Socialismo Moreno, Conservadorismo Pálido? Cor e Recrutamento Partidário em São
Paulo e Rio de Janeiro nas Eleições de 2012
INTRODUÇÃO
Não é preciso ser um observador atento da política brasileira para perceber que
ela é feita basicamente por homens brancos. Uma rápida mirada pelos noticiários
jornalísticos já é capaz de indicar o quanto pretos e pardos estão alijados da
representação e dos demais postos de poder. Os dados estatísticos, computados
nas últimas eleições nacionais, confirmam essa impressão, haja vista que quase
80% dos deputados e deputadas eleitos no último pleito se declararam brancos
(Campos_e_Machado,_2015a). É verdade, contudo, que sub-representação política
não é uma exclusividade dos pretos e pardos: a política brasileira não é apenas
branca, mas também masculina. Porém, medidas que visam corrigir a sub-
representação das mulheres nos legislativos, por exemplo, já estão na pauta de
debate político há algum tempo, enquanto o mesmo não pode ser dito sobre os não
brancos.
Talvez por isto, tenha causado surpresa a proposta de cotas legislativas para
negros, aventada no bojo da reforma política sugerida pela presidenta Dilma
Rousseff como resposta às manifestações de junho de 2013. De autoria dos
deputados Luiz Alberto (PT-BA) e Luiz Paulo Cunha (PT-SP), o Projeto de Emenda
Constitucional (PEC) 116 de 2011 propõe um sistema de voto plural, em que cada
eleitor teria de escolher dois candidatos nas eleições legislativas, um dentre
aqueles autodeclarados pretos ou pardos e outro concorrente no sistema
universal. Ao fim do pleito, os candidatos pretos e pardos mais votados
preencheriam vagas reservadas no Legislativo, sempre na proporção de dois
terços da população não branca total do país, segundo o Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE)1.
Comparando a tramitação da PEC 116/2011 com sua repercussão na imprensa, é
possível dizer que o projeto suscitou mais polêmica do que apoio (Falcão,_2013;
Braga,_2013; Cardoso,_2013; Magnoli,_2013). As reações ao projeto têm
diferentes motivações. Em um país cujo projeto nacional esteve historicamente
ligado à ideia de democracia racial e ao elogio da miscigenação, qualquer
estratégia política que dependa da diferenciação entre brancos e não brancos é
polêmica. Vide a controvérsia suscitada pelas cotas raciais no ensino superior
brasileiro, polêmica pública que já dura mais de dez anos e que envolveu os
mais importantes setores da política, da academia e da sociedade como um todo.
Ademais, as políticas que visam aumentar a representatividade de grupos na
representação política são, elas próprias, difíceis de serem justificadas
apelando exclusivamente para os princípios básicos da democracia liberal. Como
destacou Hanna Pitkin em seu estudo seminal sobre o conceito, a ideia de uma
representação descritiva, em que o corpo de representantes é avaliado pela sua
semelhança com o corpo de cidadãos, contradiz algumas premissas da própria
ideia de representação política (Pitkin,_1967).
Mas, para além destas questões, é preciso destacar que pouco se sabe sobre os
mecanismos sociológicos e institucionais que tornam a política nacional um
espaço dominado por brancos. Não se sabe sequer em que fase da carreira
política os pretos e pardos são afastados da representação. A sub-representação
política deste grupo pode ser explicada por uma miríade de fatores,
relacionados não apenas às escolhas eleitorais dos cidadãos, mas também a
problemas no recrutamento dos quadros partidários. Se pretos e pardos enfrentam
dificuldades de se lançarem candidatos porque as legendas estão fechadas para
eles, sua sub-representação política não pode ser atribuída à decisão dos
eleitores.
O objetivo deste artigo é discutir em que medida a sub-representação política
dos pretos e pardos no Brasil pode ser atribuída ao tratamento desigual que
eles recebem quando os partidos políticos nacionais formam suas listas
eleitorais. A partir de um levantamento sobre a cor dos candidatos a vereador
nas eleições ocorridas em 2012 nos dois maiores municípios brasileiros – São
Paulo e Rio de Janeiro – tenta-se estabelecer até que ponto os critérios de
recrutamento de candidaturas variam de partido para partido e como tais
critérios influenciam na sub-representação dos não brancos.
Embora já existam pesquisas que buscam dimensionar a sub-representação política
dos negros, elas costumam se focar no topo da pirâmide, isto é, na presença ou
ausência desse contingente no legislativo federal (cf. Campos_e_Machado,_2015a;
Johnson_III,_1998; Paixão_e_Carvano,_2008;Unegro,_2011). Tal enfoque perde de
vista que a marginalização deles em relação à política provavelmente ocorre nas
partes mais baixas da carreira política. Como os estudos de recrutamento
político vêm chamando a atenção (ver, por exemplo, Norris,_1997; Perissinotto_e
Miríade,_2009), aqueles que conseguem se eleger deputados federais ou senadores
já passaram por incontáveis filtros políticos e, por isto, é difícil localizar
a partir deles quais destes filtros têm mais impacto na sub-representação dos
pretos e pardos. Logo, a opção feita aqui pelas eleições para vereador se
justifica porque elas são a etapa inicial da carreira política.
Diante da carência de registros oficiais sobre a cor autodeclarada dos
candidatos a vereador2, optou-se por submeter as fotos dos quase três mil
candidatos nos dois municípios, obtidas no site do Tribunal Superior Eleitoral
(TSE), à classificação de uma equipe de pesquisadores. Isto justifica em parte
a opção por operar com apenas dois municípios brasileiros. Trabalhar com as
fotos de todos os candidatos a vereador no Brasil ou em um estado da Federação
dificultaria sobremaneira a classificação. Analogamente, optar por uma análise
por amostragem também dificultaria a construção de inferências sobre dinâmicas
partidárias, haja vista que estas variam bastante de acordo com as regiões do
país.
Finalmente, há que se destacar a importância de São Paulo e Rio de Janeiro, não
apenas enquanto polos econômicos do país, mas também como municípios
idiossincráticos para o estudo da relação entre raça e poder. Além de ser uma
unidade da Federação central no jogo político nacional, São Paulo se distingue
também por possuir elites políticas altamente diversificadas do ponto de vista
socioeconômico. Justamente por isto, os dados obtidos permitem entender até que
ponto a sub-representação dos pretos e pardos na política pode ser vista como
um epifenômeno das desigualdades de classe. Já o município do Rio de Janeiro é
particularmente relevante para a compreensão destas dinâmicas.
