.
Fazer do Ministério de Relações Exteriores um instrumento que colaborasse na
geração de uma nova e imprescindível "previsibilidade e confiabilidade" vis-à-
vis com o mundo desenvolvido, implicava coerência nas iniciativas e decisões e
a elaboração de políticas de Estado sobre aqueles temas considerados como
"interesses primordiais" do país: a integração política e econômica sul-
americana como um objetivo central; a consolidação da paz e a segurança
internacionais e a democratização do sistema internacional2.
Destas primeiras linhasde política, poder-se-iam perceber dois elementos
relevantes: 1) a integração (Mercosul, América do Sul) e 2) a incorporação de
uma visão, por outro lado, ética e normativa sobre o sistema internacional.
O posicionamento diante do Mercosul e a evolução das relações com o Brasil: a
revisão dos objetivos políticos
Até o final de 1999 (término do mandato de Carlos S. Menem) e janeiro de 2001
(entrada do novo Chanceler brasileiro, Celso Lafer), os objetivos da Argentina
e do Brasil em relação ao Mercosul estavam claros, mesmo que não tivessem sido
alcançados plenamente (Bernal-Meza, 1998; 1999: 2000).
Enquanto para o Brasil o Mercosul tinha sido concebido como um instrumento para
a redefinição da sua inserção internacional (Hirst, 1992), no marco de uma
política de abertura (liberalização) econômica, iniciada por Collor e
continuada em seguida por Fernando Henrique Cardoso, cujo primeiro desafio era
passar de uma economia fechada para outra mais aberta e competitiva, aumentando
o poder de negociação e a extensão dos mercados por meio da integração
econômica, para a Argentina, sob a administração Menem, comprometida mais
profundamente com uma política neoliberal, o Mercosul foi um instrumento de
expansão comercial.
A Argentina alcançou este objetivo: houve uma expansão do comércio e um aumento
das exportações para o Brasil. Sua balança comercial bilateral apresentou um
superávit durante grande parte do período. Mas o desvio de comércio gerado pelo
Mercosul, apesar do componente de maior valor agregado (manufaturas de origem
industrial), que representou quase 40% das exportações totais ao Brasil, em
termos globais acentuou o caráter primário das suas exportações, gerando um
subsistema centro-periferia de intercâmbios bilaterais, com o qual a Argentina
aprofundaria sua inserção internacional baseada em vantagens comparativas
estáticas. Por sua parte, dentro do padrão de comércio norte-sul que tem
caracterizado historicamente o comércio bilateral entre a Argentina e os
Estados Unidos, este foi deficitário para Argentina. Comparativamente, enquanto
o comércio com o Brasil, entre 1995 e 2000 apresentou um saldo positivo de US$
5.335 milhões, o comércio com os EUA resultou negativo, no mesmo período, por
US$ 17.029 milhões.
De acordo com as cifras de INDEC, para o ano 2000 as exportações argentinas de
manufaturas de origem industrial para o Brasil totalizaram US$ 3.3 bilhões
(40,2% do total), enquanto que para os Estados Unidos este setor representou
somente US$ 1.08 bilhões (13,1% do total).
Neste contexto, como explicar as posições contrárias a uma integração cujo
comércio bilateral tem sido positivo?
Um dos argumentos, de ordem econômico-estrutural, tem sido baseado no caráter
centro-periferia do comércio. Mas outro, político, tem sido sustentado,
permanentemente, sobre uma visão negativa sobre o Brasil, em relação aos poucos
avanços em matéria de coordenação econômica alcançados entre ambos países e às
posições divergentes em política exterior, particularmente as que se expressam
nas respectivas relações com os Estados Unidos e suas agendas.
Para enfrentar a recente etapa da crise estrutural argentina (fevereiro - março
de 2001), o governo convocou o ex-ministro da gestão de Menem, Domingo F.
Cavallo, para assumir a condução do ministério da Economia. A troca incidiria
sobremaneira no debate Mercosul - ALCA.
Dentre os poderes especiais que Cavallo solicitou para enfrentar a crise,
estava o de uma maior ingerência da Economia na administração da política
exterior. Ainda não está claro quanto deste espaço lhe foi concedido por De la
Rúa, mas a certeza é que o autor da "Convertibilidade", desde o seu retorno à
atividade oficial, caracterizou-se por suas permanentes declarações públicas,
sobre o Mercosul, a ALCA e as relações com o Brasil. Segundo indicou a
imprensa, a síntese da estratégia inicial de Cavallo para o Mercosul e a ALCA
era uma "reprogramação total do Mercosul". Segundo a Gazeta Mercantil (semana
de 26 de março a 1 de abril de 2001), citando declarações de um dos assessores
do ministro ao jornal El Cronista, a reformulação do Mercosul passava por:
"Primeiro, implica exigir do Brasil uma rápida constituição de um verdadeiro
mercado comum. Como o Brasil não vai fazê-lo, isso nos daria liberdade de ação
e passaríamos a uma zona de livre comércio, onde recuperaríamos toda a nossa
liberdade comercial, e isso nos permitiria buscar um acordo bilateral com os
Estados Unidos". As posições de Cavallo têm evidenciado abertas contradições
com os pronunciamentos do Chanceler Giavarini e do próprio De la Rúa.
Predisposição para negociar a ALCA
A virada para a direita que o governo de De la Rúa realizou, constituindo uma
nova aliança de apoio com Cavallo, potencializa as posições dos setores mais
liberais que sempre viram melhor a alternativa ALCA do que o aprofundamento do
Mercosul. Machinea, antes de deixar o seu cargo na Economia, já falava em
antecipar as negociações da ALCA.
A visão de Cavallo sobre o Mercosul
Em um livro que coincidiu com a sua chegada ao Ministério da Economia, Cavallo
afirma que "a tarifa externa comum não convém a ninguém". Mais tarde, em
público, indicou que "o Mercosul deveria concentrar os seus esforços na
expansão do livre comércio em todos os demais países da América do Sul e em
conseguir a plena integração de todos os seus fatores de produção, o que era
muito mais importante que discutir em função da Tarifa Externa Comum"3.
Cavallo representa a continuidade da vigência do pensamento de setores que
foram dominantes durante o governo de Menem (sua "comunidade epistêmica": a
aliança com os Estados Unidos, a visão da integração do Mercosul como um
caminho de liberalização comercial em direção à ALCA; as percepções críticas
sobre o Brasil, tanto voltadas para a sua política externa ' particularmente em
relação com os Estados Unidos, que é vista como conflitiva e distorsionadora de
uma necessária comunidade de interesses hemisféricos 'como no que diz respeito
à capacidade de suas lideranças governamentais de gerar cenários econômicos de
estabilidade) e também de setores atuais do radicalismo (governo) e da
Chancelaria.
Desde este setor, hoje identificado na figura de Cavallo, dois problemas
separam a Argentina do Brasil: os cenários prováveis para o Mercosul e a
posição diante dos Estados Unidos e da ALCA.
Sobre o primeiro, enquanto este grupo impulsiona um retrocesso do Mercosul em
direção à uma zona de livre comércio, o Brasil (em princípio) apoiava a
continuidade, o statu quo atual do bloco. Em relação ao segundo, na medida em
que este setor argentino está a favor da proposta norte-americana de acelerar a
assinatura de tratados bilaterais de comércio, o Brasil favorece uma negociação
em bloco e o mais protelada possível, ou seja, o já estabelecido (2005). Como
indicou a imprensa, "Cavallo quer flexibilizar o enquadramento do Mercosul e
aproximar-se, com alianças bilaterais, dos Estados Unidos. Na Chancelaria,
preferem não irritar os brasileiros e não voltar às relações carnais"4.
A mudança da visão argentina sobre o Brasil
Para o novo grupo que conduz a política econômica argentina, o Brasil é visto
como um sócio que padece de grande instabilidade cambial e econômica, fato este
que dificulta a realização de acordos de coordenação.