Sociologicamente, trata-se do segundo município com maior proporção de não
brancos do país. Politicamente, o Rio de Janeiro foi o palco da articulação de
um setor importante do movimento negro brasileiro e, também, de construção de
ideologias políticas voltadas para os não brancos, como foi o caso do
trabalhismo varguista e seu herdeiro moderno, o socialismo moreno empunhado
pelo PDT. Ademais, a quantidade de partidos competitivos no Rio é alta, o que
permite entender melhor as particularidades de cada um deles.
O que se segue está dividido em cinco partes. Na primeira delas, discuto em que
medida a sub-representação dos pretos e pardos na política pode ser vista como
um déficit democrático. Em seguida, resenho os principais trabalhos sobre cor e
eleições com o objetivo de mostrar que tal bibliografia costuma se centrar mais
na demanda dos eleitores do que na oferta partidária de candidatos. A terceira
seção esclarece as escolhas metodológicas feitas pelo estudo. Na quarta parte,
discuto os resultados obtidos para, na quinta seção, delinear algumas
conclusões gerais.
PRETOS, PARDOS E A POLÍTICA
Ainda que as pesquisas sobre raça e política sejam relativamente raras
(Oliveira,_2002), desde a década 1980 são feitos levantamentos que buscam
dimensionar a sub-representação de pretos e pardos na política. De acordo com
Olie Johnson III, o percentual de negros na Câmara dos Deputados entre 1983 e
1987 foi de 0,84%; pulou para 2,05% entre 1987 e 1991 e atingiu 2,92% entre
1995 e 1999 (1998:103). Atualizando esses dados para o período entre 2007 e
2008, o Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatística
das Relações Raciais (Laeser) concluiu que dos 513 deputados federais eleitos
em 2006, 11 eram pretos e 35 pardos, perfazendo um conjunto de 8,9% de não
brancos no total (Paixão_e_Carvano,_2008:148). Já a ONG Unegro (União de Negros
pela Igualdade) considerou que em 2010, o Congresso Nacional continha “43
deputados e deputadas negros, chegando ao índice de 8,5% de negros no
Parlamento brasileiro” (Unegro,_2011). A partir do primeiro levantamento
oficial sobre a cor/raça dos candidatos eleitos, feito pelo TSE em 2014, Campos
e Machado afirmam que, dentre os 513 deputados que assumiram a Câmara em 2015,
71,9% eram homens brancos, 18,1% eram homens não brancos, 8% eram mulheres
brancas e apenas 2% eram mulheres não brancas (Campos_e_Machado,_2015a).
Se mais da metade dos brasileiros se declarou preta ou parda no último censo de
20103, fica evidente a sub-representação dos grupos raciais no Parlamento.
Ainda que seja possível colocar em dúvida os métodos de classificação racial
utilizados nos estudos supracitados4, ou a validade da autodeclaração dos
candidatos computada pelo TSE, em todos os casos o percentual de não brancos na
representação é irrisório quando comparado ao de não brancos na população como
um todo.
Mas apesar deste déficit de representação descritiva, é preciso questionar por
que a sub-representação dos não brancos deve ser encarada como um problema
político. Em vários aspectos, a adoção de mecanismos eleitorais para garantir a
representação de grupos contraria cânones importantes da democracia liberal. Um
dos pressupostos da democracia eleitoral é o princípio utilitarista de que cada
cidadão é o melhor juiz dos seus interesses. Deste ponto de vista, regras que
visem redistribuir votos de modo a facilitar a ascensão política dos membros de
alguns grupos seriam contrárias à decisão de cada eleitor (Miguel,_2000).
A crítica à representação de grupos não está restrita aos defensores de uma
concepção estritamente utilitária da representação política. Hanna Pitkin, por
exemplo, é uma autora que dedicou sua obra mais importante à ampliação do
sentido da ideia de representação política, distanciando-se, assim, dos
significados tradicionais atribuídos ao termo. Porém, isso não a impediu de
criticar as concepções que defendem que um corpo de representantes só é
verdadeiramente democrático quando espelha ou reflete o corpo de cidadãos. Para
ela, estas concepções dão tanta importância às semelhanças entre representados
e representantes que o modo como estes últimos agem fica em segundo plano
(1967:226). Consequentemente, a persecução da vontade popular deixa de ser
vista como um problema de ação política para ser reduzida a uma questão de
similitude identitária. Desta ótica, a amostragem aleatória seria um método
muito mais eficaz para compor um corpo de representantes do que as eleições
(ibidem:226).
No entanto, as críticas de Pitkin incentivaram todo um conjunto de autoras e
autores a produzirem justificativas para a representação de grupos que fossem
além da ideia de uma representação descritiva. Para Anne Phillips, por exemplo,
a representação de grupos seria importante para desconstruir estereótipos
identitários; permitir modalidade de agregação de agenda para além dos partidos
políticos; proteger grupos politicamente excluídos e, por isto, socialmente
mais vulneráveis; e para a pluralização da agenda política (Phillips,_1995:39).
Ademais, ela parte do pressuposto de que nenhuma sociedade pode se dizer
realmente democrática se exclui sistematicamente determinados grupos da
política. Logo, medidas para incluir grupos na representação são exigências de
uma sociedade que se pretende igualitária em suas oportunidades (Phillips,
1991). Jane Mansbridge, por seu turno, considera que uma representação especial
para grupos se torna mais justificável em contextos sociais em que há uma crise
de confiança entre eleitos e eleitores de um grupo sub-representado; clivagens
políticas tradicionais entram em crise e interesses tornam-se imprecisos; há um
contexto histórico que atribui a um dado grupo uma inabilidade intrínseca para
o governo; ou quando a deliberação sobre políticas para grupos perdem
legitimidade por não incorporarem tais grupos no debate (Mansbridge,_1999).
Segundo Will Kymlicka, políticas específicas para colocar grupos no Parlamento
não partem necessariamente do entendimento de que a representação deve espelhar
a sociedade. Trata-se, antes de permitir que grupos sistematicamente
discriminados possam ascender à política, seja como meio de denúncia dessa
discriminação, seja como forma de romper as barreiras colocadas a eles e que
tem reflexos políticos (1995:141). Já Iris Marion Young insiste que nenhuma
deliberação pública pode se dizer democrática se exclui perspectivas sociais
oprimidas e se esta exclusão contribui para reforçar tal silenciamento (2000).