Defende-se, então, que a inserção argentina, sem descartar o Mercosul, deve
orientar-se em direção a outros blocos comerciais, em particular ao NAFTA. A
idéia é que esta aproximação asseguraria a estabilidade macroeconômica
argentina.
A nova política tarifária
A redução das tarifas para 14% (extra-Mercosul) para bens de capital, peças e
partes, que provocou um conflito político com o Brasil5, está complementada com
um aumento das tarifas de importação de bens de consumo final, elevando-os até
35%, que é o máximo permitido pela Organização Mundial de Comércio. Inclui
aqueles produtos comercializados dentro do Mercosul que até agora estavam
ausentes de tarifas; medidas protecionistas que serão mantidas até dezembro de
2002.
Estas medidas, de caráter heterodoxo, que se afastam do receituário do FMI, não
implicavam um retorno ao protecionismo, em relação a um enfoque "regionalista"
do Mercosul. Eram, simplesmente, medidas ' dentro do mesmo modelo econômico '
que indicavam a diminuição do impacto que a convertibilidade teve sobre o
emprego e sobre a competitividade das exportações. (Bernal-Meza, 2001).
A posição de outros atores (econômicos, sindicais e políticos) diante da ALCA
Os atores sociais, políticos e econômicos argentinos iniciaram atrasados as
suas avaliações sobre a ALCA. Foi no princípio de outubro de 2000, quando uma
equipe ad hoc da União Industrial Argentina (UIA) preparou um memorandum para a
Chancelaria argentina, no qual eram identificadas, inicialmente, as áreas de
preocupação sobre as quais o empresariado industrial desejava ser consultado.
Para o presidente da UIA, Osvaldo Rial, a discussão em torno da data de
integração argentina à ALCA é uma questão fundamental. O dirigente afirmou que
"Deve-se buscar o consenso dentro dos 34 países sem acelerar os tempos como
pretendem os Estados Unidos" e que "pensar em adiantar as datas é um erro"6.
Por sua vez, o presidente da Federação Agrária Argentina (FAA), Eduardo Bussi,
aderindo ao protesto contra a ALCA, organizado pela CTA (central sindical
dissidente) em repulsa a um possível acordo de integração Mercosul-ALCA,
manifestou sua oposição ao mesmo, expressando que "um hipotético bloco regional
único deixará a Argentina como dependente da América do Norte ' acrescentando
que ' a FAA ratifica a necessidade de fortalecer o Mercosul como bloco
regional, mesmo com as respectivas modificações. Se ficarmos à disposição de um
único bloco como é a ALCA, com uma economia dominada pelos Estados Unidos,
vamos a caminho de ser subserviente à economia norte-americana e aos grupos
concentrados no país do norte (...). Com uma postura em conjunto com todas as
organizações gremiais e sociais, rejeitamos a ALCA em defesa do nosso trabalho
e da nossa produção"7.
O único setor empresarial que vem expressando apoio aberto e público às
posições defendidas por Cavallo, em prol de uma liberalização do Mercosul e de
uma aproximação aos Estados Unidos e à ALCA, tem sido o setor financeiro,
grande beneficiado com a política neoliberal seguida desde 1976.
Por sua parte, o setor sindical, representado por seus diferentes agrupamentos,
manifestou permanentemente o seu apoio ao Mercosul e o seu rechaço à ALCA.
Tanto a Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA), como a CGT (Confederação
Geral do Trabalho) dissidente, organizaram atos e passeatas de apoio ao
Mercosul e contra uma integração do mesmo com a ALCA.
No espectro político existem duas posições claras: aquela representada pelos
setores cavallistas (incluindo o menemismo) e a que representa os máximos
referentes da coalizão de governo, Raúl Alfonsín e Carlos Alvarez. Estes
últimos propõem como meta fortalecer o Mercosul e, sobretudo, a relação com o
Brasil. Em encontros realizados desde fins de maio de 2001, um debate vem sendo
favorecido ' junto a outros espaços de reflexão ' sobre o presente e futuro da
Argentina diante do mundo, no qual situam, como eixo da discussão, o
posicionamento do país diante de ambos cenários de integração. Para ambos os
dirigentes políticos, deve ser privilegiada, sem exceção, a restauração da
relação com o governo de Fernando H. Cardoso, antes de qualquer aspiração ou
sonho inspirado nos Estados Unidos; advogando, também, um maior apoio à posição
mantida pelo Chanceler, em sua disputa com Cavallo. Segundo os partidários da
aliança, "o Mercosul é um projeto estratégico sério de integração econômica e
política que não deve desfazer-se"8.