Tal argumento se aproxima daquele esposado por Melissa Williams, para quem a
representação especial é uma forma de dar voz a grupos marginalizados, aumentar
a confiança entre representantes e representados e, finalmente, recuperar a
memória das discriminações que eles sofreram (2000).
Todavia, tais justificações costumam esbarrar em dois problemas fundamentais.
De um lado, a ênfase nas chamadas “políticas de presença” para grupos marginais
tende a colocar em segundo plano a importância de uma “política de ideias”
(Phillips,_1995), o que pode ameaçar a autonomia dos eleitores em terem suas
escolhas respeitadas, a autonomia dos representantes em suas ações e,
sobretudo, ameaçar as relações de accountabilityentre eles. Do outro lado, os
defensores das políticas de presença sempre têm de lidar com o risco de uma
essencialização das clivagens identitárias (cf.Phillips,_2007; Young,_2000:87-
102), já que a inclusão de grupos marginais depende de uma oficialização e
congelamento das identidades culturais.
A consciência destes riscos tem feito com que os defensores das políticas de
presença considerem com mais atenção o papel desempenhado pelos partidos
políticos na inclusão de grupos marginalizados. Ademais, a multiplicação de
trabalhos em torno do recrutamento de candidaturas tem contribuído para uma
compreensão mais fina dos reais motivos da sub-representação política de
determinados grupos (Norris_e_Lovenduski,_1995). Por conta disto, medidas que
garantam uma dada composição das listas partidárias ou mecanismos internos aos
partidos de seleção de seus candidatos têm substituído o lugar outrora ocupado
pelas cotas parlamentares (Htun,_2004). Frequentemente, esta reorientação tem a
vantagem de contornar os problemas supracitados e, sobretudo, atuar nos filtros
que de fato excluem tais grupos da representação. Em contextos nos quais a sub-
representação de um dado grupo não reflete as preferências enviesadas dos
eleitores, diversificar a oferta de candidaturas pode ser suficiente para
garantir a representação de determinados grupos sem violar a autonomia dos
eleitores.
A bibliografia sobre raça e eleições no Brasil está basicamente concentrada na
existência ou não de uma orientação étnica no sufrágio. Diferentes autores
buscaram estabelecer em que medida não brancos tendem a votar em candidatos de
uma dada cor ideológica ou em candidatos da mesma cor que eles. Embora haja uma
confluência nos resultados desses estudos, os dados que eles mobilizam não são
conclusivos. Ademais, tal literatura tem focado nas preferências dos eleitores,
deixando em segundo plano a oferta de candidaturas, elemento fundamental para a
compreensão do fenômeno.
PRETOS, PARDOS E AS ELEIÇÕES
Ainda que seja frequente encontrar nas obras dos sociólogos e antropólogos das
relações raciais brasileiras hipóteses sobre a relação não brancos e a política
(Oliveira,_2002), é somente a partir da década de 1960 que surgem estudos
dedicados exclusivamente à relação entre não brancos e eleições. A despeito da
pluralidade de abordagens metodológicas e interesses de pesquisa, subjaz a essa
literatura uma indagação comum, passível de ser genericamente formulada da
seguinte maneira: em que medida as clivagens raciais existentes no Brasil se
relacionam com preferências identitárias ou ideológico-políticas? De modo
geral, tais estudos buscam estabelecer até que ponto existe uma correlação
entre as preferências dos eleitores por determinados candidatos, partidos,
ideologias etc. e o modo como eles se percebem ou são percebidos em termos
raciais.
Tal correlação já era considerada relevante no trabalho pioneiro de Amaury de
Souza sobre a interface da raça com a política no Brasil urbano. Mesmo
reconhecendo os esforços históricos empreendidos pela elite nacional para
conter a ascensão social dos ex-escravos e impedir a formação de uma identidade
de grupo entre eles, Souzaacreditava que a raça era um fator interveniente
importante para a explicação de determinados comportamentos políticos (1971:62-
67). Isso se confirmava, a seu ver, em um survey realizado em 1960, com uma
amostra dos eleitores da cidade do Rio de Janeiro, em que há uma constante
preferência do eleitorado negro pelos candidatos trabalhistas. Para ele, isto
se explicava parcialmente pela adesão da população negra ao varguismo, adesão
esta motivada não apenas pela melhoria das condições de vida da população negra
durante a era Vargas, mas também pelo fato de o trabalhismo tratar o negro como
símbolo da emergente noção de “povo brasileiro” (ibidem:64).
Em um estudo realizado quase 15 anos depois, já no contexto de redemocratização
do país, Gláucio Ary Dillon Soares e Nelson do Valle Silva defendem que a
preferência dos eleitores não brancos pelo trabalhismo permanecia, ainda que
sob novas roupagens partidárias e ideológicas (1985:258). Para testar esta
hipótese, Soares e Silva comparam a votação recebida por Leonel Brizola nas
eleições de 1982 em toda a região metropolitana do Rio de Janeiro com dados
ecológicos sobre o perfil dos eleitores desses municípios segundo o censo de
1980 (ibidem:280). Tal comparação importa não apenas porque Brizola era,
naquela ocasião, o herdeiro autorreivindicado do petebismo, mas também porque o
contexto político adverso o obrigara a reformular seu discurso trabalhista.
Apelidado por Darcy Ribeiro de “Socialismo Moreno”, este novo trabalhismo
buscava, sobretudo, adaptar as premissas ideológicas do socialismo europeu às
idiossincrasias da sociedade brasileira (Sento-Sé,_2004) e, em segundo plano,
matizar o foco marxista na dominação de classes para incorporar ao discurso
político a opressão sofrida pelos não brancos (Soares_e_Silva,_1985:256). Este
discurso permitiu, dentre outras coisas, que o PDT mantivesse algum compromisso
com o socialismo, mas incorporasse em suas listas eleitorais duas importantes
lideranças de movimentos étnico-raciais: o líder indígena Mário Juruna e o
militante histórico do movimento negro Abdias do Nascimento, ambos eleitos em
1982 para a Câmara dos Deputados Federais.
Comparando votação e dados contextuais, Soares e Silva concluem que há uma
correlação relevante entre a preponderância de não brancos em municípios da
região metropolitana e a vitória de Brizola nestes municípios (ibidem:269). Há
que se destacar, contudo, que as limitações intrínsecas aos dados utilizados
por Souza, Soares e Silva tornam tais conclusões tentativas, como os próprios
autores reconhecem. Quando observamos os estudos mais recentes, porém, não é
possível perceber uma confluência tão grande nas conclusões. Enquanto autores
como Mônica Castro_(1993), Reginaldo Prandi_(1996) e Gladys Mitchell_(2009)
acreditam que não brancos permanecem tendo comportamento eleitoral específico,
Elza_Berquó_e_Luiz_Felipe_de_Alencastro_(1992) mostram limites dessa hipótese,
enquanto Natália_Bueno_e_Thad_Dunning_(2013) defendem que tal comportamento é
demasiado residual.
Aplicando um conjunto de regressões logísticas a dados de um surveysobre opções
eleitorais em cinco municípios de cinco unidades federativas distintas, Mônica
Castro buscou estabelecer o peso relativo da raça de cada entrevistado no seu
comportamento político. Além de levar em conta a suposta preferência dos não
brancos por candidatos de esquerda e/ou mais “populistas”, Castro levou em
consideração também a proporção de eleitores que planejavam votar em branco ou
nulo nas eleições do período. Ela conclui que embora “o contexto socioeconômico
[seja] mais ou menos central” no comportamento eleitoral dos entrevistados, “o
efeito raça é [...] ambíguo: pretos e pardos se alienam mais que os brancos,
mas, quando decidem participar do processo eleitoral, escolhem em proporção
relativamente maior os candidatos de esquerda” (1993:483). Porém, se ser não
branco aumenta a probabilidade de um comportamento radicalista, isto está longe
de implicar uma etnização do voto, pois implica também maior alienação
eleitoral (ibidem:485).
Também trabalhando com os dados de um surveysobre as intenções de voto para
presidente em 1994, realizado pelo Instituto Datafolha, Prandi assevera que
houve nesse pleito uma “clara tendência do eleitorado preto e pardo para votar
preferencialmente em Luiz Inácio Lula da Silva” (1996:12). Mesmo isolando
variáveis como classe, escolaridade e idade, a vantagem de Lula da Silva
aumenta nos estratos não brancos, enquanto Fernando Henrique Cardoso obtinha
mais votos nos estratos brancos. Tal vantagem de Lula da Silva dentre os não
brancos não é tão intensa em termos estatísticos, mas constante nos diferentes
coortes analisados por Prandi. Por isto o autor não acredita que tal viés
expresse um “voto étnico à esquerda”, mas, sim, um voto de protesto, através do
qual as populações negras “tenham tido, pelo voto em Lula, a possibilidade de
expressar uma dimensão de sua identidade, na qual a exteriorização da
discordância e o protesto têm um lugar importante” (ibidem:13).
Contudo, também trabalhando com dados de um levantamento do Instituto
Datafolha, Elza Berquó e Luiz Felipe de Alencastro acreditam haver indícios
fortes de emergência do voto étnico dentre os negros em São Paulo, sobretudo
dentre “os mulatos de mais baixa escolaridade”. Porém, eles não detectaram o
mesmo comportamento no Espírito Santo, outro estado incluído no levantamento.
Embora reconheçam que os dados dos dois estados são inconclusivos para avaliar
a pervasividade do voto étnico em âmbito nacional, os autores creem haver uma
tendência ao seu fortalecimento (1992:86).
Gladys Mitchell, por seu turno, desloca este debate em torno da existência de
um viés ideológico no voto étnico ao focar na relação entre cor/raça
autodeclarada do eleitor e sua preferência por candidatos negros. Para ela, tão
importante quanto avaliar se não brancos preferem candidatos de esquerda ou de
oposição é indagar se os subgrupos que compõem este agregado tendem a votar em
negros. Por isto, ela se baseia em um survey com eleitores de diferentes
bairros de Salvador e São Paulo em que eles eram questionados sobre sua
identificação racial e se já haviam votado em candidatos negros. A partir
desses dados, Mitchell conclui que
à medida que as cores se tornam mais escuras, ou à medida que a
identificação pela cor se move do branco ao negro no espectro das
cores, aumenta a estimativa de probabilidade de que um afro-
brasileiro em Salvador e São Paulo vote em um candidato negro (2009:
294).
Segundo ela, tal propensão tende a aumentar à medida que esses “afro-
brasileiros” sobem na hierarquia social e que se engajam mais fortemente à
militância identitária (ibidem:301).
Todavia, um estudo bem mais recente parece se contrapor a essas previsões de
fortalecimento do voto étnico. Utilizando diferentes métodos de pesquisa,
Natália_Bueno_e_Thad_Dunning_(2013) tentam determinar quais elementos melhor
explicam a sub-representação política dos negros no Brasil. A partir da
heteroclassificação das fotos de uma amostra com cinco mil candidatos a
diferentes cargos nas eleições de 2010, os autores percebem que a ausência dos
negros da política não pode ser atribuída exclusivamente a um viés no
recrutamento das candidaturas (ibidem:6). Para testar em que medida eles são
filtrados, então, pelas decisões dos eleitores, Bueno e Dunning realizam um
complexo estudo experimental em que demandam a uma amostra de eleitores que
escolham qual candidato mais votável em um programa eleitoral televisivo
ficcional. As características dos candidatos fictícios são meticulosamente
manipuladas com o objetivo de saber se candidatos não brancos têm menor apelo
que os equivalentes brancos. Porém, os autores não perceberam com tal
experimento nenhuma preferência significativa por candidatos brancos (ibidem:
34). Ao que parece, o único viés estatisticamente relevante e capaz de explicar
o que filtra os candidatos negros “pode estar na desigualdade de recursos entre
políticos brancos e não brancos” (ibidem:47), já que os dados do TSE sugerem
que “candidatos brancos recebem mais contribuições de campanha do que não
brancos” (ibidem:45).
O trabalho de Bueno e Dunning é um dos poucos que tentam explicar a sub-
representação dos negros de forma múltipla, recorrendo a diferentes tipos de
pesquisa para testar hipóteses distintas. Contudo, as dificuldades do
experimento desenhado pelos autores e, sobretudo, a opção pela amostragem os
impedem de perceber o papel que as dinâmicas partidárias podem ter na sub-
representação dos negros na política. Vale notar que a própria distribuição
desigual de recursos de campanhas, apontada por Bueno e Dunning como possível
variável explicativa, sugere que as dinâmicas intra e interpartidárias podem
ter grande relevância na sub-representação dos negros na política.