A opinião do negociador argentino, Horacio Chighizola, expressa meses atrás,
salientava quatro premissas básicas sobre as quais foi desenhada a negociação
para a ALCA: 1) a decisão de negociar como parte de um bloco sub-regional,
apresentando uma posição única e coordenada em todas as áreas substantivas; 2)
a intenção de contar com uma agenda suficientemente ampla de forma a permitir
um avanço equilibrado, que reflita os interesses de todos os participantes do
processo, de maneira a reduzir as assimetrias iniciais existentes. A agenda
ampla deveria refletir um equilíbrio entre os chamados "novos temas da agenda
multilateral"(serviços, investimento, propriedade intelectual), proposta
principalmente pelos Estados Unidos e pelo Canadá, e os velhos temas da dita
agenda multilateral (acesso a mercados, agricultura, subsídios); 3) o
convencimento de que a ALCA redundaria em benefícios para a região, na medida
que levasse em conta os interesses particulares dos participantes; 4) o
reconhecimento da necessidade de conseguir um acordo com direitos e obrigações
comuns para todos os participantes do processo. A decisão é a de não permitir o
estabelecimento de outras ALCA diferenciais, ou seja, com previsão de direitos
e obrigações diferentes, dependendo do nível de desenvolvimento do país9.
Por último, vale a pena avaliar também as percepções da sociedade argentina. De
acordo com uma pesquisa realizada a fins de abril de 2001, o Mercosul tem 29%
de imagem positiva na opinião pública argentina, contra apenas 12% da ALCA. A
imagem do bloco sub-regional vem diminuindo à medida que as percepções e
expectativas foram reduzindo-se, à luz das dificuldades comerciais entre a
Argentina e o Brasil. Esse desgaste é advertido na diminuição da imagem
positiva que o Mercosul tinha em 1993, que era de 45% e que em 1997 Tinha caído
para 38%10. Outra pesquisa, sobre a relação do país com os Estados Unidos,
revelou que o tema é considerado um assunto muito importante por 69% dos
entrevistados, mesmo que aqueles que opinam a favor dessa questão sejam os
entrevistados com maior poder aquisitivo. Para 69% dos entrevistados pela
Gallup, a relação com o país do Norte é muito importante, enquanto 24% opina
que é pouco ou nada relevante, e somente 7% não têm opinião formada sobre o
tema11.
Uma avaliação preliminar da situação: As perspectivas de evolução
Desde a desvalorização do real, as relações bilaterais vinham deteriorando-se.
A partir da sua tomada de posse, o governo de De la Rúa tentou fortalecer a
relação. Assim, até o desencadeamento da "nova etapa de crise", com as medidas
implementadas pela Argentina em março e abril passados, ambos os países tinham
realizado pequenos progressos no seu relacionamento mútuo, em relação ao
Mercosul. No dia 28 de abril de 2000 os governos do Brasil e da Argentina
tinham realizado uma oferta conjunta de harmonização, quando os ministros de
Relações Exteriores de ambos os países assinaram um documento reservado, com a
finalidade de diminuir o impacto institucional de novas crises no Mercosul.
Para tal, houve progressos na previsibilidade, estabelecendo como data o mês de
março de 2001 para dar início à aproximação das políticas econômicas. O
primeiro passo era em direção à estandarização ou homogeneização das
estatísticas econômicas recopiladas pelos órgãos específicos de cada país.
Posteriormente, na Reunião de Cúpula de Florianópolis, em meados de dezembro de
2000, a Argentina e o Brasil progrediram em vários aspectos. Em primeiro lugar,
foi revisada a forma como se resolveriam as controvérsias que surgissem no
futuro, ratificando-se a situação de "estudo" para a criação de um Tribunal
Permanente de Arbitragem para resolver os conflitos comerciais do bloco, algo
que permitiria ao Mercosul adquirir uma maior segurança jurídica. Em segundo
lugar, avançando para uma maior liberalização unilateral do comércio, os países
do Mercosul concordaram em reduzir em meio ponto a TEC, a partir de janeiro
deste ano. Por último e no que diz respeito à situação futura da harmonização e
coordenação específica, chegou-se a um acordo sobre esta a partir de 2002,
sobre a base das variáveis macroeconômicas, com metas fiscais e de inflação
comuns. Como indicou então o presidente Cardoso, o acordo se baseava na
responsabilidade fiscal e na estabilidade monetária, coordenação que foi
alcançada antes do previsto (março de 2001).
Finalmente, em Assunção (14 de junho de 2001), argentinos e brasileiros
apresentaram um projeto comum de decisão para criar um grupo de alto nível que
reveja toda a estrutura da TEC. Posteriormente, em Brasília, Cavallo e Malán
convieram em pactar a favor da zona de livre comércio, flexibilizando
(diluindo) a tarifa externa comum, ainda que sem fazer desaparecer a união
alfandegária, o que se apresenta como de difícil compatibilização.
Como se poderá apreciar, na realidade não há discordância a respeito da ALCA e
o Mercosul entre as posições de ambos países, pois, de fato, a redução
progressiva da tarifa externa comum12 (com a anuência do Brasil) tende a
arrastar a TEC para baixo, diminuindo a proteção, aproximando-se assim cada vez
mais de uma Zona de Livre Comércio. Por outra parte, apesar da posição oficial
do governo argentino ser de respeitar as datas acordadas nas negociações
Mercosul-Estados Unidos, o problema central, que era a reticência e inclusive a
oposição brasileira em ir para ALCA, resultou em nada depois que Fernando
Henrique Cardoso aceitou oficialmente em Quebec a proposta norte-americana, nos
prazos e condições acordados desde Belo Horizonte (1997).
Vale a pena destacar que o Mercosul tem sido indicado pelo governo argentino
como um objetivo estratégico, parte da "política de Estado argentina" e
instrumento chave para a inserção e negociação externa. Como expressou o
presidente De la Rúa, "o Mercosul é nossa grande força e devemos ir à ALCA
tendo-o como base"; agregando que "o Brasil somente pediu que a ALCA não se
concretizasse antes de 2005 e esse pedido foi respeitado" 13.
Não obstante, mais do que atender às declarações, o que se deve levar em conta
é que para o governo atual, assim como o foi para o anterior, o tema continua
sendo o vínculo entre os dois cenários: Mercosul e ALCA. A relação entre ambos
projetos passa pelo futuro que ambos países decidam sobre o bloco sub-regional,
diante do qual seguem presentes os três cenários possíveis: união alfandegária,
zona de livre comércio ou continuidade do status quo (união alfandegária
incompleta ou em construção lenta).
Apesar das relações com o Brasil terem passado pelo filtro dos instrumentos de
política econômica e, politicamente, pelas declarações de Cavallo, elas não
expressam, atualmente, um estado de deterioração. A Argentina reafirmou sua
decisão em relação à nova oferta norte-americana. De fato, o chanceler
argentino rejeitou a oferta que, de maneira informal, lhe foi efetuada pelo
governo norte-americano, para negociar um acordo bilateral de livre comércio
como o que os EUA estão negociando com o Chile. O ministro Rodríguez Giavarini
afirmou que as negociações para ingressar na ALCA se realizarão através do
Mercosul, reiterando que "nós cumprimos com os tratados internacionais, nossos
compromissos com o Mercosul, e negociaremos através dele"14. Contudo, a
presença de duas opiniões distintas no governo argentino criou um manto de
dúvidas sobre o Mercosul e debilitou ainda mais a sua imagem externa. Um
diplomata brasileiro declarou que "a chancelaria argentina revela que o país
quer manter a união alfandegária. Mas, com essa divisão interna na Argentina,
não se pode esperar que haja espaço para grandes inovações no bloco"15.