De modo geral, um problema desta literatura é o fato de ela focar mais na
verificação de um viés étnico na demanda dos eleitores do que na oferta de
candidaturas. Como vários autores têm sugerido, parece haver não apenas uma
orientação ideológica no comportamento eleitoral dos pretos e pardos, mas
também uma maior abertura de determinados partidos às candidaturas destes
grupos. Cloves Oliveira percebeu, em uma pesquisa sobre as eleições para
vereadores em Salvador, uma preponderância de candidatos negros nos partidos de
esquerda e mais identificados com o trabalhismo (1991:98). A partir de
entrevistas com dirigentes políticos, Meneguello,_Mano_e_Gorski_(2012) destacam
não apenas a maior centralidade que partidos de esquerda dão à presença de
negros em suas listas, mas também a maior facilidade que eles têm em recrutar
estes contingentes nos movimentos sociais.
Logo, é preciso avaliar de forma mais sistemática a existência de um viés
racial no recrutamento de candidaturas pelos partidos nacionais, sobretudo
porque as dinâmicas partidárias parecem ter grande peso na sub-representação
política de grupos. Sem excluir de antemão a existência de vieses raciais nas
escolhas dos eleitores, o objetivo deste artigo é avaliar em que medida há um
viés racial no modo como o sistema partidário brasileiro lida com as
candidaturas em nível municipal. Isto envolve não apenas uma investigação em
torno da maior ou menor proporção de candidatos não brancos, como fazem Bueno_e
Dunning_(2013), mas também uma avaliação da distribuição destes candidatos em
diferentes legendas, com chances maiores ou menores de sucesso eleitoral.
Investigar esta dimensão é importante, aliás, para determinar em que medida há
uma maior sensibilidade para a questão racial nos partidos ditos de esquerda ou
socialistas.
METODOLOGIA
O principal obstáculo para as pesquisas sobre raça e eleições municipais está
na ausência de dados sobre a cor autodeclarada dos candidatos e políticos
brasileiros. Ao contrário do que ocorre com a variável gênero, devidamente
indexada nos arquivos do TSE, a cor dos candidatos não era computada nos
registros eleitorais até 2014, ano em que o TSE passou a exigir dos candidatos
registrados nas eleições que declarassem sua raça/cor. Por conta disto, as
pesquisas sobre raça e eleições feitas antes de 2014 foram obrigadas a
“produzir” este dado. Normalmente, existem três opções mais comuns: a
heteroclassificação, a autoclassificação e métodos mistos.
Em pesquisas como as feitas por Meneguello,_Mano_e_Gorski_(2012), opta-se pela
cor autodeclarada pelos políticos. Nestes casos, os pesquisadores costumam
entrar em contato diretamente com os políticos incluídos no recorte e os
questionam sobre como eles se classificam. Como todos os outros, este método
apresenta vantagens e desvantagens. A principal vantagem é respeitar as
normatizações internacionais que recomendam a autoclassificação como meio de
delineamento de fronteiras identitárias, já que isto viabiliza pesquisas sobre
pertencimentos grupais sem desconsiderar a autonomia dos indivíduos. Ademais, a
autoclassificação torna os levantamentos sobre os políticos comparáveis aos
dados produzidos pelo IBGE, que também adota a autoclassificação.
Por outro lado, a autoclassificação tem problemas. Em primeiro lugar, quase
nunca é possível obter informações sobre todos os políticos incluídos em um
determinado recorte dadas as dificuldades de acesso a este grupo. Em segundo
lugar, é preciso lembrar também que muitos políticos se recusam a responder tal
questão. Embora as pesquisas do IBGE tenham de lidar também com recusas deste
tipo, elas adquirem outro significado nas pesquisas com políticos. A
politização da questão racial no Brasil tem criado resistências em alguns
setores políticos, por isto seus membros costumam se recusar a adotar uma dada
distinção racial.
Uma alternativa intermediária é recorrer às burocracias dos partidos ou das
instituições estatais em busca de dados secundários, como faz Oliveira_(1991).
Não obstante esta estratégia contorne as dificuldades de acessar determinados
políticos, ou mesmo suas resistências pessoais, ela coloca todos os problemas
relativos à arbitrariedade dos dados fornecidos, que dificilmente podem ter sua
validade testada.
Diante disto, uma alternativa cada vez mais utilizada é a heteroclassificação,
em que fotos dos candidatos são submetidas à avaliação de outras pessoas (Bueno
e_Dunning,_2013). Por razões evidentes, tal método suscita inúmeros problemas.
Além de questões éticas (nem sempre alguém classificado como branco se enxerga
como branco), existe toda uma série de problemas relacionados à comparação com
os dados levantados pelo IBGE. Ademais, em um país com classificações raciais
fluidas, é difícil crer que a heteroclassificação forneça dados estáveis e
válidos.
Apesar disso, a heteroclassificação apresenta vantagens importantes. Em
primeiro lugar, ela capta como determinados políticos tendem a ser
classificados pelos outros. Para muitos dos fins desta pesquisa, importa mais
saber se determinados indivíduos têm menos chances de ascensão política por
serem tendencialmente vistos como pretos e pardos. Se entendemos que raça é um
conceito sociológico e não biológico (Guimarães,_2003), percebemos que pretos e
pardos não são aqueles que possuem supostas marcas objetivas de negritude, mas
quem tende a ser classificado como tal pelos outros por conta dessas marcas.
Logo, tanto dados baseados na autodeclaração quanto na heteroclassificação
podem ser criticados metodologicamente. Em segundo lugar, vários estudos têm
atestado que é alta a correlação entre a maneira como as pessoas autodeclaram
sua cor e o modo como são percebidas pelos outros (Silva,_1999; Muniz,_2012;
Prandi,_1996), relativizando a tese de que nossas categorias de classificação
racial seriam arbitrárias ou fluidas demais. Em terceiro lugar, mesmo que
concordemos que há uma grande fluidez no nosso modelo classificatório, ela pode
ser contornada pela adoção de uma heteroclassificação múltipla, em que várias
pessoas classificam as mesmas fotos.