A sucessão de fatos dos últimos meses, desde a etapa de crise de fevereiro,
quando a Argentina ingressou em um quase default, são significativamente
contraditórios. Tudo pareceu propício para a dissolução do Mercosul e, em uma
combinação que reflete as contradições com que se movem ambos os governos,
esses sinais se combinaram com novas coincidências e manifestações de apoio do
Brasil à Argentina. No meio permaneciam as ameaças de um e outro lado ("assim
como Fernando Henrique Cardoso decidiu de um rompante pôr a Argentina como o
principal provedor do Brasil, também de um rompante pode decidir o contrário",
ou "Se o Brasil não aceita as medidas tomadas pela Argentina iremos sozinhos
para a ALCA"). A Argentina e o Brasil coincidiam novamente e abundam os
exemplos: na reunião do Grupo Mercado Comum, máximo organismo executivo do
Mercosul, celebrada em Assunção até o dia 14 de junho, ambos os países
apresentaram, em conjunto, um projeto de decisão para criar um grupo de alto
nível que revisse toda a estrutura da tarifa externa comum (ou seja, sua
redução), acordo ao qual chegaram depois Cavallo e Malan para relativizar a
união alfandegária mediante reduções parciais da TEC, cujo anúncio seria
formalizado na reunião de cúpula de presidentes do bloco, realizada na capital
paraguaia durante a terceira semana de junho. Ambos os países chegaram a um
acordo para acelerar os tempos para ir para o livre comércio com Estados Unidos
e a União Européia e os dois governos estão longe de imaginar um Mercosul para
a regionalização. O destino do Mercosul é o mundo da globalização.
É possível supor que o Brasil cedeu à posição liberal de Cavallo?
As claves devem ser lidas assim: em primeiro lugar, ambos países estão
dispostos a ir à ALCA; coincidem ' ainda que com matizes ' no enfoque político
neoliberal e os Estados Unidos são o sócio que ambos agora desejam mais do que
tudo. Em segundo lugar, o governo brasileiro conheceu, antes que a sociedade
argentina, a decisão do governo de De la Rúa de proceder a uma virtual
desvalorização do peso, o que marcava claramente um sinal político para o seu
vizinho. Em diplomacia, as formas freqüentemente valem mais do que as palavras
e o Brasil se sentiu profundamente considerado na sua condição de "sócio
preferencial". Em terceiro lugar, ambos os países, aos quais se agregaria
Uruguai, convieram em avançar nas negociações da ALCA como bloco, reforçando
assim a posição de poder negociador do Mercosul diante dos Estados Unidos.
Quarto, houve acordo na designação de uma equipe negociadora pelo bloco,
integrado por um representante de cada país-membro e um "coordenador" eleito
pelas partes.
Nossa percepção é que se o Mercosul vai negociar em bloco, a Argentina vai
aceitar 'pelo menos em parte ' a posição negociadora mais dura do Brasil, que
define a ALCA como "uma opção, não como um destino". Contudo, ambos países se
comprometeram também com o livre comércio, seja na ALCA, seja com a União
Européia ou na OMC.
Conclusões
Mais além de uma predisposição para uma continuidade de relações mais estreitas
com Washington, o governo de De la Rúa foi por demais condicionado, em grande
medida, pela gravidade da situação econômica e financeira herdada e que seria
agravada pelas políticas frágeis e erráticas implementadas nos primeiros 15
meses de governo. Nesse contexto, o governo argentino dependeu do apoio norte-
americano para a obtenção da "blindagem"16 de US$ 40 bilhões e, em seguida,
para enfrentar os novos acordos com o FMI e a renegociação de suas dívidas de
curto prazo com os bancos privados internacionais. A crítica posição da
Argentina, no caso de Cuba, incluindo o seu voto, que acompanhou o dos EUA
(apesar da Argentina ter manifestado a sua oposição ao embargo norte-
americano), assim como uma predisposição inicial de adiantar as negociações da
ALCA ' logo deixadas de lado pelo governo de De la Rúa ' devem ser lidas nesse
contexto.