Neste artigo, a cor dos candidatos a vereador em 2012 na cidade do Rio de
Janeiro e em São Paulo foi aferida por uma equipe de classificadores. Para
simplificar a atribuição, as fotos deveriam ser classificadas a partir das três
principais categorias empregadas pelo IBGE (branco, pardo e preto)5. Para
facilitar a visualização dos dados, os candidatos classificados como pardos ou
pretos foram congregados na categoria “não brancos”.
As 2.733 fotos dos candidatos foram extraídas do site do TSE6, sendo que,
dentre elas, 1.596 são de candidatos a vereador no Rio de Janeiro e 1.137 em
São Paulo. Todas elas foram classificadas por quatro pesquisadores. Ainda que a
origem social e profissional comum destes classificadores possa sugerir um
“viés classificatório”, é fundamental frisar que não é nossa pretensão
estabelecer “objetivamente” a cor dos candidatos. A validade da
heteroclassificação múltipla tem de ser avaliada pragmaticamente, isto é, se o
modo como os candidatos foram classificados acompanhar desigualdades
estatisticamente relevantes, isto, por si só, já sugere que tais classificações
indicam alguma desigualdade socialmente relevante. Noutros termos, embora não
saibamos se aqueles que foram classificados pela equipe como preto ou pardo são
classificados assim também pela sociedade, o fato de eles serem vítimas de
desigualdades sociais e políticas já sugere que nossas classificações não são
tão arbitrárias.
Finalmente, é preciso destacar a alta concordância entre os classificadores
envolvidos. De acordo com a Tabela_1, os quatro classificadores concordaram com
a cor do candidato em mais da metade das fotos (62,9%) e em 25% do universo
houve uma alta taxa de concordância (apenas um classificador optou por uma cor
diferente dos outros três). As discordâncias equilibradas atingiram apenas
12,1% do universo. Note-se também que não houve nenhuma coincidência das
categorias polares, já que nenhum candidato foi classificado como preto e
branco ao mesmo tempo por dois classificadores. Como os casos de empate foram
poucos, todos eles foram submetidos a um quinto classificador, incumbido de
desempatar a classificação.
Tabela 1 Concordâncias entre as Classificações Binárias (Branco e Não Branco)
N %
Concordância total (4x0)1.718 62,9
Concordância alta (3x1) 683 25
Concordância baixa (2x2) 332 12,1
Total 2.733 100
Fonte: O autor, a partir de dados do TSE.
RESULTADOS
O Gráfico_1 nos permite comparar a distribuição de cada um dos grupos de cor na
população de cada município, nas candidaturas ofertadas pelo conjunto de
partidos que participou do pleito municipal de 2012 e dentre os eleitos nesses
pleitos. É possível perceber que tanto na cidade do Rio de Janeiro quanto no
município de São Paulo, não há uma grande distância entre a proporção de não
brancos na população total e a proporção de não brancos nas candidaturas. De
acordo com o censo de 2010, o Rio de Janeiro possuía 48% de não brancos e São
Paulo 37,1%. Em 2012, a proporção de candidatos não brancos foi de 37,8% no Rio
e 31,6% em São Paulo. A diferença é menor em São Paulo, mas, ainda assim, não é
tão significativa no Rio de Janeiro. De certo modo, este dado é corroborado
pela pesquisa de Bueno_e_Dunning_(2013), que a partir de uma metodologia
semelhante à empregada aqui chegaram à mesma conclusão.
Gráfico 1 Distribuição dos Grupos de Cor* na População dos Municípios,
Candidaturas e Eleitos** para Vereador em 2012
Por outro lado, quando comparamos a proporção de não brancos nas candidaturas
com a proporção de não brancos eleitos, o cenário muda. Os 37,8% de candidatos
não brancos do Rio de Janeiro transformam-se em apenas 9,8% de eleitos. Embora
menor, a discrepância em São Paulo ainda é grande, já que os 31,6% de
candidatos não brancos conseguiram ocupar apenas 16,4% das cadeiras da Câmara
de Vereadores. Ao que parece, o principal filtro que afasta os não brancos da
representação não está propriamente na oferta de candidaturas, mas, sobretudo,
nas chances eleitorais. Porém, este dado deve ser lido com cautela. As câmaras
de vereadores dos dois municípios são muito pequenas e dificultam qualquer
generalização estatística; ademais, estamos trabalhando apenas com os dados de
uma eleição. Entender melhor a seletividade eleitoral dependeria de uma série
histórica maior, que permitisse entender até que ponto as chances eleitorais de
brancos e não brancos permanecem constantes no tempo.
No entanto, ainda que a proporção de não brancos nas candidaturas não esteja
muito distante da proporção deste grupo na população de cada município, um
fator importante é a desigualdade na distribuição deste grupo pelas listas dos
diferentes partidos. Os Gráficos_2 e 3 mostram o percentual de brancos e não
brancos nas listas de cada partido no Rio de Janeiro e em São Paulo,
respectivamente.
[/img/revistas/dados/v58n3//0011-5258-dados-58-3-0689-gf02.jpg]
Gráfico 2 Candidaturas do Rio de Janeiro de acordo com a Cor por Partido
Político*
[/img/revistas/dados/v58n3//0011-5258-dados-58-3-0689-gf03.jpg]
Gráfico 3 Candidaturas de São Paulo de acordo com a Cor por Partido Político*
É possível notar que a participação de brancos nestas listas oscila bastante.
No Rio, partidos como o PMDB lançaram mais de 80% de candidatos classificados
como brancos, enquanto o PPL lançou mais de 60% de candidatos não brancos. Em
São Paulo, o campeão de candidaturas brancas foi o PSDB (86%), enquanto o PRB
foi o que mais lançou candidatos não brancos (53%).
De modo impressionista, já é possível detectar algumas tendências presentes nos
Gráficos 2 e 3. Em primeiro lugar, os partidos tradicionalmente classificados à
esquerda do espectro político parecem lançar mais candidatos não brancos nos
dois municípios do que os partidos de direita. O mesmo acontece quando
consideramos a distinção entre partidos grandes, com expressão nacional
homogênea, de um lado, e partidos pequenos, com expressão local mais forte. Ao
que parece, estes últimos tendem também a lançar mais candidatos não brancos do
que brancos.