Além dessa situação conjuntural, a chegada ao governo do ministro Cavallo
evidentemente fortaleceu as posições pró-ALCA e a favor de um acordo bilateral
com os Estados Unidos, na medida em que este e os setores políticos de seu
entorno sempre manifestaram sua opção preferente por uma integração (econômica
e política) com Washington. Não obstante, a posição oficial do governo
argentino, expressa por seu chanceler e pelo próprio De la Rúa, sempre foi de
respeitar o compromisso do país com o Mercosul, incluindo negociar a ALCA "como
bloco".
Ambas as alternativas, o Mercosul e a ALCA, aparecem distintamente e, ao mesmo
tempo, complementares; mas isto é assim também para o Brasil. Não obstante, o
problema não radica sobre a coincidência, mas sim sobre o impacto de um
retrocesso para uma zona de livre comércio que o Mercosul sofreria, como um
projeto de mercado comum, na medida que este termine sendo engolido pela ALCA.
Ambos os governos, ainda que com distinta ênfase declarativa, coincidem em
considerar como "progressos" para a união alfandegária do Mercosul a definição
de uma nova TEC mais reduzida. Apesar do governo argentino estar disposto a
avançar somente por este caminho, foi acompanhado ao final pelo Brasil17. Este
"novo enfoque" sobre o Mercosul implica a debilitação da união alfandegária
mediante diminuições parciais da tarifa.
As relações políticas bilaterais, que tiveram como núcleo de divergências as
respectivas relações com os Estados Unidos e as políticas de segurança se
recompuseram, durante a gestão do presidente Menem (Bernal-Meza, 1999a), diante
de promissoras perspectivas, depois da entrada de De la Rúa, fato que se
refletiu nas coincidências de Florianópolis e posteriormente nos acordos sobre
coordenação macroeconômica; mas se deterioraram a partir das primeiras medidas
heterodoxas de Cavallo.
Não obstante, o governo argentino fez um gesto de significativa relevância
política ao adiantar ao governo de Fernando Henrique as medidas que pensava
implementar sobre a política cambial. A partir dali, o governo brasileiro
outorgou pleno apoio às mesmas e se conformaram idéias afins em torno do futuro
do Mercosul, sobre sua TEC e da decisão de nomear somente um negociador
"coordenador", junto aos quatro respectivos representantes, para as discussões
com os Estados Unidos sobre a ALCA.
Apesar destas coincidências, desafio conjunto continua sendo a preservação do
Mercosul como um subsistema regional, cuja liderança responda exclusivamente às
prioridades e objetivos do desenvolvimento econômico e da inserção da Argentina
e do Brasil no sistema mundial. Da síntese de dificuldades estruturais que
ambos os países enfrentam, surgem as percepções sobre os riscos que perpassam o
Mercosul. O primeiro deles é cair na "irrelevância", tal como ocorreu no
passado com outras estratégias de integração e cooperação econômica (ALALC,
ALADI, Cuenca del Plata, Pacto Amazônico, etc); o segundo, que o Mercosul seja
absorvido e termine diluindo-se em uma "zona de livre comércio hemisférica", ou
seja, absorvido pela ALCA.