A divisão dos partidos no espectro esquerda e direita sempre suscita
controvérsia. Isto ocorre não apenas porque a definição do que é esquerda e
direita se modificou bastante no decorrer da história, mas também porque tal
distinção busca dividir em categorias discretas uma dimensão ideológica
contínua. Portanto, trata-se de uma distinção ideal-típica que sempre refletirá
algum grau de exagero, unilateralidade e arbitrariedade. Levando em conta as
divisões já clássicas de Novaes_(1994) e Kinzo_(1993) e as ponderações mais
recentes de Carreirão_(2006), Miguel_e_Machado_(2007), propomos uma divisão
própria. Nesta, foram considerados como partidos de esquerda PT, PCdoB, PSOL,
PHS, PDT, PSB, PMN, PSTU, PCB e PCO; de centro PMDB, PSDB, PV e PPS; e de
direita DEM, PTB, PTN, PSDC, PRB, PTdoB, PSD, PR, PP, PRTB, PRP, PTC, PSC, PSL
e PPL. Diante disso, o Gráfico_4 mostra a distribuição de brancos e não brancos
em cada um desses agregados ideológicos.
[/img/revistas/dados/v58n3//0011-5258-dados-58-3-0689-gf04.jpg]
Gráfico 4 Distribuição dos Grupos de Cor nas Candidaturas de acordo com a
Posição Ideológica do Partido
Como é possível perceber, não há uma grande distância na distribuição de
candidatos por cor quando agregamos os dados de acordo com a distinção
esquerda-centro-direita. Nos dois municípios, a maior abertura aos não brancos
em partidos de esquerda como PCdoB, PMN, PDT e PT é compensada pelo fato de
muitos partidos pequenos de direita como PRB, PSDC, PSC etc. também lançarem
muitos candidatos não brancos. Logo, ao menos do ponto de vista das
candidaturas, não é possível dizer que a esquerda confere no agregado mais
espaço aos não brancos em suas listas. Além disto, chama a atenção a
sobrerrepresentação de não brancos nos partidos classificados aqui como de
centro. As listas de partidos como PMDB, PSDB, PPS e PV foram dominadas por
brancos, já que no Rio de Janeiro 74% dos candidatos lançados pelos quatro
foram classificados como brancos, e em São Paulo, 80%.
Tudo isto permite colocar em xeque a tese segundo a qual partidos de esquerda
tendem a ser mais abertos a não brancos do que a partidos de direita. Embora
legendas como PCdoB, PT, PDT etc. de fato lancem mais candidatos não brancos
que seus principais concorrentes, esta tendência parece ser contrabalançada
pelo fato de partidos de direita pequenos também o fazerem, o que confirma uma
tendência presente nas últimas eleições nacionais em 2014 (cf. Campos_e
Machado,_2015c).
Assim, é preciso investigar em que medida a distribuição dos candidatos de
acordo com a cor não obedece a outra importante clivagem partidária: o tamanho
das legendas. Esta variável parece importante na medida em que é de se esperar
que partidos com menor capital político (com menos recursos, menos candidatos
eleitos, mais jovens, menos votos etc.) tenham menos liberdade de escolha ou
capacidade de atração de candidatos. Por isto, à exceção de partidos com alto
rigor disciplinar e ideológico, é possível supor que partidos pequenos tendam a
estratégias de recrutamento mais próximas do catch all. Ao dividir os partidos
em grandes, médios e pequenos, é preciso levar em conta que a variável tamanho
é eminentemente política e tem a ver com os recursos capazes de serem
mobilizados pelo partido na luta política.
Considerando o número de filiados declarados por partido em 20127, a bancada
conquistada na Câmara dos Deputados Federais e a votação obtida nas eleições de
2012, os partidos foram divididos em três grupos: partidos grandes (PMDB, PT,
DEM e PSDB), partidos médios (PDT, PTB, PP, PR, PSB, PPS, PCdoB, PV, PRB e PSD)
e partidos pequenos (PRP, PMN, PSOL, PSL, PSC, PTC, PTdoB, PSDC, PHS, PTN,
PRTB, PCB, PPL, PSTU e PCO).
Conforme demonstrado no Gráfico_5, parece haver uma associação entre tamanho do
partido e presença de não brancos nas listas; tal associação é presente nos
dois municípios, porém mais forte no Rio de Janeiro. Como sugerido pela
hipótese discutida anteriormente, partidos grandes parecem menos abertos à
candidatura de não brancos, enquanto as legendas menores se comportam de modo
oposto. Uma hipótese explicativa para isto é que as listas dos partidos menores
tendem a refletir de modo mais próximo a oferta demográfica de lideranças
dispostas a se candidatar. Partidos maiores, por seu turno, têm de lidar com
uma distribuição predefinida de capital político, o que torna suas elites menos
abertas a grupos tradicionalmente marginalizados da política, como não brancos
e mulheres.
[/img/revistas/dados/v58n3//0011-5258-dados-58-3-0689-gf05.jpg]
Gráfico 5 Distribuição dos Grupos de Cor nas Candidaturas de acordo com o
Tamanho do Partido (Critério Nacional)
Pode-se objetar, no entanto, que a divisão entre partidos pequenos, médios e
grandes não faz jus às dinâmicas da política local. Um partido como o PV foi
considerado como “médio” na análise anterior, embora costume ser importante na
política carioca. De fato, nem sempre a importância local de um dado partido
reflete sua expressividade nacional. Para contornar essas críticas e
reconsiderar o vínculo entre tamanho do partido e a presença de não brancos em
suas listas, optou-se por utilizar como índice a votação média, recebida por
partido, nas últimas três eleições (2004, 2008 e 2012) em cada uma das capitais
consideradas pelo estudo. É importante considerar mais de uma eleição para se
ter uma ideia mais acurada da relevância de cada partido no tempo. No caso dos
partidos novos, que não existiam em alguma das eleições consideradas, levamos
em conta apenas os pleitos em que eles efetivamente participaram.