Quais são as razões que têm levado à deterioração das percepções sobre o
Mercosul? Consideramos que quatro exemplificam, a partir de diferentes
perspectivas, a natureza das mesmas. Em primeiro lugar, as de caráter
estrutural: o modelo de integração seguido não melhorou a qualidade estrutural
da inserção internacional dos países membros na economia mundial, fato que se
reflete no déficit de sua balança comercial com o mundo e na composição das
exportações, com baixa participação do setor industrial e escasso conteúdo
científico-tecnológico. Em segundo lugar, as de caráter sistêmico. O Mercosul
não conseguiu adequar-se às mudanças econômicas, políticas e comerciais
mundiais que marcaram a profunda transição do sistema mundial, caracterizado
nos processos de globalização/mundialização, regionalismo e ordem mundial
(Bernal-Meza, 1991; 1994; 2000). Em terceiro lugar, tampouco conseguiu adequar-
se às negociações internacionais derivadas dessas mudanças; nem gerar uma visão
' teórica e prática ' comum; por último, tampouco tem podido desenvolver uma
estratégia para enfrentar como bloco os desafios da OMC, cujo balanço tem sido
negativo para os países em desenvolvimento (CEPAL, 1999), e não pôde resistir à
crescente predominância das economias altamente industrializadas no comércio
mundial.
A partir destas perspectivas, ambos países também coincidiram em uma ausência
de decisão política para impulsar o aprofundamento estratégico do Mercosul.
Notas
1 Para a interpretação "fundamentalista"ou "ideológica" da globalização, ver
Ferrer (1998) e Bernal-Meza (1996; 2000), respectivamente.
2 Discurso do chanceler Adalberto Rodríguez Giavarini sobre a política exterior
argentina, Dirección de Prensa, Ministerio de Relaciones Exteriores, Comercio
Internacional y Culto, Buenos Aires, 30 de maio de 2000.
3 Domingo Cavallo, na apresentação de seu livro "Pasión por crear", Página 12,
Buenos Aires, 31/3/2001.
4 Clarín, Buenos Aires, 13 de abril de 2001.
5 O presidente Fernando H. Cardoso suspendeu a visita programada para os dias
16 e 17 de abril a Argentina, como manifestação de descontentamento, contra o
que se considerou uma medida que afetaba diretamente as exportações brasileiras
para a Argentina, que rompe com os acordos tarifários negociados no Mercosul.
Folha de São Paulo, 5 de abril de 2001.
6 Declarações à agência oficial de noticias Télam (http://www.sica.gov.ec).
7 Ibid.
8 La Nación, Buenos Aires, 19 de junho de 2001.
9 Horacio Chighizola, Opinión de Negociador. Argentina y el ALCA, Buenos Aires,
Archivos del Presente, Ano 6, No. 21, julho-set. de 2000; pp. 16-18.
10 Ambitoweb, Encuesta: Mercosur mejor que ALCA, 22 de mayo de 2001.
11 La Nación Line, "Para los argentinos, la relación con los EE.UU. es muy
importante"; Buenos Aires 12 de junho de 2001.
12 Na recente reunião do Mercosul em Assunção, no passado dia 21 de junho, os
quatro paises do bloco decidiram reduzir em um ponto percentual a taxa de
estatística geral para as importações extra-Mercosul (de 2,5% ao 1,5%), o que
na prática reduz a média atual da TEC de 13,5 a 12,5 por cento.
13 La Nación. Buenos Aires, 18 de abril de 2001. De igual maneira se expressou
o porta-voz da presidência, Ricardo Ostuni, em entrevista coletiva do mesmo
dia, anterior à viagem de De la Rúa a Quebec, quando afirmou que "a posição
argentina é negociar a partir do bloco regional do Mercosul. A Argentina
negocia apartir o Mercosul na ALCA; esta é a resolução que se tomou aqui em
Buenos Aires; é a posição do governo argentino".
14 Clarin.com, Economía, quarta-feira, 9 de maio de 2.001.
15 "Há preocupação no Brasil", Gazeta Mercantil Latino-americana Rio de
Janeiro, edição do 14 a 20 de maio de 2001, p. 23.
16 Apoio financiero do FMI e de alguns paises (Espanha), de US$ 40 bilhões,
como recursos à disposição do governo argentino, a entregar em quotas, de
acordo com a aceitação prévia ' de parte do organismo financeiro internacional-
das medidas implementadas pela gestão econômica, negociado durante a gestão do
ministro José L. Macchinea.
17 "Acuerdo en el Mercosur para la baja de aranceles", La Nación, Buenos Aires,
14 de junho de 2001.