Para o Rio de Janeiro, consideramos como “partidos grandes” aqueles que
obtiveram mais de 5% dos votos totais em média nas três eleições; “partidos
médios” os que obtiveram entre 2% e 4,9%; e “partidos pequenos” todos os que
receberam em média menos do que 2% dos votos. Com esses critérios, os partidos
grandes englobam DEM, PMDB, PT, PSDB e PDT; os médios abrangem PSOL, PR, PSC,
PRB, PP, PV, PTdoB, PTB, PSB, PSDC, PCdoB, PPS e PSD; e os pequenos incluem
PRTB, PTC, PSL, PHS, PTN, PMN, PSTU, PRP, PCB, PPL e PCO. Em São Paulo,
incluímos no rol dos partidos grandes todos aqueles que receberam em média mais
de 4,5% dos votos nas eleições (PT, PSDB, PSD, DEM, PV, PTB e PMDB); o agregado
dos partidos médios abrange aqueles que obtiveram menos de 4,4% e mais 1% em
média (PR, PP, PPS, PRB, PSB, PDT, PCdoB, PSOL e PSC); e dentro do grupo de
partidos pequenos estão todos os que receberam em média menos de 1% dos votos
da cidade (PHS, PTN, PSL, PRP, PMN, PPL, PTdoB, PSDC, PSTU, PTC, PRTB, PCB e
PCO). O Gráfico_6 mostra a distribuição dos brancos e não brancos nesses
agregados que se basearam na votação média dos partidos em cada uma das
cidades.
[/img/revistas/dados/v58n3//0011-5258-dados-58-3-0689-gf06.jpg]
Gráfico 6 Distribuição dos Grupos de Cor nas Candidaturas de acordo com o
Tamanho do Partido
A comparação do Gráfico_6 com o Gráfico_5 evidencia que a mudança de critério
não refuta a hipótese anteriormente levantada, qual seja, a de que partidos
grandes dão menos espaço para candidatos não brancos. Esta tendência permanece
quase inalterada nos dois gráficos, sendo que a única exceção são os partidos
agora classificados como pequenos em São Paulo de acordo com o critério da
votação média nas últimas eleições.
CONCLUSÕES
De diferentes pontos de vista, a sub-representação dos pretos e pardos é um
traço injusto e antidemocrático da política brasileira. Contudo, é
particularmente difícil pensar em políticas que solucionem este problema se
ainda não há diagnósticos sobre os motivos que excluem os não brancos da
política. A bibliografia sobre a relação entre raça e eleições contribui pouco
para solucionar este dilema na medida em que foca na existência ou não de uma
orientação étnica nas votações, por um lado, e na sub-representação política
basicamente no âmbito federal, por outro.
O foco nas demandas dos eleitores também relegou a um segundo plano o problema
da oferta de candidaturas. Como algumas pesquisas sobre a ausência de mulheres
na política vêm apontando, a oferta de candidatas parece influenciar mais a
sub-representação feminina no Parlamento do que um viés sexista do eleitor,
embora este não possa ser totalmente desconsiderado (Miguel_e_Queiroz,_2006).
Tudo isto justifica investigações sobre a oferta de candidatos não brancos
pelos partidos brasileiros.
Por outro lado, os dados discutidos mostram que a sub-representação dos não
brancos não pode ser atribuída somente à carência de candidatos na oferta
agregada das listas partidárias. Corroborando os achados de Bueno_e_Dunning_
(2013) e de Campos_e_Machado_(2015c), o déficit de representação descritiva é
relativamente pequeno quando comparamos o total de não brancos lançados
candidatos em 2012 e o total de não brancos na população de cada um dos
municípios analisados. Todavia, ao observar a distribuição destas candidaturas
nos partidos, é possível notar desigualdades importantes que talvez expliquem
as menores chances eleitorais dos pretos e pardos.
Ao contrário do que grande parte da bibliografia especializada sugere, não
houve, em 2012, uma maior abertura dos partidos de esquerda a candidatos não
brancos do que os partidos de direita. Embora legendas como PT, PCdoB e PDT de
fato recrutem mais candidatos não brancos, o mesmo vale para partidos pequenos
de direita. Curiosamente, os partidos com uma proporção maior de brancos se
concentram no centro do espectro político. Ao que parece, o viés racial do
recrutamento de candidaturas não varia propriamente de acordo com a cor
ideológica do partido, mas, sim, com o seu tamanho e relevância política.
Partidos grandes e estabelecidos no campo político tendem a conferir menos
espaço para candidatos não brancos do que partidos pequenos. Excetuando-se
alguns casos, é possível supor que os partidos pequenos têm de recrutar suas
lideranças em estratos sociais mais baixos, o que aumenta a probabilidade de
que não brancos sejam recrutados8.
Não foi o objetivo aqui estabelecer quais fatores excluem os não brancos das
listas partidárias, nem determinar em que medida tal exclusão pode ser
atribuída às desigualdades de classe, educação formal, capital político etc.9
Mas, para além das restrições do foco deste artigo, é preciso destacar o modo
desigual como os não brancos se distribuem pelas legendas. Partidos com maior
chance de sucesso eleitoral nos municípios estudados, como PMDB e PSDB,
costumam ser justamente os que dão menos espaço a esse grupo em suas listas.
Isto sugere que uma diretriz que equalizasse a oferta de candidatos não brancos
em todos os partidos talvez já conseguisse efeitos benéficos importantes sem,
contudo, demandar uma polêmica e complexa modificação do nosso modelo de
escolha dos candidatos.
Lista de Siglas dos Partidos Políticos
DEM – Democratas
PCB – Partido Comunista Brasileiro
PCdoB – Partido Comunista do Brasil
PCO – Partido da Causa Operária
PDT – Partido Democrático Trabalhista
PHS – Partido Humanista da Solidariedade
PMDB – Partido do Movimento Democrático Brasileiro
PMN – Partido da Mobilização Nacional
PP – Partido Progressista
PPL – Partido Pátria Livre
PPS – Partido Popular Socialista
PR – Partido da República
PRB – Partido Republicano Brasileiro
PRP – Partido Republicano Progressista
PRTB – Partido Renovador Trabalhista Brasileiro
PSB – Partido Socialista Brasileiro
PSC – Partido Social Cristão
PSD – Partido Social Democrático
PSDB – Partido da Social Democracia Brasileira
PSDC – Partido Social Democrata Cristão
PSL – Partido Social Liberal
PSOL – Partido Socialismo e Liberdade
PSTU – Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado
PT – Partido dos Trabalhadores
PTB – Partido Trabalhista Brasileiro
PTC – Partido Trabalhista Cristão
PTdoB – Partido Trabalhista do Brasil
PTN – Partido Trabalhista Nacional
PV – Partido Verde